"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

ALBA CONDENA REPETIDA INGERÊNCIA DE INSULZA EM ASSUNTOS INTERNOS VENEZUELANOS



fonte: TeleSUR

A Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), condenou neste sábado a atitude do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, que repetidamente tenta interferir nos assuntos internos da Venezuela. Mais recentemente, em uma greve estudantil liderada por estudantes da direita.

Através de um comunicado, a organização multiestatal expressou que observa “com perplexidade como o Secretário Geral da OEA utiliza sua função parar contribuir com a estratégia de uma minoria política venezuelana, que insiste em negar a existência de institucionalidade democrática na Venezuela”.

Nesse sentido, a ALBA reiterou que “a Secretaria-Geral de uma organização internacional regional é uma instituição a serviço dos Estados-Membros e, de nenhuma maneira, um árbitro ou tribunal no qual devem se tratar assuntos da vida política interna”, e portanto, convoca a Insulza a se manter à margem dos assuntos que as nações, de forma soberana e independente, podem resolver internamente.

“Os países membros da ALBA, e especialmente aqueles que também são membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), exigimos ao Secretário-Geral da OEA que cesse seus ataques contra o governo venezuelano e que respeite a institucionalidade democrática da Venezuela”, diz o texto.

Por sua vez, o organismo também exortou aos demais países do bloco para reagir “diante o que constitui um retrocesso perigoso para os tempos em que a OEA foi instrumento do intervencionismo e do colonialismo em nosso continente”.

A declaração ocorre no contexto de declarações pronunciadas nesta sexta-feira por Insulza que, embora disse que “nunca interviria nos assuntos internos da Venezuela”, também admitiu que “muitas vezes” solicitou permissão para visitar o país sulamericano por causa dos protestos de 13 estudantes.

Diante estas declarações, o chanceler venezuelano, Nicolas Maduro, afirmou que nunca recebeu tais solicitações e também reiterou que a greve de fome realizada pelos estudantes, “não é um assunto internacional, mas uma questão que deve ser resolvida na Venezuela”.

“Se (José Miguel) Insulza (secretário da Organização dos Estados Americanos, OEA) tivesse que resolver todas as reivindicações que fazem os estudantes, trabalhadores ou professores, de um ou outro setor seria impossível. Estes são assuntos internos que os venezuelanos devem resolver”, declarou o chanceler.

Por seu turno, o embaixador da Venezuela na OEA, Roy Chaderton, em entrevista exclusiva para TeleSUR, também criticou Insulza e afirmou que “o Governo Bolivariano continua chamando os 13 estudantes para o diálogo” para resolver o conflito da greve pelos canais internos.

“Nós não estamos falando de conflitos ou disputas, mas de coisas que estão sendo feitas pelos canais internos, a participação da OEA não teria cabimento”, disse ele.

Segundo os manifestantes, esta greve visa defender os direitos de políticos, entre os quais Jose “Mazuco” Sánchez, que foi condenado por suas ligações com o assassinato de um funcionário da Direção de Inteligência Militar (DIM), e a ex-Juíza Maria Lourdes Afiuni, processada por crimes de corrupção passiva, abuso de poder, facilitação para a evasão e conspiração.

O grupo de ativistas de extrema-direita Juventude Ativa Venezuela Unida (Javu), que coordena os protestos, foi acusado de provocar atos de violência em várias passeatas convocadas pelos grupos conservadores venezuelanos.

Nesta quinta-feira, os dirigentes da greve se reuniram com autoridades governamentais para discutir o caso e, embora não se especificaram os pontos discutidos, o ministro do Interior e Justiça, Tarek El Aissami, disse que a reunião foi muito positiva.

“Vamos manter uma comunicação direta com estes jovens”, e ratificou a vontade de diálogo por parte do governo venezuelano.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

FARC-EP libertou de forma unilateral seis prisioneiros de guerra em homenagem e desagravo a Piedad Córdoba.

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo -FARC-EP- libertaram, em uma semana, seis prisioneiros de guerra que foram entregues em diversas regiões do país a Piedad Córdoba, presidenta do Movimento Colombianas e Colombianos pela Paz e aos representantes da Cruz Vermelha Internacional.


Essa libertação, sem contraprestação alguma, pode ser considerada como um gesto claro por parte desse Movimento Guerrilheiro, que indique sua vontade política de buscar um diálogo de cara ao país, que abra as comportas a um Acordo de Paz justo e duradouro.


O Brasil, mais uma vez, participou diretamente na libertação de prisioneiros de guerra na Colômbia, com uma equipe de 22 militares e dois helicópteros do Exército.


Piedad (na foto fala com Fidel Castro) foi injustamente afastada de seu cargo de Senadora pelo governo. Ela tem lutado e continua lutando pela solução política do conflito. A Paz com justiça social é sua principal bandeira de luta.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Os guerrilheiros capturados vivos são torturados e assassinados com crueldade pelo Exército



Fonte: Tribuna Popular

Em 22 de janeiro passado, tropas da Terceira Divisão do Exército e unidades “especiais” da Divisão Aerotransportada, tentaram cercar uma posição nossa, no município de Caloto, norte do departamento de Cauca.

Nessa operação, as tropas governamentais capturaram a camarada Jennifer, uma jovem e aguerrida indígena da etnia Páez, que militava há anos nas fileiras guerrilheiras e que estava ferida.

Os chamados “heróis da pátria” do exército, A TORTURAM até a morte, esfaquearam seu belo rosto e seu peito rebelde como as montanhas de Cauca e tentaram cortar sua língua – como querendo silenciar os gritos de justiça do povo. Assim o confirmam os sinais de humilhação que encontramos em seu corpo quando, no meio dos combates, conseguimos recuperar.

Também confirmam os fatos os depoimentos de moradores da zona que viram a brutalidade com que os soldados tratam os combatentes feridos em combate.

Essa é a essência das Forças Militares que se acostumaram a atropelar o povo, defendendo os interesses dos ricos e dos seus mestres do norte.

As tropas oficiais se encontraram com a resistência de guerrilheiros e guerrilheiras, que com menos tecnologia e meios técnicos, mas com o moral de combate elevado, reagiram conseguindo resgatar os corpos de dois guerrilheiros mortos e expulsando os soldados do local, causando-lhes grande números de baixas, como mostrado no seguinte boletim de guerra:


Boletim de guerra:

22 jan 2011

Às 05h30, forças especiais da Terceira Brigada do Exército colombiano, combinadas com um pelotão de assalto da Força Aérea, composto de oito helicópteros, metralharam e desembarcaram soldados em um acampamento, localidade de Los Chorros, município de Caloto, departamento de Cauca, onde ocorreram combates terrestres que resultaram em:

Baixas inimigas: 16 soldados mortos, incluindo um capitão, um tenente e um sargento, além de seis feridos.

Combateu-se com a Força Aérea durante 12 horas, deixando quatro helicópteros danificados; O combate se deu contra helicópteros armados, dois aeronaves ‘Marrano’, dois Tucanos e dois caças Kfir; o reforço desembarcou nas localidades de Porvenir e Guatada.
Baixas próprias: uma guerrilheira e um guerrilheiro foram mortos; um guerrilheiro capturado.

Material perdido: três fuzis e um rádio HF.

Material recuperado: um fuzil de assalto R-15 com mira telescópica.

Nota: - O exército fuzilou um morador local, que foi vestido com roupas camufladas para fazê-lo passar como guerrilheiro.

- A guerrilheira morta foi capturada viva, torturada e posteriormente assassinada.

Da nossa parte, não renunciaremos, ficaremos firmes na luta pela Nova Colômbia, com o moral revolucionário alto e o compromisso sincero para com uma paz justa e o bem-estar das maiorias.

PELOS NOSSOS MORTOS, NEM UM MINUTO DE SILÊNCIO, MAS TODA UMA VIDA DE COMBATE!!!

JURAMOS VENCER E VENCEREMOS!!!


Sexto Frente Hernando Gonzales Acosta

Montanhas de Cauca

Fevereiro, 2011

A rebelião revolucionária no Egito

Após 18 dias de uma dura batalha, o povo egípcio conquistou um objetivo importante: derrubar o principal aliado dos Estados Unidos no seio dos países árabes. Mubarak oprimia a saqueava seu próprio povo, era inimigo dos palestinos e cúmplice de Israel, a sexta potência nuclear do planeta, associada ao belicoso grupo da Otan.

As Forças Armadas do Egito, sob a direção de Gamal Abdel Nasser, havia lançado pela janela um rei submisso e criado a república que, com o apoio da União Soviética, defendeu sua pátria da invasão franco-britânica e israelense de 1956 e preservou a posse do Canal de Suez e a independência de sua nação milenar.

O Egito possui por isso um prestígio bastante elevado no Terceiro Mundo. Nasser era conhecido como um dos líderes mais destacado do Movimento de Países Não Alinhados, tendo participado de sua criação junto a outros conhecidos dirigentes da Ásia, África e Oceania, que lutavam pela libertação nacional e pela independência política e econômica das antigas colônias.

O Egito sempre gozou do apoio e do respeito de tal organização internacional, que reúne mais de cem países. Precisamente neste momento, o país preside o movimento pelo período que lhe corresponde de três anos. O apoio de muitos de seus membros à luta que seu povo realiza hoje não tardará a chegar.

Que significado tiveram os Acordos de Camp David e porque o heróico povo da Palestina defende de forma tão árdua seus direitos mais vitais?

Em Camp David — com a mediação do então presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter —, Anwar el Sadat, então presidente do Egito e o primeiro ministro de Israel Menahem Begin assinaram os famosos acordos entre o Egito e Israel.

Conta-se que participaram de conversações secretas durante 12 dias e em 17 de setembro de 1978 assinaram dois acordos importantes: um referido à paz entre Egito e Israel e outro relacionado com a criação de um território autônomo na Faixa de Gaza e Cisjordânia, onde Sadat pensava — e Israel conheci e compartilhava da ideia — que seria a sede do Estado Palestino, cuja existência, assim como a do Estado de Israel, a Organização das Nações Unidas determinou em 29 de novembro de 1947, no que era o então mandato britânico da Palestina.

Após árduas e complexas negociações, Israel aceitou retirar suas tropas do território egípcio do Sinai, embora tenha rechaçado categoricamente a participação naquela negociação de paz dos representantes da Palestina.

Como produto do primeiro acordo, no prazo de um ano Israel reintegrou o território do Sinai ao Egito, ocupado em uma das guerras árabe-israelenses.

Por causa do segundo, ambas as partes se comprometiam a negociar a criação do regime autônomo na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. A primeira compreendia um território de 5.640 quilômetros quadrados e 2,1 milhões de habitantes. A segunda, 360 km² e 1,5 milhão de habitantes.

Os países árabes se indignaram com aquele acordo que, como julgavam, o Egito não tinha defendido com suficiente firmeza e energia um Estado Palestino, cujo direito a existir havia sido centro as lutas livradas durante décadas pelos estados árabes.

A reação foi tão indignada que chegou ao extremo de romperem relações com o Egito. Dessa forma, a Resolução das Nações Unidas de novembro de 1947 foi apagada do mapa. A entidade autônoma jamais foi criada e assim se privava aos palestinos do direito de existir como estado independente, do qual se deriva a interminável tragédia que se vive e que deveria ter sido solucionada há mais de três décadas.

A população árabe da Palestina é vítima de ações genocidas: as suas terras são roubadas ou, nas regiões desérticas, privadas de água e as casas são destruídas com escavadeiras. Na faixa de Gaza, um milhão e meio de pessoas são sistematicamente atacadas com projéteis explosivos, fósforo e as conhecidas granadas de fragmentação. O território da Faixa de Gaza está bloqueado por terra, ar e mar. Por que se fala tanto dos acordos de Camp David e não se menciona a Palestina?

Os Estados Unidos fornecem anualmente os armamentos mais modernos e sofisticados para Israel, pelo valor de bilhões de dólares. O Egito, um país árabe, foi convertido no segundo receptor de armas americanas. Para lutar contra quem? Contra outro país árabe? Contra o próprio povo egípcio?

Quando a população exigia respeito por seus direitos mais elementares e a renúncia de um presidente cuja política consistia em explorar e saquear seu próprio povo, as forças repressoras treinadas pelos Estados Unidos não vacilaram em disparar contra ela, matando centenas de pessoas e ferindo milhares.

Quando o povo egípcio esperava explicações do governo de seu próprio país, as respostas vinham de altos funcionários dos órgãos de inteligência ou do governo dos Estados Unidos, sem respeito algum para com os funcionários egípcios.

Por acaso os dirigentes dos Estados Unidos e seus órgãos de inteligência não conheciam uma só palavra dos colossais roubos do governo de Mubarak?

Antes de que o povo protestasse em massa na praça Tahrir, nem os funcionários do governo, nem os órgãos de inteligência dos Estados Unidos diziam uma só palavra sobre os privilégios e roubos descarados de bilhões de dólares.

Seria um erro imaginar que o movimento popular revolucionário no Egito obedece teoricamente a uma reação contra as violações de seus direitos mais elementares. Os povos não desafiam a repressão e a morte nem permanecem noites inteiras protestando com energia por questões simplesmente formais. Eles fazem isso quando seus direitos legais e materiais são sacrificados sem piedade de acordo com as exigências insaciáveis de políticos corruptos e dos círculos nacionais e internacionais que saqueiam o país.

O índice de pobreza afetava a imensa maioria de um povo combativo, jovem e patriótico, agredido em sua dignidade, sua cultura e suas crenças.

Como poderiam ser conciliadas o aumento incessante dos preços dos alimentos com as dezenas de bilhões de dólares que são atribuídos ao presidente Mubarak, aos setores privilegiados do governo e da sociedade?

Não basta agora que sejam conhecidos os números da fortuna, é necessário exigir que ela seja devolvida ao país.

Obama está afetado pelos acontecimentos egípcios, age ou parece agir como dono do planeta. A questão do Egito parece ser assunto seu. Não para de falar com líderes de outros países.

A agência efe, por exemplo, informa: “... falou com o primeiro ministro britânico, David Cameron; o rei Abdalá II da Jordânia e com o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, islâmico moderado".

"... o governante dos Estados Unidos avaliou a 'mudança histórica' que impeliu os egípcios e reafirmou sua admiração pelos seus esforços...".

A principal agência de informação americana, AP, transmite declarações dignas de atenção:

"Os Estados Unidos pede governantes no Oriente Médio com inclinação ocidental, amistosos com Israel e dispostos a cooperar com a luta contra o extremismo islâmico, ao mesmo tempo que protejam os direitos humanos".

"…Barack Obama defende uma lista de requisitos ideais impossíveis de satisfazer após a queda dos aliados de Washington no Egito e na Tunísia em revoltas populares que, segundo especialistas, se propagarão na região".

"Não existe perfil com esse currículo de sonho e é muito difícil que apareça um pronto. Em parte se deve a que, nos últimos 40 anos, os Estados Unidos sacrificaram os ideais nobres dos direitos humanos, que tanto defendem, em troca da estabilidade, a continuidade e o petróleo em uma das regiões mais voláteis do mundo".

" 'O Egito não voltará a ser o mesmo', disse Obama na última sexta-feira, depois que celebrou a saída de Hosni Mubarak".

"Mediante seus protestos pacíficos, os egípcios 'transformaram seu país e o mundo'", disse Obama.

"Enquanto ainda persiste o nervosismo entre vários governos árabes, as elites encasteladas no Egito e na Tunísia não deram sinais de que estejam dispostas a ceder poder nem a vasta influência econômica que tiveram".

"O governo de Obama insistiu que a mudança não deveria ser de 'personalidades'. O governo americano tomou essa posição desde que o presidente Zine el Abidine Ben Ali fugiu em janeiro de Túnis, um dia depois que a secretária de Estado, Hillary Rodham Clinton, advertisse os governantes árabes em um discurso no Catar que sem uma reforma, os alicerces de seus países 'afundariam na areia'".

As pessoas não se mostraram muito dóceis na Praça Tahrir.

A Europa Press narra:

"Milhares de manifestantes chegaram à praça Tahrir, o epicentro das mobilizações que provocaram a renúncia do presidente do país, Hosni Mubarak, para reforçar os que continuam no local, apesar das tentativas da Polícia Militar de desalojá-las, segundo informou a cadeia britânica BBC."

"O correspondente da BBC que estava na praça cairota assegurou que o Exército está demonstrando indecisão diante da chegada de novos manifestantes..."

"O 'núcleo duro' (...) está situado em uma das esquinas da praça. (...) decidiram permanecer na Tahrir (...) para assegurar-se que todas as suas exigências sejam cumpridas".

Independente do que ocorra com o Egito, um dos problemas mais graves que enfrenta o imperialismo nesse instante é o déficit de cereais, que abordei na Reflexão de 19 de janeiro.

Os Estados Unidos emprega uma parte importante do milho que cultiva e um alto índice de sua colheita de soja para a produção de biocombustíveis. A Europa, por sua vez, emprega milhões de hectares de terra com essa finalidade.

Por outro lado, como consequência da mudança climática originada fundamentalmente pelos países desenvolvidos e ricos, está se criando um déficit de água doce e alimentos incompatível com o crescimento da população, a um ritmo que a conduziria a 9 bilhões de habitantes em apenas 30 anos, sem que a Organização das Nações Unidas e os governos mais influentes do planeta, depois das fracassadas reuniões de Copenhague e Cancun, tenham advertido e informado o mundo dessa situação.

Apoiamos o povo egípcio e sua valente luta por seus direitos políticos e pela justiça social.

Não estamos contra o povo de Israel, estamos contra o genocídio do povo palestino e a favor de seu direito a um Estado Independente.

Não somos a favor da guerra, mas sim a favor da paz entre todos os povos.

Fidel Castro Ruz, Havana, 21h14 de 13 de fevereiro de 2011


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CHOCADOS? DE TOLIMA A CAUCA SÃO POUCOS MINUTOS!



ANNCOL Telesur / - MM

O representante do Governo da Colômbia, Eduardo Pizarro, anunciou que nesta segunda-feira será quando se tomará uma decisão sobre a liberação de Salim Sanmiguel e Guillermo Solórzano, depois de que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) forneceram coordenadas erradas sobre a localização de os reféns.

“O governo nacional cumpriu, não atuo militarmente, nem houve missões aéreas, facilitou todo o trabalho necessário para a libertação destes colombianos”, disse Pizarro.

Sabe-se lá quantas agências de inteligência foram deslocadas para essas áreas, bastiões históricos das FARC, que sem dúvida são os que melhor conhecem a atitude trapaceira de Bogotá.

Segundo o representante do Executivo, o grupo armado entregou coordenadas diferente do lugar onde se encontravam Sanmiguel e Solórzano e, quando a caravana humanitária chegou eles não estavam lá, pois tinham sido transferidos para o departamento de Cauca (sudoeste).

“Apesar do cumprimento do Governo Nacional, as FARC cometeram um ato que nos choca, hoje as FARC entregaram coordenadas no departamento de Tolima (centro), os helicópteros foram para este lugar e acontece que, supostamente, não se encontravam no departamento de Tolima, mas no departamento de Cauca”.

“Essa conduta das FARC nos causou surprsa, ficamos incomodados e nos preocupa muito”, acrescentou Pizarro.

Diante a situação, o Governo Nacional vai avaliar, nesta segunda-feira, que aconteceu no processo deste domingo, e só então tomará uma decisão a respeito.

“O Governo Nacional vai avaliar o que aconteceu com todas as pessoas que participaram neste processo frustrado e amanhã tomará uma decisão sobre as futuras libertações”, disse.

Em uma breve declaração da capital do país, Bogotá, Pizarro informou que, nesta segunda-feira, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) lhe entregará, para sua avaliação, os dados de uma nova área para concretizar a libertação dos uniformados, que poderia ser no departamento de Cauca.

“Amanhã, o CICV vai entregar ao Governo as coordenadas de uma nova área que pode ser no departamento de Cauca e será avaliado”, enfatizou.

“Em primeiro lugar, o Governo tem cumprido o acordo. Em segundo lugar, chama a atenção o não cumprimento das FARC e o terceiro é que o Governo está comprometido e amanhã avaliará e tomará decisões sobre isso”, concluiu.

Por outro lado, a defensora dos direitos humanos, Piedad Córdoba, através do seu Twitter disse: “Não vou dar declarações, o Governo Nacional de Juan Manuel Santos explicará os fatos. Estou certa de que em breve os veremos livres”.

Minutos antes, Córdoba tinha postado: “Obrigado amigos por ser tão pacientes e compreensivos com as últimas libertações, em relação aos canais regulares será declarado desde o âmbito oficial”.

ALTO COMANDO MILITAR EGÍPCIO TEM SEDE EM WASHINGTON

Por Laerte Braga


O marechal Mohamed Hussein Tantawi, presidente do Supremo Conselho Militar do Egito e sucessor de Hosni Mubarak é parte da brutal ditadura contra a qual os egípcios se levantaram e obedece a Washington.

O ex-ditador não renunciou à “presidência da república”. Nem ele e nem o general Omar Suleiman, o “vice-presidente”. Na quinta-feira Mubarak discursou em rede nacional de televisão dizendo que permaneceria no poder até as eleições de setembro e na sexta, surpreendendo aos próprios revoltosos deixou o poder.

Entre quinta e sexta-feira o marechal Tantawi conversou cinco vezes por telefone com o secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates. A última conversa foi após o pronunciamento de Mubarak e Gates disse ao marechal Tantawi que para manter a “ordem” e evitar o “caos” era necessário que Mubarak e Suleiman saíssem.

Quando se extrai um tumor maligno, ou a cirurgia remove o tumor e seu entorno, ou o tumor permanece vivo. Nada muda, apenas a sensação de mudança. É o que está acontecendo no Egito.

O governo provisório (pelo menos por enquanto, pode virar definitivo) vai afrouxar aqui e ali, mas só nos adereços, e as mudanças pretendidas pelos egípcios vai depender das ruas e da oficialidade jovem das forças armadas, fator decisivo na decisão dos EUA que determinaram ao marechal Tantawi o afastamento de Mubarak e Suleiman.

O alto comando militar egípcio tem sede em Washington e os velhos generais e marechais que comandam as forças armadas não diferem em nada de Hosni Mubarak, ele próprio, um marechal.

De uma certa forma o que vai acontecer é uma incógnita. Os próximos dias serão decisivos para a luta popular e a oficialidade jovem (muitos aderiram aos rebeldes na Praça da Libertação e isso foi vital para a decisão dos norte-americanos, o temor de uma rebelião dentro das forças armadas, o medo de perder o controle).

E transcendem ao Egito. Manifestações contra o governo ditatorial da Argélia estão sendo reprimidas de maneira violenta pela ditadura naquele país. No Iêmen o povo se levanta contra o governo e há indícios claros de insatisfação na Jordânia.

Chegam até a Israel, onde parte da população começa a perceber que os governos que sucederam a Rabin (assassinado por um fanático judeu logo após o acordo de paz assinado com Yasser Arafat) têm um caráter ditatorial e colocam em risco a segurança do país. Em Tel Aviv já acontecem manifestações pela paz com os palestinos, tanto quanto, líderes de movimentos de direitos humanos e pela paz são presos e condenados. Silenciados.

Se você acerta um lobo com um golpe não fatal o lobo se torna muito mais perigoso e apavorante que antes do golpe. É o caso dos EUA e toda a sua extensa rede de terror espalhada pelo mundo.

Imerso numa crise na qual se percebe o declínio do império, escora-se num arsenal bélico capaz de destruir o mundo quantas vezes for preciso para manter a democracia cristã e ocidental do deus mercado.

Não é uma nação, apenas um conglomerado terrorista EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A. E cada vez mais os norte-americanos vão se revelando um povo doente e fanático em sua imensa maioria.

Em Bruxelas, Bélgica, discutem um sistema antimísseis que cria um escudo protetor em toda a Europa e pretendem obter a concordância da Rússia, vale dizer, sua capitulação à OTAN – ORGANIZAÇÃO DO TRATADO ATLÂNTICO NORTE – braço terrorista do conglomerado na Europa.

A ressurreição do nazismo foi anunciada pelo primeiro-ministro da principal colônia do conglomerado no velho mundo, David Cameron. Falou em fim do multiculturalismo. A existência, coexistência e convivência entre diferentes. Pacífica e harmoniosa.

O que se viu na Praça da Libertação foi um povo sem preconceitos, cristãos e muçulmanos lutando e rezando em comum pelo fim da barbárie.

E a barbárie está em Washington, em Tel Aviv, em países árabes governados por ditadores, na Europa colonizada e cercada de bases militares do conglomerado terrorista por todos os lados.

Neste sábado, em Roma e várias cidades italianas, milhares de cidadãos vão às ruas para mostrar sua indignação com o primeiro-ministro Sílvio Berlusconi, uma reedição esfarrapada do Duce. A grande chacota do mundo, mas que cumpre à risca o papel que lhe cabe nesse espetáculo determinado pelos EUA. Não por outra razão é um dos donos de um império midiático.

Quem pensa que GLOBO, FOLHA, VEJA, etc. existem só no Brasil se engana. Os terroristas do conglomerado, desde a derrota militar no Vietnã aperfeiçoaram e aumentaram o controle da mídia em quase todos os países do mundo. É o arsenal da mentira repetida à exaustão até que vire “verdade”.

Em Argel o ditador colocou nas ruas policiais (via de regra recrutados entre assassinos como fazia Mubarak) e militares (que em quase todo o mundo, Brasil inclusive, se atribuem o monopólio do patriotismo na versão de Samuel Jackson, “o último refúgio dos canalhas.”

O Comitê de Segurança Nacional da Câmara de Deputados do conglomerado EUA/ISAREL TERRORISMO S/A, numa audiência na quarta-feira, nove de fevereiro, deu seu aval à ordem do presidente branco – disfarçado de negro – Barack Obama, para que o imã Anwar al-Awlaki, seja assassinado pelos “serviços secretos”. É acusado de pertencer a Al Qaeda e ser “mais perigoso que Osama bin Laden.

O imã nasceu no Novo México, nos EUA, é filho do atual ministro da Agricultura do Iêmen e acusado de vários “crimes de terrrorismo”. O espírito democrático, cristão e ocidental de Obama entende que deva ser assassinado em nome da liberdade e outras coisas mais, no fundo, para não atrapalhar os “negócios”.

O deus mercado exige sacrifício de mortais comuns que se oponham ao uso de tênis de marca, ao consumo de sanduíches Mcdonalds, se recusem a assistir as tevês do grande irmão, ou ouvir a suas rádios e ler seus jornais e revistas. A aceitar a ordem suprema e despirem-se da condição de humanos. Mortos vivos.
O que egípcios – cristãos e muçulmanos – mostraram ao mundo é que é possível sair da escuridão e enxergar o sol. É claro que a luta não termina na saída de Mubarak, é mais ampla e estende-se às nações de todo o mundo.

No terceiro dia do julgamento do pedido de extradição de Julian Assange feito pela antiga Suécia – importante base do conglomerado na Europa – o juiz Howard Ridlle pediu mais tempo para decidir se aceita ou não o pedido.

A falta de provas dos crimes imputados a Assange, responsável por revelar através do WIKILEAKS toda a podridão e terror do conglomerado EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A, deve ter sido o motivo. Vão tentar encontrar formas de entregar Assange a Suécia para que no curso normal de uma ação criminosa ele possa ser levado aos EUA e julgado. Corre o risco da pena de morte. De qualquer forma, para extraditá-lo vão precisar de muitos coelhos e muitas cartolas.

O último ministro das Relações Exteriores do Brasil (o atual é funcionário do Departamento de Estado do conglomerado), Celso Amorim, em entrevista telefônica a CARTA MAIOR – mídia limpa, sadia – afirmou que “as revoluções populares que o mundo assiste agora especialmente na Tunísia e no Egito, acontecem em países considerados amigos do Ocidente que não eram alvo de nenhum tipo de sanção por parte da comunidade internacional”. E fulminou – “isso mostra que a posição daqueles que defendem sanções contra o Irã é equivocada”.

O que chamam de chanceler brasileiro atualmente, Antônio Patriota, prepara-se para um encontro com Hilary Clinton no dia vinte e três. Vai sem sapatos e submisso, doido para ganhar uma cadeira permanente num conselho denominado de segurança. A instância maior das Nações Unidas, onde cinco países têm o direito de veto a qualquer proposta que contrarie seus interesses.

Quer o status e o direito de dizer amém.

Mohamed Hussein Tantawi, o marechal egípcio que assumiu o governo daquele país é só um nome. Poderia ser David Cameron, Sílvio Berlusconi, o primeiro-ministro sueco, Antônio Patriota, poderia ser José Sarney, por exemplo, que guarda com Hosni Mubarak e Omar Suleiman os mesmos cabelos pintados, provavelmente com tintura importada/doada pelo conglomerado (percepção do deputado Chico Alencar).

É por aí que o Egito e os egípcios transcendem a si próprios e se estendem por todo o mundo.

A luta pela sobrevivência do ser humano não será ganha em shoppings e nem diante da telinha inebriado com o BBB. Mas nas praças e ainda não terminou para os egípcios e nem começou para muitos povos.

É de sobrevivência. A suástica está em marcha, viva e feroz, no conglomerado terrorista EUA/ISRAEL TERRORISMO S/A, no discurso de David Cameron, um dos porta-vozes da barbárie.

Por trás daquele discurso vazio e sem sentido de Obama na sexta-feira após a saída de Mubarak, o que existe de fato é o cinismo da estupidez e da violência do conglomerado. Palavras ocas para fora e ordens de assassinato para dentro.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

América Latina se une para enfrentar o império

Em quase todos os países da América Latina, e também aqui no Brasil, houve celebrações, atos políticos e manifestações nas representações diplomáticas da Venezuela, comemorando os doze anos do fi m do neoliberalismo naquele país com a vitória eleitoral de Hugo Chávez e a derrota do governo repressor de Andrés Carlos Perez.

A vitória do desconhecido coronel da reserva Hugo Chávez não foi uma vitória pessoal ou fruto de marqueteiros de aluguel. Sua conquista foi o coroamento de diversas lutas sociais na Venezuela a partir do caracazo, em que a população se levantou contra o neoliberalismo e pagou o preço de milhares de mortos, número até hoje desconhecido.

Em outros países da América Latina, como aqui no Brasil, pipocaram centenas de lutas localizadas, algumas mais massivas e outras mais radicais, que vai desde as manifestações de Seatlle, o levantamento Zapatista, as realizações dos Fóruns Sociais Mundiais, às revoltas contra a privatização da água, energia elétrica etc. em quase todos países de nosso continente.

O resultado deste processo de resistência ao neoliberalismo se transformou em vitórias eleitorais, em que foram eleitos diversos governos antineoliberais e anti-imperialistas.

Chávez representa essa virada. A partir de sua vitória eleitoral e do processo que se iniciou na Venezuela, como a chamada revolução bolivariana, o povo daquele país passou a mobilizar-se permanentemente por um novo modelo de desenvolvimento, que resolva de fato seus problemas. E tivemos também mudanças signifi cativas em quase todos os países da América Latina.

O império estadunidense levou um susto e teve que recuar. Sofreu uma derrota política estratégica ao não conseguir impor o projeto da Alca, que submeteria nossas economias a seus interesses. Outras pequenas vitórias de nossos povos se seguiram.

Depois veio a crise do sistema capitalista, a partir de 2008, que abalou as bases da economia dos EUA. E, como consequência dessa crise, a vitória eleitoral de Obama, um político democrata, de origem afrodescente e com vínculos em lutas sociais de Chicago, que conseguiu derrotar a candidata do sistema Hilary Clinton.

Sua eleição despertou curiosidade e esperança entre os pobres dos EUA e entre as forças progressistas do continente.

Mas o tempo passou e as forças do capital foram retomando sua verdadeira cara. Na política externa, comandada pela derrotada Hilary Clinton, nenhuma mudança. Ao contrário: mais soldados no Afeganistão, no Haiti (apesar do terremoto), mais provocações em todo mundo a partir de suas basesmilitares.

Passada a expectativa, finalmente o presidente Obama retoma seu verdadeiro papel de coordenador político dos interesses econômicos do império e suas empresas.

Num discurso contundente, virulento e imperialista, no Congresso estadunidense, reafi rma perante a imprensa de todo mundo e seu povo a vontade política de recuperar os interesses do império estadunidense e de impor, a qualquer custo, seus interesses frente aos demais povos. Todo mundo deve seguir trabalhando, usando o dólar, para manter a melhoria e o bem-estar apenas dos que vivem nos EUA. As empresas dos Estados Unidos devem reassumir o controle dos mercados e a primazia sobre as demais empresas. O dólar deve continuar regendo os destinos do mundo. Eles usam a maquininha de pintar papel de dinheiro, e os povos do mundo se obrigam a curvar-se para pagar a conta.

Triste papel esse. Agora assumido formalmente.

E as consequências já começam a serem sentidas na tentativa de salvar o regime corrupto e ditatorial de Mubarak no Egito. Assim como tiveram a petulância de enviar o secretario do tesouro para pressionar a presidenta Dilma a fim de que se afaste da China, para que não tenha política externa independente e volte aos braços dos interesses estadunidenses.

Certamente, teremos ainda duros anos de luta pela frente. Pois o império começa a retomar a ofensiva, depois das derrotas sofridas com a ascensão de Chávez.

Felizmente a América Latina trata de unir-se cada vez mais para enfrentar o império. Já está marcada para a primeira semana de julho de 2011 a fundação, em Caracas, da Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos (Celac), que vai sepultar a OEA e reunir todos os países do continente com exceção dos EUA e Canadá. A Celac será um importantíssimo instrumento para enfrentar a sanha imperial de recolonizar o continente.

Fonte: Brasil de Fato

sábado, 12 de fevereiro de 2011

“É preciso respeitar a decisão do povo de cada país”

Em entrevista exclusiva à Carta Maior, o embaixador Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, analisa os recentes acontecimentos no Oriente Médio e norte da África e suas possíveis repercussões. O ex-chanceler chama a atenção para o fato de que as revoltas populares ocorrem em países considerados “amigos do Ocidente” que não eram alvo de nenhum tipo de crítica ou sanção. “Há algumas lições a serem tiradas destes episódios. A primeira delas é que é preciso respeitar os movimentos internos e não querer impor mudanças a partir de fora”, diz Amorim, defendendo a postura adotada pela diplomacia brasileira nos últimos anos.

- “Há algumas semanas, se fosse realizada uma consulta entre especialistas em política internacional pedindo que apontassem dez países que poderiam viver proximamente uma situação de conflito político-social, duvido que algum deles apontasse a Tunísia”.

O embaixador Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores do Brasil por mais de oito anos (dois mandatos do governo Lula e mais um período no governo Itamar Franco), iniciou a conversa telefônica, direto da embaixada do Brasil em Paris, chamando a atenção para a complexidade e o dinamismo do cenário internacional e para o baixo nível de conhecimento que se tem sobre a situação de muitos países. Em entrevista exclusiva à Carta Maior, concedida no início da tarde desta sexta-feira, Celso Amorim analisa os recentes acontecimentos no Oriente Médio e no norte da África e suas possíveis repercussões. Como que para ilustrar o dinamismo mencionado por Amorim, quando a entrevista chegou ao fim, Hosni Mubarak não era mais o presidente do Egito.

Na entrevista, o ex-chanceler brasileiro chama a atenção para o fato de que as revoltas populares que o mundo assiste agora, especialmente na Tunísia e no Egito, acontecem em países considerados “amigos do Ocidente” que não eram alvo de nenhum tipo de sanção por parte da comunidade internacional. “Isso mostra que a posição daqueles que defendem sanções contra o Irã é equivocada”, avalia. Amorim acredita que uma mudança política no Egito terá impacto em toda a região, cuja extensão ainda é difícil de prever. E defende a política adotada pelo Brasil nos últimos anos apostando na capacidade de diálogo do país, reconhecida e requisitada internacionalmente.

CARTA MAIOR: Qual sua avaliação sobre a rebelião popular no Egito e seus possíveis desdobramentos políticos e geopolíticos na região?

CELSO AMORIM: Uma primeira característica que considero importante destacar é que os protestos que estamos vendo agora são movimentos endógenos. É claro que eles se valem de novas tecnologias e de alguns valores modernos, mas são motivados pela situação interna destes países. O Egito e a Tunísia, cabe assinalar também, não estavam sob sanções por parte do Ocidente. Isso mostra que a posição daqueles que defendem sanções contra o Irã é equivocada. Sanções só reforçam internamente um regime. Uma das expectativas das sanções contra o Irã era atingir a Guarda Revolucionária. Na verdade, só atingem o povo. O Iraque foi submetido a sanções durante anos e Saddam só ficava mais forte. Não havia, repito, sanções contra a Tunísia e o Egito, países considerados amigos do Ocidente e aliados inclusive na guerra contra o terrorismo, implementada pelos Estados Unidos.

Acredito que uma mudança política no Egito terá certamente um impacto em toda região, podendo inclusive provocar uma mudança de relacionamento com países como Israel e Síria. Mas isso dependerá da evolução dos acontecimentos.

CARTA MAIOR: A sucessão de acontecimentos semelhantes em países do Oriente Médio e do Norte da África já pode ser considerada como uma onda capaz de expandir para outros países também?

CELSO AMORIM: Potencialmente, sim. Mas é difícil prever. Depende dos desdobramentos do Egito. Não há dúvida que Mubarak sairá [enquanto concedia a entrevista, a renúncia do ditador egípcio foi confirmada]. A questão é saber como ele sairá. Certamente haverá uma mudança no regime político do Egípcio. Não sabemos ainda em que intensidade. Mas é importante ter em mente que as duas forças organizadas no país são as forças armadas e a Irmandade Islâmica. A Irmandade Islâmica não é nenhum bicho papão. Cabe lembrar que muita gente tem citado a Turquia (que tem um partido islâmico no poder) como um modelo de caminho possível para o Egito.

A influência dos acontecimentos no Egito deve se manifestar em ritmos e intensidades diferentes, dependendo da realidade de cada país. Como a Tunísia nos mostrou, é preciso esperar o inesperado.

CARTA MAIOR: A diplomacia ocidental foi pega de surpresa por esses episódios?

CELSO AMORIM: Certamente que sim. O próprio presidente Obama admitiu isso ao falar dos relatórios dos serviços de inteligência dos Estados Unidos. Ninguém estava esperando o que aconteceu na Tunísia que acabou servindo de estopim para outros países como Yemen e Egito. Nos mais de oito anos que trabalhei como chanceler nunca ouvi uma palavra de crítica sobre a Tunísia. E alguns conceitos fracassaram. Entre eles o de que se o país é pró-ocidental é necessariamente bom. Os Estados Unidos seguem poderosos no cenário internacional, mas frequentemente superestimam essa influência.

Há algumas lições a serem tiradas destes episódios. A primeira delas é que é preciso respeitar os movimentos internos e não querer impor mudanças a partir de fora. As revoltas que vemos agora (na Tunísia e no Egito) iniciaram dentro destes países contra governos pró-ocidentais e não nasceram com características antiocidentais ou anti-imperialistas.

CARTA MAIOR: O Oriente Médio é hoje uma das regiões mais conflituosas do planeta. Os levantes populares que estamos vendo podem ajudar a melhorar esse quadro?

CELSO AMORIM: Creio que teremos agora um quadro mais próximo da realidade. Há uma certa leitura simplificada do Oriente Médio que não leva em conta o que o povo desta região pensa. Não é possível ignorar a existência de organizações como a Irmandade Islâmica ou o Hamas. Se ignoramos fica muito difícil traçar uma estratégia que leve a uma paz estável.

CARTA MAIOR: O jornalista israelense Gideon Levy escreveu ontem no Haaretz dizendo que o Oriente Médio não precisa de estabilidade, referindo-se de modo à crítica à suposta estabilidade atual, que seria, na verdade, sinônimo de pobreza, desigualdade e injustiça. Qual sua opinião sobre essa avaliação?

CELSO AMORIM: De fato, a desigualdade social é uma das causas muito fortes dos problemas que temos nesta região. É um fermento muito grande para revoltas. A verdadeira estabilidade não se resume a ter um determinado governante no poder. Não basta ter eleição. É preciso aceitar o resultado da eleição. Estamos falando de uma região muito complexa, com sentimentos anticoloniais muito fortes. Esse quadro exige uma flexibilidade muito grande e capacidade de diálogo com diferentes interlocutores.

CARTA MAIOR: Qual sua análise sobre a evolução dos acontecimentos no Oriente Médio à luz da política externa praticada durante sua gestão no Itamaraty?

CELSO AMORIM: Como referi antes, nós procuramos manter uma relação ampla com diferentes interlocutores. As críticas que sofremos vieram mais da mídia brasileira do que de outros países. Nossa política em relação ao Irã, por exemplo, não foi para mudar esse país. O objetivo era contribuir para a paz, tentando encontrar uma solução para a questão nuclear. Quem mudou de ideia no meio do caminho foram os Estados Unidos. O próprio El Baradei (ex-diretor geral da Agência de Energia Atômica), que agora voltou a cena no Egito, chegou a dizer, comentando a Declaração de Teerã, que quem estava contra ela é porque, no fundo, não aceitava o sim como resposta.

Acredito que nós precisamos de países com capacidade de ver o mundo com uma visão menos maniqueísta. Agora, todo mundo está chamando Mubarak e Ben Ali de ditadores. Até bem pouco tempo não assim. A maioria da imprensa internacional não os chamava de ditadores. O importante é saber respeitar a vontade e a decisão do povo de cada país. O Brasil tem essa capacidade reconhecida mundialmente. Várias vezes fomos requisitados para ajudar na interlocução entre países. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por exemplo, nos pediu para ajudar a retomar o diálogo com a Síria. O Brasil tem essa capacidade de diálogo que não demoniza o outro. Essa é a pior coisa que pode acontecer na relação entre os países: demonizar o outro. Não se pode, repito, ignorar a presença da Irmandade Islâmica ou do Hamas. Podemos não gostar destas organizações. Isso é outra coisa. Mas estamos que estar prontos para conversar.

Espero que o Brasil faça jus às expectativas que existem sobre ele, sobre sua capacidade de diálogo e interlocução. Não se trata de mania de grandeza. Nós temos essa capacidade de diálogo e ela é requisitada. Seguramente o Brasil tem a possibilidade, e eu diria mesmo a necessidade, de ter essa participação e ajudar a construir a paz. Até porque esses fatos nos afetam diretamente. Basta ver o preço do petróleo que está aí aumentando em função dos conflitos.

Olga Benario Prestes: um exemplo para os jovens de hoje Olga Benario Prestes: um exemplo para os jovens de hoje

Por Anita Leocadia Prestes

Olga Benario Prestes nasceu em Munique (Alemanha) a 12 de fevereiro de 1908. Aos quinze anos de idade, sensibilizada pelos graves problemas sociais presentes na Alemanha dos anos de 1920, Olga viria a aproximar-se da Juventude Comunista, organização política em que passaria a militar ativamente. Aos 16 anos, apaixonada pelo jovem dirigente comunista Otto Braum, Olga sai da casa paterna e junto com o companheiro viaja para Berlim, onde ambos irão desenvolver intensa atividade política no bairro operário de Neukölln. Embora vivendo com nomes falsos, na clandestinidade, Olga e Otto acabam sendo presos em outubro de 1926. Ainda que Olga tenha ficado detida apenas dois meses, Otto permaneceu preso, acusado de “alta traição à pátria”. Em abril de 1928, Olga, à frente de um grupo de jovens comunistas, lidera assalto à prisão de Moabit para libertar Otto. A ação foi coroada de êxito total, pois além de o prisioneiro ter escapado da prisão de “segurança máxima”, Olga e seus camaradas conseguiram fugir incólumes. A cabeça de Olga é posta a prêmio pelas autoridades alemãs.

Tarefa internacional

Por decisão do Partido Comunista, Olga e Otto viajaram clandestinamente para Moscou, onde a jovem comunista de apenas 20 anos se torna dirigente destacada da Internacional Comunista da Juventude. No final de 1934, já separada de Otto, Olga recebe a tarefa da Internacional Comunista de acompanhar Luiz Carlos Prestes em sua viagem de volta ao Brasil, zelando pela sua segurança, uma vez que o governo Vargas decretara sua prisão. Prestes e Olga partiram de Moscou no final de dezembro de 1934, viajando com passaportes falsos, como marido e mulher, apesar de estarem se conhecendo naqueles dias. Durante a longa e acidentada viagem rumo ao Brasil, os dois se apaixonam, tornando-se efetivamente marido e mulher.

Em março de 1935, Prestes é aclamado, no Rio de Janeiro, presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma ampla frente única, cujo programa visava a luta contra o imperialismo, o latifúndio e a ameaça fascista, que pairava sobre o mundo e também sobre o Brasil. Prestes e Olga chegam ao Brasil em abril desse ano, passando a viver clandestinamente na cidade do Rio de Janeiro. O “Cavaleiro da Esperança” torna-se a principal liderança do movimento antifascista no Brasil e, assessorado o tempo todo por Olga, participa da preparação da insurreição armada contra o governo Vargas, a qual deveria estabelecer no país um governo Popular Nacional Revolucionário, representativo das forças sociais e políticas agrupadas na ANL.

Repressão e prisão

Com o insucesso dos levantes de novembro de 1935, desencadeia-se violenta repressão policial contra os comunistas e seus aliados. Em 5 de março de 1936, Prestes e Olga são presos no subúrbio carioca do Méier por ordem do famigerado capitão Filinto Muller, então chefe de polícia do governo Vargas. A ordem expedida aos agentes policiais era clara – a liquidação física de Luiz Carlos Prestes. No momento da prisão, Olga salvou-lhe a vida, interpondo-se entre ele e os policiais, impedindo o assassinato do líder revolucionário. Uma vez localizados e presos, Prestes e Olga foram violentamente separados. Ele, conduzido para o antigo quartel da Polícia Especial, no morro de Santo Antônio, no centro do Rio. Olga, após uma breve passagem pela Polícia Central, foi levada para a Casa de Detenção, situada então à rua Frei Caneca, onde ficou detida junto às demais companheiras que haviam participado do movimento da ANL.

Extradição

Prestes e Olga nunca mais se veriam. Em setembro de 1936, Olga, grávida de sete meses, era extraditada para a Alemanha hitlerista pelo governo de Getúlio Vargas. Junto com Elise Ewert, outra comunista e internacionalista alemã que participara da luta antifascista no Brasil, foi embarcada à força, na calada da noite, no navio cargueiro alemão “La Coruña”, viajando ilegalmente, sem culpa formada, sem julgamento nem defesa. O comandante do navio recebeu ordens expressas de cônsul alemão no Brasil para dirigir-se direto a Hamburgo, sem parar em nenhum outro porto estrangeiro, pois havia precedentes de os portuários franceses e espanhóis resgatarem prisioneiros deportados para a Alemanha, quando tais navios aportavam à Espanha ou à França. Após longa e pesada travessia, as duas prisioneiras foram conduzidas incomunicáveis para a prisão de mulheres de Barnimstrasse, em Berlim, onde Olga deu à luz sua fi lha Anita Leocadia, em novembro de 1936.

Numa exígua cela dessa prisão, submetida a regime de rigoroso isolamento, Olga conseguiu criar a fi lha até a idade de 14 meses, graças à ajuda, em alimentos, roupas e dinheiro, que recebeu da mãe e da irmã de Prestes. Ambas se encontravam em Paris dirigindo a campanha internacional de solidariedade aos presos políticos no Brasil. Com a deportação de Olga, a campanha se ampliara em defesa da esposa de Prestes e de sua filha. Várias delegações estrangeiras foram à Alemanha pressionar a Gestapo, obtendo afinal a entrega da criança à avó paterna – Leocádia Prestes, mulher valente e decidida, a quem o grande poeta chileno Pablo Neruda dedicou o poema Dura Elegia, que se inicia com o verso : “Señora, hiciste grande, más grande, a nuestra América...”

Assassinada numa câmara de gás

A campanha internacional, que atingiu vários continentes, não conseguiu, contudo, a libertação de Olga. Logo depois ela seria transferida para a prisão de Lichtenburg, situada a cem quilômetros ao sul de Berlim. Um ano mais tarde, Olga era confinada no campo de concentração de Ravensbruck, onde juntamente com milhares de outras prisioneiras seria submetida a trabalhos forçados para a indústria de guerra da Alemanha nazista. A situação de Olga seria particularmente penosa, pois carregava consigo duas pechas consideradas fatais – a de comunista e a de judia. Em abril de 1942, Olga era transferida, numa leva de prisioneiras marcadas para morrer, para o campo de concentração de Bernburg, onde seria assassinada numa câmara de gás.

O exemplo

Olga, segundo os depoimentos de todos que a conheceram e conviveram com ela, nunca vacilou diante das grandes provações que teve que enfrentar. Até o último dia de sua trágica existência, manteve-se firme perante o inimigo e solidária com as companheiras. Ao despedir-se do marido e da fi lha, antes de ser levada para a morte, escreveu: ”Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo”; “até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver”.

A vida e a luta de uma revolucionária como Olga, comunista e internacionalista, não foi em vão; seu heroísmo serve de exemplo e de inspiração para os jovens de hoje.

Anita Leocádia Prestes é professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e Presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes.

Artigo publicado originalmente na edição 414 do Brasil de Fato.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mubarak abandona o poder

O presidente deixou o Cairo nesta sexta-feira junto com a família; multidão comemora nas ruas

O presidente do Egito, Hosni Mubarak, renunciou à presidência e entregou o poder às Forças Armadas, anunciou nesta sexta-feira (11) o vice-presidente, Omar Suleimán. Na cidade do Cairo, capital do país, centenas de pessoas celebram a notícia.

"Mubarak renunciou. As ruas do Cairo são um clamor. Há gritos, abraços", informou o correspondente da Telesur, Rodrigo Hernández.

Desde as primeiras horas desta sexta-feira, circulou a infomação de que Mubarak havia abandonado a capital junto com sua família e se dirigido a uma de suas residências na cidade portuária de Sharm el Sheij, próximo do Mar Vermelho, duas semanas depois de intensas manifestações que exigiam sua saída do poder. A informação foi dada pela presidência, de acordo com informações do correspondente da Prensa Latina no Egito, Ulises Canales.

"A presidência da República acaba de confirmar que se encontra com sua família em Sharm el Sheij, mas nega que isso signifique ou tenha relação com uma eventual saída do país", informou o correspondente.

Na quinta-feira (10), o mandatário havia anunciado, em um discurso transmitido ao vivo, que transferia os poderes ao seu vice-presidente, Omar Suleimán. No entanto, afirmou que iria permanecer no cargo até as eleições de setembro.

Durante o discurso, ele afirmou que não participaria do próximo pleito, mas que "viverá e morrerá no Egito".

Celebração

A euforia do povo egípcio é registrada em diferentes pontos do país, como relata o correspondente da Telesur no país, Rodrigo Hernández. De acordo com ele, "as pessoas dizem que é um triunfo de um povo em toda a região" e que o que ocorreu no Cairo é para "ensinar a toda a região que é o povo árabe que tem que governar".

"As pessoas estão partindo de diferentes pontos da cidade [Cairo] para celebrar. Os estabelecimentos estão sendo fechados para celebrar, a partir da praça central do Egito, a queda de Mubarak", afirmou

Ele informou, ainda, que as pessoas aguardam com expectativa pelo que acontecerá a partir de agora, para saber quem assumirá o governo. "Há muita ambiguidade e dúvidas sobretudo em função do papel que terão as pessoas que pertenciam ao governo", informou.

(Com informações da Telesur e Brazil de Fato)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Chomsky: EUA estão seguindo seu manual no Egito

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, Noam Chomsky analisa o desenrolar dos protestos no Egito e o comportamento do governo dos Estados Unidos diante deles. Na sua avaliação, o governo Obama está seguindo o manual tradicional de Washington nestas situações: "Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome".

Amy Goodman - Democracy Now

Nas últimas semanas, os levantes populares ocorridos no mundo árabe provocaram a destituição do ditador Zine El Abidine Bem Ali, o iminente fim do regime do presidente egípcio Hosni Mubarak, a nomeação de um novo governo na Jordânia e a promessa do ditador de tantos anos do Yemen de abandonar o cargo ao final de seu mandato. O Democracy Now falou com o professor do MIT, Noam Chomsky, acerca do que isso significa para o futuro do Oriente Médio e da política externa dos EUA na região. Indagado sobre os recentes comentários do presidente Obama sobre Mubarak, Chomsky disse: “Obama foi muito cuidadoso para não dizer nada; está fazendo o que os líderes estadunidenses fazem habitualmente quando um de seus ditadores favoritos têm problemas, tentam apoiá-lo até o final. Se a situação chega a um ponto insustentável, mudam de lado”.

Amy Goodman: Qual é sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?

Noam Chomsky: Em primeiro lugar, o que está ocorrendo é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes merecem destaque, E, aconteça o que aconteça, estes são momentos que não serão esquecidos e que seguramente terão consequências a posteriori: constrangeram a polícia, tomaram a praça Tahrir e permaneceram ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak. O governo organizou esses bandos para tratar de expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército pode dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instaurar algum governo militar. É muito difícil prever o que vai acontecer.

Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome.

Presumo que é isso que está ocorrendo agora. Estão vendo se Mubarak pode ficar. Se não aguentar, colocarão em prática o manual.

Amy Goodman: Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?

Noam Chomsky: Curiosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo com a necessidade de haver uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional, isso não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.

Os Estados Unidos tem um poder constrangedor neste caso. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda militar e econômica de Washington. Israel é o primeiro. O mesmo Obama já se mostrou muito favorável a Mubarak. No famoso discurso do Cairo, o presidente estadunidense disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos o apoiando porque é um amigo”.

Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como, depois disso, alguém pode seguir levando a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são, certamente, estadunidenses. Os EUA representam o principal sustentáculo do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio era da França. Os EUA são os principais culpados no Egito, junto com Israel e a Arábia Saudita. Foram estes países que prestaram apoio ao regime de Mubarak. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente seu amigo Mubarak.

Amy Goodman: O que significam todas essas revoltas no mundo árabe?

Noam Chomsky: Este é o levante regional mais surpreendente do qual tenho memória. Às vezes fazem comparações com o que ocorreu no leste europeu, mas não é comparável. Ninguém sabe quais serão as consequências desses levantes. Os problemas pelos quais os manifestantes protestam vem de longa data e não serão resolvidos facilmente. Há uma grande pobreza, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recém passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as consequências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente.

Amy Goodman: Você crê que há alguma relação direta entre esses levantes e os vazamentos de Wikileaks?

Noam Chomsky: Na verdade, a questão é que Wikileaks não nos disse nada novo. Nos deu a confirmação para nossas razoáveis conjecturas.

Amy Goodman: O que acontecerá com a Jordânia?

Noam Chomsky: Na Jordânia, recém mudaram o primeiro ministro. Ele foi substituído por um ex-general que parece ser moderadamente popular, ou ao menos não é tão odiado pela população. Mas essencialmente não mudou nada.

Tradução: Katarina Peixoto

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Soltura imediata de Battisti: prisão sem objeto

Por Dalmo de Abreu Dallari

A legalidade da decisão do Presidente Lula, negando a extradição de Cesare Battisti pretendida pelo governo italiano, é inatacável. O Presidente decidiu no exercício de suas competências constitucionais, como agente da soberania brasileira e a fundamentação de sua decisão tem por base disposições expressas do tratado de extradição assinado por Brasil e Itália.

É interessante e oportuno assinalar que as reações violentas e grosseiras de membros do governo italiano, agredindo a dignidade do povo brasileiro e fugindo ao mínimo respeito que deve existir nas relações entre os Estados civilizados, comprovam o absoluto acerto da decisão do Presidente Lula.

Quanto à prisão de Battisti, que já dura quatro anos, é de fundamental importância lembrar que se trata de uma espécie de prisão preventiva. Quando o governo da Itália pediu a extradição de Battisti teve início um processo no Supremo Tribunal Federal, para que a Suprema Corte verificasse o cabimento formal do pedido e, considerando satisfeitas as formalidades legais, enviasse o caso ao Presidente da República.

Para impedir que o possível extraditando fugisse do País ou se ocultasse, obstando o cumprimento de decisão do Presidente da República, concedendo a extradição, o Presidente do Supremo Tribunal Federal determinou a prisão preventiva de Battisti, com o único objetivo de garantir a execução de eventual decisão de extraditar. Não houve qualquer outro fundamento para a prisão de Battisti, que se caracterizou, claramente, como prisão preventiva.

O Presidente da República acaba de tomar a decisão final e definitiva, negando atendimento ao pedido de extradição, tendo considerado as normas constitucionais e legais do Brasil e o tratado de extradição firmado com a Itália.

Numa decisão muito bem fundamentada, o Chefe do Executivo deixa claro que teve em consideração os pressupostos jurídicos que recomendam ou são impeditivos da extradição. Na avaliação do pedido, o Presidente da República levou em conta todo o conjunto de cirscunstâncias políticas e sociais que compõem o caso Battisti, inclusive os antecedentes do caso e a situação política atual da Itália, tendo considerado, entre outros elementos, os recentes pronunciamentos violentos e apaixonados de membros do governo da Itália com referência a Cesare Battisti. E assim, com rigoroso fundamento em disposições expressas do tratado de extradição celebrado por Brasil e Itália, concluiu que estavam presentes alguns pressupostos que recomendavam a negação do pedido de extradição. Decisão juridicamente perfeita.

Considere-se agora a prisão de Battisti. Ela foi determinada com o caráter de prisão preventiva, devendo perdurar até que o Presidente da República desse a palavra final, concedendo ou negando a extradição. E isso acaba de ocorrer, com a decisão de negar atendimento ao pedido de extradição.

Em consequência, a prisão preventiva de Cesare Battisti perdeu o objeto, não havendo qualquer fundamento jurídico para que ele continue preso. E manter alguém preso sem ter apoio em algum dispositivo jurídico é abolutamente ilegal e caracteriza extrema violência contra a pessoa humana, pois o preso está praticamente impossibilitado de exercer seus direitos fundamentais. Assim, pois, em respeito à Constituição brasileira, que define o Brasil como Estado Democrático de Direito, Cesare Battisti deve ser solto imediatamente, sem qualquer concessão aos que tentam recorrer a artifícios jurídicos formais para a imposição de sua vocação arbitrária. O direito e a justiça devem prevalecer.

Dalmo de Abreu Dallari é jurista e professor emérito da USP


domingo, 6 de fevereiro de 2011

É possível que a próxima semana as FARC-EP façam entrega unilateral de cinco prisioneiros de guerra.

Fonte: anncol.eu

A guerra continua, seguem morrendo soldados, polícias e guerrilheiros, assim como ativistas políticos, dirigentes sindicais, indígenas e defensores dos Direitos Humanos. E mais prisioneiros, alguns ganham a liberdade e outros serão presos, segundo a lógica da guerra. Necessitamos parar esse conflito para evitar mais derramamento de sangue de tantos e tantos colombianos.

A seguir o resultado dos combates do 28 de janeiro ao 04 fevereiro de 20011 segundo os meios de comunicação.

28/01: FARC atacam base militar de Anorí, estado de Antioquia.
www.caracol.com.co

31/01: Soldado profissional ficou gravemente ferido em campo minado, no estado do Huila.
www.caracol.com.co

01/02: FARC dinamitam ponte que comunica os municípios de Anorí e Campamento, no estado de Antioquia.
www. elcolombiano.com

02/02: Em menos de 24 horas houve três ataques com explosivos realizados pelas FARC no estado de Antioquia.
www.rcnradio.com

04/02 Emboscada com esplossivos entre Tame e Puerto Rondón, no estado de Arauca. Pelo meos 30 militares feridos.
www. latino.foxnews.com

O conflito colombiano leva mais de 60 anos sem que os sucessivos governos derrotem a insurgência. Todo o contrário. Em 1964 quando atacaram Marquetalia, El Pato, Riochiquito e Guayabero os integrantes da força revolucionária eram muito poucos, armados só com espingardas, revólveres, umas carabinas e pouco fuzis. Hoje, são vários milhares, bem armados que atacam diariamente às forças do governo, inspirados em um projeto político que contempla a toma do poder com e para o povo.

É possível que a próxima semana as FARC façam entrega de cinco prisioneiros de guerra que estão no seu poder. Trata-se de mais uma demonstração de sua vontade de buscar uma saída política ao conflito.

O presidente Santos, poderia aproveitar essa oportunidade para abrir as portas a um diálogo que conduza à solução política desse grave conflito.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Partido Comunista Egípcio está na luta para derrotar a ditadura.

"Revolução para a satisfação plena e inteira das reivindicações populares"

Continuaremos até vermos cumpridas as demandas populares!!!

A hora da verdade se aproxima. Chegou o momento decisivo para as forças do povo egípcio. A necessidade de derrotar o regime de Mubarak fez com que a tirania e seus mestres estrangeiros se curvassem, em resultado da revolução popular permanente e do aumento dos protestos em todas as partes do Egito.

Hoje, milhões de pessoas exigem a saída de Mubarak, dando fim às conspirações do ditador e de sua quadrilha Alhadwin, fortalecendo e elevando a revolução.

O acordo para formar um comitê recebe a confiança do povo e dos manifestantes. A confiança depositada é crucial para a conquista das demandas da revolução política, econômica e social. Para isso, enfatizamos a questão da base Amtalib, aprovada pelas forças nacionais, e defendemos o proposto no parlamento:

1. Supressão de Mubarak como presidente e a formação de um conselho presidencial para um período transitório de duração limitada.

2. Formar um governo de coalizão que assuma a gestão do país durante esse período transitório.

3. Conclamar uma assembleia constituinte, eleita, para escrever uma nova constituição, baseando-a no princípio da soberania da nação e assegurando a devolução do poder no marco de um Estado civil, democrático e justo.

4. Julgamento dos responsáveis pelas centenas de mortos, feridos, mártires revolucionários e vítima da opressão, assim como o processo judicial dos responsáveis por saquear as riquezas do povo egípcio.


Viva a Revolução! Viva o povo egípcio!

http://www.solidnet.org/index.php/egypt-egyptian-communist-party/1073-cp-of-egypt-la-revolution-se-poursuit-jusqua-la-realisation-des-revendications-populaires-fr-ar

Tradução: Maria Fernanda M. Scelza

Fonte: PCB.ORG

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Breve história sobre os prisioneiros políticos, os sequestrados do Estado colombiano


Na Colômbia, o regime mantém presas a mais de 7.500 pessoas, muitas delas sindicalistas, estudantes, professores, camponeses, sociólogos, encarcerados por seu pensamento critico e reivindicação social.

Os prisioneiros políticos sofrem reiteradas torturas por parte do Estado. Há poucos dias José Alberto Manjarres faleceu devido a seis meses de tortura por parte do Estado colombiano. Ele foi aprisionado com uma toraxcotomía ainda por sanar, seu estado de saúde piorou com as condições insalubres da prisão; sofria terríveis dores abdominais e o Estado negou-se lhe prestar assistência médica por mais de 6 meses, apesar das greves de fome feitas pelos outros prisioneiros para que se lhe desse o atendimento necessário diante seu deplorável estado de saúde, com dores horríveis e evidente perda de massa muscular.

O Estado esperou até que a situação ficasse irreversível para depois realizar os exames (seis meses de espera pelos exames adequados), após os quais resultou que já levava meses sendo devorado por câncer de estômago.

Após toda essa tortura, o Estado foi ainda mais impiedoso contra a sua maltratada humanidade: o deixou sem tratamento adequado para a dor em condições de total abandono até que, em 08 de janeiro, faleceu. Mas isso não foi tudo: depois de sua morte, o Estado ainda cometeu a crueldade de sepultá-lo como “indigente”, não notificou sua morte à família que ficou sabendo dias depois quando de uma visita do Comitê de Solidariedade com os Presos Políticos na Colômbia.


A privação de cuidados médicos como forma de tortura é recorrente contra presos políticos

Da mesma forma que J.A. Manjarres morreu, em janeiro de 2011, após as torturas ativas ou privação da saúde, morreram centenas de presos políticos nos últimos anos nas prisões colombianas: de fato, a privação da saúde é denunciada como tortura sistemática por parte do Estado colombiano contra os prisioneiros políticos; situação que deve ser urgentemente denunciada.

O testemunho de Diomedes Meneses é um caso muito representativo de repetidas torturas sofridas por presos políticos nas mãos do Estado colombiano, um Estado denunciado pela Organização Mundial Contra a Tortura como um dos mais torturadores do mundo:

http://blip.tv/file/3374604/

O Estado extirpou de Diomedes Meneses um olho e o torturou até que ficou paraplégico, além de deixar que a sua perna apodrece pela gangrena. Diomedes vive em condições de tortura permanente.

No primeiro episódio de torturas, o Exército tentou degolando-o: o deram por morto e o enviaram para o necrotério. Diomedes é um sobrevivente: foi colocado em um saco plástico, como fazem com os cadáveres (conforme fotos da imprensa); ao começar a abrir seu corpo, depois de dois dias no necrotério, o médico legista percebeu que ele está vivo: “Meu abriram do osso esterno até a pélvis (...) perceberam que estava vivo porque emanei calor, então o médico que estava fazendo o procedimento percebeu que eu estava vivo, mas os militares não queriam me deixar sair, pediram que o médico continuasse, pois eu não tinha me movido diziam, mas outro chamou os direitos humanos (...) Sofri de catalepsia, estava morto, mas na realidade estava vivo”.

“Fiquei 13 dias em coma no hospital, depois de 15 dias acordei e me levaram para o sexto andar do hospital. Após um mês e meio, o Gaula (polícia) me fez um atentado, foi antes de eu falar, eu ainda não podia falar através do tubo (aponta para a garganta); Três pessoas se infiltraram (...), um tirou uma seringa, mas o guarda chegou (...) e identificaram como da Gaula, apresentaram seus distintivos (...). O segundo atentado, foram dois homens do DAS, vestidos de eletricistas (...). Esse comandante que salvou minha vida (o guarda), já está morto, ele “caiu” de uma guarita da prisão modelo de Bucaramanga (...)”.

Diomedes está preso em condições que não são adaptados para o seu estado de saúde, consequência das múltiplas torturas:

"Estive na cela com um companheiro que sofre de câncer terminal, ele foi o que me transportava pela prisão (...), andava com um saco coletor pendurado do corpo (...) os companheiros presos políticos foram muito solidários comigo (... ) Enfiavam-me uma sonda pelo pênis a cada 6 horas para extrair minha urina (...), os companheiros presos políticos me tiravam o saco coletor e o lavavam no banheiro (...)”.

Os presos políticos são, intencionalmente, colocados em alas cheias de paramilitares, sabendo que eles podem ser assassinados:

“Venho sofrendo represálias políticas, eu não deveria estar na ala 9 (...) depois nos levaram para a ala 7 junto dos paramilitares e homens do Gaula (...) Sou roubado, me derrubam, me batem. No outro dia derrubam minha maca e cai ao chão, bati com a coluna (...), sabem das minhas limitações físicas e sabem que sou um preso político (...) Tentaram me envenenar (...) e da infecção tive diarréia, não dava tempo de pedir aos companheiros para me levar ao banheiro, pois já estava sujo (...). Da minha segurança ninguém se importa”

“Estão os 15 nomes dos que me torturaram (tiraram o olho, mutilaram minha coluna e os que me degolaram), que se faça justiça (...)”.

“Que levem em conta o meu estado físico (...) somos forçados a usar a mesma seringa (...) se você tiver dores que exigem assistência médica, te colocam em uma cela (...) Não tenho tranquilidade nem para comer com a dor tão penetrante nos ossos (...) Devido às dores passo as noites sem dormir”.

A tortura continuou com a amputação por causa da gangrena que prosperou à causa da negação da assistência médica, e com a vulnerabilidade de um paralítico em condições carcerárias inadequadas e insalubres, em constante risco de morte.


Urge a solidariedade internacional

Urge fazer conhecer essa realidade invisível da existência de milhares de prisioneiros políticos na Colômbia e suas terríveis condições carcerárias. E é urgente que a comunidade internacional se mobilize para denunciar a prática de tortura contra os presos políticos. Assim como as milhares de armações judiciais que sofrem as organizações sociais e os ativistas dos direitos humanos, sindicais e sociais, sob os quais são encarcerados, com “provas” apresentadas por autoridades militares e informantes paramilitares.

http://agenciapensamientocritico.blogspot.com/2011/01/video-7500-presos-politicos-del-regimen_3583.html


NOTAS:

(1) Existe uma Campanha internacional 2009-2011 pela libertação dos presos políticos na Colômbia. São 7.500, na sua maioria prisioneiros de opinião e ativistas sociais. Muitos deles aprisionados após medonhas armações judiciais. A associações e pessoas de todo o mundo que queiram apoiar a campanha pela libertação dos presos políticos na Colômbia, podem fazê-lo assinando aqui:

http://www.tlaxcala.es/detail_campagne.asp?lg=es&ref_campagne=14&nbsp

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Dia da paz para a Colômbia

Javier Orozco Peñaranda
Fonte: Rebelión.org


O Dia da Paz convida para ver as possibilidades da Colômbia para superar seu conflito social e armado de meio século de evolução. É melhor fazê-lo novamente a partir das Astúrias, pois falar de paz na Colômbia é perigoso. As elites a consideram uma idéia dos terroristas e pode custar a prisão ou a morte. Entretanto, não há outro caminho do que a paz, vistos o horror cotidiano e os enormes custos – humanos e econômicos – de uma guerra cada vez mais intensa e inútil.

O Plano Colômbia não atingiu os seus objetivos. Muitos milhões de dólares em armas de ultima tecnologia, milhares de consultores estrangeiros e meio milhão de soldados profissionais não conseguiram acabar com as guerrilhas e são muito caros para um povo empobrecido que na sua maioria não ganha dois dólares por dia, mas que é endividado e explorado para pagar mais de 50 bilhões de dólares que tem custado para manter nos últimos anos semelhante posição de força.

Após muitos anos de guerra o tempo está se esgotando para a nossa terra, que entrou em um estágio avançado e agudo do conflito. A guerrilha, que se tem refugiado nas fronteiras e em áreas de densa floresta, está golpeada, mas não derrotada. Para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, na Colômbia, a guerrilha “adaptou-se de forma dinâmica à situação e mais uma vez tem a capacidade de ser um ator importante no conflito armado”. Os narcotraficantes penetraram o Estado e colocaram peças chave nos principais cargos públicos. Ao mesmo tempo, a crise de direitos humanos se aprofundou, as massacres, ameaças, assassinatos, desaparecimentos e deslocamentos forçados.

O plano de guerra concebidos nos EUA serviu para o lucro dos seus fabricantes de armas e para que alguns empresários e chefões da máfia se apoderassem, com violência e gratuitamente, das terras dos camponeses, dos povos indígenas e dos afrocolombianos, e para aniquilar sindicalistas e opositores da guerra. Serviu também para que a Colômbia seja hoje um dos três países da América em que a desigualdade econômica aumentou, assim como na Guatemala e República Dominicana.

A população colombiana está cansada da guerra e é alto o custo político elevado para as partes. As guerrilhas estão perdendo apoio social por causa dos sequestros e a tomada de reféns, e a força pública pelos graves atropelos que diariamente são cometidos contra a população civil, como as execuções extrajudiciais de mais de duas mil pessoas em menos de dois anos, sendo Ministro da Defesa o atual Presidente Juan Manuel Santos Calderón.

O novo governo também não parece disposto a investir na paz e continua com a velha e inútil exigência de rendição das guerrilhas como condição prévia para uma negociação. Enquanto isso, incrementa o orçamento para a guerra e o número de profissionais dedicados a ela, transformando o Ministério da Defesa no maior empregador do país. No entanto, os fatos mais notórios são que a guerra vem deixando de ser funcional para o acumulo de capital e que, apesar do risco, os setores sociais mais organizados ainda exigem diálogo e negociação política.

Aí aparecem os obstáculos. A desconfiança entre as partes, a incidência do narcotráfico nas dinâmicas da guerra, a perda do comando centralizado na guerrilha, a ingerência dos EUA e sua crescente presença militar, e os interesses daqueles que fazem da guerra um meio eficaz para incrementar os lucros. Mas, acima de tudo, contra a aspiração de paz conspira a impunidade em que ficam as graves violações dos direitos humanos e a comprovação histórica de que na Colômbia, as terras e os bens acumulados por meio da violência passam a ser propriedade indiscutível dos usurpadores, com o qual estaria semeado o seguinte ciclo de violência.

O presidente Juan Manuel Santos diz que não jogou no mar as chaves para a paz, mas insiste, como Álvaro Uribe, em manter como única presença do Estado nas regiões a dos uniformes e armas oficiais. Mas isso, em meio ao abandono e miséria absoluta do povo, tem limite.

O desafio dos colombianos é fazer com que as partes dialoguem e abordem as agendas que dão prioridade à paz, já previstas há quase vinte anos. Bruno Moro, do PNUD, tem razão ao afirmar que a paz na Colômbia não é o silêncio das fuzis. Necessita-se de reformas que tragam equidade e justiça social. Urge criar espaços de cultura de paz, pois por fim ao conflito sem eliminar suas causas materiais e culturais, pode trazer o paradoxo de haja mais mortes depois da guerra do que durante ela, como tem se visto em alguns países da América Central.

A comunidade internacional, que está deixando sozinhos àqueles que lutam pela paz na Colômbia, pode assumir a verdade tangível de que este país não está na etapa de pós conflito. A Europa e a Espanha podem se comprometer com uma agenda na qual a paz e os direitos humanos sejam a espinha dorsal da agenda bilateral, até agora relegados pelos interesses econômicos.

A paz da Colômbia é possível e necessária, é a paz da América do Sul. A libertação unilateral pelas FARC de um grupo de pessoas nos próximos dias é um gesto que deve ser valorizado para encontrar soluções para esta guerra sem fim.


(*) Javier Orozco Peñaranda é sindicalista, membro do Coletivo de Colombianos/as Refugiados nas Asturias “Luciano Romero Molina”.


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Por que temer o espírito revolucionário árabe?

A reação ocidental aos levantes no Egito e na Tunísia frequentemente demonstra hipocrisia e cinismo. A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente". O artigo é de Slavoj Zizek.

O que não pode deixar de saltar aos olhos nas revoltas Tunísia e Egito é a notável ausência do fundamentalismo islâmico. Na melhor tradição democrática secular, as pessoas simplesmente se revoltaram contra um regime opressivo, sua corrupção e pobreza, e demandaram liberdade e esperança econômica. A sabedoria cínica dos liberais ocidentais - de acordo com os quais, nos países árabes, o genuíno senso democrático é limitado a estreitas elites liberais enquanto que a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo - se provou errada.

Quando um novo governo provisório foi nomeado na Tunísia, ele excluiu os islâmicos e a esquerda mais radical. A reação dos liberais presunçosos foi: bom, eles são basicamente a mesma coisa; dois extremos totalitários - mas as coisas são simples assim? O verdadeiro antagonismo de longa data não é precisamente entre islâmicos e a esquerda? Ainda que eles estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que se aproximam da vitória, a sua unidade se parte e eles se engajam numa luta mortal, frequentemente mais cruel do que aquela travada contra o inimigo comum.

Nós não testemunhamos precisamente tal luta depois das eleições no Irã? As centenas de milhares de apoiadores de Mousavi lutavam pelo sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Ainda que esse sonho tenha sido utópico, ele levou a uma explosão de criatividade política e social de tirar o fôlego, experiências de organização e debates entre estudantes e pessoas comuns. Essa abertura genuína, que liberou forças de transformação social então desconhecidas, um momento no qual tudo pareceu possível, foi então gradualmente sufocada pela dominação do controle político e do establishment islâmico.

Mesmo no caso de movimentos claramente fundamentalistas, é preciso ser cuidadoso para não perder de vista o componente social. O Talibã é usualmente apresentado como um grupo fundamentalista islâmico que impõe suas leis pelo terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale de Swat no Paquistão, o The New York Times noticiou que eles arquitetaram "uma revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos donos de terra e seus inquilinos desprovidos de um chão". Se, ao "se aproveitar" dos apuros dos agricultores, o Talibã estava criando, nas palavras do New York Times, "um alerta sobre os riscos ao Paquistão, que permanece sendo largamente feudal", o quê impediu os democratas liberais do Paquistão e dos Estados Unidos de, da mesma forma, "se aproveitarem" desses apuros e de tentarem ajudar os agricultores sem terra? Ocorre de as forças feudais no Paquistão serem aliados naturais da democracia liberal?

A conclusão inevitável a ser delineada é que a ascensão do islamismo radical sempre foi o outro lado do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como sendo o exemplo máximo de um país fundamentalista islâmico, quem ainda se lembra que, há quarenta anos atrás, ele era um país com uma forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que havia tomado o poder lá sem dependência da União Soviética? Para onde essa tradição secular foi?

É crucial analisar os eventos em andamento na Tunísia e no Egito (e no Iémen e ... talvez, com esperança, até na Arábia Saudita) em contraste com esse pano de fundo. Se a situação for eventualmente estabilizada de modo ao antigo regime sobreviver, apenas passando por alguma cirurgia cosmética liberal, isso irá gerar um intransponível retrocesso fundamentalista. Para que o legado chave do liberalismo sobreviva, os liberais precisam da ajuda fraternal da esquerda radical. De volta ao Egito, a mais vergonhosa e perigosamente oportunista reação foi aquela de Tony Blair noticiada na CNN: mudança se necessário, mas deverá ser uma mudança estável. Mudança estável no Egito, hoje, só pode significar um compromisso com as forças de Mubarak na forma de ligeiramente alargar o círculo do poder. Este é o motivo pelo qual é uma obscenidade falar em transição pacífica agora: pelo esmagamento da oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois de Mubarak enviar o exército contra os protestantes, a escolha se tornou clara: ou uma mudança cosmética na qual alguma coisa muda para que tudo continue na mesma, ou uma verdadeira ruptura.

Aqui, portanto, é o momento da verdade: ninguém pode arguir, como no caso da Argélia uma década atrás, que permitir eleições verdadeiramente livres equivale a entregar o poder para fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é de que não existe poder político organizado para tomar o poder caso Mubarak parta. É claro que não existe; Mubarak se assegurou disso ao reduzir a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado acaba sendo como o título do famoso romance de Agatha Christie, "E Então Não Havia Ninguém". O argumento de Mubarak - é ele ou o caos - é um argumento contra ele.

A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente".

Para onde, então, Mubarak deve ir? Aqui, a resposta também é clara: para Haia. Se existe um líder que merece sentar lá, é ele.

(*) Nota do Tradutor: o título original do livro de Agatha Christie é "And Then There Were None", conhecido aqui no Brasil como "O Caso dos Dez Negrinhos".

Referências feitas pelo autor:
http://www.guardian.co.uk/world/2010/feb/02/iran-mousavi-dictatorship-khameini-protests

http://www.nytimes.com/2009/04/17/world/asia/17pstan.html?_r=1

Fonte: http://www.guardian.co.uk

Traduzido por Henrique Abel para o Diário Liberdade.