"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quinta-feira, 17 de março de 2011

O espectro Lula

Por Emir Sader

O anticomunismo é o ultimo refúgio das elites brasileiras em pânico. Cada vez que vêem seus interesses e seus privilégios em perigo, apelam para o expediente do “espectro do comunismo”. Foi em seu nome que se fizeram as piores coisas na história brasileira, incluído o golpe de 1964, perpetrado pelo suposto risco que o comunismo traria para a democracia, para instaurar a pior ditadura que o Brasil já conheceu.

Por que se apela de novo para o “espectro do comunismo”? Porque essas mesmas elites passaram do desespero ao desalento, ao verem seus candidatos serem derrotados pela terceira vez em seguida e se darem conta que o país – que sempre consideraram deles – escapar entre seus dedos.

O fantasma que assusta as elites dominantes se chama Lula. Conseguiram contorná-lo por muito tempo, até que o fracasso do presidente dos seus sonhos – FHC – acabou abrindo espaço para que Lula fosse eleito, em 2002.

Lula começou sob os olhares confiantes dos que consideravam que ele não seria capaz de controlar uma herança econômica de depressão profunda e prolongada, além de descontrole inflacionário, endividamento alto, déficits da balança comercial e de pagamentos, reservas baixas e cartas de compromisso assinadas com o FMI que comprometiam a soberania nacional e a possibilidade de fortalecer o Estado e desenvolver politicas sociais.

Em seguida, quando se deram contra das precauções com que o Lula assumia, passaram a atacá-lo por supostamente tomar de assalto o aparelho de Estado pelos partidos de esquerda, pelos sindicatos. Tentaram a derrubada do governo em 2005, mas ao temer as reações populares, trataram de deixá-lo sangrar até ser derrotado nas eleições de 2006.

Derrotados, o editor chefe de um dos jornais da direita dava murros na mesa enquanto andava, raivoso, em torno dela, na reunião do comitê de redação da empresa, gritando: “Onde é que nós erramos. Onde é que nós erramos?” (O mesmo personagem que tinha interpelado Lula em almoço na redação da sua empresa sobre como ele pensava governar o Brasil, se não sabia falar inglês?)

Tiveram que conviver com o Lula por dois mandatos e, pior (para eles), um presidente que foi recebendo apoios populares de forma crescente e inédita, na mesma medida em que a velha mídia perdia credibilidade e audiência. E passava a diminuir, pela primeira vez, a desigualdade que as elites tinham produzido como característica marcante do Brasil, rompendo com todos os dogmas que essa mesma elite jurava que eram inalteráveis.

O espectro que assusta as elites dominantes hoje, no Brasil, não é outro, senão o espectro Lula. O das camadas populares que passaram a ter seus direitos minimamente garantidos, que passam a ter consciência que um deles pode chegar a governar o Brasil e o faz de maneira incomparavelmente superior do que todos os anteriores representantes daquelas elites.

Lula tira o sono das elites e dos seus ventríloquos na velha mídia. Acreditaram nas pesquisas e se jogaram por inteiro atrás do seu candidato contra Dilma, até que tiveram que se ater à realidade de que o Brasil mudou - apesar deles. Resta-lhes acenar velhos fantasmas como o “espectro do comunismo”, quando o medo deles é do Lula, é medo do povo, é medo da democracia, é medo do Brasil.


terça-feira, 15 de março de 2011

Juan Manuel Santos, de falcão a pomba.

Por Hernando Calvo Ospina

Por HERNANDO CALVO OSPINA* © Le Monde Diplomatique em espanhol. Março 2011.

Para surpresa de muitos, desde que o 7 de agosto de 2010, Juan Manuel Santos assumiu a presidência de Colômbia passou de falcão a pomba.O gesto mais inesperado foi tratar de “meu melhor amigo” a Hugo Chávez, presidente de Venezuela, quando se reuniu com ele três dias depois de sua posse, reativando as relações diplomáticas com Caracas. Com Equador também restabeleceu em tempo recorde as relações. Por outra parte, esse homem vindo da direita afirma agora que a "prosperidade social" ;e o principal objetivo de seu mandato. ¿Como explicar câmbios tão espetaculares?

Desde o 7 de agosto de 2010, Juan Manuel Santos é o presidente de Colombia. Pertence à oligarquia tradicional. Sua família construiu poder graças ao jornal de Bogotá El Tiempo, “até manejar os meios de comunicação à vontade, sempre ao serviço do poder”, segundo Alirio Uribe Muñoz, advogado defensor de direitos humanos. Formado de sub-oficial na Academia naval, e de economista em universidades de Estados Unidos e Reino Unido, chegou a ocupar os ministérios de Comércio Exterior e da Fazenda. Em 2004, deixa o Partido Liberal e passa a apoiar o governo de extrema direita do Presidente Álvaro Uribe. No ano seguinte, é nomeado chefe da campanha para a reeleição de Uribe e do vice-presidente, seu primo Francisco Santos. Em julho de 2006, é nomeado ministro da Defesa, cargo que ocupará até maio de 2009, quando decide se lançar como candidato à presidência de Colômbia.

Ser presidente se converteu para Santos em uma obsessão, desde o momento em que a Corte Constitucional se opôs a que Uribe concorresse a um terceiro mandato. Ademais de suas ânsias de poder, devia se blindar contra eventuais demandas penais por crimes de lesa humanidade cometidos contra a população pelas forças armadas e de segurança, sob seu comando. Para conseguir isso, não teve escrúpulos -segundo o advogado Alirio Uribe Muñoz- em utilizar a influência das “hordas uribistas”, principalmente paramilitares, chefes narcotraficantes e os 130 parlamentares processados por diversos delitos.

O advogado nos faz o seguinte relato: “O ex presidente Uribe representa o mundo agrário e dos latifundiários enriquecido mediante o despojo violento, misturado com as classes emergentes do narcotráfico e crimes do paramilitarismo. Santos é um homem urbano, culto e cosmopolita por excelência. Porém, junto com sua família, se tem aproveitado do Estado para favorecer seus negócios e seu enriquecimento pessoal. Como membros destacados da oligarquia, não têm duvidado em propiciar e utilizar os métodos violentos para manter seus privilégios.”

Em novembro de 2005, o ministério da defesa aprovou uma diretiva secreta que estabelecia um preço pela cabeça dos guerrilheiros. Então, os militares se dedicaram a assassinar civis, apresentados nos meios de comunicação como "rebeldes mortos em combate" que foram chamados "falsos positivos". A Fiscalía General investiga uns três mil casos, entre os quais há adolescentes, retardados mentais, indigentes, viciados em drogas...

Quando Santos chegou ao ministério, em julho de 2006, se registraram 274 casos de “falsos positivos”. No ano seguinte, foram 505 assassinados... Ante o escândalo midiático e os informes do Alto Comissionado da ONU, a prática foi detida: em 2009, sete casos... 27 oficiais foram demitidos, incluindo três generais, mas...… sem ser responsabilizados por esses assassinatos. A ONU expressou, em julho de 2009, que “a impunidade em relação com as execuções extrajudiciais chega ao 98,5%.”

Os paramilitares têm sido os encarregados da estratégia de “terra arrasada” para desalojar do campo àqueles moradores tidos como subversivos pelo governo. Há mais de 4 milhões de campesinos deslocados, ou seja mais do 10% da população que mora no campo. Uns 10 milhões de hectares de alto interesse econômico têm sido roubadas das vítimas, e ofertadas às multinacionais, novos latifundiários paramilitares, caciques políticos e comandos militares (1). Agora, o presidente Juan Manuel Santos tem apresentado uma “Lei de Terras” como a panacéia, com a qual se pretende devolver os campos aos deslocados. Ao cumprir cem dias de mandato expressou: “Nos propusemos um plano de choque para titular até abril de 2011, 378.000 hectares, e já cumprimos três quartas partes dessa meta”. Mas, são 10 milhões de hectares…

Se estima que 250.000 pessoas têm sido “desaparecidas” pelas forças de segurança e seus paramilitares. Só nos últimos quatro anos foram quase 40.000 pessoas (2). Algumas delas foram enterradas na maior cova comum de América Latina, que fica perto de uma base do exército, sediada a 200 kilómetros ao sul de Bogotá: mais de 2.000 cadáveres... (3).

Agora, os paramilitares são chamados de Bacrim, “bandas criminais” . Cifras oficiais indicam que atuam em 21 dos 32 estados (departamentos colombianos), ou seja no 75% do território, e são dirigidas, na sua maioria, por assassinos anistiados pelos seus crimes durante o mandato do presidente Uribe. “Nas primeiras semanas do governo do presidente Santos, o acionar das bandas criminais se tem reativado (…) avançam no controle territorial e político ao melhor estilo das velhas estruturas paramilitares” (4). O novo governo insiste e que esses crimes estão relacionados com o negócio das drogas, mas "a realidade monstra que atentam contra lideranças sociais"(5). O partido opositor Polo Democrático Alternativo denunciou em 9 de novembro de 2010, que nos primeiros dias do mandato do novo presidente, uns cinqüenta lideranças políticas e sociais tinham sido assassinados....Diante dessa violência estatal, quatro Relatores Especiais da ONU examinaram a situação dos direitos humanos. Em seus informes o Ministério de Defesa estive sempre na primeira linha de responsabilidade...

É importante sublinhar também a estreita relação de Santos com as autoridades de Israel e seus serviços de segurança. O ex-general Israel Ziv foi levado a Colômbia por Santos -que viajou várias vezes a esse país do Oriente Próximo- pela soma de dez milhões de dólares para assessorar os serviços de inteligência. "Israel Ziv ex-comandante do regimento de Gaza é o homem de mais alta patente entre os oficiais israelitas que ocupam tarefas relacionadas com o treinamento de pessoal no governo colombiano. Os nexos militares entre Israel e Colômbia datam do primeiro lustro de 1980, quando um contingente de soldados do Batalhão Colômbia...'Uns dos piores violadores dos direitos humanos no hemisfério ocidental, receberam treinamento no deserto do Sanai de alguns dos piores violadores dos direitos humanos no Meio Oriente', segundo o investigador estadunidense Jeremy Bigwood"(6)

Em outubro de 1997, Manuel Santos já tinha demonstrado sua falta de escrúpulos. Se reuniu com os três principais chefes paramilitares para propor-lhes que participaram de um golpe de Estado contra o presidente liberal Ernesto Samper (proposta que também foi feita por ele às guerrilhas das FARC e ELN). Um deles, Salvatore Mancuso, ratificou esse convite pouco tempo atrás ante juízes estadunidenses e colombianos, desde um cárcere nos EUA (7) para onde foi extraditado em maio de 2008, junto a outros 14 chefes paramilitares, por tráfico de drogas, atividade que financia o paramilitarismo (8). Foram enviados para lá, porém seus crimes eram de lesa humanidade e isso prima por sobre outros delitos. Dessa fora, se evitou que os colombianos soubessem de primeira mão a responsabilidade do Estado com o paramilitarismo.

Em setembro de 2008 o jornalista venezuelano José Vicente Rangel disse sobre Santos: "É o homem do Pentágono na política colombiana. Tem adquirido força à sombra de Uribe e, hoje é possível dizer que supera ao próprio Uribe"(9)

Santos foi um seguidor da linha dura do ex-presidente George Bush, sobre a "guerra preventiva "contra outras nações, alegando legítima defesa.

Por isso violou a soberania do Equador quando atacou militarmente um acampamento guerrilheiro onde morreu um cidadão equatoriano, razão pela qual um juiz desse país formulou ordem de captura internacional contra Juan Manuel Santos com fins de extradição. Essa decisão foi suspensa o dia 30 de agosto de 2010. Em abril de 2010, sendo candidato à presidência declarou que estava "orgulhoso" pela realização dessa ação militar em território equatoriano. O presidente desse país, Rafael Correa manifestou: "Santos não tem entendido que em América Latina, já não há espaço para aspirantes a emperadorzinhos". Pela sua parte Hugo Chávez alertou: qualquer agressão contra Equador, Bolívia, Cuba ou Nicaragua "será um ataque contra Venezuela". O presidente boliviano, Evo Morales, considerou Bogotá "sub-servente e obediente ao governo dos EUA"

Aquilo que deixou em tensão a região foi o acordo militar com Washington, assinado em outubro de 2009 onde Colômbia permitia a utilização de 7 bases militares. Mas, a dez dias de iniciado o mandato de Santos, a Corte Constitucional declarou esse acordo "inviável". Foi um duro golpe para o presidente. Consuelo Ahumanda professora universitária em Bogotá, baseada nos documentos divulgados em Wikileaks, escreveu: "Resulta muito comprometedor o papel do então ministro da defesa, Juan Manuel Santos, quem manteve sempre a posição mais dura, no respaldo a Uribe, diante de uma mais diplomática proposta pelo Chanceler. Santos e Uribe apoiados por Washington estavam dispostos a incursionar de novo nos países vizinhos para atuar contra as FARC (....) Não eram infundados os temores dos governantes sul-americanos sobre o alcance regional do acordo da Colômbia com os EUA (10)

Mas, para surpresa de todos, com a presidência em mãos, Santos passou de ser falcão para se converter em pomba. Seu ato mais inaudito foi chamar de "meu melhor amigo" ao presidente Chávez e, reativar em tempo recorde as relações com Venezuela e Equador. Segundo Sérgio Rodríguez, catedrático venezuelano: A ruptura com Venezuela e Equador tinha deixado para Colômbia perdas de mais de sete bilhões de dólares no ano de 2009. E Santos faz parte dessa oligarquia reacionária mas pragmática, com poderosos interesses corporativos a serem defendidos".

Paralelamente, Santos segue robustecendo os laços com Washington. Em 30 de janeiro passado o ministro da defesa, Rodrigo Rivera viajou a Washington com o objetivo de "aprofundar a relação em matéria de defesa e segurança com os EUA. "Foi recebido pelo seu homólogo Robert Gates, assim como pelo chefe do Comando Sul, o sub-secretário para os Assuntos de Segurança das Américas e o diretor adjunto da CIA. Forças de contra insurgência colombianas participarão na guerra do Afeganistão. As despesas serão assumidas pelos EUA e Espanha. Os comandos estarão alojados nos batalhões espanhois e, sem que Colômbia seja membro dessa coalição, estarão sob a bandeira da OTAN.

O mesmo primeiro dia que o ministro Rivera chegava nos EUA, Colômbia ingressava no Conselho de Segurança da ONU por dois anos. A candidatura de Bogotá havia sido impulsionada por Washington e Paris. Por isso não foi casual que em 24 de janeiro o presidente colombiano aproveitou para se dedicar a vender os recursos naturais de seu país e também os de América Latina, porque "tem o que, nesse momento, o mundo está pedindo: petróleo, por exemplo.

Seu jornal El Tiempo, publicou nessa oportunidade: “Santos deu esta semana um novo passo para converter-se no líder latinoamericano que quer ser.”

* Jornalista. Autor de El Equipo de choque de la CIA, El Viejo Topo, Barcelona, 2010.

© LMD EN ESPAÑOL MARZO 2011. http://www.monde-diplomatique.es/?u...

Notas:

(1) www.movimientodevictimas.org... content&task=view&id=274&Itemid=69

(2) www.telesurtv.net/noticias/s... mas-de-38-mil-personas-desaparecidas-en-tres-anos/

(3) www.publico.es/internacional... adaveres

(4) Radio Nederland, Amsterdam, 26 de agosto de 2010.

(5) El País, Madrid, 30 de enero de 2011.

(6) José Steinsleger, “Israel en Colombia”, La Jornada, México, 12 de marzo de 2008.

(7) El Espectador, Bogotá, 21 de abril de 2010.

(8) Hernando Calvo Ospina, Colombia, laboratorio de embrujos. Democracia y terrorismo de Estado, Akal, Madrid, 2008.

(9) VTV, Caracas, 17 de octubre de 2008.

(10) El Tiempo, Bogotá, 12 de enero de 2011.

segunda-feira, 14 de março de 2011

FARC-EP: "DESDE AS TRINCHEIRAS"


Uma eleição sob suspeita de fraude

Às duas horas da tarde do dia da eleição presidencial, os meios de comunicação, desconcertados, registravam a pequena afluência das pessoas às urnas e atribuíam a "anomalia" ao inverno e à Copa do Mundo. Três horas depois, Santos resultou ser eleito com a maior votação da história da Colômbia. Apesar disso, nenhum meio de desinformação estava interessado em indagar mais sobre esse prodígio.

Santos, o empresário da manipulação

Para governar a Colômbia e escolher o destino de um país que está a caminho dos protestos e da mobilização social em meio da escalada do conflito armado, o presidente Juan Manuel Santos, colocou todas as suas esperanças na manipulação da mídia, sua mais conotada especialidade. Ao menor movimento de sua batuta, a imprensa, o rádio e a televisão, uniformemente, reproduzem a mesma nota no obsoleto pentagrama do engano. Jogam ao vento uma mentira e, em minutos, é verdade inquestionável repetida por todos os meios de desinformação. O que dizem dois ou três analistas comprados, certos diretores de noticiários e colunistas de jornal transformam da noite para o dia na "opinião do país", enquanto aos adversários políticos se lhes impõe a mordaça.

O falso paladino dos direitos humanos

O então "ministro dos falsos positivos”, agora presidente Santos, envia seus porta-vozes da hipocrisia para jurar perante o Tribunal Penal Internacional, que seu governo tornou-se, milagrosamente, no mais brilhante paladino dos direitos humanos. Mas, na Colômbia, continuam os assassinatos de sindicalistas, e a barbárie semeada na periferia com as explosões do Plano Patriota e o rugir da máquina de guerra continua a matar camponeses, despojando, bloqueando regiões e promovendo o deslocamento forçado. O tema da aterradora vala comum de La Macarena com 2000 cadáveres foi despachado olimpicamente pelo ministro da Defesa, na sua intervenção perante o Congresso dizendo que, segundo a Promotoria Geral da Nação, o número de civis mortos não é de 2000, mas de 400. Mesmo que fosse apenas um, não deixa de ser um crime de lesa-humanidade imputável ao Estado, mas a Procuradoria fala de centenas. Piedad Córdoba tem razão: a Colômbia é uma enorme vala comum. E o problema é que a impunidade impera sobre a Colômbia pela vontade de seus governantes.

As BACRIM, um nome para lavar o rosto paramilitar do governo

Juan Manuel Santos é o autor intelectual da mudança de nome dos grupos paramilitares para BACRIM (Bandos Criminais). Com esta prestidigitação de rótulos acredita interpor distâncias com o paramilitarismo que surgiu como estratégia contra insurgente do Estado. Isso não é suficiente para lavar o rosto do governo; é cinismo elevado ao infinito, manobra de vôo curto. Não poderá ser apagada da memória coletiva que o governo deu carta branca aos paramilitares para financiar suas atividades criminosas através do tráfico de drogas. A Corte Suprema de Justiça continua a capturar parlamentares uribistas e santistas no âmbito do vergonhoso processo da parapolítica.

O Governo de Unidade Nacional da direita

A política de unidade nacional promovida pelo governo do presidente Santos é a unidade da direita e dos investidores nacionais e estrangeiros contra o povo pobre da Colômbia, uma realidade que não pode se ocultar com mudanças de palavras. A política criminosa de Segurança Democrática de Uribe, agora é chamada de "prosperidade democrática". Um insulto à razão. Essa "prosperidade" dos empresários nunca chegará a 70 por cento dos colombianos submersos na pobreza e miséria. Cinco meses de mandato foram suficientes para comparar com a realidade a previsão de que seu propósito era o aprofundamento do neoliberalismo, o aprimoramento dos métodos de acumulação capitalista. A prosperidade se refere à progressão dos lucros das elites, do setor de investimentos, dos banqueiros e dos grandes empresários imprimindo uma nova dinâmica à exploração dos hidrocarbonetos, da mineração, do agronegócio e das exportações. Seu objetivo é a estabilidade macroeconômica, e demagogia sobre os direitos sociais.

As inundações de demagogia

Mais de dois milhões de colombianos foram afetadas pelas chuvas de inverno e o governo acabou de afogá-los com um dilúvio de promessas. Nada do prometido foi cumprido. Santos segue a mesma linha de Uribe de ordenar soluções dos problemas através de microfones e câmeras, mas não passa disso. A farsa inclui rasgo de seda e a ordem mediática que engana os incautos. Nenhum município foi reconstruído ou recolocado. Em muitas vilas do departamento de Atlântico, ainda sob as águas, o Estado, surpreendentemente, permite que empresas privadas cobrem pelos serviços de água e luz. A única coisa que move o governo é a reconstrução das rodovias através das quais fluem as exportações e importações do país.

A Lei de Terras e reparação das vítimas

A Lei de Terras até agora é uma ladainha de truques que, em breve, mostrará sua real intenção de apropriação de territórios com vistas à mineração, energia, agroindústria e produção de biocombustíveis. A Lei apresentada ao Congresso é um arremedo de reforma agrária que não tocará na estrutura latifundiária existente. Por isso, o debate não pretende ouvir as organizações camponesas e indígenas, nem as minorias étnicas ou as organizações insurgentes. Somente se ouvirá, no excludente semicírculo do parlamento, a voz do latifúndio e dos industriais agrícolas com "músculo financeiro". Quanto á reparação das vitimas, sequer aparece a responsabilidade fundamental do Estado na violência que assola o país desde 1948. As vítimas do genocídio político da União Patriótica foram inexplicavelmente excluídas.

Cada camponês colombiano será um “Juan Valdéz”

Juan Manuel Santos prometeu em sua posse como Presidente da República, em 07 de agosto, como uma solução para a pobreza rural: “Converterei cada camponês em um prospero Juan Valdéz”, disse, ele com carregado sotaque. Juan Valdéz? Sim, o impecável arrieiro de café daquela propaganda do Café da Colômbia com sua famosa mula e carga de café, poncho, avental, bornal e o vistoso chapéu. Bela imagem, imagem dos sonhos... O mais provável é que não se referia aos camponeses em geral, mas aos exportadores de grãos. Amanhecerá e veremos.

A libertação unilateral de prisioneiros e as coordenadas

A libertação unilateral de seis prisioneiros de guerra pelas FARC, foi um justo desagravo para a senadora Piedad Córdoba, perseguida pela Procuradoria-Geral e pela matilha uribista. A posição do governo diante este fato foi muito mesquinha, pois deveria ter sido aproveitado para criar um ambiente favorável para a paz, para a solução política. Mas Santos ficou enevoada e seu porta-voz Pizarro parecia um energúmeno. Graças a isso, o mundo pôde ver o urso de um presidente contrariado pela liberação de um vereador de paletó e gravata. Se tivesse sido liberado em camisa pólo, mesmo assim o teria criticado. Fora de lugar, completamente fora de lugar tentando silenciar o eco das liberações divulgando supostos e-mails que, segundo o presidente, comprovariam a utilização política dessas liberações por parte da guerrilha. Mais do que um presidente, Santos parecia uma versão macondiana de Julian Assange do Wikileaks. O incidente das coordenadas deveria ter sido resolvido de acordo com o protocolo assinado pelo governo e pelo CICV, poupando escândalos e birras desnecessárias como as de Pizarro e do próprio presidente. Por que não dizem que as coordenadas eram as mesmas que Piedad tinha desde o inicio? Por que não perguntam ao major Solórzano e ao cabo Sanmiguel se era verdade que, na última hora, foram transferidos de El Tolima até El Valle del Cauca? Nunca houve má-fé na guerrilha, que teve má fé foi o governo. Uma curiosidade: Por que o governo não permite aos militares e policiais recém liberados falar com a imprenas? Somente o permite após tê-los treinado com a cartilha anti FARC elaborado pela inteligência militar.

As liberações a conta gotas

As liberações de prisioneiros de guerra materializadas pelas FARC, são gestos unilaterais que visam a criação de ambientes propícios para desencadear o acordo de troca de prisioneiros e limpar o caminho da solução política do conflito. As FARC libertaram unilateralmente mais de 300 prisioneiros de guerra em seu poder, mas seus gestos nunca foram correspondidos com reciprocidade por parte do governo. Através da mídia, por ordem do Estado, os guerrilheiros presos ficam invisíveis. O governo se queixa das liberações a “conta gotas”. Está bem, para deixar sem motivos essas queixas, acordemos então a troca de prisioneiros de guerra. O problema é que o governo atravessa todos os obstáculos existentes e por existir a essa eventualidade. Diz-se que alguns prisioneiros nas montanhas já levam 13 anos de cativeiro, mas se omite que há guerrilheiros condenados a 60 anos de prisão, e outros, extraditados pela perfídia do regime aos EUA. O Congresso, que colocou todos os obstáculos legais para a liberação de guerrilheiros, ao desvirtuar com suas leis o delito político de rebelião, esfumaçando suas conexidades, deve começar a estudar uma forma de como removê-los com novas leis. E eles o podem fazer, porque uma lei se derruba com outra lei.

Santos, o matador

Muito estúpido o anuncio de Santos de que matará a Alfonso Cano da mesma forma como matou o comandante Jorge Briceño. Cego pela arrogância do poder, Santos diz que já está respirando na sua nuca... Há alguns meses assegurou que havia eliminado a Fabián Ramirez, e tudo indica que ainda não pode provar isso. Dando uma de durão, montado sobre um barril de pólvora social e balançando pela crise sistêmica do capital e sem nenhuma esperança de derrotar a guerrilha, anunciou, com cara de bravo, que as portas do diálogo com as FARC estão fechados. Coloque os pés no chão senhor Juan Manuel. Lembre-se que em 2010 as FARC causaram 4.371 baixas à força pública, muito mais do que as sofridas pelos EUA e a OTAN no Afeganistão. E lá na terra do Taliban, os Estados Unidos estão pedindo uma solução política. Evite o ridículo de focar a possibilidade de um diálogo com as FARC como se fosse uma concessão, um favor, uma dádiva. Menos presidente, menos por favor.

"O presidente da Paz"

Santos tem exteriorizado que quer entrar para a história como o "presidente de paz", propósito muito louvável. As FARC, por ordem das suas Conferências Guerrilheiras, tem na solução política do conflito, a sua principal bandeira estratégica. Temos manifestado reiteradas vezes que estamos dispostos a retomar a Agenda de Doze Pontos, acordada com o governo nacional em El Caguán. Pelos seus últimos pronunciamentos públicos, parece que Santos quer a paz, mas pela via militar. Em várias reuniões com os altos mandos, em Cali, têm-lhes pedido, desesperadamente, resultados contra Alfonso Cano. Quer ser "presidente de paz", mas matando Alfonso Cano. E, através do seu interlocutor, Angelino Garzón, anuncia que não vai iniciar um diálogo com a insurgência, se esta não manifestar previamente a sua disponibilidade para a desmobilização e entrega das armas, se não renunciar ao uso de explosivos durante a guerra, etc. Quer dizer, o que ele quer é uma rendição antes de chegar à mesa de negociação, sem que se fale do fim dos privilégios da oligarquia, nem do cambio radical das injustas estruturas política, econômicas e sociais que motivam o levantamento. Nesse ritmo será muito difícil entrar para a história como “presidente da paz”. Persistindo nesse enfoque, o máximo que conseguirá, será passar para a história como o “presidente dos falsos positivos”.

Quem tem medo da democracia no Brasil?



Por Emir Sader.

O Brasil saiu da ditadura política, mas as transformações estruturais que poderiam democratizar o país nos planos econômico, social e cultural, não foram realizadas. O governo Sarney representou essa frustração, essa redução da democratização aos marcos liberais da recomposição do Estado de Direito e dos processos eleitorais.

Em seguida o país foi varrido pelas ondas neoliberais – com os governos de Collor, Itamar e FHC – sofrendo graves retrocessos no plano econômico – com a retração do Estado, com a abertura da economia, com as privatizações –, no plano social – com o retrocesso nas políticas sociais, com a expropriação de direitos da maioria, a começar pela carteira de trabalho –, no plano politico – com o poder do dinheiro corrompendo os processos eleitorais – e no plano cultural – com a consolidação dos grandes monopólios privados da mídia, que concentraram nas suas mãos a formação da opinião pública.

Foi nesta década que esse processo começou a ser revertido e o Brasil pôde retomar seu processo de democratização. No plano econômico, com o Estado retomando seu papel de indutor do crescimento promovendo o acesso ao crédito a pequenas e médias empresas, com a expansão do mercado interno de consumo popular. No plano social, com a incorporação, pela primeira vez, das grandes maiorias de menor renda ao mercado de consumo e à possibilidade de ter formas de atividades econômicas rentáveis e sustentáveis. No plano político, quebrando o controle das elites mais atrasadas sobre as massas de regiões periféricas do país, com a participação nas políticas governamentais e nos processos eleitorais dos movimentos populares e dos setores até então marginalizados e subordinados politicamente. E no plano cultural, com alguns avanços, como a descentralização das publicidades governamentais, com o surgimento e fortalecimento de mídias alternativas – especialmente da internet –, assim como com um discurso que levanta a autoestima do país, quebra preconceitos em relação ao papel da mídia privada e de comportamentos egoístas da elite brasileira.

Mas as resistências não se fizeram esperar. As pressões para que o Brasil mantenha a taxa de juros mais alta do mundo, que atrai capital especulativo – que não cria nem riquezas, nem empregos, que ajuda a desequilibrar a balança comercial, entre tantos problemas – continuam fortes. Esse mecanismo impede a democratização econômica do país, porque concentra nas mãos do sistema financeiro a maior quantidade de recursos, com taxas de juros altas dificulta o acesso ao crédito, monopoliza recursos do Estado para o pagamento da dívida pública. O PAC é o grande instrumento de reconversão da hegemonia do capital especulativo para o capital produtivo, mas ele corre contra a atração da alta taxa de juros. A democratização econômica requer terminar com essa atração do capital, pela alta taxa de juros, para o setor financeiro.

A democratização social encontra obstáculos nos que se opõem à integração plena dos setores até aqui completamente marginalizados. A democratização social tem seus principais obstáculos nos que lutam para bloquear a expansão dos recursos para as políticas sociais que promovem os direitos de todos e nos preconceitos que continuam a ser difundidos contra os mais pobres e os habitantes das regiões até aqui marginalizadas do país.

A democratização política se choca com os que se opõem a uma reforma política que faça com que as campanhas se apoiem exclusivamente em financiamento publico e em votos por lista, que favorecem o fortalecimento ideológico e político dos partidos. Mas encontra obstáculos também nos partidos e movimentos populares que não se dedicam a apoiar a organização dos setores que chegam agora a seus direitos econômicos e sociais básicos, seja os que estão integrados ao Bolsa Família, seja a cooperativas e pequenas empresas, seja a programas como os Pontos de Cultura e outros similares.

A democratização cultural significa que as distintas identidades do povo brasileiro possam construir seus próprios valores para orientar suas vidas, suas próprias formas de expressão cultural, possam ter acesso às múltiplas formas de cultura. Que possa se libertar dos modelos de consumismo importados e difundidos pela mídia comercial, pela publicidade massiva, pelos valores divulgados pelos representantes dos grandes monopólios.

Significa o direito de ter acesso livre e universal à internet, possa ter acesso à cultura como bem comum, que possa ter acesso a livros, a músicas, a pinturas, a peças de teatro, a filmes, a todas as formas de cultura e que tenha possibilidades de produzir suas próprias formas de expressão.

A democratização cultural enfrenta obstáculos na gigantesca máquina de interesses econômicos privados dos monopólios que dominam a mídia, o setor editorial, o audiovisual. Enfrenta ainda os setores mercantis que tentam dominar e controlar a livre produção e consumo culturais, as corporações que se apropriam dos recursos fundamentais das obras artísticas, incentivando ainda mais o poder econômico sobre a esfera cultural. Só mesmo um imenso processo de democratização da cultura poderá fazer do Brasil um país realmente independente, soberano, justo, plural.

Quem tem medo da democracia no Brasil? As elites, que fizeram do nosso país o mais desigual do mundo, e agora se ressentem da inclusão social dos que sempre foram postergados, discriminados, humilhados, ofendidos, marginalizados. São os que sempre tiveram todos os privilégios e acreditavam que o país era deles, que o Brasil era das elites brancas e ricas.

Quem tem medo da democratização tem medo dos trabalhadores, que produzem as riquezas do Brasil. Tem medo dos trabalhadores sem terra, que querem apenas acesso à terra no país com maior área cultivável no mundo, importa alimentos, mas mantém milhões de gente no campo sem acesso à terra. Tem medo dos jovens, que não leem jornais, mas leem e escrevem na internet, irreverentes, que lutam pela liberdade de expressão e de formas de viver, em todas as suas formas. Tem medo dos intelectuais críticos e independentes, que não tem medo do poder dos monopólios e da imprensa mercantil e suas chantagens. Tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum. Tem medo dos nordestinos pobres que, como Lula, não se rendeu à pobreza e à discriminação e se tornou o presidente mais popular do Brasil. Tem medo de que todos eles queiram ser como o Lula.

Quem tem medo da democracia no Brasil tem saudade da ditadura, quando detinha o monopólio da palavra, conversavam e elogiavam os militares no poder, sem que ninguém pudesse contestá-los publicamente. Os que têm saudades do Brasil para poucos, da elite que cooptava intelectuais para governar em nome dela.

Quem não tem medo da democracia no Brasil não tem medo de nada, porque não tem medo do povo brasileiro

domingo, 13 de março de 2011

Dois terremotos

Um forte terremoto de magnitude 8,9 estremeceu hoje o Japão. O mais preocupante é que as primeiras notícias falavam de milhares de mortos e desaparecidos, cifras realmente inusitadas em um país desenvolvido onde tudo se constrói à prova de terremotos. Inclusive, falava-se de um reator nuclear fora do controle. Horas depois se informou que as quatro usinas nucleares próximas à região mais afetada estavam sob controle. Informava-se igualmente sobre um tsunami de 10 metros de altura, que provocou alerta de maremoto em todo o Pacífico.

O sismo se originou a 24,4 quilômetros de profundidade e a 100 quilômetros da costa. Se tivesse sido produzido a menos profundidade e distância, as consequências teriam sido mais graves.

Houve deslocamento do eixo do planeta. Foi o terceiro fenômeno de grande intensidade em menos de dois anos: Haiti, Chile e Japão. Não se pode culpar o homem por tais t tragédias. Cada país, seguramente, fará o que esteja a seu alcance para ajudar esse laborioso povo que foi o primeiro a sofrer um desnecessário e desumano ataque nuclear.

Segundo o Colegiado Oficial de Geólogos da Espanha, a energia liberada pelo abalo sísmico equivale a 200 milhões de toneladas de dinamite.

Uma informação de última hora, transmitida pela AFP expressa que a companhia elétrica japonesa Tokyo Electric Power comunicou : “De acordo com as instruções governamentais, liberamos parte do vapor que contém substâncias radiativas…” “Acompanhamos a situação. Até o momento não há problema…” “Também se assinalavam desarranjos relacionados com o resfriamiento em três reatores de uma segunda central próxima, Fukushima 2. “O governo ordenou a evacuação das regiões circundantes em um raio de 10 km no caso da primeira central de 3 km no caso da segunda.”

Outro terremoto, de caráter político, potencialmente mais grave, é o que tem lugar em torno da Líbia, e afeta de um modo ou outro todos os países.

O drama que vive esse país está em pleno auge, e seu desenlace ainda é incerto.

Ontem aconteceu um grande corre-corre no Senado dos Estados Unidos quando James Clapper, diretor nacional de Inteligência, afirmou no Comitê de Serviços Armados: “Não creio que Kadafi tenha alguma intenção de ir embora. Pelas evidências de que dispomos, parece que se está instalando um processo de longa duração.”

Agregou que Kadafi conta com duas brigadas que “são muito leais” . Assinalou que “os ataques aéreos do Exército fiel a Kadafi destruíram ‘principalmente’ edifícios e infra-estructura, mais do que causar baixas entre a população”.

O tenente-general Ronald Burgess, diretor da Agência de Inteligência de Defesa, na mesma audiência ante o Senado disse: “Kadafi parece que ‘vai seguir no poder, a menos que outra dinâmica mude o momento atual’.”

“A oportunidade que os rebeldes haviam tido no começo do levantamento popular ‘começou a mudar’”, assegurou.

Não abrigo nenhuma dúvida de que Kadafi e a direção líbia cometeram um erro ao confiar em Bush e na Otan, como se pode deduzir do que escrevi na Reflexão do dia 9.

Tampouco duvido das intenções dos Estados Unidos e da Otan de intervir militarmente na Líbia e abortar a onda revolucionária que sacode o mundo árabe.

Os povos que se opõem à intervenção da Otan e defendem a ideia de uma solução política sem intervenção estrangeira, abrigam a convicção de que os patriotas líbios defenderão sua Pátria até o último alento.

Fidel Castro Ruz
11 de março de 2011, às 22h12

Fonte: Cubadebate

quinta-feira, 10 de março de 2011

Opositores assassinam partidários de Khadafy a sangue frio depois de presos e revolta até aliados. EUA contrata mercenários da Halliburton e Blackw

A primeira vítima em uma guerra é a verdade......

Rede Noticias Interprensa - Sucursal Brasil

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A Rede de Noticias dos Movimentos Sociais e

Organizações Populares da América Latina


Por KHATARINA GARCIA e PETER BLAIR.

De WASHINGTON e BENGAZHI - REDE MUNDO \ MIDIA LATINA; 06.03.11. Depois de quase um mês onde duas guerras se realizam na Libia, uma interna, entre khadafystas e opositores do líder revolucionário, e uma no ocidente através da mídia, com o controle total das noticias pela Casa Branca e somente indo ao ar ou tendo imagens liberadas após filtragem do Pentágono ou do Departamento de Estado, a situação começa a mudar no mais emblemático país do norte da África.

Após a exibição pela TV líbia e ainda a reprodução pela Telesur e da Internet de imagens do assassinato de 212 partidários do Coronel Muammar Khadafy, em Bengazhi, mortos a sangue frio, depois de terem sido presos e sem qualquer resistência por seus opositores, o mundo árabe e membros da oposição começam a desistir de lutar contra Khadafy, considerando que já existem grandes divisões no meio dos opositores pela aliança feita por alguns setores com os EUA, inimigo histórico dos povos árabes e que inclusive bombardearam o país matando milhares de líbios.

Outro escândalo que ronda Washington é a participação de mercenários contratados pelo Pentágono, através da Halliburton e da Blackwater para participarem das batalhas na região de Cerenaica, em especial Bengazhi e Trobuk ao lado dos opositores que começam a perder terreno para os simpatizantes de Khadafy. A missão dos mercenários que ficariam sob controle da CIA, Agência Central de Inteligência e até executariam ações secretas com a aliada Al-Qaeda de Bin Laden, contra Khadafi seria manter o controle dos poços de petróleo já sob controle da oposição na região de Bengazhi.

O serviço secreto russo confirmou ontem através de Nicolai Patrushev, que na verdade o que está existindo é um verdadeiro bombardeio da mídia internacional contra Kadhafi, pois a Russia controla totalmente o espaço aéreo do norte da África e cem por cento da Líbia e que os aviões que supostamente levantaram vôo para executar os bombardeios contra o povo líbio não saíram do chão e portanto não executaram qualquer ação militar; que somado a isso, por não existirem imagens de qualquer vôo, configura uma armação do Pentágono. O Secretário de Defesa do EUA admitiu o erro das informações dizendo que podem ter sido outros aviões, mas setores independentes da mídia internacional já haviam colocado a entrevista dos russos no ar e assim desmoralizado a ação do Pentágono.

O ministro das Relações Exteriores da Libia, Mussa Kosa, em nota distribuida à imprensa mundial, apoiou a proposta do Presidente da Venezuela Hugo Chavez, da formação de uma Comissão Internacional de Paz, afirmando ainda que o Coronel Muammar Khadafy sugeriu também que a Comissão de Direitos Humanos da ONU venha à Libia e faça a investigação que desejar e não que tome qualquer decisão com base em informações da mídia comprometida com o complexo industrial militar norte americano.

Ontem um dos principais líderes da oposição a Kadafi, Khaled Maassou, na região de Cerinaica, confirmou que estava desistindo da luta por não concordar com a participação de mercenários e militares norte americanos em território líbio contra Kadhafi , e que em nenhuma situação irá contribuir com a CIA, que agora começa a assumir com a Al Qaeda o comando da situação na região de Cirenaica.

Quanto a decisão da ONU de congelar os bens de Kadhafi e seus familiares no exterior, Maassou afirmou que é uma medida inócua pois Kadhafi não tem bens no exterior e que a ele interessa é o poder, e não o dinheiro. Que o problema de Khadafy não é corrupção, pois ele não é corrupto, o problema de Kadhafi é o autoritarismo e a necessidade de alternância de poder que ele não entende.

Ontem um grupo de palestinos simpatizantes de Kadhafi foi expulso da região de Bengazhi porque se recusavam a lutar contra o líder líbio.

Toda a região de Fezzan, que compreende as cidades que vão de Sabha a Al Kufrah e praticamente toda a Tripolandia, estão sob controle das forças leais a Kadhafi. Apenas parte da região de Cirenaica, no extremo norte, está sobre controle dos opositores.


FONTES – AGNOT3ºMUNDO – REDE MUNDO – INTERPRESS – MIDIA LATINA – 06.03.11.

PETER BLAIR, de Washington e KHATARINA GARCIA, de BENGAZHI\Libia.

EQUADOR: A REVOLUÇÃO “CIDADÔ E OS COMUNISTAS

Ivan Pinheiro (*)

Estive recentemente em Quaiaquil, representando o PCB no XV Congresso do PCE (Partido Comunista del Equador), fundado em 1926. Debateram-se no Congresso principalmente o programa e o estatuto do Partido, sem deixar de lado as questões táticas e estratégicas, que incidem sobre os temas principais.

O momento mais emocionante da abertura foi a homenagem ao jovem Edwin Perez, ex Secretário Geral da JCE (Juventude Comunista do Equador), assassinado recentemente por um ativista de direita, em meio a uma eleição do movimento estudantil.

O PCE tem um peso razoável no movimento de massas. Dirige uma das quatro centrais sindicais (CTE - Confederação dos Trabalhadores do Equador); tem presença importante na FEI (Federação Equatoriana de Indígenas) e na Frente Unida de Mulheres e mantém a JCE (Juventude Comunista do Equador);

O PCE não tem registro eleitoral, em razão das dificuldades impostas pela legislação.

Impressionei-me com as possibilidades e perspectivas do PCE, em fase de reconstrução, como o PCB e outras organizações revolucionárias.

Chamou-me particularmente a atenção uma importante presença proletária entre os delegados, assim como de militantes sindicais e sociais, jovens, indígenas e mulheres. Como em quase todos os Partidos Comunistas da América Latina, os dois maiores contingentes, por faixa etária, são o de militantes jovens, com menos de 30 anos, e daqueles com mais de 60 anos. Isto tem a ver com as sangrentas ditaduras dos anos sessenta a oitenta na região, clandestinidades dos Partidos Comunistas, as divisões entre os comunistas e as vicissitudes por que passou a construção do socialismo na União Soviética e no Leste Europeu.

Os debates se deram num ambiente unitário e fraterno, com as divergências sendo expostas com a firmeza e o respeito próprios dos comunistas, sem grupos, tendências.

O papel da juventude na reconstrução do PCE me pareceu decisiva, inclusive na calibragem da tática e da estratégia. Os comunistas mais jovens não conviveram com alguns problemas e deformações que foram comuns à maioria dos Partidos Comunistas do chamado MCI (Movimento Comunista Internacional), sob a liderança do PCUS (Partido Comunista da União Soviética).

Apesar do saldo histórico altamente credor desses Partidos na luta pelos direitos do proletariado, contra o colonialismo, o nazi-fascismo e o imperialismo, pelo socialismo, eles conviveram com o culto à personalidade, o burocratismo, os manuais, o acento exagerado nas alianças com as chamadas burguesias nacionais e a necessidade de colocarem a luta pela paz mundial na ordem do dia, em nome da preservação da União Soviética.

Seria temerário tentar fazer aqui uma análise mais consistente da atualidade equatoriana. Em geral, o PCB conhece muito pouco do Equador, principalmente pelo fato de que nossa presença neste XV Congresso marcou a retomada das relações bilateriais entre nossos Partidos que sempre foram distantes, como o são as relações entre os dois países de uma forma geral, talvez pela falta de fronteiras e de relações sociais e culturais mais fortes.

Mas saí com a impressão de que o PCE adota uma postura correta frente à realidade de seu país, que é bastante distinta da do Brasil, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento das forças produtivas e, portanto, do capitalismo, e do caráter do governo federal.

A economia equatoriana - sustentada basicamente na exportação de petróleo, frutas, flores, pescado e grãos - tem uma grande dependência ao imperialismo, sobretudo o norte-americano, gerando importantes contradições não só com o proletariado, mas também com setores da pequena e média burguesia. No Brasil, estas contradições não têm o mesmo peso, em face de um capitalismo altamente desenvolvido e integrado ao sistema imperialista, como parte dele, ainda que de forma subalterna, conjugando disputa e subordinação.

As condições equatorianas guardam semelhança, por exemplo, com as da Bolívia e da Venezuela, países em que há espaço para revoluções nacionais democráticas com conteúdo anti-imperialista, antimonopolista e antilatifundiário.

Assim como nos parece correto os comunistas participarem, com independência política e criticamente, dos processos de mudanças na Bolívia e na Venezuela, parece correto o fazerem no Equador, mesmo que o processo nesse país ainda não apresente o mesmo grau de radicalidade. Aliás, nesses três países os comunistas participam e lutam pela radicalização do processo de mudanças, mas não ocupam cargos nos governos e nem os defendem acriticamente, levantando bem alto a bandeira do socialismo.

O longo discurso do Ministro das Relações Exteriores do Equador no Congresso do PCE foi muito importante para compreender o significado da expressão “revolução cidadã”, usada pelo governo Rafael Correa. Trata-se de um reformismo assumido. Baseia-se no que chamam de “socialismo do bem viver”, que basicamente propõe a harmonia do homem com a natureza (a Pacha Mama), com fundamento em princípios éticos e humanistas, conceitos como “comércio justo”, defesa das cooperativas, pequenas e médias empresas, agricultura familiar etc. Apresentam este processo como um socialismo novo, o socialismo do século XXI. Na Bolívia, o discurso é semelhante, se bem que Evo Morales verbaliza a luta pelo fim do capitalismo e não subestima a base de sustentação política que lhe assegura o movimento de massas.

Mas o que chama atenção no Equador é a violência da direita política contra o governo. Como na Venezuela, a mídia burguesa é o maior partido de oposição, coadjuvado pelas associações empresariais, partidos conservadores e ONGs financiadas pela USAID, sob a direção da embaixada norte-americana.

Afinal de contas, Rafael Correa, apesar de limitações, promoveu algumas mudanças. Começou com uma auditoria da dívida externa, que reconheceu apenas 30% do total até então cobrado pelos credores. Através de uma Constituinte livre e soberana, independente do parlamento, propiciou uma nova constituição (promulgada em julho de 2008), avançada em termos de direitos sociais. Determinou a retirada da grande base militar dos EUA que era localizada em Manta. Não se curvou ao estado terrorista colombiano quando este invadiu o espaço aéreo do Equador para assassinar covardemente o comandante Raul Reys (das FARC) e outros militantes, numa ação em parceria com a CIA e a Mossad.

Correa também vem estatizando gradualmente a indústria petroleira, com a criação de um novo marco regulatório, em que o Equador retoma sua soberania sobre parte de suas riquezas e usufrui de seus rendimentos. Isto levou empresas estrangeiras a se retirarem do país, inclusive a Petrobrás, que passa a falsa ideia de se tratar de uma empresa estatal brasileira, mas que tem a maioria de suas ações em mãos privadas, vendidas na Bolsa de Nova Iorque, e que se comporta como qualquer multinacional.

Neste novo marco, a atual estatal PETROEQUADOR vai se dedicar apenas à gestão da política governamental para o setor. Estão sendo criadas mais duas estatais, a PETROAMAZONAS - que vai operar os campos de petróleo, inclusive na área que resultou da expulsão da empresa norte-americana OXY – e a PETROPACÍFICO, que ficará responsável pelo refino e comercialização dos derivados do petróleo.

No mesmo sentido, o Equador mudou a forma subalterna e corrupta com que os políticos burgueses tradicionais se relacionavam com empreiteiras estrangeiras, o que levou inclusive à expulsão do país da Odebrecht, a mais famosa empreiteira brasileira na América Latina, alavancada pelo governo Lula, através de um banco de fomento estatal.

Mas a mais grave transgressão aos ditames e interesses do imperialismo foi o país ter sido um dos fundadores da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), juntamente com Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua. Para se ter uma ideia, a adesão à ALBA – que vem promovendo uma integração soberana e anti-imperialista entre os países da região – foi o principal motivo do golpe em Honduras.

Agora mesmo o governo vem sendo violentamente atacado por ter convocado um plebiscito que será realizado no próximo mês de abril, uma consulta popular com dez perguntas, entre elas sobre medidas contra a corrupção, a evasão fiscal, os monopólios da mídia e do capital financeiro e a morosidade e cumplicidade da justiça com os interesses do capital.

Uma grande polêmica que se instalou na sociedade equatoriana é se houve ou não uma tentativa de golpe e de assassinato de Rafael Correa, em 30 de setembro do ano passado. Tudo leva a crer que, mesmo que houvesse um plano pré-estabelecido, a direita se aproveitou de uma rebelião de policiais para tentar promover o golpe de estado e o assassinato. Por outro lado, a impressão é de que a mobilização de setores populares que apóiam o Presidente foi decisiva para frustrar o intento golpista.

Ao que tudo indica, Rafael Correa, carismático e midiático, soube extrair do episódio um grande ganho político, que lhe assegurou o maior índice de aprovação popular desde a posse e, principalmente, melhores condições de governabilidade.

Dos diversos informes e opiniões diferentes a que tive acesso, é certo que não foram todos os segmentos populares que deram solidariedade ao Presidente naquele momento. As razões residem nas limitações de uma revolução nacional e democrática hegemonizada por setores da pequena e média burguesia e não pelo proletariado. As mudanças não chegam às relações entre capital e trabalho o que, compreensivelmente, desilude segmentos populares em relação à “revolução cidadã”, em que os cidadãos são portadores de direitos formalizados na constituição, mas não sentem qualquer mudança em suas condições de vida.

Além do mais, o Estado não sofre mudanças significativas, funcionando como aparato repressor das classes dominantes e fundamentalmente a serviço delas.

A maior virtude de um processo como este é que torna evidente a luta de classes, contrapondo os interesses do capital aos do proletariado, dos trabalhadores e de setores das camadas médias. Isto não ocorre em processos mitigados, de conciliação de classe, como no Brasil, em que os governos e os partidos ditos de esquerda que lhes apóiam não mobilizam as massas e não enfrentam ideologicamente o capitalismo, até porque têm como objetivo principal fazer do Brasil uma potência capitalista mundial.

A maior debilidade do processo equatoriano é a falta de um instrumento político e de uma organização de massas que impulsione as mudanças no sentido de uma revolução verdadeiramente socialista, que vá na direção do poder popular e da ruptura gradual com o estado burguês.

Aqui reside o “tendão de Aquiles” do processo. O Presidente se comporta como um caudilho de esquerda, numa relação direta com as massas, subestimando a importância da organização e mobilização popular e a construção de uma frente revolucionária.

A tomada do poder político por parte da maioria do povo nunca foi nem será uma concessão generosa das classes dominantes. O sistema de exploração que funde os interesses das chamadas burguesias nacionais com os do imperialismo não “cai de podre” nem pelo passar do tempo. Os exploradores não entregam voluntariamente o poder aos explorados, nem mesmo quando setores representativos destes últimos ganham uma eleição, nos marcos da democracia burguesa. Às vezes, são obrigados, a contragosto, a entregar o governo a setores populares, mas estes só alcançarão o poder popular com lutas muito duras, acumulando forças e golpeando o estado burguês, utilizando-se de métodos e formas de luta as mais variadas (institucionais e insurgentes), adaptadas às circunstâncias, tendo principalmente em conta a correlação de forças entre as classes em luta.

Seja qual for a via da conquista do governo, o caminho ao socialismo só pode ser pavimentado na mobilização e ação das massas e sob a direção de uma vanguarda revolucionária, não através de um partido único, mas de uma frente.

O PCE está atento às limitações e aos desafios do processo. Na última nota política do Comitê Central anterior ao Congresso, o Partido defendia, para a atual etapa do processo equatoriano, “RADICALIZAR, APROFUNDAR E PINTAR DE POVO O PROCESSO”, levantando várias bandeiras, como dinamizar a reforma agrária, consolidar a política externa soberana, desmontar as instituições burguesas do aparelho estatal e fortalecer a unidade de todas as forças sociais e políticas revolucionárias.

Nas Teses ao XV Congresso do PCE, neste particular aprovadas pelo Plenário, se diz no item A ESTRATÉGIA DA REVOLUÇÃO EQUATORIANA que “a luta do povo equatoriano é contra o imperialismo, as oligarquias e os latifundiários”.

Na citação de parte das teses ao Congresso, com a qual encerro esta singela contribuição, fica claro que o PCE não se ilude com a revolução nacional libertadora, em aliança com a burguesia dita nacional. Colocam claramente que a contradição fundamental da sociedade equatoriana “se expressa em duas formas: a contradição entre nossa nação, nosso povo e o imperialismo, em particular o norte-americano, e a crescente contradição entre o capital e o trabalho, entre as forças produtivas que lutam por se desenvolver e as relações sociais de produção baseadas na exploração dos trabalhadores da cidade e do campo”.

“A luta entre os beneficiários da atual ordem de coisas e as massas empobrecidas do povo equatoriano nos conduz a definir como tarefa histórica do momento atual um processo de liberação social e nacional que nos leve através de mudanças ininterruptas ao estabelecimento do regime socialista no Equador, como parte integrante da etapa histórica do trânsito do capitalismo ao socialismo.”

* Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB (Partido Comunista Brasileiro) – março de 2011

A paz com justiça social é possível, lutemos por ela, No. 13

Outra semana a mais de dor para várias famílias colombianas. Mais de uma dúzia de militares mortos e outros tantos feridos.

Quantos guerrilheiros, camponeses, operarios, defensores dos diretos humanos e dirigentes políticos perderam sua vida?

Por quê o governo de Juan Manuel Santos não movimenta um dedo sequer em procura da solução política do conflito que ensanguenta os colombianos?

Os democratas devemos unir forças e lutar pela solução política do conflito que se alastra na Colômbia desde há mais de 60 anos.

A seguir o resultado dos combates entre as FARC e as forças militares do regime colombiano, entre os dias 01 e 07 de março de 2011.

01/03: FARC lança uma pequena embarcação contra uma barreira da Armada Nacional no município de Porto López de Micay, no estado do Cauca. Resultados: um cabo segundo morto e três infantes da Marinha feridos.

http://www.eliberal.com.co

01/03: Ataque das FARC a comitiva governamental perto de Apartadó, no estado de Antioquia. Resultados: um militar morto.

http://elespectador.com

01/0: Guerrilheiros da VI Frente das FARC recuperaram um dinheiro no município de Caloto, no estado do Cauca, que era transportado de helicóptero. Na ação morreram o Comandante do Posto Policial, o subcomandante e dois práças a mais.

http://elespectador.com

03/03: Ataque das FARC contra as forças do regime nos municípios de Santander de Qulichao e Silvia, no estado do Cauca.

http://elespectador.com

04/03: Por supostos vínculos com as FARC foi preso o ex-prefeito do município de Cajibio, no estado do Cauca.

http://elliberal.com.co

04/03: Ataque das FARC no município de Chaparral, estado do Tolima. Três militares mortos e três feridos gravemente.

http://diariodelhuila.com

05/03: Capturados três presuntos guerrilheiros e outro foi ferido, no norte do estado do Huila

http://rcnradio.com

06/03: Ataque das FARC contra as forças do regime em Bilbao, estado do Tolima: dois soldados profissionais mortos.

http://elpais.com.co

07/03: Guerrilheiros da V Frenta das FARC incendiam 4 ônibus perto de Mutará no estado de Antioquia.

http://www.rcnradio.com


Esta semana não foi favorável para o ex-comissionado de Paz, Luis Carlos Restrepo, para o ex-presidente Álvaro Uribe, nem para o presidente Juan Manuel Santos. Diversos meios de comunicação, entre eles El Espectador, a Revista Semana e EL Tiempo, publicaram a notícia confirmando que as famosas desmovilizações de guerrilheiros da suposta Frente da Cacica Gaitana e outros das FARC foram uma montagem que hoje esta sendo investigada pela justiça. Igual acontece com a famosa operação Xeque, da qual fizera tanto alarde o ministro da defesa desse tempo e hoje presidente, Juan Manuel Santos. Não passou de ser uma negociação entre o governo e os desertores César e Alexandre, responsaveis pela guarda dos prisioneiros de guerra.

O presidente Juan Manuel Santos deve explicar a Colômbia e ao mundo por quê menteu dizendo que a Operação Xeque tinha sido uma exitosa ação militar do exército da Colômbia contra as FARC

Países Árabes – o vento que agita o rio

As rebeliões ocorridas em alguns países do norte da África e na Península Arábica têm sido como um siroco, vento do deserto que enlouquece, queima e destrói.

Por Moisés Saab, em Prensa Latina*

Essas mudanças que estão ocorrendo desde dezembro passado transformaram o cenário político, desintegrando regimes que pareciam imutáveis, e fazendo tremer as bases de outros.

Mas elas também têm servido ao propósito de agitar o rio em que o peixe vai ser presa fácil – o cobiçado petróleo árabe.

O caso mais representativo é a situação na Líbia, cuja população goza de algumas das maiores níveis educacionais e renda per capita da África e um dos poucos países do continente que não está ameaçado pela fome.

Até há algumas semanas, não havia informações de aparentes conflitos internos e o regime era saudado pelos governos que hoje procuram o seu extermínio.

Ao contrário da revolta no Egito, significativa se se observam a magnitude dos protestos e a falta de resultados práticos, na Líbia não havia elementos de ebulição na população e que, desde novembro do ano passado, serviram de alerta para as autoridades no Cairo de que a situação interna estava prestes a explodir.

E mesmo antes, em junho do ano passado, quando uma tentativa de rebelião surgiu na cidade de Alexandria, pouco divulgada e esmagada em sangue e fogo, sem que vozes de protesto fossem ouvidas nas capitais europeias ou nas instituições conhecidas por proceder ao acompanhamento do respeito aos direitos humanos.

Em novembro passado, os resultados das eleições legislativas, manipulados pelo partido no poder, provocaram sérios protestos, que as autoridades reprimiram em uma reação rápida e violenta e, durante os quais, também, não se ouviram protestos no exterior.

É por isso que as reações à primeira notícia sobre os protestos e ataques contra delegacias e unidades militares na Líbia foram mais inesperadas do que os acontecimentos na terra das pirâmides, uma circunstância que, pelo menos, levanta suspeitas.

Outro motivo para desconfiança, ressalvados os problemas que possam existir neste país por causa de sua cultura histórica, tribalismos e insatisfação com a liderança de Muamar Kadafi, foi a disponibilidade das potências ocidentais para exigir medidas extremas, incluindo as militares.

Desde o início dos protestos na Líbia, também se destacou a falta de espontaneidade e ficou evidente que havia coisas manipuladas.

Superficialmente se pareciam com as marchas na Tunísia, que derrubaram o governo de Zine El Abidine Ben Ali (e, no mês seguinte, com as que derrubaram Hosni Mubarak), consideradas o estopim para a atual crise no norte da África e nos países do Golfo Pérsico, mas, olhando bem, haviam diferenças profundas.

A primeira delas é que se impôs a noção de que a explosão foi provocada pelos protestos na Tunísia, que se espalharam pelo mundo árabe.

Há, porém quem refute esta tese. A origem deve ser buscada mais atrás, na rebelião do final do ano passado no campo de refugiados saharauis Ezeik Gdeim, na cidade de Laayoune, no Sahara Ocidental ocupado pelo Marrocos, onde reina uma das monarquias mais repressivas da vida moderna, capaz de eliminar seus oponentes, mesmo os que estão distantes.

Tal foi o caso de El Mehdi Ben Barka, famoso por seu carisma em círculos progressistas marroquinos. Ele foi sequestrado em Paris por agentes secretos de Rabat e seu destino é desconhecido.

Outro fato marcante é que cada caso tem suas peculiaridades, um fator ignorado nos relatórios provenientes de vários cenários.

No caso do Egito, é óbvio que, com o passar do tempo, a rebelião perdeu o esplendor de suas origens e a impressão que prevalece é que há uma manipulação que conduz o país para um mubaraquismo sem Mubarak, mediante a satisfação de certas exigências elementares e periféricas da população, concentrando-se mais sobre os valores do antigo regime, do que no retorno ao nacionalismo de Gamal Abdel Nasser, esquecido pelos governos de Anuar Sadat e pela reforma do regime estabelecida pelos últimos dirigentes do país.

Prova disso é que um dos primeiros atos do Conselho Supremo Militar, que tomou o poder na saída de Mubarak, foi o anúncio de que o governo de transição vai respeitar os compromissos internacionais do país, ou seja, os acordos de Camp David com Israel.

Isso implica a preservação do status quo criado na região pelos Estados Unidos com o emprego de vastos recursos econômicos e os esforços da sua diplomacia por considerá-la essencial à preservação do controle de recursos cada vez mais vitais.

De quebra, isto enfraqueceu a resistência árabe ao expansionismo de Israel, que ficou com as mãos livres para se concentrar na repressão aos palestinos na Faixa de Gaza e Cisjordânia e, como benefício colateral inesperado, assestou um golpe no Movimento dos Países Não-Alinhados, que hoje é presidido precisamente pelo Egito.

Há várias semelhanças entre os fatos ocorridos na Tunísia e no Egito: os presidentes dos dois países eram as cabeças visíveis de dois regimes de força, com experiência na repressão e próximos aos interesses das potências ocidentais.

Mas, também, eram substituíveis e sua defenestração não implica o surgimento de governos que possam se tornar uma pedra no sapato dos poderes interessados em manter a região tranquila, com os países beligerantes cercados por forças hostis ou indiferentes, por assim dizer.

Talvez em algum momento no futuro, um Wikileaks, ou que nome venha a ter nesse momento hipotético, revele o conteúdo da longa conversação, mais de meia hora, realizada entre os presidentes Barack Obama e Mubarak, quando o segundo ainda declarou que permaneceria no poder a todo custo.

O mesmo se aplica aos casos da Jordânia, Iêmen, Barein e Omã, que também têm profundas relações com Washington e Londres, mas sujeitos à força de atração da Arábia Saudita, cujo monarca acaba de declarar que "não permitirá manifestações."

Embora os acontecimentos nas principais cidades egípcias tenham surpreendido as potências ocidentais, é evidente que para o poder neste mundo unipolar o pragmatismo prevalece.

Os americanos têm um ditado que retrata o pragmatismo de sua filosofia: “If you can´t beat them, join them” (“Se não pode derrotá-los, una-se a eles”). Nisso pode estar baseada a conduta de Washington, quando for remodelar a sua imagem manchada no mundo árabe e, por sua vez, reforçar o seu controle na área.

No caminho desse pragmatismo se insere a possibilidade de remover do poder o líder líbio, notório por suas mudanças de rumo, como evidenciam as suas até recentemente boas relações com as potências ocidentais.

O aparecimento no Egito de um governo comprometido com este estado de coisas na área e outro com características semelhantes, na Líbia, cria um novo mapa político, no qual a Argélia, onde a rebelião prevista não ocorreu, fica colocado em um ambiente se não hostil, desfavorável, e reforça uma zona tampão que Washington quer estabelecer relativamente ao Irã.

O mesmo se aplica à Síria, que tem parte do seu território, as Colinas de Golã, ocupadas por Israel pela força das armas.

Agora só temos de esperar a passagem do tempo e o desenrolar dos acontecimentos para clarificar algumas questões. O que acontecerá se Kadafi for capaz de manter o controle sobre a Líbia? Será que as potências ocidentais o considerarão um segundo Saddam Hussein? Surgirá outra coalizão árabe para defenestrar a liderança da Líbia?

*Chefe da Redação de África e Oriente Médio da Prensa Latina.

sábado, 5 de março de 2011

Brasil - Estados Unidos: a rivalidade emergente

Prefácio de Samuel Pinheiro Guimarães ao livro "Relações Brasil-EUA no Contexto da Globalização: Rivalidade Emergente" (Editora Senac), de L.A. Moniz Bandeira. O livro dá seqüência ao balanço sobre as relações entre o Brasil e os Estados Unidos, iniciado com a publicação do primeiro volume, dedicado ao estudo da Presença dos EUA no Brasil, e que abarca o tempo histórico que vai desde o Brasil Colônia até a República. Passa pela era Vargas e a queda de Goulart. Este volume - "Rivalidade Emergente" - vai até 1995, mostrando como as relações Brasil-EUA continuam a ser alternadamente amistosas e conflitantes.

Prefácio: Doces Ilusões, Duras Realidades

"Você tem de dar-lhes um tapinha nas costas e fazer com que eles pensem que você gosta deles".
J.Foster Dulles, Secretário de Estado, 1953-59 (1)

A construção da hegemonia americana

1. Para compreender os episódios que se sucedem nas relações entre o Brasil e os Estados Unidos é necessário examinar a natureza dessas relações. Esta somente pode ser entendida quando vista no contexto da estratégia mundial de política externa americana, traçada e desenvolvida a partir dos resultados da Segunda Guerra Mundial. É preciso notar que, até 1939, a política americana nunca havia sido de fato isolacionista, não intervencionista. Porém, seu ativismo se dirigia e se limitava à conquista do Oeste americano, à incorporação, por compra, de territórios como a Flórida e a Louisiana e, em seguida, à consolidação da área de influência no grande “mar americano”, o Caribe. O México perdeu 2/3 de seu território para os Estados Unidos na guerra de 1846/48, provocada pelos Estados Unidos. A Nicarágua foi ocupada militarmente pelos Estados Unidos durante 21 anos; o Haiti, durante 19 anos. Cuba, Filipinas e Porto Rico foram ocupados após a derrota da Espanha na guerra provocada pelos Estados Unidos, em 1898. Ao final, os Estados Unidos haviam, praticamente, eliminado a presença e a influência das potências européias na região.

Somente após 1945 os Estados Unidos deixariam de ser uma potência regional e passariam a ser uma potência com interesses mundiais, i.e. uma potência com interesses em cada continente, quase se poderia dizer em cada Estado. É verdade que a expedição do Comandante Perry ao Japão, em 1848, assim como o apoio às atividades missionárias na China, anunciavam o interesse americano pela Ásia. Mas era na Ásia incipiente essa presença.

2. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como a maior potência militar, política, econômica, tecnológica e ideológica do mundo. Essa hegemonia era absoluta diante das nações derrotadas, destruídas e ocupadas, Alemanha, Japão e Itália; de extensos impérios coloniais, desmoralizados e combalidos, o francês e o britânico; de uma potência rival, em termos de organização social, política e econômica, a União Soviética, forte pela ocupação da Europa Oriental e debilitada pela devastação nazista, que deixara 20 milhões de mortos, e a economia abalada pelo esforço de guerra. A capacidade que parecia ter a União Soviética de competir e de enfrentar os Estados Unidos, e que parecia se tornar cada vez mais irresistível com a expansão do campo socialista após 1945, era aparente, como iria se revelar aos poucos, até culminar com a derrota pacífica, em 1991.

3. Diante desse extraordinário e glorioso, porém desafiador cenário mundial de 1945 os Estados Unidos viriam a definir os grandes objetivos e as grandes diretrizes de sua política externa. Em síntese, esses objetivos eram e são: manter e ampliar sua hegemonia política; manter e ampliar sua hegemonia militar; manter e ampliar sua hegemonia econômica; manter e ampliar sua hegemonia ideológica.

4. Em 1945, a decisão estratégica fundamental adotada pelos Estados Unidos foi preferir criar um sistema de organismos internacionais para, através deles, promover e manter sua hegemonia e expandir seus ideais, ao invés de procurar fazê-lo diretamente, o que implicaria elevadíssimos custos e o freqüente uso de força militar. Esses organismos viriam a ser de caráter universal, como as Nações Unidas e suas agências, inclusive o Fundo Monetário Internacional – FMI e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento – BIRD; ou de caráter regional, tais como a Organização dos Estados Americanos – OEA, a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN, o Tratado de Segurança Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos – ANZUS e a Organização do Tratado do Sudeste Asiático – SEATO, ou de caráter bilateral. Todos, de uma forma ou de outra, com sua origem na experiência do passado e nos ideais americanos de governança mundial, defendidos por Woodrow Wilson, em 1919, e incorporados ao tratado que criou a Liga das Nações, rejeitado pelo Senado americano. O pano de fundo dessa estratégia viria ser o confronto com a União Soviética, (que detonaria a arma nuclear em 1949), com base na Doutrina Truman, de contenção do comunismo, inspirada nas idéias de George Kennan, em seu artigo assinado Mr. X, publicado em 1947.

5. Ao implementar essa estratégia de múltiplas facetas e jogada em muitos tabuleiros de negociação, de ação e também de subversão, em todas as regiões e continentes, os Estados Unidos procuram evitar a emergência de Estados que possam se contrapor à sua hegemonia mundial ou regional. Sempre que necessário, procuram enfrentar e derrotar aqueles que à sua hegemonia se oponham, de modo total ou parcial, e assim dificultem ou impeçam o seu pleno exercício.

6. Ainda que em vários desses confrontos e embates, alguns armados, os Estados Unidos pudessem, à primeira vista, parecer ter sido derrotados, pelo menos em algumas instâncias como, por exemplo a do Vietnã, seus interesses viriam a prevalecer no médio prazo. Após a desmoralizante derrota militar americana, o novo Vietnã, unificado e comunista, viria a adotar, depois de alguns anos, um modelo capitalista, aberto às mega-empresas multinacionais, inclusive americanas. A República Popular da China é caso semelhante em que, após longo período de enfrentamentos se inicia, por decisão chinesa, um processo de reforma econômica que leva a uma simbiose com os Estados Unidos e na China se organiza um regime cada vez mais capitalista e aberto às mega-empresas americanas. O fim da hegemonia americana, que se exerce de formas variadas e complexas, ainda é um mito e uma ilusão perigosa.

7. Na área militar, os Estados Unidos tornaram permanentes, de forma muitas vezes desconhecida, a presença de suas tropas e de suas armas, inclusive nucleares, fora de seu território nacional, em países tais como a Alemanha, a Bélgica, a Itália, a Grécia, a Turquia e a Holanda. Seu controle militar se realiza através de uma rede de bases terrestres, de frotas navais e de acordos militares bilaterais ou regionais, como a OTAN, alguns hoje desativados, mas não todos, como o acordo militar com o Japão e o acordo ANZUS. O programa recente de instalação de um “escudo de mísseis” na Europa Oriental, oficialmente dirigido contra o Irã e outras ameaças difusas, como o terrorismo, causa grande inquietação na Rússia e revela a determinação americana de manter e expandir sua hegemonia militar na Europa.

8. Por outro lado, de forma sistemática, os Estados Unidos procuraram criar mecanismos nacionais e internacionais de controle de transferência de tecnologia militar ou dual. Agem com tenacidade e persistência para promover a não-proliferação de armas de destruição em massa, i.e. a posse de armas por terceiros países enquanto não promovem o (seu próprio) desarmamento, como prometeram ao assinar o TNP. Sofisticam cada vez mais suas armas o que aumenta o hiato de poder militar, entre eles e os demais países, e ampliaram seu sistema de tratados de cooperação e assistência militar, base jurídica que permitiria justificar eventuais ações militares.

9. Assim, intervieram militarmente, sob variados pretextos, em todos os continentes: na República Dominicana, na Guatemala, no Vietnã, na Nicarágua, em Granada, no Panamá, no Líbano, no Iraque, na Somália, no Afeganistão etc. em uma longa lista de países que, de uma forma ou outra, se opuseram, com maior ou menor tenacidade, ao exercício de sua hegemonia, ou com o objetivo de fazer com que as pressões e eventuais intervenções viessem a servir de exemplo para Estados que parecessem ter a intenção de alcançar maior independência.

10. Não houve, praticamente, nenhum ano em que os Estados Unidos não estivessem em guerra, maior ou menor, desde 1945. Sempre que possível procuraram o aval e a autorização prévia de organizações internacionais de caráter universal, como o Conselho de Segurança da ONU, ou regional como a OEA e o CARICOM, ou de tratados bilaterais. Quando isto se revelou difícil ou impossível agiram unilateralmente, com a busca de apoio, ainda que simbólico, de outros países. No Iraque, a título de exemplo desse apoio simbólico, no momento da invasão, em 2003, os Estados Unidos tinham 148.000 homens e a segunda maior força era a do Reino Unido com 45.000 homens, seguida de contigentes muito menores de outros países. É preciso notar que os Estados Unidos não participam de nenhuma organização militar ou de nenhuma operação militar multilateral ou de coalizão em que suas tropas se submetam a comando estrangeiro.

11. Na economia, os Estados Unidos, confiantes na capacidade de competir de suas grandes empresas, que viriam a se tornar mega empresas multinacionais, em um mundo de economias destroçadas, em especial na Europa Ocidental, em um primeiro momento procuraram, através do BIRD e depois do Plano Marshall, reconstruí-lo e garantir o acesso a esses mercados, tanto de bens como de capitais. Viram eles no apoio aos movimentos nativos de descolonização uma oportunidade de reduzir o poder e o controle das potências coloniais e, ao mesmo tempo, de facilitar a penetração de suas mega-empresas nos mercados das futuras ex-colônias européias. Na área econômica, tem sido permanente o objetivo de garantir o acesso a matérias-primas estratégicas, como o urânio e, em especial, ao petróleo, dínamo essencial de sua economia, que se encontra na raiz das complexas questões do Oriente Próximo: Palestina, Iraque, Irã, Arábia Saudita etc.

12. Na execução de sua estratégia econômica procuram os Estados Unidos promover em todos os países a liberalização do comércio exterior e dos fluxos de capitais enquanto mantêm protegidos os seus mercados internos para aqueles setores menos competitivos, a começar pela agricultura. Isto sempre ocorreu, e os casos recentes são exemplares, como os do algodão, do suco de laranja e do etanol. Aí, perdedores em processos de arbitramento multilateral em organizações de que fazem parte, mantém suas políticas que foram consideradas ilegais. Em outra área, aplicam restrições a investimentos chineses e árabes, argüindo razões de segurança econômica e política. Sua devoção às livres forças de mercado é condicionada, portanto, a seus interesses nacionais e políticos e as vultosas operações de salvamento, pelo Estado americano, de seus bancos e mega empresas durante a crise, que se iniciou em 2008, bem confirmam esta interpretação de sua visão ideológica.

13. A restrição à difusão de tecnologia, em especial a tecnologia dual de ponta, i.e. de uso civil e militar, seria uma política indispensável para manter a hegemonia econômica e militar americana. O sistema de restrições à transferência de tecnologia sensível foi organizado tendo como o seu núcleo o Tratado de Não-Proliferação - TNP e arranjos conexos, tais como o MTCR – Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis –, o Acordo de Wassenaar, que coordena as exportações de itens de tecnologia sensível, e o NSG – Grupo de Supridores Nucleares –, e pelo permanente esforço de fortalecimento do sistema de patentes no âmbito da Organização Mundial de Comércio - OMC e de ameaças e sanções unilaterais a terceiros países, através das leis americanas de comércio.

14. Todavia, entre todos os seus objetivos de política externa o mais importante seria manter a hegemonia ideológica que fora conquistada em quase todas as sociedades devido a sua vitória sobre o hediondo regime nazista. Esta hegemonia corresponde à capacidade de convencer todos os países da superioridade do Estado americano e de sua sociedade e, em especial, a partir de 1945, em comparação com o modelo soviético; do caráter benigno, desinteressado, altruísta e sincero da política exterior americana; da eficiência superior de sua economia; da maior viabilidade de seu modelo econômico e da possibilidade de poder ser ele adotado por qualquer país.

Os abismos

15. Um indicador da crescente hegemonia política norte-americana é a ressurreição do Conselho de Segurança das Nações Unidas após a ascensão de Boris Ieltsin e Alexandre Kozirev, que alinharam a política russa à política exterior americana. Na prática, este alinhamento redundou no desaparecimento dos vetos russos, que passaram de um total de 118 no período 1945-1991 para quatro no período 1992-2009. Como resultado, os Estados Unidos obtiveram, inclusive sem a oposição da China, apoio para suas ações de punição política, através de sanções comerciais e outras de toda a ordem, com base no Capítulo VI da Carta da ONU, e de ação militar, com base no Capítulo VII. Como cada país é obrigado pela Carta a cumprir as sanções impostas pelo Conselho a terceiros países, sem ter participado do processo de decisão do Conselho de Segurança, quer estas sanções contrariem ou não os seus interesses nacionais, a nova situação ampliou o exercício da hegemonia americana, inclusive sob o manto multilateral das Nações Unidas. Em decorrência da estratégia americana, o abismo político se aprofundou.

16. O hiato militar entre, de um lado, os Estados Unidos e, de outro, todos os demais países, tomados em conjunto, cresceu de forma significativa a partir de 1945, devido a duas políticas: a primeira, a de impedir que os demais países tivessem acesso à tecnologia nuclear e à tecnologia dual e, a segunda, a de desenvolver novas tecnologias, cada vez mais sofisticadas. Estas duas políticas fizeram com que a distância entre a América, mesmo entre ela e as potências industriais, e sobretudo em relação aos países subdesenvolvidos da periferia, se ampliasse e se tornasse um abismo, quando comparada à situação em 1945.

17. Em 1988, as despesas militares americanas eram de US$ 533 bilhões. Entre 1988 e 2009 tiveram um aumento acumulado de US$ 10.376 bilhões. O segundo país em despesas militares, a URSS (mais tarde Rússia) era, em 1988, de US$ 339 bilhões. O acumulado de despesas russas entre 1988 e 2009 foi de US$ 1.683 bilhões. A distância de poder militar, medida em termos de despesas, que refletem o acúmulo e a sofisticação dos armamentos, entre os dois países aumentou de US$ 199 bilhões em 1988 para US$ 8.693 bilhões em 2009. Entre os Estados Unidos, de um lado, e todos os demais países, de outro, esta distância aumentou muito mais.

18. Nos últimos 20 anos, a distância econômica, i.e., de nível de vida médio, de quantidade de bens à disposição para consumo e produção, entre os habitantes dos países desenvolvidos e os habitantes dos países subdesenvolvidos não cessou de crescer até a crise de 2008. Em 1988, a renda per capita média dos oito principais países desenvolvidos (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Austrália) era de US$ 18.000, e a renda média per capita dos oito principais países subdesenvolvidos (China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, México, Argentina e África do Sul), era de US$ 1.300. A diferença de renda per capita era, em 1988, de US$ 16.700. Em 2008, a renda per capita média desses oito países desenvolvidos atingiu US$ 43.000 e a renda média per capita daqueles oito países subdesenvolvidos chegou a US$ 6.000. A diferença de renda per capita entre os dois grupos de países aumentou de US$ 16.700 para US$ 37.000. O abismo de renda, de nível de vida médio, se aprofundou. A hegemonia econômica americana, medida pela presença de suas mega empresas em todos os países, pela sua participação no comércio mundial, pela geração de novas tecnologias e pela dimensão de sua economia, sobrevive e se expande.

19. O abismo ideológico entre os Estados Unidos e os demais países aumentou. A criação de grandes conglomerados de entretenimento/informação; os canais globais televisivos de notícias; a desarticulação das estruturas nacionais de produção audiovisual, mesmo em países desenvolvidos; o predomínio do noticiário gerado pelas agências de notícias americanas; os vastos programas de formação educacional e profissional em todas as áreas, inclusive militar; a produção científica em termos absolutos e comparados; o número de prêmios Nobel conquistados; a capacidade de recrutar talentos em todo o mundo fazem com que a influência cultural, científica e tecnológica americana seja extraordinária, e maior do que era em 1945, devido à aceleração do progresso científico e tecnológico. O fosso aumentou e não há nenhuma outra civilização - russa, chinesa, brasileira ou japonesa - que disponha do mesmo arsenal de meios e recursos e da mesma flexibilidade do idioma e da cultura para se contrapor à americana.

A história do Brasil no contexto da hegemonia

20. Diante do amplo e complexo panorama da estratégia de implementação dessas diretrizes de política exterior americana, se colocam as relações entre o Brasil e os Estados Unidos de 1950 a 1990, documentadas, descritas e analisadas, em todas as suas peripécias e tensões, por Moniz Bandeira, em sua obra “Brasil-Estados Unidos: a Rivalidade Emergente”. Sua leitura é essencial a todos os brasileiros, políticos, diplomatas, militares, intelectuais, empresários e trabalhadores que desejarem melhor interpretar a política externa brasileira e é ela que provoca as reflexões desse prefácio.

21. Brasil e Estados Unidos são sociedades, economias e Estados que apresentam semelhanças estruturais. São países de grande dimensão territorial, semelhante e contínua. Ambos detêm em seu território uma variada gama de recursos minerais, suas agriculturas são muito produtivas e seus parques industriais, sofisticados. Brasil e Estados Unidos são países de grande população, sociedades multiétnicas, com grandes contingentes de origem européia e africana. Ambos são países democráticos e sua cultura é de origem e de matriz ocidental. O Estado brasileiro é, como o Estado americano, organizado sob a forma de federação, ainda que seu sistema jurídico seja fundado no direito romano e o dos Estados Unidos no direito anglo-saxão, cuja base é a common law, i.e., a jurisprudência e os costumes.

22. Os Estados Unidos são, desde o final do século XIX e ainda mais a partir de 1945, a maior potência econômica do mundo; seus exércitos e suas sofisticadas armas a fazem a maior potência militar do planeta; sua capacidade de gerar conceitos e de divulgá-los a tornaram a maior potência ideológica e cultural; sua criatividade e sua capacidade de atrair talentos de todas as partes a fazem a maior potência científica e tecnológica do mundo. Os Estados Unidos detêm, ademais, a moeda de reserva e de curso internacional, o dólar, e são, sem dúvida, para os grandes capitalistas, sejam eles mega empresas, mega bancos, mega fundos ou indivíduos de alta renda, o centro do sistema capitalista internacional e seu baluarte. Estes sucessos americanos se encontram, em realidade, entrelaçados. A elite americana está absolutamente convencida de que tudo o que se passa em todos os países que integram o sistema internacional é de interesse para sua sociedade e para sua sobrevivência.

Os Estados Unidos se apresentam, com tranqüilidade, segurança e auto-estima, como o país líder da civilização ocidental e, hoje, como o líder mundial de todas as nações, o Estado mais democrático, a economia mais eficiente, a potência militar mais poderosa. Por essas razões se atribuem, com naturalidade, o direito de dizer a cada país como deve se organizar econômica e politicamente e como deve orientar sua política externa. Em casos extremos, se arvoram o supremo direito de exigir que mudem de regime político e, se falham a persuasão e a cooptação, o fazem através de sua política, denominada, sem disfarces, de “regime change” (mudança de regime), em desafio aos princípios de não-intervenção e de auto-determinação, consagrados na Carta das Nações Unidas, princípios que exigem que os demais países cumpram. Os Estados Unidos são, sem sombra de dúvida, o centro do Império.

23. O Brasil, devido a circunstâncias históricas, políticas, econômicas e sociais, ainda é um país que está longe de ter desenvolvido todo o seu potencial. É um país cuja principal característica são suas extraordinárias e gritantes disparidades sociais e econômicas que fazem com que se classifique entre as quatro situações nacionais mais desiguais do mundo. O Brasil é um Estado vulnerável política e militarmente, apesar dos esforços feitos nos últimos anos e dos resultados que foram alcançados. Reduziu-se a vulnerabilidade externa, retomou-se a construção da infraestrutura física, estradas, energia, portos, e social (escolas, hospitais, etc); reduziram-se de forma radical a pobreza e a miséria e o Brasil passou, com galhardia, pela grave crise econômica e financeira, iniciada em 2008 e que ainda permanece em 2011. Enquanto os países do G-7, segundo o FMI, viram o seu PIB se reduzir em 3,5% em 2009, o PIB brasileiro caiu apenas 0,2%; enquanto os Estados Unidos perderam 7,3 milhões de empregos em 2008 e 2009, a economia brasileira gerou 2,5 milhões (e mais 2,5 milhões em 2010). O Brasil atravessa um momento de sua História em que as classes populares, conduzidas pelo PT e pelos partidos progressistas, sob a liderança do Presidente Lula, iniciaram um processo de transformação econômica, política e social para construir uma sociedade democrática de massas. Todavia, diferente dos Estados Unidos, é o Brasil um país subdesenvolvido, na periferia do sistema internacional.

24. É natural que os Estados Unidos, testemunhando a emergência de um país com a riqueza e o potencial do Brasil, se tenham sentido desafiados, quando se iniciou esse processo, por volta de 1950, com Getúlio Vargas, em sua hegemonia, que desejam incontestável nas Américas, a área geopolítica mais próxima de seu território. É natural que o Brasil, diante da aspiração e da obrigação histórica de sua sociedade de superar os desafios das desigualdades, das vulnerabilidades e da realização de seu potencial, tenha encontrado, desde que iniciou os primeiros esforços nesse sentido, a suspeita e mais tarde a rivalidade americana. Daí a propriedade do título que sintetiza a substância desta obra de Moniz Bandeira que examina esse período da história brasileira e as iniciativas de superação de sua condição de atraso e de semi-colônia: “Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente, 1950-1990”.

25. O Brasil vive um momento de transformação da natureza da inserção de sua sociedade e de seu Estado no sistema internacional. A estrutura do comércio exterior se alterou, reduzindo muitíssimo a dependência da economia brasileira não só em relação a terceiros mercados como em relação a produtos específicos; os fluxos de investimento direto estrangeiro se diversificaram, com o aumento significativo da participação de capitais de novas origens; o Brasil passou de devedor a credor internacional, acumulando reservas que quase chegam a U$ 300 bilhões, maiores que as da França, da Inglaterra e da Alemanha; o Brasil passou a exportar capitais, através de empréstimos e investimentos diretos de empresas brasileiras no exterior.

26. Na política internacional, a participação do Brasil passou a ser a de um ator importante, e com presença cada vez mais solicitada, no trato político de questões como a do Oriente Próximo, do Haiti, da luta contra a pobreza, da reforma das Nações Unidas, da crise econômica internacional, da gestão do G-20 financeiro, da ação do G-20 comercial, da crise ambiental e na dinâmica política regional. Assim, o conhecimento não-midiático, não-jornalístico, das questões internacionais, da evolução da política externa brasileira e de sua estratégia se torna essencial para compreender e para participar, de forma não preconceituosa, do debate, cada vez mais intenso, sobre o novo papel internacional do Brasil.

27. O Professor Luiz Alberto Moniz Bandeira construiu, no curso de décadas, uma obra histórica que permite compreender, de um ângulo brasileiro, o sistema internacional, seu contexto e sua dinâmica e, em especial, entender o momento histórico que se inicia em 1950 quando começa a se transformar a natureza da inserção do Brasil no mundo.

28. Suas obras tratam com profundidade, e a partir da análise de extensa documentação, de temas de grande interesse para a política externa atual, desde O Expansionismo Brasileiro e a formação dos Estados na Bacia do Prata; De Martí a Fidel – a revolução cubana e a América Latina; Brasil, Argentina e Estados Unidos – conflito e integração na América do Sul; Formação do Império Americano; Fórmula para o Caos, e de tópicos da política interna e externa brasileira, tais como Presença dos Estados Unidos no Brasil (Dois séculos de história); O Governo João Goulart; As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (De Collor a Lula) e Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente, que agora é re-editada, e revista, e que trata do período que vai de 1950 a 1990. Todas obras indispensáveis para aqueles que necessitam conhecer a história recente brasileira.

29. A importância dos Estados Unidos para a economia, a política e a sociedade brasileira foi, desde a II Guerra Mundial, e ainda é, extraordinária: a recíproca nunca foi verdadeira no passado nem ainda é, mas virá a ser, no futuro, igualmente extraordinária.

30. Alguns números servem para revelar essa importância e para explicar (mas não para justificar) o comportamento de líderes políticos brasileiros em determinados momentos face às demandas e às pressões americanas. Por volta de 1950, o café representava cerca da metade das nossas exportações, enquanto que os Estados Unidos não só compravam 50% do café brasileiro como eram, ademais, o nosso principal parceiro comercial, com uma parcela de cerca de 40% do intercâmbio externo brasileiro, importações mais exportações. Por volta de 1980, noventa por cento do petróleo utilizado no Brasil era importado e o petróleo representava mais de 50% de nossas importações. As variações de seu preço tinham grande impacto, para o bem ou para o mal, sobre a economia brasileira. Naquela época, as importações americanas provenientes do Brasil representavam cerca de 2% do total das importações americanas enquanto que as exportações americanas para o Brasil representavam cerca de 1,5% do total das exportações americanas para o mundo.

31. Diante dessa situação de dependência econômica é que se pode avaliar a importância e a coragem de ações decisivas para o desenvolvimento de nosso país, como foram a de negociar a participação na Segunda Guerra Mundial em troca do financiamento da construção da Companhia Siderúrgica Nacional – CSN (o que somente ocorreu após relutante apoio americano) e a criação, por Getúlio Vargas, da Petrobrás, em 1954, essencial para alcançar a autonomia energética. Vargas, tão duramente combatido pelas mesmas correntes políticas que historicamente, e até hoje, se opõem à autonomia do Brasil, que defendem seu ingresso subordinado em outros blocos, de forma direta ou sob o eufemismo de abertura e de inserção, de qualquer forma, na globalização assimétrica e hegemônica, cujo ritmo se reduziu mas não desapareceu com a crise de 2008. Seu líder, o sociólogo e Presidente Fernando Henrique Cardoso, expressando o antagonismo das classes proprietárias tradicionais e das elites intelectuais cosmopolitas, em certo momento declarou de público: “Nosso passado político ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da Era Vargas – ao seu modelo de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista”!

32. Hoje, o café representa 3% das exportações brasileiras, nosso maior parceiro comercial é a China, e o nosso principal produto, tanto no caso das exportações como no das importações, não ultrapassa dez por cento do total. Os Estados Unidos têm representado, em média, nos últimos anos, cerca de 17% de nossas exportações, se não considerarmos o ano crítico de 2009. A crise econômico-financeira internacional permanece, apesar das flutuações de atividade, nada indica seu fim próximo e, pelo contrário, tudo aponta para a possibilidade de seu agravamento (ou de sua permanência, com a economia em depressão). Mesmo após o fim da crise, a participação americana na pauta comercial brasileira não deverá voltar aos seus antigos e elevados níveis.

33. A importância dos Estados Unidos para o nosso comércio exterior (e para a parte de nossas elites a ele vinculada de uma forma ou de outra) se reduziu em muito. Assim, se esvaiu aos poucos a capacidade de os Estados Unidos utilizarem contra o Brasil os mesmos instrumentos de pressão comercial e política, que haviam utilizado no caso da Lei de Informática, em 1987, ou das patentes farmacêuticas. A possibilidade de que venham a ameaçar o Brasil com sanções é remota pois sabem que, caso tentassem implementá-las, essas sanções seriam ineficazes. Àquela época, as sanções por parte dos Estados Unidos poderiam ser tão eficazes que sua ameaça fez com que as próprias elites brasileiras, através de ampla campanha de mídia, e da mobilização de intelectuais e economistas “modernos”, exigissem a revogação da Lei de Informática, o que viria a ocorrer no mandato do Presidente Fernando Collor. A partir do momento de sua posse, os “desejos” americanos foram satisfeitos em cascata, e até mesmo por antecipação, na medida em que o Governo Collor decidiu alinhar-se, sem nada obter ou pedir em troca, politicamente ao Ocidente e ao Consenso de Washington, economicamente.

34. Um comentário decorre da reflexão sobre os eventos analisados, de forma magistral, por Moniz Bandeira. O Presidente José Sarney assumiu a Presidência em momento delicado da política brasileira, e foi capaz de conduzir a transição de um regime autoritário para um regime democrático, em situação de pertinaz crise econômica. Garantiu a liberdade de imprensa, iniciou um processo de firme aproximação com a Argentina, base do futuro Mercosul, resistiu às pressões para adotar medidas de arbítrio, convocou a Assembléia Constituinte, promulgou a Constituição de 1988 e presidiu, com serenidade, uma campanha eleitoral de grande violência verbal contra si e contra sua família. Desempenhou papel fundamental, garantindo o sucesso da transição democrática, após a queda do regime civil-militar de 1964, e apoiou programas estratégicos vitais para o Brasil, como os programas nuclear, o espacial e o cibernético. Ao resistir às pressões americanas para desmantelar esses programas, contrariou poderosos interesses, econômicos e políticos, nacionais e alienígenas. Talvez esta tenha sido a razão do antagonismo sistemático que viria a permear setores da mídia contra a sua pessoa.

35. Os investimentos diretos e os financiamentos, originários dos países exportadores de capital e que se destinam aos países subdesenvolvidos, frágeis econômica e politicamente, têm sido importantes na História para construir laços de dependência econômica e política. Esses laços tornam possível, sempre que as poderosas potências credoras julgam necessário, o exercício de pressões de toda ordem sobre os países subdesenvolvidos para que estes, mais fracos e devedores, modifiquem políticas internas e posições externas, circunstâncias que ficam expostas em diversas passagens da obra de Moniz Bandeira.

36. Os investidores e financiadores da economia brasileira e de suas elites foram, até a Grande Depressão de 1929, as casas bancárias européias, em sua grande maioria inglesas. A rede de ferrovias que ligava as áreas do café do interior paulista (atividade central da política e da economia do Império e da Primeira República), aos portos de exportação, foi financiada e construída por firmas inglesas, em um regime de garantia de retorno, i.e. de garantia de lucro, do investimento estrangeiro, através da inclusão nos contratos da cláusula ouro. Foram, por essas casas, financiadas a construção dos primeiros sistemas de transporte urbano e de iluminação pública nas principais cidades do país.

37. Até a Grande Depressão não havia indústria digna desse nome no Brasil. Foi o isolamento involuntário do Brasil em relação à economia mundial entre 1929 e 1945, período em que foi reduzida e quase eliminada a possibilidade de exportar café, que tornou difícil importar e transportar bens de consumo, o que estimulou o surgimento de indústrias no país, com o objetivo de produzir bens que substituíssem aqueles importados, consumidos principalmente pelas elites e classes médias urbanas. Dessa época datam a construção da primeira hidrelétrica projetada e construída por brasileiros, Paulo Afonso, e da usina de Volta Redonda, para produzir energia e aço, pilares indispensáveis à construção de qualquer parque industrial sólido.

38. Um parêntesis aqui para uma observação heterodoxa. Todo processo de desenvolvimento econômico de um país, que corresponde ao aprendizado daquela sociedade em produzir bens, se faz pela substituição gradual de importações. Seria impossível para qualquer sociedade agrária subdesenvolvida saltar do estágio primário-exportador para o estágio de produção e exportação de produtos industriais. Aliás, o estágio primário-exportador é caracterizado em todos os países pela liberdade de câmbio e tarifas baixas (usadas apenas para fins de arrecadação), inclusive porque os bens industriais de consumo têm de ser importados, o que dificulta o surgimento de indústrias locais (e de impostos sobre essa atividade).

Assim, a idéia de alguns economistas de que os países subdesenvolvidos poderiam optar livremente entre um modelo de crescimento pelas exportações e um modelo de substituição de importações é irreal. O caminho natural do desenvolvimento se inicia pela substituição de importações e pelo fortalecimento do incipiente capital nacional, o que, de um lado, requer a proteção contra as importações estrangeiras mais competitivas e, de outro, faz surgir reclamações de nacionais importadores e de interesses estrangeiros exportadores.

39. A influência financeira americana no Brasil começa a se expandir com os primeiros empréstimos concedidos pela casa Dillon Reed, que viria a substituir os bancos ingleses, como a Casa Rothschild, enquanto que os investimentos diretos americanos viriam a substituir os capitais franceses e ingleses, que começaram a se retrair após a I Guerra Mundial, enquanto que, por breve período, surgiram os interesses alemães, em competição com os americanos. Quando as dificuldades em aumentar exportações, e assim gerar as divisas necessárias para realizar as importações de bens de capital e de bens de consumo de toda ordem, consumidos pelas elites e classes médias urbanas, tornaram necessário elevar as tarifas e implantar sistemas de administração e controle cambial, os investimentos americanos vieram para o Brasil aproveitar as oportunidades de mercado protegido que surgiram.

40. Os investimentos diretos americanos aumentaram, de forma significativa, no período entre 1945 e 1964, expandindo também sua participação no estoque de capital estrangeiro no Brasil. Nos últimos anos, a importância estratégica dos investimentos americanos na economia diminuiu devido a novos investimentos espanhóis, portugueses, e agora chineses, sendo que estes últimos já ultrapassaram a primeira dezena de bilhão de dólares. A participação do capital estrangeiro na formação de capital no Brasil não ultrapassa hoje 10%, ainda que se deva ressaltar sua importância para a transferência e assimilação de tecnologia proprietária. É verdade, por outro lado, que o aumento do estoque de capital estrangeiro dá, no futuro, origem a remessas significativas de lucros, o que é grave sempre que coincide com momentos em que o superávit comercial diminui devido à redução das exportações, ou aumento das importações o que leva a situações periódicas de dificuldades no balanço de transações correntes, em especial quando há crise econômica nos países de origem do capital.

41. Os financiamentos de organismos internacionais, que correspondiam a 1% do PIB, em 1984, não ultrapassam hoje 0,3%. A dívida externa, pública e privada, com bancos comerciais, que ameaçavam o País, e que levaram à moratória nos anos 80, não existe mais. Foi substituída pela emissão de títulos de crédito pelo Tesouro Nacional e pelas empresas e que são tomados por investidores estrangeiros às vezes institucionais, como fundos de pensão. Há forte entrada de capitais especulativos, atraídos pelas altas taxas de juro, que apesar de ser componente indesejável do ingresso de capital, devido a sua volatilidade, se tornou importante para o fechamento do balanço de pagamentos, permitindo equilibrar o déficit em transações que decorre das crescentes remessas de lucros, royalties, assistência técnica, etc.

42. No período que vai de 1950 a 1990, que Moniz Bandeira examina nesta sua obra, os empréstimos de bancos internacionais e de bancos oficiais eram essenciais para fechar as contas externas e foram instrumentos muitas vezes utilizados para procurar influenciar as políticas interna e externa brasileiras. Assim ocorreu, por exemplo, com a recusa americana de autorizar empréstimos do Fundo Monetário Internacional – FMI a Juscelino Kubitschek e a João Goulart e a de autorizá-los rapidamente a Castelo Branco e a Jânio Quadros, conforme relata Moniz Bandeira.

43. O estrangulamento cambial é hoje uma arma política impossível de ser esgrimida por qualquer país contra o Brasil. O Brasil tem reservas de quase 300 bilhões de dólares, pagou os credores oficiais que se reúnem e se coordenam no chamado Clube de Paris e resgatou os títulos da dívida pública interna denominados em dólar. O Brasil saldou sua dívida com o FMI e, portanto, não está mais sujeito à sua fiscalização e à conseqüente imposição legal (devido aos compromissos assumidos nos acordos de empréstimo) de políticas fiscais, monetárias, cambiais e outras, inclusive no campo do trabalho, que são economicamente restritivas, e desestabilizadoras social e politicamente.

44. J. Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, descreveu a política que os países desenvolvidos e os organismos internacionais, entre eles o FMI, recomendam e exigem dos países subdesenvolvidos: “Nós pregamos aos países em desenvolvimento sobre a importância da democracia, mas então, quando se trata dos temas com os quais estão mais preocupados, aqueles que afetam sua subsistência, a economia, afirmamos a eles: as leis de ferro da economia permitem a vocês pequena ou nenhuma escolha; e já que vocês (através de seu processo político democrático) provavelmente farão uma trapalhada, vocês têm de ceder as decisões econômicas-chaves, digamos aquelas concernentes à política macroeconômica, a um Banco Central independente, quase sempre dominado por representantes da comunidade financeira; e para assegurar que vocês agirão de acordo com os interesses da comunidade financeira, dizemos a vocês que devem se focar exclusivamente na inflação – não se preocupem jamais com empregos ou crescimento; e para ficarmos seguros de que vocês farão exatamente isto, dizemos a vocês para impor regras ao Banco Central, tais como expandir a oferta de moeda a uma taxa constante, e quando uma regra falha em conseguir o que se esperava, outra regra é recomendada, tal como metas de inflação” . (2)

45. Enfim, após um longo período de experimento, de crise e de estagnação neoliberal, a transformação iniciada pelo governo do Presidente Lula levou à recuperação da autonomia na política econômica, à redução da vulnerabilidade externa, à reconstrução da infra-estrutura, à construção de um mercado interno de massas, o que permite que a economia brasileira hoje se encontre menos dependente da economia internacional e menos sujeita, portanto, a pressões comerciais e financeiras de Grandes Potências, entre elas os Estados Unidos. O fato de que o grau de abertura da economia brasileira era considerado baixo em comparação com outros países e que isto seria um sinal de “atraso” segundo alguns cosmopolitas, e que, portanto, sua inserção externa seria reduzida e o Brasil seria um país “autárquico” seriam fatos que, ainda que verdadeiros, não permitem a dedução de “atraso”. Em realidade, foi esta situação de menor inserção, inclusive na fraudulenta ciranda financeira, que permitiu que nos resguardássemos dos efeitos da crise e se salvasse a economia e a sociedade brasileira de mais uma década perdida.

46. Ao acompanhar a evolução das relações políticas do Brasil com os Estados Unidos, no período examinado por Moniz Bandeira, vemos que, de um lado, elas se entrelaçam e incidem sobre a aspiração de parte significativa da elite dirigente brasileira de promover o desenvolvimento industrial. Esta aspiração se confronta periodicamente com a política americana que decorre de sua convicção de que o desenvolvimento brasileiro teria de ser o resultado natural da ação das forças de mercado. Portanto, não necessitaria, nem deveria, ser estimulado ou conduzido pelo Estado brasileiro, a não ser para este adotar políticas de liberalização do comércio exterior e dos fluxos de ingresso e saída de capitais. Desse modo, as iniciativas do Estado de procurar o desenvolvimento autônomo da economia brasileira foram vistas com preocupação e resistência pelos Estados Unidos, que se recusaram sistematicamente a financiá-las.

47. Assim ocorreu com a recusa dos Estados Unidos de estender ao Brasil, país aliado que enviara tropas em 1944 à Europa e permitira o uso de seu território pelas forças americanas durante a Segunda Guerra Mundial, os esquemas de doação de capital e de empréstimo, a juros subsidiados e condições muito favoráveis, essência do Plano Marshall, concedidos aos antigos inimigos europeus. Tal recusa causaria impacto e consternação no Brasil, mesmo em sua elite política e econômica tradicional, e levaria, inclusive, à apresentação do chamado “memorandum de frustração”, pelo Chanceler Neves da Fontoura, político conservador, às autoridades americanas, em 1953.

48. O Plano de Metas do Presidente Juscelino Kubitschek foi visto com reservas pelo governo dos Estados Unidos. As empresas americanas não se interessaram em participar, de forma significativa, das políticas de incentivo, i.e. de isenções de impostos, de importação sem cobertura cambial, de doações de terrenos etc., aos investidores estrangeiros (diferentemente das empresas européias, em especial alemãs). No campo político, a Operação Pan-Americana de Juscelino Kubitschek, inspirada pela fracassada viagem do Vice-Presidente Nixon pela América do Sul, em 1958, foi recebida com frieza pelo Presidente Eisenhower. Mais tarde J. F. Kennedy, substituindo a proposta do Brasil e distorcendo seu sentido desenvolvimentista, lançou a Aliança para o Progresso, de caráter assistencialista que, politicamente, permitiu se contrapor às mensagens da Revolução Cubana e recuperar a imagem dos Estados Unidos na região mas que, economicamente, em pouco resultou.

49. No período militar, de 1964 a 1985, os esforços brasileiros para desenvolver conhecimento e capacitação tecnológica em áreas sensíveis, como a nuclear e a informática, foram obstaculizados sistematicamente pelos Estados Unidos, que ameaçaram e implementaram sanções comerciais unilaterais, ilegais, contra o Brasil, como ocorreu no caso da Lei de Informática.

50. Na área nuclear, é possível verificar como se procurou construir, metódica e midiaticamente, o “perigo” que representava a hipotética existência de uma corrida armamentista entre Brasil e Argentina. Idéia sem qualquer fundamento na realidade, devido ao estágio industrial incipiente dos programas nucleares em cada país, sendo que a mesma insuficiência se aplicava à área espacial. Aliás, o conflito militar entre Brasil e Argentina não teria motivações e causas profundas e, portanto, sua possibilidade prática era, em realidade, próxima de zero. As restrições americanas à transferência de bens e de tecnologia nuclear levaram, paradoxalmente, ao desenvolvimento da tecnologia nuclear pelos engenheiros e cientistas brasileiros e à fabricação gradual desses bens, o que viria a permitir o anúncio oficial do domínio completo tecnológico (mas não industrial) do ciclo nuclear, pelo Presidente Sarney, em 1988.

51. Ocorreram momentos de inflexão política devidos a cíclicas decepções: as elites tradicionais brasileiras entretinham, apesar de todos os reveses sofridos em suas esperanças neocoloniais, expectativas de cooperação com os Estados Unidos para obter tecnologia, para promover o desenvolvimento industrial, para expandir as exportações brasileiras. Faziam gestos e declarações e tomavam atitudes de alinhamento com as iniciativas políticas dos Estados Unidos e se defrontavam, na prática, a cada volta do caminho, com a reação de governos de diferente índole, com a sistemática recusa americana de cooperação, ou com sua relativa indiferença, resultado, aliás e inclusive, de um alinhamento político excessivo e subserviente aos Estados Unidos.

Hegemonia e política externa

52. Vivemos o momento em que se desenvolve a estratégia de transformar a inserção – política, econômica, tecnológica – no mundo através de uma nova ação do Brasil na América do Sul, na África, no Oriente Próximo e nos organismos internacionais, diante das Grandes Potências e na conquista de autonomia frente ao FMI. Esta estratégia foi conduzida pelo Presidente Lula, implementada pelo Chanceler Celso Amorim, escolhido pela mais importante revista americana de política internacional, a Foreign Policy, e por um dos três mais prestigiosos jornais americanos, o Washington Post, como a sexta mais importante personalidade do mundo, à frente de Hillary Clinton, Angela Merkel e de 92 outras personalidades, e com o auxílio do Assessor para Politica Internacional do Presidente Lula, o Professor Marco Aurélio Garcia. O momento atual é decisivo para o futuro do Brasil.

53. É indispensável para o Brasil manter a estratégia de reduzir a vulnerabilidade econômica externa, o que significa o controle dos fluxos de capital especulativo e o estímulo ao ingresso de capital produtivo; de reduzir a vulnerabilidade militar, o que significa o desenvolvimento de forças armadas modernas, adequadas, equipadas, adestradas e democráticas; de reduzir a vulnerabilidade política, o que significa lutar, com perseverança e serenidade, para obter um assento permanente no Conselho de Segurança, órgão central do sistema político e militar (tecnológico também) internacional, a cujas decisões o Brasil hoje tem de obedecer sem participar do processo de negociação que leva a sua adoção; de eliminar a vulnerabilidade tecnológica, que requer uma política de indução firme de transferência de tecnologia pelo capital estrangeiro, que para aqui vem atraído pelas perspectivas de lucro, e desenvolver no Brasil as tecnologias mais sofisticadas; de resistir aos esforços internos e externos que levam, na prática, a aumentar a vulnerabilidade de política econômica, resistência que significa a recusa de se deixar incluir, formal ou disfarçadamente, em qualquer bloco econômico-político que não o sul-americano, em troca dos “benefícios” desiguais de abertura assimétrica de mercados, acompanhados da redução de autonomia de instrumentos para promover políticas de desenvolvimento acelerado; de desenvolver nosso potencial humano, nossos recursos naturais e nosso capital, através da formação de um mercado de massas, de capacitação da mão-de-obra, do conhecimento dos recursos naturais, do fortalecimento de estruturas empresariais nacionais.

54. É necessário, prudente e proveitoso manter as melhores relações com as Grandes Potências, devido à sua importância no mundo em geral e para o Brasil em particular porém com fundamento nos princípios da igualdade soberana, da reciprocidade, da não-intervenção e da autodeterminação, sem jamais perder de vista que os interesses nacionais brasileiros, que são os de um país subdesenvolvido, porém de extraordinário potencial, não são idênticos aos interesses nacionais de cada uma das Grandes Potências em geral e, muito menos, daquela que é, de longe, a maior potência mundial, os Estados Unidos da América.

55. Uma política altiva, ativa, soberana, não-intervencionista, não-impositiva, não-hegemônica, que lute pela paz e pela cooperação política, econômica e social, em especial com os países vizinhos e irmãos sul-americanos, a começar pelos países sócios do Brasil no Mercosul, a quem nos une o destino comum, com os países da costa ocidental da África, nossos vizinhos igualmente, e com os países a quem somos semelhantes: mega-populacionais; mega-territoriais; mega-diversos; mega-ambientais; mega-energéticos; mega-subdesenvolvidos; mega-desiguais. Não podemos nos iludir. Nossos verdadeiros aliados são nossos vizinhos – daqui e de além-mar - com quem nosso destino político e econômico está definitivamente entrelaçado – e nossos semelhantes, os grandes Estados da periferia.

NOTAS
(1) “You have to pat them a little bit and make them think you are fond of them.” Secretary of State John Foster Dulles, 1953. In Schoultz, Lars: Beneath the United States: a History of US Policy Toward Latin America; Harvard University Press, 1998.

(2) “We tell developing countries about the importance of democracy, but then, when it comes to the issues they are most concerned with, those that affect their livelihoods, the economy, they are told: the iron laws of economics give you little or no choice; and since you (through your democratic political process) are likely to mess things up, you must cede key economic decisions, say concerning macroeconomic policy, to an independent central bank, almost always dominated by representatives of the financial community; and to ensure that you act in the interests of the financial community, you are told to focus exclusively on inflation – never mind jobs or growth; and to make sure that you do just that, you are told to impose on the central bank rules, such as expanding the money supply at a constant rate; and when one rule fails to work as had been hoped, another rule is brought out, such as inflation targeting”. Foreword by J. Stiglitz, in Polanyi, Karl: The Great Transformation; Beacon Press, 2001.