"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O “Dossiê” Colombiano: radiografia de uma armação contra o Partido Comunista do Chile



Por: Francisco Herreros*

Diário Red Digital


PRIMEIRA PARTE

O fato de que um Estado mafioso e genocida que pratica por definição o terrorismo de Estado e viola os direitos humanos por sistema, como o da Colômbia, acuse a alguém de terrorista, é tão coerente como que um policial pretenda dar uma multa por excesso de velocidade a um piloto que está numa corrida como as 500 milhas de Indianápolis.

O fato de que o Governo do Chile, os partidos de direita e os meios de comunicação que eles controlam, estejam hoje preocupados em extraditar a um compatriota, para ser julgado por tal Estado, pelo simples fato de manter relações políticas, que nunca negou, com uma organização que está em luta armada, que mantem um conflito secular com tal Estado, revela, de uma parte, o delírio à que pode levar uma mentira sistemática, reciclada uma e outra vez pelo aparato mediático; e por outra, seu grau de subordinação à estratégia maior, impulsada pelos poderes centrais, que aponta para a desestabilização dos processos de emancipação que ocorrem em vários países latinoamericanos, cuja principal desculpa, é precisamente, o combate ao terrorismo e ao narcotráfico.

A debilidade das provas e a deficiência técnica da solicitação de extradição do governo colombiano são tão evidentes que, na medida em que predomine o estado de direito e se imponha o raciocínio jurídico sobre as combinações e pressões políticas, Manuel Olate Céspedes, designer gráfico, 42 anos, casado, duas filhas, tem que ser colocado em liberdade e exonerado das acusações.

De fato, está preso o que trabalhou incansavelmente pela paz, enquanto o acusam aqueles que fizeram da violência o instrumento de sua política e, não somente se aferram à guerra como a uma fecunda fonte de recursos, mas também pretendem espalhá-la a nível regional.

Mas, quando Olate seja libertado, quem reparará o dano que causou à sua família, uma campanha odiosa e mentirosa, próxima já aos dois anos, que lhe imputam levianamente as “ligações” com uma organização terrorista? Qual será o custo pago por isso pelos complacentes e irresponsáveis meios de comunicação, que carentes de zelo profissional, ética jornalística e disposição para investigar, se prestaram para caixa de ressonância dessa campanha?


Terrorismo e terroristas

O significado em disputa é o conceito de terrorismo, a partir do qual se infere uma informação conspirativa da realidade. Assim, a versão do Estado colombiano, projetada acriticamente pelos jornais chilenos El Mercúrio e La Tercera, pressupõem que as FARC são uma organização terrorista, e por extensão, toda pessoa ou grupo que entre em contato com ela.

Esta concepção tem uma origem histórica muito precisa: a luta contra o eixo do mal, criada pelo ex-presidente George Bush, em seu discurso do Estado da União, em 29 de janeiro de 2002, para descrever aos regimes que, em sua opinião, apóiam o terrorismo e assim justificar as invasões do Afeganistão, que naquela época já ocorria, e a que se preparava contra o Iraque. Nesta intervenção, Bush mencionou o Irã, Iraque, Coréia do Norte, Líbia, Síria e Cuba.

Depois do fracasso do golpe de Estado na Venezuela, em 11 de Abril de 2002, os falcões da guerra da Casa Branca também incluíram no eixo do mal o regime venezuelano de Hugo Chávez e, desde 2005, o de Evo Morales, na Bolívia.

A ponta de lança da contra-ofensiva norteamericana na região foi o governo de Álvaro Uribe, na Colômbia, com as FARC e a luta contra o narcotráfico – simbolicamente assemelhados – como elemento justificador.

O Plano Colômbia e o Plano Patriota obedecem a essa estratégia, em virtude dos quais o governo dos EUA já transferiu uns seis bilhões de dólares ao governo colombiano – 660 milhões somente em 2009 – e converteu a sua Forças Armadas na maior máquina de guerra da região, com um efetivo superior a 500 mil homens, o que constitui 6,5% do PIB, proporcionalmente superior à dos EUA (4,6%), com duas guerras simultâneas.

Foi nesse contexto e com tecnologia de última geração que as Forças Armadas colombianas bombardearam o acampamento de Raúl Reyes em território equatoriano, em 28 de fevereiro de 2008, matando ao mesmo tempo pelo menos oito civis de diferentes países, pertencentes a organizações de solidariedade com as lutas do povo colombiano. Essa operação se repetiu em 22 de setembro último, quando acabou com a vida de Victor Julio Suárez Rojas, ou mais conhecido como Jorge Briceño, o Mono Jojoy, o segundo comandante e chefe militar das FARC.

Segundo uma outra perspectiva, a visão das organizações de solidariedade com a luta do povo colombiano, às que pertence Manuel Olate, assume as FARC como força beligerante de um conflito de longa data, com origem histórica determinada, que luta por objetivos também historicamente e eticamente justificados, quer dizer, a construção de uma nova ordem social, sobre a base de um programa orientado à solução política do conflito que sangra o país, que propõe um regime democrático, bolivariano e comprometido com a justiça social.

Do ponto de vista jurídico, especificamente no âmbito do direito internacional humanitário, a condição de força beligerante das FARC, sustenta-se no artigo 1º do II Protocolo Adicional à Convenção de Genebra (1), aprovado em 1977, referido à proteção das vitimas de conflitos não internacionais:

Artigo 1º. “Âmbito de aplicação material”.

1. O presente Protocolo, que desenvolve e completa o artigo 3º, comum à Convenção de Genebra, de 12 de agosto de 1949, sem modificar suas atuais condições de aplicação, se aplicará a todos os conflitos armados que não estejam cobertos pelo artigo 1º do Protocolo adicional à Convenção de Genebra, de 12 de agosto de 1949, relativo à proteção das vitimas dos conflitos armados internacionais (Protocolo I) e que se desenvolvam em território de uma Alta Parte contratante entre suas forças armadas e forças armadas dissidentes ou grupos armados organizados que, sob a direção de um comando responsável, exerçam sobre uma parte de dito território um controle tal que lhes permita realizar operações militares sustentáveis e concertadas e aplicar o presente Protocolo.

2. O presente Protocolo não se aplicará às situações de tensões internas e de distúrbios internos, tais como os motins, os atos esporádicos e isolados de violência e outros atos análogos, que não são conflitos armados.

Alem de que, oriunda dos governos do Chile ou da Colômbia, ou dos meios de comunicação que controlam, a categorização das FARC como organização terrorista é ridícula, fundamentalmente implica na ignorância de recorrer à violência como mecanismo secular de solução dos conflitos da sociedade colombiana, presente desde as conspirações de Santander contra Bolívar, no alvorecer de sua história; e grosseira omissão das causas sociológicas e históricas do prolongado conflito armado nesse país.


Violência histórica

Seja por conflitos entre liberais e conservadores, ou anteriormente entre federalistas e unitários, ou por intolerância no âmbito filosófico, religioso ou político; ou por conflitos motivados pela injustiça social e pobreza, ou simplesmente pela luta entre caudilhos. O fato é que, entre 1830 e 1903, registraram-se 13 grandes guerras civis na Colômbia, sem considerar as outras 40 registradas em estados federados, que custaram centenas de milhares de mortos em proporção pavorosa em relação ao tamanho da população.

São as guerras dos coronéis que Gabriel García Márquez escreveu.

Em 9 de abril de 1948, na presidência de Mariano Ospina, o assassinato do líder liberal e candidato presidencial, Jorge Eliécer Gaitán, desencadeou uma sublevação popular espontânea, denominado “bogotaço”, em que um número indeterminado de pessoas morreu. Alguns historiadores citam pelo menos três mil mortos.

No quinquênio imediatamente posterior, período conhecido como “A Violência”, que se estendeu até 1953, a ofensiva militar, policial e paramilitar desatada pelo líder do Partido Conservador, Laureano Gómez, contra militantes e simpatizantes do Partido Liberal, custou 300 mil mortos.

Da mesma forma que a direita chilena em relação à Unidade Popular, Gómez se empenhou em acusar os liberais de um armamentismo ilusório, enquanto eram massacrados com rigor metódico. Nessa perspectiva, o conflito armado na Colômbia, que persiste desde então, não é mais do que o cumprimento da autoprofecia.

O deslocamento forçado e o assassinato de camponeses por conta do paramilitarismo financiado pelos oligarcas, fenômeno que recrudesceu desde o meado dos anos oitenta do século passado, com comprovada cumplicidade e participação de Uribe Vélez, tem sido uma prática habitual e ininterrupta à qual deve-se lhe imputar centenas de milhares de vitimas mais.

De fato, o bombardeio e assalto do povoado de Marquetália, onde vivia Pedro Antonio Marin, mais conhecido como Manuel Marulanda Vélez, em 11 de maio de 1964, sem outra razão do que a imposição do Plano norteamericano LASO (N.T: Latin America Security Operation), que foi o antecedente direto que levou a criação das FARC.


Tentativas de solução política

Sem considerar as centenas de milhares de mortos do conflito que se prolonga desde então, em maiôs de 1984, culminaram os diálogos das FARC-EP com o governo de Belisario Betancourt, nos denominados Acordos de La Uribe que, em essência, estabeleceram uma trégua no conflito, com a perspectiva de assinar um tratado de paz definitivo e da reintrodução da guerrilha à vida política e civil.

Naquela época ninguém duvidava da condição das FARC-EP como força beligerante. Deste processo surgiu a União Patriótica, uma agremiação política que contava com a participação de representantes desmobilizados das FARC, do Partido Comunista e de organizações sociais. Em 1986 a União Patriótica obteve a terceira posição nas eleições gerais e conseguiu eleger vinte parlamentares.

O promissor processo político foi afogado em sangue pelos paramilitares numa aliança com narcotraficantes e agentes do Estado, mediante um frenesi homicida que em dois anos deixou cerca de cinco mil mortos, incluindo Jaime Pardo Leal e Bernardo Jaramillo, candidatos à presidência da República, oito senadores, treze deputados, setenta vereadores, onze prefeitos e milhares de quadros do Partido Comunista e de organizações sindicais.

Às FARC não sobrou outra alternativa do que voltar à clandestinidade e à atividade armada, sem prejuízo de que desde então mantêm vigente a oferta de diálogo com o governo, com a finalidade de retomar a via das negociações políticas para a solução do conflito.

De fato, em 1998, houve novo processo de diálogo com o governo de Andrés Pastrana, que sem grandes progressos, mas ao menos no formal, extingue-se em 2002, com o ataque, sem aviso prévio, das forças militares à zona de distensão, San Vicente del Caguán, e fica sepultado definitivamente com a chegada de Álvaro Uribe ao poder.

Esta personagem, de reconhecidos vínculos com o narcotráfico e com o paramilitarismo, assume o governo com as ordens do império de intensificar a guerra interna, para o qual primeiro se vale do Plano Colômbia e, a seguir, do Plano Patriota.

Não somente a guerra interna, mas aumentar a escalada a nível regional no que fosse possível, como demonstram a autorização para a instalação de sete bases militares norteamericanas em território colombiano; o bombardeio do acampamento de Raúl Reyes no Equador; continuas provocações fronteiriças contra a Venezuela e, ultimamente, a exportação de tecnologias e práticas repressivas para as forças armadas hondurenhas.

No mesmo dia em que José Manuel Santos Ascarza assumiu o poder, Alfonso Cano, atual Secretário Geral das FARC, propôs um diálogo ao novo governo, oferta que reiterou após a morte de Jorge Briceño.

Como resposta, Santos disse que o Estado continuaria combatendo-os até a aniquilação. Obvio. Santos não manda nele próprio.


Apocalipse agora

Em parte pelas razões já citadas, a violação dos direitos humanos na Colômbia chega a dimensões apocalípticas.

O Observatório de Direitos Humanos e do Direito Internacional Humanitário, depende da Vice-presidência da República, assinala que somente “entre janeiro e agosto de 2009 foram registrados 10.737 homicídios; 20 casos de massacres com 120 vitimas; 362 execuções extrajudiciais; 245 homicídios intencionais de pessoas protegidas e 18 desaparecimentos forçados”.(2)

A unidade de Direitos Humanos da Promotoria Geral da Nação da conta que “entre janeiro e setembro de 2009 foram cometidos 10 homicídios contra professores sindicalizados e 13 contra sindicalistas de outros setores”.(3)

O Relatório 2010 da Anistia Internacional Colômbia mostra que no decorrer de 2009 foram registrados 289 mil novos deslocados, 114 assassinatos de indígenas; 184 homicídios de pessoas pertencentes a grupos sociais marginalizados, como trabalhadores(as) do sexo, lésbicas, homossexuais, bissexuais, transformistas e viciados em drogas; e o assassinato de 8 ativistas dos direitos humanos e 39 sindicalistas.(4)

O relatório do Observatório dos Direitos Humanos, da Coordenação Colômbia-Europa-EUA, um grupo de Ong’s dedicados à defesa dos direitos humanos, estabelece que nos primeiros 75 dias do governo de José Manuel Santos, foram registrados 33 assassinatos de lideres camponeses, ativistas dos direitos humanos e dirigentes sindicais.(5)

No mesmo período, a Organização Nacional Indígena reporta o assassinato de cem indígenas, 40 deles no departamento de Cauca.


Os números globais são igualmente pavorosos

O Registro Único de População Deslocada registra um total de 3.226.442 deslocados internos até 30 de setembro de 2009. Por sua vez, a Consultoria para os Direitos Humanos de Deslocamento (CODHES) estima um total de 4.629.190 deslocados internos até o final de 2008, de terras que envolvem uns 6,65 milhões de hectares.(6)

Ou seja, quase um terço da população foi deslocada de um quarto do território colombiano por grupos paramilitares financiados pela oligarquia, para se apossar de suas terras.

Que país se livra de uma guerra civil com semelhante transtorno?

Segundo o presidente do CODHES, Marcos Romero, “já superamos o nível de desaparecimentos da Argentina, que chegou perto de 30 mil pessoas e que pode passar dos 100 mil nas últimas décadas”.

De fato, um relatório do Departamento de Medicina Legal, citado por TeleSur (7), dá conta de 38.255 pessoas desaparecidas nos últimos três anos e 18.236 somente em 2009.

O relatório 2009 da Alta Comissionada da ONU para os Direitos Humanos mostra: “Até dezembro de 2009, o Registro Nacional de Desaparecidos identificou 37.300 casos, dos quais, quase 10.000 correspondiam a casos de desaparecimento forçado. A maioria destes casos permanecem na impunidade, sem resolver nem identificar o culpados”.(8)

Um relatório da Promotoria de Justiça e Paz, de fevereiro de 2010, indica que os paramilitares reconhecem ter cometido 30.470 assassinatos nos últimos quinze anos e ter desaparecido outras 2.520 pessoas. (9)


Corrupção e impunidade

Todos os relatórios de direitos humanos disponíveis coincidem no alarme sobre a impunidade em que permanece o escândalo dos “falsos positivos”, que teve uma dramática expressão na descoberta da vala comum de La Macarena.

“Falsos positivos” é a denominação dada na Colômbia às execuções extrajudiciais no contexto de operativos militares antiinsurgentes, em que as testemunhas declaram que não houve combates; e onde as vitimas são capturadas nas suas residências ou lugar de trabalho para ser conduzidas ao local da execução. As pessoas executadas ou desaparecidas são, geralmente, camponeses, indígenas, trabalhadores, jovens, pessoas marginalizadas ou lideranças comunitárias. As vitimas são informadas pela força pública como membros da insurgência abatidos em combate.

Mais diabólico ainda – como estabelece o relatório 2010 da Corte Interamericana de Direitos Humanos – “os membros da força pública recebem incentivos econômicos, profissionais e prêmios pela apresentação de “positivos”; a competência judicial para a investigação dos fatos se atribui, desde o primeiro momento, a juizados penais militares; os familiares das vitimas, testemunhas e defensores dos direitos humanos dedicados ao esclarecimento dos fatos, são objeto de atos de ameaças e intimidação; a percentagem de condenações dos responsáveis é ínfimo. A Unidade de Direitos Humanos da Promotoria Geral da Nação conta com 1.230 casos que afetam a 2.103 vitimas nos últimos seis anos”. (10)

Responsável direto destes fatos, por ser hierarquicamente superior aos malfeitores, era o
Ministro da Defesa, José Manuel Santos Ascarza, o mesmo que qualificou a detenção de Manuel Olate como “um sinal muito importante, de que perseguiremos os terroristas onde estiverem”.

Nos primeiros dias de dezembro de 2009, uma visita de inspeção de uma delegação de congressistas e sindicalistas britânicos, permitiu a descoberta da vala comum de La Macarena, no departamento de El Meta, onde foram sepultados ilegalmente mais de dois mil cadáveres. Pesquisas posteriores demonstraram que a maioria delas era de pessoas arroladas em listas de “falsos positivos”.

Apesar de ter 3.700 militares processados ou sob investigação, nenhum deles está na cadeia e nenhum foi condenado. Longe disso, numa visita à base militar de La Macarena, Álvaro Uribe assegurou que a vala comum era somente o produto de calunias: “Aqui vieram os inimigos da Segurança Democrática, a alimentar calunias contra o Exército da Pátria”.

O relatório do Comitê de Direitos Humanos da ONU denunciou o alarmante grau de impunidade com relação às violações em massa dos direitos humanos na Colômbia.

Outro ponto enfatizado pelo Comitê, remete à agência de inteligência da Colômbia, o Departamento Administrativo de Segurança, DAS, o mesmo que entregou as “provas” contra Manuel Olate para a Promotoria Geral da República.

“Sistematicamente, já desde alguns anos, o DAS vem realizando uma operação de seguimento ilegal sobre membros da oposição, jornalistas, defensores dos direitos humanos e também da Corte Constitucional e organismos tais como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos”.

O Relatório Anual da Alta Comissionada da ONU para os Direitos Humanos, sobre a situação de direitos humanos na Colômbia, 2009, acrescenta sobre o particular:

“Em 2009 tornou-se público que o DAS, entidade de inteligência dependente da Presidência da República, teria desenvolvido, pelo menos desde 2003 e de forma generalizada e sistemática, uma série de atividades ilegais dirigidas contra, entre outros, defensores de direitos humanos, opositores políticos, jornalistas e altos funcionários do governo, como o vice-presidente. Além disso, informação preocupante publicada nos meios de comunicação indicaria que até os magistrados da Corte Suprema foram objeto de vigilância. Estas ações, em muitos casos, tinham como objetivo neutralizar as atividades desenvolvidas pelas vitimas, considerados “alvos legítimos” por ser opositores potenciais das políticas governamentais. As ações ilegais incluíam interceptações telefônicas e de e-mail, seguimentos, fustigamento e ameaças, roubos de informação e invasões ilegais de escritórios e domicílios. Isto provocou um clima de medo e insegurança e, em algumas ocasiões, sabotagem e descrédito do trabalho dos defensores e defensoras dos direitos humanos. As ações contra as mulheres incluíram ameaças diretas contra seus filhos e filhas, em ocasiões com manifesto conteúdo sexual violento” (11).

A esse inferno na Terra, com antecedentes que escassamente ultrapassam a suspeita, Santos, Piñeira, Allamand, Espina, El Mercúrio e La Tercera pretendem que a Justiça chilena extradite a um compatriota?


SEGUNDA PARTE

A “volumosa” prova da Promotoria Geral da Colômbia contra Olate se reduz a uma dezena de mensagens de e-mail entre o Comandante Raúl Reyes e um certo “Roque”, e uma serie de fotografias de um grupo de chilenos no acampamento do mesmo Reyes, entre eles Manuel Olate, encontrados no seu poderoso laptop apreendido logo após sua morte pela Operação Fênix, que como se sabe, consistiu no bombardeio de seu acampamento, com tecnologia de última geração, de origem norteamericana, em território equatoriano, em 01 de março de 2008.

Além disso, existe o reconhecimento de Roque por uma testemunha, uma guerrilheira desmobilizada, cuja descrição não coincide com o aspecto físico de Olate.

A debilidade da prova é tão evidente que o jornal chileno La Tercera, que tomou a frente da campanha, na sua edição de cinco de novembro reconheceu que a chanceler colombiana, Maria Ângela Holguín, “expressou algumas duvidas e realizou consultas” ao seu homologo chileno, Alfredo Moreno, sobre os passos a seguir no processo de extradição.

No dia seguinte, o jornal El Mercúrio, outro jornal chileno que tomou parte da campanha, publicou que o Promotor Nacional, Sabas Chauán, “pediu celeridade ao Ministério Público colombiano para enviar os antecedentes para solicitar a extradição de Manuel Olate”; após o qual a crônica acrescenta: “o ponto é que os profissionais chilenos poderão sugerir aos requerentes que melhorem a apresentação da evidência” na idéia de que “o dossiê final e o pedido de extradição, que chegam através de vias diplomáticas, sejam o mais completo possível, com vistas ao julgamento que decidirá o futuro do suspeito”.

Desta verdadeira confissão de parte, desprende-se que, tanto o Estado chileno, representado pelo Chanceler e pelo Ministério Público, e a imprensa “séria”, em aberto flagrante do presépio de presunção de inocência e da obrigação de outorgar proteção diplomática a um compatriota, aparecem vinculados numa relação de estreita colaboração com um Estado estrangeiro, com o fim de extraditar a um compatriota, por razões estritamente ideológicas.

Este é um fato inédito na história do país, do qual terão que prestar conta no devido momento.

Em qualquer tribunal independente do mundo, as provas extraídas do laptop de Raúl Reyes devem ser rechaçadas, por motivos de natureza diversa.


Vicio de origem

Em primeiro lugar, as provas têm vícios de origem, pelo fato de serem provenientes de uma agressão armada em território estrangeiro, abertamente uma violação do direito internacional e que, adicionalmente, impediu a liberação unilateral de reféns em poder das FARC, que Raul Reyes negociava pessoalmente desde o seu acampamento.

Logo, apesar dos seus esforços, o Estado colombiano não conseguiu validar o conteúdo do computador de Reyes como prova confiável.

Entre eles, a solicitação de uma perícia forense para a INTERPOL sobre a validade da prova contida nos computadores apreendidos no acampamento.

A conclusão 2b desse relatório, desabilita o conteúdo desses computadores como prova válida diante qualquer tribunal do mundo, em termos irrevogáveis:

“Conclusão N. º 2b: Entre o dia 01 de março de 2008, data em que as autoridades colombianas aprenderam das FARC as oito provas instrumentais de caráter informático, e o dia 03 de março de 2008, às 11h45, momento em que tais provas foram entregues ao Grupo Investigativo de Delitos Informáticos da Direção de Investigação Criminal da Colômbia (DIJIN), o acesso dos dados contidos nas citadas provas não se ajustou aos princípios reconhecidos internacionalmente para o tratamento de provas eletrônicas por parte dos órgãos encarregados da aplicação da lei”.

A maior informação, o parágrafo 91 desse informe, assinala de modo textual:

“Utilizando suas ferramentas forenses, os especialistas encontraram um total de 48.055 arquivos cujas marcas de tempo indicavam que haviam sido criados, abertos, modificados ou suprimidos como consequência do acesso direto oito provas instrumentais por parte das autoridades colombianas entre o momento da apreensão destas, em 01 de março de 2008 e 03 de março de 200, às 11h45”.

Mas isso não é tudo. No processo contra Liliana Obando, socióloga, acadêmica, dos direitos humanos e ex-funcionária da Federação Nacional Sindical Unitária Agropecuária, acusada, assim como Olate, de supostas conexões com as FARC, baseado em antecedentes obtidos nos computadores de Reyes, o investigador do grupo antiterrorista da Direção de Investigação da Policia Judicial, DIJIN, Ronald Hayden Coy Ortiza, admitiu que manipulou a informação dos computadores de Raul Reyes, antes de entregá-los à Promotoria.

Segundo reportagem de Telesur, Coy admitiu que “abriu a informação e a manipulou antes de ser submetida ao controle de legalidades, sem que existisse autorização legal para isso”.

Coy ainda assegurou que não encontrou correios eletrônicos, mas sim documentos Microsoft Word.

“Não se encontrou, até o momento, correios eletrônicos. Encontrou-se grande quantidade de endereços que pertencem a correios eletrônicos, mas Reyes armazenava a informação em Word e de programas Microsoft”.

O advogado Eduardo Matias informou que, com a confissão de Coy, o mérito para julgar a sua cliente ficou sem base jurídica:

“Evidencia-se um manejo desmesurado por parte do funcionário judicial e um abuso de autoridade que viola o devido processo e, portanto, a prova não pode ser levada em conta como tal dentro de um processo penal”.

Com maior razão esse argumento é aplicável a um processo de extradição, onde a culpabilidade de um imputado deve ser provada com maior rigor do que a de um processo comum.


Solidariedade internacional

Quanto à sua presença e a de outros três chilenos no acampamento de Raul Reyes, do qual saíram dois dias antes do bombardeio, Olate nunca a negou. Afirma que foi no contexto da realização do Segundo Congresso da Coordenadora Continental Bolivariana, um movimento político social amplo, internacional, público, legal e aberto, cujo objetivo é a solidariedade internacional com as lutas do povo colombiano.

Pretender que as retrogradas direitas do Chile e Colômbia entendam o que significa solidariedade internacional, é tão difícil como esperar que nasça cabelo em rãs. Mas, desde a cadeia Santiago I, onde está internado sob regime de segurança que somente lhe permite duas horas fora da sua cela por dia, Olate declarou:
“Não entendo que façam tanto alarde da nossa presença no acampamento do comandante Raul Reyes, pois já o declaramos em inúmeras ocasiões. Fomos lá para levar uma saudação do Congresso Continental. No meu caso, levava também a tarefa de fazer uma entrevista ao comandante Raul Reyes, por conta da radio Bio-Bio. Para mim, a solidariedade internacional com as lutas do povo colombiano, faz parte da política do Partido Comunista, ao qual pertenço. Nós somos a favor de uma solução política ao prolongado conflito armado na Colômbia. Acreditamos que, neste momento, já não é mais possível uma solução militar. E dentro desse contexto, entendemos que a melhor colaboração é apoiar o intercambio humanitário de prisioneiros, em nossa opinião, o primeiro passo para criar um clima de confiança que permita às partes sentar para conversar”.

Lembrou também, que a visita ao acampamento de Raul Reyes não violou nenhuma legalidade, pois tinham permissão para se mover para qualquer lugar do território equatoriano.

Em entrevista para o semanário El Siglo, em março de 2008, Olate explicou sobre as fotos no computador de Reyes:

“Essas fotos nos mesmos tiramos. Aqueles que trabalham com fotografia digital sabem que em determinado momento acaba-se o espaço da memória e, para liberar espaço, deve-se descarregar as fotos em um computador. Nós as salvamos em um computador que nós emprestaram e que não podíamos suspeitar que depois seria capturado depois de um bombardeio”.

Explicou também sobre o uso do uniforme camuflado, próprio das FARC:

“A razão é bastante simples. Ocorre que para chegar a essas áreas, deve-se caminhar muito. Já lhe contei que caminhamos sob um dilúvio tropical. Chegamos ao acampamento encharcados e sujos. Portanto, ao chegar ao acampamento emprestaram-nos essas roupas, que era a única disponível. Não estávamos em nenhum shopping”.


Os e-mails da farsa

Manuel Olate nega enfaticamente ser Roque.

Mas mesmo que a polícia chilena identificasse Roque, qualquer que seja, e o colocasse a disposição da Promotoria Geral da Colômbia, esta dificilmente conseguiria a extradição baseado nas copias em formato Word de quinze mensagens de e-mail que, além de tudo, sugerem relações políticas, mas nenhum fato punível, muito menos extraditável.

A seguir, descrevemos alguns desses arquivos em formato Word, supostamente originados em mensagens de e-mails.

Raul para Roque, dois de agosto de 2004:
“Roque, tenha em conta que sua comunicação comigo é independente das comunicações com César e os camaradas do Brasil”.

Roque para Raul, 2 de fevereiro de 2007:
“Um agradecimento especial à camarada Gloria pelas panquecas, pela paciência e por colocar a voz de Rafaela na página web do movimento. Obrigado pela sua consideração”.

Raul para Roque, 22 de outubro de 2007:
“Lamentamos os problemas de saúde de nossa camarada Rafaela, ao mesmo tempo em que fazemos votos pela sua rápida e satisfatória recuperação. Os desejos são de voltar a tê-la aqui conosco na próxima viagem do coletivo”.
Roque para Raul, 28 de dezembro de 2007:
“Um abraço para toda a companhia, para Chana, para a camarada Gloria (Rafa quase chora com o presente que você lhe enviou) e para você, camarada Raul, um abraço e desejos de êxito nesta campanha”.

Roque para Raúl, 28 de maio de 2007:
“Como anedota comento-lhe que iniciamos a venda das bonequinhas guerrilheiras, as que Rafa faz, conseguimos colocar 5 em exposição e todas foram vendidas, a um dólar e meio”.

Raul para Roque, 31 de maio de 2007:
“Felicitações para o coletivo pelo bom trabalho. Bem, com as bonequinhas de Rafaella haverá dinheiro, propaganda e mais relações com as juventudes comunistas”.
Fenomenal. Desde que as FARC fazem parte do eixo do mal, o Estado colombiano as acusa de obter financiamento mediante o narcotráfico. Mas ocorre que, segundo a solicitação de extradição de Manuel Olate, na realidade o fazem...com a venda de bonequinhas.
E não é brincadeira, como se comprova pelo fato de que dois dos três delitos pelos quais se solicita a extradição são “financiamento do terrorismo e administração de recursos relacionados com atividades terroristas”, com somente o mérito de tão contundente “prova”. Posteriormente voltaremos a este assunto.


A conexão mapuche

Na ordem de investigar o RUC 0900212075-2 (N.T: espécie de CNPF), da Promotoria de Pudahuel, de 12 de julho de 2010, oficia-se à Promotoria Geral da Colômbia, a fim de solicitar informação para atribuir delitos de “associação ilícita terrorista, conduta terrorista e financiamento do terrorismo”, e determinar o grau de participação de cidadãos chilenos”, segundo se entende “da informação extraída dos comutadores do líder das FARC, Raul Reyes”.

O texto acrescenta que o oficio de referência “deve ser confeccionado em conjunto com os antecedentes que se investigam no processo RUC Nº 0900697670-8, de 28 de julho de 2009, do Juizado de Garantias de Temuco, pelos crimes e delitos simples contra a Soberania Nacional e Segurança do Estado, da Promotoria Local de Temuco”; que dizer, o processo que neste mesmo instante tramita contra 27 lideranças mapuches, em Cañete.

Em nenhum dos quinze e-mails supostamente trocados entre Raúl Reyes e Roque aparece uma relação direta entre os mapuche e as FARC através de Roque. Isso é o deduz a Promotoria Geral da Colômbia por inferência indireta com base em informações de contexto.

A seguir, o conteúdo desses e-mails:

Roque para Raul, 02 de fevereiro de 2004:
“Outro ponto é o regresso da Presidente do PC, Gladys Marin, ao país; isso seria perto de 14 de março, no dia 27 desse mês haverá um grande ato em homenagem à companheira, mas relacionado com as lutas que estão sendo desenvolvidas no país, os mapuches, a saúde, os desempregados, a defesa do cobre. A palavra de ordem do ato é ‘Todas as Lutas’”.

Outra das conexões descobertas pela Promotoria Geral da Colômbia é uma declaração do Comitê Regional da Nona Região do Partido Comunista, de 17 de fevereiro de 2007, em apoio à comunidade Temucuicui, que teria sofrido uma violenta incursão da polícia no dia anterior.

Todo o peso da ‘prova’ com a que se pretende extraditar um cidadão chileno para a Colômbia, cuja identidade não foi estabelecida de modo fidedigno, descansa na seguinte troca de supostas mensagens via e-mail:

Roque para Raul, 27 de março de 2006:
“Existem alguns companheiros do povo mapuche que há muito tempo estão em luta com o Estado pela devolução de suas terras, têm planos ambiciosos para libertar uma região do sul do Chile, onde atualmente vivem. Através de contatos que se aproximaram de nós para pedir apoio na forma de instrução e é o que estou fazendo”.

A resposta de Raul Reyes, segundo o dossiê colombiano, é de 30 de março, três dias depois:

“Deve-se lhes mostrar as características daqueles que participarão da experiência, partindo da dureza do regime militar e dos riscos a que são expostos pelo confronto diário com as tropas inimigas (...), ter em conta quanto tempo terão e a quantidade de companheiros. É preferível que sejam entre seis e dez e que tenham resolvido pendências trabalhistas ou estudantis durante o tempo de permanência aqui”.

E não há mais nada. É verdade que no dossiê colombiano existem reconhecimentos fotográficos de testemunhas sobre a presença de alguns mapuches no acampamento de Raul Reyes e a prova de sua entrada no território equatoriano, mas nada que os vincule a Roque ou ao Partido Comunista.

A debilidade da prova é tão manifesta que os promotores da província de Bio-Bio e da Araucania, encarregados das oitivas contra os comunheiros mapuches, desistiram de interrogar Olate e de utilizar as provas enviadas pela Promotoria Geral da Colômbia.


A conexão comunista

Vem ao caso lembrar que esta campanha teve inicio em agosto de 2008, logo após uma visita dos senadores Alberto Espina e Andrés Allamand e do então grande empresário e candidato presidencial, Sebastián Piñera, à Colômbia, onde mantiveram encontro com Álvaro Uribe Vélez e José Manuel Santos.

Mais ainda, gabaram-se de ter recebido essa informação sobre “chilenos-FARC” em um avião, estando presentes Uribe (agora processado judicialmente pela justiça dos EUA, acusado por crimes contra sindicalistas de uma empresa norteamericana na Colômbia), José Manuel Santos e o Comandante-em-chefe do Exército, general Mario Montoya, que posteriormente teve que renunciar pela sua responsabilidade nos assassinatos descobertos na vala comum de La Macarena.

Assim que o trio dinâmico Piñera, Allamand e Espina chegou da Colômbia, iniciou-se uma campanha brutal através do jornal La Tercera e, em menor grau, El Mercúrio, que já leva quase dois anos, em virtude da qual filtravam informação supostamente reservada, entregue à Promotoria chilena, a mesma que perde o sono no presente trabalho. Nunca Piñera, Espina, Allamand, nem muito menos La Tercera, revelaram as fontes da informação.

O Partido Comunista solicitou formalmente que as fontes fossem reveladas e jamais teve resposta, nem do governo, nem do trio dinâmico, nem de nenhum promotor. Ainda que a ANI, e em seu momento o Promotor Nacional, não encontraram mérito para investigar, as publicações arbitrárias na mídia prosseguiram e que a esta altura já causaram um dano irreparável a Manuel Olate e sua família.

Apesar da gravidade das acusações, não têm se esforçado em comprová-las, assim como o frouxo procedimento de extradição ensaiado pelo Estado colombiano.

Desde já devem saber que, uma vez esclarecidos os fatos, as responsabilidades legais correspondentes serão perseguidas, e que, para ser esclarecidas, Piñera, Hinspeter, Allamand e Espina, serão convocados a depor.

A única conexão do Partido Comunista nesta armação é uma declaração de um suboficial da Policia Judiciária, Jaime Humberto Lizarazo Pediache, que sem o apoio de qualquer antecedente como garantia, redigiu-se diante do Promotor Murcia Berneo, na presença do promotor chileno Emiliano Arias Madariaga, o seguinte parágrafo:

“A analise da informação mostra a participação e apoio nas atividades das FARC de sete integrantes do Partido Comunista do Chile, além de ralações com a Coordenadoria Continental Bolivariana, são eles: Carlos Casanueva, Guillerno Teiller, Lautaro Carmona, Sergio Sepúlveda, Daniel Núñez, Jorge Insunza e Andrés Lagos”. E nada mais.

Se esta é uma das oito testemunhas anunciadas pela Promotoria colombiana, estará em sérios problemas para sustentar sua posição.

Consultado a respeito, Andrés Lagos, Encarregado das Relações Internacionais do Partido Comunista do Chile e integrante da sua Comissão Política, assinalou:

“Estamos diante da tentativa de exteriorização uma política de guerra, de terrorismo de Estado, desde a Colômbia para o Chile, parte de uma operação mais global do império norteamericano, que explica as tensões bélicas com a Venezuela, o bombardeio e assassinato do comandante Raul Reyes e de pessoas que se solidarizavam com a luta do povo colombiano e com as FARC-EP, em território equatoriano.

Evidentemente, o que se procura com isso é gerar uma guerra e, portanto, exteriorizar o conflito. O império norteamericano está disposto inclusive a isso, para evitar que se consolide na nossa região uma tendência à emancipação dos povos, que continua sendo um fator de desenvolvimento para frente, onde se abrem relações de intercâmbio com a China, Índia, Rússia e Irã. Quer dizer, com outros eixos mundiais.

A ação belicosa e criminosa do império se expressa através do Estado colombiano, que entre outras coisas, viola flagrantemente os direitos humanos através de uma política de terrorismo de Estado.

Preocupa-nos que a exteriorização do conflito tenha, no caso do Chile, uma expressão a partir da qual vai ficando cada vez mais claro que o governo de Piñera deixa que o governo de Santos faça seu trabalho sujo, contra o povo mapuche, os movimentos sociais e o Partido Comunista.

Procura-se criminalizar e estigmatizar processos políticos que, inclusive, tem a ver com convergências que o Partido Comunista levou adiante, desde o ponto de vista de uma concepção democratizadora da sociedade, ampliando espaços de alianças.

Procura-se incidir na irrupção de movimentos sociais e suas lutas, e se busca amarrar as mãos da vocação solidária que exercem diferentes setores em nosso país, incluída a expressão concreta que Manuel Olate realizou, e muitos outros chilenos nesta perspectiva. Portanto, não somente deve-se denunciar a armadilha, mas também a operação que há por trás dela.

Vamos responder em forma transparente, com a verdade e com as armas da justiça. Parece-nós preocupante que uma ministra já tenha dado sinais de acolher as denuncias e as pressões de um Estado terrorista, diante do qual vamos a convocar a solidariedade nacional e internacional mais ampla, que já se manifestou de forma importante. Não vamos ceder em nosso empenho de empurrar na direção de uma solução política e negociada, de intercambio humanitário e de diálogo na Colômbia. Preocupa-nos que o governo de Piñera oculte seu verdadeiro objetivo, e que tenha se alinhado com a solução guerreirista, dentro e fora da Colômbia.

Somos pela paz e, portanto, por uma solução política, negociada e de intercambio humanitário, que é o esforço que governos da nossa região e europeus estão fazendo, ou se é pela guerra, que é a solução dos EUA, que sempre tenta desestabilizar governos que não pode controlar, através de crimes, terrorismo de Estado e, inclusive, tencionar as fronteiras, como nos casos da Venezuela e Equador”.


Tiro pela culatra

Segundo o jornal chileno El Mercúrio, de 03 de novembro de 2010, a Promotoria Geral da Colômbia fornecerá 27 provas e oito testemunhas contra Olate.

Uma reviravolta no mínimo estranha, por quanto o oficio 005617, de oito de junho de 2010, assinado pelo Promotor Pablo Murcia Bermeo, da Unidade Nacional contra o Terrorismo, da Colômbia, informa sobre o numeral 1, quer dizer sobre a solicitação de localizar membros desmobilizados do Frente 48 das FARC, que tivessem conhecimento das operações na região fronteiriça entre a Colômbia e o Equador, e/ou acesso aos integrantes da Comissão Internacional das FARC:

“Através do Programa de Atenção Humanitária ao Desmobilizado, do Ministério da Defesa Nacional, tem-se realizado as coordenações pertinentes para efeitos de localizar desmobilizados do Frente 48 das FARC. Nesse sentido, apesar de se ter localizado diversos ex-integrantes do referido grupo terrorista, estes não forneceram maiores elementos de informação, portanto, a tarefa de localizar mais desmobilizados continua”.

No item 7, denominado “Resultado da Atividade Investigativa”, lê-se:
“No tocante ao numeral 1: até o momento não se obteve nenhum resultado; continuar-se-á com a localização de desmobilizados do Frente 48, com a finalidade de esvaziar a atividade investigativa solicitada”.

O investigador da DIJIN, Wilmar Parra Quinceno, aparece enviando um relatório ao Promotor Murcia Bermeo, em 17 de julho de 2010, onde reproduz o interrogatório de uma desmobilizada das FARC, conhecida apenas pelas inicias de seu nome, G.S.R., que assegura ter visto Roque no acampamento de Raul Reyes: “Manifestou lembrar de um sujeito chileno de nome Roque, que era alto, jovem, de textura normal, branco, olhos claros, cabelos castanhos ondulados. Argumentou que se lembra dele, porque certa vez o recolheu em Barranca, acompanhado de uma moça branca, do mesmo tamanho que Roque”. A testemunha afirma que ficou uns seis dias, em meados de 2007, e que voltou a vê-lo no final do mesmo ano, no aniversário de Raul Reyes:

“Roque se encontrava uniformizado e portava uma pistola na cintura, e que nesse dia o cumprimentou e mais nada”.

Pois bem, se essa personagem é Roque, então não pode ser Manuel Olate. Primeiro, porque a descrição da testemunha não corresponde em absoluto com o seu tipo físico. Mas, no principal, porque o investigador mostrou à testemunha um conjunto de oito fotografias, entre as quais estava a de Olate, e não o reconheceu.


Deficiência técnica

Baseado em semelhante mérito, nenhum tribunal independente no mundo poderia extraditar a Manuel Olate. Menos ainda pelas decisivas e incuráveis deficiências técnicas que apresenta a solicitação de extradição.

Em primeiro lugar, a solicitação de extradição acusa Olate dos seguintes delitos: a) financiamento do terrorismo; b) administração de recursos relacionados com atividades terroristas e c) conspiração.

O único antecedente que configura os dois primeiros é a menção, em um e-mail de Roque para Raul Reyes, da venda de cinco bonequinhas, a um dólar e cinquenta cada, quer dizer um financiamento ao terrorismo por um total de 7,50 dólares. Seria piada se o caso não fosse tão grave.

Pior ainda para as pretensões de extraditar a Olate, nenhum desses crimes está contemplado no Tratado de Extradição entre ambos países, assinado em 1928, sem prejuízo de que o tratado exclui expressamente crimes de natureza política. E, ainda quando um tribunal de algum dos dois países estimasse que há mérito para o substanciamento de um processo criminal, não está obrigado a extraditar o acusado. Pode optar por julgá-lo no próprio país, conforme o principio de territorialidade.

As possibilidades de extraditar a Olate reduziram-se a zero, na ausência de um forte empenho do Governo do Chile para o caso, expresso através de consultas entre os Chanceleres de ambos os países, declarações do Presidente da República e do Ministro do Interior, e a insólita assessoria prestada pelo Ministério Publico.

Em outras palavras, o governo chileno aparece como parceiro de um governo estrangeiro para extraditar a um compatriota, com o que, ao mesmo tempo, viola o principio de presunção de inocência e descumpre a sua obrigação de outorgar proteção diplomática a todo cidadão de nacionalidade chilena.

A assessoria imprópria dada pelo Ministério Publico ao processo de extradição, é completamente fora de tempo e lugar. Se a Promotoria Geral da Colômbia requer qualquer tipo de gestão no processo, deve encarregá-la a um advogado particular, como ocorreu com a extradição de Alberto Fujimori,


Radical injustiça

O conluio do governo chileno com o governo colombiano pode representar um matiz de preocupação para a defesa jurídica de Olate, na medida em que já aconteceu, em processos onde está comprometido o interesse do Executivo, da Corte Suprema aproveitar a oportunidade para passar de contrabando alguma lista de exigências, geralmente de natureza econômica, em troca da sua aquiescência neste assunto em particular.

Se Manuel Olate permanece detido, isso se deve exclusivamente a que a juíza-adjunta e a câmara criminal da Corte Suprema, acolheram a presunção de fuga, colocada pelo Ministério Público na representação do Estado colombiano.

Acontece que, depois de quase dois anos de odiosa campanha da mídia que o acusava de ser a conexão com uma organização terrorista, Manuel Olate perdeu seu emprego e não pode encontrar outro, razão pela qual teve que procurá-lo no estrangeiro, com o custo humano e familiar que isto implica. Retornou ao país por vontade própria em meados de novembro, de forma totalmente normal e legal.

Pois disso se valeu a juíza Herreros para negar-lhe a liberdade condicional:
“Ele entrou e saiu com tanta facilidade de um país a outro, não tem maiores apegos no Chile, ainda que diga que tem duas filhas e companheira, mas a verdade é que não tem vivido no Chile. Nestes dez meses permaneceu no país apenas dois. Então, é de pensar que se possa evadir”.

A juíza omite cinicamente que Olate regressou ao país com a expressa intenção de colocar-se à disposição dos tribunais de justiça, para acabar de uma vez com a absurda campanha de acusações gratuitas. Isso é justamente o que ia fazer na segunda-feira 01 de novembro, segundo o acordado com o seu então advogado, Rodrigo Román.

Por meio de uma interceptação ilegal de suas comunicações telefônicas, funcionários da Policia Internacional da PDI obtiveram essa informação e o detiveram, com desnecessário e mediático desdobramento, quando saiu de uma reunião em família, na noite de 29 de outubro.

Assim parece que no Chile as coisas não mudaram muito depois de que Violeta Parra escrevesse:

“Eu não me encontro tão longe,
esperando uma noticia,
a carta vem me dizer,
que na minha pátria não tem justiça...”

(La Carta)


Notas

(1) http://www.cicr.org/web/spa/sitespa0.nsf/html/protocolo-II
(2) Relatório Anual da Comissão Interamericana de Direitos Humanos 2009, Colômbia, pág 14.
(3) Ibidem; pág 17.
(4) O Estado dos Direitos Humanos no Mundo 2010; Anistia Internacional; Colômbia, págs. 148 e seguintes.
(5) O Estado dos Direitos Humanos no Mundo 2010; Anistia Internacional; Colômbia, págs. 148 e seguintes.
(6) Relatório Anual da Comissão Interamericana de Direitos Humanos 2009, Colômbia, pág 18.
(7) http://www.telesurtv.net/secciones/noticias/71765-NN/colombia-registramas-
de-38-mil-personas-desaparecidas-en-tres-anos.
(8) Relatório anual do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos sobre a situação dos direitos humanos na Colômbia; pág 12.
(9) http://www.telesurtv.net/secciones/noticias/66984-NN/ex-paramilitarescolombianos-
reconocen-haber-cometido-cerca-de-30-mil-500-asesinatos/
(10) Relatório Anual da Comissão Interamericana de Direitos Humanos 2009, Colômbia, pág 15.
(11) Relatório Anual da Comissão Interamericana de Direitos Humanos 2009, Colômbia, sobre a situação dos direitos humanos na Colômbia; pág. 6.


* Francisco Herreros é Diretor do jornal Diário REDigital www.diarioreddigital.cl

Lula registra em cartório os oito anos que "fizeram bem ao país"

A fala da artesã cearense, Maria do Socorro Nascimento, emocionou o presidente Luis Inácio Lula da Silva na cerimônia de registro em cartório do balanço dos oito anos do atual governo, na manhã desta quarta-feira (15), no Palácio do Planalto. A artesã contou como as ações do governo federal mudaram sua vida, permitindo que ela montasse o seu próprio negócio.
"Nós pobres brasileiros lhe damos o título de herói vencedor", disse ela em seu discurso articulado, que surpreendeu à platéia de mais de 700 pessoas, formada por ministros, governadores, parlamentares e demais autoridades. O presidente Lula fez um longo discurso – parte improvisada, em que predominou a emoção e o humor; e parte lida, na qual mostrou com números e dados os êxitos dos seus oito anos de governo.

"Esta prestação de contas é menos para engrandecer o que nós fizemos e mais dar uma fotografia à sociedade brasileira, para que ela vendo o que foi feito, ela perceba também o que não foi feito e o que precisa ser feito. Sobretudo a nossa querida presidente (Dilma Rousseff), que ao ler o subproduto do trabalho dela, muita coisa aqui teve a coordenação da companheira Dilma, ela possa lembrar de coisas que poderiam ter sido feitas e que esquecemos de fazer, e que ela pode fazer", afirmou o presidente em seu discurso.

Lula disse ainda, brincando, que “isso vai estar disponível, disponível... o WikiLeaks não vai precisar entrar clandestinamente, ele vai ter à disposição as coisas que nós fizemos, inclusive as coisas do Itamaraty. Ou seja, não vai ter vazamento do WikiLeaks, porque nós vamos vazar antes, está bem?”

O governador da Bahia, Jacques Wagner, que fez a saudação a Lula, usou o jargão do Presidente para declarar que "Nunca antes na história desse país", um Presidente da República deixa o cargo com índice tão alto de aprovação.

Contribuição do PcdoB
Para o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, presente à solenidade, Lula pode fazer esse balanço do governo, que é um fato inédito, porque é um governo de muitos êxitos e a prova maior do êxito é o apoio popular. Ele lembrou que as pesquisas mostram que 84% da população brasileira avalia o governo Lula como bom e ótimo.

"Esse é um testemunho eloquente do êxito do governo dele. Nenhum outro na história recente teve um respaldo tão grande quanto o presidente Lula", destacou Renato Rabelo, lembrando ainda que Lula projetou o Brasil no contexto mundial, que se tornou mais conhecido e respeitado, chegando a ser referência.

E acrescenta que "o PCdoB é parte integrante do governo, desde o primeiro mandato, e foi uma força que junto com o PT esforçou-se para que se chegasse a isso". Para o dirigente comunista, a grande questão era que, ao se chegar ao poder, desse certo. "Agora que deu certo e até se pode eleger sua sucessora, mostra que a esquerda e as forças democráticas sabem governar e bem", avalia Rabelo.

"Nós demos contribuição grande para a primeira vitória – de levar um operário ao governo", lembra o presidente do Partido, destacando ainda como outra grande contribuição a permanência de Lula no governo. Ele conta que "quando (Lula) viveu a crise mais aguda, até com ameaça de impeachment, o PCdoB mobilizou forças populares e a eleição de Aldo Rebelo à Presidência da Câmara deu grande contribuição para sustar a crise."

"Esses êxitos todos que hoje se celebram, nós somos parte importante, porque demos nossa contribuição desde o início da luta de Lula à Presidência da República", disse ainda Renato Rabelo, lembrando que no último Congresso do Partido, no ano passado, ele (Lula) disse que ia agradecer ao PCdoB e relatou toda essa trajetória do Partido em seu governo.

Elogios a Dilma

A presidente eleita, Dilma Roussefs, também presente ao evento, foi igualmente elogiada pelos oradores. Jacques Wagner disse que ela quebrou o preconceito de que uma mulher não poderia ser presidente da República e que "fará tão bem quanto o senhor", dirigindo-se a Lula.

A artesã Maria do Socorro disse, com relação ao novo governo, que "a nossa esperança não vai morrer porque sabemos que Dilma vai continuar a fazer o trabalho do senhor". Segundo Socorro, foi graças aos programas de governo do presidente Lula que ela tem uma história de sucesso para contar. Ela disse que venceu o medo de se endividar e já está no quinto empréstimo do Agroamigo, programa de financiamento do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) para expandir o seu negócio. E deu de presente ao presidente um móbile de barro de sua fabricação.

Para o governador Jacques Wagner, foi um orgulho participar do governo Lula. "Nós sabemos que é tudo uma construção coletiva, mas não há exército sem comandante", destacando que os oito anos de governo representam 80 anos pelos números da inclusão social e transformação de todo o Brasil em grande mercado de massa. O governador baiano falou sobre o futuro do presidente Lula depois que deixar o cargo. "Não sabemos qual o papel que o senhor jogará, mas pela inquietude em ajudar o povo do mundo inteiro, comandará projeto para desenvolver a auto-estima, o respeito e a cidadania".

Dados para avaliação

Entre a fala dos convidados e a do presidente Lula, que encerrou o evento, todos os ministros assinaram o livro das ações dos oito anos do governo em cada uma de suas áreas. Um tabelião oficial fez o registro em um livro que tem o objetivo de comparar as medidas previstas no programa de governo do presidente Lula ou em compromissos assumidos ao longo dos dois mandatos presidenciais com as efetivas realizações conseguidas pelo governo federal sob seu comando.

O livro foi dividido por tema, onde cada ministério ficou responsável por elaborar o balanço de sua respectiva competência, a partir de uma estrutura comum: uma breve informação acerca da situação do país em janeiro de 2003; os desafios encontrados pela administração que então assumia; os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral; a relação completa e detalhada das ações e realizações empreendidas até o final de 2010; e a relação dos principais indicadores de resultado.

Além do livro, houve a divulgação de uma mídia com tabelas contendo as ações de políticas públicas com dados de atendimento anual por estado, planilhas com a relação das obras, fotos, documentos e relatórios complementares. Também foi lançado o portal que trará os conteúdos divulgados no evento e detalhamentos das ações de governo. Os arquivos digitais em formato PDF também estão disponíveis na internet.

De Brasília
Márcia Xavier
(com apoio de Vermelho)

Obrigado, Lula

Por Frei Betto, em Adital

Quanta esperança refletida na euforia que contaminou a Esplanada dos Ministérios no dia de sua posse! Decorridos oito anos, eis que a aprovação de seu governo alcança o admirável índice de 84% que o consideram ótimo e bom. Apenas 3% o reprovam.

O Brasil mudou para melhor. Cerca de 20 milhões de pessoas, graças ao Bolsa Família e outros programas sociais, saíram da miséria, e 30 milhões ingressaram na classe média. Ainda temos outros 30 milhões sobrevivendo sob o espectro da fome e quem sabe o Fome Zero, com seu caráter emancipatório, a tivesse erradicado se o seu governo não o trocasse pelo Bolsa Família, de caráter compensatório, e que até hoje não encontrou a porta de saída para as famílias beneficiárias.

Você resgatou o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e, através dos programas sociais e da Previdência, promoveu a distribuição de renda que aqueceu o mercado interno de consumo. O BNDES tornou as grandes empresas brasileiras competitivas no mercado internacional. Tomara que no governo Dilma seja possível destinar recursos também a empreendimentos de pequeno e médio porte e favorecer nossas pesquisas em ciência e tecnologia.

Enquanto os países metropolitanos, afetados pela crise financeira, enxugam a liquidez do mercado e travam o aumento de salários, você ampliou o acesso ao crédito (R$ 1 trilhão disponíveis), aumentou o salário mínimo acima da inflação, manteve sob controle os preços da cesta básica e desonerou eletrodomésticos e carros. Hoje, 72% dos domicílios brasileiros possuem geladeira, televisor, fogão, máquina de lavar, embora 52% ainda careçam de saneamento básico.

Seu governo multiplicou o emprego formal, sobretudo no Nordeste, cuja perfil social sofre substancial mudança para melhor. Hoje, numa população de 190 milhões, 105 milhões são trabalhadores, dos quais 59,6% possuem carteira assinada. É verdade que, a muitos, falta melhor qualificação profissional. Contudo, avançou-se: 43,1% completaram o ensino médio e 11,1% o ensino superior.

Na política externa o Brasil afirmou-se como soberano e independente, livrando-se da órbita usamericana, rechaçando a ALCA proposta pela Casa Branca, apoiando a UNASUL e empenhando-se na unidade latino-americana e caribenha. Graças à sua vontade política, nosso país mira com simpatia a ascensão de novos governantes democrático-populares na América Latina; condena o bloqueio dos EUA a Cuba e defende a autodeterminação deste país; investe em países da África; estreita relações com o mundo árabe; e denuncia a hipocrisia de se querer impedir o acesso do Irã ao urânio enriquecido, enquanto países vizinhos a ele, como Israel, dispõem de artefatos nucleares.

Seu governo, Lula, incutiu autoestima no povo brasileiro e, hoje, é admirado em todo o mundo. Poderia ter sido melhor se houvesse realizado reformas estruturais, como a agrária, a política e a tributária; determinado a abertura dos arquivos da ditadura em poder das Forças Armadas; duplicado o investimento em educação, saúde e cultura.

Nunca antes na história deste país um governo respaldou sua Polícia Federal para levar à cadeia dois governadores; prender políticos e empresários corruptos; combater com rigor o narcotráfico. Pena que o Plano Nacional dos Direitos Humanos 3 -quase um plágio dos 1 e 2 do governo FHC- tenha sido escanteado por preconceitos e covardia de ministros que o aprovaram previamente e não tiveram a honradez de defendê-lo quando escutaram protestos de vozes conservadoras.

Espero que o governo Dilma complemente o que faltou ao seu: a federalização dos crimes contra os direitos humanos; uma agenda mais agressiva em defesa da preservação ambiental, em especial da Amazônia; a melhoria do nosso sistema de saúde, tão deficiente que obriga 40 milhões de brasileiros a dependerem de planos de empresas privadas; a reforma das redes de ensino público municipais e estaduais.

Seu governo ousou criar, no ensino superior, o sistema de cotas; o ProUni e o ENEM; a ampliação do número de escolas técnicas; maior atenção às universidades federais. Mas é preciso que o governo Dilma cumpra o preceito constitucional de investir 8% do PIB em educação.

Obrigado, Lula, por jamais criminalizar movimentos sociais; preservar áreas indígenas como Raposa Serra do Sol; trazer Luz para Todos. Sim, sei que você não fez mais do que a obrigação. Para isso foi eleito. Mas considerando os demais governantes de nossa história republicana, tão reféns da elite e com nojo do "cheiro de povo", como um deles confessou, há que reconhecer os avanços e méritos de sua administração.

Deus permita que, o quanto antes, você consiga desencarnar-se da presidência e voltar a ser um cidadão militante em prol do Brasil e de um mundo melhor.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Mensagem aos participantes do 17º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes na África do Sul

Autor: Companheiro Fidel Castro

Companheiras e companheiros:

É muito grato para mim e uma grande honra aceder ao pedido que me fizeram de lhes transmitir uma mensagem por ocasião do 17º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, que tem lugar na Pátria de Nelson Mandela, símbolo vivente da luta contra o odioso sistema do apartheid.

Cuba foi sede de dois festivais mundiais: do 11º, em 1978, e do 14º, em 1997.

Pela primeira vez, o Festival não se realizava na Europa, senão num país deste hemisfério.
A decisão foi tomada pela 9ª Assembléia da Federação Mundial de Juventudes Democráticas que teve lugar em Varna, Bulgária, no final de 1974.

Eram tempos diferentes: o mundo enfrentava sérios problemas, porém menos dramáticos. Os jovens mais progressistas lutavam pelo direito de todos os seres humanos a uma vida digna; pelo velho sonho dos maiores pensadores de nossa espécie, quando era evidente que a ciência, a tecnologia, a produtividade do trabalho e o desenvolvimento da consciência o tornavam possível.
Num curto espaço de tempo, a globalização se acelerou, as comunicações atingiram níveis impensáveis, os meios para promover a educação, a saúde e a cultura se multiplicaram. Os nossos sonhos não eram infundados. Sob esse espírito, realizou-se o 11º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, do qual o nosso povo tamém participou.

No Conselho Geral da Federação Mundial de Juventudes Democráticas, efetuado precisamente na heroica África do Sul no início de outubro de 1995, foi aprovada a realização do 14º Festival em Havana, do qual participaram mais de 12 mil delegados de 132 países. O nosso país fazia 37 anos que estava travando a batalha política e ideológica contra o império e seu desumano bloqueio econômico.

Até a década de 1980, não só existiam a República Popular da China, a República Popular Democrática da Coreia, Vietnã, Laos e Kampuchea, que suportaram guerras de genocídio e os crimes dos ianques, mas também o bloco socialista da Europa e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, um enorme Estado multinacional de 22.402.200 quilômetros quadrados, com enormes recursos de terra agrícola, florestas, petróleo, gás, minérios e outros. Diante da superpotência imperialista, com mais de 800 bases militares em todo o planeta, erguia-se a superpotência socialista.

A desintegração da URSS, quer sejam quais forem os erros cometidos em certo ou noutro momento da história, significou um duro golpe no movimento progressista do mundo. Os ianques se mobilizaram às pressas e estenderam as bases militares e o uso de instalações construídas pela URSS para cercar ainda mais com sua maquinaria de guerra a Fedração Russa, que ainda continua sendo uma grande potência. O aventureirismo militar dos Estados Unidos e seus aliados da OTAN se incrementou na Europa e Ásia. Desataram a guerra de Kosovo e desintegraram a Sérvia.

Em nosso hemisfério, ainda antes da desintegração da URSS, invadiram em 1965 a República Dominicana; bombardearam e intervieram com forças mercenárias na Nicarágua; invadiram com suas tropas regulares Granada, Panamá e Haiti; promoveram sangrentos golpes militares no Chile, Argentina e Uruguai e apoiaram a brutal repressão de Stroessner no Paraguai.

Além disso, criaram a Escola das Américas, onde não só treinavam milhares de oficiais latino-americanos em conspirações e golpes de Estado, mas também prepararam muitos em doutrinas de ódio e práticas sofisticadas de tortura, enquanto se mostravam perante o mundo como paladinos “dos direitos humanos e da democracia”.

Na primeira década deste século, a superpotência imperialista parece que transbordou seu próprio curso. Os sangrentos acontecimento de 11 de setembro de 2001, onde o World Trade Center de Nova York desabou — episódio dramático onde morreram ao redor de 3 mil pessoas — e o ataque posterior ao Pentágono, veio mesmo a calhar para o inescrupuloso aventureiro George. W. Bush em sua chamada guerra contra o terror, que constitui, simplesmente, uma escalada perigosa na brutal política que os Estados Unidos vinham aplicando em nosso planeta.

Ficou bem clara a vergonhosa cumplicidade dos países da OTAN com guerra tão repudiável. Essa organização bélica proclamou recentemente seu propósito de intervir em qualquer país do mundo onde achar que os seus interesses, os dos Estados Unidos, estejam ameaçados.

O monopólio dos meios de comunicação social, nas mãos das grandes transnacionais capitalistas, foi utilizado pelo imperialismo para criar mentiras, reflexos condicionados e desenvolver instintos egoístas. Enquanto os jovens e os estudantes iam rumo à África do Sul para lutarem por um mundo de paz, dignidade e justiça, na Gra-Bretanha os estudantes universitários e seus professores travavam uma batalha campal contra os fortes e bem armados corpos repressivos que, em cima de garbosos cavalos, os atacavam. Talvez nunca na história se viu tamanho espetáculo da “democracia” capitalista. Os partidos neoliberais governantes, desempenhando seu papel de gendarme da oligarquia e traindo suas promessas eleitorais, aprovaram medidas no Parlamento que aumentavam para US$14 mil anuais o custo dos estudos universitários. O pior foi o descaramento com que os parlamentares neoliberais afirmaram que “o mercado resolvia esse problema”. Apenas os ricos tinham direito aos diplomas universitários.

Há uns dias, o atual secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, comentando os segredos divulgados pelo site WikiLeaks, declarou: “Acontece que os governos tratam com os EUA porque lhes convém, não porque gostem de nós, não porque confiem em nós, e não porque acreditem que sabemos guardar segredos. Alguns governos tratam conosco porque temem de nós, alguns porque nos respeitam, a maioria, porque precisa de nós. O nosso país ainda é essencialmente, como foi dito antes, a nação indispensável”.

Muitas pessoas inteligentes e bem informadas tem certeza de que o império ianque, como todos os que o precederam, entrou na etapa final e que os sinais são irrebatíveis. Um artigo publicado no website TomDispatch, traduzido do inglés pelo site Rebelión, coloca quatro hipóteses a respeito do curso dos acontecimentos nos Estados Unidos, e em todas elas figura a guerra mundial como uma das posibilidades, embora não exclua outra provável saída. Acrescenta que, definitivamente, esse país perderá a supremacia nas exportações globais de mercadorias e, em menos de 15 anos, perderia a supremacia na inovação tecnológica e a funcção privilegiada do dólar como moeda de reserva. Cita que, neste ano, a China já atingiu 12%, sobre 11% dos Estados Unidos, na exportação mundial de mercadorias, e referiu-se ao lançamento por parte do ministro da Defesa da China, em outubro passado, do super-computador Tianhe-1A, tão poderoso que, como expressou um especialista norte-americano, “liquida o computador n.o 1” existente nos Estados Unidos.

Os nossos queridos compatriotas, quando chegaram à África do Sul, entre as primeiras atividades realizadas, prestaram merecido tributo aos combatentes internacionalistas que entregaram suas vidas na luta a favor da África.

Há 12 anos, nossa missão médica presta serviços ao povo haitiano. Hoje, fá-lo com a cooperação de médicos internacionalistas graduados na Escola Latino-Americana de Medicina — ELAM. Ali lutam também pela África combatendo a epidemia da cólera, que é a doença da pobreza, a fim de impedir que se alastre por esse continente, onde, bem como na América Latina, existe muita pobreza. Com a experiência adquirida, nossos médicos reduziram consideravelmente a taxa de letalidade. Muito perto da África do Sul, no Zimbábue, em agosto de 2008, “de súbito” houve um surto dessa epidemia segundo o jornal Herald de Harare. Robert Mugabe acusou os governos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha de introduzirem a doença no país.

Como prova da falta de escrúpulos ianques, é bom salientar que o governo dos Estados Unidos entregou armas nucleares ao regime do apartheid, que os racistas estiveram a ponto de usar contra as tropas cubanas e angolanas, que depois da vitória de Cuito Cuanavale avançavam rumo ao sul, onde o comando cubano, suspeitando esse perigo, tomou as providências e táticas pertinentes que lhe conferiam o domínio absoluto do ar. Se tivessem usado tais armas, não teriam obtido a vitória. Contudo, é legítimo perguntar: que teria ocorrido se os sul-africanos tivessem usado as armas nucleares contra as forças cubanas e angolanas? Qual teria sido a reação internacional? Como teriam justificado aquele ato de barbárie? Como teria reagido a URSS? Essas são perguntas que devemos nos fazer.

Quando os racistas entregaram o governo a Nelson Mandela não lhe disseram uma única palavra, nem que fizeram com aquelas armas. A investigação e denúncia de tais fatos seria neste momento um grande serviço ao mundo. Exorto-os, queridos compatriotas, a exporem este tema no Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes.


Pátria ou Morte!

Venceremos!

(Com apoio do Consulado Geral de Cuba em São Paulo)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Carta das FARC-EP à Senadora Piedad Córdoba

Senadora Piedad Córdoba.

Bogotá.

Cordiais Saudações.

Impulsionados pelo mais justificado imperativo ético nos dirigimos à senhora para expressá-lhe, nesse momento crucial de sua vida política, nossa solidariedade incondicional diante do brutal atropelo da Procuradoria Geral da Nação, contra seu esforço humanitário pela paz da Colômbia.

A decisão do Procurador Alejandro Ordóñez é uma armação jurídica e política da pior espécie, cuja origem está na pressão enfermiça, o ódio e a retaliação do ex-presidente Uribe, por acima de toda dúvida, chefe, até agora, impune, do paramilitarismo e da para-política na Colômbia.

O país nacional não pode permitir que prospere a absurda criminalização da busca da solução política do conflito. Ordóñez atua contra o direito. É mais prevaricador que Procurador. Ao inabilitar por 18 anos à Senadora, pretendendo sua morte política, não só ultrapassa seus limites, usurpando funções próprias do Conselho de Estado; ademais, sustenta sua miserável decisão nos supostos dados de um computador, que não podem constituir prova jurídica, porque foram manipulados pela Polícia, violando-se assim a cadeia de custódia.

Neste caso não há direito à defesa nem ao devido processo. Ninguém tem vencido em juízo a Piedad Córdoba. Constitui um paradoxo que os funcionários delinquentes que a espiavam para incriminar sua luta pela paz, agora fujam para outros países para burlar a ação da justiça.

A atuação do "Prevaricador Geral" que converte em delito a luta pela paz, evidencia-o como mandadeiro torpe e incauto. A Senadora Córdoba não só atuava com o aval do Executivo; ela tem atuado dentro do marco da Constituição, que consagra como direito e dever, a busca da paz.

O enganoso termo da "FARC-política" foi uma invenção do criminoso paramilitar que foi presidente da República durante oito anos, como desesperado recurso para desviar a atenção sobre sua responsabilidade penal no caso da para-política.

O processo da parapolítica está referido aos votos e a proselitismo armado de grupos paramilitares a favor de umas candidaturas ao Congresso da República. O chefe paramilitar, Salvatore Mancuso, se ufanou em seu momento de que sua facção tinha logrado eleger mais do 30% dos congressistas colombianos. O paramilitarismo também contribuiu a eleger o presidente da República em duas oportunidades, através de pressões, fraudes eleitorais e financiamento em dólares.

Não pode haver processo de FARC-política porque nunca orientamos o povo a votar por Piedad Córdoba. Não participamos em debates eleitorais desde que la intransigência oligárquica do país massacrara a União Patriótica.

No intercâmbio epistolar mantido com a Senadora em torno à solução política do conflito, sempre manifestamos que um possível acordo de paz caso surja na mesa de conversações FARC-Governo deve ser referendado por uma Assembléia Nacional Constituinte, que lhe dei força constitucional, ao fim de que se assegure por essa via, a aclimatação da paz.

No Manifesto das FARC, documento no qual apresentamos a Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia, convidamos o país a trabalhar pela construção de uma alternativa política rumo à paz, propósito que hoje reiteramos.

A sanção contra Piedad Córdoba é imoral, injusta e, ditada pelos mais rasteiros interesses políticos. O país nacional, que enjoado do guerrerismo do Estado, anseia a paz, deve oferecer à Senadora a mais firme solidariedade e caminhar junto com ela de forma resoluta em pró da paz com justiça social. Se persiste a injustiça, ninguém poderá impedir que se levante na Colômbia um poderoso movimento pela paz liderado por seus filhos e filhas mais preclaros.

Como um gesto de humanidade e de desagravo à Senadora da paz, liberaremos os seguintes cinco prisioneiros de guerra: Maior da Polícia Guillermo Solórzano, Cabo do Exército Salín Sanmiguel, Infante de Marinha Henry López Martínez, e, os presidentes das Câmaras Municipais de São José del Guaviare, Marcos Vaquero e de Garzón (Estado do Huila) Armando Cuña, esses dois últimos investigados pelas FARC por corrupção.

A decisão está tomada e a data dependerá das garantias que ofereça o governo para que a Senadora Córdoba possa receber essas pessoas a serem liberadas.

Continuamos sem descanso na nossa luta pela Troca de prisioneiros de guerra. Não abandonaremos nosso propósito de buscar a liberação de Simón Trinidad -arquiteto do decoro e da firmeza do revolucionário fariano- e, o retorno de nossas e nossos combatentes, desde os cárceres do regime e do império aos acampamentos insurgentes. Para todas e todos eles nossa mensagem de alento e esperança.

Senadora Piedad Córdoba: compartilhamos com a senhora e com a imensa maioria de nossos compatriotas que a guerra não pode ser o futuro da Colômbia.

Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP

Montanhas da Colômbia, dezembro de 2010

Ato pela liberdade de Julian Assange

http://liberdadeparaassange.noblogs.org/ | CMI Brasil apoia Wikileaks e Julian Assange. | É impossível parar Wikileaks! | Por dentro do Wikileaks: a democracia passa pela transparência radical | Wikileaks mais uma vez desafia o Império | [Wikileaks] A velha mídia, como sempre, tenta tirar o foco do que é importante. | Wikileaks publica mais de 90 mil registros sobre a guerra no Afeganistão | Expor a verdade não é ilegal, a guerra que é!
complemente essa matéria

Um passo corajoso na direção da paz

O Brasil anunciou o reconhecimento de um Estado palestino nas fronteiras existentes antes da Guerra dos Seis Dias de junho de 1967. O reconhecimento do estado da Palestina é a melhor maneira de tirar do estancamento as negociações de paz, buscar a estabilidade na região e aliviar a crise humanitária por que passa boa parte do povo palestino. Ao mesmo tempo Brasília condena quaisquer atos terroristas, praticados sob qualquer pretexto. O artigo é de Max Altman.

Max Altman

Em resposta a um pedido feito pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, o Brasil anunciou o reconhecimento de um Estado palestino nas fronteiras existentes antes da Guerra dos Seis Dias de junho de 1967. Trata-se da concretização da legítima aspiração do povo palestino a um Estado coeso, seguro, democrático e economicamente viável, coexistindo em paz com Israel. A iniciativa do governo Lula abre caminho e favorece as imprescindíveis negociações entre Israel e os palestinos a fim de que se alcance concessões mútuas sobre outras questões centrais do conflito. O reconhecimento do estado da Palestina é a melhor maneira de tirar do estancamento as negociações de paz, buscar a estabilidade na região e aliviar a crise humanitária por que passa boa parte do povo palestino. Ao mesmo tempo Brasília condena quaisquer atos terroristas, praticados sob qualquer pretexto.

Com uma vitória militar arrasadora na Guerra dos Seis Dias, Israel ampliou seu território, muito além do estabelecido pela Partilha da Palestina, em 1948. Já em novembro de 1967, o Conselho de Segurança da ONU votou a célebre resolução 242 que determina “que a efetivação dos princípios da Carta das Nações Unidas requer o estabelecimento de uma paz justa e duradoura no Oriente Médio que inclua a aplicação dos dois seguintes princípios:

1. Evacuação das forças armadas israelenses dos territórios ocupados no
conflito recente;

2. Encerramento de todas as reivindicações ou estados de beligerância e respeito pelo reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de cada Estado da região e de seu direito a viver em paz dentro das fronteiras seguras e reconhecidas, livres de ameaças ou de atos de força.

Afirma ainda a necessidade de: a - Garantia de liberdade de navegação através das águas internacionais da área; b - Conseguir um acordo justo para o problema dos refugiados; c - Garantir a inviolabilidade territorial e independência política de cada Estado da região, através de medidas que incluam a criação de zonas desmilitarizadas.

Esta resolução jamais foi respeitada por Israel sempre contando com o apoio de Washington. Levantaram-se questões semânticas - o texto não dizia evacuação de “todos” os territórios ocupados – e depois infindáveis obstáculos geoestratégicos e de diversas outras ordens. Israel argumenta agora que o reconhecimento do Brasil viola o chamado “Acordo de Oslo 2” firmado entre o israelense Itzhak Rabin e o palestino Yasser Arafat em 28 de setembro de 1995, que prevê que o status final da Cisjordânia só poderá ser definido por meio de negociações diretas, portanto qualquer ação unilateral estaria vedada. Contudo, a história registra que poucas semanas depois da assinatura desse acordo em 4 de novembro de 1995, Rabin foi assassinado. Líderes de partidos de direita, incluído muitos membros do Knesset (Parlamento), foram acusados de incitação selvagem que levaram ao acontecimento.

As eleições de 1996 deram vitória ao partido de direita Likud, e Benjamin Netanyahu assumiu como primeiro-ministro, propondo-se a torpedear o Acordo de Oslo. O resultado do pleito trouxe de volta ao poder governantes que não estavam dispostos a continuar fazendo concessões em nome da paz. Em agosto de 1996, o governo anulou o decreto que proibia a expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia.

A ocupação dos territórios palestinos já leva 43 anos. Só para citar um exemplo histórico, a Alemanha, responsável pela hecatombe da Segunda Guerra Mundial que vitimou dezenas de milhões de soldados e civis, que provocou no Holocausto o extermínio de 6 milhões de judeus, ocupada, após a sua capitulação pelas forças dos países Aliados, recuperou sua independência e integridade territorial 4 anos depois, em maio de 1949 – República Federal Alemã, e em outubro de 1949 – República Democrática Alemã. Já em 1990, após a que do Muro de Berlim houve a reunificação.

Muitos países que mantêm relações intensas com Israel reconhecem a Palestina bem como a esmagadora maioria dos países representados na OBU. A iniciativa brasileira é consentânea com a postura histórica e a disposição inalterada de contribuir com o processo de paz, estando em consonância com as resoluções das Nações Unidas que exigem o fim da ocupação dos territórios palestinos e a construção de um Estado independente dentro de fronteiras reconhecidas, aquelas anteriores à Guerra dos Seis Dias. É a defesa do princípio de “Dois Estados”

Posição histórica nesse sentido também é a do Partido dos Trabalhadores. Em meados dos anos 1990, membro do coletivo da Secretaria de Relações Internacionais, respeitando criteriosamente as teses defendidas pelo Partido, ajudamos a fundar, organizar e dirigir o Movimento Shalom Salam Paz. Esse movimento congregava brasileiros de ascendência judaica, sionistas e não sionistas, de esquerda e centro-esquerda, brasileiros de ascendência árabe, moderados e menos moderados, os de ascendência palestina e todos aqueles dispostos a lutar por uma paz justa e duradoura no Oriente Médio e em particular, entre Israel e os palestinos.

Foi extremamente difícil conciliar as posições, houve pressão das Federações judaica e árabe e do consulado de Israel, porém conseguiu-se aprovar os pontos básicos: desocupação dos territórios palestinos ocupados com a Guerra de 1967; respeito à Resolução 242 das Nações Unidas com o reconhecimento pelos palestinos do Estado de Israel com fronteiras demarcadas, reconhecidas internacionalmente, seguras e definitivas; criação do Estado palestino, laico e viável; estabelecimento de Jerusalém leste e oeste como capital de ambas as nações; reconhecimento do direito de retorno dentro de limites a serem acordados; direito de acesso à água definidos em acordo binacional; facilidade do direito de ir e vir e do comércio binacional.

Forças internacionais sob a égide da ONU garantiriam o cumprimento das decisões. O Shalom Salam Paz levou essas idéias a dezenas de faculdades e colégios, a diversas instituições, deu dezenas de entrevistas a jornais, rádios e televisões, participou de debates, esteve presente nos Fóruns Sociais Mundiais. O Partido dos Trabalhadores tem relações de camaradagem com partidos e organizações de esquerda, de centro-esquerda e progressistas de todo o mundo, inclusive de Israel. As pontes que deseja construir e manter devem ser alicerçadas em princípios comuns, de soberania, de auto-determinação dos povos, de relações fraternais entre povos e nações, de solução pacífica e justa para os confrontos internacionais.

Uma diabólica espiral de sangue e dor, com raros interregnos, tomou conta da região nas últimas décadas. Guerras convencionais, ações terroristas e retaliações terroristas sem fim e com teor cada vez mais cruel e aterrador atingindo pessoas inocentes, governos árabes massacrando palestinos, assassinato de Rabin, negociações de paz torpedeadas ao sabor de interesses estratégicos e de poder, massacre de Munique e chacina de Jenin, intifada um e dois.

Desde 1948, os palestinos estão condenados a viver submetidos a uma revoltante humilhação. Perderam suas terras, perderam a liberdade e nunca puderam formar e organizar seu Estado. Hoje o cerco se estreitou e se tornou cruel. Sem permissão, não têm acesso à agua, a alimentos, a medicamentos. Não têm empregos nem vida econômica normal. Não podem ir de Gaza à Cisjordania, seus dois pedaços de terra. Não lhes permitem circular extra-muros sem passar por vexaminosos controles. Gaza se transformou numa prisão quando seus habitantes votaram em quem seus vizinhos acharam que não deveriam ter votado.

A Palestina hoje é muito menor que a que sobrou da Guerra dos Seis Dias. Colônias são assentadas em suas terras e atrás vêm os soldados corrigindo a fronteira. Se os assentamentos não são suficientes, que se erga um muro comendo mais pedaços de terra. Se olharmos comparativamente os mapas vemos que pouca Palestina restou.

Sabemos que a atual composição do eleitorado israelense levou ao governo líderes que abraçam a solução de confronto e não reconhecimento de “Dois Estados” laicos e democráticos. Se de um lado, moralmente, não pode um povo que ao longo da história sofreu o que sofreu impor a outro povo sofrimentos que tem de sofrer, de outro, só a pressão dos povos e da comunidade internacional poderá levar as partes a uma séria mesa de negociações. Geograficamente – e isto é ineludível – Israel é território do Oriente Médio, tendo como vizinhos em todas as direções países árabes.

Não é possível sentar-se o tempo todo sobre a ponta da baioneta, ao preço de transformar a nação numa simples fortaleza. Inexoravelmente, vai ter de conviver no futuro, e pacificamente, com seus vizinhos.
Contudo, a comunidade internacional deve abandonar os discursos vazios, as declarações ardilosas, a indiferença, as manifestações altissonantes, comportamentos ambíguos que servem de amparo à impunidade. Que os países árabes deixem de lavar as mãos. Que países europeus, que durante séculos costumavam praticar a caça aos judeus e há décadas passaram a cobrar essa dívida histórica dos palestinos, ponham de lado a hipocrisia de derramar umas tantas lágrimas enquanto celebram secretamente outro lance de mestre. E que os Estados Unidos deixem a parcialidade e ajudem a construir a paz justa entre Israel e palestinos, que seguramente servirá para estendê-la a outros rincões da mesma região.

(*) Max Altman é jornalista

Julian Assange, falou com exclusividade ao Opera Mundi

Em entrevista, Assange nega acusações e diz que 'é fascinante ver os tentáculos da elite americana corrupta'

O fundador do site Wikileaks, Julian Assange, falou com exclusividade ao Opera Mundi nesta segunda-feira (06/12). Assange não escondeu a irritação com o congelamento de sua conta bancária na Suíça, por estar registrada em um endereço local, apesar de ele não morar mais no país europeu e com outras ações tomadas contra a organização desde o lançamento de documentos sigilosos de embaixadas dos Estados Unidos.

Ele se preparava para se apresentar à polícia britânica, o que aconteceu na manhã de hoje (07/12) em Londres. Assange é acusado de crimes sexuais na Suécia. A acusação não é clara, mas inclui a prática de sexo desprotegido com duas mulheres, na mesma época em dava uma palestra em Estocolmo. Desde o dia 18 de novembro, a justiça sueca expediu mandado de prisão com o objetivo de interrogá-lo por "suspeitas razoáveis de estupro, agressão sexual e coerção". O fundador do Wikileaks deve ser ouvido ainda hoje num tribunal de Westminster, na região central de Londres, onde será decidido se ele será extraditado à Suécia.

Nesse momento, quais acusações pesam sobre você?
São muitas as acusações. A mais séria é que eu e o nosso pessoal praticamos espionagem contra os EUA. Isso é falso. Também a famosa alegação de "estupro" na Suécia. Ela é falsa e vai acabar se extinguindo quando os fatos reais vierem à tona, mas até lá está sendo usada para atacar nossa reputação.

Sobre essa acusação de espionagem, há algum processo judicial correndo?
Não. É uma investigação formal envolvendo os diretores do FBI, da CIA e o advogado-geral norte-americano. A Austrália, meu país, também está conduzindo uma investigação do mesmo tipo - em que se junta todo o governo - e ao mesmo tempo estão asssessorando os EUA. Uma da fontes alegadas para essa investigação, Bradley Manning [militar acusado de ser a fonte do Wikileaks], está preso em confinamento solitário em uma cela na prisão no estado da Virginia, nos EUA. Ele pode pegar até 52 anos de prisão se for condenado por todas as acusações, que incluem espionagem.

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Qual a diferença entre o que faz o Wikileaks e espionagem?
O Wikileaks recebe material de "whistle-blowers" (pessoas que denunciam algo errado nas organizações onde trabalham) e jornalistas e os entrega ao público. Nos acusar de espionagem quer dizer que nós teriamos que trabalhar ativamente para adquirir o material e o repassar a um estrangeiro.

No caso da Suécia, o que as mulheres alegam?
Elas dizem que houve sexo consensual. O caso chegou a ser arquivado por 12 horas quando a procuradora-geral em Estocolmo, Eva Finne, leu os depoimentos. Depois foi reaberto, após uma articulação política. Todo esse caso é bastante perturbador. Agora, eles acabaram de congelar minha conta em um banco na Suíça, nosso fundo para pagar minha defesa.

Com base em quê?
Eles estão alegando que eu os coloco em risco. Mas não têm nada que sugira isso, e de qualquer forma isso é falso.

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E qual é a sua opinião sobre o congelamento de transferêcias de dinheiro pela empresa PayPal, e o fato de que a Amazon retirou o site do ar? Como você vê essas ações?
É fascinante ver os tentáculos da elite norte-americana corrupta. De certo modo, observar essa reação é tão importante quanto ver o material que publicamos. A Paypal e a Amazon congelaram nossas contas por razões políticas. Com o Paypal, 70 mil euros foram congelados. Com o nosso fundo de defesa, cerca de 31 mil euros.

O que eles alegam?
Eles dizem que estamos fazendo "atividades ilegais", o que é, claro, uma inverdade. Mas estão ecoando as acusações de Hillary Clinton [secretária de Estado norte-americana] sobre como publicamos documentos que podem causar transtornos aos EUA. Mesmo assim, o líder do comitê de segurança nacional no Senado disse com muito orgulho que ele havia ligado para a Amazon e exigido o fechamento no site.

O que o Wikileaks está fazendo para se defender do congelamento das doações?
Nós perdemos 100 mil euros somente nesta semana como resultado do congelamento dos pagamentos. Temos outras contas em bancos - na Islândia e Suécia, por exemplo, que o público pode usar. Estão em um site. Também aceitamos cartões de crédito.

O que mais o Wikileaks está fazendo para se defender?
Nós estamos contando com a diversidade e o apoio de boas pessoas. Temos mais de 350 sites pelo mundo que reproduzem nosso conteúdo. Precisamos disso mais do que nunca.


*Natália Viana é jornalista e colaboradora do Opera Mundi


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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

No Brasil, de prisioneira a Presidente

Por Lally Weymouth

Tradução de Paula Marcondes e Josi Paz, revisão de Idelber Avelar.

Ter sido uma presa política lhe dá mais empatia com outros presos políticos?

Sem dúvida. Por ter experimentado a condição de presa política, tenho um compromisso histórico com todos aqueles que foram ou são prisioneiros somente por expressarem suas visões, sua opinião pública, suas próprias opiniões.

Então, isso afetará sua política em relação ao Irã, por exemplo? Por que o Brasil apóia um país que permite o apedrejamento de pessoas, que prende jornalistas?

Acredito que é necessário fazermos uma diferenciação no [que queremos dizer quando nos referimos ao Irã]. Eu considero [importante] a estratégia de construir a paz no Oriente Médio. O que vemos no Oriente Médio é a falência de uma política – de uma política de guerra. Estamos falando do Afeganistão e do desastre que foi a invasão ao Iraque. Não conseguimos construir a paz, nem resolver os problemas do Iraque. Hoje, o Iraque está em guerra civil. Todos os dias, morrem soldados dos dois lados. Tentar trazer a paz e não entrar em guerra é o melhor caminho.

[Mas] eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto.

O Brasil se absteve em votar na recente resolução sobre os direitos humanos na ONU .

Eu não sou Presidente do Brasil [hoje], mas eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou. Não é minha posição.

Muitos norte-americanos sentiram empatia pelo povo iraquiano que se rebelou nas ruas. Por isso me pergunto se sua posição sobre o Irã seria diferente daquela do seu atual Presidente, que possui boa relação com o regime iraquiano.

O Presidente Lula tem seu próprio histórico. Ele é um presidente que defendeu os direitos humanos, um presidente que sempre apoiou a construção da paz.

Como a Sra. vê a relação do Brasil com os EUA? Como gostaria de vê-la evoluir?

Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Tentarei estreitar os laços. Eu admirei muito a eleição do Presidente Obama. Acredito que os EUA revelaram uma grande capacidade de mostrar que são uma grande nação, e isso surpreendeu o mundo. Pode ser muito difícil ser capaz de eleger um Presidente negro nos os EUA - como era muito difícil eleger uma mulher Presidente do Brasil.

Eu acredito que os EUA têm uma grande contribuição a dar ao mundo. E, acima de tudo, acredito que o Brasil e os EUA têm um papel a cumprir juntos no mundo. Por exemplo, temos um grande potencial para trabalhar juntos na África, porque na África podemos construir uma parceria para disponibilizar tecnologias agrícolas, produção de biocombustíveis e ajuda humanitária em todos os campos.

Também acredito que, neste momento de grande instabilidade por causa da crise global, é fundamental que encontremos formas que garantam a recuperação das economias dos países desenvolvidos, porque isso é fundamental para a estabilidade do mundo. Nenhum de nós no Brasil ficará confortável se os EUA mantiverem altos índices de desemprego. A recuperação dos EUA é importante para o Brasil porque os EUA têm um mercado consumidor fantástico. Hoje, o maior superávit comercial dos EUA é com o Brasil.

A Sra. culpa o afrouxamento monetário[quantitative easing] por isso?

O afrouxamento monetário é um fato que nos preocupa muito, porque significa uma política de desvalorização do dólar que tem efeitos sobre o nosso comércio exterior e também na desvalorização da nossas reservas de divisas, que são em dólares. Para nós, uma política de dólar fraco não é compatível com o papel que os EUA têm, já que a moeda dos EUA serve como reserva internacional. E uma política sistemática de desvalorização do dólar pode provocar reações de protecionismo, que nunca é uma boa política a ser seguida.

Quando a Sra. planeja visitar os EUA? Sei que foi convidada para antes de sua posse, em 1º de janeiro, mas não podia ir.

Eu não estou aceitando os convites que recebo. Não estou visitando países estrangeiros. Tenho que montar o meu governo. Tenho 37 ministros para nomear. Estou planejando visitar o Presidente Barack Obama nos primeiros dias após minha posse, se ele me receber.

Então a Sra. convidará o Presidente Obama para vir ao Brasil?

Nós já o convidamos informalmente, durante a reunião do G-20.

Há preocupações na comunidade empresarial dos EUA sobre se o Brasil continuará o caminho econômico definido pelo Presidente Lula.

Não há dúvida sobre isso. Por quê? Porque para nós foi uma grande conquista do nosso país. Não é uma conquista de uma única administração - é uma conquista do Estado brasileiro, do povo de nosso país. O fato de que conseguimos controlar a inflação, ter um regime de câmbio flexível e ter a consolidação fiscal de forma que, hoje, estamos entre os países com a menor relação dívida / PIB do mundo. Além disso, temos um déficit não muito significativo. Não quero me gabar, mas temos um déficit de 2,2 por cento. Pretendemos, nos próximos quatro anos, reduzir a proporção dívida / PIB para garantir essa estabilidade inflacionária.

A Sra. disse publicamente que gostaria de ver as taxas de juro caírem. A Sra. irá cortar o orçamento ou reduzir o aumento anual de gastos do governo?

Não há como cortar as taxas de juros a menos que você reduza seu déficit fiscal. Somos muito cautelosos. Temos um objetivo em mente: que as nossas taxas de juros sejam convergentes com as taxas de juros internacionais. Para conseguir chegar lá, um dos pontos mais importantes é a redução da dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade de nossos setores agrícola e de manufatura. Também é muito importante que o Brasil racionalize seu sistema fiscal.

Se a Sra. quer baixar as taxas de juros, a Sra. tem que cortar os gastos ou aumentar a economia doméstica.

Você não pode se esquecer do crescimento econômico. Você tem que combinar muitas coisas.

Qual é seu plano?

Meu plano é continuar a trajetória que seguimos até aqui. Conseguimos reduzir nossa dívida de 60% para 42%. Nosso objetivo é atingir 30% do PIB. Eu preciso racionalizar os meus gastos e, ao mesmo tempo, ter um aumento do PIB, que leve o país adiante.

Então o que a Sra. quer dizer com "racionalizar gastos"?

Não estamos em uma recessão aqui. Nós não temos que cortar os gastos do governo. Nós vamos cortar despesas, mas vamos continuar a crescer.

Estamos seguindo um caminho muito especial. Este é um momento no qual o país está crescendo. Temos estabilidade macroeconômica e, ao mesmo tempo, muito orgulho do fato de que conseguimos reduzir a extrema pobreza no Brasil.

Trouxemos 36 milhões de pessoas para a classe média. Tiramos 28 milhões da pobreza extrema. Como conseguimos isso? Políticas de transferência de renda. O Bolsa Família é um dos maiores exemplos.

Explique como funciona o Bolsa Família.

Pagamos um estipêndio, que é uma renda para os pobres. Eles recebem um cartão e sacam o dinheiro, mas têm duas obrigações a cumprir: colocar seus filhos na escola e provar que eles comparecem a 80% das aulas. Ao mesmo tempo, as crianças também devem receber todas as vacinas e passar por uma avaliação médica quando recebem as vacinas. Esse foi um fator, mas não foi o único.

Criamos 15 milhões de novos empregos durante a administração do Presidente Lula. Este ano, já criamos 2 milhões de novos empregos.

A Sra. é tão próxima do Presidente Lula. Será mesmo diferente ou apenas uma continuação da administração dele?

Eu acredito que minha administração será diferente da do Presidente Lula. O governo do Presidente Lula, do qual fiz parte, construiu uma base a partir da qual vou avançar. Não vou repetir a administração dele porque a situação no país hoje é muito melhor do que era em 2002.

Eu tenho os programas governamentais em andamento, que ajudei a desenvolver, como o chamado Minha Casa, Minha Vida, que é um programa de habitação.

Meus desafios são outros. Vou ter que solucionar questões como a qualidade da saúde pública no Brasil. Vou ter que criar soluções para problemas de segurança pública.

O Brasil passou por mais de 30 anos sem investir em infra-estrutura em uma quantidade suficiente. O governo do Presidente Lula começou a mudar isso. Eu tenho que resolver as questões rodoviárias no Brasil, as ferrovias, as estradas, os portos e os aeroportos.

Mas há uma boa notícia: descobrimos petróleo em águas profundas.

A Sra. está sugerindo que essa descoberta irá financiar a infra-estrutura?

Criamos um Fundo Social [no qual] alguns dos recursos do governo oriundos da descoberta do petróleo serão investidos em educação, saúde, ciência e tecnologia.

A Sra. tem que preparar o pais para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas.

Sim, mas eu também tenho outro compromisso, que é acabar com a pobreza absoluta no Brasil. Nós ainda temos 14 milhões na pobreza. Esse é meu maior desafio.

Todos os empresários que conheci em São Paulo disseram que precisam estar muito preparados para as reuniões com a Sra., porque a Sra. conhece bem a maioria dos projetos.

Sim, é verdade. Eu acho que é uma característica feminina. Nós apreciamos os detalhes. Eles, não.

O que significa, para a Sra., ser a primeira mulher Presidente do Brasil?

Até eu acho incrível.

Quando a Sra. decidiu que queria ser Presidente?

Foi um processo. Não há uma data. Comecei a trabalhar com o Presidente Lula e ele começou a dar algumas dicas sobre eu vir a ser indicada à presidência, mas ele não foi claro no começo. Foi uma grande honra para mim, mas eu não estava esperando.

A partir do momento que ficou claro para mim que eu seria indicada, dois anos atrás, eu sabia que tínhamos criado as condições adequadas para tornar possível a vitória nas eleições. O Presidente Lula teve uma excelente administração e o povo brasileiro reconheceu e admitiu isso. Somos uma administração diferente - nós ouvimos o povo.

A Sra. recentemente lutou contra o câncer.

Sim, mas acredito que consegui lidar bem com isso. As pessoas têm que saber que o câncer pode ser curado. Quanto mais cedo você descobre, melhores suas possibilidades de cura. É por isso que a prevenção é importante. . . .

Acredito que o Brasil estava preparado para eleger uma mulher. Por quê? Porque as mulheres brasileiras conquistaram isso. Eu não cheguei aqui sozinha, só pelos meus méritos. Somos a maioria neste país.


PS: Original em inglês aqui. Todos os textos d'O Biscoito Fino e a Massa estão licenciados em Creative Commons. Ou seja, você pode reproduzi-los à vontade, desde que com correta atribuição de autoria (ou de tradução, conforme o caso). e link para a fonte.

Fonte: Assessoria de Imprensa

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Videos Inéditos de Simón Trinidad desde la cárcel en EEUU


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"Do Império brutal já se sente o final,
com os braços da América toda,
aos povos a paz e a felicidade,
socialista o futuro será"

(do hino das FARC-EP)


http://www.youtube.com/user/bolivarsomostodos

http://www.youtube.com/user/bolivarsomostodos


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Uribe é denunciado na Colômbia por crimes de lesa humanidade

O ex-presidente colombiano Álvaro Uribe foi denunciado penalmente perante a Comissão de Investigação e Acusação da Câmara de Representantes por crimes de lesa humanidade.
A demanda foi interposta por um grupo de 35 pessoas e organizações não governamentais, vítimas de espionagem ilegal por parte do Departamento Administrativo de Segurança (DAS, policía secreta) durante o governo de Uribe (2002-2010).

Na denúncia, as vítimas do DAS alegam que o sucedido nessa controvertida instituição seguiu diretrizes desde a Presidência contra mais de 300 pessoas e com pleno conhecimento dol ex- mandatário.

Assim o demonstram a coerência entre os discursos presidenciais de Uribe que atacavam aqueles que ao mesmo tempo estavam sendo objeto de perseguições ilegais, grampos telefônicos sem ordem judicial, ameaças e campanhas de desprestígio. A isso se somam as atividades de inteligência e contra-insurgência do DAS.

Para os denunciantes, é claro que os crímes cometidos pela polícia secreta, subordinada diretamente ao presidente, constituem perseguição política e tortura psicológica, delitos considerados como de lesa humanidade.

"Fomos submetidos a espionagem e a tortura psicológica e todas as provas apontam para Álvaro Uribe como autor”, afirmou o diretor do semanário “Voz”, Carlos Lozano, vítima de perseguições e grampos telefônicos.

Por seu turno, a jornalista Claudia Julieta Duque sustentou que a tortura psicológica foi extensiva às famílias.

Na atualidade, Uribe está sendo investigado preliminarmente por essa comissão há várias semanas devido ao escândalo pela espionagem de magistrados, oposicionistas, ex-funcionários, políticos, jornalistas e ativistas de organizações defensoras dos direitos humanos.
Sin embargo, los denunciantes consideran que dicha investigación se adelanta a espaldas del país y de las víctimas, y desconoce las pruebas existentes en distintos procesos disciplinarios y penales en torno al caso.

"São muitas as provas de que o ex-presidente Uribe cometeu delitos”, sublinhou o diretor de “Voz”, Lozano.

Entre os que assinam a denúncia, além das pessoas já mencionadas, encontram-se Clara López, presidente do partido oposicionista Polo Democrático Alternativo; a ex-senadora liberal Piedad Córdoba e o deputado Iván Cepeda.

También figuram entre os denunciantes o jornalista Hollman Morris; o ex-magistrado e ex- candidato presidencial Jaime Araújo Rentaría; membros de organizações como a Ordem dos Advogados, José Alvear Restrepo, e a Consultoria para os Direitos Humanos.

Fonte: Prensa Latina