"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vox Populi: Dilma volta a subir e chega a 53%

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, cresceu dois pontos no tracking Vox Populi/Band/iG deste domingo (19) e alcançou 53% das intenções de voto. Seu principal adversário, José Serra (PSDB), manteve os 24% registrados na medição de ontem. A candidata do PV, Marina Silva, permanece com o mesmo desempenho e tem 9% da preferência do eleitorado. Brancos e nulos somam 4% e indecisos, 9%.

Com o resultado de hoje, a petista venceria as eleições no primeiro turno. No entanto, a oscilação de Dilma permanece dentro da margem de erro, que é de 2,2 pontos percentuais.

Na comparação com o primeiro dia de medição, realizado há duas semanas, o desempenho de todos os candidatos variou dentro da margem de erro. Dilma tinha 51% das intenções em 31 de agosto e hoje aparece com 53%. O tucano José Serra aparecia com 25% e agora tem 24%. Marina Silva permanece com os mesmos 9%.

Espontânea

Na pesquisa espontânea, quando o nome dos candidatos não é apresentado, Dilma lidera com 44% das intenções no tracking Vox Populi/Band/iG. Serra tem 20% e Marina, 7%. O presidente Lula também é citado por 2% dos eleitores.

A cada dia, o Instituto Vox Populi realiza 500 novas entrevistas presenciais em todas as regiões do País, numa amostra consolidada com 2000 pessoas. O levantamento foi registrado junto ao TSE sob o nº 27.428/10.

Fonte: portal iG.

Assista aqui a cobertura diária da campanha de Dilma pelo Twitter.

O ROSTRO MAPUCHE DE UM TERROR BICENTENÁRIO




Lucía Ruiz Sepúlveda
Punto Final

Fonte: Rebelión.org


O Arcebispo de Concepción, Ricardo Ezzati, intervirá como mediador entre os Mapuches em greve de fome contra a lei antiterrorista e o governo, segundo anúncio do ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter no começo da semana chave das comemorações do bicentenário. "Nada a comemorar", advertiam há um ano, os Mapuches, mas a palavra de ordem se incorporou em 34 ativistas Mapuches – dois deles menores de idade – em estado crítico em prisões e hospitais de Concepción, Temuco, Lebu, Angol e Valdivia. O governo apresentou Ezzati a 64 dias do início da greve de fome e a algumas horas do oferecimento do argentino Adolfo Perez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, para mediar, visto favoravelmente por Maria Tralcal, porta-voz dos presos políticos Mapuches em greve de fome.

Já faz algumas semanas que os grevistas solicitaram ao Monsenhor Ezzati a sua intervenção, mas a porta-voz Natividad Llanquileo permanece cautelosa. Estão em curso jejuns solidários em massa na FECH e jornadas de mobilização em nível nacional e internacional programadas para às quartas-feiras assim como ações de protesto na nação Mapuche.

Da Argentina chegou uma delegação de "Povos Originários" junto com Nora Cortiñas, integrante do grupo das Mães da Praça de Maio - Linha Fundadora – e Osvaldo Bayer, para dar apoio às demandas Mapuches. Deputados do Parlamento Europeu acusaram o governo do Chile de “não aplicar o sistema de julgamentos duplos e simultâneos em tribunais civis e militares, e, portanto, não aplicar a chamada ‘Lei Antiterrorista’ aos mapuches detidos em atos de protesto social; e de reformar em profundidade o Código de Justiça Militar”. Tudo aponta para empurrar o governo para a mesa de diálogo já acordada entre os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados – Jorge Pizarro e Alejandra Sepúlveda – e os porta-vozes. Dois destes, o lonko de Temucuicui, Victor Queipul e Maria Tralcal, deslocaram-se para a capital como convidados especiais das celebrações, para intervir nos esforços para o diálogo.

Segundo as porta-vozes Maria Tralcal e Natividade Llanquileo, os ativistas permanecem firmes em sua decisão de luta em todas as prisões e permanecem estáveis dentro de própria fraqueza de mais de 65 dias em greve de fome. Mas, em Angol, dois ativistas, Felipe Huenchullan e Fernando Millacheo, permanecem no Hospital de Victoria em estado delicado. Em Valdivia, o estudante mapuche, Andrés Coña recebeu a solidariedade de visitas dos Lonko Francisco Huichaman Tripayante, e Efrain Cheuquefilo Paillalef, moradores dessa região. Na prisão de menores infratores de Cholchol, os adolescentes Luis Marileo Cariqueo e Jose Ñirripil Perez informam que, depois de 12 dias greve de fome, os seus pesos diminuíram entre 6 e 7 quilos, “e, segundo relatórios médicos, perda de massa muscular e principio de arritmia cardíaca, de modo que, a qualquer momento, seremos transferidos para centros médicos".

O despertar da solidariedade cidadã, a ressonância da greve a nível internacional e em organizações internacionais de direitos humanos, as manifestações nas capitais de países europeus e da América Latina em apoio às reivindicações dos grevistas finalmente quebraram o prolongado blackout de notícias sobre a greve de fome. Uma grande mobilização realizada por historiadores do Arquivo Nacional, em Santiago, "para deter as ações repressivas do Estado no sul do Chile e reconhecer o legitimo direito dos povos originários à restituição das suas terras usurpadas e à sua autonomia social e política”. Cientistas sociais e acadêmicos de quatro universidades do sul do Chile afirmaram que “uma situação histórica tão complexa não pode ser resolvida através do uso de instrumentos jurídicos, como a lei antiterrorista, que não são adequados nem para a sociedade chilena nem para as demandas dos povos indígenas”. Em Santiago criou-se uma Frente Ampla de Apoio à greve composta de intelectuais, estudantes e artistas. Na frente das diversas prisões, os familiares dos grevistas levantaram acampamentos onde realizam orações.

Isso, tendo em vista que o Presidente se recusou ao diálogo, apesar do pedido formal da Conferência Episcopal dos Bispos Católicos e da Igreja Evangélica no Te Deum de 11 de setembro, feito na sua presença, e rejeitado também a proposta do presidente do Senado, até o inicio da semana das comemorações das festas pátrias. Além disso, onze familiares dos presos foram detidos por desordem em incidentes ocorridos em 11 de setembro no Hospital Regional de Concepción. A Sra. Emilia Pilquimán, mãe dos irmãos Llanquileo em greve de fome, atingida na cabeça pelos carabineiros, resultou com ferimentos de gravidade média. Os detidos, incluindo os porta-vozes, presos na rua, foram formalizados e liberados. Natividad Llanquileo, porta-voz dos presos de Concepción, informou que dois dos grevistas transferidos para o hospital para a realização de exames, retornarão para a prisão de El Manzano após uma avaliação positiva dos seus estados de saúde.


Não aos agentes encobertos

Desde a prisão de Temuco, os 13 grevistas, em declaração pública, rejeitaram o projeto que seria votado no Congresso, em resposta à “pressão da direita econômica para fortalecimento do Estado policial contra os movimentos sociais, especialmente com o movimento Mapuche”. Eles acreditam que as propostas de manter as testemunhas sem rosto e incorporar a figura do “agente encoberto” legalizarão a infiltração nas comunidades Mapuches e suas organizações. Enfatizam que o conceito de incêndio terrorista permanece. Acrescentam que “qualquer ação feita no âmbito da nossa luta é descrita como terrorista, assim, a nossa greve de fome também deveria sê-lo, pois, segundo o artigo 1º desta Lei, seria ‘um delito cometido para obter resoluções da autoridade e de lhe impor exigências”.

Rodrigo Curipan, porta-voz dos dez grevistas da prisão de Angol, disse: “Estamos decepcionados porque nós colocamos a questão da lei antiterrorista e, mesmo assim, o governo pretende alterar a lei e, mais uma vez, não podemos opinar nada. Para nós, ninguém comunicou formalmente quais são as mudanças que seriam feitas”.

Parentes dos prisioneiros políticos de Concepción declararam que “o governo tem desviado a atenção das demandas centrais da greve de fome: a não aplicação da lei antiterrorista e a justiça militar” e repudiaram a decisão da Corte de Apelações de Concepción.

Tribunal de Justiça contra o devido processo

Completados mais de dois meses de greve, os processos judiciais se encontram postergados, já que em Temuco, o ativista Pedro Cheuque desmaiou em plena audiência e teve de ser hospitalizado. O Tribunal de Apelações de Concepción, por outro lado, na sexta-feira 10, dissipou as esperanças de um sinal positivo. Em decisão unânime, reintegrado 36 testemunhas protegidas retiradas do processo em Cañete, revertendo a decisão do juiz John Landeros em favor do devido processo. A decisão dos ministros Eliseo Araya e Freddy Vásquez e a advogado integrante Gabriela Lanata, apenas cautela a segurança das testemunhas protegidas ignorando os direitos dos acusados. A prática do uso de tortura para recrutar testemunhas não comoveu este tribunal.

Testemunha fabricada na ponte Lanalhue

Os fatos de tortura, em que um menor foi pendurado de uma ponte, para forçá-lo a depor, foram denunciados à Corte de Apelações de Concepción pelos advogados de defesa dos Mapuches na alegação de apoio à exclusão de 36 testemunhas protegidas. Punto Final teve acesso à declaração juramentada da testemunha protegida, o menor Rodrigo Viluñir Calbul, realizada em 19 de fevereiro de 2010 perante Marcel Mathieu Pommiez, tabelião conservador de Cañete. Ele relata que após ter sido pendurado na ponte Lanalhue e ameaçado de morte, assinou sem ler uma declaração redigida pela polícia. Rodrigo tinha 17 anos naquela época, por isso, seu pai, que morreu mais tarde, acompanhou-o quando ele foi preso e levado para assinar.

Ele e seu irmão, Jose Viluñir Cabul, figuram como testemunhas protegidas no processo contra Eduardo César Painemil Peña (27 anos), da região de Huentelolén, Cañete. Painemil é um dos três mapuches em greve de fome na prisão de Lebu, acusado de provocar três incêncios “terrorista” e de associação ilícita “terrorista”. O Ministério Público pede mais de 20 anos de cadeia para ele. Viluñir implicou também aos ativistas Marco Millanao, em greve de fome em Temuco (condenado a 70 anos de cadeia); e a Juan Carlos Millanao e Simon Millas.

No seu depoimento juramentado, Rodrigo Viluñir assinala que os fatos ocorreram ao meio-dia na estrada que liga Cañete a Tirúa, em maio de 2009. Foi detido e o colocaram em uma camionete vermelha, e seu pai em uma branca. Na ponte Lanalhue, “dois policiais me penduraram da ponte pelos braços, me apontaram uma escopeta e me diziam ‘fala a verdade ou vamos te matar filho da... Depois de estar pendurado por algum tempo, comecei a chorar e me levantaram. Mais uma vez apontaram a escopeta e me disseram para que falasse a verdade do que eu sabia e eu disse que não sabia de nada”.

Posteriormente, foi levado para a delegacia de Cañete, onde ele deu seu nome, e outra pessoa também o ameaçado. Ainda acrescentou: “Eu contestei que não sabia de nada e me dizeram 'inventa qualquer m... filho da...’”. Também lhe perguntaram se tinham armas. Cerca das nove horas da noite lhe entregaram um documento que assinou sem ler. Então, ele se juntou a seu pai e pegaram o último ônibus para Tirúa. Declarou que viu o fiscal Andrés Cruz duas vezes, a primeira vez quando “confirmei a primeira declaração sem ler e, a segunda, faz um mês, em Talcahuano”. O promotor disse que ele tinha que assinar porque se não o fizesse, iria para a cadeia e outros ficariam em liberdade.

A declaração juramentada conclui: "Conto isto para o conselho da minha comunidade Caupolicán porque quero que se saiba a verdade do que acontece e porque confio neles para fazer as coisas direito. Nessa ocasião, meu pai, Don José Viluñir Millapi, não me acompanha devido a que se encontra internado no hospital de Cañete em delicado estado de saúde. Junto com meu irmão, Jose, nos aproximamos da direção da comunidade voluntariamente”. Assinam a declaração: Patrício Cona Millanao, presidente da comunidade Caupolicán; David Claudio Santi, secretário; José Sebastián Santi Cona, Tesoureiro; e Agustin Santi Millapi, conselheiro.

A direção da Comunidade Caupolicán, também deu aval a uma declaração semelhante de José Abraham Viluñir Calbul, em Cañete, no mesmo cartório, em 19 de fevereiro de 2010. Relatos de que duas camionetes chegaram a sua casa depois da prisão de seu irmão para prestar depoimento em Cañete. “Diziam-me que Rodrigo já havia dito tudo, que estava na sala ao lado e que tinha que falar ou se não ficaria vinte na cadeia e a rapaziada seria libertada. Eu respondi que não tinha a menor ideia de nada. Assinei um papel, pedi para lê-lo e não o permitiram. Vi o procurador quando viajamos para Talcahuano, aproximadamente há um mês atrás, com meu irmão e meu pai. Naquele momento assinei uma ratificação e tampouco li o que dizia”.

Conclui a declaração afirmando que: “quero que me ajudem a sais disto e que se saiba a verdade”.

Um suicídio em Puerto Choque

Richard Ñegüey, o mais novo dos processados pela lei antiterrorista em Cañete, de 19 anos, enforcou-se no mês passado, somente após três dias da abertura do julgamento oral no qual era acusado, assim como seu pai. Permaneceu longos meses na cadeia de Lebu, em condições extremas de confinamento - sem direito a pátio e sem luz – mas estava livre através de medidas cautelares, quando cometeu suicídio. Seu caso faz parte das dramáticas consequências da lei antiterrorista na vida das comunidades.

A lei antiterrorismo permite utilizar como prova valida as declarações de testemunhas protegidas, cuja identidade é desconhecida para a defesa assim como seus depoimentos, somente revelados no início do julgamento, criando obstáculos ao processo. A greve de fome exige a não aplicação desta lei antiterrorista por delitos contra a propriedade, relacionados com a recuperação de terras ancestrais.

Enquanto a nossa imprensa faz campanha para Serra, Dilma (foto) e Lula são manchetes nos jornais no mundo

Abrindo o fim de semana, nas manchetes da agência de notícias AP, "Denúncias não freiam apoio a Dilma", e da Reuters, "Rousseff amplia liderança ". Do argentino "Clarín", "Ofensiva de denúncias não reduz frente de Rousseff", e do "Financial Times", "Escândalo fracassa em atingir Dilma". Fechando, da AFP, "Lula contra-ataca reportagens contra escolhida", e do espanhol "ABC", "Lula fica furioso com a imprensa". Do argentino "La Nación", "Lula acusa mídia de apoiar Serra", e do paraguaio "ABC Color", "Lula arremete contra imprensa paulista".


A "Economist" postou que os "brasileiros estão acostumados a tráfico de influência, uma marca do jornalismo", pela frequência. E o "FT" deu que um efeito maior sobre Dilma "depende do que a 'Veja' publicar.

O estatal "China Daily" citou analistas para os quais "já não é difícil prever" o resultado e perfilou Dilma, começando pela ascendência búlgara. O britânico "Telegraph" também perfilou, sob o título "A ex-guerrilheira que está perto de se tornar a primeira mulher presidente do Brasil". No australiano "The Age", "Ex-guerrilheira lidera". Até no equatoriano "El Comercio", "Dilma Rousseff, delfim que esqueceu seu passado subversivo". E a Bloomberg noticiou que o venezuelano "Hugo Chávez diz que quer seguir os passos de Lula e eleger uma herdeira mulher".

De Chicago

Do bilionário Sam Zell à Fox Business, sobre aplicar no Brasil, em habitação para baixa renda: "Meu lugar favorito para investir no mundo é o Brasil"

Na BBC Brasil, "Maioria dos EUA apoia independência brasileira no exterior, diz pesquisa" do Chicago Council on Global Affairs.

Fonte: blog dos amigos do presidente Lula

sábado, 18 de setembro de 2010

Balanço da campanha na sua reta final

Por Emir Sader. (f0t0)

Com todas suas turbulências – naturais, conhecendo o que tem sido o desespero da oposição, que tem na velha imprensa seu peso essencial -, a campanha presidencial deste ano não poderia ter sido, até aqui, mais racional, normal, até onde pode esperar racionalidade de um processo como esses.

Está triunfando, de maneira avassaladora, a candidata de um governo que tem um apoio extraordinário da população. Lula tinha anunciado que seria a campanha mais fácil, porque seria possível mostrar as realizações do governo, ao final de um ciclo de 8 anos, que conta com uma popularidade que nunca havia sido obtida ao final do mandato.

Essa previsão se revelou correta. A liderança do Serra ao longo de tantos meses se assentava no conhecimento do seu nome, que contrastava com a decisão dos mesmos que optavam por seu nome, pela vontade de votar no candidato do Lula. Isto levou o Serra a tentar, em um primeiro momento, a tentar passar a imagem do melhor continuador do governo Lula – espelhada no seu lema inicial, de que “pode mais” e na utilização da imagem do Lula, elogiosamente, no seu programa eleitoral -, até que se deu conta que o mecanismo esperado passava a se realizar inexoravelmente: esses votos eram transferidos para Dilma, conforme ela foi aparecendo como a candidata de continuação do governo, para o qual ela tinha sido coordenadora essencial.

O começo da campanha de televisão e a multiplicação dos comícios pelo Brasil afora foram o elemento de consolidação de uma vantagem que nas pesquisas passou a ser maior do que 20%, se aproximando dos 30%, o que provocou crise de identidade, desconcerto e paralização da campanha opositora. Nesse vazio se projetaram as tendências que pregavam uma radicalização da campanha, como único espaço que restava ao candidato opositor.

Passou-se à fase atual, com um contraponto claro entre campanha de balanço de um governo de sucesso, com projeção da sua continuidade para o futuro, e ausência de algo similar nem sequer onde Serra e os tucanos governaram por mais de 10 anos – São Paulo. As denúncias, com a esperança de que o fenômeno da passagem ao segundo turno na campanha de 2006 pudesse resgatar a queda nas pesquisas e brecar o avanço da Dilma.

O denuncismo foi a tônica opositora, levando a imprensa brasileira a um dos piores momentos da sua história – ainda superada pelo apoio unânime dos órgãos atuais ao golpe militar e à ditadura que se instaurou em 1964. Atuou de forma coerente com a declaração da executiva da FSP de que, dada a fraqueza dos partidos opositores, a velha mídia era o verdadeiro partido da oposição.

Se valem de tudo – de indícios reais a provas forjadas, de declarações de fontes sem nenhuma credibilidade a mentiras – no desespero, protagonizando a campanha eleitoral no lugar do candidato opositor, dilapidando o resto de credibilidade que lhe restava. (Falar e escrever todo o tempo contra o governo e obter apenas 4% de rejeição do governo demonstra a que nível de falta de credibilidade chegaram).

Apesar de todos os escândalos forjados pelo denuncismo, Dilma se encaminha para ganhar no primeiro turno, impondo uma derrota de proporções à direita. Derrota, em primeiro lugar, da velha imprensa. Em segundo lugar, dos tucanos paulistas. Em terceiro, do DEM. Vitória, em primeiro lugar, do governo Lula, do Lula e da Dilma. Em segundo, do conjunto do campo popular – partidos, movimentos, imprensa alternativa (bloqueiros progressistas incluídos) – e do povo, que constroem uma nova maioria progressista no país.

Pode haver ainda novas atitudes da velha imprensa nestas duas semanas. Não se excluir a exploração de algum parente de vitima militar de alguma ação da resistência armada à ditadura, tentando vinculá-la à Dilma. Ela nunca participou de ações, menos ainda que tivessem vítimas do lado da ditadura. Mas como é um vale tudo, pode-se considerar a possibilidade do apelo a esse tipo de manipulação.

Da mesma forma que, no limite poderiam apelar para algum auto-atentado, algum atentado forjado por eles mesmos, para tentar transformar o candidato da oposição ou algum órgão da imprensa em vítima de suposta violência.

Não creio que nada disso possa alterar o resultado eleitoral, pelas razões de fundo que levam ao voto pela Dilma e pela proporção de votos decididos firmemente. Mas se deve ter manter todos os sinais de alerta, porque historicamente nunca as elites cederam seus privilégios sem apelar para todos os instrumentos de que dispõem.

Esse o quadro, em linhas gerais, da campanha que deve fazer com que, pela primeira vez na história deste país, um governo – teria que ser de caráter popular – conclua seu mandato de 8 anos com um extraordinário apoio e eleja seu sucessor. Para comemorar mais: uma mulher, de formidável competência e de trajetória exemplar.

Estamos a pouco tempo de um momento histórico único no Brasil. Que estejamos todos à altura desse momento e do período novo que se abre na história do país.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Duas guerras: a de Afeganistão e a da Colômbia.

Fonte: ANNCOL

Durante os últimos anos escutamos até o cansaço, a mídia desinformadora ao serviço do ganster governo narcoparamilitar de Uribe Vélez, dizer ao melhor estilo de Joseph Goebbels que a 'segurança democrática' liquidou a insurgência colombiana.

Como vulgares puxa-sacos do império tem exclamado sem parar: "A guerrilha está escondida na selva, está fugindo". “Estão comendo raízes". Fugindo sem rumo e desmoralizada". "As Frentes não têm comunicação com seus chefes". "Atacam desde o outro lado da fronteira". (risos e mais risos se escutavam diariamente no fundo das audições).

Ante iminente trunfo das forças oficiais o único que fica para a guerrilha é se render incondicionalmente.

Vã ilusão!

Examinando as cifras oficiais encontramos outra realidade.

Se compararmos o conflito colombiano com a guerra de invasão de EUA e seus aliados no Afeganistão, os dados concretos revelam que as baixas militares sofridas pela 'segurança democrática' na Colômbia, no confronto armado, durante esses oito anos, são o dobro das sofridas pelos EUA, a ISAF e outras variantes paramilitares nessa invasão, apoiada por Uribe e, para a qual ofereceu seus paramilitares para que fossem a matar afeganos.

Cifras oficiais:

País: Colômbia.
Fonte: Forças Militares.
Período: 2002 - 2010
"Segurança democrática" = "Terrorismo de Estado"

01. Soldados, policiais e agentes do DAS mortos no confronto: 4.752

02. Soldados, policiais e agentes do DAS feridos: 15.184. Destes, muitos ficam viciados em drogas, com transtornos mentais ou mutilados.

Total de baixas: 19.936

País: Afeganistão

Fonte: icasualties.org
Período: 2001-2010
"Guerra de invasão liderada pelos EUA."

01. Baixas mortais invasoras: 2.071

02. Militares invasores feridos: 7.266
Muitos deles ficam desempregados, mutilados, dependentes de drogas, desequilibrados.

Total de baixas: 9.337

Na Colômbia, as cifras deixam em evidência que o governo da 'moto-serra' e a grande mídia ocultaram sempre o fracasso da política imperial em seu propósito de exterminar a insurgência e o movimento popular.

A luta dos povos pela liberdade, a soberania nacional, a democracia, a paz com justiça social, NUNCA poderá ser silenciada e, muito menos, vencida pelos opressores.

A Nova Colômbia avança pelos campos e cidades, impregnada de povo, que enxerga já um novo amanhecer de liberdade para esse país.

Campanha eleitoral no Brasil

Baixarias fracassam: Dilma sobe e amplia vantagem no Datafolha


Pesquisa Datafolha feita entre os dias 13 e 15 (portanto pegou o bombardeio da campanha para o Zé Baixaria feita no noticiário da Globo, Estadão, Folha e Veja) mostra que Dilma ampliou a vantagem para 24 pontos:

Dilma: 51% (subiu 1 ponto em relação à semana passada)
Serra: 27% (empacado)
Marina: 11% (também na mesma)

Fonte: blog os amigos do presidente Lula

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

México e Colômbia: colônias norte-americanas

Autor: Laerte Braga*
Fonte: Opera Mundi

O NAFTA (North American Free Trade Agreement, ou Acordo de Livre Comércio Norte-Americano) é um tratado de livre comércio assinado entre os Estados Unidos, o Canadá e o México, tendo o Chile como país associado.

Quem prestar atenção à safra de filmes produzidos por Hollywood no pós 11 de Setembro vai perceber, sem muitas dificuldades, que norte-americanos transformaram o caráter espetáculo do famoso subúrbio de Los Angeles em ponta-de-lança do combate midiático aos adversários do império.

Foi por esse motivo e debaixo de forte pressão de senadores republicanos e grupos sionistas que Guerra ao Terror venceu Avatar como melhor filme no Oscar de 2009. Segundo John McCain, derrotado por Obama nas eleições de 2008 e um dos principais líderes da extrema-direita nos EUA, Avatar “é um filme com nítidas tendências comunistas, fala em igualdade”.

A descoberta de um túmulo coletivo no México com corpos de cidadãos latino-americanos – quatro brasileiros inclusive – exibe o real objetivo do NAFTA. Aos EUA e ao Canadá tudo; ao México, o lixo.

Injustiças

Mexicanos e latinos são caçados na fronteira México-EUA tanto por forças policiais como por milícias de norte-americanos indignados com a crescente presença de latinos em seu país. Segundo um morador de Atlanta, “eles são sujos, emporcalham as cidades e trazem o desemprego”. A Califórnia, o Texas, o Novo México e partes do estado do Arizona foram conquistadas do México pelos EUA. Entre 1824 e 1854, os mexicanos foram obrigados a ceder a maior parte de seu território aos EUA.

Na chamada Guerra dos Mil Dias entre liberais e conservadores na Colômbia, no período de 1899 a 1903, com morte de cerca de 120 mil pessoas, os EUA e a França incentivaram e financiaram “rebeldes” na província colombiana do Panamá para buscar a independência e formar um novo país. Foi o que aconteceu: o projeto era o canal do Panamá.

Uma cidade mexicana que negou licença a uma empresa norte-americana para a construção de um aterro de lixo nuclear foi processada numa corte de Nova York, condenada a pesada multa e a aceitar a presença do aterro e do lixo, tudo nos termos do NAFTA.

Uma das maiores empresas dos EUA na área da suinocultura, a Granjas Carrol, foi expulsa de vários estados em seu país por crimes ambientais e, beneficiada pelo NAFTA, instalou-se numa cidade mexicana. Surgiu ali o vírus da gripe suína, pela contaminação da água das fontes que cortam a cidade e seu entorno.

Mea culpa

Nem o governo mexicano e nem os governos departamentais ou de municípios têm como enfrentar o problema: o de o México ter sido transformado em colônia dos EUA, com direito a servir de depósito de lixo e empresas como as Granjas Carrol.

Uma das séries de tevê mais assistidas nos EUA, Law and Order, exibiu um capítulo em que um cidadão hondurenho é vítima da fúria fascista de jovens norte-americanos e termina morto. Numa espécie de mea culpa, no episódio, o júri é criticado por falta de isenção para julgar crimes cometidos contra latinos residentes nos EUA, mesmo que ilegais.

De um modo geral cidadãos latino-americanos, considerados de segunda classe pelos norte-americanos, fazem os chamados serviços domésticos em residências de gente como John McCain, ainda que sem os “papéis” e sob o risco constante de deportação. Não ocorre o mesmo em relação a norte-americanos ou canadenses no México, na Colômbia e no Chile.

O governo do presidente Felipe Calderón, México, foi eleito sob acusações comprovadas de fraude eleitoral. Seu adversário ameaçava romper o tratado de livre comércio com os EUA. Álvaro Uribe, ex-presidente da Colômbia, foi acusado pelo Departamento Anti-Drogas dos EUA de ter sido eleito pelo tráfico, de ser complacente com o tráfico e beneficiário do tráfico de drogas. Mas é amigo.

Dilema

Os EUA têm o absoluto controle tanto do México quanto da Colômbia, reduzidos ao papel de colônia. O Panamá permanece sendo um protetorado norte-americano a despeito dos muitos tratados para a retirada do controle sobre aquele país, nenhum cumprido integralmente. O canal do Panamá é considerado estratégico para interesses comerciais e militares dos EUA.

O dilema da América Latina é esse: ou se resigna a ser o que se costumava falar nas décadas de 50 e 60 do século passado, América Latrina, ou se integra sem qualquer tipo de interferência ou participação dos EUA e ganha perspectivas de tornar-se um bloco político e econômico que permita aos latino-americanos preservar a independência e a soberania de seus países.

Por isso, Chávez é inimigo. Evo Morales é inimigo. Daniel Ortega é inimigo. Outros são inimigos em menor escala. E Uribe e Pepe Lobo são amigos. O tráfico aí é irrelevante para o “processo democrático”.

Continência

O Brasil é chave nesse processo. A perspectiva de uma realidade capitalista à brasileira, como define Ivan Pinheiro (candidato do Partido Comunista Brasileiro a presidente da República) aterroriza os EUA. É um país de dimensões continentais. Tem todas as condições para se transformar numa potência mundial – já se faz sentir assim nesses oito anos de governo Lula – e abre perspectivas para um processo de transformações mais amplo que o que está em curso em países como a Venezuela, a Bolívia, a Nicarágua, o Equador e Cuba, consolidando a revolução pós-Fidel.

Foi nesse sentido, como alerta, que os EUA patrocinaram o golpe militar que transformou Honduras num grande campo de concentração. A média de pessoas assassinadas naquele país por forças militares e policiais no arremedo de democracia do governo Pepe Lobo é de duas por dia. É por aí que a extrema-direita em todos os países latino-americanos busca formas de retomar posições perdidas e “recolocar” a América Latina na condição de América Latrina. O fantasma dos golpes militares não está descartado a médio e longo prazos, dependendo da forma como o processo evoluir. A realidade dos EUA hoje mostra que a reeleição de Obama é incerta.

E mesmo governos democratas, tidos como liberais, nunca foram obstáculos a golpes nessa parte do mundo. A derrubada de João Goulart, no Brasil, em 1964, foi orquestrada no governo democrata de Lyndon Johnson, por um embaixador integrante do partido Democrata e um general que falava português fluentemente e serviu a Kennedy, a Johnson e a Nixon.

Para que todo o planeta bata continência a Washington, adote o hambúrguer como prato do cotidiano e tenha como sonho tirar uma foto com o imenso letreiro Hollywood ao fundo, falta ainda a América Latina. Boa parte da Europa (Reino Unido, Alemanha e Itália principalmente) já vai ganhando contornos de colônia. Por aqui, as colônias neste momento são México e Colômbia. Honduras é base exportadora de terrorismo de Estado.

*Laerte Braga é jornalista brasileiro.

Carta do Padre Javier Giraldo ao Padre John Dear sobre o convite ao ex-presidente Uribe para ser catedrático da Georgetown University

6 de setembro de 2010

Prezado John:

Recebe um fraternal e carinhoso abraço.

Escrevo muito preocupado pelo fato de que na nossa universidade jesuíta de Georgetown tenham vinculado como docente ao ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vélez. Não termino de receber mensagens de pessoas e grupos que sofreram enormemente durante seu governo, que reclamam e questionam a atitude da nossa Companhia ou a sua falta de discernimento ético ao tomar esse tipo de decisão.

É possível que a direção de Georgetown tenha recebido opiniões positivas de colombianos de altas posições econômicas ou políticas, mas é difícil que ignorem ao menos as profundas controvérsias éticas que levantou seu governo e os questionamentos e sanções que recebeu de muitos organismos internacionais que tratam de proteger a dignidade humana. O simples fato de que durante sua carreira política, desde quando era Governador do Departamento de Antioquia (1995-1997) tivesse fundado e protegido tantos grupos paramilitares, chamados eufemisticamente de “Convivir”, que assassinaram e desapareceram a milhares de pessoas e deslocaram multidões cometendo muitas outras atrocidades, implica em uma exigência de censura ética para encomendar-lhe qualquer responsabilidade no futuro. Mas não somente continuou patrocinando esses grupos paramilitares, mas os manteve e os complementou com um novo modelo de paramilitarismo legalizado, como são as redes de informantes, as redes de cooperantes e o novo tipo de empresas de segurança privada que envolve vários milhões de civis em atividades militares relacionadas com o conflito armado interno, enquanto mentia à comunidade internacional com uma falsa desativação dos paramilitares.

Além disso, foi escandalosa durante seu governo a prática dos “falsos positivos” consistente em assassinar civis, principalmente camponeses, e depois de mortos vestirem-los de combatentes para justificar a sua morte. Com isso pretendia mostrar falsas vitórias militares sobre os rebeldes e eliminar aos ativistas dos movimentos sociais que lutam pela justiça.

A corrupção durante seu governo foi mais do que escandalosa, não só pela presença de narcotraficantes nos cargos públicos, mas porque o Congresso e muitos cargos de governo foram ocupados por delinquentes. Hoje há mais de cem congressistas envolvidos em processos criminais, todos eles do entorno eleitoral mais próximo do ex-presidente Uribe.
Foi escandalosa a compra de consciências para manipular os aparatos de justiça, o que terminou destruindo, em níveis muito profundos, a consciência moral do país. Também foi escandalosa a corrupção com que seus ministros mais próximos manejaram a política agrária para favorecer os mais ricos com os dinheiros públicos, enquanto impedia e estigmatizava os projetos sociais. A corrupção dos seus filhos, para se enriquecer às custas das vantagens de poder, escandalizou em seu momento a toda a nação. Também utilizou o organismo de segurança que estava diretamente sob seu controle (Departamento Administrativo de Segurança) para espionar mediante controles telefônicos clandestinos, às Cortes de Justiça, aos políticos da oposição, aos movimentos sociais e de direitos humanos.

Foram extremamente escandalosos os mecanismos corruptos dos quais se utilizou para conseguir a sua reeleição à Presidência em 2006, o que têm levado a ministros e colaboradores próximos ad-portas da cadeia. O manejo que fez de coordenação entre o Exército e os grupos paramilitares levou a que durante seu período houvesse 14.000 execuções extrajudiciais. Suas estratégias de impunidade para quem desde o Estado ou o Para-estado perpetraram crimes de lesa humanidade, passarão à historia por seu atrevimento.

A decisão dos jesuítas de Georgetown de oferecer uma cátedra a Álvaro Uribe, não só ofende profundamente aos colombianos que ainda conservam princípios éticos, mas põe em alto risco a formação ética dos jovens que frequentam a nossa universidade em Washington. Onde fica a ética da Companhia de Jesús?

Escrevo estas linhas porque estou certo que compartilhas nossas preocupações e talvez possa fazê-las chegar aos jesuítas de Georgetown e a outros círculos de opinião do teu entorno de simpatizantes pela justiça.

Recebe um forte abraço.

Javier Giraldo Moreno, S. J.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Brasil ajuda a desenhar um novo mapa do mundo

Uma boa política externa exige prudência. Mas também exige ousadia. Não pode basear-se na timidez ou no complexo de inferioridade. É comum escutar que os países devem atuar de acordo com os seus meios, o que é quase uma obviedade. Mas o maior erro é subestimá-los. Ao longo destes quase oito anos, o Brasil atuou com ousadia e, assim como fizeram outros países em desenvolvimento, mudou seu lugar no mundo. Esses países são vistos hoje, inclusive pelos eventuais críticos, como atores que estão recebendo crescentes responsabilidades e um papel cada vez mais central nas decisões que afetam os destinos do planeta. O artigo é de Celso Amorim.

Celso Amorim (*)

Há sete anos, quando se falava da necessidade de mudanças na geografia econômica mundial ou se dizia que o Brasil e outros países deveriam desempenhar um papel mais relevante na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou integrar-se de modo permanente ao Conselho de Segurança na ONU, muitos reagiam com ceticismo. Desde então, o mundo e o Brasil mudaram numa velocidade acelerada e algumas supostas “verdades” do passado vão se rendendo ante a evidência dos fatos. As diferenças no ritmo de seu crescimento econômico em relação aos países desenvolvidos converteram os países em desenvolvimento em atores centrais da economia mundial.

A maior capacidade de articulação Sul-Sul – na OMC, no FMI, na ONU e em novas coalizões como o BRIC – eleva a voz de países que antes estavam relegados a uma posição secundária. Quando mais os países em desenvolvimento conversam e cooperam entre si, mais eles são escutados pelos ricos. A recente crise financeira mostrou de maneira ainda mais evidente o fato de que o mundo já não pode ser governado por um consórcio de alguns poucos países.

O Brasil vem tentando de forma ousada desempenhar seu papel neste novo cenário. Após sete anos e meio de governo do presidente Lula, a visão que se tem do país no exterior é outra. É inegável o peso cada vez maior que o Brasil, assim como um novo grupo de países, tem hoje na discussão dos principais temas da agenda internacional, como mudança climática, comércio internacional, finanças, paz e segurança mundial. Esses países trazem uma nova forma de enxergar os problemas do mundo e contribuem para um novo equilíbrio internacional.

No caso do Brasil, essa mudança de percepção deveu-se, em primeiro lugar, à transformação da realidade econômica, social e política do país. Avanços nas mais diversas áreas, desde o equilíbrio macroeconômico até o resgate da dívida social, fizeram do Brasil um país mais estável e menos injusto. As qualidades pessoais e o compromisso direto do presidente Lula em temas internacionais colaboraram para levar a contribuição brasileira aos principais debates internacionais.

O Brasil está desenvolvendo uma política externa abrangente e protagonista. Buscamos construir coalizões que vão mais além das alianças e relações tradicionais, as quais tratamos, por outro lado, de manter e aprofundar, como a formalização da Relação Estratégica com a União Européia e do Diálogo Global com os Estados Unidos.

O eloqüente crescimento de nossas exportações para os países em desenvolvimento e criação de mecanismos de diálogo e concertação, como a Unasul, o G-20 na OMC, o Fórum IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e o grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) são expressões dessa política externa universalista e livre de visões pequenas do que pode e deve ser a atuação de um país com as características do Brasil.

A base dessa nova política externa foi o aprofundamento da integração sulamericana. Um dos principais ativos de que o Brasil dispõe hoje no cenário internacional é a convivência harmoniosa com seus vizinhos, começando pela intensa relação que mantemos com a Argentina. O governo do presidente Lula empenhou-se, desde o primeiro dia, em integrar o continente sulamericano por meio do comércio, da infraestrutura e do diálogo político.

O Acordo Mercosul-Comunidade Andina criou, na prática, uma zona de livre comércio que envolve toda a América do Sul. A integração física do continente avançou de uma forma notável, incluindo aí a conexão entre o Atlântico e o Pacífico. Nossos esforços para a criação de uma comunidade sulamericana levaram à fundação de uma nova entidade: a União das Nações Sulamericanas (Unasul).

Apoiado nas bases de uma América do Sul mais integrada, o Brasil contribuiu para a criação de mecanismos de diálogo e cooperação com países de outras regiões, fundados na percepção de que a realidade internacional já não permite a marginalização do mundo em desenvolvimento. A formação do G-20 da OMC, na Reunião Ministerial de Cancun, de 2003, marcou a maturidade dos países do Sul, mudando de forma definitiva o modelo de tomada de decisão nas negociações comerciais.

O IBAS responde aos anseios de concertação entre três grandes democracias multiétnicas e multiculturais, que tem muito a dizer ao mundo em termos de afirmação da tolerância e de conciliação entre o desenvolvimento e a democracia. Além da concertação política e da cooperação entre os três países, o IBAS se converteu em um modelo para os projetos em favor de nações mais pobres, demonstrando, na prática, que a solidariedade não é um atributo exclusivo dos ricos.

Também lançamos as cúpulas dos países sulamericanos com os países africanos (ASA) e com os países árabes (ASPA). Construímos pontes e políticas entre regiões até então distantes umas das outras, a despeito de suas complementaridades naturais. Essa aproximação política resultou em notáveis avanços nas relações econômicas. O comércio do Brasil com os países árabes quadruplicou em sete anos. Com a África, se multiplicou por cinco e chegou a mais de 26 bilhões de dólares, cifra superior a do comércio com sócios tradicionais como Alemanha e Japão.

Essas novas coalizões ajudaram a mudar o mundo. No campo econômico, a substituição do G-7 pelo G-20 como principal instância de deliberação sobre os rumos da produção e das finanças internacionais é o reconhecimento de que as decisões sobre a economia mundial careciam de legitimidade e eficácia sem a participação dos países ditos emergentes.

Também no terreno da segurança internacional, quando Brasil e Turquia convenceram o Irã a assumir os compromissos previstos na Declaração de Teerã, ficou demonstrado que novas visões e formas de atuar são necessárias para lidar com temas tratados até então exclusivamente pelos atuais membros do Conselho de Segurança da ONU. Apesar das resistências iniciais a uma iniciativa de uma nação que não pertence ao clube fechado das potências nucleares, estamos seguros de que a direção do diálogo ali assinalada servirá de base para as futuras negociações e para a eventual solução da questão.

Uma boa política externa exige prudência. Mas também exige ousadia. Não pode basear-se na timidez ou no complexo de inferioridade. É comum escutar que os países devem atuar de acordo com os seus meios, o que é quase uma obviedade. Mas o maior erro é subestimá-los.

Ao longo destes quase oito anos, o Brasil atuou com ousadia e, assim como fizeram outros países em desenvolvimento, mudou seu lugar no mundo. Esses países são vistos hoje, inclusive pelos eventuais críticos, como atores que estão recebendo crescentes responsabilidades e um papel cada vez mais central nas decisões que afetam os destinos do planeta.

(*) Celso Amorim é ministro de Relações Exteriores do Brasil. Artigo publicado originalmente no jornal El País (Espanha).




segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Stédile: 90% dos movimentos sociais estão com Dilma

João Pedro Stédile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) está otimista. Depois da derrota eleitoral de Lula, em 1989, ele acredita que os movimentos sociais brasileiros enfrentaram um longo período de hibernação.

Na noite desta quarta-feira João Pedro nos recebeu no casarão que é sede do MST em São Paulo, uma propriedade que foi comprada com dinheiro arrecadado pelo fotógrafo Sebastião Salgado em uma exposição internacional de fotos do movimento. Ele agora está de olho em um galpão industrial do bairro, que gostaria de transformar em um centro cultural. O MST faz muitos outros planos: a produção de arroz e suco de uva orgânicos para servir na merenda escolar, um projeto para a alfabetização de adultos e a formação universitária dos sem terra estão entre eles (o movimento já “formou” dez doutores).

Leia abaixo a entrevista que o líder dos sem-terra concedeu ao jornalista Luiz Carlos Azenha, que edita o blog Viomundo:

Viomundo: Bom, vamos lá começar então perguntando sobre a conjuntura política. Eu li o seu artigo sobre a necessidade dos movimentos sociais apoiarem a candidatura da Dilma. Por que essa sua posição?

Stédile: A maioria dos movimentos não fez um debate explícito sobre quem apoiar para preservar uma certa autonomia, ou seja, como não somos partidos políticos — e mesmo o movimento sindical, mesmo a UNE na sua plenária ela definiu contra o Serra, mas sem indicação de voto — porque a rigor a nossa base deve votar de acordo com a sua consciência, aqui não é um comitê central que decide vota em fulano e todo mundo baixa a cabeça. A natureza do movimento social é muito mais ampla. No entanto, eu acho que se criou um ambiente político no Brasil nos últimos meses que levou a que 90% dos movimentos sociais arregaçassem as mangas e trabalhassem contra o Serra e a favor da Dilma, na perspectiva de que num governo Dilma vai ter uma correlação de forças mais propícia para fazer a luta social e para apresentar propostas de mudanças estruturais, que é o que a sociedade brasileira precisa.

Viomundo: Que propostas você acredita sejam as mais importantes?

Stédile: Há nos vários campos. Por exemplo, na política econômica. Não basta seguir mais quatro anos do mesmo. Nós precisamos enfrentar radicalmente o problema do superavit primário. Nenhum país do mundo — dos países grandes, de economias grandes — pratica superavit primário, só Brasil e Argentina. Por que manter essa política que na verdade é um processo de apropriação da poupança nacional, que é recolhida na forma de impostos de todo mundo, de forma compulsória, vai para a Receita Federal e a Receita Federal separa 26% para pagar juro? Eu espero que o governo inclusive tenha aprendido com a crise do ano passado, porque o que salvou o Brasil de um efeito mais grave na economia foi que o Lula sabiamente tirou 100 bilhões do superavit primário e botou no BNDES e esses 100 bilhões foi que garantiu o crescimento econômico, ou seja, ele foi direcionado para investimentos produtivos.

Bem, o tema dos juros — é um absurdo a taxa de juros atual, não só a Selic, que é [a taxa] que o governo paga, mas sobretudo o que as pessoas e empresas pagam. Cartão de crédito no Brasil, que é o que financia o consumo da classe média, com taxa de juro de 190% ao ano, mas nem na crise de 19 no período do Hitler, que justificou a ditadura dele, havia uma taxa de juro tão alta, real, isso tem que mudar.

Tem que mudar a jornada de trabalho. Na conjuntura anterior nós não tivemos força para emplacar 40 horas. Eu acho que agora nós vamos ter unidade de todas as centrais, dos movimentos sociais para fazer um movimento mais vigoroso e emplacar a jornada de trabalho. Então, você veja, só esses três aspectos na política econômica, isso altera a correlação de forças na sociedade. Isso significaria mais distribuição de renda para os trabalhadores, melhores condições para os que produzem a riqueza.

Hoje, no entanto, ele acredita que estejam novamente em ascensão. Identifica no apoio da maior parte deles a Dilma Rousseff uma unidade que há muito não via, a ponto da candidata reunir em torno dela apoios que nem mesmo Lula conseguiu, em 2002 e 2006.

Bem, na agricultura nós temos vários pontos que são fundamentais para mudar. Desde acelerar a reforma agrária, porque nós não temos reforma agrária atualmente, nós temos uma política de assentamentos que é mais direcionada a resolver problemas sociais. Então, quando tem um conflito em determinada região, o governo vai lá, desapropria uma fazenda e desanuvia. Mas isso não é reforma agrária, reforma agrária é quando tem uma política propositiva que o governo se antecipa para garantir que todos os que querem trabalhar na terra tenham acesso à terra. Para isso ele tem de tomar iniciativa e desapropriar os maiores latifúndios. Só assim vai haver uma desconcentração da propriedade. O dado do Censo de 2006 revelou que a concentração atual da propriedade da terra é maior do que em 1920. Na semana passada o presidente do Incra teve a lucidez de revelar um dado que não está publicado ainda nos cadastros do Incra, de que há uma avalanche de empresas brasileiras indo aplicar o seu dinheiro, se proteger em patrimônio-terra. E hoje há 177 milhões de ha em propriedades de capitalistas que moram na cidade, de empresários, ou seja, são empresas industriais, bancos, que são donos de terra, que a rigor não é o seu meio de produção.

Também nós temos no problema da terra o tema do modelo do agronegócio, que ele é insustentável a longo prazo, porque o agronegócio ele só consegue produzir com mecanização intensiva e isso expulsa a mão-de-obra. Há dez anos havia 6 milhões de assalariados agrícolas no Brasil. Hoje, se reduziram a 1,6 milhão. E com o uso intensivo de agrotóxicos. E o veneno, por ser de origem química, não é biodegradável. Ele acaba com o solo, contamina a água ou, pior ainda, fica nos alimentos e vai se transformar em câncer.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Uribe foi mais um que tentou acabar com a guerrilha...



Em sua primeira campanha, Uribe prometeu destruir a guerrilha em apenas seis meses. Apesar da morte de alguns dirigentes e quadros, particularmente em 2008, passaram-se dois mandatos presidenciais, ou seja, oito anos, e a insurgência continua com suas estruturas intactas, além de preservar a sua presença nacional, tal como foi assegurado pela Cruz Vermelha Internacional no seu relatório deste ano.

Por Hernando Calvo Ospina*, em Rebelión

Isso de acabar militarmente com as guerrilhas foi proposto por todos os presidentes desde 1964, data em que se tentou, pela primeira vez, vencer um reduto de 50 camponeses que pediam paz e terras.

Nessa ocasião, o presidente Guillermo León Valencia disse: “Muito antes do final do meu governo o país estará completamente pacificado. Essa é uma decisão que não vamos quebrar por nenhum motivo”(1).

Essa primeira tentativa ficou conhecida como Operação Marquetalia. Os EUA enviaram assessores, tropas trazidas do Vietnã e o armamento mais moderno; o Governo colombiano, por sua vez, lançou 16.000 soldados, sendo que boa parte era de veteranos de guerra na Coréia.

A oligarquia, lideranças católicas e a grande mídia, a cada dia expressavam a sua confiança e felicidade para acabar com esse “reduto do banditismo”( 2 ).

Este grupo de camponeses não foi derrotado. No meio desse combate desigual, no mesmo dia das festas nacionais, 20 de julho de 1964, proclamou-se o Programa Agrário Guerrilheiro. E o triunfalismo da oligarquia começou a declinar quando, em 7 de janeiro de 1965, um grupo de camponeses e intelectuais tomaram Simacota, no departamento de Santander, um pequeno povoado na outra extremidade do país, divulgando um comunicado em que se lia: “estamos na luta pela libertação nacional da Colômbia”.

Assim surgiu a guerrilha Exército de Libertação Nacional, ELN, que nos seus fundamentos ideológicos já misturava o marxismo e a Teologia da Libertação. O otimismo das elites começou a diminuir quando os camponeses de Marquetalia realizaram, no final de 1965, a Primeira Conferência Guerrilheira. E alguns meses depois, em abril, durante a Segunda Conferência Guerrilheira, fundaram as FARC.

Sem nunca ter atingido sequer um oitavo do objetivo estratégico, desde então, todos os governos tiveram como prioridade acabar militarmente com um conflito que teve, e continua tendo, profundas raízes políticas e sociais. A intransigência política das elites permitiu acreditar que tudo pode ser resolvido com morte (3).

Infelizmente, para aqueles que querem a paz com dignidade na Colômbia, esse Estado doente de raiva e de poder, não aprende: no começo de cada novo mandato presidencial, as guerrilhas estão mias fortalecidas, pois a violência do Estado é dirigida, principalmente, contra população civil. Isto e o aumento da miséria, coloca os jovens nos braços da guerrilha.

O Estado só deixa a possibilidade de se deixar assassinar pelas forças armadas ou seus paramilitares, morrer de fome ou pegar nas armas. Bem, também podem participar dos diversos escalões do narcotráfico...

Portanto, a “Segurança Democrática” de Uribe fez aprofundar a violência e as desigualdades sociais. Deu mais militância para as guerrilhas....

Juan Manuel Santos, o novo presidente da Colômbia, certamente irá seguir o mesmo caminho. Sendo ele ministro da Defesa (julho 2006 – maio de 2009), demonstrou que podia ser pior do que o próprio Uribe Vélez. Durante seu ministério, o assassinato de civis foi multiplicado, para que fossem contabilizados como guerrilheiros mortos em combate e que ficou conhecido como o escândalo dos “falsos positivos”.

Santos é oriundo da grande oligarquia tradicional, a mesma que começou a violência política nos anos cinqüenta, e que impôs a pobreza em grande escala no campo, roubando as terras dos camponeses cafeicultores. Sem esquecer que, desde o principal jornal do país, El Tempo, a violência tem se instigado com crueldade, e Santos era um dos proprietários.

É importante lembrar que era urgente que Santos chegasse à presidência, porque sendo um civil com certeza poderia estar na mesma situação que começa a perseguir Uribe Vélez: a possibilidade de ser processado por crimes de guerra e de Lesa-Humanidade.

Santos já anunciou que manterá conversações com as guerrilhas, mas com seus termos. E esses querem dizer: o desarmamento em troca de alguns cargos burocráticos e algumas bolsas de estudo; que o grosso dos combatentes ingresse nas Forças Armadas e grupos paramilitares. Ou morram de fome ou engrossem a delinquência comum. E sem a menor mudança das estruturas desse Estado de exclusão.

Já vimos esse filme, e é um exemplo tão grande como o céu: outras guerrilhas entregaram as armas em anos recentes, sem que isso contribuísse em um milímetro para a solução da pobreza e da violência política.

Renderam-se em prol da paz, a mesma que todos nós ansiamos, mas a única paz que veio foi a dos túmulos, enquanto a maioria dos dirigentes engordava e bebia em boates. Aqueles que discordaram de tanto entreguismo foram assassinados com o silêncio e na cumplicidade dos seus antigos companheiros.

A única verdade é que, enquanto Washington e as elites colombianas não entendam que sem se acabar com a violência; com a intransigência política contra a oposição e uma grande parcela do povo colombiano indefeso; sem que as maiorias possam desfrutar das incalculáveis riquezas naturais da Colômbia, a guerrilha não vai acabar.

O que é urge é uma solução política negociada para o conflito. Seria o primeiro e verdadeiro passo para a paz verdadeira.

Caso contrário, e a história o está dizendo, essas elites não poderão desfrutar com tranqüilidade todos os seus milhões, porque, lamentavelmente, o sistema continua a incubar os seus próprios inimigos, que não os deixarão dormir em paz.

* Escritor e jornalista. Colaborador do Le Monde Diplomatique .
http://www.hernandocalvoospina.com /

(1) El Tiempo, Bogotá, 08 de maio de 1964.
(2) Editorial de El Tiempo, 22 de maio de 1964.
(3) Hernando Calvo Ospina. Colômbia, Laboratório de bruxarias. História do Terrorismo de Estado. Editorial Foca-Akal. Madrid, 2008. (Publicado também na Venezuela e no Equador, bem como em Português e Francês)



Fonte: vermelho.org

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As eleições e a independência do povo brasileiro.

Por Lucas Morais*

Terça, 07 Setembro 2010 02:00

Lucas Morais

Lucas Morais
No contexto das eleições brasileiras, a candidatura do “economista”* José Serra, ex-governador do Estado de São Paulo e membro do Partido da Social-Democracia Brasileira, começou com três duros golpes. O primeiro foi operado pelo igualmente tucano Aécio Neves (PSDB-MG), então Governador do estado de Minas Gerais, que se empenhou na disputa partidária interna pela decisão da candidatura à presidência mediante referendo partidário, em que o mais votado seria o candidato do partido, abrindo a possibilidade de uma chapa puro-sangue, com Aécio à testa da máquina tucana nacionalmente.

O primeiro duro golpe foi dado, na verdade, às ordens de Fernando Henrique Cardoso, “Rei” do Partido e ideólogo defensor das perspectivas neoliberais das escolas norte-americanas, comprovadamente atuante como funcionário da Fundação Ford**, atuando politicamente e ideologicamente a partir de instituições acadêmicas, com larga influência política dentro do PSDB. Ao defender uma candidatura paulista, com Serra à Presidência e Aécio como seu vice, FHC optou pela pior tática na tentativa de (re)conquistar o Governo Federal e implementar políticas já adotadas pelo estado de São Paulo sob os governos tucanos, bem como as criminosas contrarreformas neoliberais das quais José Serra fora um dos protagonistas mais centrais, à frente no Governo FHC (1994-2002) do Ministério do Planejamento (1994-1998), central para a viabilização das privatizações criminosas e absurdas que viriam a seguir, como foi com a Vale e as telecomunicações, vendidas a preços literalmente de bananas.

Para tirar Aécio Neves da disputa interna, José Serra soltou seus cachorros “semioficiais”. Seu companheiro de turno, o jornalista Juca Kfouri, solta em seu blog uma postagem que sugere que Aécio Neves, em uma festa no Rio de Janeiro, teria agredido sua namorada em público, dando a entender inclusive alterações psicológicas em função do uso de drogas. Posteriormente, um editorial do jornal simpático aos tucanos, O Estado de S. Paulo, através do editor Mauro Chaves, publica um discurso em que começa e termina com a menção “nonsense” de “Pó pará, Governador?” (Ver “Pó pará, Serra!”, de Marco Aurélio Weissheimer).

Diante destas agressões, Aécio Neves teria supostamente solicitado a jornalistas do jornal Estado de Minas para que levantassem informações acerca de José Serra e seus aliados, para que, caso necessário, pudesse responder ao fogo-amigo. Dentro deste contexto, acontece o primeiro vazamento da Receita Federal, que teria fornecido informações preciosas para o jornalista Amaury Ribeiro Júnior, que trabalha atualmente para o Grupo Record, e promete lançar em 2011 seu livro sobre a privataria corrupta que ocorrera nos governos FHC, chamado “Os Porões da Privataria”. Aécio Neves, então pressionado pela “massa cheirosa” do tucanato paulista, ao fim de 2009, a assumir o papel de candidato a vice-presidente, ofuscado por ninguém menos que José Serra, desiste desta promessa política suicida, e decide se lançar para o Senado representando o estado de Minas Gerais, forjando seu candidato a Governador, Anastasia, e sendo também o único cabo eleitoral efetivo de todo o quadro dos demotucanos (Democratas + PSDB) em todo o Brasil, cabendo a ele o papel de derrotar a penosa aliança dos petistas mineiros com o rolo compressor das rádios comunitárias, o obscuro funcionário da Rede Globo Hélio Costa, o cirurgião do aborto do projeto de televisão digital aberta que estava sendo gestada por pesquisadores da UnB em parceria com outras universidades do País, entre diversas outras políticas entreguistas quando esteve à frente do Ministério das Comunicações.

Entretanto o quadro dos golpes não se encerra aí. Antes mesmo de se cogitar Aécio Neves como vice na chapa de José Serra, um candidato a vice já havia sido desenhado por FHC e Serra. Eis o segundo golpe. Seria ninguém menos que José Roberto Arruda (DEM-DF). Em uma reunião entre representantes dos governos do Distrito Federal e de São Paulo, José Serra, com a mão carinhosamente apoiada nos ombros de José Roberto Arruda, dizia que para as próximas eleições, o eleitor poderia finalmente votar em um careca e eleger dois, deixando ali claro suas pretensões e ambições. Serra pensa que nasceu para presidir este país e o que está na frente dele é obstáculo. Entretanto, uma testemunha do esquema da quadrilha forjada por José Roberto Arruda não somente flagrou, como filmou todo o processo, exibindo imagens a todo o Brasil de um Governador do Distrito Federal, representante nacional do partido Democratas (composto por banqueiros e latifundiários), sendo preso com provas explosivas, com vídeos que mostrava a ocultação de maços de dinheiro em meias. Foi o primeiro governador na história do Brasil a ser preso, extraordinário em um país em que reina a impunidade judicial com relação aos políticos. A mídia oligarca dos Marinho, Mesquitas, Maiorana, Magalhães, Sirotsky, Collor, Sarney, Frias, Maias, Franco, entre outros, não noticiou a relação de Arruda e Serra e, após o esfriar do escândalo, jogou panos mornos e, desde o início de 2010, não pronuncia-se mais sobre o “Escândalo do Mensalão do DEM”. José Roberto Arruda continuou preso até o dia 12 de abril de 2010.

O terceiro golpe fora dado pela própria indefinição do prepotente José Serra que, se fosse possível, seria candidato a presidente com sua filha, Verônica Serra, como vice, dado que esta sim é de confiança do líder tucano. A coligação “O Brasil Pode Mais”, representada pelo PSDB-DEM-PPS-PTB, deveria então definir através de um consenso entre o alto birô do tucanato paulista junto ao birô dos DEM quem seria o vice da chapa. Entretanto, Serra deixou o tempo esgotar, tendo os representantes do DEM ameaçado sair da coligação em função da indefinição e não nomeação de um quadro deste “partido”. Eis que o playboy mal chamado Índio da Costa, representante dos Democratas do Rio de Janeiro, inicia sua campanha como um garoto eufórico, disparando contra o PT afirmando que o Partido dos Trabalhadores tem relações com as FARC e, por isto, teria relações com o narcotráfico. Nenhuma prova fora apresentada. Alguns representantes da FSP – Força Serra Presidente –, como a cada dia mais decadente revista semanal do Grupo Abril, a Veja, e o jornal da família Frias, a Folha de São Paulo, insistiram nas acusações, enquanto o PT negava veementemente em cartas públicas e ameaçando recorrer na justiça contra a irresponsabilidade golpista e imunda dos tucanos. Poucas semanas depois de tais acusações sem provas, o presidente recém-eleito da Colômbia, o ex-ministro de Defesa de Álvaro Uribe, Juan Manuel Santos, disse em entrevista à Veja, nas páginas amarelas, que ele mesmo já teve relações com as FARC para negociações. A mentira, como bem disse Lula no dia 6 de setembro, merecendo destaques nos jornais, tem perna curta, muito curta por sinal.

Diante de três golpes frontais, Serra tem diante de si um cenário de colapso, enquanto seu partido e coligados nas eleições regionais para deputados federais, senadores e governadores, apelam para a política do “Salve-se quem puder”. Em Minas Gerais, Milton Nascimento e Lô Borges aceitaram fazer campanha para o candidato de Aécio Neves, Anastasia, mas com um porém: O nome e nem a imagem de Serra podem aparecer. O comitê de campanha de Antônio Anastasia se comprometeu a não exibir Serra.

Enquanto isso, Dilma Rousseff, pelo menos nas pesquisas, quebra alguns recordes; o primeiro, de superar o número de votos obtidos por Lula nas eleições de 2002 e 2006; o segundo que, se esses números se confirmarem no dia 3 de outubro, Dilma terá mais votos que o ator do maior filme de ficção realista de toda a história das eleições norte-americanas, o Yes We Can, interpretado espetacularmente pelo Nobel da Paz, Barack Hussein Obama.

Segundo pesquisa divulgada nesta terça-feira pela VoxPopuli/Band/IG, Dilma abre 56% contra 21% de Serra, com Marina tendo 8% dos votos.

Diante desta realidade, o PiG*** é a única tábua de salvação para a candidatura de José Serra. A Folha de São Paulo, em sua neutralidade tucana, apoia cada uma das acusações sem provas realizadas por Serra e seu comitê de campanha, ou melhor dizendo, de guerra, como o foi na tentativa de impugnação contra a candidatura de Dilma Rousseff, acusando-a de ter mandado um suposto grupo de inteligência de seu comitê de campanha para levantar dados obtidos no vazamento da Receita Federal, alegando que ela está envolvida inclusive no escândalo nacional. Este absurdo foi rechaçado e repudiado não somente entre o espectro político petista e da esquerda em geral, mas também por liberais e conservadores críticos à ausência de projetos e programa da candidatura de Serra.

Dilma e as eleições

Muitos analistas já dão a fatura como liquidada em função da desestrutura e do desfavorecimento das condições políticas atuais, com Lula como o maior cabo eleitoral de toda a história brasileira, e apoiam inclusive o futuro Governo Dilma, que já deu sinais de que terá atenção especial com os investidores financeiros.

Dilma contou com ótimas propagandas eleitorais, mostrando sua vida pregressa, sua história pessoal e política, deixando aberta sua vocação democrata e republicana, de desenvolvimentismo social-liberal. Dilma Rousseff é mineira, atleticana, e nascida em Belo Horizonte. Caso se confirme sua eleição no primeiro turno, será a primeira mulher a assumir o cargo de presidente da República na história brasileira, acompanhando as experiências do Chile (Michelle Bachelet) e da Argentina (Cristina Kirchner).

Para o Governo de Dilma, o Governo da coalizão do PT e PMDB de Lula legou o Pré-Sal, relações exteriores que elevam o Brasil ao status de potência mundial, estabilidade econômica e crescimento da renda da classe trabalhadora (em função do fortalecimento do consumo interno), redução de 40% da pobreza extrema e ascensão de milhões de famílias aos bens de consumos industrializados, como carros e eletrodomésticos. Somente no final deste ano de 2010, milhares ou talvez milhões de brasileiros irão viajar de avião pela primeira vez. Dilma terá a oportunidade de governar o país em excelentes condições políticas e econômicas, e isso tranquiliza inclusive os mais importantes setores do capital financeiro. O Financial Times já tem como certa a vitória de Dilma, e não faz alardes como a máquina de José Serra, que utiliza inclusive da história de Dilma, esta que foi ativista de organizações da esquerda que aderiram à luta armada no Brasil contra a ditadura militar instaurada em 1964, quando José Serra era ainda um jovem ativista e presidente da União Nacional dos Estudantes.

Questões ambientais e sociais latentes

Entretanto, a questão ambiental e social continuam latentes. O capitalismo à brasileira, como cunhou sabiamente Ivan Pinheiro, secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro e candidato à presidência da República, trouxe uma elevação da renda das massas, mas, entretanto, os problemas mais latentes da via colonial do capitalismo brasileiro continuam latentes, como é o caso da reforma agrária e da destruição e degradação natural pelas empresas multinacionais.

Marina Silva aparece neste cenário político como a candidata moderna, que defende um desenvolvimento capitalista aliado ao desenvolvimento sustentável das empresas no processo de exploração do meio ambiente. Esta ilusão é vendida e convence a muitos desavisados e ambientalistas que, apesar de todo o contexto que Marina construiu politicamente, votam nela pela questão ambiental. Entretanto, capital sem degradação da natureza é como capital sem exploração do trabalhador, simplesmente impossível. Marina Silva se desfilia em agosto de 2009 do Partido dos Trabalhadores e filia-se ao Partido Verde alegando que o PT abandonou seus princípios e sua ética. Curiosamente, Marina não realizava estas críticas quando estava no PT e poderia ter pedido demissão antes, como disparou Plínio de Arruda Sampaio no primeiro debate entre os presidenciáveis da Rede Bandeirantes. Entretanto, Marina Silva entra em um partido chefiado por um dos filhos do clã de Sarney (Sarney Filho, ex-ministro do Meio Ambiente no Governo FHC) e Fernando Gabeira e, ainda por cima, coloca como seu vice ninguém menos que o presidente executivo da Rede Natura, um bilionário. Além disso, Marina diz abertamente que atuará contra a candidatura de Dilma, posicionando-se como simpática a Serra, mas não poupando críticas quando necessário, para demonstrar sua suposta independência. Esta “independência” é falsa e, Marina, ao optar pelo enfraquecimento da candidatura de Dilma, acaba por fortalecer o golpismo de Serra. Em última análise, Marina entrou em jogo para fazer o jogo da direita, o que mancha sua história com o mesmo veneno que Serra se envenenou.

Em quarto lugar nas pesquisas eleitorais aparece um senhor que tem não menos que 50 anos de participação ativa nas lutas sociais e que tem como bandeira fundamental a defesa da reforma agrária e dos interesses dos trabalhadores. Plínio de Arruda Sampaio agrada os militantes socialistas e simpatizantes daquele Partido dos Trabalhadores que lutava pela reforma agrária junto ao Movimento dos Sem Terra e defendia as lutas dos trabalhadores. Além de Plínio, a esquerda socialista brasileira conta com Zé Maria, dirigente nacional do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados – PSTU –, Ivan Pinheiro, secretário-geral do PCB, e Rui Costa Pimenta, líder nacional do Partido da Causa Operária – PCO. O partido de Plínio, o PSOL – Partido Socialismo e Liberdade –, livrou-se da manobra venenosa encomendada por Heloísa Helena (PSOL de Alagoas), que era manobrar o Partido para um apoio à candidatura de Marina Silva. Logo que os militantes perceberam a guinada de Heloísa, isto foi denunciado e acabou servindo como motivo de endosso a uma candidatura de Plínio. O PV, partido atual de Marina Silva, vota em cada estado de acordo com os interesses regionais, por exemplo, no sudeste e no sul, vota com o PSDB e DEM. Uma aliança deste nível para os ativistas e militantes do PSOL seria um suicídio político e uma degeneração na velocidade da luz.

O mecanismo fundamental que a direita tem hoje no Brasil para fazer valer os interesses dos 25 mil clãs-famílias da República é, sem dúvida, o controle da mídia privada e as leis audiovisuais em vigor para a televisão e rádio. O formato norte-americano torna a disputa favorável às grandes coligações. Com isto, a candidatura de Dilma dispõe da maior parte do tempo de televisão e rádio. Serra abocanha outra parte, Marina o mesmo. Para os nanicos, restam poucos minutos, em todo o processo de campanha, na televisão para promover debates sobre seus programas e políticas. Desta forma, aquela porção política que efetivamente possui programas e propostas para a sociedade brasileira, que é a esquerda socialista do PSOL-PSTU-PCB-PCO, fica refém de seu tempo limitado e necessita adaptar suas ideias aos formatos mais curtos possíveis, eliminando a possibilidade de uma reflexão e forçando estes partidos a apenas levantarem as suas bandeiras para demarcarem território. Com isto, as propostas do PCB, PSTU e PCO aparecem como que dirigidas para o público da esquerda ou cedem o espaço para as pautas dos movimentos sociais, como o PCB tem feito. O PSOL, por sua vez, conseguiu colocar seu candidato no primeiro debate entre os presidenciáveis, que ocorreu nos estúdios da Band, tendo Plínio de Arruda Sampaio se saído melhor que todos os candidatos e obtendo destaque entre os 10 mais tuitados no Twitter internacional. A Rede Globo, para silenciar e ofuscar o debate realizado pela Band, transferiu a final da Copa Libertadores das Américas, em que jogaram a equipe gaúcha Internacional contra o time mexicano Chivas de Guadalajara, para o mesmo dia do debate, desviando os telespectadores brasileiros, tradicionalmente apaixonados pelo espetáculo do futebol, do debate político.

Diante de toda esta conjuntura, o Brasil finalmente logra uma independência dos (des)projetos da direita reacionária e conservadora, e continua firme na defesa da democracia liberal arduamente conquistada pelos movimentos sociais. Como bem alertou Marcio Pochmann, diretor do IPEA, nosso país tem pouco mais de 500 anos de idade e menos de 50 de democracia. Defender Dilma dos ataques da direita é obrigação de toda a esquerda que reivindique a democracia. Defender a democracia, mesmo que esta apodrecida, a liberal-burguesa, que expressa os interesses dos maiores grupos econômicos nacionais e internacionais, é uma obrigação de todos que se identificam com o campo progressista, dado que a Constituição de 1988 defende a liberdade de expressão, imprensa, associação, organização, etc. Construir um país livre de controles estrangeiros, militares, das oligarquias, da mídia privada e do conservadorismo político deve unir todo o espectro democrático e popular brasileiro. É este o projeto que sairá fortalecido destas eleições. Em torno desta independência, da reforma agrária, do fortalecimento dos movimentos sociais, da defesa da liberdade de expressão e da democratização/socialização dos meios de comunicação, entre tantas outras questões tão latentes é que deve ser forjado um movimento das massas brasileiras. A ruptura histórica operada pelo Partido dos Trabalhadores é fundamental e abre perspectivas que podem excluir as elites do mando a que sempre estiveram acostumados. É por isto que, diariamente, a ampla aliança neoliberal precisa atacar a Bolívia, as FARC, Hugo Chávez, Ahmadinejad, etc. Porque falta projeto de país para uma direita desesperada e precisam demonizar todos aqueles que o Pentágono-CIA-Washington designam como “terroristas”.

A coalizão midiática do demotucanato não tem convencido mais a sociedade brasileira. “Ei Rede Globo, o povo não é bobo!”. Quem está perdendo as eleições são a Veja, a Folha de São Paulo, a Rede Globo e todos aqueles que se unem para salvar o barco tucanic, com um capitão de bordo caduco por seu próprio veneno. Sairão desmoralizados de todo este processo. Entrarão para a história brasileira como entraves ao progresso social.

O povo brasileiro pode hoje respirar uma independência que começou a ser forjada pelos movimentos sociais durante a resistência à ditadura militar brasileira. É esta independência que devemos celebrar hoje no dia 7 de setembro de 2010.



* José Serra não apresentou o diploma e, no entanto, seu partido anteriormente criticou exaustivamente o fato da suposta “incapacidade intelectual” de um ex-torneiro mecânico ter a responsabilidade de ser o primeiro operário a se tornar o Presidente da República Federativa do Brasil.



** Ver: http://argemiroferreira.wordpress.com/2010/01/19/fhc-e-a-guerra-fria-cultural-da-cia/ Ou adquira o livro em: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2067729/quem-pagou-a-conta/?ID=BB6800B27DA09070F31090384



*** Partido da imprensa Golpista, termo cunhado por Paulo Henrique Amorim e utilizados pelos ativistas em blogues e sítios na internet brasileira.



* Lucas Morais é jornalista, tradutor e colunista do Diário Liberdade.
http://www.twitter.com/luckaz
luckaz@gmail.com

URIBE FOI MAIS UM QUE TENTOU ACABAR COM AS GUERRILHAS...

Hernando Calvo Ospina
Fonte: Rebelion.org


Em sua primeira campanha, Uribe prometeu destruir a guerrilha em apenas seis meses. Apesar da morte de alguns dirigentes e quadros, particularmente em 2008, passaram-se dois mandatos presidenciais, ou seja, oito anos, e a insurgência continua com suas estruturas intactas, além de preservar a sua presença nacional, tal como foi assegurado pela Cruz Vermelha Internacional no seu relatório deste ano.

Isso de acabar militarmente com as guerrilhas foi proposto por todos os presidentes desde 1964, data em que se tentou, pela primeira vez, vencer um reduto de 50 camponeses que pediam paz e terras. Nessa ocasião, o presidente Guillermo León Valencia disse: “Muito antes do final do meu governo o país estará completamente pacificado. Essa é uma decisão que não vamos quebrar por nenhum motivo”(1). Essa primeira tentativa ficou conhecida como Operação Marquetalia. Os EUA enviaram assessores, tropas trazidas do Vietnã e o armamento mais moderno; o Governo colombiano, por sua vez, lançou 16.000 soldados, sendo que boa parte era de veteranos de guerra na Coréia.

A oligarquia, lideranças católicas e a grande mídia, a cada dia expressavam a sua confiança e felicidade para acabar com esse “reduto do banditismo”( 2 ).

Este grupo de camponeses não foi derrotado. No meio desse combate desigual, no mesmo dia das festas nacionais, 20 de julho de 1964, proclamou-se o Programa Agrário Guerrilheiro. E o triunfalismo da oligarquia começou a declinar quando, em 7 de janeiro de 1965, um grupo de camponeses e intelectuais tomaram Simacota, no departamento de Santander, um pequeno povoado na outra extremidade do país, divulgando um comunicado em que se lia: “estamos na luta pela libertação nacional da Colômbia”. Assim surgiu a guerrilha Exército de Libertação Nacional, ELN, que nos seus fundamentos ideológicos já misturava o marxismo e a Teologia da Libertação. O otimismo das elites começou a diminuir quando os camponeses de Marquetalia realizaram, no final de 1965, a Primeira Conferência Guerrilheira. E alguns meses depois, em abril, durante a Segunda Conferência Guerrilheira, fundaram as FARC.

Sem nunca ter atingido sequer um oitavo do objetivo estratégico, desde então, todos os governos tiveram como prioridade acabar militarmente com um conflito que teve, e continua tendo, profundas raízes políticas e sociais. A intransigência política das elites permitiu acreditar que tudo pode ser resolvido com morte (3).

Infelizmente, para aqueles que querem a paz com dignidade na Colômbia, esse Estado doente de raiva e de poder, não aprende: no começo de cada novo mandato presidencial, as guerrilhas estão mias fortalecidas, pois a violência do Estado é dirigida, principalmente, contra população civil. Isto e o aumento da miséria, coloca os jovens nos braços da guerrilha. O Estado só deixa a possibilidade de se deixar assassinar pelas forças armadas ou seus paramilitares, morrer de fome ou pegar nas armas. Bem, também podem participar dos diversos escalões do narcotráfico...

Portanto, a “Segurança Democrática” de Uribe fez aprofundar a violência e as desigualdades sociais. Deu mais militância para as guerrilhas....

Juan Manuel Santos, o novo presidente da Colômbia, certamente irá seguir o mesmo caminho. Sendo ele ministro da Defesa (julho 2006 – maio de 2009), demonstrou que podia ser pior do que o próprio Uribe Vélez. Durante seu ministério, o assassinato de civis foi multiplicado, para que fossem contabilizados como guerrilheiros mortos em combate e que ficou conhecido como o escândalo dos “falsos positivos”. Santos é oriundo da grande oligarquia tradicional, a mesma que começou a violência política nos anos cinqüenta, e que impôs a pobreza em grande escala no campo, roubando as terras dos camponeses cafeicultores. Sem esquecer que, desde o principal jornal do país, El Tempo, a violência tem se instigado com crueldade, e Santos era um dos proprietários.

É importante lembrar que era urgente que Santos chegasse à presidência, porque sendo um civil com certeza poderia estar na mesma situação que começa a perseguir Uribe Vélez: a possibilidade de ser processado por crimes de guerra e de Lesa-Humanidade.

Santos já anunciou que manterá conversações com as guerrilhas, mas com seus termos. E esses querem dizer: o desarmamento em troca de alguns cargos burocráticos e algumas bolsas de estudo; que o grosso dos combatentes ingresse nas Forças Armadas e grupos paramilitares. Ou morram de fome ou engrossem a delinquência comum. E sem a menor mudança das estruturas desse Estado de exclusão.

Já vimos esse filme, e é um exemplo tão grande como o céu: outras guerrilhas entregaram as armas em anos recentes, sem que isso contribuísse em um milímetro para a solução da pobreza e da violência política. Renderam-se em prol da paz, a mesma que todos nós ansiamos, mas a única paz que veio foi a dos túmulos, enquanto a maioria dos dirigentes engordava e bebia em boates. Aqueles que discordaram de tanto entreguismo foram assassinados com o silêncio e na cumplicidade dos seus antigos companheiros.

A única verdade é que, enquanto Washington e as elites colombianas não entendam que sem se acabar com a violência; com a intransigência política contra a oposição e uma grande parcela do povo colombiano indefeso; sem que as maiorias possam desfrutar das incalculáveis riquezas naturais da Colômbia, a guerrilha não vai acabar.

O que é urge é uma solução política negociada para o conflito. Seria o primeiro e verdadeiro passo para a paz verdadeira.

Caso contrário, e a história o está dizendo, essas elites não poderão desfrutar com tranqüilidade todos os seus milhões, porque, lamentavelmente, o sistema continua a incubar os seus próprios inimigos, que não os deixarão dormir em paz.


* Escritor e jornalista. Colaborador do Le Monde Diplomatique .
http://www.hernandocalvoospina.com /

(1) El Tiempo, Bogotá, 08 de maio de 1964.
(2) Editorial de El Tiempo, 22 de maio de 1964.
(3) Hernando Calvo Ospina. Colômbia, Laboratório de bruxarias. História do Terrorismo de Estado. Editorial Foca-Akal. Madrid, 2008. (Publicado também na Venezuela e no Equador, bem como em Português e Francês)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Brasil apoia negociação entre governo colombiano e as Farc, mas avisa que não quer se intrometer

Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil

Brasília – Após se reunir hoje (1º) com o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou que o Brasil apoia a busca de uma solução negociada para o conflito entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas avisou que o Brasil não irá se intrometer na questão. A informação foi dada pelo assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.

“Reiteramos ao presidente Santos que estamos atentos para a busca de solução negociada no plano interno. Acho que o problema das Farc deve ser resolvido no âmbito colombiano. O presidente Santos aprecia a posição brasileira e só interviríamos se houvesse, da parte do governo colombiano, uma solicitação. Imiscuirmos agora na questão colombiana não é nossa disposição”, afirmou Garcia.

Na avaliação de Garcia, a discussão do conflito com as Farc também não deve ser transferida para o âmbito da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Perguntado se as Farc são consideradas pelo governo brasileiro uma organização terrorista, Garcia disse apenas que o governo não é uma “agência de classificação” e tem uma atitude crítica em relação ao grupo.

Durante a reunião, o presidente Lula reafirmou a Juan Manuel Santos a importância que o Brasil dá à Colômbia e convidou Santos para participar, no dia 17 de dezembro, em Foz do Iguaçu (PR), da reunião dos presidentes do Mercosul, bloco do qual a Colômbia é associada. Santos demonstrou disposição em se integrar mais à Unasul, de acordo com Marco Aurélio Garcia.

O combate às Farc é uma das prioridades de Santos que, no governo anterior de Alvaro Uribe, atuou como ministro da Defesa e foi um dos responsáveis pela política de combate às guerrilhas que atuam na Colômbia.

Edição: Vinicius Doria

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Fidel Castro: “Cheguei a estar morto, mas ressuscitei”

Em entrevista exclusiva ao jornal mexicano La Jornada (a primeira concedida a um veículo impresso desde que uma diverticulite obrigou seu afastamento da liderança do governo cubano; a tradução é do site Carta Maior), Fidel Castro fala sobre o que aconteceu, diz que esteve à beira da morte, mas ressuscitou. E fala de seus planos para o futuro: "Não quero estar ausente nestes dias. Ainda tenho muitas coisas para fazer".

Ele esteve quatro anos debatendo-se entre a vida e a morte. Um entra e sai da sala de cirurgia, entubado, recebendo alimentos através de veias e cateteres e com frequentes perdas de consciência. "Minha doença não é nenhum segredo de Estado", teria dito pouco antes que ela se tornasse crise e o obrigasse a fazer o que tinha de fazer: delegar suas funções como presidente do Conselho de Estado e, consequentemente, como comandante supremo das forças armadas de Cuba. "Não posso continuar mais", admitiu então - revela nesta sua primeira entrevista a uma publicação impressa estrangeira desde então. Fez a transmissão do cargo e entregou-se aos médicos.

A comoção abalou a nação inteira, aos amigos de outras partes, despertou esperanças revanchistas em seus detratores e colocou em estado de alerta o poderoso vizinho do Norte. Era o dia 31 de julho de 2006 quando foi divulgada, de modo oficial, a carta de renúncia do líder máximo da Revolução Cubana. O que seu inimigo mais feroz (bloqueios, guerras, atentados) não conseguiu em 50 anos foi alcançado por uma doença sobre a qual ninguém sabia nada e se especulava tudo. Uma enfermidade que para o regime, quisesse ou não, iria se converter em um segredo de Estado.

Hoje faz 40 dias que Fidel Castro reapareceu em público de maneira definitiva, ao menos sem perigo aparente de recaída. Em um clima tranquilo e dando a entender que a tempestade passou, o homem mais importante da Revolução Cubana ressurge orgulhoso e com vitalidade, ainda que não domine totalmente os movimentos das pernas.

Durante as quase cinco horas que durou a entrevista ao La Jornada – incluindo o almoço – Fidel aborda os mais diversos temas, ainda que mostre uma obsessão por alguns em particular. Permite perguntas sobre tudo – ainda que quem mais interrogue seja ele – e repassa pela primeira vez e com dolorosa franqueza alguns momentos da crise de saúde que sofreu nos últimos quatro anos. Mas no que ele se estende é no relato do sofrimento vivido. E não mostra inibição alguma em qualificar a dolorosa etapa como um calvário.

Eu já não aspirava a viver, nem muito menos...Perguntei-me várias vezes se essa gente [os médicos] iriam deixar-me viver nestas condições ou iriam permitir que eu morresse. E sobrevivi, mas em condições físicas muito ruins. Cheguei a pesar cinquenta e poucos quilos.

[Sessenta e seis quilos, precisa Dália, sua inseparável companheira que assiste a conversa. Só ela, dois de seus médicos e dois de seus colaboradores mais próximos estão presentes.]

Imagine: um tipo da minha estatura pesando 66 quilos. Hoje já estou entre 85 e 86 quilos e esta manhã consegui dar 600 passos sozinho, sem muleta nem ajuda.

Quero dizer que você está diante de uma espécie de ressuscitado. Não cometo nunca mais o mínimo deslize. Tornei-me médico com a cooperação dos médicos. Com eles discuto, pergunto, aprendo... Estendido naquela cama, só olhava ao meu redor, ignorante de todos esses aparatos. Não sabia quanto tempo ia durar esse tormento e a única esperança que alimentava é que o mundo parasse para que eu não perdesse nada. Mas ressuscitei, disse satisfeito.

E quando ressuscitou, comandante, o que encontrou?

Um mundo de loucos... Um mundo que aparece todos os dias na televisão, nos jornais, e que não há quem entenda, mas que eu não queria perder por nada deste mundo. Você se dá conta, companheira, do que isso significa? A Internet colocou em nossas mãos a possibilidade de nos comunicarmos com o mundo. Não contávamos com nada disso antes – comenta, ao mesmo tempo em que se deleita vendo e selecionando informes e textos baixados da rede, que tem sobre a mesa do escritório: um pequeno móvel, demasiado pequeno para o tamanho (mesmo que diminuído pela enfermidade) de seu ocupante.

Acabaram-se os segredo, ou ao menos parece isso. Estamos diante de um jornalismo de investigação de alta tecnologia, como o chama o New York Times, e ao alcance de todo o mundo. Estamos diante da arma mais poderosa que já existiu, que é a comunicação – resume. O poder da comunicação tem estado, e está, nas mãos do império e de ambiciosos grupos privados que fazem uso e abuso dele. Por isso os meios de comunicação fabricaram o poder que hoje ostentam.

Por que apenas de uma entrada de Internet para todo o país, comparável a que o Hotel Hilton ou o Sheraton têm?

Pela rotunda negativa dos Estados Unidos em nos dar acesso à Internet na ilha, através de um dos cabos submarinos de fibra ótica que passam próximo às costas. Cuba se vê obrigada, em troca, a baixar o sinal de um satélite, o que encarece muito mais o serviço do que o governo cubano pode pagar, e impede que se disponha de uma banda maior, que permita dar acesso a muito mais usuários e na velocidade que é normal em todo o mundo, com a banda larga.

Por essas razões o governo cubano dá prioridade para conectar-se não a quem pode pagar pelo custo do serviço, mas para quem mais necessita, como médicos, acadêmicos, jornalistas, professores, quadros do governo e clubes de internet de uso social. Não se pode fazer mais.

Muitas vezes se acusa Cuba e em particular ao senhor de manter uma posição antiestadunidense rigorosa; chegaram até a acusá-lo de ter ódio dessa nação.

Não é nada disso: por que odiar os Estados Unidos, se é apenas um produto da história?

Mas, com efeito, há uns 40 dias, apenas, quando ainda não tinha terminado de ressucitar, o senhor ocupou-se em suas novas Reflexiones, de seu poderoso vizinho.

É que comecei a ver muito claramente os problemas da tirania mundial crescente – e se apresentou à luz de toda a informação que tinha, a iminência de um ataque nuclear que desataria a conflagração mundial.

Saí do hospital, fui para casa, mas caminhei, excedi-me. Depois tive de fazer reabilitação dos pés, para então conseguir começar a escrever de novo. O salto qualitativo se deu quando pude dominar todos os elementos que me permitiam tornar possível tudo o que estou fazendo agora. Mas posso e devo melhorar... Posso chegar a caminhar bem. Hoje, já te disse, caminhei 600 passos só, sem bengala, sem nada; e devo conciliar isso com o que subo e desço, com as horas que durmo, com o trabalho.

O que há por trás desse frenesi no trabalho? O que mais que, depois de uma reabilitação pode conduzi-lo a uma recaída?

Não quero estar ausente nestes dias. O mundo está numa fase mais interessante e perigosa de sua existência e eu estou bastante comprometido com o que venha a acontecer. Tenho coisas a fazer, ainda.

Como o quê?

Como a conformação de todo um movimento antiguerra nuclear. No princípio, pensei que o ataque nuclear iria se dar sobre a Coréia do Norte, mas logo retifiquei, porque a China vetaria isso no Conselho de Segurança... Mas o do Irã ninguém o fará, porque não há veto nem chinês nem russo. Depois veio a resolução (das Nações Unidas), e embora Brasil, Turquia e Líbano tenham votado, o Líbano não o fez e então se tomou a decisão.

O senhor sabe o poder nuclear que alguns países do mundo têm, na atualidade, em comparação com a época de Hiroxima e Nagasáqui?

Quatrocentas e setenta mil vezes o poder explosivo que qualquer dessas bombas que os Estados Unidos jogou sobre essas duas cidades japonesas tinha. Quatrocentas e setenta mil vezes mais! Essa é a potência de cada uma das mais de 20 mil armas nucleares que – se calcula – há hoje em dia no mundo. Com muito menos do que essa potência – com tão só 100 – já se pode produzir um inverno nuclear que obscureça o mundo em sua totalidade.Esta barbaridade pode se produzir em uma questão de dias; para sermos mais precisos, no próximo 9 de setembro, que é quando vencem os 90 dias concedidos pelo Conselho de Segurança da ONU para que se comece a inspeção dos barcos do Irã.

Acredita que os iranianos vão retroceder? O que imagina?

Homens valentes, religiosos que vêem na morte quase um prêmio...Bem, os iranianos não vão ceder, isso é certo. Vão ceder aos ianques? E o que ocorrerá se nem um nem outro ceder? E isto pode ocorrer no próximo 9 de setembro.

Um minuto depois da explosão, mais da metade dos seres humanos terão morrido, a poeira e a fumaça dos continentes em chamas derrotarão a luz solar e as trevas absolutas voltarão a reinar no mundo, escreveu Gabriel García Máquez por ocasião do 41 aniversário de Hiroxima. Um inverno de chuvas alaranjadas e furacões gelados inverterão o tempo dos oceanos e voltarão o curso dos rios, cujas espécies terão morrido de sede em águas ardentes...A era do rock e dos corações transplantados estará de volta a sua infância glacial...


*Entrevista concedida ao jornal mexicano La Jornada e originalmente publicada em português pela Agência Carta Maior. Tradução: Katarina Peixoto