"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sábado, 24 de julho de 2010

Brasil, de Getulio a Lula

O governo Lula representa uma nova expressão do campo popular, que teve nos governos de Getúlio e de Jango, seus antecedentes mais próximos. Governos de coalizão de classes, pluriclassistas, que assumem projetos de unidade e desenvolvimento nacional, com forte peso das políticas sociais. De Getúlio a Lula transcorreram décadas fundamentais, com elementos progressivos e regressivos, contraditórios, que chegam até o começo do século XXI vivendo uma circunstância nova, que pode se fechar, como um marcante parênteses ou como ponte para a ruptura definitiva do modelo herdado e a continuidade em um novo patamar da construção de um país justo, democrático, soberano. A análise é de Emir Sader.
Emir Sader
(*) Primeiro texto do livro "Brasil, entre o Passado e o Futuro", organizado por Emir Sader e por Marco Aurélio Garcia, publicado pelas Editoras Boitempo e Perseu Abramo.

O Brasil vive um momento diferenciado da sua história política. Uma história que completará em 2010 suas oito décadas mais importantes até aqui. Desde então, há elementos de continuidade e de ruptura, pelas imensas transformações que o Brasil viveu desde então. Oito décadas em que o país mudou sua fisionomia econômica, social, política e cultural, de forma profunda e irreversível. De país rural se tornou pais urbano, de pais agrícola, país industrializado, de um Estado restrito às elites a um Estado nacional. De país voltado para fora, para um país voltado sobre si mesmo. De Getúlio a Lula transcorreram décadas fundamentais, com elementos progressivos e regressivos, contraditórios, que chegam até o começo do século XXI vivendo uma circunstância nova, que pode se fechar, como um marcante parênteses ou como ponte para a ruptura definitiva do modelo herdado e a continuidade em um novo patamar da construção de um país justo, democrático, soberano.

A ruptura mais importante, até aqui, da nossa história se deu em 1930. Até ali, grandes pactos de elite bloquearam a possibilidade de protagonismo do povo na história do país. A independência, ao contrário dos outros países do continente – com a exceção de Cuba e de Porto Rico -, não se deu pela expulsão dos colonizadores, mas pela primeira expressão do transformismo – no sentido que lhe deu Gramsci – na história brasileira. Ao invés de república, passamos da colônia à monarquia, fomos o país que mais tarde terminou com a escravidão, enquanto se consolidou o domínio do latifúndio no campo. Um pacto de elite que perpetuou os laços com a metrópole colonial, prolongou a escravidão e perpetuou a concentração da propriedade rural.

A crise de 1929 determinou o esgotamento do modelo econômico que tinha orientado toda nossa inserção – como país colonizado – no mercado internacional, como exportadores de matérias primas, quando as grandes potências que controlavam nosso comércio exterior se declararam em crise e reduziram drasticamente suas exportações e importações. Os efeitos foram tão graves que caíram praticamente todos os governos da America Latina – mesmo os progressistas, como o de Yrigoyen, na Argentina.

Desde a maior das rupturas – 1930 – algumas inflexões redirecionaram a história brasileira de maneira significativa, até o presente, dentre as quais a ditadura militar representou o marco divisório desde então. A Revolução de 30 introduziu o novo período, fazendo com que a presidência passasse das mãos de um mandatário – Washington Luis, o último presidente paulista antes de FHC, ambos nascidos no Rio, mas adotados pela elite paulista – que havia afirmado que “A questão social é uma questão de polícia”, para um – Getúlio – que fará com que o Estado assuma responsabilidades sobre os direitos sociais e passe a interpelar aos brasileiros, nos seus discursos, como “Trabalhadores do Brasil”. O fundamental foi a criação de um Estado nacional, sucedendo a um que era um consórcio das elites econômicas e políticas regionais. Essa foi a maior ruptura progressista, até aqui, da história brasileira.

O Brasil começou a ter um Estado em que passaram a se reconhecer proporções crescentes de brasileiros, mediante políticas sociais, reconhecimento da sindicalização dos trabalhadores, um projeto nacional e um discurso popular, o desenvolvimento econômico como norte fundamental do país. Iniciava-se o período mais prolongado e mais profundo de expansão da economia e de extensão dos direitos sociais que o país conheceu. As oito décadas transcorridas desde então estiveram marcadas por algumas inflexões importantes, desde a que, em 1955, redefine o desenvolvimento, que deixa de ter um caráter expressamente nacional – em que as empresas estatais tinham um papel chave – para o ingresso maciço do capital estrangeiro, com a indústria automobilística passando a ser o carro-chefe do desenvolvimento industrial, chegando a responder, de forma direta ou indireta, por um quarto do PIB brasileiro.

Uma segunda inflexão se deu com o golpe militar de 1964, esta substantiva não apenas no plano econômico, mas também social, com a abertura econômica para os capitais estrangeiros e o arrocho salarial, que são o santo do “milagre econômico”, e político, com a ruptura da continuidade democrática e a passagem a uma ditadura militar. Foi imposta pela força uma ruptura com o processo gradual de democratização social, política, econômica e cultural, passando a predominar um modelo centrado na exportação e consumo de luxo, possibilitado pela feroz repressão aos sindicatos e aos movimentos populares, com a correspondente super-exploração do trabalho.

A redemocratização representou uma ruptura político institucional sem, no entanto, romper com as bases econômicas e sociais do poder monopólico no Brasil. O poder dos bancos, da terra, da grande mídia privada, dos grandes monopólios nacionais e internacionais se fortaleceu, ao invés de serem objetos de democratização. A eleição do primeiro presidente civil depois da ditadura, ao não se dar pelo voto direto, mas pelo Colégio Eleitoral, facilitou uma nova conciliação das elites, fazendo com que o novo regime fosse um produto hibrido do velho e do novo. Passamos a ter uma democracia política sem alma social, sem alterar nosso recorde negativo de pais mais desigual do continente mais desigual do mundo. Isto é, uma democracia formal, nos moldes do liberalismo, assentada sobre a sociedade mais desigual do continente mais desigual do mundo.

Tanto assim que essa democracia foi funcional ao modelo neoliberal – hoje tão execrado nacional e internacionalmente, mas que com FHC ganhou total apoio das elites dominantes brasileiros -, que acentuou a desigualdade social, concentrou ainda mais o poder econômico e fragilizou a democracia reconquistada. FHC sentenciou a inflexão do seu governo: “Viraremos a página do getulismo.” Tinha consciência ele de que sem destruir as sobrevivências do Estado nacional, regulador, indutor do desenvolvimento, distribuidor de renda, o neoliberalismo, o reino do mercado, o Estado mínimo, não conseguiriam se impor. Foi sua obra. Fracassou e abriu caminho para o governo Lula, uma era hibrida, composta por continuidades e rupturas, possível até que existisse base material para um amplo arco de alianças que vai do capital financeiro aos pobres da cidade e o campo, que a crise atual coloca em questão.

Depois de termos participado, na década passada, do extenso e radical reino do neoliberalismo neste continente, participamos dos movimentos que, na década atual, rejeitam esse modelo e buscam formas de sua superação. Pela primeira vez, desde os governos de Getúlio, forças do campo popular dirigem, já por dois mandatos consecutivos, o país.

Como isso foi possível, depois de 21 anos de ditadura militar e de mais de uma década de governos neoliberais? Qual o fio condutor que articula o movimento popular brasileiro desde suas origens contemporâneas, na Revolução de 30, passando por estas oito décadas de acontecimentos tão significativos – progressivos e regressivos – até chegar ao complexo período que vivemos?

Da classe contra classe à questão nacional

As origens do movimento popular brasileiro precedem a Revolução de 30, nas origens da industrialização. Provêm do sindicalismo anarquista, comunista e socialista, que pela primeira vez levantaram no Brasil a necessidade de uma alternativa ao sistema de poder dominante. Suas bandeiras eram diretamente classistas, foram influenciadas pela interpretação da Revolução Russa como uma revolução “operário camponesa” e pelas lutas do movimento operário europeu. Tiveram o grande mérito de dar inicio à organização autônoma do movimento popular, centrado nos trabalhadores imigrantes, que traziam suas experiências e as doutrinas que fundaram a esquerda na Europa. Era uma esquerda urbana, sem raízes no campo, onde residia a grande maioria da população que, além disso, não chegou a elaborar estratégias específicas, assentadas na realidade brasileira. Assim, temas candentes como a da luta contra o latifúndio, contra a dominação externa, o das estratégias nacionais, não eram ainda temas centrais para a esquerda.

A crise de 1929 colocou os primeiros grandes desafios para o movimento popular brasileiro. Como reagir diante do esgotamento do modelo primário-exportador? Que estratégia nacional deveria ser elaborada para organizar as foras populares e constituir um bloco de transformação radical do país? Que posição tomar diante do nacionalismo?

Quem melhor captou a natureza da crise e as alternativas que se colocavam foi o nascente movimento nacionalista e não os partidos da esquerda – em particular o Partido Comunista, o mais importante deles. Este manteve a linha da Internacional Comunista de classe contra classe, subestimando o peso que a questão nacional passaria a ter em países como o nosso, na periferia capitalista. Enquanto que o nacionalismo soube captar o peso da identidade nacional e dos interesses nacionais no processo de industrialização que se iniciava e no marco do ressurgimento com força dos Estados nacionais no plano mundial.

A Revolução de 30 deu inicio ao que seria o movimento popular brasileiro durante as décadas seguintes. Um movimento centrado no nacionalismo como ideologia, em um bloco de forças entre o empresariado brasileiro, o movimento sindical urbano, as classes médias, comandadas pelo novo Estado brasileiro, o primeiro Estado com dimensão e ideologia nacional. Pela primeira vez o Brasil se pensava como nação e dispunha de um projeto nacional.

O modelo hegemônico introduzido pela Revolução de 1930 pode ser caracterizado como um modelo nacional-estatista, em que o impulso ao desenvolvimento se centrava fundamentalmente no Estado e na industrialização, ao mesmo tempo que a organização das classes fundamentais emergentes – empresariado nacional, classes médias e movimento sindical urbano – seria articulado pelo Estado, que incentivava a organização corporativa desses setores, mas vetava sua organização política. Esta estava dada pelo Estado e pela liderança de Getúlio em particular, que encarnavam os interesses da nação.

Essa orientação, aliada à visão classista da esquerda – em particular do Partido Comunista – implicaram num distanciamento inicial entre a esquerda partidária organizada e o movimento nacionalista. Em um segundo momento, na década seguinte, se daria a aproximação que marcou a identidade da esquerda por algumas décadas.

A postura do nacionalismo brasileiro – e latino-americano – diante do liberalismo será outro elemento essencial para definir a identidade do campo popular deste lado do Atlântico. Na Europa, o liberalismo foi a ideologia da burguesia ascendente, que lutava pela livre circulação de mercadorias, contra as travas feudais, sobretudo em relação à compra e venda livres da terra e da força de trabalho. Enquanto que o nacionalismo, numa região que não sofreu dominação externa, assumiu um caráter egoísta, chovinista, da suposta superioridade de uma nação sobre a outra – que seria profundamente explorada nas duas guerras mundiais, como expressão das contradições interimperialistas.

Já na periferia do sistema – e, em particular, na América Latina e no Brasil – o liberalismo foi a ideologia do bloco primário-exportador, cujos interesses se fundamentavam no livre comércio da exportação e da importação. Centrava-se no liberalismo econômico, que não necessariamente se casava com o liberalismo político.

Enquanto que o nacionalismo, pela dominação externa, colonial e imperialista que caracterizou nossa inserção no mercado internacional, teve um caráter de resistência nacional à exploração externa. Foi antiliberal no plano econômico, para proteger o mercado interno e fomentar a industrialização nacional. Mas foi também anti-liberal no plano político – nos casos mais conhecidos, os de Getúlio e Perón -, propondo a predominância da unidade em torno da nação e do Estado em contraposição ao sistema de partidos, que consideravam que dividiria a nação.

Essa posição do nacionalismo latinoamericano fez com que se dissociassem as questões nacional e social - fortemente reivindicadas por ele – e a questão democrática que, sob forma liberal, ficou em mão da direita. O movimento popular, especificamente no caso brasileiro, assumiu a bandeira nacionalista e social, fundada numa aliança de classes entre o grande empresariado nacional, setores das classes medias e o movimento sindical urbano. A direita buscou se opor, fundada em visões democrático-liberais.

O inicio do processo de sindicalização deu inicio ao mais importante processo de organização popular na história brasileira, mas ao restringi-lo apenas aos setores urbanos dos trabalhadores e ao não tocar na estrutura agrária, terminou se perpetuando o poder do latifúndio – mesmo que perdendo a hegemonia para a burguesia industrial ascendente -, separando o destino dos trabalhadores do campo – a imensa maioria dos trabalhadores – dos urbanos, favorecendo a continuação da emigração do campo para as cidades.

A estratégia hegemônica da esquerda se assentava na luta contra o latifúndio e o imperialismo, buscando desbloquear o desenvolvimento econômico, ao considerar que as travas externas e rurais seriam os obstáculos centrais à modernização industrial e ao desenvolvimento econômico e social do país, assim como à afirmação da sua identidade nacional. Essa estratégia considerava que haveria uma primeira etapa de luta nacional e democrática, até que se criassem as condições para uma luta anticapitalista.

Foi um período de extraordinários avanços no desenvolvimento econômico do país, na construção do Estado nacional, na conquista de direitos sociais da população e de elaboração de uma ideologia nacionalista. Coincidiu, primeiro, com a recessão internacional e o refluxo dos investimentos estrangeiros em toda a região – o que favoreceu a estratégia de industrialização pela substituição de importações – e depois com a segunda guerra e a guerra da Coréia. Coincidiu também com o maior ciclo longo expansivo do capitalismo internacional, do qual a industrialização de países da periferia como o Brasil, a Argentina e o México fizeram parte. Assim, de 1930 a 1954 abriu-se um espaço sui generis para o desenvolvimento econômico nacional, funcional ao ciclo expansivo internacional.

O fim da guerra da Coréia representou o retorno com força dos investimentos estrangeiros, particularmente os norte-americanos, estabelecendo um final do ciclo fortemente nacionalista no Brasil e na Argentina. (Não por acaso Getúlio cai em 1954, Perón em 1955). Na metade da década de 1950 chegaram os investimentos na indústria automobilística, que trariam grandes conseqüências para o caráter do desenvolvimento econômico, assim como no plano das forças sociais e do próprio Estado.

Mudou o rumo do desenvolvimento econômico, que continuou a ser o objetivo central do modelo dominante, mas a entrada do capital estrangeiro deslocou para ele – em particular para a indústria automobilística – o eixo central da economia. Com JK, o desenvolvimento passou a primar sobre o seu caráter nacional, a composição da classe operária também se viu alterada, com a imigração maciça de trabalhadores nordestinos para a indústria privada – prioritariamente paulista – em detrimento da empresas estatais e do epicentro econômico e social no Rio de Janeiro.

O movimento popular, no entanto, seguiu fortalecendo-se, tanto com a extensão da sindicalização urbana, quanto com o começo da sindicalização no campo. A polarização política continuou a se dar entre os mesmos blocos, sem refletir ainda a expansão da presença do capital estrangeiro no país.

Esta se fará sentir mais fortemente conforme as articulações para o golpe militar se intensificaram. A derrota do candidato que daria continuidade ao programa getulista – o general Lott – deslocou o bloco dominante, mas a renúncia de Jânio Quadros, ao recolocar a João Goulart na presidência, retomou-a, em uma versão mais popular, por ter a Jango como cabeça de governo. O governo Jango retomou o projeto de Getúlio – teorizado por Celso Furtado em torno das “reformas de base” -, que expressou a formulação mais articulada do projeto do movimento popular naquele período. As medidas anunciadas por Jango no seu ultimo comício – no dia 13 de março na Central do Brasil, no Rio de Janeiro – iam nessa direção: inicio do processo de reforma agrária e limitações na remessa de lucros para o exterior.

O movimento popular brasileiro tinha atingido seu auge de mobilizações, pela extensão e diversidade de suas forças e manifestações. Um governo com um projeto de reformas estruturais da economia, um movimento sindical forte, estendendo-se dos centros urbanos ao campo, passando a incorporar aos funcionários públicos e a setores das FFAA, grande capacidade de mobilização e combatividade do movimento estudantil, criatividade inédita do conjunto do mundo artístico – cinema novo, bossa nova, teatro político, entre outras expressões. O golpe viria se abater sobre todas as manifestações populares e democráticas acumuladas no país de forma brutal e direta.

O golpe revelava como a grande burguesia brasileira preferia apoiar a ruptura da democracia para consolidar sua aliança com o grande capital internacional e o latifúndio, ao invés de com o movimento popular na direção de aprofundar e estender a democracia no Brasil. Abandonou sua bandeira democrática – em nome da qual pregou e apoiou a o golpe e a ditadura – e se unificou no apoio ao novo regime e às suas políticas econômicas antinacionais.

O golpe militar foi uma das maiores rupturas vividas pela historia brasileira – esta de caráter claramente regressivo. O movimento popular brasileiro havia chegado a seu momento de maior força em toda a sua historia até aquele momento. Pela sua força de massas, pelas direções políticas de caráter nacional que havia construído, pela sua força ideológica e pelos postos ocupados nas esferas de governo, especialmente a nível nacional.

A ditadura golpeou profundamente o campo popular em todas as suas formas de existência: dos sindicatos urbanos aos rurais, das universidades às escolas básicas, dos intelectuais aos artistas, dos jornais cotidianos às revistas, dos parlamentares progressistas aos juízes, das editoras aos teatros e aos produtores de cinema, dos militantes aos simpatizantes da esquerda. Quebrou-se o eixo do campo popular, assim como suas extensas raízes de massa, instalando-se, pela primeira vez em muitas décadas, um Estado antipopular, que golpeava a democracia e o movimento popular em todas as suas dimensões.

Colocava-se um novo desafio para as lutas populares no Brasil: como enfrentar a ditadura, como reivindicar a questão democrática, ao mesmo tempo, que a o enfrentamento da dominação externa e das oligarquias internas?

Da ditadura à democracia

A ditadura militar mudou radicalmente o perfil do movimento popular brasileiro. Já não contava com as organizações de massa legais, ao contrário, tinha que computar a repressão sistemática a qualquer forma de organização – sindical, estudantil, camponesa, cultural. Tinha a questão democrática como central – a luta contra a ditadura se transformava no tema central, que poderia unificar a amplos setores afetados pela repressão. Tinha, ao mesmo tempo, o desafio de como atuar diante do fechamento de praticamente qualquer espaço de luta nos planos econômico, social, político e cultural. As formas de luta apareciam como uma interrogante a responder, da qual se deduziria uma grande quantidade de conseqüências.

A primeira reação da oposição à ditadura foi a de impulsionar a luta clandestina, propugnar por uma saída radical da ditadura e centrar suas formas de luta nas ações armadas – de forma paralela à vitória das guerrilhas em Cuba e de sua proliferação em outros países do continente, especialmente, Venezuela, Peru, Guatemala, concomitantemente com a resistência dos vietnamitas à invasão norteamericana. O movimento estudantil aparecia como o mais ativo na resistência à ditadura, enquanto se desenvolviam debates na esquerda sobre a natureza do golpe e do novo período político, assim como as formas de luta e seus objetivos, sob forte influencia da Revolução Cubana.

Na primeira etapa, sem movimento social organizado, mas contando com a brutalidade da repressão militar, a reorganização do movimento popular se centrou em torno de núcleos guerrilheiros, que conseguiram, valendo-se do fator surpresa, assestar bons golpes na ditadura – entre seqüestros e troca de prisioneiros, desvios de aviões e outras ações armadas. Passado o efeito surpresa, com o movimento de massas desorganizado, sofrendo os duros golpes da repressão e das políticas econômicas da ditadura, o movimento guerrilheiro acabou sendo cercado e derrotado, concluindo a primeira fase da luta de resistência à ditadura.

Ao mesmo tempo, apoiada na repressão política e econômica, na abertura da economia e atração de capitais estrangeiros, a ditadura lograva retomar a expansão econômica, embora agora com forte contenção do consumo popular, concentrando a realização na esfera alta do consumo e na exportação. A derrota dos grupos guerrilheiros abriu o espaço para a oposição legal. Ao mesmo tempo, o movimento de massas encontrou um novo caminho a partir da resistência do sindicalismo metalúrgico do ABC, que conseguiu quebrar a política de arrocho salarial da ditadura, vigente durante quase década e meia. Ao lado desse consistente movimento, que suscitou ampla solidariedade e projetou novas lideranças populares – a mais expressiva das quais, Lula -, se desenvolveram novos movimentos sociais – de mulheres, de negros, de indígenas, de luta contra a carestia, das comunidades eclesiásticas de base, entre outros -, projetando uma nova fisionomia ao movimento social brasileiro.

Emergiam assim duas vertentes de oposição à ditadura e de luta contra a ditadura: uma, de caráter legal, institucional, hegemonizada por uma concepção democrático-liberal, de restauração dos marcos políticos do regime democrático, com um projeto de reformas econômicas estruturais, centrado no MDB. A outra, com um projeto de construção de uma democracia com caráter social, centrado nos novos movimentos sociais, liderados pelo sindicalismo de base.

A primeira foi claramente hegemônica, durante muito tempo abrigou no seu seio quase todas as correntes opositoras. Os novos movimentos sociais foram os grandes protagonistas na luta de massas, o que deu um caráter popular à resistência à ditadura, enquanto a corrente legal parlamentar lhe impunha o caráter democrático.

A luta contra a ditadura desembocou na luta pela anistia geral e irrestrita e, depois, pela eleição direta para presidente. A hegemonia do setor democrático liberal se consolidou ao longo da década de 1970, conforme o fim da ditadura foi se configurando como um processo político institucional, de caráter eleitoral. As duas campanhas uniram as forças sociais e políticas, permitindo a constituição de uma ampla força democrática, que acabou conduzindo à transição democrática no final da ditadura. No entanto a hegemonia foi do bloco democrático-liberal, inclusive porque o bloco alternativo não propunha uma saída diferente da ditadura.

O tom diferenciado do movimento popular era a ênfase nas reivindicações sociais, além das transformações políticas, com o fim da ditadura, como seu diferencial. As duas correntes se fortaleciam, sob o influxo da luta antiditatorial – uma com ênfase na esfera política, a outra na esfera social.

Foi um período de fortalecimento do movimento social e do campo popular, com a fundação da CUT, do PT, do MST, além da mobilização popular que precedeu a Assembléia Constituinte – esta mesma uma expressão da força que o movimento democrático havia adquirido. A campanha pelas eleições diretas, as mobilizações sindicais e dos trabalhadores sem terra revelavam como a luta de resistência à ditadura mantinha a iniciativa, com grande respaldo popular.

As maiores mobilizações populares que o Brasil havia conhecido se deram em torno das eleições diretas para presidente da república. Sua derrota, porém, abriu caminho para um novo pacto de elite, quando setores da oposição e setores originários da ditadura se uniram para escolher como candidato não a Ulysses Guimarães – o líder da oposição democrática -, mas um político mais moderado, Tancredo Neves, tendo a um dirigente que até pouco antes era presidente do partido da ditadura, José Sarney, configurando como a democracia nascia como um hibrido entre o novo e o velho.

O governo Sarney foi marcado pelas condições do seu surgimento – depois da morte de Tancredo -, gerando um governo que limitou a transição à democracia como transformação apenas na esfera político-institucional, sem que a democratização tivesse também um caráter econômico, social e cultural.

O período terminou desembocando na primeira eleição direta para presidente da República, quando, porém, a polarização ditadura-democracia havia sido superada – durante o governo Sarney – permitindo que o candidato da direita – Fernando Collor – colocasse na agenda a desqualificação do Estado e da regulação econômica, apontando para a primeira versão do projeto neoliberal no Brasil. O desempenho de Lula nas eleições de 1989 fazia com que o campo popular acreditasse que suas bandeiras essenciais – ética na política e justiça social – constituiriam as propostas fundamentais da plataforma da esquerda. O tema da crise fiscal do Estado e da luta contra a inflação começava a projetar-se, pegando desprevenida a esquerda.

A campanha pelo impeachment de Collor parecia confirmar a vigência do tema da ética na política como central. A campanha eleitoral de 1994 foi protagonizada pelas Caravanas da Cidadania de Lula, centradas no tema da justiça social, enquanto a escolha do vice na chapa – José Paulo Bisol – complementava os dois eixos da plataforma opositora.

A esquerda foi pega de surpresa porque – como o entorno latinoamericano já demonstrava – a hegemonia neoliberal crescia de forma avassaladora na região. Depois de começar como favorito, Lula foi atropelado pelo Plano Real e pela candidatura de FHC, que conseguiu impor como tema central a luta contra a inflação (a inflação como imposto aos pobres e como desorganizadora da economia), retomando os temas de Collor de forma mais coerente e articulada, para triunfar e fechar o período de transição democrática, com o triunfo da hegemonia neoliberal.

Neoliberalismo: a defensiva do campo popular

A hegemonia do modelo neoliberal veio consolidar o acúmulo de uma série de fatores regressivos em escala mundial: a passagem de um mundo bipolar a um mundo unipolar sob hegemonia imperial norteamericana; a passagem de um ciclo longo expansivo em escala mundial a um ciclo longo recessivo: no Brasil e em outros países da região, regimes de ditadura militar. A hegemonia global do modelo neoliberal consolidou essa relação de forças desfavorável às forças democráticas e populares.

No Brasil o modelo tardou mais para chegar, porque o forte impulso democratizador não apenas favoreceu o fortalecimento do campo popular e de suas organizações, como desembocou na nova Constituição. A própria caracterização do seu presidente, Ulysses Guimarães, de que se tratava de uma “Constituição cidadã”, isto é, de afirmação de direitos expropriados pela ditadura e de novos direitos, a colocava na contramão do neoliberalismo, que se constituía numa brutal máquina de expropriação de direitos.

Porém, o governo Sarney limitou a redemocratização ao plano político-jurídico, sem estendê-la aos planos econômico, social, dos meios de comunicação. Seu governo esgotou o impulso democratizante, permitindo que Collor – um político vinculado originalmente à ditadura – impusesse outra polarização, que não aquela entre democracia e ditadura. Conseguiu impor a polarização entre mercado e Estado, como central e assim começou a construiu a hegemonia neoliberal no Brasil – quando ela já se impunha abertamente no México, na Argentina, no Chile, revelando como representava uma onda avassaladora.

A queda de Collor interrompeu essa primeira tentativa de imposição do modelo neoliberal, mas o novo consenso estava instalado, criminalizando o Estado e todas suas formas de regulação. A nomeação de FHC como Ministro de Economia do governo de Itamar Franco e sua posterior eleição como presidente, permitiu consolidar esse novo consenso, mediante o Plano Real, que buscava “virar a página do getulismo” – nas palavras do presidente tucano – e instaurar a era neoliberal no Brasil.

A esquerda ficou presa à sua plataforma tradicional – políticas sociais e ética na política -, sem atacar os temas da crise de um Estado historicamente esgotado e sem propostas para um novo modelo econômico.. A direita deu a sua solução à crise, colocando o Estado como alvo das transformações no Brasil, centradas na desregulamentação da economia: privatizações, abertura da economia, precarização das relações de trabalho, enfraquecimento do Estado, substituição do tema do desenvolvimento pelo da estabilidade monetária, entre outros.

Os movimentos populares passaram diretamente à defensiva. Vítimas privilegiadas das novas políticas, mediante o enfraquecimento das políticas sociais, da cassação de direitos sociais, da elevação continua do desemprego e do subemprego, do ataque aos movimentos sociais e a toda a forma de oposição, deixaram à esquerda o dilema de defender um Estado falido ou somar-se às políticas de mercado. Uma situação claramente defensiva, deslocada, com perda de iniciativa, centrada na resistência a um projeto que se apresentava como modernizador e ofensivo contra privilégios, enquanto a esquerda ficava relegada a defender um modelo esgotado, a resistir às modernizações, a resistir, sem dispor de projetos alternativos.

Foi uma virada regressiva de proporções históricas, de alguma forma tão regressiva quanto o golpe militar. Se somavam assim dois períodos regressivos quase seguidos em poucas décadas no Brasil. Ao que se devem somar as transformações, na mesma direção, no cenário internacional e continental, para terminar de configurar um quadro bastante negativo para o campo popular.

A defensiva significa, ao mesmo tempo, que uma situação de confessa inferioridade, assumir a agenda do campo inimigo, ao qual nos opomos, a perda de iniciativa e de uma agenda própria. No Brasil, a resistência popular teve um papel essencial de colocar limites à plena realização dos projetos neoliberais. Primeiro, derrubando a Collor, atrasando os programas neoliberais e, no governo FHC, colocando limites aos processos de privatização. O atraso no processo neoliberal brasileiro também contribuiu para torná-lo um neoliberalismo tardio – FHC triunfa no mesmo ano da primeira grande crise neoliberal no continente, a mexicana – e incompleto.

Depois de um amplo apoio nacional, ao caracterizar a inflação como “um imposto aos pobres” e ao Estado como problema e não como solução, o governo FHC foi perdendo apoio, até não se recuperar da crise de 1999, da qual a própria economia não se recompôs até o final do seu governo. Os dois mandatos de FHC terminavam em derrota eleitoral, mas ele havia logrado mudar a agenda nacional, conseguindo incorporar temas como a estabilidade monetária, na agenda consensual nacional, assim como contribuir para acentuar os elementos pertinentes ao novo modelo: o modo de vida norteamericano, com seu centro no consumo, o individualismo possessivo correspondente, a desqualificação da organização social e política, dos partidos, da esfera estatal. O Brasil era outro ao final da década neoliberal.

O governo Lula ou a quebra do consenso neoliberal

A eleição de Lula é produto do fracasso e da rejeição do governo FHC, da resistência dos movimentos populares e da capacidade de Lula de capitalizar esses fatores para se eleger finalmente presidente. Isso não se dá no bojo de um grande ciclo de mobilizações populares. Os movimentos populares, duramente golpeados pelas políticas neoliberais – entre elas o desemprego e a precarização laboral – pelo ataques ideológicos, políticos e repressivos contra as mobilizações de massa e as suas organizações, pelas viradas ideológicas na sociedade brasileira, haviam passado a uma situação de relativo refluxo.

Apesar de tudo isso, Lula não se havia transformado em favorito para ganhar as eleições, sendo superado, sucessivamente por Roseana Sarney e por Ciro Gomes, até que a crise da candidatura deste deixou em aberto a herança de votos, disputada entre Lula e Serra. Foi nesse momento que a Carta aos brasileiros – em que se tentava debelar o ataque especulativo contra o Brasil, feito pelos capitais especulativos – e o “Lulinha, paz e amor”, conseguiram fazer com que Lula passasse do patamar histórico de votos do PT – pouco mais de 30%,- para a cifra que lhe permitiu vencer.

Foi assim uma vitória da rejeição do governo FHC, mas que recebeu como herança não apenas a dura situação econômica, mas também consensos nacionais implantados por anos de neoliberalismo. Sua incorporação, com a Carta aos brasileiros, foi herança desse consenso.

O governo Lula manteve elementos das políticas do governo anterior e rejeitou a outras, configurando um quadro contraditório. Na sua primeira fase, primaram os elementos de continuidade, mantendo-se um duro ajuste fiscal – de que os superávits primários e a independência de fato do Banco Central são expressões. O governo assumiu formas contraditórias, com políticas sociais e política externa claramente inovadoras, mas com política econômico-financeira e política agrícola tradicional.

O campo popular elegia um governo diretamente vinculado a ele, porém refletindo as contradições desse mesmo governo e do período político em que esse governo foi eleito. Dois momentos foram traumáticos para as relações do governo com sua base popular de apoio: o primeiro, a reforma da previdência, praticamente a primeira iniciativa política do governo, que se chocava diretamente com as posições do movimento social organizado. Isso se dava no marco do ajuste fiscal que primava na primeira fase do governo, em que os contingenciamentos de recursos freavam a realização das políticas sociais em favor da estabilidade monetária, refletida nos superávits primários.

O segundo foi a crise de 2005, em que sob acusações de uso de recursos para compra do apoio de aliados, o governo chegou a ter risco de sofrer acusação de impeachment e assim terminar precocemente a primeira experiência de governo popular em mais de quatro décadas, sob acusações de corrupção, sem ter saído do modelo econômico herdado.

O governo foi resgatado pelas políticas sociais e pelo apoio popular que ela lhe propiciou. A resultante, que permitiu ao governo não apenas superar a crise, como conseguir a reeleição em 2006 e chegar ao seu sétimo ano de governo – quando FHC tinha 18% de apoio – com apoio superior a 80% e rejeição de 5%, apesar de ter praticamente toda a imprensa feroz e sistematicamente contra.

Como resultante, o governo Lula representa uma nova expressão do campo popular, que teve nos governos de Getúlio e de Jango, seus antecedentes mais próximos. Governos de coalizão de classes, pluriclassistas, que assumem projetos de unidade e desenvolvimento nacional, com forte peso das políticas sociais. Da mesma forma que os governos anteriores, cruzado por uma série de contradições, agora produto mais direto da era da globalização neoliberal.

O povo brasileiro mudou, o campo popular também, o próprio Brasil é outro. Mas há uma linha de continuidade que permite dizer que a lutar de hoje é, no essencial, a mesma de há oito décadas, quando o Brasil contemporâneo começou a ser construído.

A construção de um projeto de nação e de sociedade, é um processo em curso, entrecortado por longos períodos de desarticulação do Estado, de fortalecimento dos interesses externos na nossa economia, de predomínio dos interesses privados no seio do Estado, de importação de formas de vida alheias, de estilos e formas oligárquicas e ditatórias de forjar opinião pública.

Pode-se dizer que as forças que levaram Getúlio ao suicídio, que deram o golpe contra Jango e que se opõem ao governo Lula são as mesmas forças de direita que foram hegemonias durante a ditadura militar e que instauraram e promoveram o neoliberalismo no Brasil. E que sobrevivem no tempo, porque são os mesmos que ganham com a hegemonia do capital financeiro, com o agronegócio, com a mídia oligárquica.

O povo trabalhador é o mesmo. Foram os negros escravos a primeira geração dos trabalhadores brasileiros. A segunda foi de imigrantes europeus, pobres, lutadores sociais. A terceira geração dói a dos nordestinos que emigraram para as cidades do sul, expulsos pela violenta e cruel estrutura agrária brasileira, beneficiária da ausência de reforma agrária.

O futuro do Brasil e do povo brasileiro dependem hoje de se o governo Lula será um parêntesis na dominação das elites tradicionais – as mesmas que produziram o país como o mais injusto e desigual do mundo – ou se o governo Lula é uma ponte para abrir caminho para a saída do modelo neoliberal e o inicio da construção de um país democrático econômica, social, política e culturalmente, soberano e solidário, um país para todos – na continuidade da luta que nos conduziu de Getúlio a Lula.

O Brasil mudou e mudou para melhor, mas nem por isso o governo Lula pôde resolver os principais problemas herdados. Pelo menos o governo colocou os problemas fundamentais a resolver: a hegemonia do capital financeiro, o modelo agrícola e a ditadura da mídia privada. Nas eleições de 2010 se decide não apenas o futuro imediato do Brasil, mas a fisionomia que terá a sociedade brasileira em toda a primeira metade do século. Se há um retorno das elites tradicionais, responsáveis pelo Brasil ser o país mais desigual do continente mais desigual, ou se dará continuidade e a aprofundará as transformações que levem à construção de um Brasil para todos – democrático, diverso, solidário e soberano.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ex-presidente diz que Uribe representa época sinistra em relações exteriores

O ex-presidente colombiano Ernesto Samper (1994-1998) disse que o governo de Álvaro Uribe representa uma das épocas mais sinistras para as relações exteriores e reafirmou que a Colômbia está isolada internacionalmente.

"Dói dizer isso, mas esta foi uma das épocas mais sinistras das relações internacionais", disse Samper ao site do jornal El Tiempo, de Bogotá. Segundo ele, a Colômbia está isolada internacionalmente porque "estamos brigados" com a "Nicarágua, com Cuba, com a Venezuela, com o Equador", disse o ex-governante (1994-1998).

Ele acrescentou que as relações com a Bolívia também "são distantes", da mesma forma que com a Argentina e o Brasil. Para Samper é irresponsável manter um enfrentamento com a Venezuela. "Com toda sinceridade, me parece irresponsável a atitude do governo de manter até o dia 7 de agosto um enfrentamento com a Venezuela que está nos custando sangue, suor e lágrimas".

Samper opinou, por outro lado, que o presidente Uribe recebeu um país “em chamas” e o entrega “seguro e calmo”. Mas "será a história que julgará se os custos que pagamos por essa maior segurança em matéria de direitos humanos, desinstitucionalização da justiça e isolamento regional foram ou não excessivos", acrescentou.

Santos

Ao se referir ao que espera o presidente eleito, Juan Manuel Santos, Samper disse que "Uribe deveria deixá-lo começar seu governo tranquilamente, sem atrapalhar, como no caso da Venezuela". Ele advertiu que se Santos não tomar decisões rápidas e importantes sobre temas como isolamento internacional, a crise da saúde pública e as relações com a justiça, "sua governabilidade vai ficar comprometida".

A Colômbia passa novamente por um momento crítico em suas relações com a Venezuela, depois que o governo de Uribe afirmou, na semana passada, que tem provas de que chefes guerrilheiros se escondem nesse país.

O presidente Hugo Chávez, que tinha dito que iria participar da posse de Santos, que será realizada no dia 7 de agosto, disse na sexta-feira que não viria, depois que argumentou que sua vida corria perigo. Acrescentou, além disso, que poderia romper relações diplomáticas com a Colômbia em breve.

Venezuela rompe relações diplomáticas com Colômbia

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou hoje (22/7) o rompimento das relações diplomáticas com a Colômbia. A decisão foi tomada após o embaixador colombiano na OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Alfonso Hoyos, apresentar supostas provas ligando as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército Nacional de Libertação) a Caracas.

"Estaremos em alerta porque Uribe é um doente, está cheio de ódio. Não aceitaremos violações à nossa soberania", afirmou Chávez em transmissão da rede Telesur, em referência ao presidente colombiano, Álvaro Uribe que, segundo ele, administra um governo "mafioso" e é "mentiroso".

"Levo a Colômbia no coração. Me sinto um grande colombiano, mas a elite desse país sempre tem atacado os outros povos. Felizmente o governo da Colômbia será trocado em poucos dias", disse Chávez, durante evento ao lado do argentino Diego Maradona.

No dia 15 de julho Bogotá acusou a Venezuela de abrigar guerrilheiros das Farc e do ELN em seu território. O ministro da Defesa colombiano, Gabriel Silva, chegou a fornecer as coordenadas do local exato onde estaria Iván Márquez, um dos comandantes das Farc.

No entanto, o governo da Venezuela respondeu no dia seguinte que "em diversas ocasiões, foi verificada e constatada a falsidade de tais informações. Em oportunidades, as coordenadas transmitidas correspondiam a lugares situados no próprio território colombiano". Caracas também convocou o embaixador em Bogotá para consultas.

De acordo com a chancelaria venezuelana, o anúncio foi uma "tentativa desesperada" de Uribe de "minar o terreno para uma eventual normalização das relações bilaterais".

No mesmo dia, Chávez ameaçou romper relações com a Colômbia e cancelou a ida à posse do presidente eleito Juan Manuel Santos. "Faço um chamado ao presidente eleito: peço que fique longe de Uribe", disse Chávez.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Comunista colombiano corre risco de morte

O secretário-geral do Partido Comunista da Colômbia, o vereador de Bogotá e membro do Comitê Executivo do Pólo Democrático Alternativo (PDA), o antropólogo Jaime Caycedo Turriago, denunciou um plano criminoso para assassiná-lo. À frente do complô estaria "El Diablo", um tenente de Salvatore Mancuso, chefe das quadrilhas criminosas dos paramilitares da Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), atualmente extraditado para os Estados Unidos.
Segundo o presidente Alvaro Uribe, esses grupos estão desmobilizados, mas, na verdade, continuam a cometer crimes e atentados em toda a Colômbia, em conivência com o exército e os serviços de inteligência do DAS, dependentes da Presidência da República.

O dirigente salientou que foi criado um "grupo especial" para matar um conjunto de membros da esquerda e, em particular, os membros do Polo Democrático na capital, e que ele integra a "lista negra". E acrescentou: "as obscuras intenções desses desconhecidos são as de assassinar-me, em resposta às acusações comprovadas que fiz sobre a presença de grupos paramilitares em pelo menos metade das localidades de Bogotá".

Segundo o vereador, o grupo responsável por cometer o homicídio armazenou na cidade "cerca de 700 armas de longo alcance", e levantou o dinheiro necessário para financiar os atentados. Toda a informação foi apresentada por escrito ante a Procuradoria-Geral, à espera de uma investigação "rápida e profunda" que permita desarticular os destacamentos paramilitares.

A denúncia pública é observado com grande preocupação, já que, em menos de três meses, já foram assassinados sete membros do Polo Democrático no país, incluindo o veredaor do PDA do município de Cantón de San Pablo, departamento do Chocó, Rengifo Matínez.

Além disso, o próprio Caycedo é um dos sobreviventes do extermínio da União Patriótica (UP), partido criado em 1985 no âmbito do (fracassado) processo de paz, do governo de então com as FARC, e que viu encurtada a vida de mais de quatro mil dos seus seguidores, incluindo diversos candidatos presidenciais, por ataques por forças paramilitares e de agentes do Estado.

Assim estabeleceram as autoridades judiciárias nacionais e organizações internacionais, como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Este último organismo emitiu, há mais de 15 anos, medidas cautelares para garantir a sobrevivência física do dirigente hoje novamente ameaçado.

O próprio Caycedo foi vítima de um ataque criminoso, do qual conseguiu escapar. Por outro lado, a senadora do PDA, Gloria Inés Ramírez Ríos (que tivemos a oportunidade de conhecer no nosso país, pois integrou, com o sr. Carlos Gaviria, a delegação colombiana para o XIV Encontro do Foro de São Paulo, em maio de 2008, em Montevidéu) falou de forma detalhada e firme ante as autoridades de seu país sobre "a situação de risco de do vereador de Bogotá, Jaime Caycedo, que tem sido vítima de atos criminosos que atentam gravemente contra sua vida e integridade pessoal".

O registro inclui um relato detalhado do que aconteceu em 19 de agosto de 2008, quando o líder se encontrava na sede do Partido Comunista Colombiano e foi seguido até sua casa por três carros e uma motocicleta, cujas placas foram anotadas, fato que foi comunicado ao Ministério Público, e que não teve qualquer explicação oficial.

Em 9 de junho de 2009, houve outra denúncia ante a Procuradoria, porque o nome do vereador apareceu entre os que foram vítimas das interceptações ilegais de comunicação por parte da DAS (as chamadas "cruzadas", que geraram um escândalo de grandes proporções porque a espionagem abarcava políticos da oposição, juízes e dirigentes sociais).

Em 7 de dezembro de 2009, ele relatou pela primeira vez a preparação da lista negra que o incluía. Em, 15 de janeiro de 2010, informou ao procurador que foi seguido e os seus movimentos registrados a partir de um veículo cuja placa registrou. Em 22 de abril, entraram à força na sua residência duas pessoas com uniforme da polícia, sem distintivos nem nomes, dizendo que estavam realizando uma inspeção.

O proprietário do imóvel se negou e, com a ajuda dos vizinhos, os impediu de atuar, diante do que os uniformizados fugiram em uma motocicleta, cuja placa dianteira estava coberta. Tudo isso foi denunciado, sem que houvesse resultado algum.

"Isso mostra de maneira inequívoca que, contra o vereador Jaime Caycedo há um plano sinistro que ameaça seriamente a sua vida e integridade pessoal, pelo que responsabilizamos o governo pelo que possa vir a acontecer", escreve na sua conclusão a senadora Glória Inés, sublinhando que estes fatos "integram a campanha do regime contra a oposição"

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Reflexões do companheiro Fidel

A OUTRA TRAGÉDIA

NA minha reunião com os economistas do Centro de Pesquisas da Economia Mundial (CIEM), terça-feira 13 de julho, falei-lhes do excelente documentário do diretor francês Yann Arthus-Bertrand, com a participação das mais preclaras e bem informadas personalidades internacionais, acerca de outro terrível perigo para a espécie humana que está acontecendo perante os nossos olhos: a destruição do meio ambiente.

O documentário afirma de forma clara e lapidária:

"Na grande aventura da vida na Terra, cada espécie tem um papel que desempenhar, cada espécie tem seu lugar. Nenhuma é inútil ou prejudicial, todas se equilibram. E eis onde você, homo sapiens, humano inteligente, entra na história. Beneficia de um fabuloso legado de quatro bilhões de anos, provido pela Terra. Apenas você tem 200 mil anos, mas já fez mudar a face do mundo."
"A invenção da agricultura mudou a nossa história. Há menos de 10 mil anos disso."
"A agricultura foi a nossa primeira grande revolução. Resultou nos primeiros excedentes e deu origem às cidades e às civilizações. As lembranças de milhares de anos à procura de comida esvairam. Tendo feito do grão a levedura da vida, multiplicamos o número de variedades e aprendemos a adaptá-las a nossos solos e climas. Somos como todas as espécies na Terra. A nossa principal preocupação diária é a de nos alimentarmos. Quando o solo resulta menos generoso e a água se torna escassa somos capazes de fazer esforços prodigiosos para tirar da terra o suficiente para continuarmos vivos."

"Metade da humanidade cultiva o solo; mais de três quartas partes o faz com as mãos."
"Energia pura. A energia do sol, apanhada durante milhões de anos por milhões de plantas há mais de 100 milhões de anos. É carvão. É gás. Mas sobretudo é petróleo."
"Nos últimos 60 anos, a população da Terra quase triplicou. E mais de dois bilhões de pessoas foram viver para as cidades."

"Nova York. A primeira megalópole do mundo é o ícone da exploração da energia que fornece a Terra ao engenho humano. A mão-de-obra de milhões de imigrantes, a energia do carvão, o indispensável poder do petróleo. Os Estados Unidos foram os primeiros em aproveitarem o fenomenal e revolucionário poder do ‘ouro negro’. Nos campos, as máquinas substituíram os homens. Um litro de petróleo gera tanta energia como cem pares de mãos em 24 horas."
"Produzem suficiente grão para alimentar dois bilhões de pessoas. Porém, muito desse grão não é usado para alimentar pessoas. Aqui e em outras nações industrializadas é transformado em comida para o gado ou em biocombustível."

"Tão longe como alcança a vista, fertilizante abaixo, plástico acima. As estufas de Almeria, Espanha, são a horta da Europa. Uma cidade de vegetais de tamanho uniforme espera cada dia centenas de caminhões que os levam para os supermercados do continente. Enquanto mais desenvolvido for um país, mais carne consumirão seus habitantes. Como pode ser satisfeita a procura mundial sem recorrer às fazendas de gado, semelhantes a um campo de concentração? Cada vez mais rápido. Como o ciclo de vida do gado que pode não ter visto nunca uma pradaria."

"Nestas unidades de comida, lotadas de milhões de cabeças de gado, não cresce nem uma fibra de pastagem. Uma frota de caminhões traz de cada canto do país toneladas de grão, alimento de soja, e grânulos de proteína que se converterão em toneladas de carne. O resultado é que se necessitam 100 litros de água para produzir um quilo de batatas, 4 mil litros para um quilo de arroz e 13 mil litros para um quilo de carne bovina. Sem falarmos do petróleo queimado no processo de produção e no transporte.

"Sabemos que o fim do petróleo barato é iminente, mas nos recusamos a acreditar nisso."
"Los Ángeles. Nesta cidade que se espalha ao longo de mais de
cem quilómetros, o número de carros é quase o mesmo que o número de habitantes."
"O dia não parece mais do que um pálido reflexo das noites, que convertem a cidade em um céu estrelado." "Em todas as partes as máquinas cavam, extraem e arrancam da terra os cacos de estrelas enterradas em suas profundezas, desde a sua criação... Minérios."

"…Os 80% desta riqueza mineral é consumida por 20% da população mundial. Antes do final deste século, a mineração excessiva terá acabado com quase a totalidade das reservas do planeta."
"Desde 1950, o volume de comércio internacional se incrementou 15 vezes; e 90% do comércio transita por mar. Quinhentos milhões de contêineres são transportados cada ano, enviados para os maiores centros de consumo…"

"Desde 1950, a captura de peixes se quintuplicou, de 18 para 100 milhões de toneladas métricas por ano. Milhares de navios-fábrica estão esvaziando os oceanos. Três quartas partes das zonas de pesca estão esgotadas, acabadas ou em perigo de ser."
"Quinhentos milhões de humanos moram nas terras desérticas do mundo, mais do que toda a população conjunta da Europa."

"Israel converteu o deserto em terra arável. Ainda que agora essas fazendas sejam irrigadas pelo sistema de gota a gota, o consumo de água continua aumentando junto das exportações."
"O outrora poderoso rio Jordão é agora apenas um riacho; sua água voou para os supermercados de todo o mundo em caixas de frutas e vegetais."

"A Índia está em perigo de ser o país que mais sofrerá pela falta de água no século vindouro. A irrigação maciça alimentou a sua população crescente e nos últimos 50 anos, foram escavados 21 milhões de poços."

"A Las Vegas foi construída no deserto. Ali moram milhões de pessoas. A cada mês seguem chegando aos milhares. Seus habitantes estão entre os maiores consumidores de água do mundo."
"Palm Springs é outra cidade do deserto com vegetação tropical e luxuosos campos de golfe. Quanto tempo mais continuará prosperando esta miragem? A Terra não pode suportar isso."
"O Rio Colorado, que leva água para estas cidades, é um desses rios que já não chega ao mar."
"A escassez de água poderia afetar dois bilhões de pessoas antes de 2025."
"Toda a matéria viva está ligada: água, ar, terra, árvores."

"As florestas primitivas fornecem um hábitat para três quartas partes da biodiversidade do planeta, isto é, de toda a vida na Terra."
"…em apenas 40 anos, a maior floresta tropical do mundo, a do Amazonas, teve sua superfície reduzida em cerca de 20%; nela surgiram fazendas de criação de gado ou fazendas de soja; 95% dessa soja é usada para alimentar gado e aves de curral na Europa e na Ásia. Assim, uma floresta é transformada em carne."

"Mais de dois bilhões de pessoas, quase um terço da população mundial, ainda depende do carvão. No Haiti, um dos países mais pobres do mundo, o carvão é um dos principais bens de consumo da população."

"Nas colinas do Haiti, apenas resta 2% das florestas…"
"Cada semana, mais de um milhão de pessoas aumenta a população das cidades do mundo. Um humano em cada seis mora agora em um ambiente precário, insalubre e superpovoado, sem acesso às necessidades diárias como água, esgotos, eletricidade. A fome alastra-se de novo. Afeta quase um bilhão de pessoas. Pelo planeta todo os pobres lutam por sobreviver, enquanto continuamos escavando à procura de recursos sem os quais já não podemos viver."

"As nossas atividades libertam volumes gigantescos de bióxido de carbono. Sem darmos por isso, molécula a molécula, temos afetado o equilíbrio climático da terra."
"A coberta gelada do Ártico está se derretendo sob o efeito do aquecimento global. Essa calota perdeu 40% de sua espessura em 40 anos. No verão, sua superfície se encolhe ano após ano. Em 2030, poderia desaparecer durante os meses do verão. Há quem diga que em 2015."

"Para 2050, uma quarta parte das espécies terrestres poderia estar ameaçada pela extinção."
"…como a Groenlândia aquece rapidamente, a água doce do continente todo flui para a água salgada dos oceanos."

"O gelo da Groenlândia contém 20% de toda a água doce do planeta. Caso derreter, o nível do mar subirá em cerca de sete metros. A atmosfera do nosso planeta é um tudo indivisível. É um bem de que todos partilhamos."

"Na Groenlândia estão a aparecer lagos na paisagem. A camada de gelo se está derretendo a uma velocidade que nem os cientistas mais pessimistas previam há dez anos. Esses rios alimentados por geleiras se estão unindo mais e mais e emergindo à superfície. Achava-se que a água ficaria congelada nas profundezas do gelo. Antes pelo contrário, flui sob o gelo, levando o córtex de gelo rumo ao mar, onde se quebra convertendo-se em iceberg."

"A expansão da água ao se aquecer causou, só no século XX, uma elevação de 20 centímetros. Tudo se torna instável. Os recifes de coral são extremamente sensíveis à mais mínima mudança na temperatura da água; por volta de 30% deles já sumiu. São um elo essencial na cadeia das espécies."

"Se o nível do mar continuar subindo mais e mais rápido, o que farão as grandes cidades, como Tóquio, a cidade mais povoada do mundo?"

"…na Sibéria, e em muitas partes do mundo, há tanto frio que o solo está constantemente congelado. É conhecido como permafrost. Sob esta superfície descansa uma bomba de tempo climática: metano, um gás de efeito estufa vinte vezes mais poderoso do que o bióxido de carbono. Se o permafrost se derreter, a libertação de metano poderá fazer com que o efeito estufa saia de controlo, com consequências que ninguém pode prever."

"Os 20% da população do mundo consome 80% dos seus recursos."
"O mundo investe doze vezes mais em despesas militares do que em ajuda aos países em desenvolvimento."
"Cinco mil pessoas morrem diariamente ao beberem água contaminada; um bilhão de pessoas não tem acesso à água potável."
"Cerca de um bilhão tem fome."
"Mais de 50% do grão comercializado no mundo é usado para alimento animal ou biocombustíveis."
"As espécies estão morrendo mil vezes mais rápido do que o ritmo natural."
"Três quartas partes das zonas de pesca estão esgotadas, diminuídas ou em descenso perigoso."
"A temperatura média nos últimos 15 anos foi a mais alta jamais registada."

"A camada de gelo é 40% mais delgada do que há 40 anos atrás."
Nos últimos minutos do documentário, o diretor Yann Arthus-Bertrand, amolece a linguagem para elogiar alguns fatos positivos de países aos quais, sem ânimo de ofender nem magoar, viu-se no dever de mencionar.

Suas palavras finais foram:

"É tempo de estarmos todos juntos. O que é importante não é o que se foi, mas o que permanece. Ainda temos metade das florestas do mundo, milhares de rios, lagos e geleiras e milhares de espécies com sucesso.
Hoje sabemos que as soluções estão aqui. Todos temos o poder para mudar. Então, o que estamos esperando?
Depende de nós escrever o que é o seguinte. Juntos."
O tema que vem ocupando a maior parte dos meus esforços: o iminente perigo de uma guerra que seria a última da pré-história da nossa espécie, ao qual dediquei nove Reflexões desde 1º de Junho, constitui um problema que se agrava por dia.
Como é lógico, os 99,9 % das pessoas têm a esperança de que predomine um elementar senso comum.
Infelizmente, devido a todos os elementos da realidade que percebo, não vejo a mais mínima possibilidade de que assim seja.
Portanto, julgo que seria muito mais prático que os nossos povos se preparem para encarar essa realidade. Nisso consistirá a nossa única esperança.
Os iranianos têm feito precisamente isso, como nós fizemos em outubro de 1962, em que optamos por desaparecer antes que deixar cair nossas bandeiras.
Foi ontem como hoje, por desígnios do azar, não méritos da inteligência ou da história individual de qualquer um de nós.

As notícias que chegam cada dia procedentes do Irã, não se afastam um milímetro da posição assinalada por eles de manterem seus justos direitos à paz e ao desenvolvimento, com um elemento novo: já conseguiram produzir 20 quilos de urânio enriquecido ao 20%, suficientes para construir um engenho nuclear, o que enlouquece ainda mais aqueles que há um bom tempo adotaram a decisão de os atacar. Isso o examinei sexta-feira, dia 16, com os nossos embaixadores.
Nem Obama poderia alterá-la, nem mostrou em momento algum a decisão de o fazer.

Fidel Castro Ruz

A esquerda e o Brasil

Por Emir Sader

Atribui-se a um importante ex-ministro da ditadura militar a afirmação de que "melhor que um dia o PT ganhe, fracasse e aí vamos ter tranquilidade para dirigir o país".

Independentemente de que ele continue a pensar isso hoje ou não, o certo é que fez muito bem para o Brasil o PT ter chegado ao governo através de Lula. Não fracassou, ao contrário, mostrou extraordinária capacidade para governar e reverter a tendência estrutural mais grave que o Brasil arrastava ao longo dos séculos - a injustiça, a desigualdade, a exclusão social, marca profunda da forma que nossa história havia assumido desde a colonização, passando pela escravidão, pelos governos oligárquicos, pela ditadura militar e pelo neoliberalismo.

Ao contrário dos maus augúrios, foi construído o governo de maior credibilidade e apoio popular, de maior credibilidade internacional, de maior capacidade de dirigir o Estado brasileiro, protegendo a economia
dos ataques especulativos, retomando o desenvolvimento econômico, no marco de um processo de distribuição de renda e de afirmação de direitos sociais, que nunca o Brasil havia conhecido, fortalecendo e não enfraquecendo a democracia.

Para a esquerda, governar significa, antes de tudo, desnaturalizar as injustiças, sobrepor os direitos ao mercado, fazer do Estado instrumento das grandes maiorias tradicionalmente postergadas, afirmar nossa soberania no plano externo e fazer dela alavanca para a soberania no plano interno. É não aceitar a redução do Estado a instrumento do mercado, é não aceitar a subordinação do país aos interesses das grandes potências que sempre nos submeteram ao atraso e a marginalidade, é buscar dar voz aos setores populares e não aceitar que a "opinião pública" seja formada pelas elites econômicas.

Ao governar, a esquerda não apenas não levou o Brasil à crise e a situações de insegurança e de instabilidade, como, ao contrário, soube conduzir o país frente a pior crise econômica internacional - que ainda afeta profundamente países do centro do capitalismo e os que, na periferia, seguiram subordinados ao comando das potências que geraram a crise.

Soube acumular reservas que servem como colchão externo e interno frente a situações de crise. Soube combinar desenvolvimento com aumento de salários, sem colocar em risco a estabilidade monetária. Soube fortalecer o Estado, para consolidar sua presença democrática, conquistando mais legitimidade para o Estado brasileiro que qualquer outro governo anterior.

O governo também faz bem à esquerda, recorda que seus objetivos dependem da construção de alternativas de governo da sociedade como um todo, da sua capacidade de construir blocos de forças com capacidade hegemônica na sociedade. Que as alianças tem que ser feitas para fortalecer os temas estratégicos do governo. Que tem que se governar para o conjunto do pais, com prioridade para os que representam as maiorias e sempre foram relegados. Que todo projeto vencedor, triunfa porque unifica a grande maioria, porque se transforma em projeto nacional, para ser hegemônico.

Um país que parecia ser destinado a ser governado pelas elites minoritárias, que o produziram e reproduziram como o país mais injusto, mais desigual, do continente mais injusto e desigual, de repente vê criar-se em seu seio uma sensibilidade maioritariamente progressista, que privilegia as políticas sociais e não o ajuste fiscal, um país justo e solidário e não egoísta e mercantil. Bom para a esquerda e bom para o Brasil.

Não há saída para a Colômbia fora da política e da democracia




Por Gilberto Maringoni, em Carta Maior
Mergulhada em um cenário de violência política há quase cinco décadas, a Colômbia elegeu, no último dia 20 de junho, Juan Manuel dos Santos à presidência da República, em segundo turno, com 69% dos votos válidos.

Candidato apoiado pelo atual presidente, Álvaro Uribe, Santos foi seu Ministro da Defesa, um dos articuladores da escalada bélica contra a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e ativo defensor do acordo militar que possibilitou a instalação e a ampliação de bases norteamericanas no país.

A disputa presidencial envolveu ainda Antanás Mockus, ex-prefeito de Bogotá, pelo Partido Verde, que obteve 27,5% dos sufrágios. No primeiro turno, participou ainda Gustavo Petro, senador e ex-guerrilheiro, pelo Pólo Democrático, uma coalizão de partidos de esquerda, obtendo 9,5% da preferência dos eleitores.

Sob a gestão de Uribe, a Colômbia tornou-se, juntamente com o México, o maior sustentáculo da política do governo de George W. Bush na América Latina. Além das bases e de um aumento expressivo em seu orçamento militar, vários grupos paramilitares agem com a complacência oficial no combate à oposição armada.

Para avaliar o quadro político do país, Carta Maior entrevistou Carlos Lozano. Membro da Junta Nacional do Pólo Democrático, integrante do Comitê Central do Partido Comunista Colombiano e editor do semanário Voz, órgão oficial da agremiação, Lozano, 62 anos, comenta os resultados eleitorais, a influência dos EUA e relaciona o poder oficial com os meios de comunicação em seu país. A seguir, os principais trechos da conversa.

Carta Maior: Qual é a situação política, após a vitória de Juan Manuel dos Santos?

Carlos Lozano: As eleições parlamentares e presidenciais foram realizadas sob características que marcam nosso país há décadas: um forte apoio oficial aos candidatos governistas. Praticamente todos os recursos do Estado foram colocados a serviço dos partidos ligados ao presidente Álvaro Uribe.

É o caso, por exemplo, dos programas assistenciais. Eles aglutinam milhões de pessoas. A lei proíbe sua utilização com objetivos eleitorais. Mas houve denúncias, ao longo de toda a campanha. Os beneficiários foram coagidos a apoiar candidaturas oficiais, sob pena de perder sua cobertura. Temos notícias também de proselitismo armado, por parte de paramilitares, sobretudo em regiões rurais, pressionando os camponeses para que votassem em Santos.

CM: Como foi a atuação dos partidos de oposição?

CL: O traço importante dessas eleições é que as pesquisas eleitorais trataram de criar uma aparente polarização entre Juan Manuel dos Santos e Antanás Mockus. Algumas sondagens chegaram a apontar Mockus na dianteira.

Dois ou três dias antes do primeiro turno, havia um empate técnico, que não se materializou nas urnas. A intenção era muito clara: tirar de cena outras forças, em especial a esquerda, representada pelo Pólo Democrático.

No segundo turno, o Pólo propôs a Mockus um acordo de quatro pontos para apoiá-lo. Era algo perfeitamente factível. Mockus não aceitou, alegando, de forma sectária, desejar disputar com suas próprias forças, sem a necessidade de aliados. Aí está o resultado.

Mockus representa realmente um setor não contaminado pelo clientelismo e pela corrupção. Porém, é um setor mais à direita. Na prefeitura de Bogotá, Mockus agiu como um neoliberal e não representava uma alternativa real. Mesmo assim, queríamos derrotar o pior, que era a continuidade do uribismo. Com a recusa de Mockus, resolvemos não votar e não respaldar nenhum dos dois candidatos.

CM: O que é o uribismo?

CL: É uma corrente de ultradireita, que cresceu nos últimos anos, com suporte nos tradicionais Partidos Liberal e Conservador. Esta corrente está vinculada aos interesses dos Estados Unidos e do militarismo, com forte influência de oficiais que passaram pela Escola das Américas. É um anacronismo, mas segue existindo aqui.

O governo alega estar construindo uma “segurança democrática” que gerará confiança e estabilidade para os investimentos internacionais. Por isso, o governo de Uribe, mais do que qualquer outro da América latina, vem estimulando os tratados de livre comércio, em especial com os Estados Unidos, com a Europa e com o Canadá.

CM: Uribe é realmente popular?

CL: Há que se levar em conta a precariedade da democracia colombiana. Além disso, não podemos desconsiderar a existência de um setor importante da população, não apenas os mais ricos, que respalda o governo. Isso inclui camadas médias e setores populares.

O apoio existe, mas não é tão grande como eles alegam. Nas eleições houve 55% de abstenção, pois o voto aqui não é obrigatório. Assim, Juan Manuel dos Santos teve a maioria da minoria, dos 45% que votaram, cerca de 30% do total de eleitores. Nas duas eleições vencidas por Uribe, a abstenção também foi semelhante.

CM: Que impacto eleitoral tiveram os acordos militares com os Estados Unidos, firmados no ano passado?

CL: Há um setor importante do país que apóia tudo isso. O governo difunde a idéia de que as bases estadunidenses trarão paz ao país pela via da guerra, pela derrota militar da guerrilha. Nós, da esquerda, sempre colocamos a necessidade de uma solução negociada e política para o conflito. A direita e o governo alegam que as propostas de diálogo fracassaram e que os gringos resolverão o problema.

CM: Há o argumento de que as bases trarão investimentos e desenvolvimento ao país...

CL: É verdade. A campanha publicitária oficial e os meios de comunicação argumentam que as bases melhorarão as condições de infraestrutura de cidades próximas a elas, que haverá mais lojas, mais restaurantes e mais comércio. Sabemos que as coisas não serão assim.

CM: Há diferenças entre o Plano Colômbia, firmado no governo Clinton (1992-2000), e as bases?

CL: Sim. O Plano Colômbia tinha como objetivo alegado combater o narcotráfico. Começou há cerca de 14 anos, com investimentos de cinco bilhões de dólares. Neste ano, o montante caiu para US$ 400 milhões e em 2011 serão apenas US$ 340 milhões. O governo dos EUA resolveu concentrar todos os seus investimentos nas bases militares. Elas agora são sete, mas podem se ampliar, de acordo com convênio.

Atualmente, o argumento não é apenas combater o narcotráfico, mas atacar o “terrorismo” e dar segurança ao país. Ou seja, um critério muito genérico, pois com segurança do país pode estar subentendida a existência de uma ameaça externa. Isso preocupa a Unasul. Quem ameaça a Colômbia? Há o argumento de que, com as diferenças que o governo tem com Chávez, ele estaria ameaçando o nosso país. É um caminho perigoso.

CM: Há conexão com a reativação da IV Frota dos EUA no Atlântico Sul?

CL: Claro. O projeto é estacionar a IV Frota na base de Malambo, em Barranquilla. Trata-se da principal cidade colombiana na costa do Caribe.

CM: Qual é a relação do uribismo com os meios de comunicação.?

CL: Os grandes meio de comunicação são de propriedade de poderosos grupos econômicos nacionais e internacionais, em estreita relação com o governo. Além disso, Juan Manuel dos Santos integra a família proprietária do jornal El Tiempo, que completará cem anos em 2011. É o mais influente no país e o grupo possui, além do jornal, um canal de televisão em Bogotá e editoras de livros e revistas. É um monopólio.

A família teve um Presidente da República, Eduardo Santos, entre 1938 e 1942. Com a crise econômica, venderam parte das ações ao grupo espanhol Planeta, ligado ao PP, Partido Popular, do ex-Primeiro Ministro José Maria Aznar.

O grupo Planeta deve também ganhar a licitação para o terceiro canal de TV privado que temos aqui. É o único concorrente, algo incrível. Com isso tudo, a tendência política na Colômbia trafega num sentido contrário ao que vem ocorrendo na América Latina, onde a direita perdeu postos importantes.

CM: Como o sr. Avalia a gestão Uribe do ponto de vista social?

CL: O investimento social é mínimo. O governo apresentou uma reforma trabalhista, supostamente para se gerar empregos. O que estamos vendo, pelas últimas estatísticas, é um aumento do desemprego para 12,5% da população economicamente ativa.

A saúde foi privatizada. Eliminaram as cirurgias de alto risco do sistema público. No país, 35% do orçamento público vai para o combate à guerrilha e 25% destina-se aos pagamentos dos serviços da dívida pública.

O principal programa de Uribe foi a “segurança democrática”. Com isso, em 2002, ele assegurou derrotar a guerrilha em 90 dias. As FARC tiveram muitas baixas, mas seguem atuando. Assim, a “segurança democrática” fracassou.

Uribe também buscou um acordo com os paramilitares, para desmobilizá-los. Haveria uma pena máxima de oito anos, independentemente dos crimes, para aqueles que se entregassem. Acabam de condenar os primeiros. São réus confessos de terem cometidos entre 120 e 150 assassinatos. E pegaram oito anos de cárcere!

Mesmo assim, os paramilitares também seguem atuando. Segundo a Corporação Arco-Íris, uma ONG de defesa de direitos humanos, há cerca de oito mil deles em ação. A “segurança democrática” é um fracasso, assim como a política social do governo.

CM: Qual é a saída para a questão da guerrilha?

CL: Há oito anos defendemos uma saída política. Quando falo em fracasso militar, estou me referindo também à guerrilha. O governo não conseguiu derrotá-la e esta não logrou conquistar o poder pela via militar. Então há um fracasso neste caminho. São necessárias mudanças mínimas neste país, para que a guerrilha possa se incorporar à vida democrática.

Fonte: Carta Maior

sábado, 17 de julho de 2010

A esquerda ganha quando soma, une

Postado por Emir Sader às 06:37

Fidel foi sempre quem mais bateu nessa tecla. Contra os dogmatismos, os sectarismos, os isolacionismos, ele sempre reiterou que “a arte da política é a arte de unificar”, que a esquerda triunfou quando soube ganhar setores mais amplos, quando unificou, quando soube desenvolver políticas de alianças.

Foi assim que os bolcheviques se tornaram maioria, ao apelar aos camponeses para que tomassem as terras, realizando seu sonho secular de terra própria, mesmo se isso parecia estar em contradição com os interesses do proletariado urbano, que se propunha a socializar os meios de produção. Foi assim na China, com a aliança com setores do empresariado nacional, para expulsar o invasor japonês e realizar a revolução agrária. Foi assim em Cuba, quando Fidel soube unificar a todas as forças antibatistianas para derrubar a ditadura. Foi assim na Nicarágua, com a frente antisomozista organizada pelo sandinismo.

Como se trata de políticas de alianças,é preciso perguntar-nos sobre os limites dessas alianças e como se conquista hegemonia nessas alianças.
A arte da construção da uma estratégia hegemônica está, em primeiro lugar, em organizar solidamente as forças próprias, aquelas interessadas profundamente no projeto de transformações da sociedade. No nosso caso, de superação do neoliberalismo e de construção de uma sociedade justa, solidária, democrática e soberana.

O segundo passo é o de construir alianças com forças próximas, no nosso caso, com setores médios da sociedade, que tem diferenças com a grande massa popular, mas que podem somar-se ao novo bloco hegemônico, conforme as plataformas que se consiga elaborar.

Organizadas as forças próprias, somadas as aliadas, se trata de neutralizar as forças que não se somariam ao nosso campo, buscando isolar ao máximo as forças adversárias. Essa a arquitetura que pode permitir a vitória da esquerda, a organização do campo popular e a constituição de um novo bloco de forças no poder.

O sectarismo, o dogmatismo são caminhos de derrota segura. Afincar-se nos princípios, sem enfrentar os obstáculos para construir uma força vitoriosa, é ficar de bem consigo mesmo – “não trair os princípios”, defender a teoria contra a realidade -, centrar a ação na luta ideológica e não nas necessidades de construção política de uma alternativa vitoriosa. O isolamento e a derrota dessas vias no Brasil é a confirmação dessa tese.

Em uma aliança se perde a hegemonia quando se cede o essencial ao aliado, na verdade um inimigo a que se converte quem concede. FHC aliou-se ao então PFL, não para impor o programa do seu partido, mas para realizar o programa da direita – o neoliberal. Nessa aliança se impôs a hegemonia neoliberal. Uma força que se pretendia social democrata realizou um programa originalmente contraposto à sua natureza.

Lula fez uma aliança ampla – não apenas com o PMDB e outros partidos -, mas também com o capital financeiro, mediante a Carta aos brasileiros, o Meirelles no Banco Central e a manutenção do ajuste fiscal e do superávit fiscal, conforme as orientações levadas a cabo por Palocci. Neutralizou forças adversárias, que ameaçavam desestabilizar a economia, mediante ataque especulativo que já havia dobrado o valor do dólar durante a campanha eleitoral.

Ao longo do tempo, com as transformações operadas no governo, a hegemonia do projeto original do Lula foi se impondo. O tema do desenvolvimento passou a ser central, com um modelo intrinsecamente vinculado à distribuição de renda, ao mesmo tempo que a reinserção internacional se consolidou, privilegiando alianças com os governos progressistas da América Latina e com as principais forças do Sul do mundo. O Estado, por sua vez, voltou a ter um papel de indutor do desenvolvimento e de garantia das extensão das políticas sociais.

Os aliados políticos e econômicos continuaram a ter força e a ocupar espaços dentro do governo. A maioria parlamentar do PMDB ficou representada na política do agro negócio, os interesses do setor privado de comunicações, assim como os das FFAA – em três ministérios importantes no governo. Da mesma formal, a centralidade do capital financeiro no neoliberalismo garantiu uma independência de fato do Banco Central.

Esses espaços enfraqueceram a hegemonia do projeto original, mas permitiram sua imposição no essencial. O agronegócio teve contrapontos no Ministério de Desenvolvimento Agrário, a política de comunicações em iniciativas como a TV Brasil e a Conferencia Nacional de Comunicações, as FFAA no Plano Nacional dos Direitos Humanos, o Banco Central em ações indutoras sobre a taxa de juros e no papel determinante que políticas com o PAC, o Minha casa, minha vida.

As fronteiras das alianças e a questão da hegemonia provocaram tensões permanentes, pelos equilíbrios instáveis que provocam essas convivências. Mas, como se sabe, sem maioria no Congresso, o governo quase caiu em 2005. A aliança com o PMDB – com as contrapartidas dos ministérios mencionados – foi o preço a pagar para a estabilidade política do governo.

Um dos problemas originários do governo Lula foi que ele triunfou depois de uma década de ofensiva contra o movimento popular, que passou a uma situação de refluxo, tendo como um dos resultados a minoria parlamentar e de governos estaduais com que o governo Lula teve que conviver, mesmo depois da reeleição de 2006.

Por isso uma das disputas mais importantes este ano é o da correlação de forças no Parlamento, para garantir para um governo Dilma uma maioria de esquerda no Congresso, com dependência menor ali e na composição do governo. Assim se disputam os limites das alianças e a hegemonia.

Diferença fundamental na política de alianças de FHC e de Lula é a questão da hegemonia, da política levada adiante. A prioridade das políticas sociais – que muda a face da sociedade brasileira –, a nova inserção internacional do Brasil, o papel do Estado e das políticas de desenvolvimento – dão o caráter do governo Lula. As alianças devem viabilizar sua centralidade. A correlação de forças das alianças está em jogo nas eleições parlamentares deste ano.

Foi um governo em permanente disputa, com duas etapas claramente delineadas (Veja-se o artigo de Nelson Barbosa no livro “Brasil, entre o passado e o futuro”, organizado pelo Marco Aurélio Garcia e por mim, publicado pela Boitempo e pela Perseu Abramo.), com o ajuste fiscal predominando na primeira, o desenvolvimento econômico e social na segunda. A coordenação do governo realizada pela Dilma representou exatamente essa segunda fase, de que o seu governo deve ser continuação. O que não significava que as tensões apontadas não permaneçam. Mas elas podem ser enfrentadas numa correlação de forças mais favorável à esquerda e em um marco de uma nova grande derrota da direita, que abre espaço para um avanço estratégico do projeto de construção de uma sociedade justa, solidária, democrática e soberana.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O grito de Independência, um grito de batalha

"Aqui não haverá tiranos nem anarquia enquanto eu respire de espada em mãos"
Simón Bolívar.

Estamos em marcha pela dignidade da pátria. A Batalha pela independência não terminou e entrou já em sua etapa decisiva.

Não podemos proclamarmos livres quando a política de dominação de um império nos subjuga e nos submete com a cumplicidade apátrida das oligarquias e, nos aprisionam as desumanas correntes da escravidão neoliberal.

Um país ocupado militarmente não é independente. Não podemos declararmos soberanos quando a força militar de uma potência estrangeira enche de bases o território pátrio, pisoteia a dignidade e a bandeira dos EUA ondeia sobre nossa América sua ameaça e espólio.
Mas, sim podemos declararmos povo em luta pela liberdade!

Estamos já em batalha. Com a certeza de Bolívar, "todos os povos do mundo que tem lutado pela liberdade têm exterminado por fim seus tiranos". A justa causa dos povos não pode ser derrotada. A espada de batalha do Libertador, agora em mãos do povo, abrirá os caminhos da esperança e triunfará na contenda da definitiva emancipação.

Estendamos hoje a insígnia com es três cores do bicentenário como símbolo de luta e homenagem aos libertadores que sonharam a Grande Nação de Repúblicas, escudo de nosso destino, aos que nos deram pátria pensando na humanidade e se sacrificaram nos campos de batalha para dignificar os homens e mulheres americanos.

Como duzentos anos atrás "em Bolívar está a emancipação". Essa certeza espalhada sobre o céu de América pelo prócer Camilo Torres, deve ser a divisa de nossa campanha na alvorada de Socialismo e Pátria Grande que ilumina o Continente e a América Insular. A colheita amorosa dos libertadores concebida para os povos não pode ser usurpada nem um minuto a mais pelos herdeiros de Satander e sua perfidia; deve ser desfrutada pelos destinatários originais. O sangue dos libertadores não abonou os campos de batalha para fazer mais ricos aos ricos nem facilitar novas correntes coloniais, mas para redimir o soberano que é o povo.

Rendemos tributo nesta comemoração ao inca Tupac Amaru, ao comuneiro José Antonio Galán, ao negro José Leonardo Chirinos e a todos os esquartejados pela criminal opressão da coroa espanhola. Honra à jovem Policarpa Salavarrieta arcabuzada pelos terroristas pacificadores encabeçados por o general espanhol Paulo Morillo. Glória eterna a Francisco José de Calas, Camilo Torres Tenório, a Francisco Carbonel e, a todos aqueles que supliciados nos patíbulos nos mostraram com seu exemplo o caminho da liberdade.

Aos precursores de nossa independência, Miranda, Nariño e Espejo, nosso reconhecimento eterno. Desenterremos esses grandes patriotas, tirando-os das covas comuns do esquecimento nas quais foram confinados pela mentirosa historiografia dos que desviaram o rumo da pátria, para que continuem na batalha.

Ainda ressoava o eco da vitória de Ayacuho quando entalhou a contra-revolução na ambição sem medida da oligarquia crioula pelo poder político ilimitado. Ela encontrou na Doutrina Monroe intriga e alento permanente para dividir o território e despedaçar a obra legislativa bolivariana que mandava colocar o interesse comum por encima do particular.

Tal como o prognosticou o Libertador, não tardaram em buscar um novo amo. Atacaram a concepção bolivariana da unidade de povos em uma Grande Nação, apoiados no sofisma da Doutrina Monroe. Ela foi seu ponto de apóio para assaltar o poder e lograr seu miserável sonho de substituir os vireis na opressão. Essa Doutrina era o disfarce da avaricia do Destino Manifesto, que jamais pensou enfrentar a armada colonial britânica nem a Santa Aliança que projetava restaurar em América o predomínio do trono espanhol, mas anexar repúblicas, saquear recursos e, submeter os povos politicamente.

Traíram a grandeza trocando a possibilidade do surgimento de um novo poder continental que fosse equilíbrio do universo e esperança da humanidade pela submissão a uma potência estrangeira. Só lhes interessava assaltar o poder político com a ajuda externa para acrescentar suas fortunas pessoais e pôr-as a salvo da revolução social. Dóceis a seu novo amo desmobilizaram, por conveniência recíproca, o Exército Libertador, único garante da independência e as conquistas sociais, força dissuasiva ao mesmo tempo, das ambições neocoloniais do governo de Washington.

Os codiciosos e agressivos líderes no Norte, inspirados sempre no cálculo aritmético, possuídos pela ambição de erigir sua prosperidade sobre a base do espólio dos povos do sul, não podiam tolerar a implantação do plano estratégico de Bolívar no Congresso de Panamá que contemplava a formação de uma liga perpétua das nações antes colônias espanholas, presidida por uma autoridade política permanente, com um exército unificado concebido para a defesa e para a campanha da libertação das ilhas de Cuba e Porto Rico, consideradas por Washington, apêndices de seu espaço continental. Lhes mortificava a idéia do Libertador de fazer efetiva a cidadania hispanoamericana entre povos irmãos, o estabelecimento de um poder político inimigo da escravidão, e sobretudo, o propósito de impulsionar um regime de comércio preferencial que fizera prevalecer a cláusula de nação mais favorecida para as repúblicas irmãs coligadas.
Todas essa medidas pensada pelo Libertador Simón Bolívar para preservar a independência e a dignidade das nações hispanoamericanas se interponham como fortificação inexpugnável frente às insólitas pretensões do Destino Manifesto, inventado pelos fundadores do império para auto-legitimar o espólio.

Por isso enviaram a instrução perversa a seus ministros na Colômbia, México e Perú, de estimular as rivalidades entre nossas repúblicas, o espírito chauvinista, desatar a espionagem, a conspiração e a intriga, minar o prestígio do Libertador e, por isso, foi Bolívar o alvo de seus iracundos ataques.

Eliminar a figura política do Libertador, sua poderosa influencia em América Latina foi sua obsessão até causar sua morte física e o eclipse transitório de seu projeto político e social.
Todas as desgraças e misérias de Nossa América tem essa origem. "Os Estados Unidos parecem destinados pela providência para encher a América de misérias em nome da liberdade", tinha profetizado Simón Bolívar.

A revolução ficou inconclusa desde 1830 pela ação predadora da banda de excludentes crioulos comandada pelo governo de Washington.

"Toda revolução - dizia o Libertador - tem três etapas: a da guerra, a reformadora e a da organização. A primeira pertence ao passado; foi obra dos soldados. A segunda, a cobrimos com o Congresso de Cúcuta e o governo de Bogotá. A terceira, será abordada por mim em Panamá".
Esse é o ponto de partida para retomar a obra da independência e a revolução. A 200 anos de iniciada a gesta independentista o projeto de Bolívar segue assombrosamente vigente, como se houvesse sido concebido para os tempos de hoje. O povo que pode, o povo que constrói, tem a palavra. E desta vez Bolívar é o povo empunhando sua espada com a irredutível determinação de lutar pela concretização de seu grande sonho.

Mas, o só grito de independência não é suficiente; ficou demonstrado pela explosão simultânea de gritos que estremeceram o Continente e, que foram calados rapidamente pelas sanguinárias forças punitivas da coroa. Nenhum povo pode obter sua liberdade se carece de força própria. Desta vez, o novo grito de independência, deve ser o grito de todos, o grito dos excluídos, reforçado pela mobilização decidida, com a luta multiforme, com as armas da unidade, da inteligência e da força. É esta a hora de todos os povos. Eles têm combatido e combatem hoje, são eles os que aportam milhares de heróis destacados ou anônimos. Foi o povo a força viva do Exército bolivariano que derrotou o regime colonial na América do Sul e, será protagonista do triunfo inevitável da revolução política e social.

Há uma espiral ascendendo rumo à liberdade. A luta dos patriotas do século XIX tem um fio condutor, uma articulação com a dos patriotas do século XXI. Aqueles lutaram em um agitado contexto de crise do mundo colonial. Iniciava-se a consolidação do sistema capitalista com o saqueio e a escravidão de povos, mas, ao mesmo tempo, a invasão napoleônica a Espanha estimulava em Hispanoamérica a ruptura radical com o regime colonial. A luta dos patriotas do Século XXI pela definitiva independência, não só está ligada à derrota do sistema capitalista e à dominação imperial, senão que exige a superação desse sistema decadente e a chegada de uma nova era de justiça: A do Socialismo e da Pátria Grande. A atual crise estrutural do capitalismo é o toque do clarim que anuncia ao povo que está na ora de se lançar à batalha definitiva pela emancipação.

Washington está preocupado com Bolívar, ainda, vivo e palpitante nos anseios de justiça dos povos, na vigência de seu pensamento e projeto político e social, no reencontro dos excluídos com a historia verdadeira que lhes diz que foram eles, sua dignidade, o objetivo principal do projeto originário de nação.

Como o império enxerga na consciência dos povos um obstáculo ao espólio, então, recorre à força e à movimentação de seu poderio militar para negar por meio da violência o a dissuasão, o que exigem o senso comum e a justiça. Não nascemos para ser vassalos de ninguém, nem pátio traseiro de potência alguma. A América do Sul é nossa porque nascemos nela. Temos direito à dignidade humana e a construir o modelo de sociedade que nos leve a construir nossa felicidade.
O que nos importa que EUA espalhe suas bases militares no Caribe e no Continente, se estamos dispostos a ser livres. Como diria Bolívar à meio da efervescência independentista da Sociedade Patriótica: "ponhamos sem temor a pedra fundamental da liberdade suramericana; vacilar é sucumbir".

Enfrentemos com o escudo da dignidade latinoamericana e caribenha as incessantes agressões e desrespeitos do monstro do norte, fundido esse escudo no mais duro e resistente aço da unidade. "Porque a divisão é a que nos está matando", devemos destruí-la. A dispersão e ausência de unidade são as responsáveis pelo tremendo abismo que nos separa de nosso destino de Grande Nação, de potência de humanidade e liberdade. Rompamos as correntes mentais e culturais que mantém presa a consciência coletiva. Nosso dever é desconhecer o escravizante canto de sereia do império e, escutar a palavra amorosa do pai e Libertador, que nos diz, que "unidos seremos fortes e mereceremos respeito"; divididos e isolados, pereceremos". A unidade é nossa força e nossa esperança.

Rechacemos com decoro pátrio as bases e avançados operativos militares do exército dos EUA na Colômbia. Castiguemos com o repúdio coletivo os governantes vassalos, de colônia, que permitiram o ultraje e que emprestaram o território como base de agressão ianque contra os povos do Continente; os apátridas que têm ajoelhado por 200 anos nossa dignidade ante a águia imperial e, que têm cravado o punhal da política neoliberal e do Fundo Monetário Internacional no coração da Colômbia; os desavergonhados peões do império que emprestam seu sentimento escravo para impedir em nome de Washington a incontestável ola bolivariana que percorre o Continente.

A marcha patriótica bicentenária avança já. Como dizia Bolívar: "o impulso da revolução está dado, já ninguém o poderá deter (...) O exemplo da liberdade é sedutor e, aquele da liberdade doméstica é imperioso e arrebatador (...) Devemos triunfar pelo caminho da revolução e não por outro (...) A lei da repartição de bens é para toda Colômbia"

Começou a mobilização dos povos. Estamos nessa batalha. Com a espada do Grande Herói triunfará a independência definitiva, a Partia Grande e o Socialismo.

Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP
Montanhas da Colômbia julho 15 de 2010
Ano do bicentenário do grito de independência.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Um Brasil sem analfabetos

Por Emir Sáder

O Brasil teve uma expansão significativa dos direitos sociais da grande maioria da sua população nos últimos anos, extensão do sistema educacional, porém persistem entre 10 e 13 milhões de analfabetos – sobretudo de terceira idade – e grande quantidade de analfabetos funcionais – que aprenderam a ler mas que, sem prática posterior, são incapazes de ler e responder uma carta.
E, ao mesmo tempo, dispomos do melhor método de alfabetização – o método Paulo Freire - que, ao mesmo tempo que permite o aprendizado da leitura e da escrita, favorece a consciência social das pessoas.

Até mesmo países de nível de renda muito mais baixo do que o nosso, como a Bolívia, valendo-se de um método muito eficaz, mas menos elaborado, como o método cubano, terminaram com o analfabetismo, segundo constatação da Unesco. A Bolívia, que tem uma grande complexidade cultural e lingüística, porque a massa da população fala aymara, quéchua, guarani, castelhano e outros muitos dialetos.
Não podemos permitir que milhões de brasileiros não saibam ler e, não apenas, estejam impedidos de orientar-se minimamente como um cidadão deve fazê-lo para informações básicas, mas também impedidos de conhecer a cultura brasileira – aquilo que o Brasil produz de melhor. Impedidos de conhecer Jorge Amado, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Morais, Guimarães Rosa – apenas para citar alguns. Todos têm todo o direito de não gostar de autores, mas devem ter todo o direito de conhecer, de ter acesso ao que de melhor o Brasil produz.

Um mutirão, organizado pelo Ministério da Educação, de que participem ativamente as entidades estudantis, as centrais sindicais, os movimentos sociais e culturais, que comece pela elaboração de método adequado aos da terceira idade e que mobilize centenas de milhares de jovens e militantes de todos os setores da população, poderá elevar o Brasil nos próximos quatro a anos a “país livre do analfabetismo”. Seremos um pouco mais democráticos, menos injustos, mais cultos. Além de preparar-nos melhor para produzir uma cultura muito mais plural, diversificada, reflexo da sociedade brasileira realmente existente e não produto do país que as elites gostariam que o Brasil continuasse sendo. Um Brasil para todos significa um Brasil sem analfabetismo.