"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

Nas montanhas da Colômbia: pela paz democrática com justiça social

Por Ivan Pinheiro, 10-Ago-2010

Nos últimos anos, venho cumprindo tarefa partidária no sentido de restabelecer e estreitar as relações do PCB com organizações e partidos revolucionários, com destaque para a América Latina. Este trabalho político tem como objetivo principal o reforço do internacionalismo proletário, na luta antiimperialista e pelo socialismo.

A América Latina é palco de uma intensa luta de classes, antagonizando forças populares dispostas a aprofundar mudanças sociais e as oligarquias associadas ao imperialismo, sobretudo o norte-americano.

Ao XIV Congresso Nacional do PCB, realizado em outubro do ano passado, compareceu a grande maioria dos Partidos Comunistas da região. Além de viagens recentes de camaradas da direção do PCB e da UJC (União da Juventude Comunista) à Argentina, Chile e Uruguai e outros países, pessoalmente estive na Bolívia, Cuba, Colômbia, Equador, Honduras, Paraguai, Peru e Venezuela. Nestas viagens, tive contatos com camaradas de Costa Rica, El Salvador, Haiti, Nicarágua, Panamá, Porto Rico e República Dominicana.

Numa dessas viagens, fui convidado a conhecer presencialmente a mais antiga e importante organização insurgente do continente: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP), que há 46 anos lutam nas montanhas pela libertação nacional e pelo socialismo na Colômbia. A organização foi criada em função de uma necessidade objetiva de os camponeses colombianos defenderem seus pedaços de terra, suas casas e suas famílias da violência do Estado e de milícias a serviço do latifúndio.

Tive que tomar solitariamente a decisão de aceitar o convite e viajar no dia seguinte para as montanhas andinas, já que era o único membro do PCB naquela viagem e, por razões óbvias, não poderia consultar meus camaradas da direção do Partido no Brasil. Portanto, resolvi passar alguns dias num acampamento das FARC na Colômbia por iniciativa própria, sob minha exclusiva responsabilidade, e não por decisão partidária. Mas estava convicto de que minha atitude era compatível com a linha política do Partido.

Valeram a pena as duras viagens, de ida e volta, por regiões e países dos quais não me recordo, até porque toda aquela região é habitada pelo mesmo povo, dividido artificialmente em vários países, pelos interesses do capital. Passei por belas paisagens, conheci uma fauna e uma flora exuberantes, alternando meios de transporte os mais variados, como automóveis, canoas e mulas, além de saudáveis mas cansativas caminhadas.

Ficarão para sempre em minha memória os diálogos que mantive com os jovens guerrilheiros e guerrilheiras que conheci e as fotografias que não pude tirar do trabalho dos camponeses, das creches, escolas e postos de saúde criados e mantidos pelo "Estado" guerrilheiro em seu território, do cotidiano do acampamento.

Foram momentos que me marcaram, reforçando valores como a disciplina partidária, o trabalho coletivo, a camaradagem. O aprendizado nas reuniões diárias do coletivo, ao anoitecer, para repercutir documentos políticos e notícias atualizadas, da Colômbia e do mundo todo, ouvidas nos rádios que fazem parte do enxoval dos militantes. As bibliotecas volantes, onde não faltam clássicos do marxismo e da literatura.

Impossível esquecer a entrevista que fiz em "portunhol" para todo o contingente guerrilheiro, através da Rádio Rebelde.

Como não guardar com carinho o único objeto físico que pude trazer da viagem, um caracol que ganhei do jovem guerrilheiro que me serviu de guia e apoio durante a estadia, no dia em que nos despedimos sem que pudéssemos conter as lágrimas que misturavam sentimentos de fraternidade e paternidade.

Muito mais do que a curiosidade, o espírito de aventura e a simpatia pelas FARC, falou mais alto em minha decisão o dever revolucionário de contribuir, de alguma forma, para os esforços para uma solução política da complexa questão colombiana. Muito antes da viagem e da instalação de mais sete bases militares norte-americanas na Colômbia, eu já tinha consciência de que esse país vinha se transformando numa cabeça de ponte do imperialismo na América Latina, onde cumpre o papel que Israel exerce no Oriente Médio.

Num artigo que publiquei há alguns anos ("Impedir a guerra imperialista na América Latina"), já dizia textualmente:

"... para dar solidariedade aos povos venezuelano, boliviano, equatoriano; para lutar para que possam avançar as mudanças e a luta de classes na América Latina, mesmo em processos mais mediados e contraditórios; para evitar que haja guerra e retrocesso em nosso continente; para tudo isso, há um pré-requisito: derrotar o verdadeiro eixo do mal, os braços do imperialismo norte-americano em nosso continente: o governo fascista e o Estado terrorista da Colômbia!".

Já tinha claro, quando resolvi aceitar o convite, que não interessa à oligarquia colombiana, tampouco ao imperialismo, reconhecer o caráter político da guerrilha e, muito menos – para não lhe dar protagonismo -, estabelecer com ela um processo de diálogo que possa pôr fim ao conflito armado na Colômbia, que dificilmente será solucionado pela via militar.

Estamos diante de uma espécie de empate, em que nem as guerrilhas (FARC e também a ELN, que segue lutando) têm muitas possibilidades para expandir o território sob seu controle (quase um terço do país), nem as forças militares e paramilitares conseguem derrotá-las.

À oligarquia colombiana interessa a manutenção do conflito, para se locupletar dos bilhões de dólares dos programas militares bancados pelos EUA e atribuir cinicamente aos insurgentes a mais rendosa atividade do grupo que detém o poder no país: exatamente o narcotráfico.

Aos EUA, não interessa a solução do conflito, para poder justificar a "guerra contra o narcoterrorismo", que lhe permite manipular a opinião pública para reinstalar a Quarta Frota, criar mais sete bases militares na Colômbia, dar um golpe em Honduras, botar milhares de soldados no Haiti e agora na Costa Rica e firmar acordos militares com vários países na região, lamentavelmente inclusive com o Brasil, assinado recentemente.

O objetivo do imperialismo é reforçar sua presença militar para tentar desestabilizar e derrubar governos progressistas, em especial o da Venezuela, apertar o cerco a Cuba, evitar o fortalecimento da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), frear o processo de mudanças na Bolívia e outros países, tudo isso de olho grande nas extraordinárias riquezas naturais do continente, como petróleo e gás, água e minerais.

Nos anos 90, houve na América Latina um processo negociado de desmilitarização de grupos guerrilheiros. Na América Central, todos esses entendimentos resultaram em acordos, com a transformação das guerrilhas em organizações políticas legais. Duas delas, aliás, estão hoje no governo de seus países: a FMLN (El Salvador) e a FSLN (Nicarágua). Na Colômbia, entretanto, este processo terminou com o cruel assassinato de mais de 4.000 membros da União Patriótica, partido político então legal, que incorporava parte dos militantes das FARC que desceram das montanhas, do Partido Comunista Colombiano e de outras organizações de esquerda.
Portanto, as FARC não podem promover uma rendição unilateral, incondicional, uma paz de cemitérios, jogando fora um patrimônio de décadas de luta e submetendo seus militantes a um genocídio. O que pretendem é um diálogo que torne possível uma paz democrática, que ponha fim não só ao conflito, mas ao terrorismo de Estado, à expulsão de camponeses de suas terras, às milícias paramilitares, ao assassinato e à prisão de milhares de militantes e que assegure liberdades democráticas e verdadeiras mudanças econômicas e sociais.

Mas o início de um diálogo de paz na Colômbia – que interessa a todas as forças e personalidades democráticas, pacifistas e antiimperialistas e não apenas aos comunistas – só será possível através de uma ampla campanha internacional pela paz com justiça social e econômica na Colômbia, cujo êxito tem como pré-requisito o reconhecimento das FARC e do ELN como são em verdade: organizações políticas beligerantes.

Foi para contribuir para essa necessária e urgente campanha – conhecendo e divulgando um pouco mais a história, a realidade, os pontos de vista e as perspectivas das FARC – que resolvi conviver alguns dias com os guerrilheiros e conversar, sem preocupação com o relógio e o celular, com alguns de seus comandantes, em especial Iván Marquez e Jésus Santrich, que me visitaram no acampamento em que me hospedei.

Não voltei ao Brasil para fazer proselitismo sobre uma forma de luta que considero incompatível com a atualidade brasileira, mas que respeito como legítimo direito dos povos na luta contra a opressão. Voltei determinado a contribuir para a abertura de um diálogo político na Colômbia.

O PCB e outras organizações e personalidades entendem a importância desse diálogo para o avanço dos processos de mudança na América Latina, que depende da neutralização da agressividade do imperialismo em nosso continente, cujo centro de gravidade é o terrorismo de Estado colombiano.

A Colômbia é o segundo destino mundial de ajuda financeira para fins militares e de material bélico dos EUA, após Israel; tem as Forças Armadas mais numerosas, armadas e treinadas da América do Sul. Um dos objetivos principais do imperialismo, diante da crise sistêmica do capitalismo, é fomentar guerras localizadas, sobretudo contra países fora de sua esfera de dominação e, preferencialmente, possuidores de riquezas naturais.

O Estado narcoterrorista colombiano é o instrumento para provocar conflitos militares na região, como foi o caso da invasão do espaço aéreo equatoriano para o ataque ao acampamento do comandante Raul Reyes, o Secretário de Relações Internacionais das FARC, que tinha como tarefa exatamente promover trocas humanitárias de prisioneiros e abrir espaço para uma solução negociada do conflito militar.

No caso da Venezuela - onde o processo de mudanças na região mais avança –, as provocações são mais ousadas, constantes e perigosas. A Colômbia, que já infiltrou milhares de paramilitares no território venezuelano, para preparar um golpe contra Chávez, agora acusa a Venezuela de abrigar guerrilheiros das FARC, utilizando-se de manipulações tecnológicas, como as que vêm fazendo até hoje com o inacreditável computador pessoal de Raul Reyes, que resistiu incólume a um bombardeio aéreo intenso, em que todo o acampamento foi destruído e morreram 26 pessoas.

Os EUA já se associaram a estas "denúncias" do governo colombiano e já agitam propostas de levar o caso para organismos multilaterais que hegemonizam. As relações diplomáticas entre a Colômbia e a Venezuela estão cada vez mais tensas. É necessária uma urgente ação política para evitar o agravamento do conflito, que só interessa ao imperialismo e à direita, não só colombiana, mas de todos os países da América Latina, que fazem de tudo para ajudar a derrubar o governo venezuelano, através de sua satanização e manipulação.

Aqui no Brasil não é diferente. Toda a mídia burguesa se associa às denúncias do governo colombiano e a direita aproveita o momento eleitoral para criticar o governo brasileiro exatamente em relação a um dos poucos aspectos que os internacionalistas nele valorizamos. Apesar da vacilação, da dubiedade e das contradições - em face do objetivo principal da política externa brasileira de transformar o país numa grande potência mundial -, ao Estado brasileiro não interessa a guerra imperialista, mas sim a expansão do capitalismo brasileiro.

A direita, para instigar a guerra entre a Colômbia e a Venezuela, tenta desqualificar o Brasil como mediador da crise. Para isso, acusa o partido do presidente da República de relações e atitudes que infelizmente não são verdadeiras, pois poderiam ter ajudado a solucionar o conflito colombiano.

Na Colômbia, é expressivo o movimento conhecido como "Colombianos pela Paz" – que estimula a troca de prisioneiros e tenta criar um ambiente favorável ao diálogo –, liderado pela Senadora Piedad Córdoba, com quem participei, em outra ocasião, de reunião em Bogotá para tratar do tema da paz naquele país, juntamente com outros militantes latino-americanos, dentre os quais Carlos Lozano, do Burô Político do Partido Comunista Colombiano, um dos dirigentes internacionalistas mais dedicados à solução do impasse em seu país.

Mas essa campanha não será exitosa se não contar com a ampla participação de governos, instituições e personalidades democráticas e progressistas de vários países, sobretudo da América Latina.

E, na América Latina, o Brasil – em função de sua importância e sua liderança - é o país que reúne as melhores condições para viabilizar o diálogo colombiano, como fiador político, liderando um conjunto de países e organizações multilaterais da região, de preferência a UNASUL (União das Nações Sul-Americanas), que não conta com a presença indesejável dos Estados Unidos.

É correta a iniciativa da diplomacia brasileira de levar a discussão do novo conflito para o espaço da UNASUL e tentar ajudar a mediá-lo. Mas não se pode ter ilusão de que o novo presidente colombiano recuará nos projetos belicistas do consórcio EUA/Colômbia. Este não é o último gesto raivoso de Uribe, como muitos imaginam. Este é o primeiro gesto de Santos antes da posse, combinado com Uribe, para iniciar seu governo com voz grossa, mas com pouco desgaste. Santos não foi só o candidato de Uribe. Foi seu ministro da Defesa, responsável pela aplicação do famigerado "Plano Colômbia". É o uribismo sem Uribe. Não nos esqueçamos da invasão de Israel à Faixa de Gaza, antes da posse de Obama, para preparar a transição para o imperialismo sem Bush.

Por isso, será importante, mas insuficiente, a distensão do atual conflito entre Colômbia e Venezuela. Isto resolve uma parte da questão no curto prazo, mas não resolve a causa do problema. O Brasil deve ir além dessa iniciativa e se empenhar numa solução negociada do conflito interno colombiano. E isto só será possível se sentarem à mesa, com observadores internacionais credenciados pelas partes, os verdadeiros atores em conflito: as organizações políticas insurgentes e, mais do que o governo, o Estado colombiano.

Para ser conseqüente com o objetivo do Estado brasileiro de transformar o nosso país em uma referência no âmbito mundial, seria muito mais eficiente patrocinar um diálogo que pode distensionar o pesado ambiente interno colombiano, que paira sobre a América Latina, do que liderar tropas de ocupação no Haiti.

Além do mais, desmontar o "Cavalo de Tróia" montado pelo imperialismo na Colômbia não serve apenas para evitar uma guerra com a Venezuela ou a derrubada de seu governo. Como disse Fidel Castro, as bases militares ianques na Colômbia são punhais no coração de toda a América Latina, inclusive, não nos iludamos, sobre o Brasil, cujas extraordinárias riquezas naturais - entre elas a biodiversidade da Amazônia, as imensas reservas de água doce e o pré-sal - são os principais objetos da cobiça dos Estados Unidos em todo o continente.

Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sobre o ataque com carro-bomba em Bogotá



Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos


Fonte: Rebelion.org

O Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos condena o traiçoeiro atentado com carro-bomba na manhã do dia 14, na 7ª Avenida com a rua 67, que afetou a população do setor, o comércio e a Rede Caracol de Radio, entre outros.

Chama a nossa atenção que este atentado ocorra justamente no início do governo de Juan Manuel Santos, quando começam a se normalizar as relações com a Venezuela, quando a Corte Constitucional analisa a inconstitucionalidade das bases militares norteamericanas, os anúncios da oposição para debater a existência de valas comuns de dimensões catastróficas e, especialmente, quando determinados sectores da opinião pública sugerem a possibilidade de aproximação para o diálogo e de novos esforços para uma solução para o conflito. Devemos observar a quem interessa um atentado desta natureza.

Recordamos que, em 19 de outubro de 2006, quando se vislumbrava um encontro entre o governo e as FARC para encontrar saídas para a questão do intercâmbio humanitário, um carro-bomba explodiu nada mais e nada menos do que o interior da Escola Superior de Guerra. Assim se frustrou um esforço para o diálogo e, após as anunciadas investigações, o tema foi silenciado.

Este atentado tem um cheiro suspeito de provocação dos setores mais à direita, nada de estranho em um país de autoatentados, de um intenso labor das agências de segurança e inteligência militar para produzir falsos positivos, como os que têm sido denunciados nas Audiências judiciais sobre os escândalos do DAS.

Exigimos que se faça uma investigação de verdade, que vá ao mais profundo dos fatos e que desvele os verdadeiros beneficiários de tais atos. Somos solidários com as vítimas e feridos.

A guerra no Afeganistão: ecos do Vietnã

Os fuzileiros estão enfrentando um problema que sempre espreitou os conquistadores, e que é muito familiar para os Estados Unidos, desde o Vietnã. Em 1969, Douglas Pike, o mais importante acadêmico governamental nos assuntos do Vietnã lamentou que o inimigo – a Frente de Libertação Nacional (FLN) – era o único partido político verdadeiramente baseado nas massas no Vietnã do Sul”. Qualquer esforço para competir politicamente com esse inimigo seria como um conflito entre uma sardinha e uma baleia, reconheceu Pike. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky - La Jornada

O War Logs (bússolas da guerra), um arquivo de documentos militares confidenciais que abarcam seis anos da guerra do Afeganistão, publicados na internet pela organização Wikileaks relatam uma luta inflamada e cada dia mais encarniçada, na perspectiva dos Estados Unidos. E, para todos os afegãos, um horror crescente.

Os War Logs, por mais valiosos que sejam, podem contribuir para a doutrina prevalente de que as guerras são algo mau só se não são exitosas – algo assim como o que os nazis sentiram depois de Stalingrado.

No mês passado ocorreu o fiasco do general Stanley A. McChrystal, obrigado a se retirar do comando das forças dos Estados Unidos no Afeganistão e substituído por seu superior, o general David H. Petraeus. Uma provável consequência é um relaxamento das normas de combate, de forma que se torne mais fácil matar civis, e uma prolongamento da guerra à medida que Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso.

O Afeganistão é a principal guerra em curso do presidente Obama. A meta oficial é nos proteger da AlQaeda, uma organização virtual, sem base específica – uma rede de redes e uma resistência sem líderes, como foi chamada na literatura profissional. Agora, ainda mais do que antes, a AlQaeda consiste em facções relativamente independentes, associadas frouxamente ao redor do mundo.

A CIA calcula que entre 50 e 100 ativistas da AlQaeda talvez estejam no Afeganistão, e nada indica que os talibãs desejem repetir o erro de dar refúgio a AlQaeda. Por outro lado, o talibã parece estar bem estabelecido em seu vasto e árduo território, uma grande parte dos territórios pashtun.

Em fevereiro, no primeiro exercício da nova estratégia de Obama, os fuzileiros estadunidenses conquistaram Marja, um distrito menor na província de Helmand, principal centro da insurgência.

Uma vez ali, informa Richard A. Oppel Jr., do The New York Times, “os fuzileiros se chocaram com uma identidade talibã tão dominante que o movimento se assemelha mais a uma organização política numa região de um só partido, com uma influência que abarca a todos...”.

“Temos que reavaliar nossa definição da palavra 'inimigo', disse o general de brigada Larry Nicholson, comandante da brigada expedicionária de fuzileiros na província Helmand. A maioria das pessoas aqui identifica a si mesmas como talibã... Temos que reajustar nossa forma de pensar, de forma que não pareça que estamos expulsando os talibãs de Marja, mas que estejamos tratando de expulsar o inimigo.

Os fuzileiros estão enfrentando um problema que sempre espreitou os conquistadores, e que é muito familiar para os Estados Unidos, desde o Vietnã. Em 1969, Douglas Pike, o mais importante acadêmico governamental nos assuntos do Vietnã lamentou que o inimigo – a Frente de Libertação Nacional (FLN) – era o único partido político verdadeiramente baseado nas massas no Vietnã do Sul”.

Qualquer esforço para competir politicamente com esse inimigo seria como um conflito entre uma sardinha e uma baleia, reconheceu Pike. Em consequência, devíamos superar a força política do FLN recorrendo a nossa vantagem comparativa, a violência – com resultados horrendos.

Outros enfrentaram problemas similares: os russos, por exemplo, no Afeganistão, durante os anos 80, quando ganharam todas as batalhas mas perderam a guerra.

Escrevendo a respeito de outra invasão estadunidense – a das Filipinas em 1989 -, Bruce Cumings, historiador especialista em Ásia na Universidade de Chicago fez uma observação hoje aplicável ao Afeganistão: “quando um fuzileiro vê que sua rota é desastrosa, muda de curso, mas os exércitos imperiais afundam suas botas em areias movediças e seguem marchando, ainda que seja em círculos, enquanto os políticos enfeitam o livro de frases dos ideais estadunidenses”.

Depois do triunfo de Marja, esperava-se que as forças lideradas pelos Estados Unidos atacariam a importante cidade de Kandahar, onde, segundo uma pesquisa do exército estadunidense, a operação militar é rechaçada por 95% da população e onde 5 em cada 6 consideram os talibãs como nossos irmãos afegãos – mais uma vez, ecos de conquistas prévias. Os planos sobre Kandahar foram postergados, e isso foi parte dos antecedentes para a saída de McChrystal.

Dadas essas circunstâncias não é de se estranhar que as autoridades dos Estados Unidos estejam preocupadas com que o apoio popular à guerra no Afeganistão seja ainda mais erodido. Em maio passado a Wikileaks publicou um memorando da CIA acerca de como manter o apoio da Europa à guerra: o subtítulo do memorando era: porque contar com a apatia talvez não seja suficiente.

O perfil discreto da missão no Afeganistão permitiu aos líderes franceses e alemães desprezarem a oposição popular e aumentarem gradualmente suas contribuições às tropas da Força de Assistência à Segurança Nacional (ISAF), assinala o memorando. Berlim e Paris mantêm o terceiro e quarto níveis mais altos de tropas na ISAF, em que pese a oposição de 80% dos pesquisados alemães e franceses a maiores envios de forças. É necessário, em consequência, dissimular as mensagens para impedir ou ao menos conter uma reação negativa.

O memorando da CIA deve nos fazer recordar que os Estados têm um inimigo interno: sua própria população, que deve ser controlada quando a política do Estado tem oposição no povo. As sociedades democráticas dependem não da força, mas da propaganda, manipulando o consenso mediante uma ilusão necessária e uma super-simplificação emocionalmente poderosa, para citar o filósofo favorito de Obama, Reinhold Niebuhr.

A batalha para controlar o inimigo interno, então, segue sendo altamente pertinente – de fato, o futuro da guerra no Afeganistão pode depender dela.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Fidel Castro se reúne com senadora colombiana Piedad Córdoba

O líder da Revolução cubana, Fidel Castro, se reuniu com a senadora Piedad Córdoba, dirigente do Movimento Colombianos e Colombianas pela Paz
Foi uma reunião fraterna na qual foram intercambiadas opiniões sobre os processos de paz na Colômbia, a situação na região e os perigos de guerra no mundo.

As duas personalidades concordaram em expressar seu otimismo no triunfo da paz e na construção de um mundo novo onde a humanidade aproveite sua inteligência e os conhecimentos acumulados.

A senadora colombiana solicitou a Fidel Castro que volte a reunir-se no próximo domingo com um grupo de vários dos principais dirigentes que lutam pela paz na Colômbia.

O líder revolucionário cubano concordou, já que considera que a união desse povo sul-americano é um fator de grande importância na luta para evitar que a humanidade entre em colapso numa explosão nuclear.

A senadora colombiana felicitou o primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba pelo seu aniversário, que transcorre nesta sexta-feira, 13 de agosto, e o presenteou com diversos livros sobre a história e a realidade atual de seu país.

Fidel Castro deu à senadora e a seu ajudante, Danilo Ruedas, exemplares autografados de seu livro A Vitória Estratégica.

Fonte: Prensa Latina

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Tribunal colombiano deve declarar inconstitucional acordo militar com os EUA


Fonte: TeleSUR


"Tenho sérias reservas e tenho dito repetidamente que a Constituição da Colômbia foi violada", com o acordo militar entre Washington e Bogotá, disse o ex-magistrado da Corte Constitucional, José Gregorio Hernández, em entrevista exclusiva à TeleSUR.



O ex-juiz da Corte Constitucional da Colômbia, José Gregorio Hernández, disse nesta quarta-feira que o organismo deve declarar inconstitucional o acordo militar que autorizou a instalação de sete bases militares dos EUA em seu país.

“Entendo que a Corte Constitucional, pelo menos é o que o juiz relator do processo propõe, irá declarar que tudo o que foi feito violou a Constituição, ou seja, que as bases militares, e o acordo correspondente seriam inconstitucionais”, disse o ex-juiz em entrevista exclusiva a Telesur.

“Justamente hoje o plenário da Corte Constitucional está trabalhando na verificação da constitucionalidade do acordo celebrado entre a Colômbia e os Estados Unidos”, disse ele .

“Entendo que na própria Corte está se pensando que essas bases ainda permaneçam por mais um ano enquanto o Congresso conforme estipulado pela Constituição”, disse ele.

O debate no plenário da Corte tem-se focado em determinar se o acordo militar deriva de um outro já assinado anteriormente, ou se trata-se de outro totalmente novo, porque se assim for, deveria ter sido enviado ao Congresso para aprovação, etapa que não foi obedecida.

O acordo militar entre Washington e Bogotá foi assinado em 30 de outubro de 2009 e contempla a instalação de sete bases militares estadunidenses no território colombiano.

A Corte Constitucional deverá emitir uma sentença no próximo 17 de agosto sobre as denuncias de inconstitucionalidade do pacto militar.

O juiz da Corte Constitucional da Colômbia , Jorge Palacios, encarregado de estudar o convênio, manifestou que este deveria ter sido aprovado ou reprovado pelo Congresso, por isso solicitou um prazo de um ano para o cumprimento dos procedimentos ditados pela Carta Magna.

Nesta terça-feira, após várias horas de debate, A Corte Constitucional concluiu a sessão sem chegar a uma decisão sobre o acordo militar.

Foi noticiado na mídia local que a maioria dos magistrados tendem a apoiar a representação de Palacios, de declarar inconstitucional o acordo. Palacios tem insistido que o acordo assinado entre os dois países carece de detalhes e é bastante elástico.

“Sobre a questão das bases militares deve ser dito que na Colômbia nem todos nós concordamos com a sua existência”, disse o ex-magistrado José Gregorio Hernández durante a entrevista.

“Eu, por exemplo, tenho sérias reservas e já o disse em repetidas ocasiões, que a Constituição da Colômbia foi violada”, disse ele.

“Ainda sobre a questão das bases militares, tem que ser dito que a Colômbia exerce uma atividade que deve se enquadrar, necessariamente, dentro de um contexto de respeito pelos outros Estados”, acrescentou Hernández.

Em 03 de novembro de 2009 , um documento da Força Aérea dos EUA revelou que o pacto militar que esse pais estabeleceu com a Colômbia, em particular no que se refere à preparação da base de Palanquero (centro do país), tem por objetivo preparar ações de Inteligência, Espionagem e Reconhecimento (IER) contra outros países do continente.

O governo da Colômbia argumenta que o acordo de cooperação militar está destinado, supostamente, a lutar “contra o narcotráfico e o terrorismo”, no entanto, tem gerado grande preocupação nos países da região.

“Ontem (terça-feira) ouvimos o presidente Chávez em Santa Marta (Colômbia - norte), quando afirmou que estava certa uma decisão da Colômbia, enquanto não prejudique nem ataque os países vizinhos”, disse Hernández.

O legado de Álvaro Uribe: O reino da impunidade

Por Ernesto Tamara.

Santos recebeu uma situação complicada com ruptura de relações diplomáticas junto à Venezuela, disputa entre o Executivo e o Poder Judiciário, e por ora um parlamento que controla, ainda que nele estejam forças de direita vinculadas ao paramilitarismo e que representam uma nova oligarquia das fortunas adquiridas com o narcotráfico e a aquisição de terra pela força.

Os analistas e os meios de comunicação colombianos insistem em destacar a mudança de política exterior que se aproxima. Mesmo mantendo vínculos estreitos com os Estados Unidos, o novo governo buscaria melhorar as relações diplomáticas e comerciais com seus vizinhos. Contudo, esta análise carece de um elemento central: a atitude dos Estados Unidos e seu papel neste período.

Há mais de 100 anos o líder independentista e poeta cubano, José Martí, explicou em uma conferência econômica internacional em Nova York, que o país que compra, manda. E em contrapartida, aquele que só vende a um país, depende de seu comprador.

Os Estados Unidos é o maior sócio comercial da Colômbia, e não somente em suas exportações legais, mas também, e muito especialmente, da droga. Bilhões de dólares do comércio ilegal unem os dois países que, a julgar por suas ações, tem dado por perdida a guerra contra o narcotráfico e se aliaram aos cartéis mais poderosos que ocupam ou controlam o aparato do Estado colombiano.

Karl Marx adiantou a teoria em sua obra "O 18 de Brumário de Luis Bonaparte", em que a burguesia, em certas condições, cede o poder às forças armadas para que restabeleçam a ordem ou eliminem as ameaças ao sistema, mas depois ela sempre volta a tomar o controle.

A Colômbia parece repetir, sinteticamente, esse esquema. Uribe, praticamente o fundador dos grupos para militares, conseguiu criar a sensação de aumento da segurança, recuperou para o Estado o controle de alguns territórios, e afastou o fantasma da possibilidade de um triunfo da guerrilha de esquerda em um futuro próximo, ainda que isto não tenha acontecido por mérito próprio, mas sim com a ajuda das condições internacionais.

Agora a velha burguesia colombiana quer recuperar o controle direto do Estado, porém nesta ocasião deve contar com uma nova burguesia enriquecida com o narcotráfico e o roubo de terras com as expulsões violentas e os assassinatos.

O novo presidente recebe como herança um país que se acostumou com o reino da impunidade nos crimes cometidos por funcionários do Estado e por grupos que foram dele e cometeram delitos de lesa humanidade, sob o argumento de que defendiam a institucionalidade e a "democracia". Até a mídia da burguesia colombiana tiveram que admitir, ao fazer um balanço dos 8 anos de governo Uribe, que a impunidade para os crimes de Estados, de seus aliados e para os atos de corrupção se instalou no país.

A revista Semana repassou sinteticamente alguns destes eventos, relembrando a profundidade da corrupção no país, ainda que tenha esquecido de mencionar que, segundo a promotoria, se perderam uns 4 bilhões de dólares por ano em pagamentos de comissões, subornos e obras contratadas inconclusas, nunca feitas ou defeituosas.

No entanto, sublinhou que " Se bem que Colômbia nunca tenha conseguido ‘reduzir a corrupção a suas justas proporções’, como promulgou o ex-presidente Julio César Turbay, por décadas existiu um código não escrito segundo o qual os altos funcionárias que fossem atingidos por escândalos de grau maior renunciariam". Essa prática caiu em desuso no governo de Uribe e só em um par de casos extremos os envolvidos tiveram de renunciar para enfrentar a justiça.

Entre as exceções, a revista Semana recorda: "Só uns poucos deram um passo em falso: Fernando Londoño, por suas explosivas declarações contra a Justiça (e não pelas denúncias sobre suas irregularidades em Invercolsa), e María Consuelo Araújo, quando seu pai e seu irmão foram detidos pela parapolítica". Entre os protagonistas de escândalos que seguiram em seus postos e alguns são até hoje apoiados por Uribe, recorda-se o caso do diretor do DAS, Jorge Noguera, obrigado a renunciar pelas revelações de infiltração de informações sobre sindicalistas para os paramilitares.

Em vez da sua renúncia, Uribe concedeu-lhe a função de cônsul na cidade italiana de Milão. Tempos depois, voltou ao país, pensando que a impunidade abarcava tudo, para depor diante da Promotoria e da Procuradoria. Hoje está detido, acusado pelo assassinato de sindicalistas e outras pessoas em colaboração aos grupos paramilitares.

O então chefe da computação de DAS, Rafael García, foi detido por sua responsabilidade nas intervenções aos telefones de políticos, juízes, jornalistas e ministros da Corte de Justiça, e em suas declarações ao juiz reconheceu que o DAS conspirou com paramilitares para infiltrar combatentes na Venezuela e atentar contra a vida do presidente Hugo Chávez. Nestes dias, Fernando Tabares, ex-diretor de Inteligência do DAS, assegurou que a espionagem sobre políticos, juízes e defensores dos direitos humanos e a confecção de dossiês e a infiltração de informação falsa para desprestigiar opositores, realizadas por esse organismo, eram de conhecimento da Presidência, tendo sido ordenadas por Bernardo Moreno, secretário-geral da Presidência e homem de confiança de Uribe.

Moreno ainda é envolvido no caso denominado "Yidisgate", quando com a mudança de voto no último instante da deputada Yidis Medina, aprovou-se a primeira reeleição de Uribe.

Além de Moreno, na compra de voto -admitida por Yidas Medina, que foi processada pelo caso- está envolvido o ex-ministro e atual embaixador da Colômbia em Roma, Sabas Pretelt, que foi chamado a juízo, e seu ex-colega de gabinete, o ministro de Proteção Social, Diego Palacio, que seria convocado em breve pelo juiz atuante.

Contudo, as atividades ilegais do DAS começaram há muitos anos, inclusive antes do governo de Uribe. Somente nestes últimos 8 anos elas serviram especialmente ao presidente em seus objetivos de política interior e exterior.

A revista Semana recorda que "tampouco assumiu sua responsabilidade política o ministro da Agricultura, Andrés Fernández, pelo escândalo de AgroIngreso Seguro, no qual se revelou que vários dos beneficiários do programa eram rainhas da beleza e políticos que haviam apoiado a reeleição, e que haviam fracionado projetos com o fim de não superar os tetos legais que existiam para os subsídios".

Na lista não deve faltar o atual ministro do Interior, Valencia Cossio, em virtude das graves acusações da Promotoria contra seu irmão Guillermo por uma suposta relação com narcotraficantes.

Além do mais, os filhos do presidente enfrentaram uma investigação judicial quando se soube que poderia ter usado seus conhecimentos a respeito dos planos de construção do governo para comprar propriedades desvalorizadas e revendê-las quando o Estado estudava construir nessa zona, obtendo assim lucros de vários milhões de dólares.

Uribe segue contando com o respaldo popular, segundo as enquetes, apesar de não ter conseguido abater o desemprego, nem baixar significativamente a pobreza como havia anunciado em suas duas campanhas eleitorais. O desemprego, que o prognóstico do governo estimava ter em 8,6% neste ano, se encontra em 12%. "No país não se criou um só emprego formal desde 2006", disse o professor de Economia da Universidad de los Andes, Alejandro Gaviria, em uma nota publicada pela revista Semana.

Outra das propostas de Uribe, em 2004, era reduzir a pobreza de 45% da população para 33%, mas o mesmo governo reconhece hoje que não conseguiu baixar um único ponto. A indigência cuja queda era prevista para 12%, manteve-se em 17%.

Reino do paramilitar

No mês de julho, completaram-se cinco anos do lançamento da chamada "Lei de justiça e paz", que desmantelou os grupos paramilitares integrados na autodenominada Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). O estudo está demonstrando que muitos desses grupos ressurgiram com outros nomes e que não se cumpriram os objetivos de conhecer a verdade por trás dos crimes, processar os responsáveis por eles e reparar às vítimas.

Álvaro Uribe, desde quando era governador de Antioquia, facilitou a criação dos grupos de segurança privada que se transformaram nas AUC. Em sua capital, Medellín, o narcotraficante Pablo Escobar, fundador do Cartel de Medellín, estabeleceu seu império, e segundo documentos desclassificados pelos Estados Unidos, Uribe manteve certos laços com o então poderoso chefe mafioso. O primo do notável presidente, o ex-senador Manuel Uribe, foi processado por sua vinculação com os paramilitares.

No recente balanço dos cinco anos da Lei de justiça e paz, apresentado pela VerdadAbierta.com, sustenta-se que "o Processo de Justiça e Paz foi a maneira como o governo de Uribe quis atar todos os cabos soltos que deixou em sua negociação de submissão da justiça com os chefes paramilitares. E, claro, devido à falta de clareza política nessa negociação, o processo judicial teve de lidar com vários obstáculos. Talvez o pior, já que nem todos os postulados eram paramilitares, alguns criminosos de lesa humanidade não foram julgados, deixando assim o conflito em andamento e colocando em risco as vítimas e investigadores".

O documento sustenta que "o paramilitarismo é gêmeo do narcotráfico, quase desde o começo, são irmãos das ambições de boa parte da classe política tradicional e da guerra suja empreendida por alguns militares e policiais e foi primo dos empresários que viram a oportunidade da fazer capital facilmente sobre a miséria dos campesinos".

O informe destaca que até agora os pouco mais de três mil paramilitares, que se beneficiaram da lei e prestam declarações livres perante a justiça (a pena máxima por todos os seus crimes só pode chegar a oito anos), confessaram 1.309 massacres e 42.785 homicídios, enquanto o número de desaparecidos supera os 40 mil. Com base em evidências, a justiça exumou 2.719 valas comuns e encontrou 3.299 cadáveres. Também com base em evidências, soube-se que os grupos paramilitares utilizaram do esquartejamento a cremação de suas vítimas, em um estilo copiado dos fornos nazistas.

Independente da monstruosidade do revelado em algumas das audiências, existe o temor de que grande parte da verdade seguirá enterrada, em especial depois da polêmica decisão do presidente Uribe de extraditar os chefes paramilitares para os Estados Unidos quando começaram a denunciar seus vínculos com políticos. Depois da extradição, os chefes paramilitares se negaram a seguir colaborando com o esclarecimento dos fatos. O informe da VerdadAbierta.com mostra que as versões livres dos paramilitares "perderam espontaneidade e desenvolveram um tráfico subterrâneo de pressões e dinheiro para que os desmobilizados apontem uns (às vezes inocentes) e omitam de mencionar outros (quase sempre culpados)".

Outro dos aspectos em que a lei fracassou é na reparação às vítimas. O Estado não contribui - diz que não dispõe de recursos - e em poucos caos em que se iniciou um processo nesse sentido, manipulou-se o objetivo, terras e dinheiro para mãos de parentes dos políticos encarregados na distribuição dos recursos.

Além do mais, os campesinos donos de cinco milhões de hectares de terra que perderam no conflito não podem mais recuperá-las, salvo em poucos casos. De acordo com o informe, "o testa de ferro anulou o processo, e as ameaças e assassinatos de líderes campesinos, como Rogelio Martínez, em Sucre ou Ana Isabel Gómez Pérez em Córdoba, que se animaram a reclamar do que é sujo, colocaram-nos em um beco sem saída. E não há política de governo que enfrente este problema de maneira integral".

Até agora nos quase 300 casos em que identificaram delitos, somente foi registrado uma sentença completa. As vítimas têm o temor de que o processo se estenda e se cumpra os oito anos de pena máxima sem condenação e reparação, com o agravante de um paramilitarismo renovado. A população colombiana vai descobrir o que faz o novo presidente neste sentido e se alenta a continuidade das investigações sobre os vínculos dos políticos com os paramilitares - freados no último ano por pressões do presidente Uribe - e implementa ações para a reparação das vítimas.

Fonte: Adital

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Arquitetônica Sulamericana


Hugo Rafael Chávez Frías
chavez.org.ve


I

A pedra angular da liberdade sulamericana, como disse o pai Bolívar, já foi colocada. Nunca mais vacilaremos, porque seria perder-nos. E quem sabe se a história, nos séculos vindouros, nos concederia outra oportunidade tão maravilhosa como a que vivenciamos agora mesmo em nosso tempo.

Precisamos defender o grande edifício da nossa libertação: a arquitetônica sulamericana que, entre todas e todos, estamos construindo. Não desmaiaremos, nem um instante, e não nos deixaremos intimidar pela recomposição de forças do Império nas principais regiões estratégicas do globo.

As ameaças de Washington não nós assustam. Não estamos sós, quero reiterar, e nossas ações, e a dos seus Povos irmãos, nunca estão nem estarão à margem da responsabilidade coletiva que transcende as nossas fronteiras, mas que, ao mesmo tempo, permite que nos encontremos na Pátria Grande e diversa que formamos e nós une. Estamos conscientes de que não há soluções nacionais: seria uma ilusão diante do mar de problemas que aflige a toda a humanidade.

Esta é a razão pela que o dinamismo e o espírito unitário e sulamericano que primeiro se fez sentir em Quito na semana passada com a reunião dos chanceleres da Unasul e, em seguida, na 39ª Reunião Ordinária do Conselho do Mercado Comum e Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, celebrada na província de San Juan, Argentina, transladou-se neste fim de semana para a nossa Caracas rebelde, libertária e bolivariana.

Quero expressar a grande alegria que me deu a visita desse grande companheiro e amigo que é Nestor Kirchner, filho ilustre de San Martin, na sua condição de Secretário-Geral da Unasul. Juntos revisamos planos de trabalho, tarefas e funcionamento da nossa organização, para cumprir, agora sim, com o imperecível slogan peronista: unidos para ser livres; nunca mais divididos para ser dominados.

José Martí estava certo quando disse: A paz também tem seus exércitos. Somos nós todos os soldados e soldadas, que junto de Kirchner formamos esse exército de luz que nunca descansa nem descansará pela suprema felicidade da nossa América.

II

Na Praça Bolívar, em Caracas, diante desse grande povo que nós acompanhou e incentivou sempre, nesta sexta-feira recebi um outro querido colega e amigo de muitos anos: o Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Junto com Nestor Kirchner fomos até a Casa Amarela, sede original da magna gesta bicentenária que celebramos este ano, para acompanhar os representantes da Mãe África e de Nossa América que participam da Reunião de Trabalho da Comissão Presidencial Estratégica do Fórum de Cooperação América do Sul e África (ASA).

A África e a América são unidas por raízes profundas e se identificam pela urgência histórica de tornar realidade um outro mundo, que já não só é possível mas que é absolutamente necessário para salvar a humanidade e a própria vida no planeta. Essa é o nosso caminho: não há outro.

Relembremos novamente, sempre de novo, o Bolívar de Angostura e teremos a medida exata de um compromisso que corre em nossas veias para pulsar com a força rítmica que a Mãe África tem no coração: Tenhamos presente que o nosso povo não é o europeu, nem o da América do Norte, mais bem é composto de África e de América do que uma emanação da Europa; pois até a própria Espanha deixa de ser européia pelo seu sangue africano, pelas suas instituições e seu caráter.

Não podemos continuar a olhar para outros lados, esperando a ajuda de outros: vejamos, por exemplo, a afronta contra a humanidade que representa a Lei Arizona nos Estados Unidos, ou o racista e excludente movimento antiimigração que foi desencadeada na Europa. Para citar com o infinito uruguaio José Gervasio Artigas: nada podemos esperar se não for de nós mesmos.

Em seguida, nos transladamos com Lula para a Casa de Governo, em Miraflores, para começar o nosso oitavo encontro trimestral. Lula tem muita razão em dizer que, em oito anos, fizemos duas ou três vezes a mais do que se fez em cinco séculos. E tudo isso, como ele falou, porque há pouquíssimo tempo atrás descobrimos que temos mais em comum no sul do que tudo que podemos receber do Norte.

Apenas nesta sexta-feira, por exemplo, entre a República Federativa do Brasil e a nossa República Bolivariana da Venezuela, assinamos 27 acordos de integração em agricultura, na construção habitacional, tecnologia e telecomunicações. Quero relembrar a um grande personagem brasileiro e da Nossa América, Dom Hélder Câmara, através das suas palavras: Quando os sonhos são sonhados sozinho, são apenas sonhos, mas quando começamos a sonhar juntos, eles se tornam realidade.

Certamente, ao longo do nosso desenvolvimento histórico, tivemos sonhos, tivemos nobres aspirações, esperanças, grandes projetos. Mas, faltava o mais importante para que se tornassem realidades: reconhecer-nos como povos irmãos. E é o que temos realizado, felizes e plenamente, durante estes oito anos.

Hoje nós compreendemos quanta razão tinha o próprio Hélder Câmara: Ninguém é tão pobre que não tenha nada para oferecer, nem tão rico que necessite de ajuda. Acreditamos que esta tem sido a chave para o gigante Brasil tenha se reencontrado definitivamente com a nossa pequena, mas grande Venezuela. E à frente do Brasil, Lula, que mesmo antes de assumir o seu primeiro mandato já transbordava solidariedade para conosco, como naqueles dias terríveis da sabotagem do petróleo. Jamais vou esquecer: Eu tenho o sentimento de amizade e da gratidão; portanto, seus adversários me irritam, disse Bolívar. Nesta mesma linha se alimentada o nosso povo.

Muito obrigado, Meu caro amigo.

III

Quero congratular a contundente resposta dada pelas nossas Forças Armadas Bolivarianas, na pessoa do General em Chefe, Carlos Mata Figueroa, Ministro do Poder Popular para a Defesa, às recentes declarações do embaixador norteamericano designado para a Venezuela. Não quero entrar nos detalhes, porque todos eles foram expostos de forma satisfatória, o que fala bem da grande moral e, portanto, da dignidade e vergonha pátria que caracterizam cada um dos nossos soldados e soldadas a cada um dos seus superiores. Equivocou-se o senhor Larry Palmer e, novamente, o Império calculou mal ao vacilar, através dele, uma overdose de calúnias contra a Venezuela. Esqueceram o mais importante de tudo: aqui, agora mais do que nunca, existem Forças Armadas unidas a seu povo, como povo em armas, e sabe se fazer respeitar e tem como fazer com que a Venezuela seja respeitada.

IV

Ao mesmo tempo eu termino estas linhas, vejo o nosso Chanceler chegando a Bogotá, e me lembro que neste sábado sete de julho é o aniversário de Boyacá, a Batalha Libertadora da Nova Granada e prelúdio de outra, a Grande Batalha de Carabobo.

E, ao mesmo tempo, o novo governo da Colômbia toma posse. Nesta altura, no domingo, quando estas linha já tenham sido publicadas, por volta do meio-dia, o Chanceler Nicolas Maduro deve estar se reunindo com a nova chancelaria colombiana.

Que fique bem claro: se a Venezuela é respeitada, poderemos fazer primores. Se a Venezuela continuar a ser desrespeitada, pois então nada novo e bom possível.

Eu faço um apelo ao presidente Juan Manuel Santos, ao respeito, ao diálogo construtivo, ao pensamento e agir de forma soberana, a ser fieis à vontade de nossos povos irmãos pela Paz, pelo progresso, pela construção da "maior quantidade de felicidade possível", para dissê-lo com Bolívar, desde as colinas de Boyacá, 191 anos mais tarde.

Viva a Colômbia ! Viva Venezuela! Venceremos !

Fonte: http://www.chavez.org.ve/chavez/lineas-chavez/arquitectonica-suramericana

Colômbia: o cemitério que faz perguntas

Os cemitérios clandestinos e fossas comuns conhecidos até agora foram obra dos paramilitares, que o presidente direitista Álvaro Uribe desmobilizou parcialmente. Suas confissões em troca de vantagens jurídicas permitiram ao Ministério Público recuperar 3.299 corpos dos, pelo menos, 25.000 desaparecidos no país. A descoberta de uma vala comum gigante no município de La Macarena segue sob investigação. Em um pedaço da vala, há centenas de tabuletas numeradas: 054/09 é o morto número 54 enterrado em 2009. Nada mais do que isso. Os anos vão de 2004 até 2010. De quem são esses corpos?

Constanza Vieira, enviada especial da IPS

La Macarena, Colômbia (IPS) – A tentativa mais séria dos paramilitares de entrar neste município do centro da Colômbia foi um fracasso. Fizeram isso em 2003 protegidos pela polícia, mas os moradores, armados com paus e escopetas, os prenderam e entregaram para a Procuradoria Geral da Nação, que os encarcerou. Os combatentes de ultra-direita roubavam à saída dos bares de La Macarena, onde, previamente, a polícia havia confiscado os clientes, assinalando a seus sócios aqueles que portavam alguma riqueza. Estes clientes eram mortos pelos paramilitares e tinham seus corpos lançados no rio Guayabero.

O fato de o paramilitarismo não ter conseguido apoio neste município localizado ao sul da serra que carrega o mesmo nome, legendária por sua megabiodiversidade, dá um significado diferenciado à descoberta de uma vala comum em duas faixas em forma de L que somam cerca de 10 mil metros quadrados, numa área próxima a do cemitério do povoado. O terreno faz fronteira com a base local das brigadas móveis da chamada Força de Deslocamento Rápido (Fudra), que recebe cooperação estadunidense e combate a guerrilha de esquerda.

A Procuradoria Geral da Nação descreveu o achado como um “cemitério de pessoas não identificadas”. “Cemitério clandestino” preferem chamá-lo os parlamentares de esquerda Gloria Ramírez e Ivan Cepeda, este porta-voz do Movimento de Vítimas de Crimes de Estado.

O braço mais curto do “L” é uma fossa comum, segundo peritos estatais e outras testemunhas que hoje já não se atrevem mais a falar. Está localizada atrás de umas abóbadas baixas no lado esquerdo do cemitério. Parece que ninguém se aventura por ali, ninguém investiga, dizem que está minada e que não há nada de especial ali. Em troca, chama atenção a faixa mais larga, de aproximadamente 6.500 metros quadrados, por onde se chega a partir de um caminho reto deste a entrada do cemitério. A Procuradoria fechou o local no dia 21 de julho, quando um qualificado grupo de especialistas forenses passaram a trabalhar no setor. Ali há centenas de tabuletas numeradas: 054/09 é o morto número 54 enterrado em 2009. Nada mais do que isso. Os anos vão de 2004 até 2010.

Os cemitérios clandestinos e fossas comuns conhecidos até agora foram obra dos paramilitares, que o presidente direitista Álvaro Uribe desmobilizou parcialmente. Suas confissões em troca de vantagens jurídicas permitiram ao Ministério Público recuperar 3.299 corpos dos, pelo menos, 25.000 desaparecidos no país. Soube-se da existência do anexo do cemitério de La Macarena há um ano, por meio de um artigo publicado no semanário regional Llano 7 Días, do jornal El Tiempo, de Bogotá. De 2002 até julho de 2009, reconheciam então as autoridades, o exército havia enterrado ali 564 cadáveres, todos eles reportados como guerrilheiros mortos em combate. Cerca de 71% dos corpos permanecia sem identificação.

Tudo começou pela água

Os habitantes do bairro Colinas, a uns 200 metros do cemitério, notaram em junho de 2008 que a água saía com mau cheiro e com sabores putrefatos dos poços profundos de onde ela é extraída no verão. Ao examinar o motivo, a população descobriu que o desagradável assunto vinha do cemitério. “Esses foram os primeiros indícios”, disse a IPS o advogado penalista Ramiro Orjuela, com vínculos familiares e profissionais na região. Desde 2004, “helicópteros traziam para cá corpos e mais corpos, abriam uma vala com uma retroescavadeira e atiravam esses corpos ali. O povo aqui de La Macarena sabe disso”, acrescentou.

Isso não era uma surpresa para os macarenenses. Ao fim e ao cabo, La Macarena vê a guerra passar desde 1950, 14 anos do surgimento das insurgentes Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O município integrou a zona desmilitarizada onde o governo de Andrés Pastrana (1998-2002) manteve um diálogo de três anos com a guerrilha (diálogo que acabou fracassando no final). Após essa tentativa, o exército retomou os 42 mil quilômetros quadrados do santuário, incluídos os 11.229 que envolvem La Macarena. Desde então, todos os dias os habitantes viam chegar ao cemitério os corpos de supostos guerrilheiros. Os cadáveres eram amontoados em sacos pretos. E, logo em seguida, as fossas eram escavadas. Todo mundo sabia disso.

Assim, o caso da água não foi levantado com uma segunda intenção: “Não acreditavam que se tratava de algo grave, mas sim de uma coisa normal. E resultou que era grave, sim”, observou o advogado. Os militares disseram a Llano 7 Días que não temiam uma investigação. A Polícia teria feito um levantamento legal sobre cada corpo, identificando a arma que portava e a roupa camuflada que vestia, procedimento, garantiram os militares, que teve o aval da Procuradoria. Mas nesta região, na prática, a justiça penal militar tornou-se civil. Os promotores, segundo uma fonte da Igreja Católica, seriam militares da reserva ou em vias de se aposentar que hoje atuam sob as ordens do comandante militar, um equivalente da Polícia, efeito do programa piloto cívico-militar denominado Plano de Consolidação Integral de La Macarena, emitido em 2004.

Orjuela não atribui responsabilidades nem adianta acusação alguma. Só pede que as autoridades investiguem. “Não temos nenhum outro meio de prova que não aquilo que nos diz a comunidade”, disse a IPS. “Eles contam para alguém, mas depois não confirmam o depoimento porque têm medo”, assinalou. Assim que Orjuela e um grupo defensor dos direitos humanos enviaram petições ao Ministério Público e à Procuradoria, esta última fez uma inspeção no local e produziu um informe que permanece oculto ao público.
Baseada neste informe, a Direção Nacional de Investigações Especiais da Procuradoria respondeu em fevereiro que seu objetivo era “alcançar a plena identidade dos aproximadamente 2.000 corpos”, para o que esperava criar “um laboratório especializado de identificação” em La Macarena, junto com outras instituições. O Ministério Público, em troca, não respondeu por escrito. Em meados de julho deste ano relatou a Orjuela e a senadora Ramírez, organizadora de uma audiência pública do Senado em La Macarena no dia 22 de agosto, que até esse momento havia “detectado” 449 corpos. Também confirmou que “em 100% dos casos esses corpos tinham sido trazidos pelo exército. Todos. Não há um único que não”, segundo Orjuela.

Em meio a fortes xingamentos dirigidos contra os organizadores da audiência pública, o governo de Uribe insiste que todos são guerrilheiros mortos em combate e levados para lá. Orjuela adverte: “Isso é possível. Mas não todos”. É que 449 guerrilheiros equivalem a três ou quatro frentes das FARC. Como a guerrilha permanece atuante na região, “então quem são esses 400 e tantos mortos?”, pergunta.

O jesuíta Banco de Dados sobre Direitos Humanos e Violência Política tem testemunhos sobre 79 civis desaparecidos em La Macarena e municípios vizinhos. Há 25 casos documentados sobre supostas execuções extrajudiciais cometidas pelo Exército. Por enquanto, o Ministério Público identificou cinco civis reportados como desaparecidos e que já foram devolvidos às duas famílias. Há outros 37 corpos em processo de identificação. Os demais permanecem perguntando.

Fonte: Com apoio do Comitê de Solidariedade ao Povo Colombiano

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Violência institucional demole ‘democracia’ colombiana


por Pietro Alarcón*

Fonte: Correio da Cidadania


Sem a pretensão de realizar uma síntese teórica sobre os resultados expressados pelo número de votos obtidos ao final de um processo eleitoral, e que podem ser a nota central de qualquer análise, a verdade é que uma simples reflexão sobre as conturbadas e deficitárias democracias contemporâneas permite visualizar que são de diversas índoles os fatores que podem gerar a vitória ou derrota das forças políticas. E, desde logo, que tais fatores não podem ser subestimados nem estar sujeitos a um vaivém ocasional que lhes outorgue toda a força quando convêm, e em outros casos lhes negue suas reais influências por sobre a decisão popular.

Assim, é um dever a realização de uma análise, especialmente porque esses elementos explicam as insuficiências e limites da democracia representativa e, sobretudo, porque eles próprios são expressão do maior ou menor grau de participação política cotidiana e, com isso, da própria democracia como modelo de convivência e não apenas como a visita às urnas a cada 4 ou 5 ou 6 anos. Isso se partimos, como deve ser, de aprofundar, aperfeiçoar e tornar a democracia uma práxis cotidiana.

Contudo, a discussão não é simples, pois mistura as formas de conquista e manutenção do poder, através do consenso ou da coerção. Modernamente, os sistemas de dominação política combinam várias fórmulas, desde o poder mediático até o uso da força, na perspectiva de criar um consenso subordinado que mantenha as estruturas existentes, em situações nas quais o que menos existe são consensos.

Na América Latina os processos eleitorais de alguns anos atrás favoreceram, com vitórias de esperança, projetos políticos não-tradicionais, de profundo arraigo popular. Não pretendo fazer um balanço do alcance de cada projeto, ainda que virtudes, limites, possibilidades, extrapolações e misturas de timidez política e falta de percepção para fazer o caminho andando possam ser colocadas nessa reflexão.

Pretendo, apenas, colocar o caso da Colômbia, que se manteve à margem dessa onda renovadora e que recentemente votou a favor da continuidade da política do governo Uribe – foram nove milhões de votos para o candidato Juan Manuel Santos. É inegável que os resultados mostram um fortalecimento do projeto político que se gerou desde o campo dos setores mais conservadores, ligados ao capital financeiro, aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos na região e, ainda, de maneira grave, que se coadunam com uma nova elite dominante oriunda do narcotráfico, que no país passou a ser algo estrutural.

Foi imposta uma maquinaria política tradicional, cujo suporte se concentra em três pilares: a mídia, verdadeiro fator real de poder em qualquer debate eleitoral, e para o qual basta dizer que o novo presidente é um dos donos do único jornal de circulação nacional, o conhecido El Tiempo; do militarismo como força que gravita como elemento de uma solução de guerra ao conflito que padece o país; e, finalmente, a aliança estratégica entre o Estado colombiano e os Estados Unidos, que com sua fortíssima presença militar no território, o que reflete, obviamente, os interesses geopolíticos envolvidos, compromete toda a região.

Os eixos do discurso da campanha de Santos são bem conhecidos por qualquer cidadão mais ou menos informado do continente:

- confiança para os investidores, que significa que as regras do jogo econômico não podem mudar (nas palavras do então candidato e do ex-presidente Uribe) porque o capital iria embora deixando os colombianos mais pobres e abandonados à sua sorte, e assim não haveria saída possível senão o aumento da carga tributária e, pior ainda, ficaria o país a mercê de todo tipo de gente violenta e sem ofício;

- continuidade da segurança democrática, de programas assistencialistas e recrutamento para a guerra como política de emprego, de ativistas da guerra desde a vida civil através das chamadas famílias em ação e os guarda-bosques;

- coesão social, que, na verdade, projeta uma ordem mais autoritária, que fomenta o individualismo e o consumo mercantilista concentrado nas camadas médias e privilegiadas da população, sublimando-se o individualismo, o sucesso pessoal sem limites éticos e a perda de referências e ideais coletivos.

Esse modelo autoritário tem como alicerce um presidencialismo extremamente forte, centralizador e de forte compromisso com relações internacionais de subordinação, que não suporta, mas exibe as bases militares dos Estados Unidos como um elemento agressivo no contexto da segurança continental. Na política interna essa influência do estilo de condução de conflitos dos Estados Unidos se reflete na absoluta irresponsabilidade dos membros da força pública com as violações dos direitos humanos e com a vigilância como mecanismo de controle social, com medidas cada vez mais extremas, de intromissão na intimidade, vida privada e liberdades públicas.

No econômico, a política externa imprime um sentido oposto ao da autonomia regional, colocando-se como tarefa a propaganda dos supostos benefícios dos Tratados de Livre Comércio que, tudo indica, arrochará salário, ocasionará maiores entraves à distribuição da renda e terá repercussões na ordem ambiental.

Tal situação não foi nem será instalada por Santos. Aí se conjugam tanto a pressão dos Estados Unidos - que observa a Colômbia como um bastião que não pode ser sequer ameaçado desde o ponto de vista eleitoral, pela sua posição geoestratégica – como a conformação de uma aliança entre elites tradicionais e novas no país. E, por outro lado, também as dificuldades da esquerda, seus erros, isolamentos e sectarismos.

Ao Pólo Democrático Independente, que escolheu o candidato Gustavo Petro, ainda cabe realizar uma discussão muito mais frontal com o país, maior participação no cenário internacional, maior elaboração de propostas audaciosas em torno da saída política e não militar do conflito armado, da crise humanitária e rumo às transformações do regime econômico e político. E dizer, debater com maior profundidade as reais causas da pobreza e da exclusão, tocando a essência do sistema produtivo e propondo as modificações necessárias.

E as questões são urgentes: uma taxa de desemprego de 12,8% e desde 2008 um índice de pobreza que atinge 47,6% da população, com a pobreza extrema chegando a 17,8%, ou 9 milhões de pessoas que se encontram abaixo da linha de pobreza. De cada 100 trabalhadores, 50 se encontram na informalidade.

Internacionalmente, muitos se impressionaram com fatores recorrentes no país: a compra de votos, o uso da máquina pública e, sobretudo, medo, temor, receio de represálias paramilitares. Contudo, isto não pode ser considerado, no contexto colombiano, algo novo, recente ou do qual tenha se usado unicamente um governo para eleger seu sucessor.

Victor Moncayo, o ex-reitor da Universidade Nacional, em um artigo bastante elucidativo, expressou com clareza como no primeiro turno colocou-se a descoberto os mecanismos fraudulentos orquestrados e que colocam o governo no campo da ilegitimidade: "amplas camadas da população conduzidas pelo medo e pela intimidação, a partir dos programas chamados ‘Famílias em ação’, ‘mães comunitárias’, ‘guarda-bosques’, conduzidos pelos informantes que formam parte da inteligência do regime e das famílias ligadas ao pessoal profissional e da força pública. Todos aos quais temos de somar os grupos populacionais orientados pelo setor privado, pelas administrações locais, pelas organizações sucessoras do paramilitarismo, inclusive nucleadas em esquemas partidários, e toda sorte de coações físicas e psicológicas"

A mistura de formas abertas e sutis de coação nas campanhas eleitorais de alguns Estados considerados de democracia fraca - muito embora alguns considerem que não é o caso da Colômbia, aduzindo-se, com um desconhecimento que não pode ser considerado acidental, que é um país que apenas teve um período breve de ditadura militar no século XX – são o fator importante e de peso na hora de analisar o resultado.

Os índices de abstenção eleitoral são abismais: 54,52% dos eleitores deixaram de comparecer, ratificando-se um comportamento constante dos colombianos, distinguindo-se entre os que pretendem expressar algo com o não voto e aqueles que simplesmente não manifestam interesse algum pela situação nacional. E essa noção pobre da política é exatamente a receita para uma cidadania de baixíssima intensidade, enquanto se proclama o individualismo e se nega a possibilidade de, através do coletivo, procurar mudanças de fundo. E para as diretrizes econômicas e políticas, a apatia cidadã é uma necessidade, porque mantêm a inércia da exigência político-social.

Na América Latina temos processos eleitorais em curso que definirão novos cenários: em 26 de setembro as legislativas na Venezuela, em outubro no Brasil e no ano de 2011 as presidenciais na Argentina.

Alternativas para fortalecer a democracia, tornando o debate eleitoral uma discussão de programas, com soluções reais aos problemas das maiorias é, sem dúvida alguma, o grande desafio.


*Pietro Alarcón é professor da PUC/SP, assessor do convênio Cáritas-ACNUR para refugiados e membro da CEBRAPAZ.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O DAS É UMA INSTITUIÇÃO CRIMINOSA DIRIGIDA PELO CHEFE DO ESTADO



ANNCOL

O DAS, ou o que foi denominado ‘o cartel das três letras’, por seu envolvimento direto no tráfico de drogas, como tem sido demostrado por alguns depoimentos que estão sendo avaliados pela justiça, depende directamente da Presidência da República, ou seja, o presidente em pessoa é o responsável direto do o DAS faça ou deixe de fazer. No proprio endereço eletrônico oficial da instituição se lê que a sua missão é:

Missão

“Produzir informação privilegiada, conhecimento que produza ação e prover insumos para o Presidente da República para a tomada de decisões e formulação de políticas relacionadas à segurança interna e externa do Estado”. [Isto é, o narco-presidente Uribe declarou o próprio Supremo Tribunal de Justiça como objetivo nº. 1 da ação do DAS. O Supremo , nesses termos, realiza acções que atentam contra a segurança do Estado. Essa é a conclusão dos colombianos ao descobrir esta podridão.]

Vejamos qual é a visão do DAS para este ano em que termina o mandato do “doutor Varito”.

Visão

“Para o ano de 2010, o DAS, retomando a concepção original de sua criação, terá se posicionado perante a Presidência da República, perante as outras instituições do Estado e da opinião pública, como o orgão de elite que salvaguarda os mais altos interesses do Estado por sua condição de máximo serviço de inteligência estatal e sua função de investigação criminal de delitos que ameaçem a sua existência e estabilidade”. [Leiam atentamente amigos leitores, o objetivo de 2010 é "Posicionar-se como o orgão de elite que salvaguardaos mais altos interesses do Estado” para atingir este objetivo, o DAS se aliou com mafiosos-paramilitares para produzir informação que em seguida era vendida às mafias para produzir crimes contra os opositores políticos, jornalistas, senadores oposicionistas, professores universitários, sindicalistas e até o próprio SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇ. Se isto não é uma ditadura civil, cujo presidente limpou o traseiro com a divisão constitucional de poders, então o que é uma ditadura?]

Agora vejamos seus objetivos e funções:

Objetivos e funções
1. Produzir a inteligência de Estado requerida pelo Governo Nacional e formular políticas do setor administrativo em matéria de inteligência para garantir a segurança nacional interna e externa do Estado colombiano. [ leia-se: gramper todo o mundo para saber quem é leal ao governo e quem não, quem é que se salva se esse unanimismo está violando a segurança do estado]
2. Participar no desenvolvimento de políticas desenhadas pelo Governo Nacional em matéria de segurança. [A ‘Segurança Democrática’ é um nome engraçado para essas práticas criminosas que foram incentivados e apoiadas desde o Palácio]
3. Obtenção e processamento de informação a nível nacional e internacional, sobre questões relacionadas à segurança nacional, a fim de produzir inteligência de Estado, para apoiar o Presidente da República na formulação de políticas e tomada de decisões. [Investigar se a justiça está investigando os amigos do presidente, Mario Uribe, Santiago Uribe, os filhos do presidente, Rito Alejo del Rio, ao ex-general Montoya, etc. Escutar o que está em andamento, em termos de justiças, que possa afetar o presidente. O DAS foi privatizado e colocado ao serviço exclusivo da família Uribe e de todo o regime narcoparamilitar].
4. Dirigir a atividade de inteligência estratégica do Estado no ambito nacional e internacional. [Espionar, a partir das embaixadas no exterior, todos os adversários políticos, todos os governos que são contrários à Segurança Democrática. O DAS tem espionado diversos governos, as missões diplomáticas da Venezuela, Equador, Nicarágua, entre outras. O DAS também contratou informantes ligados às embaixadas através do programa ‘Um milhão de Informantes’]
Coordenar o intercâmbio de informação e cooperação com outros orgãos nacionais e internacionais que tenham funções afins.
5. Realizar ações de contrainteligência destinadas a proteger os interesses do Estado diante de atividades hostis de origem interna ou externa.
6. Realizar estudos sobre a segurança e confiabilidade dos altos funcionários do Governo nacional . [Uribe ordenou espionar todos os ministros, os secretários de despacho, deputados, senadores e outros representantes da câmara].
7. Exercer funções de Polícia Judiciária, em coordenação com a Procuradoria Geral da República, para investigações de caráter criminal, relacionadas com a natureza e finalidade institucional.
8. Fornecer proteção ao Presidente da República e sua família, vice-presidente e família, Ministros e ex-presidentes da República; a informação relativas à segurança destes deve ter reserva legal.
9. Formar e especializar os funcionários do Departamento e aspirantes, na sua Academia, e a outros funcionários do Estado, de governos estrangeiros ou organismos multilaterais, no desenvolvimento de uma cultura integral de inteligência de Estado e de cooperação internacional.

Amigos leitores de ANNCOL, o papel do DAS não pode ser comparado nem sequer com a polícia secreta de PINOCHET (Dina), nem os serviços secretos de VIDELA , SOMOZA STRONSSER, nenhum serviço de inteligência dos citados sequer chega aos pés desta organização criminosa chamada DAS que, desde o próprio Estado, organizou, com patente de corso presidencial, a mais importante empresa criminosa da história recente do país. FUJIMORI e MONTESINOS, do Peru, SÃO ANJOS AO LADO DESTE BANDO DE CRIMINOSOS SEM VERGONHA.

QUE VERGONHA, o DAS gastou, do orçamento de 2008, a bagatela de quase 400 bilhões de pesos, pagos com fundos públicos. Não há direito. É um monumento à corrupção para o doutor Varito.

DAS: VERGONHA NACIONAL.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Presidente Chávez diz que seu objetivo é impedir a guerra do “lacaio Uribe”


EFE / ANNCOL
Segundo o mandatário venezuelano o governo de Uribe “é responsável” pelos altos índices de violência na Colômbia.

Funadador da nova geração de paramilitares. Os batizou de AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) e hoje são chamados de Bacrim. A partir de 08 de agosto ele estará à disposição da justiça popular.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse que fixou como “objetivo supremo” impedir que o governo de seu colega da Colômbia, Álvaro Uribe, ao qual chamou de “lacaio”, consiga levar ambas as nações à guerra.

"Definimos para nós um objetivo supremo: deter a loucura belicosa que está dominando a Casa de Nariño, impedir que o governo lacaio de Uribe, que já está de saída, perpetue seu último e mais nefasto crime: arrastar para um conflito bélico aos dois povos que sabem e se sentem irmãos em (Simon) Bolivar”, escreveu Chávez.

O governante rompeu as relações bilaterais após afirmar, no passado 22 de julho, que as alegações de que os guerrilheiros colombianos estariam se escondendo na Venezuela, supostamente com o apoio de seu governo, constitui um pretexto para ocultar os problemas internos colombianos e o compromisso “imperialista” de violar a soberania da Venezuela.

Em sua coluna dominical “As linhas de Chávez”, o chefe de Estado acrescentou que reivindica “para o povo colombiano o mesmo direito que reivindicamos para o nosso povo e de todos os povos da Nossa América: o direito de viver em paz”.

“Preocupa-nos o compasso de Uribe ao dançar os últimos passos de uma música que é entoada do Norte”, porque é “horrível” o saldo deixado pelo “indigno inquilino da Casa de Nariño”, que “não é outro senão a exacerbação da violência que durante mais de 60 anos, tem definido o doloroso passado histórico da Colômbia”, disse.

Depois de alertar sobre “a gravidade do que está acontecendo entre Venezuela e Colômbia”, Chávez insistiu que “o dilema está entre as palavras ou os projéteis” das armas de fogo .

“Isto é, entre levar à mesa de diálogo dos povos do Sul o exercício voluntarioso pela paz ou manter na região uma atmosfera de confronto com uma alta periculosidade bélica”.

Acrescentou que se trata de “sensatez e prudência políticas contra a irracionalidade e a violência militaristas”, embora "já saibamos, diante desta opção, de que lado tem estado o governo da Colômbia nos últimos oito anos”.

O governo de Uribe “é responsável”, afirmou ele, dos altos índices de violência na Colômbia, incluindo “a natureza criminosa dos gestos e das colocações verbais, para não mencionar os conteúdos mentirosos dos representantes urubistas na arena diplomatica internacional”.

A “aposta na agressão permanente como uma estratégia de Estado” que lhe atribuiu a Uribe, contrasta, acrescentou, com uma Venezuela onde “não temos nem sindicalistas assassinados, nem deslocados, nem forças insurgentes em todo o país”.

Tampouco “grupos paramilitares, nem importantes extensões de terras a serviço da produção de drogas, nem bases militares estadunidenses, nem valas comuns cheias de cadáveres”.

Chávez continua suas linhas afirmando que “pacientes, intensos e laboriosos tem sido nossos esforços de elevar, em todo este cenário, as bandeiras da paz”.

"Não desmaiaremos no nosso empenho de alcançar relações decentes e respeitosas, por mais que do outro lado da fronteira continuem montando-nos armadilhas”, disse ele em referência ao Governo de José Manuel Santos, que substituirá o de Uribe a partir do próximo sábado.

“Esperamos que o novo governo da Colômbia entenda que não temos animo por outros interesses nem outro desejo” que não seja o de obter a melhor das nossas vontades para encontrar, definitivamente, uma paz duradoura e confiável”, manifestou.

O líder venezuelano também se dirigiu aos guerrilheiros colombianos e reiterou que “o convite, que desde algum tempo tenho feito às forças insurgentes da Colômbia, de buscar os caminhos para a paz”.

A intempestiva lógica de Uribe.

Por Gilberto Maringoni

Data: 30/07/2010

A ruidosa ofensiva desencadeada pelo presidente colombiano Álvaro Uribe contra a Venezuela, a poucos dias do final de seu mandato, pode ser debitada a pelo menos dois fatores que se completam.

O primeiro e mais evidente diz respeito ao papel crescente que a Colômbia vem desempenhando na geopolítica regional como o de fiel representante dos interesses dos Estados Unidos. Para isso, o país tem de se contrapor de maneira firme aos governos progressistas na região.

Como não seria produtivo estabelecer uma oposição em bloco a Argentina, Brasil, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai, Uribe elegeu seu alvo: Venezuela. O vizinho seria responsável por apoiar e abrigar em seu território destacamentos das Farc. As provas para sustentar tal acusação, apresentadas em reunião da OEA, são no mínimo discutíveis. Fotos de pessoas uniformizadas no meio do mato não dizem muita coisa.

Acordo militar
As relações entre os dois países conheceram altos e baixos nos últimos anos, mas se deterioraram acentuadamente a partir de julho de 2009, quando o presidente colombiano anunciou publicamente o fechamento do acordo de cooperação militar com os Estados Unidos. O ponto principal do entendimento, como se sabe, prevê a instalação de sete bases militares no país, sob a justificativa de que elas possibilitarão “uma oportunidade única para operações de espectro completo em uma sub região crítica de nosso hemisfério, onde segurança e estabilidade estão permanentemente ameaçadas pelo narcotráfico, patrocinando insurgências terroristas, governos anti-Estados Unidos, pobreza endêmica e desastres naturais recorrentes”. A frase foi tirada do Programa de construção militar , divulgado em outubro do ano passado.

O líder venezuelano Hugo Chávez percebeu que a ameaça se dirigia especialmente contra seu país e bateu duro no tratado. O presidente Lula, ainda em agosto, contatou Barak Obama, pedindo explicações sobre o acordo. Uribe se isolou entre os países da Unasul, apesar da reunião de chanceleres, realizada nesta quinta, 29 de julho, em Quito, não ter deliberado sobre a questão das disputas entre Colômbia e Venezuela.

Por isso, é vital para a Colômbia levar suas pendências internacionais para outro fórum, a OEA, onde o peso dos Estados Unidos é determinante.

Disputas domésticas
Mas houve também motivações internas para a investida de Uribe, justamente nos dias em que o presidente eleito Juan Manuel dos Santos, em um giro pela Europa, anunciava a vontade de distensionar as relações com o país vizinho.

Quais as razões de Uribe para torpedear qualquer tentativa de aproximação? Santos representaria, de fato, outra linha a ser seguida pela política externa da Colômbia?

Parece pouco provável. O novo mandatário não apenas segue a mesma linha de aproximação com os EUA e de militarização crescente das disputas políticas, como era um dos membros do núcleo duro do governo Uribe, no qual desempenhou a função de Ministro da Defesa.

Onde estariam as diferenças entre ambos, se é que existem?

Apesar de toda a proximidade entre ambos, Santos não era o candidato preferido de Álvaro Uribe na disputa presidencial. O candidato dos sonhos de Uribe era Uribe, que não pode entrar na disputa porque a Suprema Corte vetou seu projeto de tentar uma segunda reeleição. Sem um nome viável, Uribe teve de aceitar a postulação de seu Ministro da Defesa, que não teve dificuldades em obter uma vitória eleitoral relativamente tranqüila, nas águas da popularidade do presidente da República. Uribe desfruta de altos índices de aceitação no fim de seu mandato, especialmente entre uma população cansada por décadas de violência institucionalizada.

A aliança militar com os EUA foi alicerçada numa forte propaganda, baseada em duas premissas. A primeira era de que as Farc não seriam um grupo guerrilheiro, mas uma organização terrorista, nos moldes da Al Qaeda. A segunda, decorrente da anterior, era a de que numa situação dessas não haveria negociação possível. A solução seria um enfrentamento militar. Com isso, não apenas as forças de segurança do Estado se viram com mãos livres para agir, como os grupos paramilitares de direita contaram com a vista grossa oficial para cometerem qualquer tipo de crime.

Santos foi um dos formuladores dessa política. Sua diferença com Uribe é de outra ordem.

Duas oligarquias
Figura secundária da cena política colombiana até oito anos atrás, o atual presidente era um líder regional, governador de Antioquia, um dos 32 Departamentos do país, e membro da oligarquia local. Foi um firme opositor da política de negociação com a guerrilha, levada a cabo pelo ex-presidente Andrés Pastrana (1996-2002). Com este mote construiu a campanha que o levaria a vitória em 2002.

Juan Manuel dos Santos, por sua vez, é originário de uma linhagem tradicional da burguesia. Seu tio-avô, Eduardo Santos, presidiu o país entre 1938 e 1942. A família é dona do mais importante jornal colombiano, El Tiempo, fundado em 1911 e recentemente vendido ao grupo espanhol Planeta. Por fim, seu primo, Francisco Santos é vicepresidente de Álvaro Uribe. Ou seja, o novo presidente não é uma sombra de seu antecessor, mas membro destacado das classes dominantes locais. Para estas, Uribe cumpriu um bom papel, mas seria apenas um novo rico emergente.

Sabendo do jogo e com receio de sair definitivamente de cena num momento em que a elite tradicional reassume o centro do palco, Uribe resolveu imprimir sua marca para continuar presente na disputa política local. Com todo o beneplácito do Império e da grande imprensa do continente.

Uma nota final
Todo o espalhafatoso jogo de cena relatado acima vem bem a calhar a outra figura da direita continental. Pode não haver articulação direta, mas José Serra e seu folclórico candidato a vice pegaram no ar a pauta lançada por Álvaro Uribe. Agora tentam envenenar a campanha presidencial brasileira com a risível acusação de que o Partido dos Trabalhadores estaria “envolvido com as Farc e com o narcotráfico”. Por sorte, o terrorismo eleitoral não pega mais por aqui, apesar de toda a insistência da imprensa brasileira.

Serra para o lugar de Uribe?

O desprezo pelos governos populares da América do Sul e a total submissão aos interesses econômicos e estratégicos dos EUA no continente foram marcas registradas do governo Uribe e podem ser também marcas de um eventual governo Serra. Isso está no DNA da coligação demotucana.

Por Maurício Thuswohl

Poucos dias separaram a veiculação pela imprensa brasileira das acusações feitas pela oposição demotucana acerca da suposta ligação do PT com as Farc e a divulgação do comunicado oficial no qual o presidente em fim de mandato da Colômbia, Álvaro Uribe, “deplora” a posição assumida pelo Brasil frente à crise diplomática de seu país com a Venezuela. A proximidade entre os dois eventos no calendário demonstra que o xerife colombiano e o candidato à Presidência do Brasil pelo PSDB, José Serra, podem ser eles também muito mais próximos no tabuleiro político sul-americano do que supõe a nossa vã filosofia.

Trazer o tema da guerrilha colombiana de volta às manchetes sul-americanas é uma “coincidência” que atende ao mesmo tempo aos interesses de Uribe, de Serra e... dos Estados Unidos. Para o colombiano, significa manter em evidência o assunto que determinou sua existência política até hoje e consolidar uma posição de influência sobre o sucessor, Juan Manuel Santos, que vá além da teoria. Para o brasileiro, significa a tentativa de uma cartada alarmista que reverta a tendência de queda que sua candidatura apresenta junto aos eleitores. Para o conservadorismo estaduninense, significa manter a agenda do medo (leia-se maior presença armada) permanentemente instalada na América do Sul, tarefa para a qual, na falta de Uribe, Serra parece ser o mais indicado a assumir o papel de protagonista, se eleito for.

Juan Manuel Santos faz parte do “núcleo duro” do grupo político de Uribe e não deve alterar em grande coisa a posição da Colômbia em relação às Farc e os EUA, como explicado em excelente artigo de Gilberto Maringoni publicado aqui na Carta Maior. No entanto, falta a Santos a estatura política adquirida por Uribe ao longo de sua trajetória. Nesse importante terreno, o da simbologia política, quem ocupará o espaço deixado por Uribe em uma América Latina cada vez mais consolidada à esquerda? O nome de José Serra, com sua biografia de luta contra a ditadura e “trajetória de centro-esquerda”, seria perfeito para que a direita pudesse continuar a aplicar sua agenda do medo em nosso continente.

Ninguém está aqui dizendo que, se chegar à Presidência, Serra vai deixar que o governo dos EUA instale bases militares no Brasil assim como Uribe deixou que fizesse na Colômbia, até porque o candidato tucano ainda não divulgou claramente quais são suas propostas para a política externa brasileira. Um sinal de aproximação com uma postura mais raivosa de direita, no entanto, tornou-se claro nos últimos dias de campanha, quando Serra ecoou as declarações de seu vice, o deputado federal Índio da Costa (DEM), sobre as não-comprovadas ligações do PT com “as Farc e o narcotráfico”.

A preocupação com a “segurança do continente” já foi citada mais de uma vez pelo candidato do PSDB em discursos recentes, e mesmo a proposta de criação de um Ministério da Segurança Pública traz embutida a correta constatação de que a violência (no caso do Brasil, causada principalmente por traficantes, milicianos e policiais) ainda é uma das questões sociais mais sensíveis junto à população de baixa renda. A abordagem direitista de Serra sobre o tema pode servir, não se sabe, para que ele consiga chegar ao segundo turno. Desde já, ela tem o efeito de pavimentar sua “ascensão” à condição de principal figura da direita sul-americana se for eleito presidente do Brasil.

Unasul
Sem encontrar apoio para sua política belicosa no próprio continente, Álvaro Uribe nunca pôde contar com a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) para dar vazão às suas críticas contra a Venezuela e o governo de Hugo Chávez. Além disso, tornou-se um hábito do governo colombiano nos últimos anos recorrer à Organização dos Estados Americanos (OEA), onde sempre teve o apoio irrestrito dos EUA, para justificar ou sugerir ações contra as Farc, inclusive quando invadiu o território do Equador par matar dirigentes da guerrilha. Dizem que uma das diferenças de Santos para Uribe seria uma maior simpatia pela Unasul. Mas, o que dizer de José Serra? Terá ele na Presidência alguma simpatia pelo órgão criado em 2004, com forte apoio do governo Lula, justamente para ser um contrapeso à influência de Washington na região?

O pouco apreço que a coalizão demotucana e os setores sociais por ela representados sentem pelos nossos vizinhos sul-americanos já pôde ser verificado em mais de uma oportunidade. Na mais recente, já na atual campanha, Serra criticou a renegociação feita entre os governos de Brasil e Paraguai quanto ao valor das tarifas cobradas pela energia de Itaipu e reclamou que o governo do PT “quer fazer filantropia” com os países mais pobres do continente. Há poucos anos, quando o governo de Evo Morales decidiu tomar o controle da produção de gás na Bolívia e, com isso, prejudicou interesses da Petrobras naquele país, setores do PSDB e do DEM, você leitor se lembra, só faltaram pedir a invasão do território vizinho.

O desprezo pelos governos populares da América do Sul e a total submissão aos interesses econômicos e estratégicos dos EUA no continente foram marcas registradas do governo Uribe e podem ser também marcas de um eventual governo Serra. Isso está no DNA da coligação demotucana. Não por acaso, coube a uma das mais amarguradas viúvas do governo FHC, o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia, a tarefa de “lembrar” um momento no ano de 1999 quando supostamente o atual secretário de Relações Internacionais do governo federal, Marco Aurélio Garcia, teria se oferecido para intermediar negociações com as Farc.

Mantido o cenário de vantagem da candidata do PT, Dilma Rousseff, nas pesquisas eleitorais, é natural que o alarmismo udenista ganhe espaço na campanha da oposição. Isso aconteceu com Geraldo Alckmin em 2006 e com o próprio Serra em 2002. Quem não se lembra de Regina “eu tenho medo” Duarte? Na atual campanha, o vice Índio da Costa parece assumir a tarefa de espalhar o medo entre os eleitores. Enquanto isso, segundo o jornal O Globo, a rede de mobilização da campanha Serra no Facebook recomenda visita à página do Movimento Endireita Brasil que, entre outras coisas, clama pelo “fim do terrorismo de esquerda” e prega a “morte ao comunismo e aos que o defendem”. É esse o cenário da campanha presidencial no Brasil.

Maurício Thuswohl é jornalista.

Com apoio de Carta Maior

domingo, 1 de agosto de 2010

Tensão com a Venezuela é ‘último ato de amor’ aos EUA do lacaio Uribe.

Por Atilio Borón.

Incondicional peão do império, Álvaro Uribe se despede da presidência da Colômbia com uma nova provocação: a denúncia da existência de acampamentos das FARC em território venezuelano. Sem lerdeza ou desatenção, o Departamento de Estado dos EUA saiu a respaldar sem reservas a acusação formulada por Bogotá na OEA, motivada pela suposta "contundência" das provas apresentadas por Uribe que denunciam o governo de Hugo Chávez por permitir a instalação de acampamentos das FARC e a realização de diversos programas de treinamento militar a cerca de 1500 efetivos de guerrilha em território venezuelano. O porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, declarou com singular insolência que "a Venezuela mostrou uma conduta inapropriada e insolente" com seu vizinho e ameaçou que se o país "não cooperar, os Estados Unidos e demais países obviamente levarão em conta".

Deve se lembrar que desde 2006 os EUA incluem a Venezuela na lista dos países que não cooperam na luta contra o terrorismo. Na mesma linha se manifestou o Subsecretário Adjunto para a América Latina, Arturo Valenzuela, declarando que a denúncia feita por Uribe era "muito séria". Ambas as declarações jogam espessas sombras de dúvidas sobre as capacidades intelectuais dos dois funcionários e, ainda mais grave, alimentam a suspeita de que por conta da fixação pela mentira a qualidade moral de ambos não parece muito diferente da de Uribe.
É evidente que para os administradores imperiais qualquer coisa que convenha a seus interesses tratam de fazê-la aparecer aos olhos da opinião pública como "séria e contundente". E são esses interesses que moveram a Casa Branca a pedir uma última "prova de amor" ao governante colombiano poucos dias antes de abandonar a presidência. Como é de público conhecimento, o prontuário que a DEA, a CIA e o FBI vêm construindo sobre Uribe por seus íntimos e ramificados vínculos com os narcotraficantes não permite ao mandatário colombiano desobedecer nenhuma ordem originada de Washington, sob pena de ter a mesma sorte do ex-presidente panamenho Manuel A. Noriega e terminar seus dias em uma prisão de segurança máxima nos EUA.

A disparatada denúncia de Uribe, um mentiroso inveterado, vem sob medida para impulsionar a desestabilização que Washington quer produzir às vésperas de cruciais eleições venezuelanas programadas para 26 de setembro, e ao mesmo tempo legitimar o impressionante programa de militarização que está impondo na América Latina, sendo que uma de suas maiores expressões foi a assinatura do tratado Obama-Uribe, mediante o qual o país sul-americano cede ao menos sete bases militares para uso das forças armadas dos EUA. Por isso os porta-vozes do governo norte-americano simulam que consideram "sérias e contundentes" as provas que respaldam a denúncia de Uribe, sabendo que não têm sustentação alguma e que são pura conversa fiada e montagens fotográficas. Mas as mentiras são parte do discurso oficial dos EUA, elementos imprescindíveis para dar legitimidade aos desígnios do imperialismo norte-americano, e isso por várias razões.

São mentiras porque, em primeiro lugar, se as FARC controlam cerca de 30% do território nacional (coisa mais que sabida na Colômbia) não se entende que sentido pode ter desviar nada menos que 1500 homens do teatro de operações, enviar seus chefes para tirar férias na Venezuela e organizar 85 acampamentos guerrilheiros no país vizinho. Se há um político que mente sistematicamente em nossa região – e há muitos! – Uribe leva todos os aplausos: é na própria Colômbia onde a crise e a putrefação do Estado oligárquico permite que amplas faixas de seu território, especialmente nas zonas selvagens, estejam controladas pela guerrilha, os narcos e os paramilitares.

Diversas autoridades equatorianas comentaram após o ataque que as forças colombianas realizaram em seu território que o Equador não faz fronteira ao norte com a Colômbia, mas com uma terra de ninguém controlada pelas organizações mencionadas acima. Com uma estupidez sem limites Uribe acusa seus vizinhos de não fazer o que ele mostrou com sobras ser incapaz de realizar: controlar seu próprio território. Fechando os olhos ante essa realidade, os EUA se montam sobre essa denúncia falaciosa para, a partir dali, acossar o governo bolivariano por sua falta de colaboração na luta contra o narcotráfico, ocultando da opinião pública – com a cumplicidade da "imprensa livre", claro! – o incômodo fato de que o maior exportador mundial de cocaína (e também de narcotraficantes) é a Colômbia militarizada por Uribe e transformada, graças à sua imensurável colaboração, em um protetorado norte-americano. 

Diante de tal quadro de descomposicão política, denunciar que as FARC se instalam na Venezuela – e pra completar com o aval e cumplicidade do governo de Hugo Chávez – não passa de uma vulgar armadilha a serviço do império; uma acusação que carece completamente de integridade para ser minimamente levada a serio. É a calúnia que revela um personagem totalmente inescrupuloso como Uribe.

Em segundo lugar, como esquecer que Uribe foi o homem que mentiu aleivosamente quando suas forças, apoiadas pelas dos EUA, fizeram incursão em território equatoriano, alegando que perseguiam uma coluna das FARC? As provas demonstraram que os guerrilheiros a que supostamente se perseguiam após um enfrentamento ocorrido em chão colombiano estavam dormindo – inclusive vestidos de pijamas – no momento que se produziu o ataque, e que, em conseqüência do ocorrido, em Santa Rosa de Sucumbios não houve um combate, mas um claro e cristalino massacre indiscriminado.

Nessa operação, realizada pouco depois da meia-noite de 1º de março de 2008, foi levado a cabo com apoio logístico e material dos efetivos norte-americanos estacionados na base de Manta (EQU), os únicos que dispunham de tecnologia necessária e de aviões capazes de efetuar um bombardeio de assombrosa precisão em plena selva e em meio a mais absoluta escuridão. Uma mostra mais da doentia fixação de Uribe pela mentira foi a história montada em torno do famoso laptop de Raul Reyes, que numa prodigalidade tecnológica sem precedentes sobreviveu incólume a um bombardeio que destruiu tudo que havia a sua volta e cujo disco rígido tinha entregado valiosíssima informação sobre os numerosos contatos de Reyes com as FARC e com todos os inimigos de Uribe e dos EUA.

Em terceiro lugar, como se pode acreditar num homem que da posição de presidente da Colômbia chancelou a ação de paramilitares e do terrorismo de Estado? Em 16 de fevereiro deste ano a unidade de "Justiça e Paz" da Receita colombiana publicou um informe em que se revela que algo mais de 4000 paramilitares das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) asseguraram ter perpetrado 30470 assassinatos no período compreendido de meados dos anos 80 até sua "desmobilização", entre 2003 e 2006. Não só isso: a Receita recebeu também declarações dos paramilitares dando conta de 1085 massacres; 1437 recrutamentos de menores. 2520 desaparecimentos forçados; 2326 deslocamentos forçados; e 1642 extorsões, além de 1033 seqüestros. Em que pese esse lamentável recorde, Uribe é considerado por seus mandantes de Washington como um campeão na luta pelos direitos humanos.

Com relação a isso, se o ansiado TLC entre a Colômbia e os EUA não foi ainda ratificado pelo Congresso norte-americano é porque, tal como assinala o conservador jornal colombiano El Tiempo, tão somente no ano de 2009 os "paras" e as "forças de segurança" assassinaram 40 sindicalistas, transformando a Colômbia no país mais perigoso do mundo para tal atividade. Sobre um total de 76 dirigentes sindicais assassinados no mundo inteiro, 52% desses crimes se perpetraram num país que os EUA consideram exemplar paradigma da luta pelos direitos humanos e combate ao terrorismo. A Central Única dos Trabalhadores da Colômbia informou poucos meses atrás que desde 1986, ano de sua criação, 2721 ativistas e dirigentes da entidade foram assassinados pelas "forças de segurança". Apesar disso, as credencias democráticas colombianas jamais foram postas em dúvida por Washington.

Quarto, o denunciante é nada menos que o responsável intelectual e político do massacre serial conhecido pelo nome de "falsos positivos". Tal como afirmam distintas matérias publicadas na Colômbia pelo Observatório Latino-americano, Cronicón, durante os três últimos anos de governo Uribe o balanço é funesto. Comprovou-se que as forças militares, diante da pressão do governo para que mostrassem resultados concretos na luta contra a guerrilha, desenharam e executaram um plano criminoso: recorrer às comunidades e aldeias mais pobres do país oferecendo trabalho à enorme massa de desempregados, recrutando um elevado número de indigentes, camponeses, indefesos, jovens e marginalizados, que depois eram assassinados a sangue frio e tinham seus cadáveres contabilizados como de guerrilheiros executados em combate, de modo a receber a recompensa estabelecida pelo governo ou obter estímulos ou promoções na carreira militar. Segundo estimativas muito conservadoras, estes crimes de Estado, perpetrados quando o futuro presidente do país, Juan Manuel Santos, era ministro da Defesa, superam 1700 casos.

Outra faceta dessa criminosa política mal denominada de segurança democrática foi a descoberta, levada a público em 16 de fevereiro de 2010, "da maior fossa comum da história contemporânea do continente americano, horrenda descoberta que foi quase totalmente invisibilizada" pelos principais meios de comunicação de massas da Colômbia e do mundo. "A fossa comum contém restos de ao menos 2000 pessoas, está em Macarena, departamento de Meta... (e foi descoberta) graças à perseverança dos familiares dos desaparecidos e à visita de uma delegação de sindicalistas e parlamentares britânicos que investigava a situação dos direitos humanos na Colômbia, em dezembro de 2009. Cabe adicionar que essa região tinha sido objeto de preferencial atenção por parte das forças armadas colombianas desde 2005, com os nefastos resultados recentemente revelados.

Como ocorreu com todos os terrorismos de Estado que assolaram a região nos anos 70 do século passado, os crimes de lesa-humanidade cometidos pelos seus perpetradores tinham também um pano de fundo econômico. No caso da Colômbia de Uribe, com seu comparsa de sanguinárias experiências, entre as corruptas forças armadas, os paramilitares e os narcos dividiram-se milhões de hectares que em seu desesperado êxodo deixavam para trás os camponeses deslocados pelos bombardeios e massacres indiscriminados a que estavam submetidos. Tal como expusera Jomary Orteon Osorio, do Coletivo de Advogados da Colômbia, na conferência do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Cultuais da ONU reunida em Genebra no início de maio deste ano, a cifra de camponeses expulsos de suas terras subiria para 4,5 milhões e suas terras foram logo transferidas, para grande proveito dos encarregados de desalojá-los, dos latifundiários e do agronegócio, entusiastas e co-financiadores do paramilitarismo.

Nesta mesma conferência se estabeleceu que apesar dos "êxitos" do governo de Uribe o número de desalojados segue crescendo em cerca de 150 mil pessoas por ano. O ministro do Planejamento da Colômbia, Esteban Piedrahita Uribe, chefe da delegação colombiana na citada conferência, não desmentiu as alegações antes formuladas e se limitou a dizer que "confiscamos 2 milhões de hectares de grupos criminosos que se apropriaram ilegalmente dessas terras, e agora a justiça vai decidir pela devolução aos seus verdadeiros donos". Em todo caso, há que se destacar que o cálculo do número de hectares expropriados nessa selvagem reedição do processo de acumulação originária que Marx descobrira em seu célebre capítulo 24 do primeiro volume de O Capital está sujeito a fortes controvérsias. Há quem sustente que o número de hectares assim transferidos subiria para 6 milhões, enquanto outros colocam a cifra em torno dos 10 milhões. De toda forma, qualquer que seja o número que finalmente se estabeleça mais além de qualquer dúvida, o certo é que se a política de segurança democrática assegurou alguma coisa efetivamente foi a expropriação da massa camponesa e a apropriação das mesmas pelo capitalismo agrário.
Esse é o homem que hoje aponta seu dedo acusador contra a revolução bolivariana. É evidente que se trata de uma manobra mais, ditada pelos estrategas do império, para acossar o governo Chávez e legitimar a política do "hardpower" (poder duro) ao qual parece ter ficado mais afeito Obama que seu ignominioso antecessor, apesar de suas declarações oficiais e dos escritos de alguns analistas próximos à Casa Branca, como Joseph Nye, falarem com insistência das vantagens do softpower (poder brando, ou a diplomacia tradicional) ou ainda o smartpower (o poder inteligente, da nova diplomacia) sobre a brutalidade e elevado custo do primeiro.

Mesmo assim, o império insiste no poder duro e seu impressionante dispositivo militar: por isso as bases na Colômbia, em Aruba e Curaçao, a poucos quilômetros do litoral marítimo venezuelano; isso além das bases que se encontram em El Salvador e Honduras, e agora a autorização para introduzir nada menos que 7000 marines e todo tipo de armamento, além de porta-aviões, helicópteros, navios anfíbios e aviões de última geração na vizinha Costa Rica. E por isso também a 4ª. Frota Naval.

O governo de Uribe cumpre dessa forma um serviço de extraordinária importância para facilitar os planos destituintes do imperialismo: incapaz de proteger sua fronteira de 586 quilômetros com o Equador, à qual destina apenas oito minúsculos destacamentos militares, e muito mais incapaz ainda de fazer o mesmo em 2216 km de fronteira com a Venezuela, transformada em zona liberada para narcos e paras, trata por todas as maneiras de criar as condições que justifiquem a intervenção militar estadunidense na América do Sul. No plano imediato, consegue manter viva a tensão entre Colômbia e Venezuela depois da mudança de presidente, evitar que Santos modifique a agenda de confrontação permanente com a revolução bolivariana instituída por Uribe e enlamear o pasto para que Chávez chegue desgastado e ameaçado internacionalmente às eleições de fins de setembro. Preocupado com seu futuro e assombrado pelo fantasma de Noriega apodrecendo numa prisão gringa ou de uma querela ante a Corte Penal Internacional, Uribe se esmera até o último dia de seu mandato para mostrar sua total submissão aos ditames imperialistas.

Por isso é importante desmascarar o denunciante e exigir a pronta intervenção da Unasul a fim de desbaratar os planos de Washington em Nossa América. Este não é um assunto para a OEA (que além de tudo não soube esvaziar a provocação uribista), mas para a Unasul, que será posta à prova com este incidente. É de se esperar que essa nascente organização dos países sul-americanos atue de imediato, agora mesmo, porque do contrário pode ser tarde demais para evitar as graves conseqüências de toda ordem que teriam a consumação do projeto belicista dos Estados Unidos, implementado por Washington e seus prepostos latino-americanos.

*Atilio A. Boron é diretor do PLED, Programa Latinoamericano de Educación a Distancia em Ciências Sociais, Buenos Aires, Argentina.  
Website: http://www.atilioboron.com/.
Traduzido por Gabriel Brito, jornalista.