"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A Jurisdição Especial para a Paz é um acordo firme





"não se pode, por qualquer motivo aceitar a interpretação unilateral do alcançado no acordo, porque serão os futuros magistrados os que ao asumir sua missão na nova Jurisdição Especial para a Paz, terão a competência para aplicar seus alcances".

Havana, Cuba, sede dos Diálogos de Paz, 28 de setembro de 2015

Depois de ouvir com calma e cuidadosamente os pronunciamentos dos senhores Humberto de la Calle e Sérgio Jaramillo, membros da equipe negociador do governo em La Habana, sobre o ponto fechado Jurisdição Especial para a Paz, comunicamos de forma cabal e assertiva o seguinte:

1. O acordo chamado Jurisdição Especial para a Paz, Princípios básicos do componente de justiça do Sistema integral de verdade, Jjustiça, Reparação e Não-repetição, está fechado. Não é certo que com relação ao seu contenido substantivo e procediemental haja temas que requeiram precisão adicional ou em desenvolvimento que implique aclarar o que não necessite esclarecimento algum, porque o escrito e recolhido no texto é totalmente transparente, igual que gramatilcamente aceitável, o suficiente em tanto ao objectivo buscado e transparente em suas várias expressões.

2. Não é aceitável por qualquer razão, a interpretação unilateral do alcançado no acordo, porque serão os futuros magistrados quem ao assumirem sua missão na nova Jurisdição Especial para a Paz terão a competência para aplicar seus alcances.

3. O documento sobre Jurisdição Especial para a Paz é um acordo firme, portanto, não pode ser alterado em qualquer dos seus pontos. Pôr em dúvida o seu conteúdo é questionar a data acordada para acabar com o conflito.

4. No dia 23 deste mês realizou-se em Havana um ato sem precedentes: O Chefe de Estado da República da Colômbia, o Chefe de Estado da República de Cuba, e o Comandante do Estado Maior Central das FARC EP, solenemente se reuniram para dar a boa notícia de que a paz sim é possível. Neste contexto, com a assinatura dos Chefes de Delegação se protocoliçou o acordo alcançado. Cópias dele foram dadas aos países garantes.

5. O acordo foi aplaudido pelo Papa Francisco, o Secretário-Geral das Nações Unidas, a União Europeia, o Departamento de Estado dos Estados Unidos e por distintos governos do mundo. O próprio presidente Santos informou ao país que o ex-Procurador da Corte Penal Internacional, Luis Moreno Ocampo, o tinha denominado como "uma obra de arte." E resulta que agora é anunciado que esclarecimentos adicionais ainda são necessários.

6. No acordo não se fala de concentração de tropas das FARC-EP nem de locais de confinamento para aqueles que fornecem verdade completa e exaustiva.

Para nós, que integramos as FARC-EP, o que aconteceu na quarta-feira passada não foi encenado para impressionar a galeria. Tratou-se de uma entrega solene de um documento que compromete as partes. Este acto levou à manifestação do compromisso da palavra de mulheres e homens em rebelião, alçados em armas por mais de sessenta anos, que anseiam a paz. Que ninguém chegue a estas horas da história da reconciliação pátria a enlodar com caprichos infelizes o caminho restante para completar um processo que só deve ser revestido de glória. Devemos honrar a palavra, temos de honrar os compromissos.


Delegação da paz das FARC-EP

O bloqueio a Cuba deve cessar.




No passado dia 17 de Dezembro de 2014, com o anúncio paralelo dos presidentes de Cuba e EUA da decisão de restabelecer relações diplomáticas, foi dado um primeiro passo no longo e complexo processo no sentido da normalização das relações entre os dois países. Barack Obama tornou pública a sua intenção de adoptar medidas visando modificar a aplicação de alguns aspectos do bloqueio, e de solicitar ao Congresso dos EUA o seu levantamento. Não obstante, esta política genocida continua intacta.
O Ministro das Relações Exteriores de Cuba Bruno Rodríguez Parrilla deu a conhecer na sua intervenção de 16 de Setembro de 2015 que, embora seja certo que entraram em vigor algumas emendas às regulamentações dos Departamentos do Tesouro e Comercio, estas resultam absolutamente insuficientes, não só tendo em conta a magnitude e o alcance das proibições e sanções que o bloqueio estabelece, como também em comparação com tudo o que poderia ser alcançado se o Presidente Obama fizesse uso das competências executivas que possui.
É necessário denunciar que depois de 17 de Dezembro de 2014 se manteve o recrudescimento do bloqueio, algo que fica à vista na imposição de multas milionárias contra bancos e outras entidades com base na perseguição das transacções financeiras internacionais cubanas. Cuba continua impedida de exportar e importar livremente produtos e serviços para ou desde os EUA, não pode utilizar o dólar estado-unidense na sua actividade comercial nem ter contas nessa moeda em bancos de países terceiros. Não lhe é igualmente permitido o acesso a créditos bancários nos EUA, das suas filiais em países terceiros e das instituições financeiras internacionais. Estas medidas, juntamente com outras em vigor, continuam a causar graves prejuízos à economia cubana, limitam o direito do nosso país ao desenvolvimento e causam privações directas que influem na saúde e no nível de vida da população.
Cuba apresentará perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, tal como tem feito ano após ano, a Resolução “Necessidade de pôr fim ao bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”. Uma vez mais a comunidade internacional se pronunciará acerca desta política cruel e imoral. No relatório divulgado é feita uma análise da legislação do Congresso e das disposições administrativas que estabelecem a política do bloqueio; das medidas executivas adoptadas pelo presidente Barack Obama e as suas limitações; das prerrogativas executivas às quais o Presidente poderia recorrer para modificar e esvaziar de conteúdo a implementação desta política e que aspectos requerem acção congressional para a sua eliminação ou modificação; exemplos concretos das sanções aplicadas posteriormente a 17 de Dezembro de 2014 e o custo dos danos produzidos; uma extensa análise da sua aplicação extraterritorial; bem como da rejeição da política de bloqueio tanto dentro dos EUA como no resto do mundo.
Consideramos que neste novo cenário em que ambos os países se propõem dialogar a fim de normalizar as suas relações é inconcebível a manutenção desta política violadora dos princípios do Direito Internacional, que em 23 ocasiões foi condenada pela maioria absoluta dos países membros das Nações Unidas. Instamos o Presidente dos EUA a ser consequente com as suas declarações e fazer uso das suas amplas prerrogativas executivas para começar, verdadeiramente, uma nova etapa nas relações entre os nossos dois países.
O bloqueio contra Cuba jamais deveria ter existido e deve cessar de uma vez por todas. A solidariedade não pode desmobilizar-se. Devemos continuar a luta contra o cerco que durante mais de cinco décadas tem asfixiado o povo cubano.
Convocamos todas as nossas companheiras e companheiros no mundo a pronunciar-se aderindo a esta mensagem e a redobrar a luta contra o bloqueio em todas as suas manifestações.
¡Hasta la victória siempre!
Rede Em Defesa da Humanidade-Cuba
http://www.defensahumanidad.cu/index.php/en-defensa-de/soberania-y-la-legalidad-internacional/731-pronunciamiento-de-la-red-en-defensa-de-la-humanidad-cuba-el-bloqueo-a-cuba-debe-cesar

21 de Setembro de 2015
Email para adesões: noalbloqueoacuba@gmail.com
 


terça-feira, 29 de setembro de 2015

O PCB saúda acordo parcial entre as FARC-EP e o governo colombiano



 

O PCB saúda a celebração, nesta semana, de importante acordo parcial entre as FARC-EP e o governo colombiano, a propósito de um dos mais complexos temas dos diálogos de Havana, com a criação de uma jurisdição especial para a paz e o compromisso, por parte do Estado, da outorga de “anistia mais ampla possível por crimes políticos e conexos” a todos os envolvidos no conflito. O acordo ratifica acordos anteriores e certamente gerará ambiente propício para avançar em consensos sobre outros itens da agenda.

O documento prevê que, uma vez celebrado e instituído o acordo final, as FARC poderão se organizar em movimento político legal, deixando de usar as armas, após 60 dias de sua assinatura.

Esse acordo parcial só foi possível em razão das mobilizaçóes do movimento popular e das forças progressistas da sociedade colombiana, da solidariedade internacional, do governo e do povo cubanos, anfitriões dos diálogos para a solução do conflito, e dos demais países garantidores e acompanhantes do processo, entre os quais se destaca a Venezuela. As iniciativas do presidente Hugo Chávez, nos anos 1990, estimulando as trocas de prisioneiros e o intercâmbio epistolar público com a insurgência, foram decisivas para  suscitar os primeiros sinais de diálogo entre as partes.

O PCB não pode deixar de registrar que presta solidariedade às forças populares colombianas, inclusive às FARC, desde muito antes do início dos diálogos de paz (em 2012), porque sempre considerou as guerrilhas colombianas como organizações políticas insurgentes, nos termos do consagrado direito dos povos à rebelião, e que a luta pela paz com justiça social na Colômbia tem um conteúdo anti-imperialista, dado que esse país transformou-se na principal plataforma militar dos Estados Unidos no continente latino-americano.

O regozijo com a celebração desse acordo parcial não deve, entretanto, desmobilizar a solidariedade internacional nem baixar a guarda da resistência colombiana, em todas as suas expressões. O histórico da burguesia local e do imperialismo a que ela serve não é de pacifismo, nem de respeitar acordos, como foi o caso do extermínio de milhares de militantes da União Patriótica, nos anos 1980, exatamente após um acordo com o Estado para desmobilização da guerrilha e sua transformação num movimento político desarmado.

O interesse do setor hegemônico da sociedade colombiana por uma solução política para o conflito se deve ao insucesso de sua enorme ofensiva para derrotar militarmente a guerrilha, com o chamado Plano Colômbia, na primeira década deste século, e à necessidade do capitalismo se desenvolver no país num ambiente capaz de atrair investimentos estrangeiros para a exploração de suas imensas riquezas minerais, muitas delas localizadas em território ocupado pelas guerrilhas.

Estamos convencidos de que o povo colombiano valorizará essa possibilidade de continuar lutando pelos seus direitos e por uma sociedade justa e solidária num ambiente em que não caibam mais as prisões arbitrárias, os assassinatos políticos de lideranças populares, os deslocamentos, as atrocidades dos bandos paramilitares.

Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Comissão Política Nacional


Acordo sobre a Jurisdição Especial para a Paz da Colômbia


Em reunião celebrada em Havana, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder das FARC, Rodrigo Londoño Echeverri, aliás Timoleón Jiménez ou ‘Timochenko’, alcançaram um acordo sobre a Jurisdição Especial para a Paz, que se considera um ponto-chave nas negociações de paz. Publicamos o importante documento saído da reunião.


Havana, Cuba, 23 de Setembro de 2015
 

1. O Governo da República de Colômbia e as FARC-EP reafirmam o eu compromisso com os acordos alcançados até *a data: “Para um Novo Campo Colombiano: Reforma Rural Integral”, “Participação política: Abertura democrática para construir a paz” e “Solução para o Problema das Drogas Ilícitas”.
2. Ao mesmo tempo, reafirmam o seu compromisso com uma fórmula de justiça que satisfaça os direitos das vítimas e contribua para a construção de uma paz estável e duradoura. Com esse propósito estamos a construir um Sistema Integral de Verdade, Justiça, Reparação e Não Repetição. Nesse quadro acordámos que se criará uma Comissão para o Esclarecimento da Verdade, a Convivência e a Não Repetição conseguimos acordos importantes em matéria de reparação das vítimas.
3. Quanto à componente de justiça, acordámos criar uma Jurisdição Especial para a Paz, que contará com Salas de Justiça e com um Tribunal para a Paz. As Salas e o Tribunal serão integrados principalmente por magistrados colombianos, e contarão com uma participação minoritária de estrangeiros que correspondam aos mais altos requisitos. A função essencial das Salas e do Tribunal para la Paz é acabar com a impunidade, obter verdade, contribuir para a reparação das vítimas e julgar e impor sanções aos responsáveis pelos graves delitos cometidos durante o conflito armado, particularmente os mais graves e representativos, garantindo a não repetição.
4. A componente de justiça prevê que com a cessação das hostilidades, de acordo com o DIH, o Estado colombiano outorgará a mais ampla possível amnistia por delitos políticos e conexos. Uma lei de amnistia precisará o alcance da conexidade. Em qualquer caso não serão objecto de amnistia ou indulto as condutas tipificadas na legislação nacional que correspondam aos delitos de lesa-humanidade, genocídio e os graves crimes de guerra, entre outros delitos graves como a tomada de reféns ou outra privação grave da liberdade, a tortura, o deslocamento forçado, a desaparição forçada, as execuções extrajudiciais e a violência sexual. Estes delitos serão objecto de investigação e julgamento por parte da Jurisdição Especial para a Paz.
5. A Jurisdição Especial para a Paz terá competência relativamente a todos os que de forma directa ou indirecta tenham participado no conflito armado interno, incluindo as FARC-EP e os agentes do Estado, pelos delitos cometidos no contexto e em razão do conflito, em especial no que respeita aos casos mais graves e representativos.
6. A Jurisdição Especial para a Paz contempla dois tipos de procedimentos: um para os que reconheçam verdade e responsabilidade, e outro para os que não o façam ou o façam tardiamente. Aos primeiros será imposta uma sentença, fundada nas condutas reconhecidas depois de terem sido debatidas as investigações da Procuradoria-Geral da Nação, as sanções impostas por outros órgãos do Estado, as sentenças judiciais existentes, bem como a informação que as organizações de vítimas e de direitos humanos disponibilizem. Os segundos serão levados a um juízo contraditório ante o Tribunal.
7. As sanções que o Tribunal imponha terão como finalidade essencial satisfazer os direitos das vítimas e consolidar a paz e deverão ter a máxima função restaurativa e reparadora do dano causado. Para todos aqueles que reconheçam responsabilidades pelos delitos que são da competência do Sistema, a sanção terá uma componente de restrição de liberdades e direitos que garanta o cumprimento das funções reparadoras e restauradoras das mesmas mediante a realização de trabalhos, obras e actividades e em geral a satisfação dos direitos das vítimas. As sanções para aqueles que reconheçam delitos muito graves terão um mínimo de duração de cumprimento de 5 anos e um máximo de 8 de restrição efectiva da liberdade, em condições especiais. As pessoas que façam o referido reconhecimento de forma tardia ante o Tribunal serão sancionadas com pena de prisão de 5 a 8 anos, em condições ordinárias. Para ter direito à pena alternativa, será requerido que o beneficiário se comprometa a contribuir com a sua ressocialização através do trabalho, capacitação ou estudo durante o tempo que permaneça privado de liberdade. As pessoas que se neguem a reconhecer a sua responsabilidade por tais delitos e sejam reconhecidos como culpados serão condenadas a pena de prisão até 20 anos, em condições ordinárias.
8. Para aceder a qualquer tratamento especial dentro da Jurisdição Especial para a Paz é necessário contribuir com verdade plena, reparar as vítimas e garantir a não repetição.
9. No caso das FARC-EP, a participação no sistema integral estará sujeita à deposição das armas, que deverá ter início o mais tardar aos 60 dias após a assinatura do Acordo Final.
10. A transformação das FARC-EP num movimento político legal é um objectivo compartilhado, que contará com todo o apoio do Governo nos termos que venham a ser acordados.



segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"Os EUA financiam a imigração maciça para a Europa"


por Pierre-Alain Depauw
A acusação já fora feita anteriormente por Vladimir Putin :   os Estados Unidos têm uma responsabilidade directa no actual fenómeno migratório para a Europa.

Desta vez, é um membro dos serviços de informações austríacos a afirmar à revista
Direkt que organizações americanas pagam passadores para que transportem diariamente milhares de imigrados para a Europa!

Sem revelar a identidade deste agente, a revista
Direkt ouviu um membro dos österreichischen Abwerhamts, os serviços de informações militares austríacos, o qual explica que os passadores pedem em média 7 a 14 mil euros para fazer com que imigrados viagem ilegalmente para a Europa.

O agente insiste num assunto tabu: o papel dos Estados Unidos cuja geoestratégia consistiria em inundar a Europa sob a maré migratória.

"Dispomos de indicações a demonstrarem que organizações dos Estados Unidos criaram um sistema de co-financiamento e contribuem de modo substancial para pagar os custos da viagem. A maior parte dos candidatos refugiados pagaria 11 mil euros em dinheiro sonante. Ninguém se pergunta de onde vem o dinheiro?"

Na conclusão da sua entrevista à revista
Direkt o agente acrescenta que reina um silenciamento completo a este respeito, que se faz todo o possível para que a opinião pública nada saiba acerca do assunto.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 27 de setembro de 2015

Unasul e Celac ratificam seu compromisso com o processo de paz que o Governo da Colômbia e as FARC-EP promovem.


A União de Nações Sul-americanas [Unasul] e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos [CELAC] saudaram nesta quinta-feira o acordo sobre Jurisdição Especial de Paz firmado pelo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo [FARC-EP].
O bloco regional assegurou, através de um comunicado, que continuará apoiando o processo de paz que o Governo da Colômbia e as FARC-EP promovem em Havana.
Através da conta em Twitter @unasur, o bloco regional manifestou sua alegria pelo acordo sobre Jurisdição Especial de Paz alcançado como parte do processo de paz que o Governo da Colômbia e as FARC-EP promovem desde 2012 na maior das Antilhas.
Por sua parte, o secretário-geral da Unasul e ex-presidente colombiano Ernesto Samper divulgou, através de sua conta em Twitter @ernestosamperp, que ainda está pendente alcançar um acordo de paz com o Exército de Libertação Nacional [ELN], da Colômbia.
Em várias oportunidades o ELN afirmou que um pacto de paz com o Presidente Santos deve se basear em fatos reais e não em suposições que buscam ocultar as falhas do conflito no país sul-americano.
Estamos dispostos a trabalhar com a intensidade e dedicação que seja requerida, sempre e quando seja baseada em fatos reais”, afirmou numa oportunidade o chefe militar do ELN, Antonio García.
As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo [FARC-EP] e o Governo colombiano firmaram na quarta-feira um acordo sobre Jurisdição Especial de Paz e vítimas em Havana [capital cubana] no marco dos diálogos de paz.
Além disso, anunciaram que em 23 de março de 2016 firmarão o acordo definitivo de paz e 60 dias depois as FARC-EP deixarão as armas.


Fonte: telesur

Tradução: Joaquim Lisboa Neto



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Não é realismo mágico. Governo da Colômbia e as Farc assinam acordo histórico

 

A paz não é apenas um diálogo. Paz não é apenas uma vontade. A paz não é apenas um pomba branca carregada nas lapelas dos paletós. Agora, a paz surge desde Cuba para nosso continente. Hoje, 23 de setembro de 2015, em La Habana, Cuba, depois de 60 anos de guerra civil, mais de 6 milhões de refugiados, mais de um milhão de mortos, mais de 250 mil desaparecidos, genocídios, estupros coletivos, a Colômbia pode anunciar um acordo sobre Jurisdição Especial para a Paz, passo anterior à assinatura definitiva do acordo de paz entre o bicentenário governo conservador e as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia/Exercito do Povo - Farcs/EP, que deverá ser realizado em até 6 meses.

A América Latina nunca teve uma real dimensão do conflito armado que estraçalhou a vida fora dos grandes centros urbanos colombianos. A guerra nasceu a partir do roubo de terras às famílias pobres, bem ao estilo grileiro do Brasil, quando grupos armados de fazendeiros massacravam vilas inteiras. Pouco a pouco as comunidades que moravam nas áreas rurais do país começaram a se armar para se defender dos ataques. E foi assim que nasceram as Farc/EP. E foi assim que enfim nasceu uma guerra, afinal, havia dois lados. Antes não era nada, pois quem morria eram os invisíveis.

O realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez nasce a partir dessa lógica ultraviolenta colombiana, que se mistura com a alegre e rica cultura de uma terra que tem um mundo inteiro dentro de suas fronteiras. E, no final do dia, por mais triste que fosse, o colombiano sempre terá um sorriso de esperança para te oferecer.

Estados Unidos, Álvaro Uribe, Caprilles, Bolsonaro, Calderón, Pastrana, os gusanos e toda a doentia direita continental não querem a paz. Celac, Unasur, Cuba, Venezuela e o Presidente Juan Manuel Santos se juntaram para viabilizar um processo tão transcendental para o continente, que podemos afirmar que a América Latina a partir desta data, consolida o caminho em direção à sua segunda e definitiva independência. Principalmente por demonstrar ao mundo que é possível a convivência entre os diferentes.

O Presidente Santos é de uma das mais tradicionais, conservadoras e oligarcas famílias colombianas. Ele foi ministro de defesa do presidente que tem em suas mãos os mais atrozes crimes de guerra que um chefe de estado poderia ter. O Presidente Santos representa um modelo de governo que acentua a injustiça e a pobreza colombiana. Porém, à essa altura do campeonato não importa mais o motivo que o fez escolher pelo diálogo para alcançar a paz. Este acordo o transforma num dos mais importantes estadistas da história americana.

Há algumas décadas, as Farc/EP começaram a se distanciar das suas lutas pela reforma agrária e a participação da ruralidade nos processos que definiam o futuro do país. Assassinatos, sequestros e violência de gênero, principalmente contra o próprio povo pobre, já eram sintomas de que a legitimidade de usar a força para se defender e mudar o mundo eram uma realidade mais do que distante.

Agora se inicia um longo, tortuoso e muito mais difícil processo do que foram as negociações. As instituições pseudo-democráticas do sistema judiciário colombiano, devem ser vencidas para criar marco jurídico que viabilize a aplicação do acordo. Publicamente, ministros das mais altas cortes e o fascista procurador Alejandro Ordoñez já disseram que vão tentar a todo custo impedir a aplicação do acordo. A ultradireita do ex-Presidente Uribe trabalhará noite e dia para que a Colômbia não tenha paz. Não apenas por eles discordarem dos termos da paz, mas também pelo dinheiro que deixarão de ganhar com o miséria da guerra. Assim como os EUA, alguns membros ilustres da elite latino-americana aprenderam a lucrar com a violência.

Esperamos que essa lógica de massacrar o oponente não se repita, assim como foi com o histórico partido colombiano de esquerda “Unidad Patriótica”, que teve os seus 3 mil filiados assassinados em apenas dois anos. Quando o partido desapareceu, mais uma vez se enterrava a possibilidade da esquerda disputar democraticamente o poder. Como não justificar o uso das armas? A Colômbia nunca teve uma ditadura, mas os seus governos democráticos eleitos mataram mais do que todas as ditaduras sul-americanas juntas.

É necessário dar ao povo algo que nunca teve: a opção de escolher o caminho que ele quiser. Esquerda ou direita, não importa. O caminho deve ser o voto, não mais o fuzil.

Felicitações ao presidente Santos, às Farc/EP e, principalmente, ao povo humilde colombiano.

Viva a América Latina, viva a Pátria Grande de Bolívar.

Fonte: Carta Maior

O Papa que dá à crise o seu nome


Uma das características que impressionam no Papa, pelo ineditismo em relação à norma dominante, é a sensação de que ele está sempre chegando.

Francisco é o dado novo na mesa rasa, previsível, da policrise do nosso tempo, ao mesmo tempo uma crise do capitalismo e da civilização, cujo vórtice ambiental ameaça a própria sobrevivência da humanidade.

É disso que ele trata em sua primeira encíclica ‘Laudato si’.

E o faz de forma desabrida, como nas suas primeiras declarações ao chegar em Cuba, neste sábado (leia a cobertura de Carta Maior nesta pág; direto de Havana).

Poucos minutos depois de seu desembarque, como o terceiro papa a pisar em solo cubano, mas o primeiro a abraçar a luta pelo fim do embargo norte-americano, disparou: ‘O mundo vive uma terceira guerra mundial por etapas. Precisamos de conciliação’.

A conciliação que ele tem pleiteado é aquela baseada na maior igualdade, na menor obsessão consumista, no fim do fetiche do dinheiro, no resgate dos excluídos, na repartição da riqueza, na reconciliação entre as formas de viver e de produzir e a natureza.

O nome da crise é capitalismo turbinado, diz o idioma religioso de Francisco.

Em outubro de 2014, ele promoveu um Encontro Mundial de Movimentos Populares nas dependências do Vaticano.

O desassombro não ficou na forma.

Ao falar aos participantes, entre eles o líder do MST, João Pedro Stédile, que saiu convencido de que o Papa estava à esquerda dos presentes, resumiu o que entende por conciliação e reconciliação: ‘Nenhuma família sem teto; nenhum agricultor sem terra; nenhum ser humano sem pão’.

Mas foi além.

Como se fora uma espécie de Polanyi de batina, criticou o comércio dos recursos essenciais: o solo e a água, por exemplo,

O filósofo e economista húngaro Karl Polanyi (1886/1964) autor de ‘A grande transformação’, advertiu pioneiramente para esse risco.

Elementos essenciais ao equilíbrio da vida e à construção do bem comum, como o trabalho, a terra --e também o dinheiro, disse Polanyi, filho de húngaros, nascido em Viena, não deveriam ser submetidos a um liberalismo subordinado à cobiça do interesse privado.

As evidências do nosso tempo mostram que ele tinha razão.

Nesse mundo onde tudo o que é rentável deve ser desregulado, para a livre mastigação dos mercados, os recursos que formam as bases da vida na terra, e o ‘recurso’ humano, encontram-se ameaçados pela inconciliável relação entre o capitalismo, a temperança e o equilíbrio ambiental.

Há dois anos e meio do seu Papado, iniciado em março de 2013, Francisco parece que acabou de entrar na sala.

É a visita que a qualquer momento pode trazer novidades.

Não é truque, nem miragem.

Ao contrário daquilo que se ouve da maioria dos líderes convencionais, seu discurso escapa à circularidade dos interesses e reiterações paralisantes.

A renovação que expressa ganha interesse ecumênico, para além das fronteiras dos vaticanistas, na medida em que envolveu uma superação dos limites e ambiguidades do próprio Cardeal Jorge Mario Bergoglio.

Longe de ser retórica, reflete a circunstância histórica de quem soube captar toda a extensão da suas responsabilidades e a emergência dos dias que correm.

Um ciclo está se fechando na sociedade capitalista como a conhecemos no século XXI.

A supremacia insaciável da lógica financeira perdeu a capacidade de girar a roda da história na direção das necessidades objetivas e psicológicas da humanidade.

O dinheiro celibatário, que se reproduz à margem da produção e do bem comum, coroou esse esgotamento em uma crise capitalista de superprodução de capital fictício.

O impasse coloca uma disjuntiva extremada: ou uma desvalorização épica da riqueza financeira predadora, ou a imposição, ao seu redor, de uma desigualdade exacerbada, vendida como  o novo normal da humanidade.

Diante do dilúvio, Bento VI,  seu antecessor, resignou-se ao encolhimento da fronteira cristã, atrás de um muro alto de expurgo e purificação doutrinária.

Renunciou.

Francisco entendeu a dimensão terminal da encruzilhada entre a entropia da finança desregulada e a ‘salvação’ que não prescinde do chão firme na terra.

Foi à luta. Que é ao mesmo tempo, por igualdade e libertação do garrote ideológico.

Por isso dá às coisas protegidas pela dissimulação midiática e plutocrática o seu nome.

O problema não é apenas que instituições internacionais,  partidos e lideranças passaram a incorporar políticas inadequadas, como a desregulamentação  indiscriminada e a abertura das contas de capitais a qualquer custo em vidas humanas e dilapidação ambiental.

O problema principal é a falta de capacidade política par refletir sobre o colapso correspondente fora da ‘caixinha’, isto é, fora do consenso conservador ancorado em arrocho e desemprego ante qualquer ameaça à remuneração do capital a juro.

Em 2011, em plena curva ascendente da crise, o Escritório de Avaliação Independente (IEO, na sigla e inglês) analisou 6.500 trabalhos escritos produzidos ou contratados pelo FMI nos últimos dez anos, portanto na chocadeira da crise mundial.

Praticamente todos afiançavam as boas condições do comboio capitalista que rumava em alta velocidade para espatifar a ordem neoliberal.

Pior: 62% dos economistas do Fundo afirmaram que se sentiam pressionados a alinhar as conclusões de suas pesquisas econômicas ao pensamento dominante no órgão.

Dados de então mostravam que 60% dos cargos de chefia no FMI eram ocupados por profissionais de países anglo-saxões. Nada menos que 63% dos economistas haviam obtido seu doutorado em universidades americanas.

Não por acaso, representantes das economias em desenvolvimento consideravam que esses trabalhos e seus autores apenas reiteram um conjunto prevalecente de ideias e receitas, sem espaço para visões alternativas.

A indiferenciação entre direita e a esquerda no manejo da crise é parte constitutiva da encruzilhada atual.

Por isso Francisco estremece o chão como um touro selvagem quando dá às coisas o seu nome. Por isso também políticos e governantes lhanos afundam na areia movediça quando recitam a bula do veneno para tratar dos seus efeitos.

O que chamamos de crise, hoje, é a fotografia de corpo inteiro da longa captura da esquerda mundial, e sobretudo da social-democracia europeia, pelo cânone neoliberal.

Como isso se transforma no interdito político que faz do pensamento livre do Papa Francisco uma usina  transgressora carregada de frescor?

O economista Robert Kuttner explica assim a asfixia do esclarecimento e da razão diante de uma crise que empurra a humanidade para o impasse: ‘É uma questão do poder. Os proprietários da riqueza financeira se tornaram cada vez mais poderosos politicamente; os movimentos que lhes são contrários se tornaram drasticamente enfraquecidos".

A trinca aberta entre a base da sociedade e aqueles que deveriam vocalizar o conflito, mas, sobretudo, a negligência deliberada com a organização dessa bases, redundou no paradoxo de uma crise sistêmica do capitalismo que não gera forças de ruptura capaz de supera-la.

O fosso é proporcional à virulência do que se busca despejar nos ombros da sociedade.

Ou não é essa transferência leonina que se assiste hoje no Brasil, mas também na Grécia, Espanha, Itália, Portugal, França etc etc

O déficit de democracia emerge, assim, como o mais importante desequilíbrio revelado pela crise, em contraposição à hegemonia capilar, estrutural, midiática e institucional acumulada pelo capital financeiro.

É nesse ambiente de ar quase irrespirável que ganha singularidade faiscante a figura de um Papa que não desvia o olhar diante do que vê e manifesta a sua repulsa diante do espetáculo.

Apenas um governo parece ter assumido coerência equivalente.

Ao devolver ao poder plebiscitário da sociedade a decisão quanto ao passo seguinte da crise que levara a Islândia à bancarrota, em 2009, seu presidente, Ólafur Grímsson, declarou, à moda Francisco: ‘Somos uma democracia, não um sistema financeiro’.

Ser uma democracia, não um anexo do sistema financeiro é o que pode ainda devolver aos cidadãos a responsabilidade compartilhada pelas escolhas do seu destino e o comando do desenvolvimento em nosso tempo.

A blindagem ideológica do neoliberalismo –e o evidente esgotamento do seu arranjo-- ainda não foram suficientes para  alterar a condução da crise justamente pela tímida delegação das decisões ao povo e a falta de uma contrapartida de coordenação internacional desse enfrentamento.

O que se assiste por enquanto é a degradante marcha em sentido contrário.

O fatalismo construído ao longo de décadas de recuos, e o correspondente desarmamento organizativo que se seguiu, explicam a sobrevida de uma  hegemonia cuja base objetiva esfarelou.

O esgotamento da margem de manobra na economia não dispõe de um contrapeso à altura no ambiente político.

O desenlace permanece em aberto em todo o mundo, a evidenciar uma mudança de época que não encontrou ainda o protagonista capaz de virar a página do calendário.

O Brasil faz parte desse salto parado no ar.

E é pelo menos arriscado apostar que o terceiro turno em curso, marcado pelo passo de ganso golpista, cederá a uma negociação branda entre concessão e indulgência.

A busca do impossível – arrochar para crescer, a contração expansionista—  faz água em todas as latitudes.

Oximoros -- contradições em seus próprios termos--  refletem o esgotamento de uma agenda, que só tem a oferecer a estabilidade inspirada na paz dos cemitérios.

Nesse novo  normal –para sempre ou por um prazo sem fim--  nada se move, exceto as curvas da desigualdade, o empoçamento  do capital fictício e a incerteza diuturna sobre tudo em todos os lugares.

Mais que isso.

Um conjunto bíblico de sobras  humanas passa a ser expelido pelo sistema cujo êxito gera a própria danação.

Trata-se de uma entropia estrutural à engrenagem capitalista, cada vez mais clara na crise iniciada em 2008.

A eficiência acumulativa deprecia o valor adicionado ao promover o descarte do componente humano que impulsiona a riqueza e gera a sua própria obsolescência, ao mesmo tempo e com igual intensidade.

Sobra o ponto de fuga do capital fictício que se empanturra de bolhas à margem da produção e às expensas das dívidas públicas e dos direitos sociais, decepados para deslocar recursos ao rentismo.

Não há escolha fácil nesse ambiente difícil, assoalhado de chão mole por todos os lados.

Mas a história não é fatalidade.

O que importa perguntar aqui é o que teria sido do Papa se mantivesse em Roma a ambiguidade do seu cardinalato na Argentina?

Certamente seria uma figura de baixo relevo na desordem mundial; um pequeno conservador na cena de um mundo extremado, que busca de uma nova identidade para o desenvolvimento, a vida e a espiritualidade.

Seriam, enfim, tudo o que o cristão que agora reza missa em Cuba de olho no fim do embargo americano, decidiu não ser e não é.

A mutação processada na travessia de Bergoglio para Francisco oferece uma lição da inexcedível pertinência à encruzilhada brasileira nos dias que correm.

Só a determinação política de superar as amarras das circunstâncias pode alterar a circularidade de um processo em que a rendição da vítima é o lubrificante dopoder opressor.

O espaço estreito e perigoso das escolhas na história é a variável autônoma que restou nesse redil paralisante.

Parece pouco?

Francisco, o Papa que parece que acabou de chegar, mostra o quanto existe de potência nessa condição.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

INTERVENÇÃO DO COMANDANTE-CHEFE DAS FARC-EP, TIMOLEÓN JIMÉNEZ, NA RODA DE IMPRENSA EM LA HABANA




La Habana, Cuba, sede dos Diálogos de Paz, 23 de setembro de 2015

Compatriotas e amigos da paz de Colômbia:
Lhes trazemos hoje, ademais de nosso abraço fraterno, um informe de vitória coletiva: conseguimos, com a inestimável ajuda da subcomissão jurídica, retirar muitos dos obstáculos que tornavam mais difícil o caminho de nossa reconciliação. Temos uma Jurisdição Especial para a paz que, além de garantir o respeito aos direitos das vítimas, será fator dinamizador da firma de novos acordos neste ramal fundamental para alcançar a terminação do conflito.



O atual processo de Paz é o único no mundo que acordou um Sistema Integral que reúne e relaciona todos os elementos que o Direito Internacional assinala como direitos inalienáveis das vítimas: os da Verdade, da Justiça, da Reparação e da Não Repetição.



Aspiramos a que nada detenha agora a torrente de um povo que exige paz e deseja fundir-se perpetuamente num abraço de reconciliação; um povo que quer apalpar com suas próprias mãos as benevolências desconhecidas da justiça social, e sentir com o advento da democracia verdadeira que a exclusão e a desigualdade começam a se converter num nebuloso presente que se distancia.



Com a criação desta Jurisdição Especial para a Paz, tornamos realidade o reiterado na Mesa de conversações enquanto que as vítimas do conflito estão no centro do acordo; a jurisdição da qual informamos examinará os fatos ocorridos durante o conflito armado, estabelecerá responsabilidades e procederá a sancionar aos que incorreram em graves infrações contra os direitos humanos, infrações ao DIH e crimes de lesa-humanidade.



Buscamos que, com a criação desta Jurisdição Especial para a paz, se satisfaçam no campo da justiça as aspirações do povo colombiano, das vítimas, dos defensores de DDHH e da comunidade internacional. As partes nas conversações procuraram conjugar o direito à paz como direito síntese de todos os direitos humanos –civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais-, com a luta contra a impunidade que carcome a Colômbia desde há décadas e que permitiu que as agressões contra o povo não sejam nunca devidamente castigadas, sendo isso outro impedimento para a paz.



O Sistema está elaborado para que todas as partes envolvidas no conflito –combatentes e não combatentes- tenham oportunidade de oferecer Verdade exaustiva, detalhada e plena, o que pode permitir-lhes ter acesso a medidas sancionadoras de caráter restaurativo, de reparação para as vítimas. E as sanções serão alternativas para aqueles que unicamente ofereçam uma parte da verdade, e retributivas para os que, negando-se a oferecer verdade, sejam condenados em julgamento. Num e noutro caso, para os responsáveis as penas podem alcançar até 20 anos de cárcere; quer dizer, 12 anos mais de prisão que o estabelecido na última lei de justiça transicional, a 975 de 2005, aprovada pelo Estado colombiano.



Enquanto os acordos respeitam o ordenamento jurídico internacional, contemplam a aplicação do artigo 6.5 do Protocolo II dos Convênios de Genebra, do qual a Colômbia é Estado Parte, e que dispõe: “À cessação das hostilidades, as autoridades no poder procurarão conceder a anistia mais ampla possível às pessoas que tenham tomado parte no conflito armado ou que se encontrem privadas de liberdade, internadas ou detidas por motivos relacionados com o conflito armado”. É óbvio, então, que não será anistiável nenhuma infração que seja considerada crime internacional, segundo as leis e tratados internacionais.



Ademais do componente de justiça, o Sistema está integrado por uma Comissão de Esclarecimento da Verdade, já acordada, por umas políticas de reparação integral a vítimas, e por medidas que garantam a Não Repetição. As FARC-EP já ofereceram este tipo de garantias ao tomar a determinação de pactuar a deixação de armas e se converterem em organização legal. De sua parte, o Estado deverá oferecer medidas efetivas de Não Repetição como a eliminação de qualquer vestígio da Doutrina de Segurança Nacional, a dedicação do Exército a defender as fronteiras e a soberania nacional, a destinação da polícia a manter a ordem pública, e a erradicação do fenômeno do paramilitarism o.



A jurisdição especial para a paz dispõe de um mecanismo judicial de oferecimento de verdade e reconhecimento de responsabilidades de caráter voluntário, e um Tribunal para a Paz que julgará aqueles que se neguem a oferecer verdade e reconhecer responsabilidades.



Ressaltemos que, ainda tendo pago um alto preço por nos rebelar contra a injustiça; sofrendo também nossos familiares e próximos as consequências da repressão, pondo em perigo até suas vidas, como insurgentes estamos dispostos a assumir responsabilidades por nossas atuações ao longo da resistência, porém nunca pelo que interessadamente nos imputam nossos adversários, sem nenhum fundamento nem fórmula de julgamento. Como se reflete no último informe da promotoria da Corte Penal Internacional sobre Colômbia, a insurgência tem sido perseguida implacavelmente, com todo tipo de medidas e procedimentos; não têm sido as organizações guerrilheiras as que desfrutam de impunidade, mas sim os agentes do Estado e os grupos paramilitares.



Acreditamos imprescindível, então, que o restante de atores do conflito, tanto os que combateram como os que instigaram a guerra a partir de luxuosos gabinetes, assumam com coragem sua responsabilidade e assim o manifestem ante o povo colombiano, sem poupar uma gota de verdade. Tudo devemos aos colombianos e às colombianas, e em especial é nossa obrigação em relação às futuras gerações, para que ninguém volta a padecer o que vivemos. Por isso pensamos em que é necessária uma grande jornada de contrição na qual se possa juntar o universo da gente envolvida no conflito –combatentes e não combatentes- para limpar as consciências, oferecer verdade, e assumir responsabilidades.



A jurisdição especial de paz que criamos deve inspirar-nos a olhar para frente, a acordar sobre o futuro de nossa pátria e deixar de confrontar pelo passado. Deve ser um passo que ajude a impulsionar as grandes transformações sociais e políticas que devem surgir do acordo de paz que estamos empenhados em alcançar, porque não podemos permitir que, assim como em anteriores tentativas de diálogo sucedidas em nosso país, ou em diferentes lugares do mundo, não se cometam as mudanças estruturais que sirvam como a maior garantia de não repetição do ocorrido.



Hoje anunciamos ao país que faremos tudo o que esteja ao nosso alcance por conseguir em poucos meses o acordo final de paz, e exortamos a nossa contraparte na Mesa a fazer o mesmo, levantando a voz do NUNCA MAIS, sobre os alicerces da Verdade, da Justiça e da Reparação, como um imenso farelhão andino que detenha para sempre a confrontação armada entre colombianos, favorecendo a concórdia na América Nuestra.



Só nos resta expressar nossa gratidão por seu esmero e profissionalismo aos juristas Manuel José Cepeda, Álvaro Leyva Durán, Juan Carlos Henao, Enrique Santiago, Douglas Cassel e Diego Martínez.
Muito obrigado ao Presidente Raúl Castro, ao comandante Fidel e ao povo de Cuba por sua solidariedade e altruísmo.
Muito obrigado à República Bolivariana de Venezuela por seu apoio incondicional à paz da Colômbia.
Muito obrigado aos países garantidores dos diálogos, Noruega e Cuba, e gratos ao Chile por seu acompanhamento.
Quem semeia amor colhe amor, e quem semeia amor, amor terá”.
Coincidindo com o Papa Francisco, devemos insistir em que: “Não temos direito a permitir-nos mais outro fracasso neste caminho de paz e reconciliação”.
Esta vitória não poderá ser arrebatada ao povo da Colômbia.


Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP





Fronteira colombo-venezuelana em paz



Por Horacio Duque Giraldo
Na cúpula entre os Presidentes Nicolás Maduro e Juan Manuel Santos, em Quito, e num cenário de cordialidade e respeito, triunfou a paz e a unidade latino-americana. Ficou isolado o guerreirismo gringo e o de seu agente ultra direitista Uribe Vélez. Queriam incendiar a fronteira. Queriam uma guerra e lhes saiu o tiro pela culatra.



Se deu o cara a cara entre os presidentes Nicolás Maduro e Juan Manuel Santos. Ocorreu em Quito, Equador.



Funcionaram os cenários da integração e da solidariedade latino-americana que com tanta audácia, energia, liderança e convicção o imortal Hugo Chávez promoveu. Da unidade dos povos e das nações do sul que tem sido a busca ininterrupta da Revolução Cubana e de Fidel.



O conflito e os problemas que sucederam entre as duas nações no último mês, em mãos da OEA e da manipulação do governo imperialista gringo, já nos teriam à beira da guerra e dos conhecidos cenários de violência que o governo dos Estados Unidos promove por todo o planeta. Pensemos só no que ocorre na Síria e no Oriente Médio.



Que tal este acontecimento fronteira gestado pelo bandido do Ubérrimo? Gritos, insultos, ameaças, loucura, bravatas. Vimo-lo em Cúcuta e Maicao. Já teria uma “Contra” ao longo dos 2.219 quilômetros do limite, ao estilo da nicaraguense dos anos oitenta, fazendo danos e provocando mais derramamento de sangue dos dois povos irmãos.



Não é pouco o que ocorreu. Há que interpretá-lo da melhor maneira. O Presidente Juan Manuel Santos procedeu com muita sensatez, tranquilidade, ponderação, sem infantilismos e com a maturidade de quem assume a complexidade do assunto nos termos de um estadista. A Chanceler Holguín atuou na mesma linha. Dizer o contrário é delirante.



O Presidente Nicolás Maduro procedeu nos termos de suas responsabilidades como principal líder do povo e do Estado venezuelano. Não foi pelas beiradas. Tomou as decisões necessárias. Colocou com franqueza e contundência os problemas que afetam a boa vizinhança: paramilitarismo, narcotráfico, contrabando, especulação financeira e conspiração contra a institucionalidade bolivariana mediante a mais descarada manipulação midiática a partir do território colombiano. Era uma guinada desnecessariamente adiada durante anos pelos dirigentes da Revolução Bolivariana. Era o melhor. E assim o fez o Presidente Maduro e sua Chanceler Rodríguez. Outro estilo. Outras maneiras de assumir essas complicadas problemáticas. Como se equivocam com o sucessor de Chávez os grupos de ultra dir eita e de ultra esquerda... Maduro está demonstrando que com ele a coisa é a sério. Que não delira, que não vai pelas beiradas, põe o peito nas coisas, sem perder o sentido da realidade. Considerando as correlações de força. Perfeito. Me agrada. Não lê como mentira aos que o ridicularizam com trivialidades e comicidades. Aos que o estigmatizam com piadinhas de mau gosto.



A Chanceler Delcy Rodríguez cumpriu um papel transcendental, apoiada na diplomacia bolivariana e chavista. Firme, rigorosa, sem rodeios. Os interesses da pátria de Bolívar estão em muito boas mãos. Foi direto e desmascarou a cizânia uribista, ultra direitista, imperialista e das máquinas midiáticas da mentira e do engano.



A unidade latino-americana, as raízes históricas comuns das duas nações, o pensamento e a obra de Bolívar, de Chávez e Fidel constituem a base fundamental do novo entendimento entre Santos e Maduro, entre Colômbia e Venezuela, duas nações irmãs. Melhor, uma nação nos termos da comunidade imaginada de Anderson. Isso é uma nação: uma comunidade imaginada, com línguas, com culturas e povos comuns que se imaginam, no lugar em que estejam, como membros de um mesmo sujeito coletivo.



Estes são os sete pontos do acordo entre os dois Chefes de Estado e a plataforma da Fronteira de paz que se deve projetar paulatinamente para o futuro:
·         O retorno imediato dos respectivos embaixadores.

·         Realizar uma investigação séria e profunda da situação da fronteira.

·         Reunir aos grupos de ministros imediatamente para começar a tratar dos temas sensíveis da fronteira, reunião que continuará na quarta-feira 23 de setembro/2015 na cidade de Caracas.

·         A progressiva normalização da fronteira.

·         A coexistência dos modelos econômicos, políticos e sociais de cada país.

·         Fazer um chamado ao espírito de irmandade e da unidade, propiciando um clima de mútuo respeito e convivência.

·         Continuar trabalhando com o acompanhamento de Equador e Uruguai.

Fronteira de paz é o que surge deste acordo. Ficou isolado Uribe Vélez, o agente da ultra direita paramilitar que promove a guerra e violência. As eleições do mês de outubro nos confirmarão que o repúdio da sociedade será generalizado contra este perigoso agente do sangue e da perseguição. Contra esse doente inimigo da paz entre os colombianos. Ficou frustrado, sem jeito. Um louquinho incorrigível. Há que mandá-lo rápido para o cárcere para que faça companhia a seus compadres criminosos. Nada impossível, é coisa de perseverar até que se torne realidade.



Nota. O acordo entre as candidatas à Prefeitura de Bogotá, Clara López e María Mercedes Maldonado, é um passo que blinda as conquistas sociais e populares dos bogotanos. É uma muralha contra a fantasia neoliberal peñalosista do cimento e contra contratos lesivos dos polvos conhecidos por seu saqueio dos orçamentos distritais. É o momento mais importante da unidade da esquerda em todas as suas expressões colombianas, que pela primeira vez se dá na história nacional. Há que buscar nos dias seguintes novos cenários de convergência com os movimentos e partidos que defendem a paz, a ampliação da democracia e do pluralismo, essa foi a experiência das eleições presidenciais do ano anterior, especialmente entre o primeiro e segundo turno.



O bilhão de pesos que vale reparar os danos de Peñalosa no Transmilenio de la Avenida Caracas, com seus ladrilhos e recheio fluido fraudulento, deve ser repudiado amplamente pelos capitalinos. As manobras do candidato da ultradireita de todos os gêneros, para impedir o início das obras do Metrô, há que denunciá-las e explicá-las com clareza à cidadania, pois o que se afeta diretamente é o direito democrático à mobilidade.



O senhor Peñalosa e seu faraônico programa de obras mais parecem um projeto para Vancouver ou Toronto. Se equivocou de cidade esse senhor, vive em outro mundo, alheio aos problemas imediatos da capital colombiana. Bogotá necessita de Metrô de maneira imediata; necessita de emprego para 370 jovens; necessita de bem viver com a natureza; necessita de mais universidade distrital grátis e de qualidade nas localidades; necessita de mais democracia; necessita de mais transparência em seu espaço público e menos malandros tipo Rios, Velez e Vargas Lleras despojando os orçamentos oficiais.

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Equipe ANNCOL - Brasil
 


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

FARC saúdam ao Papa Francisco



La Habana, Cuba, sede dos Diálogos de Paz, 21 de setembro de 2015



Querido Papa Francisco



Das montanhas da Colômbia, trazemos para o Papa irmão dos pobres, missionário da paz e da concórdia, ao pontífice que ama e mantém a criação, a saudação de milhares de guerrilheiros e guerrilheiras das FARC, que hoje travam em Havana a mais bela das batalhas que um combatente possa travar: a da paz para todo um povo.



Ainda que alguns nos percebam como sonhadores, ou demasiado otimistas, cremos, ou melhor, temos fé, Sua Santidade, em que estamos nos acercando da reconciliação da Colômbia, depois de seis décadas tristes de conflito armado. Efetivamente: “Não temos direito a nos permitir mais outro fracasso neste caminho de paz e reconciliação”.



Temos razões poderosas para a esperança. Após a aprovação de três acordos parciais, referentes à reforma rural integral, ampliação da democracia, e solução ao problema das drogas de uso ilícito, estamos próximos de combinar uma jurisdição especial para a paz.



O combinado acelerará, sem dúvida, o entendimento na Mesa em torno a temas como o Cessar-Fogo e de Hostilidades, o desmonte do paramilitarismo, a deixação das armas, e a transformação das FARC em movimento político. Queremos redobrar a marcha para uma Nova Colômbia sem exclusões nem desigualdade, onde o ser humano possa viver com dignidade.



A VERDADE é o elemento central da jurisdição especial para a paz; a verdade no sentido da prédica de Jesus –a que nos fará livres-, a verdade que cicatrize as feridas das vítimas do conflito e de toda a sociedade, no marco de uma concepção restaurativa, de perdão e convivência.



Não queremos que as futuras gerações tenham que sofrer e padecer o que vivemos: não mais despojo violento de terras e campesinos, não mais deslocamentos forçados, nem fornos crematórios, nem esquartejamento com motosserras de pessoas vivas por paramilitares. Nunca mais o extermínio de uma força política, nunca mais o assassinato de dirigentes do movimento social, nem políticas econômicas desumanizadas, não mais perseguição nem mais exílio... Paz e reconciliação para a família colombiana.



O perdão está acima da Lei de Talião, do sentimento de vingança que nubla a razão; o perdão deve ser a base da convivência e da instauração da não violência e da solidariedade. Por isso quiséramos pedir-lhe, hoje, Papa Francisco, que continua difundindo a boa-nova da paz em Colômbia, que contribua para realizar uma jornada nacional de contrição em que todos os atores do conflito –combatentes e não combatentes- ofereçamos verdade, reconheçamos responsabilidades e nos comprometamos em um NUNCA MAIS.



Por intercessão da Virgem da Caridade do Cobre e a limpa condução de sua direção revolucionária que se inspira na liberdade, há de seguir o povo cubano construindo sua sociedade digna e soberana, que, solidária com os povos do mundo, agora oferece com absoluta disposição sua gestão altruísta, inclusive seu território, para ajudar a buscar a paz da Colômbia. “Aquele que semeia amor colhe amor, e quem semeia amor, amor terá”.



A presença do missionário da misericórdia nesta terra de gente bondosa, profundamente espiritual e solidária, é alento para acrescentar a esperança num mundo melhor, no qual os laços de amizade entre os povos se fortaleçam, superando muralhas e bloqueios. Com certeza, a passagem do Papa Francisco pelas Antilhas e pelas Américas renovando a fé, o respeito, a misericórdia e a reconciliação é uma oferenda inestimável e uma motivação enorme para os corações daqueles que escutamos sua palavra ansiando pela paz.



DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Frei Betto: O povo cubano, heroicamente, resistiu ao bloqueio



Uma alegria estar em Cuba, disse o destacado intelectual brasileiro e teólogo da libertação ao comentar a visita do Papa Francisco
·          
por Juana Carrasco 

19 de Setembro de 2015 
Para mim é uma alegria estar em Cuba por ocasião da visita do Papa Francisco; com esta categórica frase iniciou o reconhecido teólogo da libertação e intelectual brasileiro Frei Betto seu encontro com dezenas de jornalistas nacionais e estrangeiros na Sala de Imprensa instalada no Hotel Nacional de Havana para o importante evento.
Poucos países da América latina tiveram a oportunidade de receber a visita de três Papas em tão breve espaço de tempo, os três últimos, e isto desperta ciúmes de alguns países com maior população católica, assegurou, fazendo referência a que só o Brasil é a outra nação que teve esta honra, significando a importância que se concede a um país de grande religiosidade como a maior das Antilhas, «ainda que não é um país predominantemente católico».
Mais adiante catalogaria esta visita como um «presente ao povo de Cuba», como também é um presente ao povo estadunidense a visita que realizará a esse país de 22 a 28 de setembro. «Uma visita que será mais complicada», afirmou sobre essa segunda etapa deste giro papal, porque assinalou que «estão em processo eleitoral».
Frei Betto assinalou em suas breves palavras introdutórias da rodada de imprensa, na qual foi «assediado» por numerosas perguntas, que Francisco é um Papa que está fazendo uma revolução dentro da Igreja Católica, continuando o que fez em seu momento João XXIII, e mencionou a encíclica Louvado seja o Senhor, onde abordou com profundidade os problemas meioambientais, suas causas, e como a deterioração do habitat humano afeta com peso maior aos mais pobres deste mundo.
Impacta sua aproximação com os pobres, assegurou Frei Betto sobre o Sumo Pontífice, porque «tem a fé de Jesus».
Em resposta a uma primeira pergunta, indagatória que o levou a seu livro Fidel e a Religião, o destacado intelectual relembrou que em abril deste ano esteve também na Ilha para o 30º aniversário da entrevista que fizera em 1985 com o Líder da Revolução. Cuba, afirmou, um país com 11 milhões de habitantes, publicou uma edição de 1 300 000 [um milhão e trezentos mil!-n.t.] exemplares, para dar a entender o interesse do tema entre os cubanos, «um povo muito religioso, não propriamente católico», o que disse, se parece com a Bahia, no Brasil, onde há uma mistura de catolicismo com religiões de origem africana.
Ressaltou que efetivamente houve desavenças entre a Revolução e a Igreja Católica nos primeiros anos depois do triunfo de 1959, porém não com as igrejas cristãs. Aludiu a que poucos relembram que na Sierra Maestra houve um sacerdote católico, o padre Sardiñas, quem foi Comandante da Revolução, e o Papa lhe autorizou a utilizar uma batina verde-oliva.
Frei Betto assinalou que no início da Revolução muitos católicos se opuseram às mudanças em Cuba e que um padre levou 14.000 crianças para os Estados Unidos «porque disse que aqui iria se quitar a pátria potestade», em alusão ao que se conheceu historicamente como a Operação Peter Pan.
O livro Fidel e a Religião extirpou o mito e os preconceitos de católicos e comunistas, pontualizou, ao tempo em que nessa característica sua de exemplificar com fatos e anedotas, disse que a festa de São Lázaro, a mais massiva manifestação religiosa em Havana, que é o 17 de dezembro, coincidiu com o dia do anúncio pelos Presidentes Raúl e Obama do propósito de restabelecer as relações, o que considerou «um milagre de São Lázaro», e o dia do aniversário do Papa Francisco.
Frei Betto recordou seu primeiro encontro com Fidel em Nicarágua e suas perguntas de então e as reflexões do Comandante. O Estado e o Partido Comunista de Cuba destacaram mais tarde sua condição de laicos, relembrou.

O Papa e a nova esquerda latino-americana
Teria que perguntar ao Papa Francisco sua opinião sobre as esquerdas latino-americanas, assim começou sua resposta sobre o particular e refletiu que há muitos Governos progressistas ou da nova esquerda, «e a que conheço está muito feliz com o Papa Francisco» por sua opção pelos pobres e sua denúncia das causas das injustiças e não só dos efeitos.
Nenhum Papa foi tão contundente como Francisco em sua encíclica Laudato Si, onde afirma que o preço mais pesado da degradação ecológica é pago pelos pobres, reiterou.
Em relação à posição do Sumo Pontífice quanto ao bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba e o processo de relações de ambas as nações, assegurou Frei Betto que «fez demasiado como estadista», em forma discreta e com muita habilidade.
Há um reconhecimento do Papa Francisco à soberania e a independência de Cuba pelo fato de vir primeiro a Cuba e depois aos Estados Unidos, assegurou, relembrando que quando da visita de Benedito XVI houve muita pressão por parte do então presidente Bush para que não viesse e em seguida que condenasse a Revolução, e o Papa «esteve cinco dias aqui e reconheceu os valores e conquistas da Revolução».
Agora vem Francisco, disse, num momento em que Obama reconheceu o fracasso do bloqueio, num discurso que, destacou, ele compara com o do ex-presidente estadunidense que reconheceu a derrota no Vietnã.
«Este povo, heroicamente, resistiu ao bloqueio», reafirmou Frei Betto, e acrescentou que esse bloqueio foi condenado pelos bispos cubanos e pelos Papas João Paulo II e Benedito XVI e agora tem feito Francisco.
Fazendo referência ao encontro que manteve com Fidel no último abril e o refletido com ele, afirmou que Obama mudou seus métodos, ainda tem que mudar seus objetivos. Tem que extinguir o bloqueio e devolver Guantánamo. Por que o Papa Francisco vai a Holguín?, se perguntou Frei Betto, por causa da sua proximidade com a Base Naval de Guantánamo, «há que observar seu discurso ali», alertou.
Relembrou as palavras de João Paulo II quando disse aqui «Eu espero que Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba», e isso tem sucedido, considerou.
Abordou também a postura do Papa Francisco sobre a Teologia da Libertação, sobre a qual, disse, outros Papas fizeram advertências, porém nunca foi condenada. Agora estamos em luz verde, utilizando uma analogia com as luzes do trânsito para caracterizar a atualidade acerca do apoio da Teologia da Libertação à luta das comunidades por seus direitos.
«O Papa está no caminho de Jesus», destacou, e relembrava que aqueles que seguem essa posição junto aos mais pobres somos filhos de um prisioneiro político, de quem esteve preso, foi torturado e condenado a morrer numa cruz por isso, e não morreu de uma queda de um camelo numa esquina de Jerusalém, ironizou Frei Betto para significar qual é o caminho de Jesus. A Igreja tem o papel de preservar os verdadeiros valores e direitos humanos.
Acerca do que pode ocorrer em Cuba com o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos, disse que não tinha uma bola de cristal, porém que, com a chegada de tanto turista, haveria um choque entre o tsunami consumista e os valores da austeridade cubana, destacando que muitos americanos querem comprar tudo e querem viajar pelo mundo sem sair dos Estados Unidos, com seus hotéis e lojas em cada esquina.
Afirmou Frei Betto que o cubano é um «povo que desenvolveu valores evangélicos, que são valores humanos; a solidariedade, compartilhar os bens», e agradeceu a Deus que seus dois líderes históricos estejam vivos até hoje. Fez referência especial às boas relações de ambos com a Igreja e ao que chamou a admiração recíproca entre o Cardeal Jaime Ortega e o Presidente Raúl Castro.
«Um povo, destacou Frei Betto, que tem orgulho de defender sua Revolução e seus valores», reafirmou, ao mesmo tempo em que advertia seu desejo de «que este consumismo não danifique a austeridade cubana».
Como epílogo de suas respostas à imprensa, se referiu a uma das atividades do Papa Francisco neste giro por Cuba e Estados Unidos: o Congresso da Família na Filadélfia.
Também afirmou que há fronteiras físicas e virtuais, fronteiras da segregação e da discriminação que se veem na África, por exemplo, e provocam a imigração; e em referência a nosso país certificou que não foi Cuba que dividiu a família, mas sim a hostilidade permanente dos Estados Unidos e o bloqueio.
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Lista de correo diariodeurgencia de Resumen Latinoamericano
Tradução de Joaquim Lisboa Neto

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

domingo, 20 de setembro de 2015

Raúl Castro: Cuba recebe o papa com afeto e respeito



Ao iniciar seu discurso de boas vindas no aeroporto internacional José Marti, o presidente cubano disse que o povo o recebe com profundos sentimentos de afeto, respeito e hospitalidade.

Junto com Raúl estava o chefe da Igreja Católica no país, o cardeal Jaime Ortega, arcebispo de Havana, além de crianças que ofereceram flores a Francisco.

sábado, 19 de setembro de 2015

Perspectivas da paz


La Habana, Cuba, sede dos Diálogos de Paz, 17 de setembro de 2015


De maneira simultânea em várias frentes, avança a discussão temática na Mesa de Conversações em Havana.

O decisivo componente de justiça do Sistema Integral de Verdade, Justiça, Reparação e Não Repetição está às portas de um entendimento. A importância desta eventualidade reside em que desataria uma dinâmica positiva de redação de convênios sobre tópicos pendentes, como a expansão da democracia, o desenvolvimento do essencial sub ponto 5 FIM DO CONFLITO onde se confere que: “O Governo Nacional revisará e fará as reformas e os ajustes institucionais necessários para fazer frente aos desafios da construção da paz”; também permitiria levar a sério o mandato da Agenda de esclarecer o fenômeno do paramilitarismo e, o que é mais urgente para o futuro da paz, sua desarticulação, porque com guerra suja o pós-acordo cons tituiria uma mentira. Se deve desmontar essa ameaça se queremos reconciliação.

Continua se construindo consensos sobre Cessar-Fogo e de hostilidades bilateral e definitivo, e se avança na análise do aspecto Deixação das armas. E sobre a reincorporação das FARC-EP à vida civil, estamos prontos para abordar e discutir os procedimentos para o trânsito de organização levantada em armas a movimento político aberto. A propósito, entregamos aos plenipotenciários do Governo um pacote de propostas básicas que esperam concretização.

Chegou a hora de retomar a discussão sobre “asteriscos” ou assuntos cuja discussão foi adiada como, por exemplo, o estabelecimento da quantidade de hectares que conformarão o Fundo de Terras, necessário para a execução da Reforma Rural Integral, e também é tempo de tirar do refrigerador as ressalvas para arejá-las e buscar consenso em torno delas.

Está próximo, sem dúvida, o final do acordo sobre o ponto 5 VÍTIMAS, posto que o inevitável assunto da Reparação disporia no Sistema Integral de Verdade, Justiça, Reparação e Não Repetição, de mecanismos para entregar satisfação às vítimas do conflito. O sub ponto 1, Direitos Humanos, poderia ser esgotado com vontade política, com uma declaração de acordo e compromisso sobre princípios que reivindiquem os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais para as maiorias.

Esperamos que se realize o Fórum sobre FIM DO CONFLITO sob o auspício do Centro de Pensamento da Universidade Nacional e das Nações Unidas, para que o movimento social e político verta sua opinião sobre a Mesa, já que “a paz é um assunto da sociedade em seu conjunto que requer a participação de todos, sem distinção, incluídas outras organizações guerrilheiras”.

Em tal sentido, ressaltamos que é importante e muito necessário que, agora mais que nunca, se deixem sentir plenamente as vozes da cidadania, a palavra do povo mediante suas organizações sociais e políticas, opinando e decidindo sobre o rumo do processo de paz e o destino da Colômbia, e que esta prática seja a exercitação do soberano em seu papel de constituinte primário, até alcançar o momento da referenda e da implementação do que deve ser um Tratado de paz para a história.

Nós outros estamos prontos para prosseguir a marcha combinada da vontade nacional para o acordo definitivo, ponto de partida para as transformações democráticas e progressistas. A paz está tocando a porta da Colômbia e exige que o conflito armado fique para trás como memória coletiva de algo que não se deve repetir jamais, de tal maneira que asseguremos o futuro de paz e vida digna das novas gerações de colombianos.  
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

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Equipe ANNCOL - Brasil