"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Documentário dá voz às reais vítimas da guerra civil na Colômbia

“Ele tinha 12 anos... Quando cheguei ao lugar onde tinha sido morto, vi que haviam cortado sua cabeça. Como ninguém chegou para nos ajudar – polícia ou exército –, decidi carregar seu pequeno corpo nos meus braços até nossa casa, enquanto minha mãe segurou sua cabeça. Coloquei-o deitado em sua cama, até que os soldados chegaram e o levaram... Ele tinha 12 anos.”


Logo na primeira cena do documentário Impunidade, em cartaz na 16ª edição do festival brasileiro “É Tudo Verdade”, os diretores Juan Jose Lozano e Holmann Morris dão o tom dessa produção franco-colombiana: uma denúncia sem atenuantes de um dos mais antigos conflitos em curso no mundo, a guerra civil na Colômbia. Usando um tom quase didático, seguindo uma bem desenhada cronologia, Lozano e Morris tentam explicar o que levou um país inteiro a se tornar refém da violência há mais de 30 anos.

O caminho para a compreensão está na origem desse confronto armado, com o embate direto no final dos anos 1960 entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – cuja criação foi inspirada no sucesso da revolução cubana – e as milícias paramilitares, criadas a partir de 1968 sob incentivo de uma lei nacional. Anos de combate nas selvas se seguiram.

Com o tempo e já com a lei revogada, os diversos grupos de paramilitares juntaram-se e fundaram, em 1997, as AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), cujo objetivo permanecia sendo a extinção das FARC. No entanto, como explica o documentário, sem qualquer controle do governo colombiano, os grupos passaram a aproveitar sua infraestrutura e armamento para lucrar com o tráfico de drogas e promover o deslocamento forçado de milhares de cidadãos de áreas produtivas, a pedido de grandes latifundiários e políticos. Resultado: milhares de mortos e desaparecidos, em sua grande maioria, camponeses humildes.

Após essa introdução, Lozano e Morris partem para junho de 2005, quando o governo de Álvaro Uribe assina a polêmica Lei de Justiça e Paz. A finalidade da legislação era dar suporte jurídico ao processo de paz com as AUC. Porém, o ato simbólico de entrega das armas foi acompanhado por uma série de condições claramente produzidas para poupar os acusados da justiça. Foram estabelecidas penas de 5 a 8 anos para autores de massacres e sequestros desde que tivessem confessado ou colaborado com as autoridades e a possibilidade de cumprir as penas em prisões agrícolas, dentre outras regalias.

Além disso, foi criado o Tribunal de Justiça e Paz, com a imediata abertura de milhares de processos contra membros de grupos paramilitares. Nas audiências, como mostra o filme, os réus permaneciam em salas protegidas, enquanto as famílias das vítimas, em auditórios, de onde questionavam os agressores por meio de telefones celulares.

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A cada pergunta, como “onde está meu irmão?”, ou “por que meu pai foi assassinado com um machado?”, se seguem respostas vazias: “Não sei. Iremos investigar o que aconteceu”. Aos poucos, a paciência das famílias acaba, assim como a esperança de encontrar uma explicação para o horror. A conclusão geral é a de que os poucos que chegaram aos tribunais – somente 600 dos 3,6 mil acusados – nunca receberão a punição correta.

Essa constatação se torna ainda mais forte quando, em 2010, os principais líderes dos paramilitares são extraditados para os Estados Unidos pelo governo Uribe, sob a justificativa de que lá pesavam sobre eles acusações por tráfico de drogas. Verdadeiros arquivos vivos saem do alcance da justiça colombiana e mais uma vez as vítimas se vêem sem respostas. É inevitável pensar que o ponto final para essas famílias está muito longe de ser alcançado.

Ao longo da produção, ganhadora de dezenas de prêmios internacionais, são repetidas duas frases que resumem o sentimento das vítimas do conflito colombiano, considerado um dos mais longos da América Latina.

Quantos mortos? Quantos desaparecidos?

Nunca saberemos.



(Marina Terra)



Com apoio de Opera Mundi

domingo, 10 de abril de 2011

Peru: com slogan 'a esperança vai vencer o medo', Humala tenta repetir o Lula de 2002

Imediatamente após uma pesquisa mostrar que o candidato da coalizão de esquerda Ganha Peru liderava as intenções de voto para as eleições peruanas, a Bolsa de Valores de Lima caiu mais de 5%. O temor expressado pelo mercado com a dianteira de Ollanta Humala Tasso, 48 anos, é semelhante ao verificado em eleições em outros países latino-americanos, como a do ex-presidente Lula.

E as incertezas da elite econômica no Peru com Humala não são a únicas semelhanças com a eleição brasileira em 2002: com um discurso mais leve e endereçado aos mais pobres, Humala parece ter eliminado a imagem de radical e conquistado um eleitorado fiel. O candidato inclusive divulgou o documento “Compromisso com o Povo Peruano”, nos moldes da “Carta ao Povo Brasileiro” de Lula. Nele, falou o que os investidores queriam ouvir.

Humala prometeu mudanças sem afetar a estabilidade econômica e política, propondo um “pacto político” entre todas as forças do país para “consolidar o crescimento e distribuir a riqueza no país”. De fato, não nega o crescimento registrado no Peru nos últimos anos – só em janeiro a economia cresceu 10,2% –, mas critica a concentração de renda. Humala garante ainda que “as decisões do Banco Central serão independentes e que não defenderá a volta de reeleições consecutivas”.

A posição é oposta à apresentada em 2006, quando perdeu no segundo turno para o atual presidente, Alan García. Naquela ocasião, o esquerdista propunha a estatização da economia e a revisão de acordos econômicos já assinados. O neoliberal García ganhou com 52,6% dos votos – Humala teve 47,375 %.

A mudança também aconteceu no visual: Humala já não veste vermelho e sim, branco, ou trajes formais, a exemplo dos ex-presidentes García e Toledo. Tampouco atacou verbalmente nenhum dos candidatos, apesar de o slogan “a esperança vai vencer o medo” ser exaustivamente repetido em seus comícios.

Frente à tentativa da imprensa e dos concorrentes de atrelá-lo ao presidente venezuelano, Hugo Chávez, negou qualquer ligação com o líder da Venezuela, de passado militar como Humala. Em 2006, Chávez o apoiou explicitamente, inclusive liderando comícios em praça pública.

"Votarei em Humala não por ser militante, mas pelas reação contrária de certos setores, como o de comunicação, à sua candidatura. Em 2006, votei nele pelo mesmo motivo. Além disso, é o único que irá investigar o governo García, o que seria uma importante mensagem contra a corrupção e a cultura da impunidade. Porém, não entendo quando diz que não está com Chávez ", disse ao Opera Mundi o eleitor Luis Ancajima , 41 anos, estudante de Filosofia.

O eleitorado de Humala se concentra entre as camadas mais humildes da sociedade peruana, conforme mostra uma pesquisa do instituto Ipsos Apoyo. Trinta e um porcento da classe E, a mais pobre, vota no candidato, assim como 33% da classe D. Somente 6% da classe A escolherá Humala no próximo domingo.

Obstáculos para Humala

De acordo com a socióloga peruana Paula Muñoz, da Universidade de Austin, em 2006 Humala teve apoio “nas províncias [estados] abandonadas pelo modelo econômico”, e também onde “as políticas neoliberais tiveram benefícios”. No entanto, como verificado nas eleições daquele ano, a forte campanha dos meios de comunicação foi um dos motivos para a derrota para García. Nessa eleição, Humala espera amortecer a forte rejeição des setores como esse.

O candidato do Ganha Peru ainda tem três temas controversos em sua trajetória como militar. Uma denúncia por violação dos direitos humanos durante o combate ao Sendero Luminoso em 1992; a convocação de uma rebelião militar – ao lado do irmão, Antauro – no quartel de Locumba em 2000 no dia em que Vladimiro Montesinos, ex-assessor Fujimori fugiu do Peru e o levante popular convocado por Antauro na virada do ano de 2005, que resultou na morte de seis pessoas, sendo duas delas policiais. Durante esse motim, Humala atuava na Coreia do Sul, após ocupar posto similar na França, durante o governo Toledo.

Giovanna Peñaflor, diretora do instituto de pesquisas Imasen e analista política, insiste que o fato de ser militar reflete de forma positiva e negativa sobre Humala, porque o eleitor pode o enxergar como “uma pessoa que conhece o país, além de transmitir força e caráter”, mas também pode significar “autoritarismo.”

“Nesse momento, o lado positivo se destaca. Ele é o único candidato que aparece em público com a esposa e os filhos, sendo que um deles é recém-nascido. Sua imagem foi suavizada aos olhos dos eleitores”, explicou a analista política ao Opera Mundi. Além disso, o perfil político teve papel na aceitação de Humala. “Antes ele representava a esquerda radical, agora é uma esquerda moderada”, concluiu Giovanna.

O sociólogo peruano Julio Cotler concorda com a diretora do Imasen. “Ele se deu conta que com extremismo, não vai ganhar. O Peru não passa por um momento de grande dificuldade, que poderia beneficiar um extremista. Humala também entendeu que não bastava mudar a imagem, mas todas as propostas.”

Para o politólogo peruano Alberto Vergara, em entrevista a uma emissora local, “Humala conseguiu se afastar da imagem de militar e jogou com a carta da moderação, ao se aproximar de setores como a Igreja. Desmitificar o autoritário militar lhe rendeu resultados”.

De acordo com todas as pesquisas de intenção de voto, Humala deve passar para o segundo turno em primeiro lugar, um feito inimaginável no começo da campanha. Neste domingo (03/04), três institutos consolidaram a tendência de crescimento e liderança. O Ipsos Apoyo o coloca com 27,2%, seguido por Keiko Fujimori (20,5%), Toledo (18,5%), Pedro Pablo Kuczynski (18,1%) e Luis Castañeda Lossio (12,8%), ex-prefeito de Lima.

Resta saber quem será seu adversário em 5 de junho.

PERU VAI ÀS URNAS ACERTAR CONTAS COM O NEOLIBERALISMO

Pesquisas de intenção de voto para as eleições deste domingo no Peru, indicam que o presidenciável de centro-esquerda, Hollanta Humala, mantem-se na dianteira e em ascensão, tendo passado de 28% para 31,9% nas preferencias dos peruanos nos últimos dias.

Ainda assim, não deve atingir maioria para evitar um segundo escrutínio quando enfrentará uma coalizão de direita cujo candidato permanece indefinido com um quase empate entre Alejandro Toledo, Pablo Kuczynski e Keiko Fujimori. 24 horas antes do pleito, o partido do presidente Alan García, outrora combativo APRA, fundado por Haya de la Torre, dobrou a aposta à direita, declarando apoio ao candidato e ex-banqueiro de Wall Street, Pedro Pablo Kuczynski.

Os peruanos, ao contrário, parecem dispostos a retificar o rumo geopolítico do país. Nos últimos anos, quando toda a América Latina transitou à esquerda, o Peru aliou-se à Colômbia de Álvaro Uribe, assinou tratados de livre comércio com os EUA, fez um mergulho anacrônico no missal do neoliberalismo e declarou guerra à Venezuela de Chávez.

A genuflexão ao 'livre mercadismo' consolidou o país como grande exportador de farinha de peixe, prata e cobre. Uma parcela da sociedade ascendeu com as cotações das commodities, mas isso não se traduziu em saldo equivalente de desenvolvimento, empregos e redução significativa da pobreza que penaliza sobretudo os indigenas.

O governo do Presidente Alan García já foi julgado antes do veredito das urnas: García, outro caso de conversão direitista, termina o mandato com uma taxa de rejeição superior a 60%.

(Carta Maior; Domingo, 10/04/2011)

sábado, 9 de abril de 2011

Colômbia: Falsas desmobilizações foram forjadas entre narcotraficantes e o Governo




“Até mesmo motoqueiros de mototaxi e empregadas domésticas foram apresentados como “paramilitares desmobilizados”


O paramilitar conhecido como “Alemão”, disse que a "falsa desmobilização" foi organizada pelo governo e os narcotraficantes, entre eles Diego Murillo, vulgo Don Berna, para “legalizar” a varias pessoas procuradas pela justiça e para “mostrar resultados” da desmobilização.

O líder paramilitar conhecido como “El Tuso” disse que o desarmamento dos 2033 paramilitares do Bloco Cacique Nutibara foi uma montagem e cuja desmobilização, segundo o “Alemão”, foi uma farsa. Disse também que “no caso do Bloco Heróis de Granada, todos os ladrões e indígenas do centro da cidade foram recolhidos para fazê-los passar por desmobilizados”, denunciou “El Tuso”.


Pelo menos cinco operações de desmobilização foram montagens

O Estado colombiano inventou a história das "desmobilizações" paramilitares para enganar e continuar massacrando. Essa é a famosa desmobilização dos paramilitares que o governo colombiano alardeia: tudo falso. Esquemas pagos com dinheiro público, tudo para lavar a imagem do governo em uma grande operação mediática para mostrar que “já não há grupos paramilitares na Colômbia”, quando em 2011 estes continuam massacrando diariamente: basta ler as denuncias das comunidades para constatar que os massacres aumentaram 40%, segundo um relatório de 2011.

O paramilitar é o instrumento do Estado e das multinacionais para desalojar a população e calar a reivindicação social.


Mentiras, montagens e genocídio em 4 atos: a sangrenta Hollywood do Estado colombiano

1. Soubemos que o Estado tinha pago indigentes, recrutados por paramilitares e narcotraficantes, treinando-os em um mês, e os tinha mostrado como “um bloco das FARC que se desmobilizara”, era a história do inventado “Bloco Cacique Gaitana” que supostamente tinha entregue um avião. As FARC desmentiram: nunca existiu um bloco com esse nome, não existe tal desmobilização, nem o avião. Mas a propaganda do Estado fez o seu show, e os 66 atores indigentes disfarçados de guerrilheiros disseram ao mundo “como é horrível estar nas FARC” e é por isso estavam se desmobilizando.

2. Foi o líder paramilitar vulgo “Alemão” que começou a relatar as falsas desmobilizações paramilitares: os milhares de paramilitares que supostamente foram desmobilizados pelo governo colombiano, não eram paramilitares!

O “Alemão” disse que “a falsa desmobilização” foi organizada pelo governo e os narcotraficantes, entre as quais Diego Murillo, conhecido como Don Berna, para “legalizar” a varias pessoas procuradas pela justiça e para “mostrar resultados” da desmobilização. Segundo o governo colombiano, quase 32 mil paramilitares foram desmobilizados. Entretanto, o “Alemão” disse que o governo deve explicar porquê se afirma que quase 32 mil paramilitares foram desmobilizados se o total do efetivo das AUC era de cerca de 16.000 integrantes. Rendón disse que é impossível que a força pública não soubesse que em Medellín não existia nenhum Bloco chamado Cacique Nutibara, e que foi um bloco inventado que fingiu se desmobilizar em uma cerimônia pública: eram 2.033 “falsos paramilitares”. (1)

Mais uma vez, o Estado e os narcotraficantes, juntamente com paramilitares, planejaram a armadilha: tratava-se de fingir desmobilizações para fazer crer que existe um “pós-conflito” na Colômbia, enquanto a ferramenta paramilitar continua ativa consolidando os interesses do grande capital, deslocando as populações de áreas desejadas pelas multinacionais da mineração, do setor agroindustrial e assassinando opositores, sindicalistas e estudantes.

Outros líderes paramilitares juntaram-se na denúncia, incluindo vulgo “El Tuso”, e o paramilitar Hernán Sierra conhecido como “Alberto Guerrero”, que tem ventilado dezenas de nomes de políticos, empresários, narcotraficantes, todos “trabalhando juntos” nas manobras. O ex-Comissário de Paz do governo colombiano teria sido um dos arquitetos das mentiras e montagens descomunais, segundo dizem os chefes paramilitares.

3.Y agora mais revelações: “El Tuso”, em juízo, fala da falsa desmobilização paramilitar. Março de 2011 vem carregado de revelações de mentiras do Estado colombiano: "até motoqueiros de mototaxi foram apresentados como paramilitares desmobilizados”.

Até a imaginação de García Márquez fica reduzida a nada diante das mentiras do Estado colombiano: seria engraçado se o genocídio que isto encobre não fosse tão grave...

4. O genocídio pode continuar. Agora só falta dar uma “explicação” de por quê continuam os massacres paramilitares: dirão que já não são mais os paramilitares. Agora, a versão que se pretende impor desde o Estado e seus aparelhos de propaganda, é que são "BACRIM" ou bandos criminosos. Tudo isso para confundir: é já havia muita conscientização sobre a relação entre os paramilitares e a força pública, o mundo começava a relacioná-los muito com o que são: uma ferramenta estatal de desapropriação em benefício do grande capital. Era necessário retocar a maquiagem para perpetuar a impunidade estatal e continuar “a abertura do país” às multinacionais da extração e do agronegócio. É que para o grande capital convêm ter uma ferramenta para calar aqueles que se opõem à pilhagem e seu empobrecimento correlativo; e para deslocar as populações de áreas de alto interesse econômico.

A Colômbia é um país em que a guerra suja exercida pelo exército oficial e sua ferramenta paramilitar diretamente contra a população civil já causaram até agora 4,9milhões de pessoas deslocadas de suas terras, fazendo da Colômbia o país com mais deslocados internos do mundo junto do Sudão (Relatório de novembro de 2010 - CODHES). Esta guerra para deslocar população se exerce diretamente contra a população civil, que após horrendos massacres se desloca para salvar a vida.

Há tantas vítimas civis porque há uma guerra desatada contra elas: não porque sejam “vitimas do fogo cruzado”, como diz a falsa mídia para esconder a guerra dirigida contra os civis.

Na Colômbia, a situação da repressão é impressionante: 7.500 presos políticos, e um número de desaparecidos que supera a estarrecedora cifra das ditaduras da Argentina e Chile juntas. Do crime de Estado de desaparecimento forçado na Colômbia existem pesquisas que variam: o Estado reconhece 51.000 desaparecidos, os parentes das vitimas afirmam ser 250.000 desaparecidos, segundo denuncia de Piedad Córdoba, em 2010, e como se pode deduzir dos relatórios oficiais das diferentes entidades.

O Departamento de Medicina Legal, em fevereiro de 2010, publicou um relatório que, em apenas três anos, 38.255 pessoas foram vitimas do desaparecimento forçado. Em Janeiro de 2011, a Procuradoria publicou um relatório dramático: existem documentados 34.467 desaparecimentos forçados, 173.183 assassinatos, entre outros crimes cometidos entre Junho de 2005 e 31 dezembro de 2010 pela ferramenta paramilitar. Essa é a verdadeira face da ferramenta paramilitar: desaparecimentos forçados, massacres, homicídios, terror para silenciar a reivindicação.

Negócios são negócios.


NOTAS:
(1) http://www.jornada.unam.mx/2011/03/08/index.php? Secção =Mundo & article = 023n2mun

Tremendo mau cheiro

Poe Izaías Almada*

Referindo-se a uma quase que inexistente militância da coligação PSDB/DEM/PPS, essa que se transformou na fina flor do atual conservadorismo brasileiro, a jornalista Eliana Catanhede fez, durante a última campanha eleitoral, uma citação auto-elogiosa aos “quadros” que comporiam o tal exército de Brancaleone. Denominou-os de “massa cheirosa”, com a evidente intenção de – por oposição – considerar os eleitores de Dilma e apoiadores do presidente Lula como a massa mal cheirosa da periferia e dos rincões mais distantes do país. O então general presidente João Batista Figueiredo afirmou, já no último governo da ditadura, que preferia o cheiro das estrebarias ao cheiro do povo.

Tais afirmações, a da jornalista e a do general, enquadram-se perfeitamente no discurso raivoso e preconceituoso que caracteriza uma parcela da sociedade brasileira. Antes, durante e depois do regime ditatorial de 64.

A recente campanha oposicionista do candidato José Serra fala por si. Inúmeras foram as demonstrações de intolerância, os arremedos de violência, as mentiras e os factóides diários sustentados por uma imprensa, em sua maioria, defensora de uma candidatura que nasceu morta, mas que era preciso se oxigenar com o que estivesse mais à mão. Com a agravante de que o candidato já se disse em outros tempos um homem de esquerda e progressista. Em outras circunstâncias, é claro...

Os panfletos sobre o aborto, as agressões ao passado guerrilheiro da candidata Dilma Roussef, as idiotices e inverdades repetidas por artistas de telenovelas e programas de humorismo duvidoso, invasões de missas, religiosidade de última hora, uma ridícula bolinha de papel transformada em míssil, uma campanha suja e violenta pela internet, onde predominava o irracional e o mau português, e um candidato – ao contrário do que pregava – completamente despreparado para o exercício da presidência, tudo isso acabou por criar um caldo de cultura muito próprio ao jeito fascista de fazer política. A cultura da violência.

Enquanto a nova política de resgatar o país de mazelas seculares procura avançar com rapidez, passando ao largo de vaidades e incompetências, muitas delas acadêmicas e voltadas para a satisfação de uma pequena parcela da sociedade, políticos formados na velha escola republicana e temperados pelas benesses de uma ditadura que durou 21 anos, ainda insistem em dividir o país em novas capitanias hereditárias, espalhando o preconceito e a discriminação entre brasileiros. Ao perceberem que a realidade do país começa a não responder mais diretamente aos seus interesses, tais esbirros – usando ainda o monopólio do curral mediático, onde são proprietários e beneficiários ao mesmo tempo – passaram a apostar mais pesado no ‘quanto pior, melhor’.

Seria bom não nos deixarmos iludir por uma democracia que continua parcialmente tutelada e que, apesar dos avanços institucionais, ainda não ultrapassou algumas provas de fogo, tais como o efetivo combate à corrupção ou à impunidade de alguns figurões da república. Ou à punição de torturadores de crimes políticos e comuns, de quem pouco se fala. Não conseguiu uma reforma política que merecesse esse nome, uma reforma fiscal, uma reforma do Judiciário.

No momento, tudo parece indicar uma pausa temporária, estratégica, por parte da velha mídia, quando se espera que as águas da eleição e da posse do novo governo se acalmem. A elite política e econômica brasileira é sempre perigosa, sorrateira. A sorte do país, para além de algumas políticas acertadas do governo Lula nos últimos oito anos, é que a oposição emburreceu, assim como jornalistas e analistas do “ancien regime”. Chega a ser patética a cena mostrada em vídeo nos últimos dias, na qual FHC pede a Serra para agradecer alguns elogios do governador Alckmin no seu discurso de posse.

O mito do brasileiro cordial, de índole pacífica é uma falácia que continuamos carregando para apaziguar nossas consciências. Sempre que precisou, a elite brasileira foi violenta, sabendo cooptar aqueles de que necessita para o serviço sujo, incluindo-se aqui amplos setores da classe média também. Os exemplos da Guerra do Paraguai, do último bastião escravista até a Lei Áurea, do Estado Novo, da ditadura civil/militar de 64/68, do trabalho escravo de adultos e crianças, dos matadores de aluguel, dos esquadrões da morte e das atuais milícias urbanas, da violência contra a mulher, do preconceito contra nordestinos, do uso da tortura contra prisioneiros políticos ou comuns, da impunidade contra o crime de colarinho branco e outras mazelas do gênero, deixam muito a desejar sobre esse tão decantado espírito cordial e conciliador.

E é justamente por isso que não podemos desprezar o abominável e recente episódio das inúmeras manifestações de cidadãos brasileiros em suas sintéticas mensagens pelo twitter ao desejarem um atentado contra a presidenta Dilma Roussef no dia da sua posse. Qual o significado daquelas mensagens para além da sua linguagem crua e repetitiva, mas de conteúdo criminoso e ideologicamente condenável? Uma manifestação covarde de adolescentes sem o que fazer? Refletiam um pensamento próprio ou reproduziam opiniões ouvidas em casa, nos escritórios ou escolas? Espontânea ou induzida? O que levou tais pessoas a manifestarem esse desejo?

As cascas de banana e a intriga grosseira começam a tomar algumas manchetes jornalísticas na indisfarçável tentativa de criar embaraços a um governo que mal começou. O PMDB se tornará mais uma vez o ‘fiel da balança’ de um sistema partidário viciado, ineficiente, sensivelmente corrupto em muitos dos seus integrantes, muitas vezes dissonante em relação a antigos e insolúveis problemas brasileiros.

A campanha da presidenta Dilma Roussef prometeu avanço em várias áreas conquistadas no governo do presidente Lula. E seria bom que nos seus 100 primeiros dias de governo, essas promessas começassem a ser reconhecidas pelo povo brasileiro. Caso contrário, o tiro pode sair pela culatra. E o mau cheiro do fascismo deixar os rincões conservadores e preconceituosos, por onde transita com relativa liberdade e travestido de massa cheirosa, e começar a se espalhar por toda a sociedade brasileira.

Presidenta Dilma: olho vivo e, se for preciso, corte o mal pela raiz, já diz a sabedoria popular. Enquanto sentir firmeza, o povo estará ao seu lado. Caso contrário, o país corre o risco do retrocesso. O fascismo se alimenta da inveja, da frustração e usa da mentira e da violência para atingir seus objetivos. Nunca é cedo demais para essas reflexões.


* Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.

O 18 de Brumário de Luis Bonaparte

Décimo volume da coleção Marx-Engels traz origens do pensamento de Marx. "O 18 de brumário de Luís Bonaparte" traz a célebre análise de Karl Marx sobre o processo que levou da Revolução de 1848 para o golpe de Estado de 1851 na França. No livro, o filósofo desenvolve o estudo do papel da luta de classes como força motriz da história e aprofunda a teoria do Estado, sustentando que todas as revoluções burguesas apenas aperfeiçoaram a máquina estatal para oprimir as classes. Embasado por essa observação, Marx propõe, pela primeira vez, a tese de que o proletariado não deve assumir o aparato existente, mas desmanchá-lo.

Redação

Décimo título da coleção Marx-Engels da Boitempo Editorial, O 18 de brumário de Luís Bonaparte traz a célebre análise de Karl Marx sobre o processo que levou da Revolução de 1848 para o golpe de Estado de 1851 na França. Escrito no calor dos fatos, entre dezembro de 1851 e fevereiro de 1852, teve sua primeira publicação em maio de 1852, com o título Der 18te Brumaire des Louis Napoleon, na estreia da revista alemã Die Revolution. A tradução brasileira tem por base a segunda edição, revisada por Marx em 1869, em Hamburgo.

Nesse texto fundamental, o filósofo desenvolve o estudo do papel da luta de classes como força motriz da história e aprofunda a teoria do Estado, sobretudo demonstrando que todas as revoluções burguesas apenas aperfeiçoaram a máquina estatal para oprimir as classes. Embasado por essa observação, Marx propõe, pela primeira vez, a tese de que o proletariado não deve assumir o aparato existente, mas desmanchá-lo.

A publicação de O 18 de brumário de Luís Bonaparte é também enriquecida com um texto de Herbert Marcuse inédito em português, escrito para a edição de 1965 da editora Insel (Frankfurt). Nele, Marcuse fala, já sob a luz do século XX, sobre como a interpretação de Marx acerca do golpe de Napoleão III antecipa a dinâmica posterior da sociedade: "Como se chegou a essa situação em que a sociedade burguesa só pode ainda ser salva pela dominação autoritária, pelo exército, pela liquidação e traição das suas promessas e instituições liberais? (...) Isso é cômico, mas a própria comédia já é a tragédia, na qual tudo é jogado fora e sacrificado. Tudo ainda é século XIX: passado liberal, pré-liberal".

Mesmo diante da conversão da irracionalidade em razão dominante e em face da derrota daqueles que se sublevaram nos anos seguintes ao terceiro Napoleão - como na Comuna de Paris, em 1871 -, Marx manteve a esperança para os desesperançados. E, como lembra Ruy Braga na orelha do livro, "no momento em que variantes democráticas ‘bonapartistas sui generis’ despertam do pesadelo neoliberal na América Latina, nada melhor do que redescobrir a obra que sedimentou as bases de todo um precioso debate político e acadêmico".

A ilustração de capa, na qual Marx pisa displicentemente no retrato de Luís Napoleão, é de autoria de Gilberto Maringoni. A publicação foi traduzida por Nélio Schneider e vem ainda acompanhada de um índice onomástico das personagens citadas no texto principal e de uma cronobiografia resumida de Marx e Engels - que contém aspectos fundamentais da vida pessoal, da militância política e da obra teórica de ambos -, com informações úteis ao leitor, iniciado ou não na obra marxiana.

Sobre a coleção Marx-Engels
Com a publicação dessa importante obra para os estudos do pensamento marxiano, a Boitempo Editorial atinge o marco de dez volumes lançados pela coleção Marx-Engels, sempre em traduções diretas do alemão, com a participação de especialistas nos fundadores do marxismo e um aparato editorial que faz de seus livros uma referência no país.

A coleção teve início com a edição comemorativa dos 150 anos do Manifesto Comunista, em 1998. Em seguida foi publicado o livro A sagrada família, em 2003, obra polêmica que assinala o rompimento definitivo de Marx e Engels com a esquerda hegeliana. Os Manuscritos econômico-filosóficos (ou Manuscritos de Paris) vieram na sequência, ao qual se seguiram os lançamentos de Crítica da filosofia do direito de Hegel; Sobre o suicídio; A ideologia alemã (completa); A situação da classe trabalhadora na Inglaterra; Sobre a questão judaica; Luta de classes na Alemanha e, agora, O 18 de brumário de Luís Bonaparte. O próximo lançamento da coleção será A guerra civil na França, em comemoração aos 140 anos da Comuna de Paris.

Ficha técnica
Título: O 18 de brumário de Luís Bonaparte
Autor: Karl Marx
Tradução: Nélio Schneider
Prefácio: Friedrich Engels
Prólogo: Herbert Marcuse
Páginas: 176
Preço: R$ 36,00
ISBN: 978-85-7559-171-0
Editora: Boitempo Editorial
Site: www.boitempoeditorial.com.br

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os super-ricos do mundo



Os multimilionários prosperam e as desigualdades aprofundam-se quando as economias "recuperam"

por James Petras

As operações de salvamento de bancos, especuladores e industriais cumpriram o seu verdadeiro objectivo: os milionários passaram a multimilionários e estes ficaram ainda mais ricos. Segundo o relatório anual da revista de negócios Forbes, há 1210 indivíduos – e em muitos casos clãs familiares – com um valor líquido de mil milhões de dólares (ou mais). O seu patrimônio líquido total é de 4,5 milhões de milhões de dólares, maior do que o valor total de 4 mil milhões de pessoas em todo o mundo. A actual concentração de riqueza ultrapassa qualquer período anterior da história; desde o Rei Midas, os Marajás, e os Barões Ladrões [1] até aos magnatas de Silicon Valley[2] e Wall Street na actual década.

Uma análise da origem da riqueza dos super-ricos, a sua distribuição na economia mundial e os métodos de acumulação esclarece diversas diferenças importantes com profundas consequências políticas. Vamos identificar essas características especiais dos super-ricos, a começar pelos Estados Unidos e faremos depois uma análise ao resto do mundo.

Os super-ricos nos Estados Unidos: os maiores parasitas vivos

Os EUA têm a maior parte dos multimilionários do mundo (413), mais de um terço do total, a maior proporção entre os grandes países do mundo. Um olhar mais de perto também revela que, entre os 200 multimilionários do topo (os que têm 5,2 mil milhões de dólares ou mais), 57 são dos EUA (29%). Mais de um terço fez fortuna através da actividade especulativa, da predação da economia produtiva e da exploração do mercado imobiliário e de acções. Esta é a percentagem mais alta de qualquer dos principais países na Europa ou na Ásia (com a excepção da Inglaterra). A enorme concentração de riqueza nas mãos desta pequena classe dirigente parasita é uma das razões por que os EUA têm as piores desigualdades de qualquer economia avançada e se situa entre as piores em todo o mundo. Os especuladores não empregam trabalhadores, servem-se de expedientes fiscais e de operações de salvamento e depois pressionam cortes no orçamento social, dado que não precisam de uma força de trabalho saudável e instruída (excepto no que se refere a uma pequena elite). Em 1976, 1% da população mundial detinha 20% da riqueza; em 2007 dominava 35% da riqueza total. Oitenta por cento dos americanos possuem apenas 15% da riqueza. As recentes crises económicas, que inicialmente reduziram a riqueza total do país, fizeram-no de modo desigual – atingindo de modo mais grave a maioria dos operários e empregados. A operação de salvamento Bush-Obama levou à recuperação económica, não da "economia em geral", mas restringiu-se a reforçar ainda mais a riqueza dos multimilionários – o que explica porque é que a taxa de desemprego e subemprego ficou praticamente na mesma, porque é que a dívida fiscal e o défice comercial aumentam e o estado baixa os impostos às grandes empresas e reduz os orçamentos municipais, estatais e federais. O sector "dinâmico" formado por capitalistas parasitas emprega menos trabalhadores, não exporta produtos, paga impostos mais baixos e impõem maiores cortes nas despesas sociais para os trabalhadores produtivos. No caso dos multimilionários dos EUA, a sua riqueza é fortemente acrescida através da pilhagem do erário público e da economia produtiva e através da especulação no sector das tecnologias de informação que alberga um quinto dos multimilionários do topo.

BRIC: Os novos multimilionários: A explorar o trabalho da natureza

Os principais países capitalistas emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC), elogiados pelos meios de comunicação pelo seu rápido crescimento na última década, estão a produzir multimilionários a um ritmo mais rápido do que qualquer bloco de países do mundo. Segundo os últimos dados no Forbes (Março de 2011), o número de multimilionários no BRIC aumentou mais de 56%, de 193 em 2010 para 301 em 2011, ultrapassando os da Europa.

O forte crescimento do BRIC levou à concentração e centralização de capital, em todos os casos promovidos pelas políticas de estado que proporcionam empréstimos a juros baixos, subsídios, incentivos fiscais, exploração ilimitada de recursos naturais e mão-de-obra, expropriação dos pequenos proprietários e privatização de empresas públicas.

O crescimento dinâmico de multimilionários no BRIC levou às desigualdades mais flagrantes em todo o mundo. Nos países do BRIC, a China lidera o caminho com o maior número de multimilionários (115) e as piores desigualdades em toda a Ásia, em profundo contraste com o seu passado comunista quando era o país mais igualitário do mundo. Um exame da origem da riqueza dos super ricos na China revela que provém da exploração da força de trabalho no sector da manufactura, da especulação no imobiliário e da construção e comércio. EM 2011, A China ultrapassou os EUA enquanto maior fabricante do mundo, em consequência da super-exploração da mão-de-obra na China e do crescimento de capital financeiro parasitário nos EUA.

Em contraste com os EUA, a classe trabalhadora da China está a fazer incursões significativas nas receitas da sua elite de manufacturas e de imobiliário. Em consequência da luta da classe trabalhadora, os salários têm vindo a aumentar entre 10% a 20% nos últimos 5 anos; os protestos dos agricultores e das famílias urbanas contra as expropriações feitas pelos especuladores imobiliários e sancionadas pelo estado ultrapassaram os 100 mil por ano.

A riqueza dos multimilionários russos, por outro lado, resultou do violento roubo dos recursos públicos (petróleo, gás, alumínio, ferro, aço, etc.), explorados pelo anterior regime. A grande maioria dos multimilionários russos depende da exportação de bens, da pilhagem e da devastação do ambiente natural sob um regime corrupto e sem regulamentação. O contraste entre as condições de vida e de trabalho entre os multimilionários virados para o ocidente e a classe trabalhadora russa é sobretudo o resultado do escoamento da riqueza para contas ultramarinas, investimentos offshore e luxos pessoais extraordinários, incluindo propriedades de muitos milhões de dólares. Em contraste com a elite industrial da China, os multimilionários da Rússia parecem-se com os 'senhorios' parasitas que se encontram entre os especuladores de Wall Street e os xeiques do Golfo Pérsico.

Os multimilionários da Índia são uma mistura de ricos antigos e novos ricos que amontoam a sua riqueza através da exploração dos trabalhadores industriais de salários baixos, das populações de bairros pobres expropriados e dos povos tribais, assim como da posse diversificada de imobiliário, tecnologia informática e software. Os multimilionários da Índia acumularam a sua riqueza através das suas ligações familiares com os escalões mais altos, muito corruptos, da classe política, assegurando monopólios através de contratos com o estado. O forte crescimento da Índia na última década (7% em média) e a explosão de multimilionários de 55 para 2011, estão ambos ligados às políticas neo-liberais de desregulamentação, privatização e globalização, que concentraram a riqueza no topo, corroeram os produtores em pequena escala e espoliaram dezenas de milhões.

A classe multimilionária do Brasil aumentou rapidamente, em particular sob a direcção do Partido dos Trabalhadores, para 29, acima do número de um só dígito uma década antes. Hoje, mais de dois terços dos multimilionários da América Latina são brasileiros. A peça central da riqueza dos super ricos do Brasil é o sector finanças-banca que se beneficiou fortemente das políticas monetária, fiscal e neo-liberal do regime de Lula da Silva. Os banqueiros multimilionários têm sido os principais beneficiários da economia de exportação agro-mineral que floresceu na última década, à custa do sector de manufacturas. Apesar das afirmações dos líderes do Partido dos Trabalhadores, as desigualdades de classe entre a massa dos trabalhadores de salário mínimo (380 dólares por mês em Março de 2011) e os super-ricos continuam a ser as piores da América Latina. Uma análise da origem da riqueza entre os multimilionários brasileiros revela que 60% aumentaram a sua riqueza no sector finanças, imobiliário e seguros (FIRE) e só um deles (3%) no sector de capital ou manufactura intermédia. A explosão do Brasil em crescimento económico e em multimilionários encaixa no perfil de uma 'economia colonial': com grande peso no consumo excessivo, na exportação de bens e presidido por um sector financeiro dominante que promove políticas neoliberais. No decurso da última década, apesar do teatro político populista e dos programas de pobreza paternalistas patrocinados pelo Partido dos Trabalhadores "centro-esquerda", o principal resultado sócio-económico foi o crescimento duma classe de multimilionários "super-ricos" concentrados na banca com poderosas ligações aos sectores do agro-mineral. A classe financeira-agro-mineral, de forte crescimento via mercado livre, degradou o sector de manufactura, principalmente os têxteis e os sapatos, assim como os produtores de bens de capital e intermédios.

Os países BRIC estão a produzir mais, e a crescer mais depressa do que as potências imperialistas estabelecidas na Europa e nos EUA, mas também estão a produzir desigualdades e concentrações monstruosas de riqueza. As consequências sócio-económicas já se manifestaram no aumento do conflito de classes, principalmente na China e na Índia, onde a exploração intensiva e a expropriação provocaram a acção das massas. A elite política chinesa parece estar mais consciente da ameaça política colocada pela concentração crescente da riqueza e encontra-se em vias de promover aumentos substanciais de salários e um maior consumo local que parece estar a reduzir as margens de lucro nalguns sectores da elite de manufacturas. Talvez que a 'memória histórica' da 'revolução cultural' e a herança maoista desempenhe o seu papel no alerta da elite política para os perigos políticos resultantes dos "excessos capitalistas" associados aos altos níveis de exploração e ao rápido crescimento duma classe de clãs politicamente relacionados, baseados em multimilionários.

Médio Oriente

Na última década, o país mais dinâmico no Médio Oriente foi a Turquia. Dirigido por um regime democrático liberal de inspiração islâmica, a Turquia tem liderado a região no crescimento do PIB e na produção de multimilionários. O desempenho económico turco tem sido apresentado pelo Banco Mundial e pelo FMI como um modelo para os regimes pós ditatoriais no mundo árabe – de 'alto crescimento', uma economia diversificada baseada na crescente concentração de riqueza. A Turquia tem mais 35% de multimilionários (37) do que os estados do Golfo e do Norte de África em conjunto (24). O 'segredo' do crescimento turco é as altas taxas de investimento em diversas indústrias e a exploração intensiva da força de trabalho. Muitos multimilionários turcos (14) obtêm a sua riqueza através de 'conglomerados', investimentos em diversos sectores de manufactura, finança e construção. Para além dos multimilionários de 'conglomerados', há 'multimilionários especialistas' que acumularam a sua riqueza a partir da banca, da construção e do processamento de alimentos. Uma das razões de a Turquia ter censurado e desafiado o poder de Israel no Médio Oriente é porque os seus capitalistas estão ansiosos por projectar investimentos e penetrar nos mercados do mundo árabe. Com excepção do sistema político americano, fortemente sionizado, as elites governantes e o público na Europa e na Ásia encararam favoravelmente a oposição da Turquia aos massacres israelenses em Gaza e à violação da lei internacional em águas marítimas. Se um moderno regime islâmico liberal pode crescer rapidamente através da rápida expansão duma classe diversificada de super-ricos, o mesmo acontece com Israel, um moderno estado judaico-neoliberal baseado no rápido crescimento duma classe de multimilionários altamente diferenciada.

Israel, com 16 multimilionários é um país em que as desigualdades de classe crescem mais rapidamente na região – com o mais alto número de multimilionários per capita do mundo… Os "sectores de crescimento" de Israel, software, indústrias militares, finança, seguros e diamantes e investimentos ultramarinos em metais e minas, são liderados por multimilionários e multi-multimilionários que beneficiaram das dádivas financeiras induzidas pelos sionistas, provenientes da pilhagem de recursos feita pelos EUA nos países da ex-URSS e da transferência de fundos pelas oligarquias russas-israelenses e também de empreendimentos conjuntos com multimilionários judaico-americanos em empresas de software, principalmente no sector de "segurança".

A alta percentagem de multimilionários em Israel, numa época de profundos cortes nas despesas sociais, desmente a sua afirmação de ser uma 'social-democracia' no meio dos 'xeicados'. A propósito, Israel tem o dobro de multimilionários (16) da Arábia Saudita (8) e mais super-ricos do que todos os países do Golfo juntos (13). O facto de Israel ter mais multimilionários per capita do que qualquer outro país não impediu os seus apoiantes sionistas nos EUA de pressionarem por uma ajuda adicional de 20 mil milhões de dólares na década passada. Contrariamente ao passado, a actual concentração de riqueza de Israel tem menos a ver com o facto de ser o maior recebedor de ajuda estrangeira… as doações a Israel são uma questão política: o poder sionista sobre a bolsa do Congresso. Dada a riqueza total dos multimilionários de Israel, um imposto de cinco por cento seria mais que compensador de qualquer corte da ajuda externa dos EUA. Mas isso não vai acontecer apenas porque o poder sionista na América impõe que os contribuintes americanos subsidiem os plutocratas de Israel, pagando-lhes o seu armamento ofensivo.

Conclusão

As "crises económicas" de 2008-2009 infligiram apenas perdas temporárias a alguns multimilionários (EUA-UE) e a outros não (asiáticos). Graças às operações de salvamento de milhões de milhões de dólares/euros/ienes, a classe multimilionária recuperou e alargou-se, apesar de os salários nos EUA e na Europa terem estagnado e os 'padrões de vida' terem sido atingidos por cortes maciços na saúde, na educação, no emprego e nos serviços públicos.

O que é chocante quanto à recuperação, crescimento e expansão dos multimilionários mundiais é como a sua acumulação de riqueza depende e está baseada na pilhagem de recursos do estado; como a maior parte das suas fortunas se basearam nas políticas neoliberais que levaram à apropriação a preços de saldos de empresas públicas privatizadas; como a desregulamentação estatal permite a pilhagem do ambiente para a extracção de recursos com a mais alta taxa de retorno; como o estado promoveu a expansão da actividade especulativa no imobiliário, na finança e nos fundos de pensões, enquanto encorajava o crescimento de monopólios, oligopólios e conglomerados que captaram "super lucros" – taxas acima do "nível histórico". Os multimilionários no BRIC e nos antigos centros imperialistas (Europa, EUA e Japão) foram os principais beneficiários das reduções fiscais e da eliminação de programas sociais e de direitos laborais.

O que é perfeitamente claro é que é o estado, e não o mercado, quem desempenha um papel essencial em facilitar a maior concentração e centralização de riqueza na história mundial, quer facilitando a pilhagem do erário publico e do ambiente, quer aumentando a exploração da força de trabalho, directa e indirectamente.

As variantes nos caminhos para o estatuto de 'multimilionário' são chocantes: nos EUA e no Reino Unido, predomina o sector parasita-especulativo sobre o produtivo; entre o BRIC – com excepção da Rússia – predominam diversos sectores que incorporam multimilionários da manufactura, do software, da finança e do sector agro-mineral. Na China, o abissal fosso económico entre os multimilionários e a classe trabalhadora, entre os especuladores imobiliários e as famílias expropriadas levou ao aumento do conflito de classes e a desafios, forçando a aumentos significativos de salários (mais de 20% nos últimos três anos) e à exigência de maiores gastos públicos na educação, saúde e habitação. Nada de comparável está a acontecer nos EUA, na UE ou noutros países do BRIC.

As origens da riqueza dos multimilionários são, quando muito, devidas apenas em parte a 'inovações empresariais'. A sua riqueza pode ter começado, numa fase inicial, a partir da produção de bens ou serviços úteis; mas, à medida que as economias capitalistas 'amadurecem' e se viram para a finança, para os mercados ultramarinos e para a procura de lucros mais altos, impondo políticas neoliberais, o perfil económico da classe multimilionários muda para o modelo parasita dos centros imperialistas instituídos.

Os multimilionários nos BRIC, a Turquia e Israel contrastam fortemente com os multimilionários do petróleo do Médio Oriente que são rentistas que vivem das 'rendas' da exploração do petróleo, do gás e dos investimentos ultramarinos, em especial do sector FIRE. Entre os países BRIC, só a oligarquia multimilionária russa se parece com os rentistas do Golfo. O resto, em especial os multimilionários chineses, indianos, brasileiros e turcos, tiraram partido das políticas industriais promovidas pelo estado para concentrar a riqueza sob a retórica de 'paladinos nacionais', que promovem os seus próprios 'interesses' em nome duma 'economia emergente de sucesso'. Mas mantêm-se as questões básicas de classe: "crescimento para quem? e a quem é que beneficia?" Até agora, o registo histórico mostra que o crescimento de multimilionários tem-se baseado numa economia altamente polarizada em que o estado serve a nova classe de multimilionários, sejam especuladores parasitas como nos EUA, rentistas saqueadores do estado e do ambiente, como na Rússia e nos estados do Golfo, ou exploradores da força de trabalho como nos países BRIC.

Post Scriptum

A revolta árabe pode ser vista em parte como uma tentativa de derrubar os 'clãs capitalistas de rentistas. A intervenção ocidental nas revoltas e o apoio das elites militares e políticas da "oposição" é um esforço para substituir uma classe governante capitalista 'neoliberal'. Essa "nova classe" será baseada na exploração da mão-de-obra e na expropriação dos actuais possuidores dos recursos clã-família-amigos. As principais empresas serão transferidas para multinacionais e capitalistas locais. Muito mais promissoras são as lutas internas dos trabalhadores na China e, em menor grau, no Brasil e no campesinato rural maoista e movimentos tribais na Índia, que se opõem à exploração e à expropriação de rentistas e capitalistas.

NT
[1] Barão ladrão – termo pejorativo usado para um poderoso homem de negócios e banqueiro americano do século XIX.
[2] Sillicon Valley – situa-se a Sul da área da baía de S. Francisco, na Califórnia. Esta região alberga muitas das maiores companhias de tecnologia electrónica do mundo.

O original encontra-se em
http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23907 .
Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/ .


Com apoio do PCB

Celso Amorim: Brasil superou o complexo de vira-lata

Em palestra a estudantes de Relações Internacionais, em Porto Alegre, o ex-chanceler disse que não vê "diferenças profundas nem superficiais" entre a política externa do governo Dilma e a do governo Lula. Celso Amorim apontou o conceito de desassombro como uma das razões do sucesso da política externa brasileira nos últimos anos. Segundo ele, o Brasil parou de ter medo da própria sombra e superou o complexo de vira lata cultivado por alguns setores da sociedade. O Brasil pode e deve influenciar os assuntos globais, acrescentou, destacando as mudanças dramáticas que estão ocorrendo no Oriente Médio e na África.

Marco Aurélio Weissheimer

PORTO ALEGRE - O sucesso da política externa brasileira nos últimos anos deve-se à presença forte do presidente Lula, à constelação política que se formou no país e também a uma atitude de desassombro, no sentido etimológico da palavra, ou seja, uma atitude de não ter medo da própria sombra. O Brasil deixou de ter medo da própria sombra. Foi assim que o ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, definiu a política externa implementada pelo país nos últimos oito anos. O chanceler que percorreu o mundo ao lado do presidente Lula falou para um auditório lotado de estudantes de Relações Internacionais – em sua maioria -, na tarde desta quinta-feira (7), na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Celso Amorim esteve em Porto Alegre a convite do governo gaúcho, com apoio da Fundação de Economia e Estatística (FEE), do Centro de Estudos Internacionais sobre Governo (Cegov) e do Núcleo de Estratégias e Relações Internacionais (Nerint), da UFRGS. Na abertura do encontro na Faculdade de Direito, o governador Tarso Genro apresentou Amorim como responsável por uma linha de política externa que colocou o Brasil em outro patamar no mundo. E lembrou o reconhecimento internacional que o chanceler brasileiro obteve.

Em 2009, a revista Foreign Policy, uma das mais respeitadas publicações de política externa do mundo, apontou Celso Amorim como o melhor chanceler do mundo. No ano a seguinte, a mesma revista escolheu-o como um dos cem pensadores globais mais importantes do planeta. Só quem parece não ter descoberto isso, assinalou o governador, foi a imprensa brasileira que, durante a gestão de Amorim no Itamaraty, apresentou-o como se fosse “um nacionalista fundamentalista que não gostava dos Estados Unidos”, criticando-o a partir de “uma visão pelega e subserviente de política externa”.

Em sua fala, Celso Amorim, falou do desassombro da atual política externa brasileira e do sentimento que o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues definiu como “complexo de vira lata”, ainda muito presente em alguns setores da sociedade brasileira.

“Recentemente li um artigo comentando a Apologia de Sócrates, de Platão, onde ele diz que ser corajoso não é não ter medo, mas sim não ter medo daquilo que não é preciso ter medo. Muito da opinião veiculada pela mídia fica constantemente excitando nosso medo. O medo existe, é algo que está dentro de cada um de nós. Mas precisamos trabalhar para evitar que ele predomine sobre nossos sentimentos, perspectivas e visões”.

Nem os nossos mais ferozes críticos, acrescentou Amorim, podem negar que o Brasil adquiriu uma nova posição no cenário internacional. “Quem fizer uma pesquisa na imprensa internacional a respeito do que foi veiculado sobre o Brasil na época da última eleição presidencial verá como a nossa política externa foi tema de debate fora do país”. Vários adjetivos foram utilizados para definir a nossa política. O jornal Le Monde classificou-a como “imaginativa”. A própria Foreign Policy usou um termo que não é muito comum em língua portuguesa, chamando nossa política de “transformativa”, logo após nosso reconhecimento do Estado palestino.

“Uma amiga minha brincou”, contou Amorim, “que, no final de 2010, quando todo mundo pensava que o governo já tinha acabado, veio o reconhecimento do Estado palestino, e depois, nos últimos dias mesmo, veio a adoção de quotas para negros na primeira fase do exame para o Instituto Rio Branco (Itamaraty). Essas coisas mexem muito com a cabeça das pessoas. Até por isso é alvo de críticas e polêmicas. É uma área da política que mexe muito com conceitos”.

E foi esse, justamente, um dos principais pontos da fala de Amorim. Ele enfatizou a importância do conceito de desassombro na política e na vida (das pessoas e dos Estados), defendendo que o Rio Grande do Sul volte a ter essa postura no cenário nacional. “O Rio Grande do Sul sempre foi um Estado muito politizado que influenciou o Brasil diversas vezes com ideias, energia e vontade política”. Mais do que uma disposição voluntarista, acrescentou, essa é uma exigência do mundo de hoje que está mudando de modo dramático.

A política externa dos governos Lula e Dilma

Questionado sobre uma suposta solução de continuidade entre a política externa do governo Lula e a do governo Dilma, tema que vem sendo martelado com insistência na imprensa brasileira, Amorim negou que isso esteja acontecendo. As linhas gerais da política são as mesmas: defesa do interesse nacional, uma visão de solidariedade em relação aos outros povos e países e princípio da não indiferença em relação aos problemas do mundo.

“Não vejo diferença nem profunda, nem superficial, na condução da nossa política externa. Isso não quer dizer que não possam existir diferenças pontuais na hora de decidir sobre questões particulares”.

Uma dessas diferenças pontuais, que vem sendo objeto de grande interesse midiático, estaria na questão dos direitos humanos. Como costuma acontecer na insólita “diversidade” de opiniões na mídia brasileira, vários colunistas políticos repetem, com algumas variações, o mesmo comentário: enquanto o governo Lula foi pragmático nesta área, fechando os olhos para alguns casos de violação dos direitos humanos, o governo Dilma estaria rumando para uma posição mais principista na área, o que teria sido confirmado pelo recente voto do Brasil na ONU a favor do envio de um relator especial ao Irã para investigar a situação dos direitos humanos naquele país. Sobre esse tema, Celso Amorim comentou:

“Creio que a palavra chave quando se fala em Direitos Humanos é dignidade. Este foi um dos principais conceitos que orientou o governo Lula, tanto em sua luta contra a fome e a pobreza, quanto em seus votos na Organização Mundial do Comércio. Esse debate sobre direitos humanos no plano internacional é muito complexo. Os Estados Unidos já mudaram de posição mais uma vez nesta área em relação a China, por exemplo, dependendo de suas motivações políticas e comerciais. Quem se atreve, por exemplo, a pedir na ONU o envio de um relator especial aos Estados Unidos para investigar a situação dos presos em Guantánamo? É fundamental que a política tenha um substrato moral, mas não podemos esquecer que ela é “política” e, nesta dimensão, na maioria das vezes, o diálogo tem um efeito mais positivo do que condenações”.

Revolta Árabe: o papel central do Egito

Celso Amorim também falou sobre as revoltas que estão ocorrendo em diversos países do Oriente Médio e da África. Para ele, o mundo está atravessando um período de mudanças dramáticas, de consequências ainda imprevisíveis. No caso das chamadas revoltas árabes, o ex-chanceler brasileiro considera que o caso mais importante a acompanhar não é propriamente o da Líbia, país com cerca de 4 milhões de habitantes, mas sim o do Egito, com 80 milhões de habitantes e um posição chave na definição do problema palestino.

Amorim elogiou o voto brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, abstendo-se na votação que aprovou a criação de uma zona de exclusão aérea. E questionou os resultados alcançados até aqui pelas forças da OTAN. Segundo ele, a zona de exclusão aérea instalada no Iraque anos atrás é brincadeira de criança perto do que está sendo feito agora na Líbia e que não se limita a um controle do espaço aéreo. Além disso, a alegada proteção à população civil também está cercada por dúvidas. Há população civil em torno de Kadafi e entre os rebeldes. Estão sendo protegidos ou bombardeados? – questionou.

O ex-titular do Itamaraty defendeu que o Brasil deve continuar a exercer uma diplomacia ativa no mundo. “O Brasil pode e deve influir nos assuntos globais. Isso é de interesse do mundo e do Brasil”, resumiu, lembrando que o nosso país não tem nenhum conflito com seus vizinhos e é respeitado internacionalmente por sua capacidade de diálogo. “Que outro país recebeu em um único mês os presidentes do Irã, de Israel e da Autoridade Palestina?” – resumiu.

"Obama perdeu grande oportunidade"

Sobre uma suposta decepção com a recente visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pelo fato dele não ter feito um pronunciamento mais incisivo em defesa da presença do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, Amorim foi taxativo: “Não há nenhuma decepção. O presidente Obama é que perdeu uma grande oportunidade de firmar uma parceria estratégica com um país que está se tornando uma potência mundial. Acho que ele e seus assessores não perceberam isso. As declarações dele em favor da presença da Índia no Conselho de Segurança enviaram um péssimo sinal ao mundo. Parece que ter a bomba atômica é uma condição para ingressar no Conselho como membro permanente”.

O elogio do desassombro na política e na vida feito por Celso Amorim foi muito aplaudido pelos estudantes de Relações Internacionais que, ao final do debate, fizeram fila e disputaram centímetros para chegar perto e tirar uma foto com um dos brasileiros mais influentes do planeta nos últimos anos.

Foto: Caco Argemi (Palácio Piratini)

Guerra de agressão à Líbia: Imperialistas semeiam novo atoleiro

O exército líbio rechaçou o avanço das forças rebeldes no território, que continua a ser fustigado pelos bombardeios imperialistas com um saldo de dezenas de mortos civis.
Depois de dias de avanço sobre as principais cidades da Líbia, impulsionados pelos bombardeios imperialistas, os rebeldes foram obrigados a recuar em toda a linha fruto da reação do exército regular do país.

Se nos primeiros dias da ofensiva iniciada pelos EUA, França e Reino Unido, aliados às petromonarquias árabes, e, posteriormente, continuada pela Otan, a derrota das forças fiéis ao coronel Muamar Kadafi parecia iminente, anteontem as informações divulgadas davam conta de que os insurgentes haviam sido empurrados para Leste até aos limites de Ajdabiya.

Fortes combates prosseguiam pelo controle da cidade de Misratah, cercada pelo exército líbio e onde os insurgentes permanecem apenas com o auxílio do Pacto do Atlântico, que castiga as tropas de Tripoli a cada tentativa de assalto. Ras Lanuf já mudou de mãos quatro vezes desde o início do conflito e encontra-se dominada pelo exército, bem como Brega, no fecho desta edição.

O avanço do contingente leal ao governo da Líbia deve-se à indigência dos rebeldes, mas, também, ao uso por parte do exército de táticas que lhe permitem maior mobilidade, rapidez e capacidade furtiva aos intensos ataques imperialistas, técnicas ministradas em 2009 pelas forças especiais britânicas quando Kadafi era ainda tido pelas potências capitalistas como um aliado no combate ao terrorismo.

Crimes comprovados

Entre os últimos dias de março e os primeiros de abril, a coligação despejou sobre a Líbia mais de 190 mísseis Tomahawk e cerca de 450 bombas lançadas por aviões, calculou a cadeia norte-americana ABC.

Entre as vítimas dos bombardeios estão dezenas de civis, elevando para quase uma centena e meia ao número de mortos civis na sequência das operações da Otan. Só a meio da semana passada, pelo menos 40 pessoas terão morrido em consequência dos raides sobre Tripoli, denunciou o representante do Vaticano na capital líbia, Giovanni Martinelli.

"Não me venham dizer que se bombardeia para defender a população civil. Por mais que sejam precisos os bombardeios contra objetivos militares, claramente envolvem também os edifícios civis circundantes. Sei que pelo menos dois hospitais sofreram danos indiretos dos bombardeios. Saiba-se que as ações militares estão a causar vítimas entre os mesmos civis que se quer proteger com estas ações", disse o bispo à agência católica Fides.

No mesmo sentido, informações veiculadas por agências noticiosas internacionais indicam que pelo menos sete menores e adolescentes terão morrido durante um bombardeamento em Brega, e outras 25 pessoas ficaram feridas na sequência da mesma operação.

À sanha criminosa da Otan não escapam nem os rebeldes, que sexta-feira perderam cerca de 30 dos seus homens depois de um ataque perpetrado por um avião francês, informou a al-Jazira.

Por outro lado, avolumam-se as preocupações das autoridades líbias quanto às consequências dos ataques imperialistas, já que, por exemplo, a destruição do aqueduto no eixo Bengazi-Sirte colocaria em causa o abastecimento de água potável a cerca de 70% dos líbios, somando dificuldades nos aglomerados populacionais onde já se registam carências de todo o género.

Entretanto, dois professores e investigadores que se opõem à agressão à Líbia sustentam que as bombas contêm urânio empobrecido e exigem esclarecimentos cabais por parte da Otan, já que o uso desta substância provoca danos duradouros que fustigam em particular a população civil.

Treino, armas e comunicações

Em face da nova regressão rebelde, multiplicam-se as afirmações dos principais responsáveis imperialistas sobre a possibilidade de fornecimento de armas aos insurgentes. O mais significativo fato nesse aspecto prende-se com a revelação da Reuters, que garante que Barack Obama já terá assinado um memorando autorizando a entrega de armamento.

O assunto é polémico e levanta reservas entre políticos e altos quadros militares norte-americanos, que, se têm certezas quanto aos chefes dos rebeldes, o mesmo não parecem poder dizer cabalmente quanto à lealdade dos combatentes.

Isso mesmo admitiu a secretária de Estado Hillary Clinton na conferência de Londres. "A oposição demonstrou um compromisso com a democracia", mas "não temos nenhuma informação específica sobre indivíduos ou organizações deste movimento", disse.

A declaração mascara em parte a realidade, dado que meios de comunicação como a al-Jazira ou o New York Times asseguram que agentes da CIA e do MI6 já estão no terreno há muito tempo a recolher informações, a treinar e até a agilizar o comando dos rebeldes e os bombardeios imperialistas. Armamento está a ser enviado secretamente via Egito.

As palavras de Robert Gates, secretário da Defesa dos EUA, para quem "a oposição necessita, antes de mais, treino, comando e organização", e as do ministro das Relações Externas inglês, que admite o fornecimento de equipamento de comunicações, não deixam dúvidas sobre quem manda. Mas mais claras são ainda as de um combatente rebelde, que, à Reuters, admitiu que "agora temos oficiais conosco. Antes íamos sozinhos para a frente".

Para mais, é público que França, EUA e Reino Unido têm delegados em Bengazi junto do chamado Conselho Nacional Líbio, prova de que depois do Iraque e do Afeganistão, os imperialistas estão cada vez mais mergulhados num novo atoleiro, munidos com um mandato da ONU, organização que, como sublinhou Miguel D'Escoto, ex-presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas e atual representante do governo líbio junto da ONU, "se converteu não apenas numa organização disfuncional e incapaz de cumprir os objetivos para os quais foi criada, mas agora numa arma mortal nas mãos dos agressores imperialistas e seus sequazes".

Fonte: Avante!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Governo líbio aceita reforma com manutenção de Kadafi

Mussa Ibahim, porta-voz do governo líbio, disse à imprensa em Trípoli que tudo é negociável, com exceção da presidência, já que Kadafi é uma figura de união do país.

"Que tipo de sistema político será implantado no país? Isso é negociável, podemos falar sobre isso", afirmou Ibrahim. "Podemos fazer qualquer coisa, eleições, referendos".

Segundo Ibrahim, Kadafi é uma "válvula de segurança" da unidade entre as tribos e povos do país. "Acreditamos que é muito importante iniciar uma transição para um modelo transparente e democrático", estimou.

fonte: vermelho.org

A opinião pública, entre o velho e o novo

Por Emir Sader

- A decadência irreversível da velha mídia e o surpreendente surgimento de novas modalidades de formação democrática da opinião pública


Atribuem à internet – sua velocidade, seu caráter interativo, sua “irresponsabilidade” (“Qualquer um pode escrever...”, tipo Cansei) – a decadência da imprensa escrita. Claro que isso tem parte da verdade. Quem lê no dia seguinte o que já tinha ido na internet no dia anterior – às vezes lê nos jornais 2 dias depois de ter lido na internet -, tem uma sensação de tempo perdido, de notícia requentada, de um mundo superado pela rapidez virtual.

Além de que a internet, nas suas distintas modalidades, supera um dos problemas que permitiu o monopólio privado de algumas famílias, que pretendiam ser donas da formação da opinião pública, porque o investimento necessário para publicar um jornal ou uma revista é muito grande, enquanto que na internet é bastante pequeno ou quase nenhum.

A internet tornou-se assim um forte instrumento de democratização na circulação de informações, rompendo a fonte única e homogeneizadora das agências, assim como na interpretação dos fatos. A agenda nacional passa a ser disputada à velha mídia pelas novas formas, pluralistas, de expressão midiática, na internet.

Mas a razão de fundo da decadência irreversível da velha mídia está na sua falta total de credibilidade. A ponto de que atacaram implacavelmente o governo Lula e chegaram ao final de 8 anos com apenas 4% de rejeição do governo e 87% de apoio, o que vale também para medir a capacidade de influência da velha mídia sobre o povo brasileiro.

O melhor sintoma da decadência irreversível da imprensa escrita está na ausência dos jovens entre seus leitores, projetando a desaparição dessa modalidade de imprensa em um futuro não muito distante – porque se tornará inviável economicamente, depois de se tornar politicamente intranscendente.

Quando o jornal da ditabranda, dos carros emprestados à Oban e do “espectro do comunismo” me propôs escrever o artigo principal da página 3 em um domingo – em um reconhecimento claro que jornalistas seus tinham cometido graves erros que aumentam ainda mais a falta de credibilidade do jornal -, eu respondi que não me interessava. Que um artigo escrito em um blog, multiplicado pelos que os reenviam, mais seus ecos nos twitters e nos facebooks, além do twitcam, consegue muito mais leitores que um artigo em um jornal. Além de chegar aos jovens e aos setores dinâmicos da sociedade. Pesquisas mais recentes feitas pelo próprio jornal demonstram como seus leitores hoje são, em sua grande maioria, tucanos (os petistas abandonaram a leitura do jornal), dos grupos A e B, que representam a minoria da sociedade, com ausência absoluta de leitores jovens. Para a empresa interessa, porque são setores de maior poder aquisitivo, o que chama publicidade, mas se distanciaram ainda mais do Brasil real.

O jornal é muito chato, desinteressante, requentado, com cronistas que pararam nos ano 90, jurássicos, que se negam a acreditar que o país mudou, parecem todos iguais, repetem velhões chavões. Alguns jovens de idade, envelheceram prematuramente, incorporaram um ceticismo decadente, que chega rapidamente ao cinismo. Ficaram com os velhos tucanos como leitores, gente sem interesse e sem influência. Dai que tenham um caderno que se pretendem cultural que não é lido por ninguém, nem por eles mesmos.

Eu respondi à oferta que prefiro escrever aqui, propondo que a direção do jornal – que me ligou diretamente – mandasse um texto com suas opiniões, com o compromisso que seria publicado integralmente – o que eles não fazem -, mas que teriam que receber as opiniões dos leitores – interatividade a que eles não estão acostumados. Claro que não mandaram, odeiam a internet, estão irremediavelmente auto-excluidos do futuro da formação democrática da opinião pública.

Mas a velha mídia ainda constitui uma espécie de Exército regular- pesados, caros, lentos -, enquanto nós agimos com métodos de guerrilha, de estocadas, valendo-nos da mobilidade, da surpresa, da criatividade, do humor. Essa a grande batalha democrática entre o velho - que tenta sobreviver, com grandes dificuldades - , e o novo – que busca, com enormes esforços –criar os espaços democráticos e pluralistas que o novo Brasil requer.


terça-feira, 5 de abril de 2011

O melhor e mais inteligente

Autor: Comandante Fidel Castro

Ontem, por razões de espaço e tempo, não disse uma palavra do discurso pronunciado por Barack Obama na segunda-feira 28, a respeito da guerra na Líbia.

Dispunha de uma cópia da versão oficial, fornecida à imprensa pelo Governo dos Estados Unidos. Tinha sublinhado algumas das coisas que ele afirmou. Voltei a revê-lo e cheguei à conclusão de que não valia a pena gastar demasiado papel no assunto.

Lembrava o que me contou Carter quando nos visitou em 2002 sobre o cultivo de florestas nos Estados Unidos, visto que ele possui uma plantação familiar no Estado de Georgia. Nesta visita lhe perguntei de novo sobre aquela cultura e voltou a expressar que semeia as plantas de pinheiro a uma distância de 3 por 2 metros, que equivalem a 1 700 árvores por hectare, e se recolhem passados uns 25 anos.

Há muitos anos li que The New York Times, numa edição dominical, consumia o papel extraído da desflorestação de 40 hectares de bosque. Portanto, explica-se minha preocupação pela poupança de papel.

É claro que Obama é um excelente articulador de palavras e frases. Poderia se ganhar a vida escrevendo historietas para crianças. Conheço seu estilo porque o primeiro que li e sublinhei, muito antes de que assumisse a presidência, foi um livro titulado os “Sonhos do meu Pai”. Fi-lo com respeito e, pelo menos, consegui apreciar que seu autor sabia escolher a palavra precisa e a frase adequada para ganhar a simpatia dos leitores.

Confesso que não gostei da sua tática de suspense, ocultando suas próprias idéias políticas até o final. Fiz um esforço especial por não esquadrinhar no último capítulo o que opinava sobre diversos problemas, do meu ponto de vista fulcrais neste momento da história humana. Tinha a certeza de que a profunda crise econômica, a colossal despesa militar, e o sangue jovem derramado por seu predecessor republicano, ajudá-lo-iam a derrotar o seu adversário eleitoral, apesar dos enormes preconceitos raciais da sociedade norte-americana. Era ciente dos riscos que corria de que o eliminassem fisicamente.

Por óbvias razões de politicagem tradicional procurou, antes das eleições, o apoio dos votos dos anti-cubanos de Miami, na sua maioria dirigidos por pessoal de origem batistiana e reacionária, que converteram os Estados Unidos numa república bananeira, onde a fraude eleitoral determinou nada menos que a vitória de W. Bush em 2000, lançando à lixeira a um futuro Prêmio Nobel: Al Gore, Vice-presidente de Clinton e aspirante à presidência.

Um elementar sentido de justiça teria levado o Presidente Obama a retificar as conseqüências do infame julgamento que conduziu ao desumano, cruel, e especialmente injusto encarceramento dos cinco patriotas cubanos.

Sua Mensagem à União, seus discursos no Brasil, Chile e em El Salvador, e a guerra da NATO na Líbia, obrigaram-me a sublinhar, mais do que sua própria autobiografia, o mencionado discurso.
O quê é o pior desse pronunciamento e como explicar as aproximadamente 2 500 palavras que contém a versão oficial?

Do ponto de vista interno, sua falta total de realismo coloca seu feliz autor nas mãos dos seus piores adversários, que desejam humilhá-lo e vingar-se da sua vitória eleitoral em novembro de 2008. Não lhes basta ainda com o castigo a que o submeteram nos finais de 2010.

Do ponto de vista externo, o mundo tomou mais consciência do que significam para muitos povos o Conselho de Segurança, a NATO e o imperialismo ianque.

Para ser tão breve quanto prometi, explico-lhes que Obama começou seu discurso afirmando que desempenhava seu papel “detendo a força do Talibã no Afeganistão e perseguindo Al-Qaeda por todo o planeta”.

De imediato acrescenta que: “Durante gerações, os Estados Unidos da América têm desempenhado um papel singular como alicerce da segurança mundial e como defensor da liberdade humana”.

Isto é algo do qual, como os leitores sabem, os cubanos, os latino-americanos, os vietnamitas e outros muitos, podemos dar constância da sua veracidade.

Após essa solene declaração de fé, Obama investe uma boa parte do tempo em falar do Khaddhafi, seus horrores e as razões pelas quais os Estados Unidos e seus aliados mais próximos: “―Reino Unido, a França, o Canadá, a Dinamarca, Noruega, a Itália, a Espanha, a Grécia e a Turquia― países que têm lutado junto de nós durante decênios. [...] têm elegido cumprir com sua responsabilidade de defender o povo líbio.”

Mais adiante acrescenta: “…a NATO, tem tomado o comando para impor o embargo de armas e a zona de exclusão aérea.”

Confirma os objetivos da decisão “Como resultado da transferência para uma coligação mais ampla, centrada na NATO, o risco e o custo desta operação –para nosso exército e para o contribuinte estadunidense– reduzir-se-á significativamente.

“Por conseguinte, para aqueles que duvidaram de nossa capacidade para levar a cabo esta operação, quero deixar algo claro: os Estados Unidos fizeram aquilo que eu disse que faríamos.”
Volta às suas obsessões sobre Khaddhafi e às contradições que agitam sua mente: “Khaddhafi não tem abandonado o poder e, enquanto o não fizer, a Líbia continuará sendo um perigo.”

“Verdade é que os Estados Unidos não podem empregar nosso exército lá onde houver repressão e, levando em conta os riscos e custos de uma intervenção, sempre devemos fazer um balanço entre os nossos interesses e a necessidade de agir.”

“A tarefa que dei às nossas tropas (de) –proteger o povo líbio [...] conta com o apoio internacional e está respaldada por um mandato das Nações Unidas.”

As obsessões se reiteram uma e outra vez: “Se tentássemos derrocar Khaddhafi pela força, nossa coligação se quebraria. Teríamos [...] de enviar tropas estadunidenses ao terreno para cumprir essa missão ou arriscarmo-nos à possibilidade de matar muitos civis com os ataques aéreos.”
“…temos esperanças no futuro do Iraque, mas a mudança de regime ali levou oito anos e custou milhares de vidas estadunidenses e iraquianas e quase 3 milhões de milhões de dólares.”

Dias depois de iniciados os bombardeamentos da NATO começou a divulgar-se a notícia de que um caça-bombardeiro norte-americano tinha sido derribado. Depois se soube, por alguma fonte, que era verdade. Alguns camponeses ao verem descer um pára-quedas, fizeram o que por tradição fazem na América Latina: foram ver; e se alguém precisa, auxiliam-no. Ninguém podia saber como pensavam. Com certeza eram muçulmanos, estavam fazendo com que a terra produzisse e não podiam ser partidários dos bombardeamentos. Um helicóptero que apareceu repentinamente para resgatar o piloto disparou contra os camponeses, feriu gravemente um deles, e de milagre não os matou a todos. Como o mundo sabe, os árabes, por tradição, são hospitaleiros com seus inimigos, alojam-nos em suas próprias casas, e se colocam de costas para não ver o caminho que eles seguem. Inclusive um covarde ou um traidor não significaria nunca o espírito de uma classe social.

Só a Obama lhe podia passar pela mente a peregrina teoria que incluiu em seu discurso, como pode apreciar-se no trecho seguinte:

“Não obstante, haverá ocasiões em que nossa segurança não estará diretamente ameaçada, mas sim nossos interesses e valores. [...] sabemos que aos Estados Unidos, como a nação mais poderosa do mundo, pedir-lhe-ão ajuda com freqüência.

“Nesses casos, não devemos ter medo de agir, porém o peso das ações não deve recair apenas sobre os Estados Unidos. Como o temos feito na Líbia, nossa tarefa é então mobilizar a comunidade internacional para empreender uma ação coletiva.”

“Este é o tipo de liderança que temos mostrado na Líbia. É claro que, inclusive quando atuemos como parte de uma coligação, os riscos de qualquer ação militar serão elevados. Esses riscos foram constatados quando um dos nossos aviões sofreu uma avaria enquanto sobrevoava Líbia. Inclusive quando um dos nossos aviadores se lançou de pára-quedas, em um país cujo líder tem satanizado com tanta freqüência os Estados Unidos, numa região que tem uma história tão difícil com nosso país, este estadunidense não encontrou inimigos. Em vez disso, foi recebido por pessoas que o abraçaram. Um jovem líbio que veio em sua ajuda expressou: ‘Somos teus amigos. Estamos tão agradecidos desses homens que estão protegendo os céus.”

“Esta voz é apenas uma entre muitas numa região onde a nova geração se opõe a que lhe continuem negando seus direitos e oportunidades.”

“Mesmo assim, esta mudança provocará que o mundo seja mais complicado durante um tempo. O progresso será desigual e a mudança chegará de um modo bem divergente a diferentes países. Existem lugares, como o Egipto, onde esta mudança nos inspirará e infundirá nossas esperanças.”

Todo o mundo conhece que Mubarak foi aliado dos Estados Unidos, e quando Obama visitou a Universidade de El Cairo, em junho de 2009, não podia ignorar as dezenas de milhares de milhões de dólares subtraídos por aquele no Egipto.

Continuou com o emotivo relato:

“…acolhemos com beneplácito o fato de que a história esteja em andamento no Oriente Médio e no Norte da África, e que os jovens estejam à vanguarda. Porque em qualquer lugar onde as pessoas anseiem ser livres, encontrarão um amigo nos Estados Unidos. Afinal de contas, é essa fé, são esses ideais, os que constituem o verdadeiro indicador da liderança estadunidense.”

“…nossa fortaleza no exterior se sustenta na nossa fortaleza nacional. Esta sempre deve ser nossa Estrela Polar, a capacidade do nosso povo de alcançar seu potencial, adotar decisões inteligentes com nossos recursos, incrementar a prosperidade que atua como fonte do nosso poder, e erguer os valores que tanto apreciamos.”

“Olhemos para o futuro com confiança e esperança, não só no nosso próprio país, mas também em todos aqueles que têm anseios de liberdade em todo o mundo.”
A espectacular historieta me fez lembrar do Tea Party, do senador Bob Menéndez e da ilustre Ileana Ros, a loba feroz que desafiava as leis para manter seqüestrado o menino cubano Elián González. Ela é hoje nada menos que Chefe do Comitê de Relações Exteriores da Câmara de Representantes dos Estados Unidos.

Khaddhafi não se cansa de repetir que Al-Qaeda lhe faz a guerra e envia combatentes contra o governo da Líbia, porque ele apoiou a guerra antiterrorista de Bush.

Aquela organização teve no passado excelentes relações com os serviços de inteligência norte-americanos na luta contra os soviéticos no Afeganistão, e possui sobrada experiência sobre os métodos de trabalho da CIA.

O quê acontecerá se as denúncias de Khaddhafi fossem certas? Como explicaria Obama ao povo norte-americano que uma parte dessas armas de combate terrestre caísse nas mãos dos homens de Bin Laden?

Não teria sido melhor e mais inteligente ter lutado para promover a paz e não a guerra na Líbia?


segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dilma, 100 dias: o jogo de claro-escuro da imprensa

Por Washington Araújo

Partidos de oposição ao governo do ex-metalúrgico não economizaram em criar epítetos para rotular Dilma Rousseff. Chamá-la de "poste" virou lugar comum ao longo de 2010. Chamá-la de "marionete", de ser criada artificialmente no laboratório do ex-presidente Lula, pontuou os debates com os presidenciáveis no segundo semestre de 2010. Não faltou quem não arriscasse uma praga poderosa de que, uma vez eleita, não governaria por si mesma, estaria sempre à sombra de seu antecessor e criador. No mesmo caminho, presidenciáveis com algum bom índice de intenção de votos nas pesquisas Ibope/Datafolha/Vox/Sensus, não hesitavam em lhe atribuir um caráter fraco. É de José Serra a sentença definitiva: "Na primeira oportunidade, uma vez eleita, Dilma trai Lula!"

Mais alguns dias e teremos sobrevivido a todos esses prognósticos fracassados. Nem Dilma tem governado o Brasil como se fosse um poste, uma marionete, nem passa-nos a impressão, por mais leve que seja, de que para espirrar necessita de prévia autorização de seu antecessor no terceiro andar do Palácio do Planalto. Também nenhum de seus atos de governo, não obstante a torcida da grande imprensa para que tal ocorresse, nos autoriza a pensar em uma traição da presidenta ao ex-presidente.

Nesses quase 100 dias de 2011, o Brasil governado por uma mulher não foi para o limbo por tantos aventado, esperado, anunciado. A presidenta anunciou logo de partida um possível corte de formidáveis R$ 50 bilhões no Orçamento da União. Desancou o governo de Mahmoud Ahmadinejad logo em sua primeira entrevista à imprensa internacional: "Não apoio um governo que apedreja uma mulher". Referia-se à iraniana Sakineh Ashtiani.

Vendo as águas tragarem a precária infraestrutura da região serrana do Rio de Janeiro logo nas primeiras semanas de sua gestão, não pensou duas vezes, tomou um helicóptero, sobrevoou as áreas inundadas, destruídas, as casas soterradas, as vidas interrompidas e de pronto autorizou a imediata liberação de verbas para ajudar os infelizes sobreviventes da tragédia carioca.

Sinais de mudança
Montou um governo pra chamar de seu. Boa parte dos antigos colegas de ministérios nos anos Lula da Silva não voltou à Esplanada. Trouxe gente nova, como é o caso de Ana de Hollanda para a Cultura, evitou o fatiamento das estatais não entregando seu comando a partidos de sua base de sustentação. Pagou pra ver e viu. Assistiu à gritaria por um salário mínimo superior aos R$ 545,00 oferecidos por sua equipe econômica; não recuou, ao contrário, autorizou seus apoiadores no Congresso Nacional a levarem logo o tema a voto. Ganhou, e bem, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. E assim ficou conhecendo quem merecia e quem não merecia sua confiança nas duas Casas do Congresso.

Barack Obama veio ao Brasil e a presidenta o recebeu com elegância porém com firmeza, chegou mesmo a convidar os ex-presidentes para recepção ao colega americano nos belos salões do Itamaraty. Aceitaram o convite José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Luiz Inácio Lula da Silva, o único que o convidado chamou de "o cara", simplesmente não deu as caras. E ficou por isso mesmo, não obstante o esperneio da grande imprensa com "tamanha desfeita" para com o primeiro presidente negro a ocupar a Casa Branca.

Dilma diz e repete a quem quiser ouvir que a liberdade de imprensa é sagrada. E não fala isso para agradar a imprensa ou para lhe parecer meramente amistosa. A verdade é que a presidenta não se sente nem um pouco incomodada com as manhas e artimanhas da grande imprensa. Parece estar sempre a nos dizer que nossa grande imprensa "não fede nem cheira". E articulou com maestria para retirar da presidência da Vale, nosso principal portento empresarial na cena internacional, o economista Roger Agnelli, empresário queridinho da vasta maioria dos líderes da oposição e arrebatador da simpatia da totalidade de nossos comentaristas de política e economia, nos jornais e revistas, nas rádios e nos telejornais. Dilma bancou o nome de Tito Botelho Martins e o Bradesco e demais acionistas o referendaram. Simples assim.

A presidenta voltou também à carga na cena internacional. É que pela primeira vez em oito anos o Brasil votou – no dia 24/3/2011 – contra o Irã em um organismo da ONU, o Conselho de Direitos Humanos. O órgão aprovou por 22 votos a favor, 7 contra e 14 abstenções a designação de um relator especial para investigar denúncias de violações de direitos humanos no país persa. Trata-se de uma sinalização de mudança no governo Dilma Rousseff em relação ao de Lula, que vinha evitando críticas ao Irã. Desnecessário dizer que quem mais festejou a mudança do voto brasileiro foi nossa imprensa... afinal, estamos novamente ao lado dos "mocinhos", aqueles que controlam com mão de ferro o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O rumo e o remo
E como a imprensa se comportou nesses 100 dias? Foi o comportamento típico de quem espera cenários apocalípticos e, por um choque de realidade, se vê às voltas com uma normalidade política, econômica e institucional como há muito tempo não víamos no país. É que a grande imprensa jogou todas as suas fichas na certeza de que os temores (ou tremores?) da oposição demo-tucana iriam se concretizar com o avanço regular dos dias no calendário. E isso, com absoluta certeza, não aconteceu. É como se nossa grande imprensa não soubesse distinguir o que é propaganda política do que é realidade política. E também não soubesse separar até onde vai a militância política na imprensa e onde começa o verdadeiro trabalho jornalístico.

Os principais devaneios dessa imprensa se alternaram entre os seguintes blocos de temas principais:

1. Ruptura política (e quase) imediata da presidenta com o ex-presidente Lula;

2. Reconhecimento de uma herança pra lá de maldita nas contas públicas da União;

3. Formação de um ministério capenga, altamente fisiológico para atender ao imenso arco de alianças partidárias que lhe sustentaram a vitória na corrida para o Planalto.

Alheia à falta do que fazer de tantas editorias de Política, ressalte-se que ainda na segunda-feira (28/3), a presidenta Dilma voltou a afirmar que que "recebeu um país diferente, em condições de dar um salto maior ainda do que Lula conseguiu dar em seu primeiro mandato". E não ficou por aí: "Ele me legou essa herança e, tenham certeza, vou honrá-la".

Constatando que esse labirinto de ideias disparatadas não apresentariam no curto prazo qualquer porta de saída, a imprensa vistosa passou a semear diferenças entre o governo Lula e o governo Dilma. Foram generosos com Dilma ao louvar repetidas vezes sua discrição, seu jeito pouco afeito às câmeras, holofotes e microfones. E ressentidos ao tratar todo elogio à postura da presidenta como um petardo certeiro à postura do ex-presidente Lula. A pauta, o foco e o interesse dos colunistas da imprensa escrita – normalmente amparados nas marquises de O Estado de S.Paulo, a Folha de S.Paulo, O Globo, Veja e Época – tem sido o de elogiar a presidenta ao tempo em que trata de desmerecer seu antecessor no cargo. Um jogo de claro-escuro em que muitas vezes é apenas claro ou apenas escuro.

Não faltam colunistas se debatendo para encher suas colunas com algo que seja minimamente inteligente ou, na falta dessa qualidade, minimamente sensato. É o caso de Merval Pereira, que recentemente escreveu que "a presidenta Dilma Rousseff está acertando onde Lula havia errado e errando onde Lula havia acertado". Esta percepção de Pereira demonstra à larga a boa vontade com que nossa grande imprensa se esforça para oferecer uma cobertura equilibrada e justa à ocupante da Presidência da República.

Não há quem não veja a oposição ao governo Dilma Rousseff como desorientada, sem discurso, inábil e inapta para conduzir temas cruciais para o futuro do país como as reformas política, tributária e a nunca esquecida reforma previdenciária. E se não consegue se organizar ao menos para debater temas como esses, como imaginar que poderiam formar um contingente oposicionista bem qualificado para se opor às políticas de governo mantidas ou criadas por Dilma Rousseff?

Meu avô Venâncio Zacarias, velho líder salineiro, político calejado nos grotões do Rio Grande do Norte, diria que a oposição atual está "sem rumo e sem remo", e que nem "com o vento soprando a seu favor consegue seguir adiante". Sei não, a continuar nesse trote, a cobertura política do Planalto poderá deslocar muitos de seus vistosos colunistas para engrossar as editorias de Esportes, Mundo e Ecologia.

* Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email - wlaraujo9@gmail.com

PERU ABRE A SAFRA DE ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NA AMÉRICA LATINA, NESTE DOMINGO, DIA 10

O nacionalista Ollanta Humala lidera as intenções de voto para a Presidência do Peru, que decide a sucessão do direitista Alan Garcia neste domingo, dia 10 de abril.

Ollanta é o único candidato que tem lugar assegurado no segundo turno, conforme pesquisas divulgadas ontem pela Ipsos. Ex-militar, esquerdista que moderou seu discurso e tem apoio do PT e de Chávez, Omanta reúne 27,2% das preferências dos eleitores.

Em segundo lugar, vem Keiko Fujimori, filha do ex-residente Alberto Fujimori, com 20,5%.

Em 2011, a América Latina será palco de quatro importantes escrutínios presidenciais: além do Peru, a Guatemala vai às urnas em setembro; em outubro será a vez da Argentina e, em novembro, da Nicarágua.

(Carta Maior; 2º feira, 04/04/2011)

domingo, 3 de abril de 2011

O HORROR, O HORROR...

"...Mil corpos de homens e mulheres mortos durante o duplo cataclismo do dia 11 de março passado ainda estão apodrecendo nas poças d'água estagnadas ou entre os acúmulos de detritos ao redor da central nuclear d e Fukushima. Ninguém os recolheu e ninguém os cremou, porque estão muito radioativos...As autoridades ainda não sabem o que fazer com quem, morto, incute o mesmo terror que, na Idade Média, provocavam os que tinham a peste...(La Repubblica/IHU).
(Carta Maior; Domingo, 03/04/2011)