"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Carta do Padre Javier Giraldo ao Padre John Dear sobre o convite ao ex-presidente Uribe para ser catedrático da Georgetown University

6 de setembro de 2010

Prezado John:

Recebe um fraternal e carinhoso abraço.

Escrevo muito preocupado pelo fato de que na nossa universidade jesuíta de Georgetown tenham vinculado como docente ao ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vélez. Não termino de receber mensagens de pessoas e grupos que sofreram enormemente durante seu governo, que reclamam e questionam a atitude da nossa Companhia ou a sua falta de discernimento ético ao tomar esse tipo de decisão.

É possível que a direção de Georgetown tenha recebido opiniões positivas de colombianos de altas posições econômicas ou políticas, mas é difícil que ignorem ao menos as profundas controvérsias éticas que levantou seu governo e os questionamentos e sanções que recebeu de muitos organismos internacionais que tratam de proteger a dignidade humana. O simples fato de que durante sua carreira política, desde quando era Governador do Departamento de Antioquia (1995-1997) tivesse fundado e protegido tantos grupos paramilitares, chamados eufemisticamente de “Convivir”, que assassinaram e desapareceram a milhares de pessoas e deslocaram multidões cometendo muitas outras atrocidades, implica em uma exigência de censura ética para encomendar-lhe qualquer responsabilidade no futuro. Mas não somente continuou patrocinando esses grupos paramilitares, mas os manteve e os complementou com um novo modelo de paramilitarismo legalizado, como são as redes de informantes, as redes de cooperantes e o novo tipo de empresas de segurança privada que envolve vários milhões de civis em atividades militares relacionadas com o conflito armado interno, enquanto mentia à comunidade internacional com uma falsa desativação dos paramilitares.

Além disso, foi escandalosa durante seu governo a prática dos “falsos positivos” consistente em assassinar civis, principalmente camponeses, e depois de mortos vestirem-los de combatentes para justificar a sua morte. Com isso pretendia mostrar falsas vitórias militares sobre os rebeldes e eliminar aos ativistas dos movimentos sociais que lutam pela justiça.

A corrupção durante seu governo foi mais do que escandalosa, não só pela presença de narcotraficantes nos cargos públicos, mas porque o Congresso e muitos cargos de governo foram ocupados por delinquentes. Hoje há mais de cem congressistas envolvidos em processos criminais, todos eles do entorno eleitoral mais próximo do ex-presidente Uribe.
Foi escandalosa a compra de consciências para manipular os aparatos de justiça, o que terminou destruindo, em níveis muito profundos, a consciência moral do país. Também foi escandalosa a corrupção com que seus ministros mais próximos manejaram a política agrária para favorecer os mais ricos com os dinheiros públicos, enquanto impedia e estigmatizava os projetos sociais. A corrupção dos seus filhos, para se enriquecer às custas das vantagens de poder, escandalizou em seu momento a toda a nação. Também utilizou o organismo de segurança que estava diretamente sob seu controle (Departamento Administrativo de Segurança) para espionar mediante controles telefônicos clandestinos, às Cortes de Justiça, aos políticos da oposição, aos movimentos sociais e de direitos humanos.

Foram extremamente escandalosos os mecanismos corruptos dos quais se utilizou para conseguir a sua reeleição à Presidência em 2006, o que têm levado a ministros e colaboradores próximos ad-portas da cadeia. O manejo que fez de coordenação entre o Exército e os grupos paramilitares levou a que durante seu período houvesse 14.000 execuções extrajudiciais. Suas estratégias de impunidade para quem desde o Estado ou o Para-estado perpetraram crimes de lesa humanidade, passarão à historia por seu atrevimento.

A decisão dos jesuítas de Georgetown de oferecer uma cátedra a Álvaro Uribe, não só ofende profundamente aos colombianos que ainda conservam princípios éticos, mas põe em alto risco a formação ética dos jovens que frequentam a nossa universidade em Washington. Onde fica a ética da Companhia de Jesús?

Escrevo estas linhas porque estou certo que compartilhas nossas preocupações e talvez possa fazê-las chegar aos jesuítas de Georgetown e a outros círculos de opinião do teu entorno de simpatizantes pela justiça.

Recebe um forte abraço.

Javier Giraldo Moreno, S. J.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Brasil ajuda a desenhar um novo mapa do mundo

Uma boa política externa exige prudência. Mas também exige ousadia. Não pode basear-se na timidez ou no complexo de inferioridade. É comum escutar que os países devem atuar de acordo com os seus meios, o que é quase uma obviedade. Mas o maior erro é subestimá-los. Ao longo destes quase oito anos, o Brasil atuou com ousadia e, assim como fizeram outros países em desenvolvimento, mudou seu lugar no mundo. Esses países são vistos hoje, inclusive pelos eventuais críticos, como atores que estão recebendo crescentes responsabilidades e um papel cada vez mais central nas decisões que afetam os destinos do planeta. O artigo é de Celso Amorim.

Celso Amorim (*)

Há sete anos, quando se falava da necessidade de mudanças na geografia econômica mundial ou se dizia que o Brasil e outros países deveriam desempenhar um papel mais relevante na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou integrar-se de modo permanente ao Conselho de Segurança na ONU, muitos reagiam com ceticismo. Desde então, o mundo e o Brasil mudaram numa velocidade acelerada e algumas supostas “verdades” do passado vão se rendendo ante a evidência dos fatos. As diferenças no ritmo de seu crescimento econômico em relação aos países desenvolvidos converteram os países em desenvolvimento em atores centrais da economia mundial.

A maior capacidade de articulação Sul-Sul – na OMC, no FMI, na ONU e em novas coalizões como o BRIC – eleva a voz de países que antes estavam relegados a uma posição secundária. Quando mais os países em desenvolvimento conversam e cooperam entre si, mais eles são escutados pelos ricos. A recente crise financeira mostrou de maneira ainda mais evidente o fato de que o mundo já não pode ser governado por um consórcio de alguns poucos países.

O Brasil vem tentando de forma ousada desempenhar seu papel neste novo cenário. Após sete anos e meio de governo do presidente Lula, a visão que se tem do país no exterior é outra. É inegável o peso cada vez maior que o Brasil, assim como um novo grupo de países, tem hoje na discussão dos principais temas da agenda internacional, como mudança climática, comércio internacional, finanças, paz e segurança mundial. Esses países trazem uma nova forma de enxergar os problemas do mundo e contribuem para um novo equilíbrio internacional.

No caso do Brasil, essa mudança de percepção deveu-se, em primeiro lugar, à transformação da realidade econômica, social e política do país. Avanços nas mais diversas áreas, desde o equilíbrio macroeconômico até o resgate da dívida social, fizeram do Brasil um país mais estável e menos injusto. As qualidades pessoais e o compromisso direto do presidente Lula em temas internacionais colaboraram para levar a contribuição brasileira aos principais debates internacionais.

O Brasil está desenvolvendo uma política externa abrangente e protagonista. Buscamos construir coalizões que vão mais além das alianças e relações tradicionais, as quais tratamos, por outro lado, de manter e aprofundar, como a formalização da Relação Estratégica com a União Européia e do Diálogo Global com os Estados Unidos.

O eloqüente crescimento de nossas exportações para os países em desenvolvimento e criação de mecanismos de diálogo e concertação, como a Unasul, o G-20 na OMC, o Fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e o grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) são expressões dessa política externa universalista e livre de visões pequenas do que pode e deve ser a atuação de um país com as características do Brasil.

A base dessa nova política externa foi o aprofundamento da integração sulamericana. Um dos principais ativos de que o Brasil dispõe hoje no cenário internacional é a convivência harmoniosa com seus vizinhos, começando pela intensa relação que mantemos com a Argentina. O governo do presidente Lula empenhou-se, desde o primeiro dia, em integrar o continente sulamericano por meio do comércio, da infraestrutura e do diálogo político.

O Acordo Mercosul-Comunidade Andina criou, na prática, uma zona de livre comércio que envolve toda a América do Sul. A integração física do continente avançou de uma forma notável, incluindo aí a conexão entre o Atlântico e o Pacífico. Nossos esforços para a criação de uma comunidade sulamericana levaram à fundação de uma nova entidade: a União das Nações Sulamericanas (Unasul).

Apoiado nas bases de uma América do Sul mais integrada, o Brasil contribuiu para a criação de mecanismos de diálogo e cooperação com países de outras regiões, fundados na percepção de que a realidade internacional já não permite a marginalização do mundo em desenvolvimento. A formação do G-20 da OMC, na Reunião Ministerial de Cancun, de 2003, marcou a maturidade dos países do Sul, mudando de forma definitiva o modelo de tomada de decisão nas negociações comerciais.

O IBAS responde aos anseios de concertação entre três grandes democracias multiétnicas e multiculturais, que tem muito a dizer ao mundo em termos de afirmação da tolerância e de conciliação entre o desenvolvimento e a democracia. Além da concertação política e da cooperação entre os três países, o IBAS se converteu em um modelo para os projetos em favor de nações mais pobres, demonstrando, na prática, que a solidariedade não é um atributo exclusivo dos ricos.

Também lançamos as cúpulas dos países sulamericanos com os países africanos (ASA) e com os países árabes (ASPA). Construímos pontes e políticas entre regiões até então distantes umas das outras, a despeito de suas complementaridades naturais. Essa aproximação política resultou em notáveis avanços nas relações econômicas. O comércio do Brasil com os países árabes quadruplicou em sete anos. Com a África, se multiplicou por cinco e chegou a mais de 26 bilhões de dólares, cifra superior a do comércio com sócios tradicionais como Alemanha e Japão.

Essas novas coalizões ajudaram a mudar o mundo. No campo econômico, a substituição do G-7 pelo G-20 como principal instância de deliberação sobre os rumos da produção e das finanças internacionais é o reconhecimento de que as decisões sobre a economia mundial careciam de legitimidade e eficácia sem a participação dos países ditos emergentes.

Também no terreno da segurança internacional, quando Brasil e Turquia convenceram o Irã a assumir os compromissos previstos na Declaração de Teerã, ficou demonstrado que novas visões e formas de atuar são necessárias para lidar com temas tratados até então exclusivamente pelos atuais membros do Conselho de Segurança da ONU. Apesar das resistências iniciais a uma iniciativa de uma nação que não pertence ao clube fechado das potências nucleares, estamos seguros de que a direção do diálogo ali assinalada servirá de base para as futuras negociações e para a eventual solução da questão.

Uma boa política externa exige prudência. Mas também exige ousadia. Não pode basear-se na timidez ou no complexo de inferioridade. É comum escutar que os países devem atuar de acordo com os seus meios, o que é quase uma obviedade. Mas o maior erro é subestimá-los.

Ao longo destes quase oito anos, o Brasil atuou com ousadia e, assim como fizeram outros países em desenvolvimento, mudou seu lugar no mundo. Esses países são vistos hoje, inclusive pelos eventuais críticos, como atores que estão recebendo crescentes responsabilidades e um papel cada vez mais central nas decisões que afetam os destinos do planeta.

(*) Celso Amorim é ministro de Relações Exteriores do Brasil. Artigo publicado originalmente no jornal El País (Espanha).




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Stédile: 90% dos movimentos sociais estão com Dilma

João Pedro Stédile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está otimista. Depois da derrota eleitoral de Lula, em 1989, ele acredita que os movimentos sociais brasileiros enfrentaram um longo período de hibernação.

Na noite desta quarta-feira João Pedro nos recebeu no casarão que é sede do MST em São Paulo, uma propriedade que foi comprada com dinheiro arrecadado pelo fotógrafo Sebastião Salgado em uma exposição internacional de fotos do movimento. Ele agora está de olho em um galpão industrial do bairro, que gostaria de transformar em um centro cultural. O MST faz muitos outros planos: a produção de arroz e suco de uva orgânicos para servir na merenda escolar, um projeto para a alfabetização de adultos e a formação universitária dos sem terra estão entre eles (o movimento já “formou” dez doutores).

Leia abaixo a entrevista que o líder dos sem-terra concedeu ao jornalista Luiz Carlos Azenha, que edita o blog Viomundo:

Viomundo: Bom, vamos lá começar então perguntando sobre a conjuntura política. Eu li o seu artigo sobre a necessidade dos movimentos sociais apoiarem a candidatura da Dilma. Por que essa sua posição?

Stédile: A maioria dos movimentos não fez um debate explícito sobre quem apoiar para preservar uma certa autonomia, ou seja, como não somos partidos políticos — e mesmo o movimento sindical, mesmo a UNE na sua plenária ela definiu contra o Serra, mas sem indicação de voto — porque a rigor a nossa base deve votar de acordo com a sua consciência, aqui não é um comitê central que decide vota em fulano e todo mundo baixa a cabeça. A natureza do movimento social é muito mais ampla. No entanto, eu acho que se criou um ambiente político no Brasil nos últimos meses que levou a que 90% dos movimentos sociais arregaçassem as mangas e trabalhassem contra o Serra e a favor da Dilma, na perspectiva de que num governo Dilma vai ter uma correlação de forças mais propícia para fazer a luta social e para apresentar propostas de mudanças estruturais, que é o que a sociedade brasileira precisa.

Viomundo: Que propostas você acredita sejam as mais importantes?

Stédile: Há nos vários campos. Por exemplo, na política econômica. Não basta seguir mais quatro anos do mesmo. Nós precisamos enfrentar radicalmente o problema do superavit primário. Nenhum país do mundo — dos países grandes, de economias grandes — pratica superavit primário, só Brasil e Argentina. Por que manter essa política que na verdade é um processo de apropriação da poupança nacional, que é recolhida na forma de impostos de todo mundo, de forma compulsória, vai para a Receita Federal e a Receita Federal separa 26% para pagar juro? Eu espero que o governo inclusive tenha aprendido com a crise do ano passado, porque o que salvou o Brasil de um efeito mais grave na economia foi que o Lula sabiamente tirou 100 bilhões do superavit primário e botou no BNDES e esses 100 bilhões foi que garantiu o crescimento econômico, ou seja, ele foi direcionado para investimentos produtivos.

Bem, o tema dos juros — é um absurdo a taxa de juros atual, não só a Selic, que é [a taxa] que o governo paga, mas sobretudo o que as pessoas e empresas pagam. Cartão de crédito no Brasil, que é o que financia o consumo da classe média, com taxa de juro de 190% ao ano, mas nem na crise de 19 no período do Hitler, que justificou a ditadura dele, havia uma taxa de juro tão alta, real, isso tem que mudar.

Tem que mudar a jornada de trabalho. Na conjuntura anterior nós não tivemos força para emplacar 40 horas. Eu acho que agora nós vamos ter unidade de todas as centrais, dos movimentos sociais para fazer um movimento mais vigoroso e emplacar a jornada de trabalho. Então, você veja, só esses três aspectos na política econômica, isso altera a correlação de forças na sociedade. Isso significaria mais distribuição de renda para os trabalhadores, melhores condições para os que produzem a riqueza.

Hoje, no entanto, ele acredita que estejam novamente em ascensão. Identifica no apoio da maior parte deles a Dilma Rousseff uma unidade que há muito não via, a ponto da candidata reunir em torno dela apoios que nem mesmo Lula conseguiu, em 2002 e 2006.

Bem, na agricultura nós temos vários pontos que são fundamentais para mudar. Desde acelerar a reforma agrária, porque nós não temos reforma agrária atualmente, nós temos uma política de assentamentos que é mais direcionada a resolver problemas sociais. Então, quando tem um conflito em determinada região, o governo vai lá, desapropria uma fazenda e desanuvia. Mas isso não é reforma agrária, reforma agrária é quando tem uma política propositiva que o governo se antecipa para garantir que todos os que querem trabalhar na terra tenham acesso à terra. Para isso ele tem de tomar iniciativa e desapropriar os maiores latifúndios. Só assim vai haver uma desconcentração da propriedade. O dado do Censo de 2006 revelou que a concentração atual da propriedade da terra é maior do que em 1920. Na semana passada o presidente do Incra teve a lucidez de revelar um dado que não está publicado ainda nos cadastros do Incra, de que há uma avalanche de empresas brasileiras indo aplicar o seu dinheiro, se proteger em patrimônio-terra. E hoje há 177 milhões de ha em propriedades de capitalistas que moram na cidade, de empresários, ou seja, são empresas industriais, bancos, que são donos de terra, que a rigor não é o seu meio de produção.

Também nós temos no problema da terra o tema do modelo do agronegócio, que ele é insustentável a longo prazo, porque o agronegócio ele só consegue produzir com mecanização intensiva e isso expulsa a mão-de-obra. Há dez anos havia 6 milhões de assalariados agrícolas no Brasil. Hoje, se reduziram a 1,6 milhão. E com o uso intensivo de agrotóxicos. E o veneno, por ser de origem química, não é biodegradável. Ele acaba com o solo, contamina a água ou, pior ainda, fica nos alimentos e vai se transformar em câncer.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Uribe foi mais um que tentou acabar com a guerrilha...



Em sua primeira campanha, Uribe prometeu destruir a guerrilha em apenas seis meses. Apesar da morte de alguns dirigentes e quadros, particularmente em 2008, passaram-se dois mandatos presidenciais, ou seja, oito anos, e a insurgência continua com suas estruturas intactas, além de preservar a sua presença nacional, tal como foi assegurado pela Cruz Vermelha Internacional no seu relatório deste ano.

Por Hernando Calvo Ospina*, em Rebelión

Isso de acabar militarmente com as guerrilhas foi proposto por todos os presidentes desde 1964, data em que se tentou, pela primeira vez, vencer um reduto de 50 camponeses que pediam paz e terras.

Nessa ocasião, o presidente Guillermo León Valencia disse: “Muito antes do final do meu governo o país estará completamente pacificado. Essa é uma decisão que não vamos quebrar por nenhum motivo”(1).

Essa primeira tentativa ficou conhecida como Operação Marquetalia. Os EUA enviaram assessores, tropas trazidas do Vietnã e o armamento mais moderno; o Governo colombiano, por sua vez, lançou 16.000 soldados, sendo que boa parte era de veteranos de guerra na Coréia.

A oligarquia, lideranças católicas e a grande mídia, a cada dia expressavam a sua confiança e felicidade para acabar com esse “reduto do banditismo”( 2 ).

Este grupo de camponeses não foi derrotado. No meio desse combate desigual, no mesmo dia das festas nacionais, 20 de julho de 1964, proclamou-se o Programa Agrário Guerrilheiro. E o triunfalismo da oligarquia começou a declinar quando, em 7 de janeiro de 1965, um grupo de camponeses e intelectuais tomaram Simacota, no departamento de Santander, um pequeno povoado na outra extremidade do país, divulgando um comunicado em que se lia: “estamos na luta pela libertação nacional da Colômbia”.

Assim surgiu a guerrilha Exército de Libertação Nacional, ELN, que nos seus fundamentos ideológicos já misturava o marxismo e a Teologia da Libertação. O otimismo das elites começou a diminuir quando os camponeses de Marquetalia realizaram, no final de 1965, a Primeira Conferência Guerrilheira. E alguns meses depois, em abril, durante a Segunda Conferência Guerrilheira, fundaram as FARC.

Sem nunca ter atingido sequer um oitavo do objetivo estratégico, desde então, todos os governos tiveram como prioridade acabar militarmente com um conflito que teve, e continua tendo, profundas raízes políticas e sociais. A intransigência política das elites permitiu acreditar que tudo pode ser resolvido com morte (3).

Infelizmente, para aqueles que querem a paz com dignidade na Colômbia, esse Estado doente de raiva e de poder, não aprende: no começo de cada novo mandato presidencial, as guerrilhas estão mias fortalecidas, pois a violência do Estado é dirigida, principalmente, contra população civil. Isto e o aumento da miséria, coloca os jovens nos braços da guerrilha.

O Estado só deixa a possibilidade de se deixar assassinar pelas forças armadas ou seus paramilitares, morrer de fome ou pegar nas armas. Bem, também podem participar dos diversos escalões do narcotráfico...

Portanto, a “Segurança Democrática” de Uribe fez aprofundar a violência e as desigualdades sociais. Deu mais militância para as guerrilhas....

Juan Manuel Santos, o novo presidente da Colômbia, certamente irá seguir o mesmo caminho. Sendo ele ministro da Defesa (julho 2006 – maio de 2009), demonstrou que podia ser pior do que o próprio Uribe Vélez. Durante seu ministério, o assassinato de civis foi multiplicado, para que fossem contabilizados como guerrilheiros mortos em combate e que ficou conhecido como o escândalo dos “falsos positivos”.

Santos é oriundo da grande oligarquia tradicional, a mesma que começou a violência política nos anos cinqüenta, e que impôs a pobreza em grande escala no campo, roubando as terras dos camponeses cafeicultores. Sem esquecer que, desde o principal jornal do país, El Tempo, a violência tem se instigado com crueldade, e Santos era um dos proprietários.

É importante lembrar que era urgente que Santos chegasse à presidência, porque sendo um civil com certeza poderia estar na mesma situação que começa a perseguir Uribe Vélez: a possibilidade de ser processado por crimes de guerra e de Lesa-Humanidade.

Santos já anunciou que manterá conversações com as guerrilhas, mas com seus termos. E esses querem dizer: o desarmamento em troca de alguns cargos burocráticos e algumas bolsas de estudo; que o grosso dos combatentes ingresse nas Forças Armadas e grupos paramilitares. Ou morram de fome ou engrossem a delinquência comum. E sem a menor mudança das estruturas desse Estado de exclusão.

Já vimos esse filme, e é um exemplo tão grande como o céu: outras guerrilhas entregaram as armas em anos recentes, sem que isso contribuísse em um milímetro para a solução da pobreza e da violência política.

Renderam-se em prol da paz, a mesma que todos nós ansiamos, mas a única paz que veio foi a dos túmulos, enquanto a maioria dos dirigentes engordava e bebia em boates. Aqueles que discordaram de tanto entreguismo foram assassinados com o silêncio e na cumplicidade dos seus antigos companheiros.

A única verdade é que, enquanto Washington e as elites colombianas não entendam que sem se acabar com a violência; com a intransigência política contra a oposição e uma grande parcela do povo colombiano indefeso; sem que as maiorias possam desfrutar das incalculáveis riquezas naturais da Colômbia, a guerrilha não vai acabar.

O que é urge é uma solução política negociada para o conflito. Seria o primeiro e verdadeiro passo para a paz verdadeira.

Caso contrário, e a história o está dizendo, essas elites não poderão desfrutar com tranqüilidade todos os seus milhões, porque, lamentavelmente, o sistema continua a incubar os seus próprios inimigos, que não os deixarão dormir em paz.

* Escritor e jornalista. Colaborador do Le Monde Diplomatique .
http://www.hernandocalvoospina.com /

(1) El Tiempo, Bogotá, 08 de maio de 1964.
(2) Editorial de El Tiempo, 22 de maio de 1964.
(3) Hernando Calvo Ospina. Colômbia, Laboratório de bruxarias. História do Terrorismo de Estado. Editorial Foca-Akal. Madrid, 2008. (Publicado também na Venezuela e no Equador, bem como em Português e Francês)



Fonte: vermelho.org

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As eleições e a independência do povo brasileiro.

Por Lucas Morais*

Terça, 07 Setembro 2010 02:00

Lucas Morais

Lucas Morais
No contexto das eleições brasileiras, a candidatura do “economista”* José Serra, ex-governador do Estado de São Paulo e membro do Partido da Social-Democracia Brasileira, começou com três duros golpes. O primeiro foi operado pelo igualmente tucano Aécio Neves (PSDB-MG), então Governador do estado de Minas Gerais, que se empenhou na disputa partidária interna pela decisão da candidatura à presidência mediante referendo partidário, em que o mais votado seria o candidato do partido, abrindo a possibilidade de uma chapa puro-sangue, com Aécio à testa da máquina tucana nacionalmente.

O primeiro duro golpe foi dado, na verdade, às ordens de Fernando Henrique Cardoso, “Rei” do Partido e ideólogo defensor das perspectivas neoliberais das escolas norte-americanas, comprovadamente atuante como funcionário da Fundação Ford**, atuando politicamente e ideologicamente a partir de instituições acadêmicas, com larga influência política dentro do PSDB. Ao defender uma candidatura paulista, com Serra à Presidência e Aécio como seu vice, FHC optou pela pior tática na tentativa de (re)conquistar o Governo Federal e implementar políticas já adotadas pelo estado de São Paulo sob os governos tucanos, bem como as criminosas contrarreformas neoliberais das quais José Serra fora um dos protagonistas mais centrais, à frente no Governo FHC (1994-2002) do Ministério do Planejamento (1994-1998), central para a viabilização das privatizações criminosas e absurdas que viriam a seguir, como foi com a Vale e as telecomunicações, vendidas a preços literalmente de bananas.

Para tirar Aécio Neves da disputa interna, José Serra soltou seus cachorros “semioficiais”. Seu companheiro de turno, o jornalista Juca Kfouri, solta em seu blog uma postagem que sugere que Aécio Neves, em uma festa no Rio de Janeiro, teria agredido sua namorada em público, dando a entender inclusive alterações psicológicas em função do uso de drogas. Posteriormente, um editorial do jornal simpático aos tucanos, O Estado de S. Paulo, através do editor Mauro Chaves, publica um discurso em que começa e termina com a menção “nonsense” de “Pó pará, Governador?” (Ver “Pó pará, Serra!”, de Marco Aurélio Weissheimer).

Diante destas agressões, Aécio Neves teria supostamente solicitado a jornalistas do jornal Estado de Minas para que levantassem informações acerca de José Serra e seus aliados, para que, caso necessário, pudesse responder ao fogo-amigo. Dentro deste contexto, acontece o primeiro vazamento da Receita Federal, que teria fornecido informações preciosas para o jornalista Amaury Ribeiro Júnior, que trabalha atualmente para o Grupo Record, e promete lançar em 2011 seu livro sobre a privataria corrupta que ocorrera nos governos FHC, chamado “Os Porões da Privataria”. Aécio Neves, então pressionado pela “massa cheirosa” do tucanato paulista, ao fim de 2009, a assumir o papel de candidato a vice-presidente, ofuscado por ninguém menos que José Serra, desiste desta promessa política suicida, e decide se lançar para o Senado representando o estado de Minas Gerais, forjando seu candidato a Governador, Anastasia, e sendo também o único cabo eleitoral efetivo de todo o quadro dos demotucanos (Democratas + PSDB) em todo o Brasil, cabendo a ele o papel de derrotar a penosa aliança dos petistas mineiros com o rolo compressor das rádios comunitárias, o obscuro funcionário da Rede Globo Hélio Costa, o cirurgião do aborto do projeto de televisão digital aberta que estava sendo gestada por pesquisadores da UnB em parceria com outras universidades do País, entre diversas outras políticas entreguistas quando esteve à frente do Ministério das Comunicações.

Entretanto o quadro dos golpes não se encerra aí. Antes mesmo de se cogitar Aécio Neves como vice na chapa de José Serra, um candidato a vice já havia sido desenhado por FHC e Serra. Eis o segundo golpe. Seria ninguém menos que José Roberto Arruda (DEM-DF). Em uma reunião entre representantes dos governos do Distrito Federal e de São Paulo, José Serra, com a mão carinhosamente apoiada nos ombros de José Roberto Arruda, dizia que para as próximas eleições, o eleitor poderia finalmente votar em um careca e eleger dois, deixando ali claro suas pretensões e ambições. Serra pensa que nasceu para presidir este país e o que está na frente dele é obstáculo. Entretanto, uma testemunha do esquema da quadrilha forjada por José Roberto Arruda não somente flagrou, como filmou todo o processo, exibindo imagens a todo o Brasil de um Governador do Distrito Federal, representante nacional do partido Democratas (composto por banqueiros e latifundiários), sendo preso com provas explosivas, com vídeos que mostrava a ocultação de maços de dinheiro em meias. Foi o primeiro governador na história do Brasil a ser preso, extraordinário em um país em que reina a impunidade judicial com relação aos políticos. A mídia oligarca dos Marinho, Mesquitas, Maiorana, Magalhães, Sirotsky, Collor, Sarney, Frias, Maias, Franco, entre outros, não noticiou a relação de Arruda e Serra e, após o esfriar do escândalo, jogou panos mornos e, desde o início de 2010, não pronuncia-se mais sobre o “Escândalo do Mensalão do DEM”. José Roberto Arruda continuou preso até o dia 12 de abril de 2010.

O terceiro golpe fora dado pela própria indefinição do prepotente José Serra que, se fosse possível, seria candidato a presidente com sua filha, Verônica Serra, como vice, dado que esta sim é de confiança do líder tucano. A coligação “O Brasil Pode Mais”, representada pelo PSDB-DEM-PPS-PTB, deveria então definir através de um consenso entre o alto birô do tucanato paulista junto ao birô dos DEM quem seria o vice da chapa. Entretanto, Serra deixou o tempo esgotar, tendo os representantes do DEM ameaçado sair da coligação em função da indefinição e não nomeação de um quadro deste “partido”. Eis que o playboy mal chamado Índio da Costa, representante dos Democratas do Rio de Janeiro, inicia sua campanha como um garoto eufórico, disparando contra o PT afirmando que o Partido dos Trabalhadores tem relações com as FARC e, por isto, teria relações com o narcotráfico. Nenhuma prova fora apresentada. Alguns representantes da FSP – Força Serra Presidente –, como a cada dia mais decadente revista semanal do Grupo Abril, a Veja, e o jornal da família Frias, a Folha de São Paulo, insistiram nas acusações, enquanto o PT negava veementemente em cartas públicas e ameaçando recorrer na justiça contra a irresponsabilidade golpista e imunda dos tucanos. Poucas semanas depois de tais acusações sem provas, o presidente recém-eleito da Colômbia, o ex-ministro de Defesa de Álvaro Uribe, Juan Manuel Santos, disse em entrevista à Veja, nas páginas amarelas, que ele mesmo já teve relações com as FARC para negociações. A mentira, como bem disse Lula no dia 6 de setembro, merecendo destaques nos jornais, tem perna curta, muito curta por sinal.

Diante de três golpes frontais, Serra tem diante de si um cenário de colapso, enquanto seu partido e coligados nas eleições regionais para deputados federais, senadores e governadores, apelam para a política do “Salve-se quem puder”. Em Minas Gerais, Milton Nascimento e Lô Borges aceitaram fazer campanha para o candidato de Aécio Neves, Anastasia, mas com um porém: O nome e nem a imagem de Serra podem aparecer. O comitê de campanha de Antônio Anastasia se comprometeu a não exibir Serra.

Enquanto isso, Dilma Rousseff, pelo menos nas pesquisas, quebra alguns recordes; o primeiro, de superar o número de votos obtidos por Lula nas eleições de 2002 e 2006; o segundo que, se esses números se confirmarem no dia 3 de outubro, Dilma terá mais votos que o ator do maior filme de ficção realista de toda a história das eleições norte-americanas, o Yes We Can, interpretado espetacularmente pelo Nobel da Paz, Barack Hussein Obama.

Segundo pesquisa divulgada nesta terça-feira pela VoxPopuli/Band/IG, Dilma abre 56% contra 21% de Serra, com Marina tendo 8% dos votos.

Diante desta realidade, o PiG*** é a única tábua de salvação para a candidatura de José Serra. A Folha de São Paulo, em sua neutralidade tucana, apoia cada uma das acusações sem provas realizadas por Serra e seu comitê de campanha, ou melhor dizendo, de guerra, como o foi na tentativa de impugnação contra a candidatura de Dilma Rousseff, acusando-a de ter mandado um suposto grupo de inteligência de seu comitê de campanha para levantar dados obtidos no vazamento da Receita Federal, alegando que ela está envolvida inclusive no escândalo nacional. Este absurdo foi rechaçado e repudiado não somente entre o espectro político petista e da esquerda em geral, mas também por liberais e conservadores críticos à ausência de projetos e programa da candidatura de Serra.

Dilma e as eleições

Muitos analistas já dão a fatura como liquidada em função da desestrutura e do desfavorecimento das condições políticas atuais, com Lula como o maior cabo eleitoral de toda a história brasileira, e apoiam inclusive o futuro Governo Dilma, que já deu sinais de que terá atenção especial com os investidores financeiros.

Dilma contou com ótimas propagandas eleitorais, mostrando sua vida pregressa, sua história pessoal e política, deixando aberta sua vocação democrata e republicana, de desenvolvimentismo social-liberal. Dilma Rousseff é mineira, atleticana, e nascida em Belo Horizonte. Caso se confirme sua eleição no primeiro turno, será a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da República na história brasileira, acompanhando as experiências do Chile (Michelle Bachelet) e da Argentina (Cristina Kirchner).

Para o Governo de Dilma, o Governo da coalizão do PT e PMDB de Lula legou o Pré-Sal, relações exteriores que elevam o Brasil ao status de potência mundial, estabilidade econômica e crescimento da renda da classe trabalhadora (em função do fortalecimento do consumo interno), redução de 40% da pobreza extrema e ascensão de milhões de famílias aos bens de consumos industrializados, como carros e eletrodomésticos. Somente no final deste ano de 2010, milhares ou talvez milhões de brasileiros irão viajar de avião pela primeira vez. Dilma terá a oportunidade de governar o país em excelentes condições políticas e econômicas, e isso tranquiliza inclusive os mais importantes setores do capital financeiro. O Financial Times já tem como certa a vitória de Dilma, e não faz alardes como a máquina de José Serra, que utiliza inclusive da história de Dilma, esta que foi ativista de organizações da esquerda que aderiram à luta armada no Brasil contra a ditadura militar instaurada em 1964, quando José Serra era ainda um jovem ativista e presidente da União Nacional dos Estudantes.

Questões ambientais e sociais latentes

Entretanto, a questão ambiental e social continuam latentes. O capitalismo à brasileira, como cunhou sabiamente Ivan Pinheiro, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro e candidato à presidência da República, trouxe uma elevação da renda das massas, mas, entretanto, os problemas mais latentes da via colonial do capitalismo brasileiro continuam latentes, como é o caso da reforma agrária e da destruição e degradação natural pelas empresas multinacionais.

Marina Silva aparece neste cenário político como a candidata moderna, que defende um desenvolvimento capitalista aliado ao desenvolvimento sustentável das empresas no processo de exploração do meio ambiente. Esta ilusão é vendida e convence a muitos desavisados e ambientalistas que, apesar de todo o contexto que Marina construiu politicamente, votam nela pela questão ambiental. Entretanto, capital sem degradação da natureza é como capital sem exploração do trabalhador, simplesmente impossível. Marina Silva se desfilia em agosto de 2009 do Partido dos Trabalhadores e filia-se ao Partido Verde alegando que o PT abandonou seus princípios e sua ética. Curiosamente, Marina não realizava estas críticas quando estava no PT e poderia ter pedido demissão antes, como disparou Plínio de Arruda Sampaio no primeiro debate entre os presidenciáveis da Rede Bandeirantes. Entretanto, Marina Silva entra em um partido chefiado por um dos filhos do clã de Sarney (Sarney Filho, ex-ministro do Meio Ambiente no Governo FHC) e Fernando Gabeira e, ainda por cima, coloca como seu vice ninguém menos que o presidente executivo da Rede Natura, um bilionário. Além disso, Marina diz abertamente que atuará contra a candidatura de Dilma, posicionando-se como simpática a Serra, mas não poupando críticas quando necessário, para demonstrar sua suposta independência. Esta “independência” é falsa e, Marina, ao optar pelo enfraquecimento da candidatura de Dilma, acaba por fortalecer o golpismo de Serra. Em última análise, Marina entrou em jogo para fazer o jogo da direita, o que mancha sua história com o mesmo veneno que Serra se envenenou.

Em quarto lugar nas pesquisas eleitorais aparece um senhor que tem não menos que 50 anos de participação ativa nas lutas sociais e que tem como bandeira fundamental a defesa da reforma agrária e dos interesses dos trabalhadores. Plínio de Arruda Sampaio agrada os militantes socialistas e simpatizantes daquele Partido dos Trabalhadores que lutava pela reforma agrária junto ao Movimento dos Sem Terra e defendia as lutas dos trabalhadores. Além de Plínio, a esquerda socialista brasileira conta com Zé Maria, dirigente nacional do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados – PSTU –, Ivan Pinheiro, secretário-geral do PCB, e Rui Costa Pimenta, líder nacional do Partido da Causa Operária – PCO. O partido de Plínio, o PSOL – Partido Socialismo e Liberdade –, livrou-se da manobra venenosa encomendada por Heloísa Helena (PSOL de Alagoas), que era manobrar o Partido para um apoio à candidatura de Marina Silva. Logo que os militantes perceberam a guinada de Heloísa, isto foi denunciado e acabou servindo como motivo de endosso a uma candidatura de Plínio. O PV, partido atual de Marina Silva, vota em cada estado de acordo com os interesses regionais, por exemplo, no sudeste e no sul, vota com o PSDB e DEM. Uma aliança deste nível para os ativistas e militantes do PSOL seria um suicídio político e uma degeneração na velocidade da luz.

O mecanismo fundamental que a direita tem hoje no Brasil para fazer valer os interesses dos 25 mil clãs-famílias da República é, sem dúvida, o controle da mídia privada e as leis audiovisuais em vigor para a televisão e rádio. O formato norte-americano torna a disputa favorável às grandes coligações. Com isto, a candidatura de Dilma dispõe da maior parte do tempo de televisão e rádio. Serra abocanha outra parte, Marina o mesmo. Para os nanicos, restam poucos minutos, em todo o processo de campanha, na televisão para promover debates sobre seus programas e políticas. Desta forma, aquela porção política que efetivamente possui programas e propostas para a sociedade brasileira, que é a esquerda socialista do PSOL-PSTU-PCB-PCO, fica refém de seu tempo limitado e necessita adaptar suas ideias aos formatos mais curtos possíveis, eliminando a possibilidade de uma reflexão e forçando estes partidos a apenas levantarem as suas bandeiras para demarcarem território. Com isto, as propostas do PCB, PSTU e PCO aparecem como que dirigidas para o público da esquerda ou cedem o espaço para as pautas dos movimentos sociais, como o PCB tem feito. O PSOL, por sua vez, conseguiu colocar seu candidato no primeiro debate entre os presidenciáveis, que ocorreu nos estúdios da Band, tendo Plínio de Arruda Sampaio se saído melhor que todos os candidatos e obtendo destaque entre os 10 mais tuitados no Twitter internacional. A Rede Globo, para silenciar e ofuscar o debate realizado pela Band, transferiu a final da Copa Libertadores das Américas, em que jogaram a equipe gaúcha Internacional contra o time mexicano Chivas de Guadalajara, para o mesmo dia do debate, desviando os telespectadores brasileiros, tradicionalmente apaixonados pelo espetáculo do futebol, do debate político.

Diante de toda esta conjuntura, o Brasil finalmente logra uma independência dos (des)projetos da direita reacionária e conservadora, e continua firme na defesa da democracia liberal arduamente conquistada pelos movimentos sociais. Como bem alertou Marcio Pochmann, diretor do IPEA, nosso país tem pouco mais de 500 anos de idade e menos de 50 de democracia. Defender Dilma dos ataques da direita é obrigação de toda a esquerda que reivindique a democracia. Defender a democracia, mesmo que esta apodrecida, a liberal-burguesa, que expressa os interesses dos maiores grupos econômicos nacionais e internacionais, é uma obrigação de todos que se identificam com o campo progressista, dado que a Constituição de 1988 defende a liberdade de expressão, imprensa, associação, organização, etc. Construir um país livre de controles estrangeiros, militares, das oligarquias, da mídia privada e do conservadorismo político deve unir todo o espectro democrático e popular brasileiro. É este o projeto que sairá fortalecido destas eleições. Em torno desta independência, da reforma agrária, do fortalecimento dos movimentos sociais, da defesa da liberdade de expressão e da democratização/socialização dos meios de comunicação, entre tantas outras questões tão latentes é que deve ser forjado um movimento das massas brasileiras. A ruptura histórica operada pelo Partido dos Trabalhadores é fundamental e abre perspectivas que podem excluir as elites do mando a que sempre estiveram acostumados. É por isto que, diariamente, a ampla aliança neoliberal precisa atacar a Bolívia, as FARC, Hugo Chávez, Ahmadinejad, etc. Porque falta projeto de país para uma direita desesperada e precisam demonizar todos aqueles que o Pentágono-CIA-Washington designam como “terroristas”.

A coalizão midiática do demotucanato não tem convencido mais a sociedade brasileira. “Ei Rede Globo, o povo não é bobo!”. Quem está perdendo as eleições são a Veja, a Folha de São Paulo, a Rede Globo e todos aqueles que se unem para salvar o barco tucanic, com um capitão de bordo caduco por seu próprio veneno. Sairão desmoralizados de todo este processo. Entrarão para a história brasileira como entraves ao progresso social.

O povo brasileiro pode hoje respirar uma independência que começou a ser forjada pelos movimentos sociais durante a resistência à ditadura militar brasileira. É esta independência que devemos celebrar hoje no dia 7 de setembro de 2010.



* José Serra não apresentou o diploma e, no entanto, seu partido anteriormente criticou exaustivamente o fato da suposta “incapacidade intelectual” de um ex-torneiro mecânico ter a responsabilidade de ser o primeiro operário a se tornar o Presidente da República Federativa do Brasil.



** Ver: http://argemiroferreira.wordpress.com/2010/01/19/fhc-e-a-guerra-fria-cultural-da-cia/ Ou adquira o livro em: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2067729/quem-pagou-a-conta/?ID=BB6800B27DA09070F31090384



*** Partido da imprensa Golpista, termo cunhado por Paulo Henrique Amorim e utilizados pelos ativistas em blogues e sítios na internet brasileira.



* Lucas Morais é jornalista, tradutor e colunista do Diário Liberdade.
http://www.twitter.com/luckaz
luckaz@gmail.com

URIBE FOI MAIS UM QUE TENTOU ACABAR COM AS GUERRILHAS...

Hernando Calvo Ospina
Fonte: Rebelion.org


Em sua primeira campanha, Uribe prometeu destruir a guerrilha em apenas seis meses. Apesar da morte de alguns dirigentes e quadros, particularmente em 2008, passaram-se dois mandatos presidenciais, ou seja, oito anos, e a insurgência continua com suas estruturas intactas, além de preservar a sua presença nacional, tal como foi assegurado pela Cruz Vermelha Internacional no seu relatório deste ano.

Isso de acabar militarmente com as guerrilhas foi proposto por todos os presidentes desde 1964, data em que se tentou, pela primeira vez, vencer um reduto de 50 camponeses que pediam paz e terras. Nessa ocasião, o presidente Guillermo León Valencia disse: “Muito antes do final do meu governo o país estará completamente pacificado. Essa é uma decisão que não vamos quebrar por nenhum motivo”(1). Essa primeira tentativa ficou conhecida como Operação Marquetalia. Os EUA enviaram assessores, tropas trazidas do Vietnã e o armamento mais moderno; o Governo colombiano, por sua vez, lançou 16.000 soldados, sendo que boa parte era de veteranos de guerra na Coréia.

A oligarquia, lideranças católicas e a grande mídia, a cada dia expressavam a sua confiança e felicidade para acabar com esse “reduto do banditismo”( 2 ).

Este grupo de camponeses não foi derrotado. No meio desse combate desigual, no mesmo dia das festas nacionais, 20 de julho de 1964, proclamou-se o Programa Agrário Guerrilheiro. E o triunfalismo da oligarquia começou a declinar quando, em 7 de janeiro de 1965, um grupo de camponeses e intelectuais tomaram Simacota, no departamento de Santander, um pequeno povoado na outra extremidade do país, divulgando um comunicado em que se lia: “estamos na luta pela libertação nacional da Colômbia”. Assim surgiu a guerrilha Exército de Libertação Nacional, ELN, que nos seus fundamentos ideológicos já misturava o marxismo e a Teologia da Libertação. O otimismo das elites começou a diminuir quando os camponeses de Marquetalia realizaram, no final de 1965, a Primeira Conferência Guerrilheira. E alguns meses depois, em abril, durante a Segunda Conferência Guerrilheira, fundaram as FARC.

Sem nunca ter atingido sequer um oitavo do objetivo estratégico, desde então, todos os governos tiveram como prioridade acabar militarmente com um conflito que teve, e continua tendo, profundas raízes políticas e sociais. A intransigência política das elites permitiu acreditar que tudo pode ser resolvido com morte (3).

Infelizmente, para aqueles que querem a paz com dignidade na Colômbia, esse Estado doente de raiva e de poder, não aprende: no começo de cada novo mandato presidencial, as guerrilhas estão mias fortalecidas, pois a violência do Estado é dirigida, principalmente, contra população civil. Isto e o aumento da miséria, coloca os jovens nos braços da guerrilha. O Estado só deixa a possibilidade de se deixar assassinar pelas forças armadas ou seus paramilitares, morrer de fome ou pegar nas armas. Bem, também podem participar dos diversos escalões do narcotráfico...

Portanto, a “Segurança Democrática” de Uribe fez aprofundar a violência e as desigualdades sociais. Deu mais militância para as guerrilhas....

Juan Manuel Santos, o novo presidente da Colômbia, certamente irá seguir o mesmo caminho. Sendo ele ministro da Defesa (julho 2006 – maio de 2009), demonstrou que podia ser pior do que o próprio Uribe Vélez. Durante seu ministério, o assassinato de civis foi multiplicado, para que fossem contabilizados como guerrilheiros mortos em combate e que ficou conhecido como o escândalo dos “falsos positivos”. Santos é oriundo da grande oligarquia tradicional, a mesma que começou a violência política nos anos cinqüenta, e que impôs a pobreza em grande escala no campo, roubando as terras dos camponeses cafeicultores. Sem esquecer que, desde o principal jornal do país, El Tempo, a violência tem se instigado com crueldade, e Santos era um dos proprietários.

É importante lembrar que era urgente que Santos chegasse à presidência, porque sendo um civil com certeza poderia estar na mesma situação que começa a perseguir Uribe Vélez: a possibilidade de ser processado por crimes de guerra e de Lesa-Humanidade.

Santos já anunciou que manterá conversações com as guerrilhas, mas com seus termos. E esses querem dizer: o desarmamento em troca de alguns cargos burocráticos e algumas bolsas de estudo; que o grosso dos combatentes ingresse nas Forças Armadas e grupos paramilitares. Ou morram de fome ou engrossem a delinquência comum. E sem a menor mudança das estruturas desse Estado de exclusão.

Já vimos esse filme, e é um exemplo tão grande como o céu: outras guerrilhas entregaram as armas em anos recentes, sem que isso contribuísse em um milímetro para a solução da pobreza e da violência política. Renderam-se em prol da paz, a mesma que todos nós ansiamos, mas a única paz que veio foi a dos túmulos, enquanto a maioria dos dirigentes engordava e bebia em boates. Aqueles que discordaram de tanto entreguismo foram assassinados com o silêncio e na cumplicidade dos seus antigos companheiros.

A única verdade é que, enquanto Washington e as elites colombianas não entendam que sem se acabar com a violência; com a intransigência política contra a oposição e uma grande parcela do povo colombiano indefeso; sem que as maiorias possam desfrutar das incalculáveis riquezas naturais da Colômbia, a guerrilha não vai acabar.

O que é urge é uma solução política negociada para o conflito. Seria o primeiro e verdadeiro passo para a paz verdadeira.

Caso contrário, e a história o está dizendo, essas elites não poderão desfrutar com tranqüilidade todos os seus milhões, porque, lamentavelmente, o sistema continua a incubar os seus próprios inimigos, que não os deixarão dormir em paz.


* Escritor e jornalista. Colaborador do Le Monde Diplomatique .
http://www.hernandocalvoospina.com /

(1) El Tiempo, Bogotá, 08 de maio de 1964.
(2) Editorial de El Tiempo, 22 de maio de 1964.
(3) Hernando Calvo Ospina. Colômbia, Laboratório de bruxarias. História do Terrorismo de Estado. Editorial Foca-Akal. Madrid, 2008. (Publicado também na Venezuela e no Equador, bem como em Português e Francês)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Brasil apoia negociação entre governo colombiano e as Farc, mas avisa que não quer se intrometer

Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Após se reunir hoje (1º) com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou que o Brasil apoia a busca de uma solução negociada para o conflito entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas avisou que o Brasil não irá se intrometer na questão. A informação foi dada pelo assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.

“Reiteramos ao presidente Santos que estamos atentos para a busca de solução negociada no plano interno. Acho que o problema das Farc deve ser resolvido no âmbito colombiano. O presidente Santos aprecia a posição brasileira e só interviríamos se houvesse, da parte do governo colombiano, uma solicitação. Imiscuirmos agora na questão colombiana não é nossa disposição”, afirmou Garcia.

Na avaliação de Garcia, a discussão do conflito com as Farc também não deve ser transferida para o âmbito da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Perguntado se as Farc são consideradas pelo governo brasileiro uma organização terrorista, Garcia disse apenas que o governo não é uma “agência de classificação” e tem uma atitude crítica em relação ao grupo.

Durante a reunião, o presidente Lula reafirmou a Juan Manuel Santos a importância que o Brasil dá à Colômbia e convidou Santos para participar, no dia 17 de dezembro, em Foz do Iguaçu (PR), da reunião dos presidentes do Mercosul, bloco do qual a Colômbia é associada. Santos demonstrou disposição em se integrar mais à Unasul, de acordo com Marco Aurélio Garcia.

O combate às Farc é uma das prioridades de Santos que, no governo anterior de Alvaro Uribe, atuou como ministro da Defesa e foi um dos responsáveis pela política de combate às guerrilhas que atuam na Colômbia.

Edição: Vinicius Doria

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei”

Em entrevista exclusiva ao jornal mexicano La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano; a tradução é do site Carta Maior), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

Ele esteve quatro anos debatendo-se entre a vida e a morte. Um entra e sai da sala de cirurgia, entubado, recebendo alimentos através de veias e cateteres e com frequentes perdas de consciência. "Minha doença não é nenhum segredo de Estado", teria dito pouco antes que ela se tornasse crise e o obrigasse a fazer o que tinha de fazer: delegar suas funções como presidente do Conselho de Estado e, consequentemente, como comandante supremo das forças armadas de Cuba. "Não posso continuar mais", admitiu então - revela nesta sua primeira entrevista a uma publicação impressa estrangeira desde então. Fez a transmissão do cargo e entregou-se aos médicos.

A comoção abalou a nação inteira, aos amigos de outras partes, despertou esperanças revanchistas em seus detratores e colocou em estado de alerta o poderoso vizinho do Norte. Era o dia 31 de julho de 2006 quando foi divulgada, de modo oficial, a carta de renúncia do líder máximo da Revolução Cubana. O que seu inimigo mais feroz (bloqueios, guerras, atentados) não conseguiu em 50 anos foi alcançado por uma doença sobre a qual ninguém sabia nada e se especulava tudo. Uma enfermidade que para o regime, quisesse ou não, iria se converter em um segredo de Estado.

Hoje faz 40 dias que Fidel Castro reapareceu em público de maneira definitiva, ao menos sem perigo aparente de recaída. Em um clima tranquilo e dando a entender que a tempestade passou, o homem mais importante da Revolução Cubana ressurge orgulhoso e com vitalidade, ainda que não domine totalmente os movimentos das pernas.

Durante as quase cinco horas que durou a entrevista ao La Jornada – incluindo o almoço – Fidel aborda os mais diversos temas, ainda que mostre uma obsessão por alguns em particular. Permite perguntas sobre tudo – ainda que quem mais interrogue seja ele – e repassa pela primeira vez e com dolorosa franqueza alguns momentos da crise de saúde que sofreu nos últimos quatro anos. Mas no que ele se estende é no relato do sofrimento vivido. E não mostra inibição alguma em qualificar a dolorosa etapa como um calvário.

Eu já não aspirava a viver, nem muito menos...Perguntei-me várias vezes se essa gente [os médicos] iriam deixar-me viver nestas condições ou iriam permitir que eu morresse. E sobrevivi, mas em condições físicas muito ruins. Cheguei a pesar cinquenta e poucos quilos.

[Sessenta e seis quilos, precisa Dália, sua inseparável companheira que assiste a conversa. Só ela, dois de seus médicos e dois de seus colaboradores mais próximos estão presentes.]

Imagine: um tipo da minha estatura pesando 66 quilos. Hoje já estou entre 85 e 86 quilos e esta manhã consegui dar 600 passos sozinho, sem muleta nem ajuda.

Quero dizer que você está diante de uma espécie de ressuscitado. Não cometo nunca mais o mínimo deslize. Tornei-me médico com a cooperação dos médicos. Com eles discuto, pergunto, aprendo... Estendido naquela cama, só olhava ao meu redor, ignorante de todos esses aparatos. Não sabia quanto tempo ia durar esse tormento e a única esperança que alimentava é que o mundo parasse para que eu não perdesse nada. Mas ressuscitei, disse satisfeito.

E quando ressuscitou, comandante, o que encontrou?

Um mundo de loucos... Um mundo que aparece todos os dias na televisão, nos jornais, e que não há quem entenda, mas que eu não queria perder por nada deste mundo. Você se dá conta, companheira, do que isso significa? A Internet colocou em nossas mãos a possibilidade de nos comunicarmos com o mundo. Não contávamos com nada disso antes – comenta, ao mesmo tempo em que se deleita vendo e selecionando informes e textos baixados da rede, que tem sobre a mesa do escritório: um pequeno móvel, demasiado pequeno para o tamanho (mesmo que diminuído pela enfermidade) de seu ocupante.

Acabaram-se os segredo, ou ao menos parece isso. Estamos diante de um jornalismo de investigação de alta tecnologia, como o chama o New York Times, e ao alcance de todo o mundo. Estamos diante da arma mais poderosa que já existiu, que é a comunicação – resume. O poder da comunicação tem estado, e está, nas mãos do império e de ambiciosos grupos privados que fazem uso e abuso dele. Por isso os meios de comunicação fabricaram o poder que hoje ostentam.

Por que apenas de uma entrada de Internet para todo o país, comparável a que o Hotel Hilton ou o Sheraton têm?

Pela rotunda negativa dos Estados Unidos em nos dar acesso à Internet na ilha, através de um dos cabos submarinos de fibra ótica que passam próximo às costas. Cuba se vê obrigada, em troca, a baixar o sinal de um satélite, o que encarece muito mais o serviço do que o governo cubano pode pagar, e impede que se disponha de uma banda maior, que permita dar acesso a muito mais usuários e na velocidade que é normal em todo o mundo, com a banda larga.

Por essas razões o governo cubano dá prioridade para conectar-se não a quem pode pagar pelo custo do serviço, mas para quem mais necessita, como médicos, acadêmicos, jornalistas, professores, quadros do governo e clubes de internet de uso social. Não se pode fazer mais.

Muitas vezes se acusa Cuba e em particular ao senhor de manter uma posição antiestadunidense rigorosa; chegaram até a acusá-lo de ter ódio dessa nação.

Não é nada disso: por que odiar os Estados Unidos, se é apenas um produto da história?

Mas, com efeito, há uns 40 dias, apenas, quando ainda não tinha terminado de ressucitar, o senhor ocupou-se em suas novas Reflexiones, de seu poderoso vizinho.

É que comecei a ver muito claramente os problemas da tirania mundial crescente – e se apresentou à luz de toda a informação que tinha, a iminência de um ataque nuclear que desataria a conflagração mundial.

Saí do hospital, fui para casa, mas caminhei, excedi-me. Depois tive de fazer reabilitação dos pés, para então conseguir começar a escrever de novo. O salto qualitativo se deu quando pude dominar todos os elementos que me permitiam tornar possível tudo o que estou fazendo agora. Mas posso e devo melhorar... Posso chegar a caminhar bem. Hoje, já te disse, caminhei 600 passos só, sem bengala, sem nada; e devo conciliar isso com o que subo e desço, com as horas que durmo, com o trabalho.

O que há por trás desse frenesi no trabalho? O que mais que, depois de uma reabilitação pode conduzi-lo a uma recaída?

Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está numa fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que venha a acontecer. Tenho coisas a fazer, ainda.

Como o quê?

Como a conformação de todo um movimento antiguerra nuclear. No princípio, pensei que o ataque nuclear iria se dar sobre a Coréia do Norte, mas logo retifiquei, porque a China vetaria isso no Conselho de Segurança... Mas o do Irã ninguém o fará, porque não há veto nem chinês nem russo. Depois veio a resolução (das Nações Unidas), e embora Brasil, Turquia e Líbano tenham votado, o Líbano não o fez e então se tomou a decisão.

O senhor sabe o poder nuclear que alguns países do mundo têm, na atualidade, em comparação com a época de Hiroxima e Nagasáqui?

Quatrocentas e setenta mil vezes o poder explosivo que qualquer dessas bombas que os Estados Unidos jogou sobre essas duas cidades japonesas tinha. Quatrocentas e setenta mil vezes mais! Essa é a potência de cada uma das mais de 20 mil armas nucleares que – se calcula – há hoje em dia no mundo. Com muito menos do que essa potência – com tão só 100 – já se pode produzir um inverno nuclear que obscureça o mundo em sua totalidade.Esta barbaridade pode se produzir em uma questão de dias; para sermos mais precisos, no próximo 9 de setembro, que é quando vencem os 90 dias concedidos pelo Conselho de Segurança da ONU para que se comece a inspeção dos barcos do Irã.

Acredita que os iranianos vão retroceder? O que imagina?

Homens valentes, religiosos que vêem na morte quase um prêmio...Bem, os iranianos não vão ceder, isso é certo. Vão ceder aos ianques? E o que ocorrerá se nem um nem outro ceder? E isto pode ocorrer no próximo 9 de setembro.

Um minuto depois da explosão, mais da metade dos seres humanos terão morrido, a poeira e a fumaça dos continentes em chamas derrotarão a luz solar e as trevas absolutas voltarão a reinar no mundo, escreveu Gabriel García Máquez por ocasião do 41 aniversário de Hiroxima. Um inverno de chuvas alaranjadas e furacões gelados inverterão o tempo dos oceanos e voltarão o curso dos rios, cujas espécies terão morrido de sede em águas ardentes...A era do rock e dos corações transplantados estará de volta a sua infância glacial...


*Entrevista concedida ao jornal mexicano La Jornada e originalmente publicada em português pela Agência Carta Maior. Tradução: Katarina Peixoto

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Jornal El País contra a Venezuela



Samuel H. Carvajal Ruiz
Fonte: Rebelião


O poder mediático nacional e internacional não assimilou muito bem a chegada do comandante Chávez à Presidência da República em 1998. Passou uma década e ainda não se recompuseram. Desde então, não desistem de suas tentativas de expulsar do governo, por qualquer via, o presidente venezuelano. Um dos maiores grupos mediáticos e que não consegue absorver o fato de que Chávez se mantenha à frente do executivo venezuelano, é o Grupo Promotora de Informação S.A., corporação espanhola mais conhecida como Grupo Prisa, fundado por um velho franquista, Jesus de Polanco, que foi convertido por essa "mágica" da política que foi a "transição espanhola para a democracia", em paladino e promotor de todos os progressistas desse país, ou seja, outro “ilustre democrata” espanhol, a tal ponto que o jornal El Pais veio a se tornar em referência (‘A Bíblia’) obrigatória de um sector majoritário da “esquerda” e porta-voz do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), liderado por Felipe González.

O Grupo Prisa é proprietário do jornal El Pais. Este jornal é, talvez, o de maior circulação e o mais influente da Espanha e é um dos instrumentos utilizados, sistematicamente, para atacar o presidente Chávez, a Revolução Bolivariana e/ou qualquer outro aspecto ou ação relacionada com a Venezuela nascida da Assembléia Nacional Constituinte de 1999, que resultou na nossa atual Constituição e nas instituições democráticas derivadas dela.

Desde os laboratórios de guerra suja espanhóis são concebidas e executadas, repetidamente, campanhas mediáticas contra a Venezuela, desacreditando suas lideranças, escondendo as indiscutíveis conquistas da revolução nos campos político, econômico, cultural e social, apresentando as piores imagens do país sem qualquer escrúpulo ou consideração ética no exercício do tão cacarejado “jornalismo”. Em fim, o jornal El País, desde que Chávez se transformou em presidente pela vontade da maioria dos venezuelanos, está em guerra aberta contra a nossa democracia, contra as nossas instituições e, o que é pior, contra o nosso povo.

O El País, com o inestimável apoio dos seus escribas crioulos, colocou em marcha uma agenda de agressão, que vai desde ligar o governo e seus dirigentes com o tráfico de drogas proveniente da Colômbia, passando por um suposto vinculo com o “terrorismo”, até desfigurar a realidade nacional aos olhos de seus leitores, apresentando-nos como um povo violento, caótico e desrespeitoso dos direitos mais básicos do ser humano.

Esta máquina, que aponta seus canhões contra qualquer coisa que cheire a Venezuela, à figura do presidente e a suas obras de governo, assim como aos milhões de seguidores (que são a maioria do povo venezuelano), emprega, com toda a sua fúria, os diversos e poderosos recursos de que dispõe, para desacreditar a nossa vontade democrática de decidir o caminho que agora leva-nos rumo ao socialismo, e isso lhes dá desgosto. Mas seus bolsos doem muito mais e não há dúvida de que, com a chegada de Chávez à Presidência da República, seus suculentos negócios mantidos com diferentes instâncias do poder político e econômico da Quarta República tenham, progressivamente, diminuído. Também ressentem que seus lobistas nos Ministérios da Educação e Cultura estejam fora de circulação e, portanto, parte do monopólio sobre as políticas de educação da IV dirigido à compra de textos escolares que mantinham, sendo que até davam uma de ‘assessores’ das autoridades da época.

Algumas destas ações por parte do governo Chávez são as razões que o “pessoal” da Prisa reconhecem nelas uma verdadeira afronta aos seus interesses, ferimentos graves, digamos, dos seus negócios e aspirações de expansão do monopólio na Venezuela. A postura venezuelana tem se traduzido, neste tempo, em uma posição firme do governo revolucionário de reconquistar o controle estatal sobre áreas tão sensíveis como a cultural e, especificamente, da educação; este esforço tem ajudado para que Chávez seja considerado a pedra no sapato para as aspirações do monopólio da imprensa espanhola.

Atualmente o Grupo Prisa é dirigido pelo herdeiro de Jesus de Polanco, Ignacio Polanco, um dos seus filhos, um homem de poucas luzes e muitas dívidas, que imitando o a Miguel Henrique Otero (principal acionista do jornal El Nacional), levou o grupo, em apenas quatro anos, à beira da falência, à perda de uma parte substancial do patrimônio herdado de seu pai (certamente obtido na base de favores dos ‘felipistas’ do PSOE). Essas deficiências na gestão dos negócios do Grupo, foram traduzidas em: endividamento progressivo (hoje essa dívida é superior a 4bilhões de euros); venda de ativos para enfrentar a tempestade de credores (no mês passado teve que lhes pedir mais tempo, solicitando um novo adiamento para os bancos que exigem o pagamento da dívida da Prisa), em suma, um desastre econômico e financeiro que reduz a participação da família Polanco a escassos 30% das ações.

A besta ferida de morte descreve ao comandante Chávez como um dos obstáculos à expansão na América Latina do discurso da "prosperidade" e do "progresso" segundo a versão do Grupo Prisa; em outras palavras, a prosperidade dos próprios negócios e o progresso dos da sua classe. O exemplo, liderança e prédica contra a ganância destes monopólios e a favor de uma integração contrária às concebidas pelo neoliberalismo, são justificativas suficientes para que o Grupo Prisa, através do El País, o tenha como objetivo de sua metralhadora mediática.

Essa tem sido a vontade política das FARC desde sua origem. Mas,....



Palavras do Presidente Lula:

"Se, num continente como o nosso, um índio e um metalúrgico podem chegar à Presidência, por que alguém das Farc, disputando eleições, não pode?"

Fonte: Jornal Estado de São Paulo, 24/08/2010

domingo, 29 de agosto de 2010

Ibope: "O Brasil já tem uma presidente. É Dilma Rousseff"

Há exatamente um ano, o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, declarou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não faria o sucessor, apesar da alta popularidade. Na ocasião, o responsável por um dos mais tradicionais institutos de pesquisas do País assegurava que o presidente não conseguiria transferir seu prestígio pessoal para um “poste”, como tratava a ex-ministra Dilma Rousseff.

Agora, a um mês das eleições e respaldado por números apresentados em pesquisas diárias, Montenegro faz um mea-culpa. “Errei e peço desculpas. Na vida, às vezes, você se engana”, afirmou, em entrevista aos repórteres Octávio Costa e Sérgio Pardellas, da IstoÉ. “O Brasil já tem uma presidente. É Dilma Rousseff.”

Segundo Montenegro, a ex-ministra da Casa Civil vem se conduzindo de forma convincente e confirma, na prática, o que o presidente disse sobre ela na entrevista concedida à IstoÉ na primeira semana de agosto: “Lula acertou. Dilma é um animal político. Está mostrando muito mais capacidade do que os adversários.”

O tucano José Serra, na opinião do presidente do Ibope, faz uma campanha sem novidade, velha e antiga. “O PSDB está perdido”, assegura. Neste fim de semana, o Ibope vai divulgar uma nova pesquisa, que confirmará a categórica vantagem da petista. “Fazemos pesquisas ­diárias. E Dilma não para de crescer. Abriu 20 pontos em Minas, onde Serra já esteve na frente. Empatou em São Paulo, mas ali também vai passar. Essa eleição acabou”, conclui Montenegro.

Confira trechos de sua entrevista.

IstoÉ: O sr. disse que o presidente Lula não conseguiria transferir seu prestígio para a ex-ministra Dilma Rousseff, mas as pesquisas mostram o contrário. O sr. ainda sustenta que o presidente não fará o sucessor?
Carlos Augusto Montenegro: Eu nunca vi, em quase 40 anos de Ibope, uma mudança na curva, como aconteceu nesta eleição, reverter de novo. Por mais que ainda faltem 30 e poucos dias para a eleição, o Brasil já tem uma presidente. É Dilma Rousseff. Ela tem 80% de chances de resolver a eleição no primeiro turno. Mas, se não for eleita agora, será no segundo turno.

IstoÉ: A que o sr. atribui essa virada?
Montenegro: Houve uma série de fatores. Primeiro a transferência do Lula, que realmente vai sair como o melhor presidente do Brasil. Um pouco acima até do patamar de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek. O segundo ponto é o preparo da candidata Dilma. Ela tem mostrado capacidade de gestão, equilíbrio, tranquilidade e firmeza.

A terceira razão é seu bom desempenho na televisão, inclusive nos debates e entrevistas. Lula acertou ao dizer, em entrevista à IstoÉ, que ela era um animal político. Está mostrando muito mais capacidade que os adversários e mostra que tem preparo para ser presidente.

IstoÉ: Mas há um ano o sr. declarou que Lula dificilmente faria o sucessor.
Montenegro: Errei. Eu dizia de uma forma clara que, apesar de o Lula estar bem, ele não elegeria um poste. Foi uma declaração extemporânea, descuidada e muito mais fundamentada num pensamento político do que com base em pesquisas. Foi um pensamento meu. Acho que eu tinha o direito de pensar daquela forma, mas não tinha o direito de tornar público. Peço desculpas. Na vida, às vezes, você se engana.

IstoÉ: O que mais o surpreendeu desde o momento do lançamento das candidaturas?
Montenegro: A oposição errou e essa é a quarta razão para o sucesso de Dilma. A campanha do Serra está velha e antiga. Não tem novidade. O PSDB repete 2002 e 2006. Está transmitindo para o eleitor uma coisa envelhecida. Vejo um despreparo total. O PSDB está perdido, da mesma forma que o Lula ficou nas eleições de 1994 e 1998 contra o Plano Real. Na ocasião, ele não sabia se criticava ou se apoiava e perdeu duas eleições.

IstoÉ: O bom momento da economia, a geração de empregos e o consumo em alta não fazem do governo Lula um cabo eleitoral imbatível?
Montenegro: Essa, para mim, é a razão principal. O Brasil nunca viveu um momento tão bom. E as pessoas estão com medo de perder esse momento. O Plano Real acabou derrotando o Lula duas vezes. Mas o Lula, com o governo dele, sem querer ou por querer, acabou criando um plano que eu chamo de imperial. É o império do bem, em que cerca de 80% a 90% das pessoas pelo menos subiram um degrau.

Quem não comia passou a comer uma refeição por dia, quem comia uma refeição passou a fazer duas, quem nunca teve crédito passou a ter crédito, quem andava a pé passou a andar de bicicleta ou moto, quem tinha carro comprou um mais novo e quem nunca viajou de avião passou a viajar. Os industriais também estão felizes, vendendo o que nunca venderam. Os banqueiros idem.

IstoÉ: Mas esse fator não pesou logo de início, quando os candidatos lançaram os seus nomes e Serra permaneceu vários meses na frente.
Montenegro: No início, houve transferência do Lula. Mas, de uns três meses para cá, o Lula está associando o êxito dele ao êxito do governo como um todo. E está mostrando que Dilma é a gestora desse governo. O braço direito dele. E as pessoas estão confiantes nisso e não estão querendo perder o que ganharam.

IstoÉ: É possível dizer então que o programa de TV do PT é mais eficiente do que o da oposição?
Montenegro: A TV ajudou na consolidação. Mas a virada de Dilma Rousseff na corrida para presidente da República se deu antes da TV. Pelo menos antes do horário eleitoral gratuito.

IstoÉ: Isso derruba o mito de que o programa eleitoral é capaz de virar a eleição?
Montenegro: Quando a eleição é disputada por candidatos pouco conhecidos, ele pode ser decisivo, sim. Por exemplo, a televisão está ajudando a eleição de Minas Gerais a se tornar mais dura. O Aécio está entrando agora, o Anastasia é o governador e eles estão mostrando as realizações do governo. Por isso, o Anastasia está crescendo.

O Hélio Costa largou na frente porque já era uma pessoa muito mais conhecida do que o Anastasia. Mas, quando você pega uma eleição em que todos os candidatos são bem conhecidos, o uso da TV é muito mais de manutenção e preenchimento do que para proporcionar uma virada.

IstoÉ: E os debates? Eles podem mudar a eleição?
Montenegro: Só se houvesse um desastre. Cada eleitor acha que o seu candidato teve desempenho melhor. Vai ouvir o que está querendo ouvir. Já conhece as propostas anunciadas durante a propaganda eleitoral. Falando especificamente dessa eleição presidencial, repito que a população está de bem com a vida. Quer continuar esse bom momento. O Brasil quer Dilma presidente.

IstoÉ: A candidatura de Marina Silva não tem força para levar a eleição até o segundo turno?
Montenegro: Cada vez mais a vitória de Dilma no primeiro turno fica cristalizada. Temos pesquisas diárias que mostram que essa eleição presidencial acabou.

IstoÉ: O fato de Dilma nunca ter disputado uma eleição não deveria pesar a favor de José Serra?
Montenegro: No Chile, Michele Bachelet tinha 80% de aprovação, mas não conseguiu fazer o sucessor. Por quê? Porque ele tinha passado. Já tinha concorrido. Quando você concorre, você pega experiência por um lado, mas a pessoa deixa de ser virgem, politicamente falando. Sempre há brigas que você tem que comprar e vem a rejeição. No caso da Dilma, o fato de ela nunca ter concorrido, ter sido sempre uma gestora, uma técnica, precisando só exercitar o seu lado político, ajudou muito.

IstoÉ: Em que medida o fato de Dilma ser mulher a ajudou nessas eleições?
Montenegro: Acho que não ajudou muito. Mas é algo diferente. O Brasil já tem implementado coisas novas na política, como foi a eleição de um sindicalista. É um fato interessante, mas a competência do Lula e da Dilma ajudaram muito mais.

IstoÉ: O atabalhoado processo de escolha do vice na chapa do PSDB prejudicou a candidatura de José Serra?
Montenegro: Não. Nunca vi vice ganhar eleição. Nem perder.

IstoÉ: O sr. acredita que Lula possa puxar votos para candidatos do PT nos estados, como em São Paulo, por exemplo?
Montenegro: Acho muito difícil. O Lula tinha toda essa popularidade em 2008, apoiou a Marta e ela perdeu do Gilberto Kassab, que estava fazendo uma boa administração.

Fonte: IstoÉ

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O VICE-PRESIDENTE COLOMBIANO RECHAÇA A MEDIAÇÃO DA UNASUL PROPOSTA PELAS FARC-EP


Angelino Garzón denegou a vontade das FARC de apresentar sua visão do conflito armado perante a Unasul como uma ponte entre o grupo rebelde e Bogotá, visto que o Executivo colombiano mantém fechada a porta para o diálogo e anunciou que o Governo não tratará a questão até não demonstrarem que querem a paz.

Fonte: TeleSUR



O vice-presidente colombiano, Angelino Garzón, nesta segunda-feira rejeitou a iniciativa de líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) de apresentar o conflito bélico perante a União das Nações Sulamericanas (Unasul) e, em vez disso, salientou que o seu governo decide enfrentar esses temas sem intermediários.

Garzon pediu que as FARC libertem os prisioneiros sem colocar nenhum tipo de condições e exigiu o fim dos “sequestros” e a existência de minas terrestres antipessoal, em suas primeiras declarações como vice-presidente e após sofrer uma intervenção cirúrgica no coração, há duas semanas.

“O governo colombiano exige que à guerrilha que liberte os sequestrados incondicionalmente; que cessem a atividade de sequestro e as minas terrestres antipessoal; que cessem também a atividade de recrutamento de crianças, que é uma expressão moderna de escravidão, além que sejam capazes de dizer ao povo colombiano que a violência não faz sentido”, disse ele nesta segunda-feira.

Garzón disse que as FARC devem demonstrar que desejam alcançar a paz se quiserem alcançar um diálogo com o governo colombiano e acrescentou que essas questões são dirigidas pelo próprio presidente Juan Manuel Santos.

Na segunda-feira, os membros do grupo rebelde publicaram uma carta, através do site da Agência de Notícias Nova Colômbia (ANNCOL), na qual solicitam à União de Nações Sulamericanas (Unasul) que convoque uma assembléia para dar a conhecer a sua visão das décadas de conflito armado na Colômbia.

“Senhores Presidentes: quando acharem oportuno, estamos dispostos a expor a nossa visão sobre o conflito colombiano em uma assembléia da Unasul”, informa a carta aberta do Secretariado do Estado Maior Central das FARC.

Na mesma carta, as FARC reiteraram seu interesse de buscar uma “solução política para o conflito”, porque consideram que “a paz da Colômbia é a paz do continente”, embora o Governo mantenha fechada a possibilidade de diálogo.

A publicação dirigida ao governo colombiano e aos outros onze países que compõem o grupo regional, expressa críticas à presença estrangeira no país e destaca a possibilidade de uma crise humanitária devido à violência.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

As Nações Unidas e o próximo relatório do Banco Mundial dão a razão às FARC- EP


Fonte: ANNCOL


Desde as primeiras marchas camponesas, em meados dos anos sessenta, que deram origem à insurgência fariana, desde os primeiros comunicados públicos de que se tem conhecimento, enunciou-se, uma das que seria a reivindicação mais famosa da insurgência colombiana, criada pelos marquetalianos: a reforma agrária.

Desde aqueles tempos remotos, todo tipo de planos de guerra já foram implementados para destruir esta insurgência, desde o plano LASO, até chegar ao Plano Consolidação, continuação do Plano Colômbia. Especialistas em questões sociais sustentam que a melhor maneira de acabar com uma rebelião em uma nação qualquer, é lutar com decisão política para anular as reivindicações insurgentes, ou seja, fazer cumprir, desde o Estado ou do regime político, o princípio da recuperação do caráter público da ação do Estado, ou do benefício geral.

Na Colômbia, o princípio tem sido outro. Cinco por cento das famílias mais ricas do país governa em funçã dos seus interesses de classe, em detrimento dos interesses de 95% do povo trabalhador. Nestas condições, a privatização da riqueza e socialização da miséria, é difícil para um estado como o colombiano anular a presença da rebelião e da insurgência com tanta camarilha no território pátrio.

Todos esses planos de guerra fracassaram, mesmo com toda a tecnologia de ponta, com aviões e uma máquina de guerra de última geração, não puderam com os filhos e seguidores daqueles 64 homens e mulheres, que desde Marquetália apregoavam, com razão, que na Colômbia nunca haverá paz enquanto não houver reforma.

Muitos estudos sérios foram feitos sobre o assunto, a Universidade Nacional da Colômbia tem contribuído significativamente nesta área, nenhum desses estudos foi lido pela oligarquia colombiana, esperamos que o novo ministro da Agricultura, Juan Camilo Restrepo, tire um tempo para ler pelo menos um, ou algum dos volumes, do legado de homens que, como o sociólogo Orlando Fals Borda, em sua “história dupla da costa”, deixaram para a história da luta pela terra no país.

A luta pela terra é hoje, a disputa mais feroz. Digamos que o núcleo da luta de classes na atual crise do capitalismo e, em busca de novos mercados e novas metas para seus capitais. Não só na Colômbia, mas em todo o mundo, essa foi a sensação que ficou ao escutar o relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, Olivier de Schutter, que sucede o sociólogo suíço Jean Ziegler.
O senhor Schutter, que teve o privilégio de ler o relatório do Banco Mundial sobre a terra antes de ser publicado, argumenta que a situação da terra é tão grave que o próprio Banco Mundial faz um ato de contrição em seu relatório sobre os conselhos dados aos investidores estrangeiros para investir nos país em vias de desenvolvimento. O continente Africano nos dá uma idéia da dimensão do problema, para não ir tão longe, no Sudão, onde o presidente precedeu a Uribe ao ser objeto de uma CPI, os investidores estrangeiros controlam quatro milhões de hectares, a maioria deles expropriados em áreas de controle paramilitar. O relator sobre o Direito à Alimentação, diz que das terras da África, 80% está em mãos de investidores estrangeiros (públicas, privadas, mistas, multinacionais), após a crise alimentar de 2008, muitos fundos de investimento foram implantados na África e em outros paises em desenvolvimento para se apoderar das terras.

O pior é que estes investimentos não criam um emprego sequer, como apregoam os traidores da pátria, que abriram as pernas para as multinacionais e às potências estrangeiras para entregar o território e a soberania nacional, sob o pretexto da confiança dos investidores e da criação de novos empregos.

Estas multinacionais e capitais que vão a busca da terra, os leitores de ANNCOL devem ter em mente, as multinacionais do óleo de palmeira, bananas, dos supostos agrocombustíveis, tem o mesmo modus operandi em todo o mundo. Primeiro, a ofensiva na guerra, a criação de grupos paramilitares, o deslocamento em massa, os massacres, a expropriação e a reforma agrária oligárquica, o que significa entregar as melhores terras para estrangeiros e nativos servis.

Na Colômbia, tivemos o exemplo do uribista Arias, o selvagem do Agro Ingresso Seguro dado aos paramilitares, mafiosos e a famílias ilustres que ajudaram a eleger Álvaro Uribe Vélez (vulgoAlias o Rábula, como agora é chamado em vista da enxurrada de processos contra seus inimigos políticos).

O prestigiado jornal de negócios Financial Times do mês de julho, e que nada tem de fariano, denuncia o mesmo que denunciaram na sua época os marquetalianos dos anos sessenta, que as terras mais férteis do mundo estão caindo nas mãos de investidores, em detrimento das populações locais que vivem em penúria de alimentos. A China, por exemplo, vê como os alimentos começam a escassear no seu território e, para remediar o problema, aluga ou compra terras, assim como acontece em Uganda, Camarões e Moçambique, onde o monstro asiático importou até seus próprios camponeses, isto é, não foi criado nenhum emprego .

A confiança dos investidores, da qual se regozijam os traidores da pátria, como Uribe Vélez e Cia, não outra coisa do que a flexibilização da legislação, impostos baixos para as multinacionais, em detrimento dos trabalhadores locais.

As multinacionais, segundo a denúncia do Financial Time e do próximo relatório do Banco Mundial, alertam sobre a condenação à penúria e à fome que esta dinâmica leva para os camponeses dos países pobres.

Na Colômbia ocorre a mesma coisa que na África. As multinacionais, os paramilitares e os amigos do governo estão ficando com as melhores terras. Às populações ancestrais, que têm a propriedade da terra, se lhes está exigindo documentos que demonstrem a propriedade sobre a terra, quando é sabido que estas comunidades preexistem aos cartórios.

Se lermos o programa agrário das FARC-EP, a Agenda para a Nova Colômbia e os relatórios de El Caguán, além de ler e ouvir especialistas sobre o assunto, percebe-se toda a razão da insurgência colombiana em sua principal reivindicação sobre a reforma agrária.

O regime colombiano tem a palavra, ou continuamos com esta maldita guerra fratricida ou colocam-se sobre a mesa os problemas cruciais que, desde os anos sessenta, foram descritos pela insurgência, pelo movimento popular ou pelo movimento camponês indígena colombiano.

O novo ministro da Agricultura deve tomar nota, a terra é para quem trabalha.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

FARC PRONTA PARA FALAR NA ASSEMBLÉIA DE UNASUL




Fonte: ANNCOL


A ofensiva diplomática das FARC a toda velocidade. Enquanto por um lado o governo colombiano fecha as portas para as conversações sobre o conflito social e armado, as FARC batem em outra porta.
Infelizmente, a OEA e a ONU continuam sob as orientações do capitalismo selvagem. Há pouco ou nada a fazer nestes espaços supostamente "democráticos". Anteriormente as FARC enviaram cartas à ONU, sem respostas até agora .

Leiamos:


Carta aberta das FARC-EP à UNASUL


Embora o governo da Colômbia mantenha fechada a porta ao diálogo com a insurgência estimulado pela miragem de uma vitória militar e a ingerência de Washington, queremos reiterar à União das Nações do Sul, UNASUL, a nossa firme determinação na busca de uma solução política para o conflito.

É um facto que o conflito se expandiu, há anos, para além das fronteiras da nossa pátria, como resultado das estratégias “preventivas” impostas a Bogotá pelo governo dos EUA. Se hoje a Colômbia está ocupada militarmente por uma potência estrangeira, é pelo desenvolvimento de interesses geoestratégicos, de predominancia continental, e não por causa de uma guerra local contrainsurgênte. Ninguém discute que a Casa Branca assume com preocupação a presença política, cada vez maior neste hemisfério, de governos optam pelo decoro pátrio e pela soberania.

Em nosso país, o Plano Colômbia, a estratégia neoliberal, a violência institucional e párainstitucional, agravaram o conflito a níveis inimagináveis, o que torna muito difícil superar esta fase de confronto fratricida sem a ajuda dos países irmãos.

O drama humanitário da Colômbia clama pela mobilização e solidariedade continental. A obsessão oligárquica de submeter militarmente à guerrilha, por mais de 46 anos, e a implementação de políticas belicossas e repressivas de Washington tem custado inúmeros massacres, valas comuns como a de La Macarena, que esconde mais de 2.000 cadáveres: a maior da América Latina. Crimes de lesa humanidade, eufemisticamente chamados de "falsos positivos"; o deslocamento forçado de cinco milhões de camponeses; desaparecimentos de cidadãos por razões políticas; prisões arbitrárias e 30 milhões de pobres em um país com 44 milhões de habitantes...

Alguns se referem frequentemente à obsolescência da luta armada revolucionária, mas não dizem nada sobre as condições e garantias para a luta política na Colômbia. Outros apontam a ameaça na insurgência e não na estratégia neocolonial do governo dos EUA, parecendo ignorar que, com a guerrilha ou sem ela, o Império continuaria com a sua agenda de predomínio. E há também há os favoráveis a pressionar só uma das partes litigantes, quase sempre a insurgência.

A paz com justiça social e não a guerra pela guerra, tem sido o objetivo estratégico das FARC desde a sua criação em 1964, em Marquetalia. Se as conversações de paz em Casa Verde, Caracas, Tlaxcala e El Caguán não chegaram a um final feliz, foi porque a oligarquia não quis considerar nenhuma mudança nas injustas estruturas políticas, economicas e sociais que motivaram o levantamento. Hoje enfrentamos, levantando bandeiras políticas inquestionáveis, a maior máquina bélica que jamais nenhuma guerrilha enfrentou, mas sempre lutando a possibilidade de uma solução política.

Senhores Presidentes, quando acharem oportuno, estamos dispostos a expor nossa visão sobre o conflito colombiano em uma assembléia da UNASUL.

A paz na Colômbia é a paz no continente.

Recebam nossas saudações

Atenciosamente,

Compatriotas

Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP


Montanhas da Colômbia, Agosto de 2010,

Ano bicentenario do grito de independência.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Colômbia: acordo militar com os EUA é inconstitucional

Corte Constitucional colombiana divulgou esta semana o resultado da sentença sobre a inconstitucionalidade do acordo militar que permitia aos Estados Unidos operar em sete bases colombianas, desde 30 de outubro de 2009. O acordo, que já se encontra sem efeito desde o dia 17 de agosto, precisará ser aprovado pelo Congresso Nacional para que seja afirmada ou negada sua validade. Na avaliação da Corte, acordo "afeta de maneira evidente a soberania nacional".

Natasha Pitts

Conforme previsto, a Corte Constitucional colombiana divulgou terça-feira (17) o resultado da sentença sobre a inconstitucionalidade do acordo militar que permitia aos Estados Unidos operar em sete bases colombianas, desde 30 de outubro de 2009. O acordo, que já se encontra sem efeito deste ontem, precisará ser aprovado pelo Congresso Nacional para que seja afirmada ou negada sua validade.

No início de outubro de 2009, o Conselho de Estado já havia alertado o governo colombiano para a necessidade de que o ‘Acordo Complementar para a Cooperação e Assistência Técnica em Defesa e Segurança’ fosse renegociado, já que afetava de maneira evidente a soberania nacional. Além disso, emitiu um conceito em que recomendou que os trâmites fossem resolvidos junto ao Congresso da República.

Mesmo com todas as orientações e recomendações e ignorando o Conselho de Estado, o governo de Álvaro Uribe passou por cima da Constituição colombiana e firmou o contrato com o governo estadunidense, dando o aval para a entrada de cerca de 800 militares, 600 civis, além de navios e aviões do exército dos EUA.

"Desta forma se comprova que sim, tinham fundamento os questionamentos que amplos setores democráticos da população colombiana e estadunidense vinham fazendo sobre o acordo militar e sobre a forma mansa com que o governo de Uribe, com seu então ministro de Defesa hoje presidente, Juan Manuel Santos, pretendia renunciar à soberania nacional", reflete a Coalizão Colômbia Não Bases, que nasceu para combater a instalação de bases militares no território colombiano.

Pela junção de todas as ilegalidades, a presidente da Corte Constitucional, Mauricio González, declarou que o acordo é contrário às praxes constitucionais e por não ter sido avalizado pelo Congresso não pode surtir efeitos na ordem jurídica interna do país até que seja sanada a exigência. Conforme acrescentou a Coalizão Colômbia Não Bases em notícia publicada ontem, como o acordo já vinha sendo executado "deverão ser retiradas as tropas e equipes estrangeiras das bases militares colombianas".

O acordo foi devolvido ao presidente Juan Manuel Santos e a partir da data da liberação da sentença o governo terá um ano para retificá-lo e para que o mesmo tramite junto ao Congresso. No caso de ser enviado e aprovado pelo Congresso, de maioria oficialista, deverá ser submetido a um novo exame do tribunal.

Ciente do resultado da sentença, o governo nacional, por meio do ministro de Defesa, Rodrigo Rivera, anunciou que acata a sentença e "estudará detalhadamente dita decisão à luz das normas do direito internacional, dos acordos vigentes e das demais normas aplicáveis".

Segundo informações da agência AFP, durante pronunciamento, o governo nacional deixou claro que a decisão da Corte "não afeta os acordos previamente subscritos e vigentes com os Estados Unidos", os quais "se vêm cumprindo e seguirão sendo cumpridos de boa fé".

Após a liberação da sentença, o advogado Luis Guillermo Pérez, do Coletivo jurídico José Alvear Restrepo Cajar, ONG que havia pedido por própria conta a declaração de inconstitucionalidade, reforçou a postura de que os colombianos precisam "resolver o conflito por seus próprios meios". O advogado também relembrou que a ocupação estadunidense no país nunca havia sido analisada de modo adequado e criticou o fato de a população ignorar o que os militares faziam na região.

(*) Jornalista da Adital

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"Reforma Agrária Popular exige novo modelo de desenvolvimento"

Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, o dirigente nacional do MST e da Via Campesina analisa o atual cenário eleitoral e aponta os interesses em disputa. “Como militantes sociais, e como movimentos sociais, temos a obrigação política de derrotar a candidatura Serra”, diz Stédile. A vitória da Dilma, acrescenta, permitirá um cenário mais favorável para o país avançar em conquistas sociais, inclusive em mudanças na política agrícola e agrária. Uma reforma agrária popular, diz ainda, "depende de um novo modelo de desenvolvimento, que tenha distribuição de renda, soberania nacional, rompimento com o domínio do capital estrangeiro sobre a agricultura e a natureza".

Nilton Viana - Brasil de Fato

A candidatura de José Serra (PSDB) representa o núcleo central dos interesses da burguesia e a volta do neoliberalismo. Esta é a avaliação João Pedro Stedile. Em sua primeira entrevista ao Brasil de Fato, o dirigente nacional do MST e da Via Campesina constata que, no atual cenário eleitoral, as candidaturas não estão debatendo programas, projetos para a sociedade.

Mas, segundo ele, elas representam claramente interesses diversos de forças sociais organizadas. Nesse sentido, Stedile afirma que Serra representa os interesses da burguesia internacional, da burguesia financeira, dos industriais de São Paulo, do latifúndio atrasado, com Katia Abreu de coordenadora de finanças e setores do agronegócio do etanol. E, frente a esse cenário, defende que, “como militantes sociais, e como movimentos sociais, temos a obrigação política de derrotar a candidatura Serra”.

Com a implementação do modelo neoliberal, os bancos e o capital financeiro aumentaram seus lucros e passaram a dirigir a economia do Brasil, que se sustenta na política de juros altos, meta de inflação, arrocho fiscal e política de exportações. Quais as consequências desse modelo?

Estamos vivendo a etapa do capitalismo que se internacionalizou, dominou toda a economia mundial sob a hegemonia do capital financeiro e das grandes corporações que atuam em nível internacional. O mundo é dominado por 500 grandes empresas internacionalizadas, que controlam 52% do PIB mundial e dão emprego para apenas 8% da classe trabalhadora. As consequências em nível mundial são um desastre, pois toda população e os governos nacionais precisam estar subordinados a esses interesses. E eles não respeitam mais nada, para poder aumentar e manter suas taxas de lucro.

Seus métodos vão desde a apropriação das riquezas naturais, deflagração de conflitos bélicos para manter as fontes de energias e controle do Estado, para se apropriarem da mais-valia social ou poupança coletiva através dos juros que os estados pagam aos bancos. No Brasil, a lógica é a mesma.

Com um agravante, sendo uma economia muito grande e dependente do capital estrangeiro, aqui o processo de concentração de capital e de riqueza é ainda maior. Esta é a razão estrutural do porquê – apesar de sermos a oitava economia mundial em volume de riquezas – estamos em 72º lugar nas condições médias de vida da população e somos a quarta pior sociedade do mundo em desigualdade social. Portanto, essa fase do capitalismo, em vez de desempenhar um papel progressista no desenvolvimento das forças produtivas e sociais, como foi a etapa do capitalismo industrial; agora, os níveis de concentração e desigualdade só agravam os problemas sociais.

Mesmo com a eleição de governos mais progressistas, o Estado brasileiro mantém seu caráter antipopular, sem a realização de mudanças mais profundas que resolvam os problemas estruturais do país. Como você avalia a democracia e o Estado no Brasil?

Primeiro, há uma lógica natural do funcionamento da acumulação e da exploração do capital que sobrepõe os governos e as leis. Segundo, no período neoliberal, o que o capital fez foi justamente isso, privatizar o Estado. Ou seja, a burguesia transformou o Estado em seu refém, para que ele funcione apenas em função dos interesses econômicos. E sucateou o Estado nas áreas de políticas públicas de serviços que servem a toda população, como educação, saúde, transporte público, moradia etc. Por exemplo, temos 16 milhões de analfabetos. Para alfabetizá-los, custaria, no máximo, uns R$ 10 bilhões. Parece muito – o Estado, com todo seu aparato jurídico impede de aplicar esse dinheiro –, mas isso representa duas semanas do pagamento de juros que o Estado faz aos bancos. Construímos viadutos e estradas em semanas, mas para resolver o deficit de moradias populares é impossível? Temos ainda 10 milhões de moradias faltando para o povo.

Por último, a sociedade brasileira não é democrática. Nós nos iludimos com as liberdades democráticas de manifestação, que conquistamos contra a ditadura, que foram importantes. Mas a verdadeira democracia é garantir a cada e a todos cidadãos direitos e oportunidades iguais, de trabalho, renda, terra, educação, moradia e cultura. Por isso, mesmo quando elegemos governos com propostas progressistas, eles não têm força sufi ciente para alterar as leis do mercado e a natureza do Estado burguês.

Na política internacional, o governo Lula investiu na relação com países do hemisfério Sul, com o fortalecimento do Mercosul e da Unasul, por exemplo. Qual a sua avaliação dessa política e quais os seus limites?

O governo Lula fez uma política externa progressista no âmbito das relações políticas de Estado. E uma política dos interesses das empresas brasileiras, nos seus aspectos econômicos. Comparado às políticas neoliberais de FHC, que eram totalmente subservientes aos interesses do imperialismo, isso é um avanço enorme, pois tivemos uma política soberana, decidida por nós.

Na política, se fortaleceram os laços com governos latinos e daí nasceu a Unasul para a América do Sul, e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) para todo o continente, excluindo-se os Estados Unidos e o Canadá. Esses dois organismo representam o fim da OEA. Aliás, já tarde. Na economia se fortaleceram laços econômicos com países do Sul. Mas ainda precisamos avançar mais na construção de uma integração continental que seja de interesse dos povos, e não apenas das empresas brasileiras, ou mexicanas e argentinas.

Uma integração popular latino-americana no âmbito da economia será o fortalecimento do Banco do Sul, para substituir o FMI. O banco da Alba, para substituir o Banco Mundial. E a construção de uma moeda única latino-americana, como é proposto pela Alba, através do sucre, para sair da dependência do dólar. Se queremos independência e soberania econômica nas relações internacionais e latino-americanas, é fundamental colocarmos energias para derrotar o dólar.

O dólar foi fruto da vitória estadunidense na segunda guerra mundial e tem sido, nessas décadas todas, o principal mecanismo de espoliação de todos os povos do mundo. Num aspecto mais amplo, o presidente Lula tem razão: as Nações Unidas não representam os interesses dos povos, e por isso é besteira o Brasil sonhar em ter a presidência. Precisamos é construir novos e mais representativos organismos internacionais. Mas isso não depende de propostas ou vontade política. Depende de uma nova correlação de forças mundial, em que governos progressistas sejam maioria. E hoje não são.

O sistema de televisão e rádio é extremamente concentrado no Brasil, em comparação até com os outros países da América Latina. Quais as consequências disso para a luta política?

Durante o século 20, hegemonizado pela democracia republicana e pelo capitalismo industrial que produziu uma sociedade de classes bem definida, a reprodução ideológica da burguesia se dava pelos partidos políticos, pelas igrejas e pelos sindicatos e associações de classe. Agora, na fase do capitalismo internacionalizado e financeiro, a reprodução da ideologia dominante se dá pelos meios de comunicação, em especial redes de televisão e as agências internacionais de noticias.

A burguesia descartou os outros instrumentos e prioriza estes, os quais tem controle total. Por isso, no Brasil, na América Latina e em todo o mundo, os meios de comunicação estão sob controle absoluto das burguesias. E eles usam como reprodução ideológica, como fonte de ganhar dinheiro e como manipulação política. E como seus patrões estão internacionalizados, suas pautas e agendas estão também centralizadas.

Por isso, a construção de um regime político mais democrático, mesmo nos marcos do capitalismo, depende fundamentalmente da democratização dos meios de comunicação. Isso é fundamental para garantir o direito ao acesso à informação honesta e impedir a manipulação das massas. E os governos deveriam começar eliminando a publicidade estatal, em qualquer nível, em qualquer meio de comunicação. É uma vergonha o que se gasta em publicidade oficial. No Paraná, para se ter uma ideia, em oito anos de governo Lerner [1995-2002], o Estado pagou mais de R$ 1 bilhão em publicidade para dois ou três grupos de comunicação.

As grandes cidades brasileiras enfrentam problemas como falta de habitação, saneamento básico, escolas, hospitais, além de trânsito e violência. Como você analisa a questão urbana?

A maior parte da população se concentra nas grandes cidades, e aí estão concentrados também os pobres e os maiores problemas resultantes desse modelo capitalista, e de um Estado que atua somente em favor dos ricos. Os pobres das grandes cidades se amontoam nas periferias, não têm direito a moradia, escola, transporte público decente, trabalho, renda. Nem a lazer. Sobram os programas de baixaria da televisão como lazer. Nesse contexto é evidente que o sistema gera um ambiente propício para o narcotráfico, para a violência social.

E o Estado, o que tem feito através dos mais diferentes governos?

A única resposta tem sido a repressão. Mais polícia, mais violência oficial, mas cadeia. As cadeias estão cheias de pobres, jovens, mulatos ou negros. Há uma situação insustentável de tragédia social. Todos os dias assistimos os absurdos da desigualdade social, do descaso do Estado e da truculência do capital.

As estatísticas são aterrorizantes: 40 mil assassinatos por ano nas grandes cidades, a maioria pela polícia. Por isso os movimentos sociais apoiaram a campanha pelo desarmamento. Mas a força das empresas bélicas financiou deputados, campanhas etc., e o povo caiu na ilusão de que o problema da violência urbana se resolveria tendo o direito de ter arma.

Acredito que a pobreza e a desigualdade nas grandes cidades brasileiras é o problema social mais grave que temos. Infelizmente nenhum candidato está debatendo o tema, nem quando o debate é para prometer segurança! Segurança para quem? As famílias precisam de segurança de trabalho, renda, escola para os filhos.

Nas eleições presidenciais, o quadro apresenta duas candidaturas que polarizam a disputa, enquanto as outras não demonstram força para mudar essa situação. Nessa conjuntura, quem abre melhores perspetivas para a classe trabalhadora e para a reforma agrária?

As candidaturas não estão debatendo programas, projetos para a sociedade. Mas as candidaturas representam claramente interesses diversos de forças sociais organizadas. Serra representa os interesses da burguesia internacional, da burguesia financeira, dos industriais de São Paulo, do latifúndio atrasado, com sua Katia Abreu de coordenadora de finanças, e setores do agronegócio do etanol.

Dilma representa setores da burguesia brasileira que resolveram se aliar com Lula, setores mais arejados do agronegócio, a classe média mais consciente, e praticamente todas as forças da classe trabalhadora organizada. Vejam, apesar de toda popularidade do Lula, nessa campanha, a Dilma reuniu mais forças da classe trabalhadora do que na eleição de 2006.

A candidatura da Marina representa apenas setores ambientalistas e da classe média dos grandes centros, e por isso seu potencial eleitoral não decola. E temos três candidaturas de partidos de esquerda, com companheiros de biografia respeitada de compromisso com o povo, mas que não conseguiram aglutinar forças sociais ao seu redor, e por isso, o peso eleitoral será pequeno.

Nesse cenário, nós achamos que a vitória da Dilma permitirá um cenário e correlação de forças mais favoráveis a avançarmos em conquistas sociais, inclusive em mudanças na política agrícola e agrária. E evidentemente que nesse cenário incluímos a possibilidade de um ambiente propício para maior mobilização social da classe trabalhadora como um todo, para a obtenção de conquistas. Como militantes sociais, e como movimentos sociais, temos a obrigação política de derrotar a candidatura Serra, que representa o núcleo central dos interesses da burguesia e a volta do neoliberalismo.

O MST apresentou uma avaliação de que a luta eleitoral não é sufi ciente para a realização das mudanças sociais. Por outro lado, analisa que é um momento importante no debate político. Como o MST vai se envolver nessas eleições?

A esquerda brasileira, os movimentos sociais e políticos ainda estão aturdidos com a derrota político-ideológica-eleitoral que sofremos em 1989. Isso levou a muitas confusões, e também a alguns desvios de setores da classe. Vivemos um período da história da luta de classes de nosso país – e poderíamos dizer em nível internacional, na maioria dos países – em que a estratégia para conseguir acumular forças para mudanças sociais é a combinação da luta institucional com a luta social.

Na luta institucional, compreendemos a visão gramsciana na qual os interesses da classe trabalhadora precisam disputar e ter hegemonia na disputa de governos nos três níveis: municipal, estadual e federal. Nos espaços do conhecimento, universidade, meios de comunicação. Nos sindicatos, igrejas e outras instituições da sociedade de classes. E a luta social são todas as formas de mobilização de massa, que possibilitam o desenvolvimento da consciência de classe e a conquista de melhores condições de vida – sabendo que elas dependem de derrotar os interesses do capital.

Pois bem, o que aconteceu no último período? Parte da esquerda e da classe trabalhadora priorizou a luta institucional da disputa apenas de governos e menosprezou, desdenhou a luta social. E parte dos movimentos sociais, desencantado com a crise ideológica, desdenhou a luta institucional, como se a luta direta, de massas, fosse suficiente. Luta social apenas, sem disputar projeto político na sociedade e sem disputar os rumos institucionais do Estado, não consegue acumular para a classe. Podem até eventualmente resolver problemas pontuais da classe, mas não mudam a natureza estrutural da sociedade.

O MST compreende que devemos aglutinar, combinar, estimular as duas formas de luta, de forma permanente. Para que com isso possamos acumular forças, organizadas, de massa, de forma orgânica, que construa um projeto político da classe e ao mesmo tempo crie condições para o reascenso do movimento de massas, pois este é o período histórico em que a classe tem condições de ir para a ofensiva, de tomar inciativa política, de pautar seus temas para todo o povo. Por isso, claro que todo militante do MST, como cidadão consciente, deve arregaçar as mangas e ajudar a eleger os candidatos mais progressistas em todos os níveis. Isso é uma obrigação de nosso compromisso com a classe.

Desde os tempos do governo FHC, José Serra fez declarações contra a reforma agrária e o MST. No entanto, nas últimas semanas, vem intensificando os ataques. Na sua visão, por que ele vem agindo dessa forma?

Por dois motivos. Primeiro, porque as forças sociais que ele representa agora, como porta-voz maior, são as forças da classe dominante do campo e da cidade, que são contra os interesses dos camponeses, da classe trabalhadora em geral e do povo brasileiro. Portanto, ele é contra a reforma agrária não porque não goste do MST, mas por uma questão de interesse de classe. Segundo, na minha avaliação, é que a coordenação tucana acha que a única chance do Serra crescer eleitoralmente é adotar um discurso de direita, para polarizar e, então, se mostrar mais de confiança do que a Dilma.

Por isso adotou todos os ícones da esquerda para bater. Bate em nós, em Fidel, em Cuba, Chávez, Evo Morales, até no bispo Lugo ele bateu. Achou uma conexão das Farc com o PT absurda. Ele sabe que o partido está mais próximo da social-democracia. Não é por ignorância, é por tática eleitoral. Acho que ele errou também na tática. E vai ficar refém de seu discurso de direita sem ampliar os votos. Eu acho ótimo que ele se revele como direitista mesmo. Ajuda a clarear os interesses de classe das candidaturas. E por isso mesmo vai perder de maior diferença do que o Alckmin perdeu do Lula em 2006.

Atualmente, o movimento sindical vem fazendo a luta pela redução da jornada, mas está fragmentado em uma série de centrais sindicais. Quais os problemas e desafios da luta sindical atualmente?

Não tenho a pretensão de dar lições a ninguém. Há valorosos companheiros que atuam na luta sindical que têm muitos elementos para analisar a situação da organização de classe. Os problemas e desafios da organização sindical são evidentes. Mas não estão no número de sindicatos ou de centrais. Isto, ao contrário, até poderia ser visto como vitalidade, já que as correntes sindicais sempre existiram, são importantes e aglutinam por vertentes ideológicas.

Os desafios da unidade da classe nos sindicatos passam pela necessidade de recuperarmos o trabalho de base, a organização, de toda a classe, lá no local de trabalho e no de moradia. Ninguém mais quer fazer reunião na porta de fábrica, na fábrica (mesmo que de forma clandestina, como era nos tempos do Lula). Precisamos recuperar o sentido da luta de massas como a única expressão da força da classe. Precisamos recuperar o debate de temas políticos, relacionados com um programa para a sociedade que extrapole as demandas salariais e corporativas.

Precisamos recuperar a importância de o movimento sindical ter seus próprios meios de comunicação de massa. Saúdo a chegada da televisão dos trabalhadores no ABC. Mas precisaríamos ter antes, e em todas regiões metropolitanas. Precisamos recuperar a formação de militantes da classe trabalhadora, em todos os níveis. Sem conhecimento, sem teoria, não haverá mudanças. E, com essas iniciativas, certamente poderemos construir um processo de maior unidade, já que os interesses da classe como um todo serão o denominador comum, e de construção do reascenso do movimento de massas.

Um grupo de dirigentes e estudiosos avalia que a sociedade brasileira passou por uma transformação, e sindicatos e partidos políticos não são suficientes para organizar o povo brasileiro, especialmente com o aumento da informalidade. Com isso, seria necessário construir novos instrumentos para a luta política. Como você avalia os desafios organizativos da classe trabalhadora?

As formas de organização da classe em partidos, sindicatos e associações de bairro foram desenvolvidas pela classe, como respostas ao desenvolvimento da exploração pelo capitalismo industrial, desde os tempos de Marx até os dias atuais. Acho que o problema não é ficar analisando se serve ou não, jogar tudo fora e pensar novos instrumentos. Cada tempo histórico tem suas formas de organização, suas formas de luta de massa e produz suas próprias lideranças.

Estamos vivendo um período de derrota político-ideológica que gerou crise ideológica e organizativa na classe. Um período de refluxo do movimento de massas. Mas isso faz parte de um período, de uma onda. Logo ingressaremos em novos períodos.

Acho que o principal não é discutir a forma, mas tratar de organizar de todas as maneiras possíveis todos os setores da classe trabalhadora. E evidentemente que a forma sindical ou partidária não está conseguindo chegar na juventude pobre, da classe trabalhadora das periferias. E precisamos descobrir novos métodos e novas formas.

As formas podem ter outros rótulos, outros apelidos, mas o principal é que a classe precisa se organizar do ponto de vista econômico, corporativo, para resolver suas necessidades e problemas imediatos; e precisa ter organização política, para disputar projetos para a sociedade. E só vamos resolver os problemas de organização organizando. A prática é a melhor conselheira, do que grandes teses, nesse caso.

Dentro de um modelo que tem hegemonia de bancos e do capital financeiro, com o enfraquecimento da indústria, baseado no consumo de massa, quais as perspectivas de futuro para a juventude?

A juventude pobre, da classe trabalhadora urbana, não tem espaço nesse modelo de dominação do capital financeiro e internacionalizado. Nem nos países chamados ricos, como na Europa, onde o desemprego atinge até 40% da juventude. O futuro da juventude está justamente em desenvolver uma consciência como classe trabalhadora. Se apenas ficar se olhando como jovem e sem oportunidades, não vai encontrar as respostas, vai ficar velho sem as respostas.

Precisamos desenvolver consciência de classe, e motivá-los para que se mobilizem, lutem. E como estão fora das fábricas, da escola, temos que desenvolver novas formas de trabalho político com a juventude, que a ajude a debater, a se aglutinar, para que descubra que o futuro é agora. Tenho esperanças, há uma massa enorme da juventude trabalhadora urbana que está em silêncio. Ou ainda alienada, iludida. Alguns tentando entrar no mercado consumidor, como se fosse a felicidade geral. Logo perceberão que precisam ter uma atitude, uma participação ativa na sociedade.

O MST vem fazendo a avaliação de que a reforma agrária não avançou durante o governo Lula. Por quê?

É preciso ter claro os conceitos e o significado da reforma agrária. Reforma agrária é uma política pública, desenvolvida pelo Estado, para democratizar a propriedade da terra e garantir o acesso a todos os camponeses que queiram trabalhar na terra.

Do ponto de vista histórico, ela surgiu numa aliança da burguesia industrial no poder com os camponeses que precisavam terra, para sair da exploração dos latifundiários. E, assim, a maioria das sociedades modernas fez reforma agrária a partir do século 19 e ao longo do século 20. Depois tivemos as reformas agrárias populares e socialistas, que foram feitas por governos populares ou revolucionários, no bojo de outras mudanças sociais.

Aqui no Brasil nunca tivemos reforma agrária. A burguesia brasileira nunca quis democratizar a propriedade da terra. Ela preferiu manter aliança com os latifundiários para que continuassem exportando matérias-primas (e aí ela usaria os dólares da exportação para bancar a importação de máquinas) e sobretudo preferiu expulsar os camponeses para a cidade, para criar um amplo exército industrial de reserva, que manteve ao longo do século 20 os salários industriais mais baixos de todas as economias industriais do mundo. E os camponeses brasileiros nunca tiveram forças, sozinhos nem em aliança com os trabalhadores da cidade, para impor uma reforma agrária aos latifundiários.

Chegamos mais perto disso em 1964. E tivemos um baita programa de reforma agrária, em aliança com o governo Goulart. A resposta da burguesia foi se aliar com Império e impor a ditadura militar de classe. As políticas dos governos no Brasil e do governo Lula são de assentamentos rurais. Ou seja, aqui e acolá, pela força da pressão camponesa, desapropria algumas fazendas para aliviar os problemas sociais. Mas isso não é reforma agrária.

Tanto que o censo do IBGE de 2006 revelou que agora a concentração da propriedade da terra é maior do que no censo de 1920, quando recém saímos da escravidão. E no governo Lula não tivemos espaço para debater um processo de reforma agrária verdadeiro, e nem tivemos força de massas para pressionar o governo e a sociedade. Por isso, a atual política de assentamentos é insuficiente por um lado, mas reflete a correlação de forças políticas que há na sociedade. Lamentamos apenas que algumas forças dentro do governo se iludam a si mesmas, fazendo propaganda ou achando que essa política de assentamentos – insuficiente – fosse reforma agrária.

Alguns estudiosos e setores sociais, até mesmo na esquerda, avaliam que passou o tempo da reforma agrária no Brasil. Qual o papel da reforma agrária dentro do atual estágio de desenvolvimento?

É verdade, nós também dizemos isso. Não há mais espaço para uma reforma agrária clássica, que visava apenas distribuir terra aos camponeses e eles produziriam com suas próprias forças e família para o mercado interno. Esse modelo era viável no auge e para o desenvolvimento nacional e do capitalismo industrial. Mas ele é inviável não porque o MST desdenha, e sim porque as forças políticas e sociais que poderiam ter interesse não têm mais.

Se houvesse uma reviravolta nas classes que dominam o Brasil, e um novo projeto de desenvolvimento nacional e industrial entrasse na pauta política, aí a reforma agrária clássica teria lugar. Mas não é isso que se desenha. Então, qual a alternativa agora? É lutar por um novo tipo de reforma agrária. Uma reforma agrária que nós chamamos de popular. Que o movimento de pequenos agricultores chama de Plano Camponês, que a própria Contag e Fetraf chamam de agricultura familiar. São rótulos diferentes para um conteúdo semelhante.

Ou seja, nós precisamos reorganizar o modelo de produção agrícola do país. Nós queremos usar nossa natureza para uma agricultura diversificada, fixando as pessoas no meio rural com melhoria das condições de vida, eliminando o latifúndio (não precisa ser muitos, apenas os acima de 1.500 hectares), adotando técnicas de produção de agroecologia, respeitosas ao meio ambiente e, sobretudo, produzindo alimentos sadios para o mercado interno. Nossa proposta de reforma agrária popular, no entanto, depende de um novo modelo de desenvolvimento, que tenha distribuição de renda, soberania nacional, rompimento com o domínio do capital estrangeiro sobre a agricultura e a natureza.

Como a reforma agrária pode beneficiar o conjunto da sociedade, especialmente a população das cidades?

A reforma agrária e a fixação do homem no campo são fundamentais para reduzir o desemprego na cidade e elevar os patamares do salário mínimo e a média salarial. A burguesia só paga baixos salários e aumenta o número de empregados domésticos porque todos os dias chegam milhares de novos trabalhadores se oferecendo para serem explorados. A reforma agrária é a única que pode produzir sem venenos.

A grande propriedade do agronegócio só consegue produzir com veneno, porque não quer mão de obra, e esse veneno vai para o estômago de todos nós. Na última safra foram um bilhão de litros de venenos, 6 litros por pessoa, 150 litros por hectares. Uma vergonha. Um atentado. A reforma agrária ajuda a resolver o problema de moradia e do inchaço das cidades. Também vai reequilibrar o meio ambiente e com isso teremos menos mudanças climáticas que estão afetando agora, com mais força, as cidades. Vejam o que aconteceu no Nordeste.

Num dia, 13 cidades foram varridas do mapa pelas chuvas torrenciais. Não foi a chuva a culpada, e sim o monocultivo da cana que alterou o equilíbrio e empurrou o povo para a beira do rio. Mas isso só o general Nelson Jobim viu e teve coragem de dizer. A Globo ficou quietinha procurando acobertar. Nenhuma área de reforma agrária de Pernambuco e Alagoas foi atingida, por que será? E nossos assentamentos foram os primeiros, antes do governo, a dar guarida aos desabrigados.

Por que a Via Campesina e o MST vêm realizando protestos contra as grandes empresas do agronegócio? As ocupações de terras não são suficientes ou não servem mais para a luta pela reforma agrária?

Agora a disputa não é mais apenas entre os pobres sem-terra e os latifundiários. Agora é uma disputa de modelo para produção e uso dos bens da natureza. De um lado temos o agronegócio, que é a aliança entre os grandes proprietários, o capital financeiro, que os financia – veja que, de uma produção de R$ 112 bilhões, os bancos adiantam R$ 100 bi para eles poderem produzir –, as empresas transnacionais que controlam a produção de insumos, sementes, o mercado nacional e internacional e as empresas de mídia. E, de outro lado, os sem-terra, os camponeses com pouca terra e a agricultura familiar em geral. E nesse marco de disputa, nosso inimigo principal são os bancos e as empresas transnacionais.

Então, fazemos a luta de classes contra nossos inimigos principais e ao mesmo tempo devemos seguir lutando para melhorar as condições de vida, com novos assentamentos, moradia rural, luz para todos, programa de compra de alimentos pela Conab, um novo crédito rural etc. Essas medidas, embora setoriais, também ajudam a acumular força como classe.

Nos próximos dias, o MST vai realizar atividades pela reforma agrária. Como serão essas mobilizações e quais seus objetivos? Elas têm alguma relação com o período eleitoral?

A coordenação nacional do MST escolheu há tempos essa semana de meados de agosto para realizar uma campanha nacional de debates em torno da reforma agrária. É uma forma concentrada de esforços para desenvolver diferentes maneiras de agitação e propaganda; para levar nossas ideias à classe trabalhadora urbana; para denunciar os problemas e malefícios que o agronegócio, com seus venenos e sua sanha concentradora, causa para toda a sociedade; e, ao mesmo tempo, mostrar justamente os benefícios de uma reforma agrária popular. Esperamos que nossa militância se engaje em todo país, para essa jornada de conscientização de massas.