"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Comunicado, Saudação desde Havana aos participantes do foro POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO INTEGRAL [Enfoque Territorial]


La Habana, 18 de dezembro de 2012
A Delegação de Paz das FARC-EP saúda, desde Havana, aos participantes do foro POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO INTEGRAL [Enfoque territorial] que tem lugar no Centro de Convenções de Bogotá. Com o mais vivo interesse, seguimos as deliberações de suas 20 mesas de trabalho presididas por uma multitudinária e palpitante esperança de paz.
Nada mais transcendental para nós que a opinião do povo, de suas organizações sociais, em torno do problema nodal do conflito, o da terra e do território, porque de sua solução depende o destino da Colômbia. Segue sendo a estrutura latifundiária da posse da terra a causa fundamental da miséria no campo e da confrontação que dessangra a Colômbia; por isso, compartilhamos a opinião das múltiplas vozes que, desde sempre, e também neste foro, se levantaram para dizer que esse é fator que há que desarticular para que encontremos o caminho da paz. A paz deve vir nos ventos libérrimos da ruralidade a abraçar com seu amor e sede de justiça as cidades. Que nossas riquezas naturais sejam para resolver os graves problemas sociais que abatem o país e não o botim da pirataria transnacional. Entre todos, devemos parar a estrangeirização do território e a entrega da pátria a pedaços. Que os produtos da terra sejam para mitigar a fome e nos deem soberania alimentar. E que nossa relação com o meio ambiente entranhe um vínculo amigável, no plano do desenvolvimento sustentável, e garanta a vida e o bem-estar para as gerações futuras.
Frente aos sofismas da associatividade do pequeno proprietário agrário com o empresariado do músculo financeiro, frente ao espelhismo da falaz empresariação dos de baixo, estamos com a defesa dos redutos indígenas, das terras das comunidades afro e das zonas de reserva campesina, como espaços de resistência social às locomotivas governamentais da depredação. Não acreditamos na aliança da raposa com a galinha. Saibam que estamos pela defesa das Unidades Agrícolas Familiares, e para que a pequena e média propriedade rural se fortaleça em benefício de uma economia soberana. Os processos de restituição, redistribuição e formalização da terra para os despojados devem se dar sem dilações e sem as armadilhas que conduzam a outra etapa de acumulação por via legal. Urge ressarcir aos 6 milhões de deslocados e devolver às mãos do povo os mais de 7 milhões de hectares que lhes foram arrebatados a sangue e fogo pelo terrorismo de Estado.
Nossa Delegação tomará em conta e defenderá na mesa de diálogo os pontos de vista que sejam da reflexão e do consenso deste Foro de terras, e seguirá insistindo em que o povo deve ser ouvido diretamente através de suas organizações e porta-vozes no cenário de Havana. Para as FARC, é inaceitável que se pretenda amordaçar a voz do Constituinte Primário.
Delegação de Paz das FARC-EP

Ministro alerta: O Golpe está a caminho


O presidente Lula  manda recado de que pretende voltar às ruas e reeditar as caravanas da cidadania. Pra bom entendedor, isso significa que está disposto a disputar as eleições presidenciais de 2014 e voltar ao Palácio do Planalto, se for o caso, para defender seu legado.



O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, pediu que os militantes do PT saiam às ruas em 2013 para defender o ex-presidente Lula de acusações infundadas. Em um vídeo divulgado no site oficial do PT, Carvalho diz aos petistas que o próximo ano será brabo e que o bicho vai pegar".

"Vocês sabem desse ataque sem limites que estão fazendo ao nosso querido presidente Lula, e que tem um único objetivo: destruir nosso projeto, destruir o nosso PT, destruir o nosso governo. Portanto, vamos nos preparar para assim que passarem as festas, ir pra rua. Temos que defender nosso projeto", diz o ministro, na gravação.Como todos sabem, Lula e o PT estão sob ataque da imprensa e oposição

A mensagem divulgada por Gilberto  Carvalho defende as políticas aplicadas pelo PT no governo federal nos últimos dez anos e pede que os militantes se mobilizem para defender o projeto do partido e a figura de Lula.

"O povo sabe o que está ganhando de dignidade, de reconhecimento. de esperança, de respeito e de um novo Brasil E por isso que eu tenho certeza de que o povo vai se mobilizar em defesa do Lula, em defesa do nosso projeto", declara o ministro. "Vamos ter orgulho do nosso PT, vamos ter orgulho do Lula, vamos ter orgulho do trabalho que até hoje nós realizamos.

O ministro diz que os petistas devem, ir às mas para "esclarecer" os casos à população. "Precisamos fortemente da nossa militância na rua, conversando com o povo, esclarecendo as pessoas, mostrando esse projeto que está mudando o Brasil", afirma  Gilberto Carvalho no vídeo.

Comunicado, Foro Militar



La Habana, República de Cuba. 14 de dezembro de 2012.
Sede dos diálogos pela paz com justiça social para Colômbia.



COMUNICADO. 
Às ações de guerra que contra o povo e contra o processo de paz se desprenderam desde a institucionalidade estatal, se soma hoje a decisão do Congresso da República de aprovar a reforma da justiça penal militar.
Marchando contra os interesses das vítimas do terrorismo de Estado, e não ouvindo a indignação nacional e internacional dos que advertiam, que com a reforma, se colocava nas cenas dos agentes criminais do regime a coroa da impunidade, o aparelho legislativo, em consonância com as decisões militaristas do governo, optou por abrir campo ao foro militar.
Enquanto estende sua débil retórica de paz, a aliança do desaforo selada entre governo e legislativo blindou sua máquina de guerra para continuar suas ações de terra arrasada contra o movimento popular, que a viva voz exige o cessar da confrontação e soluções aos profundos problemas sociais que lhe tem submerso na miséria.
Antes, a firme determinação popular impediu que prosperasse um vulgar projeto de reforma à justiça que este mesmo Congresso pretendeu impor também em aliança com o governo; hoje, o amor de pátria e a dignidade nacional devem ser sentidos para que os crimes cometidos contra o povo não fiquem no esquecimento.
Mais de 3.500 são os casos dos chamados “falsos positivos”, ou casos de civis assassinados por militares. De 1.200 casos que entraram em inquérito, apenas 665 passaram para a etapa de investigação e somente 72 chegaram a julgamento. O nível de impunidade que reina, para vergonha de todos, alcança 98% para os casos que estão em julgamento. E esta situação impera num cenário em que nenhum esclarecimento sério tiveram os casos de centenas de fossas comuns repletas de milhares de assassinados por conta do terrorismo de Estado.
O país está se perguntando: que Fiscal leva o caso do ex-ministro de Defesa Camilo Ospina, que firmou com seu punho e letra a Diretriz 029, que desfez estes crimes de lesa-humanidade? O país se pergunta, quem está investigando a Álvaro Uribe Vélez como chefe deste ministro do terror?
As FARC-EP, ao tempo em que condenam esta terrível passagem para a impunidade, advertem sobre os ventos de guerra que com esta decisão calamitosa, o governo – [através] da mão do desacreditado Congresso colombiano – anuncia ao país.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Venezuela: o começo de uma nova etapa



Por Eric Nepomuceno
Forte: Carta Maior
Nas eleições regionais do domingo, 16 de dezembro, o Partido Socialista Unido da Venezuela, o PSUV do presidente Hugo Chávez, varreu o país: ganhou em 20 dos 23 estados. Entre os conquistados estão cinco que eram governados pela oposição. E, desses cinco, pelo menos dois têm sabor especial: Zulia, maior produtor de petróleo, e Carabobo, o terceiro mais populoso do país. 
Já a oposição manteve o governo de Miranda, e essa foi uma vitória de importância capital: o vencedor, Henrique Capriles, o mesmo que foi amplamente derrotado por Hugo Chávez na recente disputa pela presidência, venceu Elias Jaua, que até outubro era o vice-presidente da República.

O resultado das eleições regionais é, de certa forma, bom para os dois lados. Para a oposição, porque manteve Capriles em evidência, reforçado por haver derrotado alguém muito chegado a Chávez. Depois de ter conseguido unir todos os oposicionistas ao redor de seu nome e obter uma votação significativa (cerca de 46%) em outubro, perder o governo de Miranda congelaria sua carreira. Com a vitória se confirma como principal nome oposicionista numa eventual nova eleição presidencial. 

Para o PSUV de Chávez, o fato de conquistar 20 dos 23 governos em disputa reafirma sua consistente maioria no âmbito nacional, o que não deixa de ser uma sólida base para o inicio da nova e delicada etapa que se abre na Venezuela.

Qual nova etapa? A do desafio de manter a revolução bolivariana sem seu principal líder. Porque, a esta altura, está praticamente descartado que Hugo Chávez se recupere da cirurgia que fez em Cuba a tempo de assumir, no dia 10 de janeiro, seu quarto mandato presidencial. Só os especialmente otimistas ou os olimpicamente ingênuos acreditam nessa possibilidade. 

Não foi à toa, e muito menos um gesto histriônico, o pedido de Chávez para que o povo bolivariano apoie Nicolás Maduro, nomeado seu sucessor. 

É muito alta a possibilidade de que dentro de menos de dois meses os venezuelanos sejam novamente convocados às urnas para escolher seu presidente. Correm rumores de que se estaria procurando uma alternativa, como prorrogar o prazo para Chávez assumir. Ainda assim, convém se preparar para novas eleições. 

Chávez, apesar de seu voluntarismo surpreendente e de sua ousadia muitas vezes desconcertante, é um político habilidoso e experiente. E, em momentos críticos, soube mostrar-se realista. Foi assim agora, quando exibiu friamente a realidade: são grandes a possibilidades de que ele não se recupere, ou não possa mais exercer plenamente a condução do processo político que inaugurou há treze anos. Um processo político tenso, que mudou a face do país e o cotidiano de milhões de venezuelanos e que certamente exige uma capacidade física que ele já não tem nem terá. 

Admitiu com todas as letras que o que está em risco elevado é sua própria vida. Se voltar, não terá as condições de antes – mesmo considerando-se esse ‘antes’ como o último ano e meio, de extremos sacrifícios pessoais causados pelo câncer. Será um Chávez extremamente debilitado fisicamente: afinal, foram quatro operações prolongadas e complexas em pouco mais de dezoito meses.

O comandante da revolução bolivariana sabe disso, e deixou claro que a Venezuela começa a viver uma etapa de transição. Voltando ou não, o cenário será outro. Seu estado de saúde passou a ser um obstáculo quase intransponível para a condução do país. 

Assim, de certa forma ele se despediu do poder. E essa despedida inaugura um período de profundas incertezas não só na Venezuela, mas em toda a América Latina. 

Um aspecto merece atenção: a transição venezuelana está acontecendo muito antes do que se podia prever. Apesar de sua saúde debilitada, Chávez não demonstrava um estado tão grave como o que admitiu ao comunicar que iria se operar novamente e que por isso nomeava um sucessor. Sob muitos aspectos, é possível concluir que nem ele mesmo soubesse da sua verdadeira situação. 

Diante desse quadro, as eleições do domingo 16 de dezembro foram um teste positivo para o processo político conduzido por Chávez até aqui. Conquistar 20 de 23 estados foi um passo importante. Miranda ficou onde estava, ou seja, com a oposição. Somados, o eleitorado de Zuila e Carabobo, agora em mãos chavistas, mais que dobra o do estado governado por Henrique Capriles. Além disso, em 12 desses 20 estados foram eleitos militares seguidores do comandante da revolução bolivariana.

Nicolas Maduro, se não sai muito fortalecido das eleições regionais – afinal, ele mal teve uma semana como presidente interino –, ao menos passou a pisar um terreno mais sólido para a disputa eleitoral que, a menos que ocorra um milagre, terá pela frente. Também no cenário externo ele conta com um apoio que tem reflexos nítidos entre os chavistas, principalmente nas Forças Armadas: é um interlocutor privilegiado dos cubanos. Raúl Castro manifestou ao presidente venezuelano, em mais de uma ocasião, sua simpatia pelo chanceler chavista. Isso talvez sirva para acalmar, no seu devido momento, os setores militares que preferiam ter um de seus pares nomeado sucessor de Chávez. 

Já as muito diferentes e às vezes antagônicas correntes que integram o movimento bolivariano são mais difíceis de permanecer aglutinadas sem a figura centralizadora de Chávez. Seu sucessor, considerado negociador hábil, terá pela frente, em todo caso, um argumento importante e indiscutível: o país é, definitivamente, outro. A maioria da população foi beneficiada ao longo dos últimos 13 anos, e não aceitará facilmente pôr em risco suas conquistas, quer diante de uma oposição conservadora, quer diante de divisões internas dentro do próprio processo político atual.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A espetacularização e a ideologização do Judiciário



*Por Leonardo Boff

É com  muita tristeza que escrevo este artigo no final da tarde desta quarta-feira, após acompanhar as falas dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal  470 sob julgamento no STF.  Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.

Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades e o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.
Desde A ideologia Alemã, de Marx/Engels (1846), até o Conhecimento e interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.
Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?
A ideologia pertence ao mundo do escondido e do implícito. Mas há vários métodos que foram desenvolvidos, coisa que exercitei anos a fio com meus alunos de epistemologia em Petrópolis, para desmascarar a ideologia. O mais simples e direto é observar a adjetivação ou a qualificação que se aplica aos conceitos básicos do discurso, especialmente, das condenações.
Em alguns discursos, como os do ministro Celso de Mello, o ideológico é gritante, até no tom da voz utilizada. Cito apenas algumas qualificações ouvidas no plenário: o mensalão seria “um projeto ideológico-partidário de inspiração patrimonialista”, um “assalto criminoso à administração pública”, “uma quadrilha de ladrões de beira de estrada” e um “bando criminoso”. Tem-se a impressão de que as lideranças do PT e até ministros não faziam outra coisa que arquitetar roubos e aliciamento de deputados, em vez de se ocuparem com os problemas de um país tão complexo como o Brasil.
Qual o interesse, escondido por detrás de doutas argumentações jurídicas? Como já foi apontado por analistas renomados do calibre de Wanderley Guilherme dos Santos, revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.
A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Seu destino e condenação é a Planície. No Planalto poderia penetrar como  faxineiro e limpador dos banheiros.  Mas nunca como presidente.
Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa. Dificilmente, se tolera que através do PT os lascados e invisíveis começaram a discutir política e a sonhar com  a reinvenção de um Brasil diferente. Tolera-se um pobre ignorante e mantido politicamente na ignorância. Tem-se verdadeiro pavor de um pobre que pensa e que fala. Pois, Lula e outros líderes populares  ou convertidos à causa popular como João Pedro Stedile, começaram a falar e a implementar políticas sociais que permitiram uma Argentina inteira ser inserida na sociedade dos cidadãos.
Essa causa não pode estar sob juízo. Ela representa o sonho maior dos que foram sempre destituídos. A Justiça precisa tomar a sério esse anseio a preço de se desmoralizar, consagrando um status quo que nos faz passar internacionalmente vergonha. Justiça é sempre a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o menos, a virtude que perpassa todas as virtudes (“a luminossísima estrela matutina” de Aristóteles). Estimo que o STF não conseguiu manter a justa medida. Ele deve honrar essa justiça-mor que encerra todas as virtudes da polis, da sociedade organizada. Então, sim, se fará justiça neste país.
* Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é professor aposentado de ética da Uerj.

[Transformar a sociedade] A pulga que incomoda


Selvino Heck
Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República
A pulga, esse animal minúsculo que a gente quase não vê, incomoda, e muito, quando está debaixo da roupa. A gente sente algo deslizando de leve, não sabe bem o que é. Escapa rente à pele e ao tecido, circula, fazendo coceira, nos pelos da perna ou se emaranha nos cabelos. Pula que só, corre que nem se vê, escapa dos dedos igual sabonete liso no banho, como sapo que pula no meio do banhado e desaparece.
Lembrei da pulga incômoda no VIII Encontro Macro Norte da Rede de Educação Cidadã (RECID), de 23 a 28 de novembro, em Rio Branco, Acre, com participação de 60 educadoras/es populares e lideranças socais de todos os Estados do Norte. O tema central era: "Pela Unidade da Educação popular e das Bandeiras de Lutas na Amazônia”, com o subtema: "Transformação social é possível com educação popular para uma outra Amazônia”.
Falei na análise de conjuntura inicial do Encontro: "A América Latina, pela luta do seu povo e dos movimentos sociais e populares, vem e continua se contrapondo nas últimas décadas ao modelo neoliberal e, pela primeira vez na história, não deixa as elites reinarem sozinhas. Num mundo capitalista ainda hegemônico, mas em crise, numa América do Sul e Latina que resistem e buscam a mudança, o esforço central é a construção e formulação de um projeto de desenvolvimento alternativo que coloque no centro valores como a igualdade, a soberania, a distribuição de renda, o respeito ao meio ambiente, um novo homem, uma nova mulher. É preciso fazer o debate das grandes questões: projeto de desenvolvimento, estratégia de mudança, democratização das políticas públicas. Por outro lado, é preciso pôr o pé no barro, organizando o povo na base. ‘Nosso papel é esse mesmo: ser pulga e incomodar’. Quanto maior for essa consciência, mais avanços vão acontecer. Qual o papel da RECID e dos movimentos sociais que estão envolvidos nesse processo? Como podemos avançar nesse processo? Como é que a gente vai aglutinar forças? Como vamos pensar um novo processo de educação popular?”.
O VII Encontro Macro Norte da RECID desenrolou-se num clima de celebração e debate. Na mística de abertura, foram relembrados mártires, tendo como cenário um caminho em meio à floresta amazônica com elementos naturais e típicos da região –o buriti, sementes de açaí, folhas, flores, o rio, os pássaros-: Marçal Tupã, Che, Wilson Pinheiro, Chico Mendes, Irmã Dorothy, Adelino Ramos, José Cláudio Ribeiro da Sila e Maria do Espírito Santo da Silva. E era declamada uma frase de cada mártir, como a de Irmã Dorothy: "Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar”.
Na saudação em nome de Tião Viana, governador do Acre, Marcos Afonso, Diretor da Biblioteca Pública, disse: "Quando acabamos de vivenciar a mística, todos os mártires levantaram como fênix e fizeram a pergunta: este é o meu legado. Qual o seu? Quando participo de um Encontro da RECID, meu coração se enche de esperança. A RECID é um espaço que vem dando oportunidade para as pessoas que são excluídas. Eu olho para esse trabalho e vejo que a luta vale a pena, e sempre vai valer”.
A bela frase –‘nosso papel é esse mesmo: ser pulga é incomodar’– não é minha. É tirada de uma entrevista de Cândido Grzybowski, ‘um gaúcho de fala mansa, mas de convicções rígidas’, Diretor Geral do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), fundado pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (O Globo – AMANHÃ, 20.11.12, p. 14). É como disse no Encontro Iremar Ferreira, do Instituto Madeira Vivo: "Temos que ser críticos em qualquer lugar que estejamos. Nosso papel é: conhecendo a realidade, fazer a mobilização. Com a criticidade se ampliando, vamos conseguir ter uma nova interpretação da sociedade em que vivemos. E a gente tem que fazer a leitura de mundo com o povo e não pelo povo.” Ou nas palavras de Vera Lúcia Lourido Barreto, da equipe do TALHER nacional: "Queremos uma educação popular crítica freireana. A missão é estar com os pobres, com os empobrecidos de cidadania, de políticas públicas, de direitos sociais”.
A Rede de Educação Cidadã, que completa 10 anos em 2013, muitas vezes é pulga que incomoda. Mas ao mesmo tempo aponta caminhos e, no saber popular e coletivo, procura seguir os passos de Chico Mendes: "No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras; depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade.”
Em catorze de dezembro de dois mil e doze.

A democracia em Cuba


Elaine Tavares
Jornalista do Instituto de Estudos Latino-americanos

Fonte:  Adital

A ilha de Cuba viveu no último dia 21 de outubro as suas eleições gerais. Por todos os lugares as pessoas escolheram seus delegados municipais, provinciais e nacionais. O voto não é obrigatório, mas a porcentagem de votantes passa dos 80%. É a democracia socialista se expressando de tal forma que uma pessoa que só conheça a democracia liberal jamais poderá entender. Quem explicou os princípios da vida política cubana foi a professora Mylai Burgos Matamoros, da Universidade Nacional Autônoma do México, que esteve em Florianópolis para a VII Conferência Latino-Americana de Crítica Jurídica, evento integrante do Programa de Pesquisa Derecho y Sociedad, coordenado pelo professor Antônio Carlos Wolkmer e Oscar Correas e da Revista Crítica Jurídica.


Segundo ela, Cuba precisa ser entendida como uma democracia que não é capitalista, portanto, ancorada em outra forma de organizar a vida. Olhar para a ilha com olhos liberais não serve para compreender a realidade daquele país. Mylai conta que Cuba passou por três grandes fases de organização política. A primeira delas foi do triunfo da revolução até 1968 quando todo o sistema começou a ser estruturado. As empresas estrangeiras foram nacionalizadas, realizou-se uma reforma agrária radical e começaram a se formar as Organizações Sociais e de Massa, espaço concreto da democracia cubana. Essas organizações são entidades que congregam setores específicos da população como as mulheres, os estudantes, os agricultores, os artistas, desportistas etc... É a partir dessas organizações que as pessoas participam ativamente da vida política. A adesão a uma federação ou entidade de massa é facultativa, só entra quem quer, mas é comum que todos se filiem por conta da já tradicional atitude de participar das decisões.


Também nos anos 60 nasceram os famosos CDRs, Comitês de Defesa da Revolução, porque Cuba era -e ainda é depois de meio século de bloqueio- um país em guerra com a maior potência do mundo. Assim, era necessário que em cada rua das cidades houvesse um Comitê para observar e vigiar, impedindo agressões e ataques terroristas por parte do império. "É desses comitês que vem a raiz da participação popular em Cuba. Todo mundo queria fazer parte, cuidar da revolução e dos CDRs para as demais organizações passou a ser um salto natural. Em Cuba somos os mais críticos. Criticamos tudo, mas é porque temos formação cultural de qualidade e queremos aprofundar o socialismo".


Mylai lembra que a ilha tem apenas um partido, mas ao contrário da estrutura numa democracia liberal, não é o partido o que governa. Ele tem apenas a função de aplicar o que é definido pelas organizações sociais e de massa nas suas estruturas democráticas. "No mundo liberal há muitos partidos e quem governa é um pequeno grupo. Em Cuba há um único partido que encaminha as políticas, mas quem governa é a população a partir das organizações. É radicalmente diferente".

A segunda fase da organização política de Cuba vai do ano 68 até 1986. Começa com a morte de Che Guevara na Bolívia e o acirramento do bloqueio econômico dos Estados Unidos. A derrota da missão de Che, que era a de fazer a revolução socialista em toda a América Latina, frustra toda uma linha de atuação que Cuba tinha traçado para o continente. Sem o apoio dos países latino-americanos e totalmente asfixiada pelo bloqueio ianque, não houve outra alternativa a não ser virar-se para a então União Soviética. "Foi um tempo de reconfiguração do sistema. Tivemos de nacionalizar tudo mesmo, até o sapateiro, o eletricista, tudo, era um tempo de muita dificuldade. Novas instituições foram criadas, novas leis, novas formas de resistência.

O terceiro período de organização política começa em 1986 com a queda do regime soviético. Sem parceiros na América Latina, bloqueada pelos EUA e sem a União Soviética a pequena ilha do Caribe se viu numa sinuca de bico. Estava sozinha e tinha de resolver seus problemas consigo mesma. Assim, em meio a uma crise gigantesca, Cuba decidiu abrir-se para o turismo, com todas as implicações boas e ruins que isso poderia trazer. Hoje, esse ainda é um tema bastante discutido na ilha. "Eu mesma faço parte de um grupo que tem criticado bastante os novos rumos de Cuba. Nós queremos mudanças para aprofundar o socialismo".


Questionada sobre se existe mesmo democracia em Cuba, Mylai reafirmou que a democracia socialista não é a mesma a que estamos acostumados no mundo liberal. "Para nós, a democracia não é unicamente representativa, ela é direta. É uma articulação dialética entre partido, organizações e representantes. Nossos delegados municipais (vereadores) provinciais (deputados estaduais) e nacionais são eleitos por votação direta e secreta. Tudo começa no bairro, é ali que os nomes que vão disputar a eleição aparecem. As organizações se reúnem, discutem e indicam seus nomes. Esses nomes se apresentam para a eleição. Não há propaganda aos moldes liberais. As pessoas se conhecem e cada um sabe se aquele candidato é sério, é honesto, tem trabalho comunitário".


Uma vez escolhidos os delegados nacionais (que seriam equivalentes aos nossos deputados federais), que formarão a Assembleia Nacional do Poder Popular, são eles que definem, no grupo, um conjunto de 31 membros que formarão o Conselho de Estado, órgão que terá o papel que tem, no nosso modelo, o de poder executivo. Ou seja, as políticas discutidas e aprovadas desde a base, são executadas por esse Conselho. Ao final, esse grupo de 31 pessoas elege o presidente do Conselho que é o representante legal do país. "Isso significa que nesses anos todos que Fidel foi presidente do Conselho, ele teve de passar por todo o processo de eleição que todos passam. O nome dele é indicado pela organização de bairro a qual ele faz parte, vai para a cédula e as pessoas votam nele. Todos esses anos ele tinha sido eleito, democraticamente. Por isso não faz o menor sentido falar em ditadura".


Outra diferença do regime cubano para o que existe no mundo liberal é o nível de compromisso que os delegados eleitos têm com as bases que os elegeram. A cada seis meses esses delegados, municipais, provinciais e nacionais, precisam prestar contas de seus atos às suas organizações de base. O controle é feito de forma direta, nas assembleias populares. E se, por algum motivo, as promessas e os compromissos assumidos não forem cumpridos, esses delegados têm os seus mandatos revogados pelos eleitores. Em Cuba, nenhum dos delegados recebe dinheiro para servir ao povo. Cada delegado segue com sua vida e seu trabalho, servir como tal é só mais uma atribuição. Poucos delegados são os que têm como função específica apenas tarefas de Estado.


Cabe lembrar que em Cuba não há divisão de poderes como no mundo liberal que se divide em Legislativo, Executivo e Judiciário, cada um separado e gerindo a si mesmo. Na democracia socialista o princípio básico é a unidade de poder. E o que isso significa? Que o poder maior é o popular. Tudo está concentrado na Assembleia Nacional do Poder Popular. Tanto os parlamentares, como os executivos e os juízes são obrigados a prestar contas. No sistema jurídico também há um elemento bastante diferente do sistema capitalista burguês. Todo tribunal, em qualquer instância é formado por um juiz togado, de carreira, e dois leigos, porque os cubanos entendem que a lei não é apenas uma letra morta que deve ser  cumprida a ferro e fogo. Há que se levar em conta outras variáveis que só um leigo pode perceber. "Isso dá mais segurança para a população sobre o sentido de justiça".


No que diz respeito ao sistema econômico e social, a democracia socialista também é bastante diferente. Nela a economia é planificada, mas isso não significa que não exista a propriedade privada. O que não há é o livre mercado. "como quase toda a produção cubana vai para o exterior, o governo precisa planejar a distribuição dos recursos para que todos tenham acesso à comida e aos bens básicos. Temos saúde e educação totalmente gratuitas, os medicamentos são muito baratos e Cuba é ponta de lança nessa área. Assim, os recursos são centralizados para poderem ser distribuídos com justiça", diz Mylai.


Desde 1992 Cuba abriu espaço para atividades privadas. O que o estado controla são os meios fundamentais de produção. Mas, há muitas cooperativas e também existem ainda muitas terras privadas. Também é comum em Cuba o direito ao usufruto gratuito de bens como terra e moradia. Mais de 90% vivem em casas próprias. "A prioridade é sobre a posse da propriedade. Se uma família vive numa casa que é de outra pessoa, e essa outra pessoa tem mais de uma casa, a família adquire o direito de viver ali para sempre. Não há incentivo para o acúmulo de bens".


Segundo Mylai, a constituição cubana, discutida e aprovada pela população, mantém o limite sobre três direitos: o de liberdade de expressão, de associação e de manifestação. O limite de liberdade de expressão vale apenas para a mídia oficial. Os meios não podem divulgar conteúdo que estejam contra o socialismo. Mas, os meios alternativos podem, existem e são muitos. Alguns deles até financiados por organizações estadunidenses. "Os cubanos criaram esses limites porque são um povo que vive sob o ataque sistemático dos Estados Unidos. É uma proteção. Todo sistema se protege e Cuba não é diferente. Se formos avaliar os sistemas de proteção do capitalismo também vamos encontrar coisas que alguns não  vão gostar".


Para a professora cubana a caminhada de Cuba é uma experiência única, cheia de avanços, retrocessos e contradições. Mas, é um processo que vem sendo construído pelo povo cubano e só a ele cabe o direito de mudar ou seguir aprofundando o socialismo. "É certo que temos hoje uma geração que não viveu a revolução, que está bastante conectada com as promessas do capitalismo, afinal, a ilha nunca esteve isolada. Sempre fomos um país aberto a toda a gente. Então, é natural que aconteçam mudanças, novas ideias, novas formas de organizar. Há um desejo muito grande de conhecer o mundo, viajar, vivenciar as experiências que a qualidade cultural criada em Cuba exige. E, ao mesmo tempo, há uma impossibilidade por conta das dificuldades financeiras. Então é sempre uma tensão permanente". Mylai está inserida num grupo que discute e reivindica o aprofundamento do socialismo. Vê com reservas certas aberturas e propostas hoje trabalhadas pelo governo. "Faço parte da terceira geração, que tem avós e até pais que fizeram a revolução. Morando no México, vivencio o capitalismo na pele e tenho convicção de que o sistema socialista é melhor. Há que aperfeiçoá-lo".

domingo, 16 de dezembro de 2012

Juiz declara constitucional Lei de Méios na Argentina


Buenos Aires - O procurador Fernando Uriarte já havia se pronunciado pela constitucionalidade dos artigos da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual questionados pelo grupo Clarín, e havia recomendado ao juiz Horacio Alfonso que rejeitasse o pedido de inconstitucionalidade apresentado pelo grupo multimídia. Desta maneira se resolve a denominada “questão de fundo” a respeito de como devem se adequar os diferentes grupos midiáticos à quantidade de concessões que cada um deles pode ter. Veja aqui a sentença completa.

O pronunciamento de Uriarte explicava que a demanda do Clarín demonstrou ser de natureza exclusivamente patrimonial, como já assinalou a Corte em maio último, baseada no direito de propriedade e de livre comércio. Embora a empresa tenha invocado, por exemplo, que a limitação de concessões afetava a liberdade de expressão, para o procurador não “foram expostos argumentos relevantes para invalidar as normas questionadas em virtude de afetação dos direitos constitucionais de liberdade expressão da imprensa”.

O ângulo da análise constitucional, sustentou o procurador, tem que ser outro. Uma de suas conclusões era de que o Clarín não está em condições de alegar “uma situação jurídica consolidada” porque se encontrava anteriormente “em situação de infração ao regime de multiplicidade de licenças” da velha lei de Radiodifusão (22.285). “Deve descartar-se”, sustentou, “o pedido de inconstitucionalidade baseado na garantia da inviolabilidade da propriedade uma vez que nada obsta que uma nova lei modifique, suspensa ou mesmo destrua um mero interesse, uma simples faculdade ou um direito em expectativa”. Em sua resolução de terça passada, o procurador também sustentou que “não é lícito invocar um suposto direito adquirido para paralisar o exercício da função normativa do Estado”.

A decisão de Uriarte referia-se, em essência, aos artigos 41 (que limita e exige autorização para a transferência de licenças), 45 (que estabelece os limites de concentração de licenças), 48 (multiplicidade de licenças) e 161 (fixa o prazo de um ano para abrir mão das concessões em excesso) da Lei de Meios. E afirmava que em nenhum caso o Clarín apresentou razões válidas que permitisse aventurar uma declaração de inconstitucionalidade, que foi assim rejeitada.

Além disso, sustentou, “sob a aparência de um pedido de inconstitucionalidade” o que “persegue na verdade” é que “o Poder Judiciário decida sobre o acerto ou desacerto do regime de transferência, multiplicidade e adequação das licenças de comunicação audiovisual desenhado pelo Congresso no âmbito de suas atribuições constitucionais”. “Não pretendem que o Poder Judiciário exerça o controle constitucional que lhe é próprio, mas sim que atue substituindo um dos poderes políticos, cuja gestão não os satisfaz”.

Tradução: Katarina Peixoto
fonte: Carta Maior

EUA condena ex-chefe de segurança de Uribe a 13 anos de prisão

O ex-general colombiano Mauricio Santoyo, de 53 anos, que foi chefe de segurança do ex-presidente Álvaro Uribe, foi condenado nesta sexta-feira (14) nos Estados Unidos a 13 anos de prisão e 5 em liberdade supervisionada e a pagar US$ 125 mil de multa por dar apoio material a grupos paramilitares colombianos.


Santoyo Ex-general colombiano Mauricio Santoyo é condenado nos EUA
O ex-general, com uma carreira de quase 30 anos na polícia colombiana, foi condenado pelo juiz do distrito leste de Virgínia, James Cacheris, por apoiar uma organização terrorista estrangeira, a Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Ele se declarou culpado e afirmou ter colaborado com o narcotráfico.

Santoyo, de 54 anos de idade, se transforma assim no oficial de mais alta patente da força pública colombiana acusado ou condenado nos Estados Unidos.

Santoyo saiu da Polícia Nacional em 2009 e conheceu Uribe em 1995, quando integrava a unidade antissequestro da Polícia, depois custodiou sua campanha eleitoral e prestou serviços em seu primeiro mandato (2002-2006).

O ex-general, que também exerceu o comando do Corpo Elite Antiterrorista da Polícia, se entregou às forças estadunidenses em junho, após saber que o procuravam por acusações de cumplicidade com as AUC, a quem ajudava em suas operações, que incluíam atos de terrorismo e narcotráfico, em troca de suborno.

Farc: 2ª etapa do diálogo de paz deve terminar no sábado


A mesa de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (Farc-EP) entra nesta sexta-feira (14) em uma nova jornada, enquanto continua a expectativa sobre o que foi debatido entre ambas as partes nestes últimos 25 dias.


A ponto de concluir a segunda rodada, que deve terminar neste sábado (15), o governo e a guerrilha continuam buscando soluções para impulsionar uma política de desenvolvimento agrário integral nas regiões que permita um progresso social e econômico igualitário no país.

O acesso e uso da terra é a constante no diálogo, iniciado no dia 19 de novembro no Palácio de Convenções, em Havana, ao qual se somaram nos últimos dias diversos especialistas neste tema, alguns da Universidade Nacional.

São seis os incisos sobre a terra contidos no Acordo Geral, assinado no dia 26 de agosto passado, apenas um deles versa sobre as terras improdutivas, a formalização da propriedade, a fronteira agrícola e a proteção de zonas de reserva. Para além de expressar suas opiniões, as partes trabalham sobre a base das mais de duas mil propostas recolhidas nos diferentes setores da sociedade colombiana através das mesas regionais que secionaram em nove departamentos do país nos últimos meses.

A estas iniciativas incorporam-se as formuladas pelo site www.mesadeconversaciones.com.co, disponível desde 7 de dezembro.

Com apoio de Vermelho

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A paz en Colômbia?



Por: Nestor Kohan

Fonte: www.marchapatriotica.org

Nos pedem uma opinião sobre o processo de paz em Colômbia.
Resulta difícil desde tão longe. Sempre recordamos aquela lúcida
advertência do velho historiador argentino Rodolfo Pulggrós, quem se
ria da petulância portenha afirmando que, como os revolucionários
argentinos não pudemos tomar o poder nem fazer nossa própria
revolução socialista, andamos pelo mundo inspecionando revoluções
alheias. Feita esta exceção, cremos que, como integrantes da Pátria
Grande latino-americana, ainda que não sejamos colombianos,
podemos ao menos opinar ou dar nosso ponto de vista.

Na Colômbia há guerra social. Este é o ponto de partida. Uma guerra
de longa data, não só conjuntural como também estrutural.



Não há um grupo de delinquentes que alguma vez foram rebeldes
idealistas e hoje estão sedentos de sangue e enlouquecidos pela
cocaína, como têm querido pintar a insurgência desde o poder.



Tampouco existe um elenco de políticos prolixos e honestos
e empresários empreendedores que têm dificuldades para
desenvolver um capitalismo sério porque os terroristas não
querem viver em paz e harmonia, como têm querido mostrar
os grandes monopólios de comunicação à classe dominante
colombiana, tanto no plano político como na esfera econômica.



De igual modo, os militares oficiais da Colômbia [pelo menos
seus quadros dirigentes e altos oficiais] não são gente patriótica,
apegados à lei, defensores do mundo livre, da liberdade do
pensamento e das tradições altruístas e pluralistas do ocidente.



Finalmente, os assessores norte-americanos e israelenses,
o pessoal ianque nas bases militares, os aviadores que
bombardeiam população civil, os espiões que falam inglês
[ou hebraico] e os senhores do Pentágono que elaboram os
planos de guerra contra insurgente não são gente boa, doce e
pacífica, excelentes pais de família, como aparecem nos filmes de
Hollywood de um sábado à tarde.

Não. As coisas por seu nome. Ao pão, pão; ao vinho, vinho.

Em Colômbia há guerra social. Começou em 1948, com o assassinato
de Jorge Eliécer Gaitán por parte da classe dominante local e com
intervenção da inteligência ianque, ainda que as matanças e os
genocídios contra o povo são muito anteriores [basta recordar o

massacre das bananeiras em 1928 em mãos da empresa tristemente
célebre United Fruit]. Essa guerra enfrenta, desde há mais de 60
anos, o campo popular em suas diferentes expressões [civis e
político-militares] contra a classe dominante nativa e estrangeira. As
Forças Armadas oficiais, as mais belicosas e sangrentas de Nossa
América, estão dirigidas diretamente pelo Pentágono e pelo Comando
Sul das Forças Armadas norte-americanas. Seus chefes falam inglês,
não espanhol. Nesse conflito social de mais de seis décadas, houve
uma quantidade enorme de desaparecidos [muitíssimo maior que nas
ditaduras militares genocidas do cone sul], de torturados, de
mutilados com a motosserra. Não os assassinou a insurgência, mas
sim os militares e paramilitares a serviço do empresariado [como
seus próprios chefes declararam publicamente quando a
desagradecida classe dominante colombiana pretendeu
desembaraçar-se de seus sicários e pistoleiros]. Não há equidistância
possível entre opressores e oprimidos, entre bases militares e
ianques e insurgência, entre o terrorismo de estado e a resposta
popular da rebeldia insurgente.

A “segurança democrática” não é mais que a velha e apodrecida
doutrina [norte-americana] da Segurança Nacional, reciclada agora
com parlamento e títeres civis.

Isso existe na Colômbia. Pode parecer óbvio, porém não o é.
Insistimos: as coisas por seu nome.

Nesse contexto histórico e numa correlação de forças internacionais,
onde o governo colombiano se encontra isolado dentro da Unasul e
em toda a América Latina, aparecem estes diálogos de paz. São os
primeiros? Não. Houve muitos antes. Como terminaram todos? Com
o bombardeio sistemático por parte do terrorismo de estado. Porque
a manutenção da guerra permite à burguesia lúmpen que governa
a Colômbia manter e reproduzir seus negócios lúmpens. A guerra é
um bom negócio para os milionários. Na guerra morrem os indígenas,
os mulatos, a gente pobre de pele escura, os filhos do povo. Os ricos
fazem dinheiro em nome da “liberdade” e da “segurança”.

O complexo militar-industrial dos Estados Unidos [e seus servis
peões colombianos] necessita recriar a guerra periodicamente. O
capitalismo parasitário de nossa época transformou as atividades
anteriormente marginais e noturnas em seu quefazer central e em
seu modus vivendi em plena luz do dia. Guerra, drogas e prostituição
constituem fontes estruturais e centrais de acumulação capitalista no
mundo contemporâneo. Por isso, não vão desaparecer com um tímido
e inoperante cartaz da UNESCO ou uma propaganda televisiva do
UNICEF.

Terá futuro a paz na Colômbia a partir destes diálogos? Por parte do
governo e do estado colombiano... definitivamente NÃO. Seria bobo e
até perverso depositar esperanças em gente que tem não só as mãos

manchadas de sangue como também suas polpudas contas bancárias,
suas fazendas, suas firmas e empresas. A insurgência só poderá
impor a paz [sim, porque a paz com justiça social nunca chegará
alegremente e sozinha, deve-se impô-la, como antigamente fizeram
os vietnamitas ou os argelinos] se o conjunto do campo popular se
mobiliza, descoloca e faz cambalear as estruturas de dominação
político-midiáticas do estado terrorista colombiano.

Impor a paz à burguesia colombiana, obrigá-la a aceitar que a longo
prazo é inviável a manutenção da guerra é uma tarefa dura, um
desafio quase impossível, dificílimo. Porém, a insurgência colombiana
tem um apoio popular indubitável. O simples fato de ter obrigado
o governo a aceitar as mesas de diálogo – com o qual o estado
reconhece que a insurgência não constitui “um grupo de facínoras,
bandoleiros e narcotraficantes sem ideologia”, mas sim uma força
beligerante, político-militar – já é um avanço notável.

As duas violências [estatal e insurgente] não são equiparáveis, não
são homologáveis. Na medida em que os movimentos sociais logrem
evitar e superar essas falsas dicotomias que respondem à cooptação
das tramposas e envenenadas ONGs [que recebem vultosas somas
de euros e dólares sob a condição de que condenem por igual “ambas
violências, venham de onde venham”, igualando falsamente o
terrorismo de estado com a rebeldia popular organizada], poderão
somar-se ao processo de paz.

O futuro deste processo de paz não se resolverá na televisão, já
de por si a favor do regime terrorista como coluna vertebral da
guerra psicológica contra insurgente. A possibilidade de impor
o fim da guerra e a conquista da paz dependerá da capacidade
dos movimentos sociais para desafiar a “segurança democrática”,
para enfrentar a repressão estatal [disfarçada de “democracia”]
e as manipulações do governo de Santos. O futuro de uma nova
Colômbia plenamente integrada à América Latina e já sem burguesia
dominante virá, não há dúvida, da unidade da insurgência e dos
movimentos sociais.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Declaração Política - ENCONTRO INTERNACIONAL “POVOS CONSTRUINDO A PAZ”



DECLARAÇÃO POLÍTICA
ENCONTRO INTERNACIONAL “POVOS CONSTRUINDO A PAZ”
Bogotá, 4 a 6 de dezembro de 2012

Mulheres e homens de diversas posições políticas e expressões sociais, comunitárias, populares e eclesiais, articulados na Rota Social Comum para a Paz e em outras importantes iniciativas pela paz, expressamos nossa maior alegria e otimismo pelos êxitos do Encontro Internacional “Povos construindo a paz”. Ele nos trouxe aportes significativos para o fortalecimento do movimento social e popular pela paz e a reconciliação com verdade, justiça, reparação e garantias de não repetição.

Reconhecemos que o movimento social na Colômbia e na sociedade civil organizada pela paz com justiça social veio se fragmentando no marco do conflito social, armado, político, econômico, cultural e ambiental, e que os efeitos da guerra se refletem no temor e na falta de confiança entre nós para um posicionamento forte e unitário das apostas que permitam construir a paz em prol da justiça social. Com certeza, encontros como este, a vocação de trabalho pela paz, e o compromisso de atuar a favor de um novo país, nos fortalecem para avançar na construção de um processo de mudanças conjunto, articulado, solidário com ações, propostas e mobilização do povo colombiano.

Valorizamos as experiências internacionais sobre processos de negociação e de paz que os representantes da Irlanda, do País Basco, de El Salvador e da Guatemala compartilharam conosco. Deles recolhemos tanto os acertos quanto as lições aprendidas para, de maneira dialética, enriquecer nossas dinâmicas políticas e sociais como movimento social pela paz com justiça social.
Ensinamentos importantes como o convite à unidade, desde uma visão plural e includente, constituem o legado de nossos amigos e amigas e um dos maiores desafios que aceitamos enfrentar. Têm razão, sozinhos não podemos construir um movimento social forte pela paz, que obtenha as garantias de gozo, elegibilidade e exercício de todos os direitos para as maiorias pauperizadas e empobrecidas pelo modelo econômico. Por sua vez, solicitamos toda a solidariedade internacional como garantia do cumprimento dos acordos em função dos interesses da sociedade colombiana e especialmente dos setores populares.

O caminho para acabar com a guerra e construir a paz é de fôlego longo, passa pelos cenários de diálogo e negociação entre as insurgências e o governo nacional, e continua nos cenários de construção de paz do movimewnto social popular, o que exige que mantenhamos a unidade e a articulação, que reconheçamos a dinâmica de cada processo e que persistamos em processos de mobilização e diálogos criativos e estratégicos.

Devemos seguir fortalecendo nossa autonomia como sociedade civil organizada e movimento social e popular em favor da paz com justiça social sem sectarismos, pois não será por concessão que obteremos uma Colômbia equitativa e em paz. Está em nossas mãos imprimir um giro à realidade social e política colombiana porque o conflito social, político e econômico segue latente.

Ante o confito armado de mais de 60 anos, era urgente que as partes se aproximassem e instalassem um cenário de diálogo para terminá-lo. Valorizamos a vontade política do governo e das FARC-EP e, desta vez, exigimos que não se levantem da mesa enquanto não sejam exitosos os acordos de paz. Este cenário deve ser protegido com garantias, transparência, ética e um compromisso autêntico, sem cartas na manga; é seu dever que seja um passo em direção à negociação e à paz com justiça social que a Colômbia tanto requer. Neste mesmo sentido, exigimos do governo nacional que inicie os diálogos com o ELN e o EPL, que também manifestaram sua vontade de buscar uma solução política para o conflito. 

Para que a negociação tenha maiores possibilidades e garantias é indispensável o cessar fogo bilateral. Tal decisão será recebida pelo país como um gesto de boa vontade do Governo Nacional e das Insurgências, e, o mais importante, se poderão ver avanços na diminuição da crise humanitária. As FARC decretaram um cessar fogo unilateral de ações militares ofensivas, assim como o ELN colocou sua disposição a um cessar fogo bilateral. Esta é uma exigência da população colombiana que está em meio aos conflitos armados e não pode ser desconsiderada. De igual maneira, exigimos o cessar de hostilidades contra o povo colombiano manifestas no pacote legislativo que aprofunda as causas que originaram o conflito.

As organizações, plataformas e processos convocantes e participantes do Encontro, persistimos e insistimos na necessidade de abrir espaços de participação direta da sociedades nos diálogos e na construção da paz, considerando que o atual e os futuros processos entre o Estado e as insurgências estarão sempre incompletos sem o aporte das organizações sociais e populares. Afirmamos categoricamente que o êxito da paz passa pela edificação de um novo país com justiça social e plena democracia, capaz de erradicar as múltiplas formas de exclusão e opressão; assuntos nos quais são indispensáveis as vozes e propostas nunca ouvidas que emergem dos processos de resistência que abraçam os territórios da nação.

Exigimos e construímos participação direta, autônoma e decisória em todos os momentos de realização da paz, porque não seremos convidados e convidadas de pedra resolução do longo conflito que sangra o país. Seguimos firmemente convencidos e convencidas de que a paz é um assunto seu, meu e nosso.

Com a esperança e a mobilização como bandeiras, nos avocamos a tarefa da edificação e fortalecimento do Movimento Social pela Paz com Justiça Social, recolhendo e reconhecendo as múltiplas apostas, propostas, tradições, espiritualidades e acúmulos obtidos na diversidade de processos e de lutas. Desde este cenário do Encontro Internacional, onde nos irmanamos com povos europeus e americanos na luta pela paz na Colômbia, afirmamos nosso compromisso decidido na construção da Agenda Social para a Paz, que compreende mais que uma lista de temas sobre problemáticas sociais, econômicas, culturais e ambientais, para se transformar em uma proposta coletiva de país, forjada desde a diversidade e a pluralidade.

Com este horizonte, os homens e mulheres reunidos no Encontro abordamos um conjunto de temas que se devem discutir no processo de paz, tais como o modelo econômico, vítimas, verdade, justiça e reparação, direitos econômicos, sociais e ambientais, ordenamento territorial e território urbano, problemática agrária, direitos civis e políticos, doutrina das forças militares e de polícia, modelo e sistema de governo e justiça, situação carcerário e das presas e presos políticos e das presas e presos de guerra. Convencidos e convencidas que se trata ainda de um aporte inicial, aberto às mais diversas propostas, assumimos o objetivo de aprofundar o reconhecimento e a geração de propostas locais, territoriais e nacionais, frente a estas e outras temáticas, oferecendo os resultados obtidos até o momento como aporte para a discussão social e dos diferentes interessados na construção da paz. Decidimos, desde modo, não fazer a Agenda Social um exercício de letra morta, mas uma criação coletiva amparada por múltiplos saberes para que seja uma ferramente de transformação social.

Declaramos 2013 como o ano da luta social e popular pela paz com justiça social, que durante o primeiro semestre dará lugar às mais diversas iniciativas e processos de participação popular de ordem setorial e territorial. Fazem parte deste esforço comum pelo fortalecimento do movimento social pela paz o impulso do processo Mulheres pela Paz, as Comissões Cidadãs de Reconciliação, a promoção e acompanhamentos dos conselhos locais, municipais e departamentais de paz, os congressos regionais de paz e o Congresso Nacional pela Paz, o Congresso Nacional de Universidades pela Paz, o Congresso Nacional Educativo, os Conselhos Territoriais de Paz, o Encontro Nacional de Conselhos Territoriais de Paz. Também se enquadram aí o Coletivo de Controle Territorial pela Defesa do Território e a Paz, a apresentação do projeto de lei alternativa de Educação Superior da MANE, o Encontro Nacional de Vítimas de Crimes de Estado, o processo de consulta popular por um novo modelo de saúde e seguridade social, o Encontro Nacional pela Saúde, os fóruns ecumênicos regionais e o Fórum Ecumênico Nacional pela Paz, o Encontro Nacional pela Paz das igrejas, igrejas santuários de paz, o processo eclesial de justiça restaurativa, os encontros da rede de comunidades que constróem paz nos territórios, as constituintes regionais, setoriais e locais, a Assembleia Nacional de Constituintes pela solução política e a paz com justiça social, e a Junta Nacional de Terras e Recursos Naturais.

Convocamos o povo colombiano e a comunidade internacional a acompanhar e fortalecer todas estas iniciativas com um amplo processo de mobilização unitário durante o primeiro semestre de 2013. Como Rota Social Comum para a Paz, desde já convocamos a uma grande mobilização nacional no primeiro trimestre do ano com a paz com justiça social como eixo, e nos animamos a desenvolver outras iniciativas.

No espírito de convergência da Rota Social no segundo semestre, convocamos a um encontro unitário de deliberação e decisão popular a partir dos resultados e conclusões destes múltiplos exercícios, com convite expresso, desde já, para seu desenho e construção.
A solidariedade, ternura dos povos e unidade, garantias ao avanço de propostas coletivas, serão o caminho que as organizações sociais e populares comprometidas com a contrução da paz com justiça social percorreremos.

Rota Social Comum pela Paz
http://www.marchapatriotica.org/oficina-de-prensa/noticias/926-paz-l-declaracion-politica-encuentro-internacional-pueblos-construyendo-paz, 07-12-12

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Venezuela recebe reconhecimento pela erradicação da fome e da pobreza


Organização Mundial para a Agricultura e Alimentação (FAO) enviou, recentemente, um reconhecimento ao governo venezuelano pelas conquistas obtidas na erradicação da fome e da pobreza. É um dos países da região com os melhores indicadores.

A reportagem é publicada no jornal Página/12, 11-12-2012. A tradução é do Cepat.

O ministro de Alimentação da Venezuela, Carlos Osorio, no sábado passado, ressaltou que 98% dos venezuelanos tem acesso aos alimentos e podem realizar três ou quatro refeições diárias. Além disso, enfatizou que a Organização Mundial para a Agricultura e Alimentação (FAO, sigla em inglês) enviou ao governo venezuelano um reconhecimento pelas conquistas obtidas. “Mais de 80% da população tinha, em 2002, dificuldades para ter acesso aos alimentos e, dez anos depois, 98% da população ingere três ou quatro refeições diárias”, lembrou o ministro. E se referiu aos 2% restante. “1,6% tem acesso a duas refeições diárias, quanto ao restante, 0,4%, temos a tarefa de melhorar”, disse num ato televisivo de compra e venda de alimentos a preços subsidiados pelo Estado.

Osório explicou que há dez anos, no marco de uma greve geral, que durante 63 dias a oposição manteve para pressionar a renúncia do presidente Hugo Chávez, as grandes processadoras de alimentos paralisaram e as redes distribuidoras de alimentos trancaram suas portas para render o povo pela fome. Desde então, lembrou que o governo incentivou uma série de medidas. “Para que nunca mais os alimentos fossem utilizados como ferramenta política contra o povo”, aprofundou. Isto incluiu diversas iniciativas para aumentar e melhorar a produção, a produtividade e a distribuição. Sobre as importações de alimentos, em setembro, Chávezreconheceu que seu país, na atualidade, importa 37% da comida que seus concidadãos consomem. “Se nós excluirmos o trigo que importamos, estamos importando apenas 19% do que consumimos. Agora, incorporando o trigo, chegamos a 37%, quase 40%”, enfatizou.

Ele detalhou que o aparato produtivo nacional produz 100% do pescado, das hortaliças e das frutas ofertadas, além de 80% do frango e 70% da carne bovina consumidos no país. “Não falta muito para fazer, seremos a potência agrícola e exportadora de muitos destes alimentos”, explicou.

O ministro relatou que a Organização Mundial para a Agricultura e Alimentação enviou, recentemente, um reconhecimento ao governo e povo venezuelano pelas conquistas obtidas na erradicação da fome e da pobreza, uma das Metas do Milênio acordadas na Organização das Nações Unidas (ONU).

FAO, que é um organismo especializado da ONU, em outubro, apresentou um novo relatório sobre a situação da alimentação no mundo. No texto, revelou que a América Latina e o Caribe reduziram a quantidade de pessoas que passam fome, de 65 milhões, entre 1990 e 1992, para 49 milhões de pessoas no período compreendido entre 2010 e 2012, e detalhou que a desnutrição nesta região baixou de 14,6% para 8,3%.

No texto, denominado “O estado de insegurança alimentar no mundo – 2012” (SOFI, sigla em inglês), informou que aproximadamente 870 milhões de pessoas sofreram desnutrição crônica entre 2010 e 2012, e que a grande maioria das pessoas que passam fome – 852 milhões – vivem em países em desenvolvimento, próximo de 15% de sua população, enquanto que 16 milhões de pessoas estão subnutridas nos países desenvolvidos. Outro dado que o relatório aponta é que, entre 1990 e 2010, o rendimento real per capita cresceu de 1 a 2% por ano, em nível global, e que a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), de reduzir para a metade a proporção de pessoas que passam fome no mundo em desenvolvimento, em 2015, estaria ao alcance se fossem adotadas medidas adequadas. “Se a redução média anual da fome, nos últimos vinte anos, continuar até o ano de 2015, a porcentagem de subnutrição nos países em desenvolvimento alcançaria 12,5%. Embora acima da meta dosObjetivos de Desenvolvimento do Milênio, de 11,6%, estaria muito mais próximo do que se pensava anteriormente”, detalhou o relatório.

O organismo, por meio de seu texto, advertiu que o crescimento econômico é necessário, mas não é suficiente para acelerar a redução da fome e da desnutrição, e indicou que há muitas circunstâncias pelas quais os pobres não se beneficiam suficientemente do crescimento econômico. No texto, estima-se que isto pode acontecer porque o crescimento se origina em setores que não geram emprego suficiente para os pobres ou porque carecem de um acesso seguro e equitativo aos recursos produtivos, em particular a terra, a água ou o crédito.

Para a FAO, principalmente na Europa Oriental e América Latina, onde o relatório considera que a pobreza é primariamente urbana, um maior setor de produção agrícola pode ajudar a limitar o aumento dos preços dos alimentos e melhorar o poder de compra dos pobres urbanos, que gastam uma grande porção de seus rendimentos em alimentos.

A guerrilheira holandesa das FARC-EP fala com o Russia Today


"Um Governo não vai se sentar à mesa com uma parte derrotada. Isso eles não fazem. Sentam-se conosco porque sabem que, militarmente, não podem nos derrotar".
                                                                                   
ESCRITO POR RESUMEN LATINOAMERICANO

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Entrevista exclusiva com Tanja Nijmeijer, a guerrilheira holandesa das FARC.

RT: Com o tempo, muitos líderes revolucionários abandonaram a ideia da luta armada e alguns, inclusive, consideram que é um anacronismo. Esta abertura das FARC ao diálogo evidencia esta tendência? Vocês de desiludiram com seus métodos de luta? 

Nijmeijer: Não, eu acredito que não se possa dizer dessa forma. Nós estamos aqui em Havana porque sempre pedimos o diálogo, sempre pedimos a paz, porém o governo colombiano nunca nos permitiu participar politicamente. Então, por esse fato, nós tomamos as armas. Não por gosto ou porque gostamos da guerra. Tomamos as armas em uma legítima defesa contra o terrorismo do Estado colombiano. Ao longo da história ficou claro que nós sempre quisemos o diálogo, quisemos a paz e, por isso, estamos aqui em Havana. Se o governo nos pede diálogo, dialogamos. Se nos pedem guerra, também nos defendemos.

 RT: Nesse sentido, como vê a realidade latino-americana atual? Existem as condições para outras formas de oposição, sem armas?

Nijmeijer: Eu diria que na América Latina está ocorrendo um processo muito interessante. Na Venezuela, no Equador e até na Argentina, em quase todas as partes da América Latina esses processos estão se desenvolvendo. São processos muito significativos e que nos interessam. Assim, nos interessaria fazer política dessa forma, porém, infelizmente, até o momento, não foi possível fazê-lo na Colômbia. Vamos ver se, o quanto antes, com este processo, conquistemos a paz e possamos participar politicamente.

 RT: Durante décadas o governo colombiano tentou colocar fim a este conflito armado. Existe algo que diferencie esta nova tentativa aqui em Havana das anteriores? Existem algumas razões para o otimismo?

Nijmeije: Nós somos muito otimistas. Nós da delegação da paz das FARC somos muito otimistas, porque pensamos que neste momento... Na Colômbia, as mudanças sempre se dão como um fluxo e refluxo do movimento social, dos movimentos camponeses, operários. No entanto, pensamos que, neste momento, esse movimento está se voltando muito grande. Se vê na Colômbia que o povo já não aguenta mais esta guerra e que o próprio povo está pedindo paz. Se vê uma guerra de mobilização social do povo colombiano, que queremos que nos acompanhe nesta tentativa de diálogo e isso é o que vai acontecer. Essa é uma diferença que eu vejo muito grande com os processos de paz anteriores, que existe uma mobilização de paz muito grande, que se vê todos os dias na Colômbia, gente que sai às ruas para protestar. São pessoas que perderam o medo do terrorismo de Estado porque não aguentam mais.
 
Outra coisa que eu vejo neste processo de paz é, digamos, o que já falamos, a situação da América Latina que vem mudando e isso nos ajuda bastante para nos entendermos com o governo colombiano, o acompanhamento dos cubanos, da Venezuela, de todos os países da América Latina. Isso também é um fator externo importante.

RT: No entanto, uma grande maioria dos colombianos considera que os membros das FARC têm que assumir a responsabilidade e receber castigo pelos crimes que cometeram. O que você pensa sobre esse respeito?

Nijmeijer: Bem, eu penso que é um pouco, poderia até dizer absurdo, pedir castigo para as pessoas que sempre atuaram em legítima defesa. É o que já falamos antes, ou seja, nós não estamos fazendo a guerra porque queremos a guerra. Nós queremos a paz, porém a paz com justiça social e isso nunca se deu na Colômbia. Então, não se pode dizer... se uma pessoa bate em você, como exemplo, e você, em legítima defesa, revida, então a pessoa que começou tem que receber o castigo por essa defesa. Isso é um exemplo para mostrar como nós vemos a guerra na Colômbia e o papel que temos nela, como uma defesa.

RT: Você é uma das negociadoras neste processo de paz aqui em Havana. Que ambiente, que clima é sentido na mesa das negociações? É possível que as FARC e o governo colombiano encontrem uma língua comum?

Nijmeijer: Eu penso que o clima na mesa está bom, inclusive existe espaço para piadas, existe espaço para risos e existe um diálogo fluído, bom. Nós apenas estamos começando. É muito difícil dizer até onde vai chegar este processo, porém temos muito otimismo e pensamos que as duas partes querem a paz para o povo colombiano. E onde existe vontade, existe caminho, disse um refrão holandês. Eu penso que é assim, onde existem duas partes que mostram sua vontade de fazer a paz, tem que existir uma solução.

RT: Bom, vamos imaginar que o processo de paz se conclua com êxito e chegue a hora da desmobilização. O que fariam os membros das FARC então?

Nijmeijer: Nós somos uma organização político-militar, porém, em primeiro lugar, somos políticos. Ou seja, para nós os fuzis são coisas de ferro, uns ferros que não são necessários. São necessários nos momentos em que não nos deixam fazer política de outra forma. Porém, se nos deixam fazer política de outra forma, os aposentamos e seguimos fazendo a política, como movimento político, porque é o que somos. Somos o partido comunista rebelado em armas.

RT: Há alguns anos, você, pessoalmente, esteve no centro da atenção mundial, depois da publicação dos diários que foram capturados pelo exército. Muitos entenderam que você estava criticando nestas notas o regime que existe na organização. Poderia comentar isto? E se sim, como pode ser membro da organização se não está completamente de acordo com as regras que existem nela?

Nijmeijer: Em primeiro lugar, tenho que dizer que foi uma forma antiética de tratar um diário pessoal. Penso que deveria ter sido entregue aos meus pais. Porém, isso é um aparte, entre aspas. As coisas que eu escrevi eram sobre a vida cotidiana. Ou seja, por exemplo, qualquer pessoa no mundo que trabalhe em uma empresa tem seus dias bons, tem seus dias ruins e tem críticas. E estas críticas também são expressas dentro da organização. E, assim, se solucionam os problemas. Porém, para mim, esta época era mais difícil porque estava em adaptação às montanhas, à guerrilha, em adaptação cultural, à cultura colombiana, a tudo isso. E isso nem sempre é fácil. Porém, eu muitas vezes faço esta reflexão.

Veja, se todo mundo diz que nós somos terroristas, que atacamos a população civil, como tantas vezes é dito, que recrutamos crianças à força, por que isso não aparece no diário? Esta reflexão ninguém fez. Em nenhum meio li esta reflexão. Então, por que eu não escrevi no diário que “acabo de chegar de um terrível massacre de população civil e agora ou recrutar umas crianças”? Isso não está no diário. No diário está “ai, meu Deus, eu não tenho cigarros e o comandante sim”. Ou seja, são coisas que, quando eu relia, pareciam até infantis. Porém, eram pensamentos meus e reflexos de todo o processo de adaptação na guerrilha e na montanha.

RT: Porém, além de todos estes pequenos detalhes, digamos, levando em conta sua experiência nas FARC, você poderia fazer algumas críticas ao funcionamento desta organização hoje em dia?

Nijmeijer: Claro, você pode fazer suas críticas nos espaços adequados. Para mim, o importante é que, em todos esses anos que estou nas FARC, eu vi que as críticas que fazemos, cedo ou tarde, são escutadas e são resolvidas. Por exemplo, notamos que em tal unidade existe muito machismo por parte dos homens e também pode existir por parte das mulheres. Então, vamos começar uma campanha educativa, para que as pessoas compreendam e adotem o nosso pensamento. Ou em tal unidade existe o caso, por exemplo, do tratamento dispensado por um comandante que não está bem claro ou existe dúvida sobre o que está fazendo. Então, recorremos ao comandante, o enviamos a outro comandante, lhe damos educação/ formação e dizemos como deve fazer as coisas. Então, um vê que existem problemas. Em todas as organizações existem problemas e contradições. Isto se vê até em estados, isto se vê em todas as partes. Até em um clube de futebol você vê contradições. A coisa está em como se resolvem essas contradições. E eu tenho visto que nas FARC as contradições se resolvem de uma forma dialética. Uma forma que eu gosto: se resolvem os problemas. Então, isto para mim é importante.

RT: Já que falamos do dia a dia da organização, durante os últimos anos, a guerrilha perdeu vários de seus líderes, o que a enfraqueceu. Como você vê hoje o movimento, quão numeroso é e como está organizado?

Nijmeijer: Bom, eu penso que, hoje em dia, ou seja, como já está falando do movimento de fluxos e refluxos... Sempre existem altos e baixos. Um dos refluxos para a organização é que o terrorismo de estado e o imperialismo agem com toda a força. Por exemplo, vimos no Plano Colômbia, no Plano Patriota, onde nos envolvem e acusam de tudo: bombardeios, imensos operativos. Então, o movimento está se defendendo. Porém, eu penso que é preciso enxergar as coisas em longo prazo. Nós começamos com 48 homens. Se, hoje em dia, estivéssemos com 48 homens, não estaríamos sentados aqui em Havana. Estamos aqui já que, militarmente, um Governo não vai se sentar à mesa com uma parte derrotada. Isso eles não fazem. Sentam-se conosco porque sabem que, militarmente, não podem nos derrotar e isso é importante.

RT: E na organização, os membros das FARC vivem segundo as normas comunistas, como se programava no início ou, talvez, algo do capitalismo penetrou nas fileiras?

Nijmeijer: Nós temos um regulamento, um estatuto, temos uma cartilha militar que são as normas e as regras para os guerrilheiros das FARC em todos os escalões, desde o comandante Timoleón até o guerrilheiro que ingressou ontem. Então, essas normas são de cumprimento obrigatório. Claro que muitas vezes ocorrem infrações dessas normas, ou seja, pessoas que... por exemplo, na guerrilha é muito complicado comprar um MP3 ou uma rádio, porque, através deles é possível nos localizarem e, assim, nos bombardearem.

Então, quando um guerrilheiro infringe a disciplina, tratamos de educa-lo. Pode ser com um castigo, pode ser com a escrita de algumas páginas, fazendo uma crítica na reunião do partido. Nós fazemos a reunião do partido a cada 8 dias. Então, se critica ao companheiro. Por exemplo, se algum camarada tem algum comportamento que se vê como prejudicial, como não muito bom, pode ser de machismo ou de coisas, como você disso, do capitalismo, de querer ter coisas, não pensar no coletivo, então, ali se chama a atenção e os outros camaradas vão criticando-o e é feita a autocrítica correspondente e resolvidos os problemas.

RT: O Governo colombiano, assim como o governo dos EUA, sempre insistiu que as FARC vivem do narcotráfico, o que sempre foi negado pela guerrilha. Se não é esta a fonte, qual é o apoio recebido pela luta revolucionária?

Nijmeijer: Nós temos uma lei que se chama Lei 002. Todo colombiano tem que pagar impostos ao Estado colombiano, que faz guerra contra o próprio povo. Então, ao criarmos a Lei 002, nós pensamos que seria justo cada pessoa que ganhe mais de um milhão de dólares pague um imposto revolucionário à guerrilha. Assim, nós cobramos esses impostos e nas zonas “cocaleras”, onde somente existe coca, nós pedimos imposto revolucionário aos mafiosos, às pessoas que ganham muito dinheiro com este negócio. Nós não vamos pedir impostos a um camponês que tem um hectare com coca. Não. Então, esse é o laço entre a guerrilha e a coca. Em outras zonas, onde existem outros negócios, são levantados outros impostos. Porém, essa é a lógica utilizada quando cobramos impostos em um país, onde todas as instituições e todas as partes estão impregnadas de narcotráfico. Na Colômbia existem mafiosos e narcotraficantes que têm que nos pagar os impostos. Porque uma guerra sem financiamento não possui motor.

RT: Este ano, as FARC anunciaram o abandono da a prática dos sequestros. No entanto, existem alguns reféns. Como será o futuro destas pessoas? Existe algum plano para libertá-los?

Nijmeijer: Há algum tempo existia uma fundação, cujo nome não me recordo. Acho que era Nuevo Arcoíris (Novo Arco-íris). Ela dizia que nós tínhamos 3.000 reféns em nosso poder. Isso foi antes de fevereiro deste ano, quando dissemos que não íamos manter reféns por questões econômicas. Na época, nós fizemos uma contagem e chegamos ao número de nove detidos, em todas as frentes. Seria muito bom, penso eu, é uma reflexão minha, que o governo fizesse um cessar fogo. Assim, poderíamos solicitar que comissões da Cruz Vermelha ou comissões de direitos humanos inspecionassem nossas frentes e vissem quais são os detidos que temos em nosso poder e ver que já não existem tantos reféns. Em compensação, em uma guerra de tantos anos, existem hoje mais de 50.000 desaparecidos do estado. Eu imagino que uma parte desses 50.000 está, supostamente, em nosso poder. Então, vamos ver a verdade, vamos fazer com que a verdade venha à tona.

RT: Em diferentes meios de comunicação circula a informação de que as FARC ajudam, apoiam os governos socialistas, vizinhos e, inclusive, hospedam alguns de seus membros em seu território. É verdade que existe este tipo de colaboração?

Nijmeijer: Eu penso que, para nós, esses governos são um exemplo, nos dão moral, são muito importantes e, neste processo de paz nos brindam com uma colaboração muito grande sim, porém, como mediadores. Eu penso que não se pode falar... Nós das FARC nunca recebemos colaboração, em nenhum sentido, de nenhum governo, por exemplo, nem da União Soviética quando existia, nem da Venezuela, nem do Equador. Nós somos um movimento com um pensamento próprio, porém também com ideias próprias. Então, nós não temos... Eles são estados. Nós somos um estado, mas em formação. Assim, não existem relações. Eles têm relações econômicas e políticas, mas com o estado colombiano.

RT: Você declarou estar orgulhosa de ser guerrilheira, de ser membro das FARC. O que alimenta este orgulho?

Nijmeijer: PO orgulho de ser guerrilheira das FARC é o orgulho de pertencer a uma organização que, apesar de tanta raiva midiática, apesar de um terrorismo de estado, apesar de tanto dinheiro gasto para guerrear contra nós, nunca nos rendemos e sempre continuamos lutando pelo que acreditamos que é justo e isso faz com que eu me sinta muito orgulhosa. Sinto-me orgulhosa por tudo que temos. O fato de sermos farianos, de termos cultura, termos livros, termos canções, centenas de canções, termos gente, gente boa, capacitada, mulheres lindas, revolucionárias.

RT: Você me disse que é melhor chama-la de Alexandra. Por que é tão importante para os guerrilheiros ter outro nome?

Nijmeijer: Porque é o nome de guerra e, então, quando se chega à montanha, você adota outro nome. Isso ocorre porque em uma guerra é preciso existir clandestinidade. Para uma guerrilha é muito importante o segredo, a clandestinidade. Assim, nós não nos conhecemos e não nos tratamos pelos nomes civis para guardar o segredo. Eu acredito que isso aconteça em todas as guerras.

RT: É como uma norma, não?

Nijmeijer: Sim, é uma norma. Todo o tempo, a imprensa me chama pelo nome civil e isso não me importa. No entanto, prefiro meu nome guerrilheiro. É assim que meus companheiros chamam e ele expressa o sentir revolucionário e guerrilheiro.

RT: O que você conquistou após ingressar nas fileiras dos guerrilheiros e que não podia receber na Europa, onde, segundo muitas pessoas, tinha o futuro seguro?

Nijmeijer: Eu penso que o mais importante para mim é estar dentro das fileiras guerrilheiras, o fato de receber o reconhecimento dos próprios guerrilheiros pela solidariedade internacional. Muitas vezes eu chego a qualquer parte, estou fazendo qualquer tarefa e me chega alguém e diz: “Sinto-me orgulhoso de que você esteja aqui. Sinto-me feliz ao saber que não estamos sós nesta luta. Mesmo com tudo o que dizem as mídias, com toda a má propaganda que nos fazem, você veio para cá nos apoiar”. Isso é o mais importante para mim. Eu não teria recebido isso na Holanda.

RT: E nunca se arrependeu, pensando como muitas mulheres jovens: será que, talvez, me case, forme uma família, tenha filhos?

Nijmeijer: Não, nunca. Na verdade, eu me arrependi várias vezes quando pensava que não conseguiria mais participar das marchas. Eu dizia “eu não vou conseguir, não posso, não posso”. Porém, cada vez que chegava de uma marcha, estava feliz novamente por ter conseguido. São barreiras que existem e que você vai superando, cada vez mais, cada vez mais. Mas, estar arrependida porque gostaria de ter uma família, não. Eu não desejo essa vida.

RT: Não sente falta de nada de sua vida anterior, da família, de algumas coisas com as quais estava acostumada?

Nijmeijer: Minha família, claro. Eu acredito que qualquer guerrilheiro que esteja neste momento na montanha sente falta de sua família. Claro que as FARC são como minha segunda família. Uma família com a qual você vive coisas mais intensas e muito diferentes das vividas com uma família normal. Mas é inegável, sempre fica na cabeça o retrato da família. É uma grande alegria quando você tem a possibilidade de vê-los, de chama-los, porém é um sacrifício que todos somos conscientes que temos que fazer, porque, caso contrário, não fazemos nada.

RT: E como vê seu futuro? Você se vê inserida na política colombiana, por exemplo?

Nijmeijer: Eu vejo meu futuro dentro das FARC e empregando-me no que for necessário, no que a organização necessite. Se a organização necessitar de uma professora, serei professora. Se necessitarem de uma política, estarei às ordens.

RT: As FARC protagonizam o conflito armado, que já dura décadas, e custou milhares de vidas. Você assume esta responsabilidade? Existe algo pelo qual pediria perdão?

Nijmeijer: Eu não gostaria de pedir perdão. Gostaria de pedir justiça. Isso e nada mais.
 

RT: Muito obrigado pela entrevista, Tanja.

 
Fonte: Russia Today (RT)

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)