"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Extermínio da UP foi um genocídio político: magistrados de Justiça e Paz




Manifestação dos sobreviventes da Unión Patriótica em Bogotá

Pela primeira vez os magistrados da Justiça e Paz asseguraram que os assassinatos cometidos pelos paramilitares e membros da Força Pública contra a Unión Patriótica foram um genocídio político.
Dentro do processo gerado pela Câmara de Justiça e Paz contra Éver Veloza, conhecido como ‘HH’, ex-chefe paramilitar do Bloque Bananero de las Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), a magistratura assegurou que, de acordo com a análise histórica e as provas apresentadas pela Procuradoria, o extermínio da Unión Patriótica (UP) foi um genocídio político.
Cabe esclarecer que este tipo de genocídio, segundo a sentença da Câmara de Justiça e Paz, se refere à intenção de destruir total ou parcialmente um grupo humano por razões políticas e ocasionar a morte de seus membros por razão de seu pertencimento ao mesmo, descrição que corresponde à perseguição da qual foi vítima a UP nas mãos de paramilitares e membros da força pública durante as décadas de 80 e 90.
De acordo com a decisão em que se documentam os crimes cometidos por ‘HH’ na região do Urabá, as ações contra membros, simpatizantes e representantes políticos da Unión Patriótica foram sistemáticas e generalizadas. Além disso, a promotoria confirmou a participação e colaboração ativa de membros da força pública.
Porém, não só os membros deste movimento político se converteram no principal objetivo do paramilitarismo. Conforme a decisão da Câmara de Justiça e Paz, a perseguição também foi orientada às organizações sindicais da região de Urabá.
“Bastava apenas ser membro de um sindicato ou simpatizante da UP para ser objeto de acusações, assédios e ataques dos grupos paramilitares”, acrescenta a sentença da Câmara, que contou com a participação do Magistrado Eduardo Castellanos.
Dos 88 crimes que foram investigados pela promotoria 17 de Justiça e Paz no caso de ‘HH’, oito deles têm como vítimas membros da UP e 22 sindicalistas bananeiros de Urabá. Destes 30, a promotoria contabilizou 11 vítimas relacionadas com a Unión Patriótica e 20 com membros de sindicatos.
Esta decisão, na qual se aborda pela primeira vez o extermínio da UP como um genocídio de caráter político, que chegou a tirar a vida de mais de 1.500 pessoas, faz parte de uma decisão prévia à sentença em que ‘HH’ será julgado por 88 delitos que cometeu como chefe paramilitar do Bloque Bananero de las Autodefensas Unidas de Colombia.
Além dos delitos contra a UP e os sindicatos, os magistrados de Justiça e Paz apresentaram os delitos de conspiração, tráfico e porte de armas de fogo, homicídio à pessoa protegida, sequestro simples, tortura, furto qualificado, atos de terrorismo e recrutamento ilícito de menores.
O genocídio político da UP
Embora no julgamento de Hebert Veloza, ‘HH’, tenham sido documentados apenas oito crimes contra os membros da Unión Patriótica, o caso deste paramilitar serve para demonstrar a perseguição a que foi submetido o movimento político. Hoje, 20 anos depois da tragédia, ainda é incerta a cifra total de vítimas que, segundo alguns informes, pode chegar ao número de quatro mil.
A Unión Patriótica (UP) surgiu em 28 de maio de 1985, como resultado do processo de paz implantado pelo governo do Presidente Belisario Betancur e a guerrilha das FARC. Inicialmente, este movimento político uniu militantes do Partido Comunista da Colômbia, dirigentes de setores liberais independentes e guerrilheiros desmobilizados das FARC.
Esta é a origem da tragédia do partido, que sempre foi estigmatizado como a ala política das FARC. “Para nós, a UP foi criada pelas FARC. Talvez muitos simpatizantes nem tivessem algo a ver com a guerrilha, mas pelo fato de pertencerem a este movimento relacionado com o subversivo, os matamos”, disse em uma ocasião ‘HH’ dos Estados Unidos.
Conforme a sentença, “em seu início, aquele movimento esteve vinculado ideologicamente com as FARC, como um mecanismo político para sua possível desmobilização. No entanto, foi adquirindo autonomia e ressonância própria no poder local do país”.
Segundo documentou a Câmara de Justiça e Paz, no período eleitoral de março de 1986 a 1988, a Unión Patriótica obteve a mais alta votação da esquerda, convertendo-se na terceira força política do país. “No entanto, o êxito eleitoral foi afetado pelo aumento no número de homicídios de seus militantes, presumivelmente por ser uma força política relacionada com a guerrilha. Tão somente no primeiro ano de sua vida legal, a Unión Patriótica registrava 300 militantes assassinados”.
Precisamente, a Câmara cita um informe de 1992, da Defensoria do Povo, em que se assegurava a “existência de uma relação direta entre o apreciável êxito eleitoral obtido e a resposta violenta das organizações de extrema direita, crime organizado, grupos paramilitares, narcotráfico e, em alguns casos, agentes do Estado, que viram seus interesses políticos e econômicos menosprezados com o fortalecimento da UP”.
Com a chegada da UP à região de Urabá, uma zona com presença histórica de guerrilhas, como o EPL, o ELN e as FARC, os movimentos sociais se fortaleceram assim como os sindicatos, muitos deles impulsionados pelas novas forças políticas, fruto das negociações feitas pelo governo vigente e as guerrilhas, o qual, segundo a sentença, gerou reações violentas de grupos de extrema direita contra os movimentos sociais, políticos e sindicais.
Somado ao anterior, com a penetração do capital do narcotráfico na região de Urabá e a chegada dos grupos paramilitares foi criada uma aliança para o extermínio. Conforme a sentença, durante os anos de 1983 e 1984, Fidel e Carlos Castaño iniciaram a compra de grandes extensões de terra em Córdoba e Urabá, em um claro processo de expansão e desenvolvimento da capacidade ofensiva para combater a guerrilha, cuidar da propriedade de empresas e pecuaristas, garantir o negócio do narcotráfico e atentar contra militantes, dirigentes e simpatizantes das organizações de esquerda.
Urabá se converteu em uma grande pilhagem não apenas por ser um corredor para o tráfico de drogas e armas. Adicionalmente, como foi possível ser documentado pela Câmara de Justiça e Paz com base na memória USB entregue por ‘HH’ à promotoria, Vicente Castaño desenvolveu um megaprojeto de palma na zona do Chocó, que pretendia abarcar 100.000 hectares de terra.
Neste contexto, segundo a sentença, as principais vítimas foram os membros da UP, que ameaçaram os interesses políticos e econômicos de atores legais e ilegais. “A Comissão Interamericana de Direitos Humanos concluiu que os crimes cometidos contra a Unión Patriótica tiveram a intenção de eliminar seus membros e simpatizantes por meio de uma violência sistemática empreendida pela coordenação de membros do Exército e de grupos paramilitares, através do chamado ‘plano de golpe de graça’”, assinala a sentença em sua argumentação.
Por todas estas razões e por analisar os oito crimes cometidos por Helbert Veloza contra membros da Unión Patriótica, a magistratura de Justiça e Paz qualificou pela primeira vez o extermínio da Unión Patriótica como um genocídio político.
Os membros da UP assassinados por ‘HH’ foram Vidal Devia Ramírez, Luis Eduardo Cubides Vanegas, Humberto Pacheco Castillo, Julio César Serna, Arturo Moreno López, Camilo Solano Baltazar, Walter de Jesús Borja David, Melquisedec Rentería Machado, Edilberto Cuadrado Llorente, Wilton Antonio Garcés Montaño e Alejandro Valoyes Mena.
A perseguição aos sindicalistas
As outras vítimas do conflito na região bananeira de Urabá foram das organizações sindicais que também eram apontadas sistematicamente como guerrilheiras ou simpatizantes da subversão. “Em geral, a violação aos direitos humanos e, em especial, a violência antissindical, em Urabá, reiniciaram em 1985. Por exemplo, a sede do SINTRAINAGRO (sindicato dos bananeiros) foi bombardeada e começou o assassinato sistemático de sindicalistas”.
No caso do Bloque Bananero que era comandado por ‘HH’, os sindicatos SINTRAINAGRO e SINTRABANANO foram as principais vítimas. Na maioria dos 20 fatos documentados e provados pela promotoria, o motivo dos homicídios era a atividade sindical das vítimas.
“Às vezes é muito difícil distinguir se a violência aponta para a organização sindical e para as atividades sindicais ou para as atividades políticas e sociais dos afiliados em outros contextos organizacionais”, assegurou a decisão, na qual se esclareceu que, no caso de ‘HH’, as ocorrências se deram pela condição de sindicalistas das vítimas, tal como o corroboram as declarações livres de ‘HH’ à Justiça e Paz.
Os sindicalistas assassinados na região de Urabá pelos paramilitares de ‘HH’ foram Ernesto Enrique Romero Hernández, Rudolf Reinaldo Martin Paffen Durier, Severo Mosquera Angulo, Osvaldo Vergara Gómez, María Dolores Romero Perea, Gustavo Vargas Usuga, Rosmira del Socorro Guisao Castro, Iber Modesto Rojas Moreno, Elías García Díaz, Dairo Pérez Negrete, Ángel Humberto Zabala Bejarano, Rogelio Mosquera Palacios, Arcesio Gallego Lozano , Misael Antonio Moreno Córdoba, Luís Antonio Espitia González, Elmer Antonio Urquijo Beltrán, Jairo Alberto López Manco, Luís Álvaro David Oliveros, Elkin de Jesús Escobar López e Gustavo Alberto Gutiérrez López
Por demonstrar que no caso dos sindicalistas como no dos membros da UP existiu uma perseguição sistemática e generalizada, a Câmara declarou que os dois casos constituem delitos de lesa humanidade que não podem ser julgados como homicídios isolados, mas sim como parte de uma política do paramilitarismo, às vezes respaldada por membros da força pública.
[1]; VerdadAbierta: http://www.verdadabierta.com/
Leia também: Quando 'H.H.' era um 'Escorpião' como o partido político ex-EPL, Esperanza Paz y Libertad, colaborou com o extermínio dos militantes da UP e do PCC em Urabá. Quando será investigado à fundo esse fato e como altos dirigentes do SINTRAINAGRO desse partido, que continua comandando o sindicato, foram os colaboradores dos esquadrões da morte em Urabá?
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Esclarecimento ao Sr. Enrique Santos Calderón




Amamos a nossa pátria e sua gente. Não nos interessa nenhum outro lugar do mundo para viver. E o sonhamos livre da exploração e injustiça

Por: Mauricio Jaramillo
Membro do Secretariado Nacional das FARC-EP
Chefe da comissão fariana no Encontro Exploratório



“Acredito que para a Semana Santa deve surgir, talvez, o primeiro ponto. Conheço o meu irmão, ele está brincando com isto, mas a sua paciência não é infinita. Nem a do país”. Estas são as palavras com que o jornalista Enrique Santos Calderón termina o seu recente artigo sobre a participação na fase exploratória das conversações com as FARC em Havana.

É obvio que cada pessoa guarda na sua memória o que particularmente lhe chama a atenção. Nem todos observam os acontecimentos desde a mesma ótica, o que se nota sobremaneira quando se trata de fatos com transcendental significado político, nos quais a visão de classe exerce uma poderosa influência. Um integrante da mais rança oligarquia bogotana, descreverá sempre suas experiências de uma forma radicalmente distinta de como o fariam os insurgentes que combatem aos da sua classe. É o caso do artigo em questão.

Só o título da sua crônica, “Eu estive negociando com as FARC em Cuba”, revela certo tom individualista e fátuo, como se se tratasse de um ato heróico, algo que, a diferença do senhor Santos, os milhares de camponeses e colombianos em geral, que se relacionam a diário com a insurgência, consideram absolutamente normal. E que nada negociam com ela, como tampouco o fez o senhor Santos, que fez parte de uma comissão oficial que discutiu com as FARC os termos de um Acordo cujo objetivo era possibilitar conversações formais e públicas de paz.  

Entendemos que o senhor Enrique Santos, com seu artigo, releva às FARC do compromisso da confidencialidade acordado. Ele, integrante da delegação governamental e irmão mais velho do Presidente, reconhecido jornalista colombiano, aborda a tarefa de expor ao público a sua versão sobre assuntos que, até agora, estavam sob sigilo. Sendo assim, é obvio que nós também podemos fazê-lo.

Na realidade não entendemos como pode se considerar papel chave o desempenhado pelo irmão mais velho na fase inicial das conversações. Participou nelas sim, como todos os integrantes designados pelo governo, e cumpriu seu papel. Mas daí a defini-lo como chave, há uma grande distância. Ambas as delegações contaram com dois tipos de integrantes, uns plenipotenciários e outros chamados de comissão técnica. Desde o princípio foi na assegurado que Enrique Santos seria plenipotenciário, mas no fim das contas não figurou como tal, mas como uma espécie de assessor, de delegado pessoal do Presidente, subordinado completamente ao próprio chefe da delegação, o senhor Sergio Jaramillo, o tipo clássico de arrogante e presunçoso, sempre empenhado em fazer sentir a sua importância, especialmente à sua própria equipe.

Quiçá por isso agora escreve o irmão mais velho, preocupado em inflar sua diminuída influência na hora das conversações. Ocorreu, mais de uma vez, que após ter acordado alguma questão com ele, na ausência do senhor Jaramillo, ao chegar este último, ignorava com evidente displicência a palavra empenhada pelo jornalista Enrique Santos. Era como se lhe relembrassem aquilo de ‘sapateiro aos seus sapatos’.   

É verdade que o processo esteve a ponto de morrer pela dificuldade de definir a sede das conversações. Mas havia um elemento de grande peso contra s posição oficial de que os diálogos não podiam desenvolver-se na Colômbia. A primeira reunião entre delegados do Governo e FARC ocorreu em território colombiano, na região de Catatumbo, com delegados de ambas as partes, sem que existisse um processo formal, o que demonstra que isso não era impossível.   

Certamente que as FARC, em prol de levar adiante as conversações, terminaram ignorando a primeira violação flagrante da palavra do Governo, pois no momento de acudir ao encontro com os camaradas Andrés París e Ricardo Téllez, membros do Estado Maior Central com autorização, os delegados enviados pelo Presidente não foram os de mais alto nível como havia prometido mas burocratas médios completamente diferentes

O irmão mais velho argumenta, exageradamente, que a ida de Mauricio Jaramillo a Cuba entravou o inicio das conversações durante um ano. Esquecendo a figura de linguagem, deve-se esclarecer que qualquer demora nesse sentido só se pode culpar ao governo. Alguém poderia considerar que os delegados oficiais sustentassem seriamente que somente se poderia transportar por terra ao Comandante do Bloco Oriental das FARC-EP, desde as selvas de El Meta ou do Guaviare até a fronteira venezuelana com o Norte de Santander? Será que o governo nacional não podia disponibilizar um helicóptero, com todas as garantias de segurança, para transportá-lo até a Venezuela?

A desconfiança obviamente não podia derivar do acontecido com a operação Xeque, um fato que todo mundo reconhece hoje como mais uma das grandes farsas da Segurança Democrática, juntamente com a desmobilização paramilitar e os falsos positivos. O Presidente, que exercendo o cargo de ministro da defesa ordenou a invasão militar ao território equatoriano em março de 2008, mal podia alegar que, contando com a autorização formal do governo da Venezuela, o transporte aéreo era impossível, pois violava o controle antidrogas acordados com os EUA. Pula aos olhos a pobre idéia que eles têm da soberania nacional.

No fim o transporte aconteceu como nós propusemos. Não sem que antes ocorresse outra discussão, porque segundo os delegados governamentais, o avião podia chegar somente até Cúcuta, e lá os passageiros deviam trocar de aeronave que os levaria até o aeroporto de San Antonio, Táchira, onde ocorreria outra troca de avião e daí até o aeroporto de Maiquetia. Era elementar pensar que por trás dessa febril argumentação santanderista que impunha passar por diversos postos de controle do Exército Nacional, escondia-se outra intenção non sancta.

Múltiplos empecilhos dessa ordem, todos atravessados no caminho pelos delegados oficiais, confirmam a fonte real dos grandes retardos. O fato de que após expô-los teimosamente, o Governo acabe cedendo a qualquer momento, basta por si só para perguntar sobre a sua contribuição efetiva à celeridade de todo este assunto. Algo de natureza semelhante ocorreu com a formalização de Alexandra, a guerrilheira de origem holandesa, como delegada pela FARC. São coisas que o grande público não conhece e que, portanto, muitas pessoas se aproveitam, em particular a grande mídia, para manipular e tergiversar a verdade dos acontecimentos.

Sem duvida alguma que o senhor Enrique Santos conta com vários primores nesse tipo de matérias. De outra forma não dedicaria espaço  a sua imaginaria descrição da partida do Comandante do Bloco Oriental desde um lugar situado a poucos quilômetros de San José del Guaviare, algo do que ele jamais foi testemunha, pois os delegados do governo nacional não tiveram a menor ingerência na execução desse procedimento.

O que talvez seja verdade, é que como todo membro de respeito da alta burguesia nacional, o senhor Enrique Santos passa mais tempo em Miami do que no seu próprio país, do qual se considera um dos seus proprietários exclusivos. Não fez menção na sua nota ao adiamento que teve de ocorrer em certa etapa, porque uma longa viajem de descanso familiar do jornalista ao exterior impedia a sua presença. É incrível que por miudezas dessa ordem a paz do país tenha que esperar.

Como si se tratasse de questões frívolas, o irmão mais velho insiste em continuar culpando às FARC da demora em assinar um Acordo, por ter colocado profundas diferenças e problemas de linguagem e semântica, dentro dos quais exemplifica as dificuldades apresentadas com o termo ‘desmobilização’. As coisas foram diferentes. Desde o começo, o governo nacional transpareceu que o único que esperava de um processo de diálogos com as FARC, era a assinatura da nossa rápida e submissa desmobilização. Ter conseguido superar essa inabalável muralha após seis meses de discussões pode ser considerado na verdade um tento importante.

Qualquer dificuldade nascida do confronto armado na Colômbia, ou como o relembra o senhor Enrique Santos, da libertação dos prisioneiros de guerra em nosso poder, unicamente pode imputar-se aos delegados do Governo. Este último tema, como todos os demais, era completamente alheio ao assunto que discutíamos: o acordo de uma agenda e das regras do jogo para conversar. Isso tinha ficado suficientemente claro desde o cruzamento de razões com o Presidente. Quando, diante da arremetida dos delegados governamentais, tivemos que relembrar com certa ênfase esta regra, o irmão mais velho acabou encerrando o assunto com uma espécie de autocrítica, que culminou com as vistas fixas em seus colegas enquanto seus lábios lembravam: adjetivo que não dá vida mata.

A pretendida indiferença que o irmão mais velho sugere ao falar da presença do camarada Timoleón Jiménez em março passado em Havana, na realidade não tem nada disso. A pedido do Presidente Santos, e de solicitação prévia do governo colombiano, o Presidente Chávez, ainda desde o seu leito, doente, teve a gentileza de intervir em alguns momentos difíceis, a fim de contribuir com o seu enorme prestigio para aparar algumas arestas. As reuniões sempre contaram com a aprovação do Presidente Santos e seu irmão mais velho deve saber bem, a menos que, por prudência, não lhe tivessem comentado.

Tem uma coisa que deve ser esclarecida ao senhor Enrique Santos. Conta-se que ao se despedir de Mauricio Jaramillo, ao qual insiste em chamar pelo apelido de ‘O Médico’, para espalhar a matriz de um nome pelo qual seus camaradas das FARC nunca usaram para se referir a ele, percebeu que esse homem de poucas palavras sentia falta da montanha. Tarefas de diversas índoles fizeram necessária a substituição do Camarada Iván Márquez na chefia da delegação fariana. Isso não tem nada a ver com um suposto apego montanhês, apesar dos trinta e seis anos de luta guerrilheira que carrego. Havia certa nostalgia por nossa gente e, quiçá, não conseguia ocultar.

Todas as aproximações e depois o encontro exploratório, estavam cobertos pela mais absoluta reserva e confidencialidade. Ao contrário dos delegados governamentais que viajavam continuamente à Colômbia ou para turismo no exterior, nós permanecemos em Cuba dentro do mais absoluto segredo. Praticamente ninguém podia nós ver e não podíamos deixar-nós ver por ninguém, o que transformava a nossa prolongada permanência lá em algo semelhante a uma clausura monástica. Nossos interlocutores habituais não eram outros que os integrantes da delegação governamental. Nessas condições renascem todas as lembranças. Por Colômbia, pelo nosso povo, pelos nossos guerrilheiros que combatem com heroísmo contra a máquina da morte do Estado. Lá foram semeadas as nossas raízes. Amamos a nossa pátria e sua gente. Não temos interesse em viver em nenhum outro lugar do mundo. E sonhamos com a nossa pátria livre de exploração e injustiça. Certamente o irmão mais velho pensou algo diferente.   

Mas seria como voltar ao início e isto já se transformou numa epístola. Houve algo que me comoveu e que agradou ao senhor Enrique Santos. A sua enfática afirmação de que acredita neste processo, porque o considera uma obrigação moral e política. Tomara que seja verdade. Que isto pese mais do que a frase com que encerra seu artigo e que eu escolhi para, entre aspas, começar o meu. Não deixa de ter certo ar de ameaça. Deveria deixar estas coisas para o seu irmão menor, o ministro Pinzón, ou para os generais da República.


Montanhas do Oriente colombiano, 5 de janeiro de 2013.


Entrevista: Carlos Lozano, sobre os diálogos para uma solução política para a Colômbia



Entrevista concedida à Hernán Camacho para a 'Alianza de Medios y Periodistas por la Paz'
Qual sua avaliação, depois de fazer seu próprio balanço, desta primeira etapa dos diálogos de Havana entre o governo de Juan Manuel Santos e a guerrilha das FARC-EP?
“É um balanço positivo, sem exageros. Está demonstrado que é possível sentar-se para dialogar em uma mesa pela paz, apesar das diferenças e escassas coincidências entre as duas partes. Ainda que não haja resultados concretos conhecidos do primeiro ponto em debate (o tema agrário), ganhou-se a participação cidadã. Ainda que o governo fosse relutante a ele, no final foi uma conquista democrática e o resultado é bom, pois agremiações e organizações populares debateram e fizeram propostas que não poderão ser ignoradas. Assim, o balanço é positivo ainda que existam barreiras e obstáculos”.
 Como quais?
“Continua sendo um erro dialogar em meio ao conflito. Deseja-se um cessar fogo bilateral para evitar que os atos da guerra alterem a boa marcha do processo. Mas além disso o governo está fechado à participação popular, segue entendendo-a como um 'ruído' na mesa e isso é negativo, porque a mesa deve ser legitimada com a participação da sociedade, pois estão sendo discutidos temas de interesse nacional e não particular. O governo também tem um conceito estreito da agenda. Fez um Acordo Geral e agora quer desconhecê-lo, porque crê que o modelo não pode ser mudado e que a democracia é perfeita. São barreiras que dificultam avançar em bom ritmo e na direção correta”.
 O doutor De la Calle disse, ao término das seções deste ano, na data de hoje, que não haverá mudança do modelo econômico nem do sistema democrático.
“Aí está a barreira. O que querem mudar então? No tema agrário acreditam com arrogância que estão fazendo uma revolução agrária e que as FARC e o povo devem apoiar a lei de terras e suas políticas agrárias que não vão ao fundo de problemas substanciais, como a posse da terra, o latifúndio, o uso do solo e até as situações que afetam o território e as regiões agrárias, como a exploração mineiro-energética que estão nas mãos de transnacionais inescrupulosas. E acreditam que a democracia é plena. Querem obrigar-nos a viver com a para-política, a violência desde as alturas do poder, a exclusão, o clientelismo e o oportunismo dominante”.
 Mas na Colômbia há eleições, sufrágio universal aceitável...
“Aceitável para quem? Para a classe dominante, para a política tradicional que detém o poder ao largo da história republicana depois de Simón Bolívar. São eleições à colombiana, sob as condições e as vantagens da oligarquia dominante. Por isso temem as reformas, não aceitam modificar as regras da política, porque são suas regras”.
 De acordo com você, por que temem a democracia?
“Porque o dia em que haja nesse país democracia plena e direitos para todos, igualdade perante a constituição e a lei, o poder vacilará. É um problema de classe. A classe dominante prefere a violência porque lhe permite impor a 'sangue e fogo' seus desígnios. Disseram-no de forma aberta e pública. Por isso, não consideram conveniente mudar esse sistema político imposto à força. É decepcionante escutar alguém da burguesia – que acredita-se que seja decente – defender ao extremo o governo de Álvaro Uribe Vélez, por exemplo, e até o qualificarem de segundo libertador da Colômbia, fazendo omissão aos 'falsos positivos', às chuzadas, a proteção ao narco-para-militarismo, à para-política, à corrupção e outros atos vergonhosos. Parece-lhes um bom personagem porque defendeu a sangue e fogo seus interesses econômicos. O modelo econômico, por certo em crise no mundo, consideram inalterável, pois permite-lhes enormes utilidades e lucros às custas do sacrifício do povo”.
 Contudo há ex-guerrilheiros na política e na administração...
“Sim, são gestos pluralistas e democráticos na aparência. Mas na realidade se espalha a intolerância aos movimentos sociais e partidos que eles representam, são cooptados na melhor das hipóteses ou perseguidos com fúria como está acontecendo com Gustavo Petro, prefeito de Bogotá. Ele apenas tocou nos calos dos negócios dos poderosos, colocou como fundamental o interesse público e afetou o lucrativo negócio particular do lixo, e vieram para cima dele, e de que maneira: querem tirá-lo. A campanha midiática é grosseira e antidemocrática. Veja a 'grande imprensa' como o ataca sem nenhum respeito. É um problema de classe, algo que a classe trabalhadora deve entender. A oligarquia estimula a sua divisão, quando ela se une para defender seus interesses. Isso deve mudar se a intenção é a paz. Do contrário, será difícil atingi-la”.
 Mas voltemos aos fóruns, com a experiência do fórum agrário. Eles são válidos como mecanismo de participação?
“São válidos, claro que sim. A experiência deve se repetir nos pontos seguintes. Como também são úteis as mesas regionais promovidas pelas comissões de paz do Senado e da Câmara de Representantes. É que sem a participação cidadã e popular não é possível chegar à paz. Esta se constrói com a participação de todos e todas. De alguma maneira a paz deve ser imposta a seus inimigos e aos cavaleiros da inércia que interpõem as barreiras”.
 No fórum agrário participaram as agremiações. Como foi isso?
“Bom e positivo. Entre outras coisas, em suas manifestações os porta vozes da Andi e da Sac, por exemplo, demonstraram mais realismo e amplitude que o Governo Nacional. Escutaram com atenção as propostas e análises das organizações sociais e populares. Ficaram isoladas as posições ultradireitistas e guerreiristas da Fedegan, que representam o setor mais comprometido com o latifúndio e a violência. Sabemos muito bem porque se opõem a paz.”
 Por que?
“Porque representam o uribismo recalcitrante que é o setor mais descomposto da classe dominante; apoiam-se no terror, na guerra. Na carta da Fedegan, publicada nos meios escritos há alguns dias, há algumas assinaturas que produzem terror, são os que promoveram o para-militarismo, representam associações ligadas à violência aos camponeses e à esquerda. Não se pode esquecer que o ex-presidente da Fedegan foi ajuizado por para-militarismo e o atual é investigado. O que esperar desse tipo de gente?”
 Como você vê as duas delegações?
“Bem, cada um cumprindo seu papel, cada um faz seu trabalho. O importante é que se tenha sensatez e criatividade suficiente para encontrar os pontos de convergência, não para satisfazer ao 'outro', mas ao país, ao povo colombiano que será o maior beneficiário da paz estável e duradoura. Ainda é indispensável que o governo tenha uma só linha. A atitude do ministro Pinzón é provocadora, guerreirista. É um ministro dinamite. Alguns porta-vozes do governo dizem que ele sai do roteiro, mas ambas as partes devem ter uma só agenda, a que seja, mas uma só, coerente e comprometida com o Acordo. Pinzón está sobrando no governo. A não ser que se trate da velha e desgastada tática em que uns se fazem de 'bons' e outros de 'maus'. Isso o Governo deve deixar bem claro.”
 Acredita que ao final se atinja a paz?
“É possível se há vontade política de ambas as partes e o apoio da sociedade. No entendimento que deve ser uma paz digna com democracia e justiça social. O Governo deve baixar-se da nuvem da vitória, abandonar o conto de que a guerrilha está derrotada. Não parece que a insurgência está derrotada; ao contrário o fracasso da Segurança Democrática é o fracasso da linha militar. Só os uribistas a defendem com obstinação. É importante o critério de mudança. O conflito obedece a causas e enquanto elas existam não haverá paz. A democracia e a justiça são essenciais para levar a cabo o 'Acordo Geral para o término do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura'. Para a esquerda a paz é indispensável, porque obrigará a unidade dos setores democráticos e populares para que surja uma opção de poder do povo com a capacidade de transformar a Colômbia. A paz é uma bandeira dos revolucionários na medida em que está estreitamente ligada à construção da nova Colômbia”.
Bogotá, dezembro de 2012.
Tradução: CCLCP

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O dilema da Reforma Agrária no Brasil do agronegócio



Por João Pedro Stedile
Economista. Integrante da coordenação nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da Via Campesina Brasil

O governo ainda não entendeu a natureza e a gravidade dos problemas sociais no campo

A sociedade brasileira enfrenta no meio rural problemas de natureza distintos que precisam de soluções diferenciadas. Temos problemas graves e emergenciais que precisam de medidas urgentes. Há cerca de 150 mil famílias de trabalhadores sem-terra vivendo debaixo de lonas pretas, acampadas, lutando pelo direito que está na Constituição de ter terra para trabalhar. Para esse problema, o governo precisa fazer um verdadeiro mutirão entre os diversos organismos e assentar as famílias nas terras que existem, em abundância, em todo o País. Lembre-se de que o Brasil utiliza para a agricultura apenas 10% de sua área total.

Há no Nordeste mais de 200 mil hectares sendo preparados em projetos de irrigação, com milhões de recursos públicos, que o governo oferece apenas aos empresários do Sul para produzirem para exportação. Ora, a presidenta comprometeu-se durante o Fórum Social Mundial (FSM) de Porto alegre, em 25 de janeiro de 2012, que daria prioridade ao assentamento dos sem-terra nesses projetos. Só aí seria possível colocar mais de 100 mil famílias em 2 hectares irrigados por família.

Temos mais de 4 milhões de famílias pobres do campo que estão recebendo o Bolsa Família para não passar fome. Isso é necessário, mas é paliativo e deveria ser temporário. A única forma de tirá-las da pobreza é viabilizar trabalho na agricultura e adjacências, que um amplo programa de reforma agrária poderia resolver. Pois nem as cidades, nem o agronegócio darão emprego de qualidadea essas pessoas.

Temos milhões de trabalhadores rurais, assalariados, expostos a todo tipo de exploração, desde trabalho semiescravo até exposição inadequada aos venenos que o patrão manda passar, que exige intervenção do governo para criar condições adequadas de trabalho, renda e vida. Garantindo inclusive a liberdade de organização sindical.

Há na sociedade brasileira uma estrutura de propriedade da terra, de produção e de renda no meio rural hegemonizada pelo modelo do agronegócio que está criando problemas estruturais gravíssimos para o futuro. Vejamos: 85% de todas as melhores terras do Brasil são utilizadas apenas para soja/ milho; pasto, e cana-de-açúcar. Apenas 10% dos proprietários rurais, os fazendeiros que possuem áreas acima de 500 hectares, controlam 85% de todo o valor da produção agropecuária, destinando-a, sem nenhum valor agregado, para a exportação. O agronegócio reprimarizou a economia brasileira.

Somos produtores de matérias-primas, vendidas e apropriadas por apenas 50 empresas transnacionais que controlam os preços, a taxa de lucro e o mercado mundial. Se os fazendeiros tivessem consciência de classe, se dariam conta de que também são marionetes das empresas transnacionais,

A matriz produtiva imposta pelo modelo do agronegócio é socialmente injusta, pois ela desemprega cada vez mais pessoas a cada ano, substituindo-as pelas máquinas e venenos. Ela é economicamente inviável, pois depende da importação, anotem, todos os anos, de 23 milhões de toneladas de fertilizantes químicos que vêm da China, Uzbequistão, Ucrânia etc. Está totalmente dependente do capital financeiro que precisa todo ano repassar: 120 bilhões de reais para que possa plantar. E subordinada aos grupos estrangeiros que controlam as sementes, os insumos agrícolas, os preços, o mercado e ficam com a maior parte do lucro da produção agrícola. Essa dependência gera distorções de todo tipo: em 2012 faltou milho no Nordeste e aos avicultores, mas a Cargill, que controla o mercado, exportou 2 milhões de toneladas de milho brasileiro para os Estados Unidos. E o governo deve ter lido nos jornais, como eu... Por outro lado, importamos feijão-preto da China, para manter nossos hábitos alimentares.

Esse modelo é insustentável para o meio ambiente, pois pratica a monocultura e destrói toda a biodiversidade existente na natureza, usando agrotóxicos de forma irresponsável. E isso desequilibra o ecossistema, envenena o solo, as águas, a chuva e os alimentos. O resultado é que o Brasil responde por apenas 5% da produção agrícola mundial, mas consome 20% de todos os venenos do mundo. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) revelou que a cada ano surgem 400 mil novos casos de câncer, a maior parte originária de alimentos contaminados pelos agrotóxicos. E 40% deles irão a óbito. Esse é o pedágio que o agronegócio das multinacionais está cobrando de todos os brasileiros! E atenção: o câncer pode atingir a qualquer pessoa, independentemente de seu cargo e conta bancária.

Uma política de reforma agrária não é apenas a simples distribuição de terras para os pobres. Isso pode ser feito de forma emergencial para resolver problemas sociais localizados. Embora nem por isso o governo se interesse. No atual estágio do capitalismo, reforma agrária é a construção de um novo modelo de produção na agricultura brasileira. Que comece pela necessária democratização da propriedade da terra e que reorganize a produção agrícola com outros parâmetros. Em agosto de 2012, reunimos os 33 movimentos sociais que atuam no campo, desde a Contag, que é a mais antiga,MST, Via campesina, até o movimento dos pescadores, quilombolas,etc., e construímos uma plataforma unitária de propostas de mudanças. É preciso que a agricultura seja reorganizada para produzir, em primeiro lugar, alimentos sadios para o mercado interno e para toda a população brasileira. E isso é necessário e possível, criando políticas públicas que garantam o estímulo a uma agricultura diversificada em cada bioma, produzindo com técnicas de agroecologia. E o governo precisa garantir a compra dessa produção por meio da Conab.

A Conab precisa ser transformada na grande empresa pública de abastecimento, que garante o mercado aos pequenos agricultores e entregue no mercado interno a preços controlados. Hoje já temos programas embrionários como o PAA (programa de compra antecipada) e a obrigatoriedade de 30% da merenda escolar ser comprada de agricultores locais. Mas isso está ao alcance agora de apenas 300 mil pequenos agricultores e está longe dos 4 milhões existentes.

O governo precisa colocar muito mais recursos em pesquisa agropecuária para alimentos e não apenas servir às multinacionais, como a Embrapa está fazendo, em que apenas 10% dos recursos de pesquisa são para alimentos da agricultura familiar. Criar um grande programa de investimento em tecnologias alternativas, de mecanização agrícola para pequenas unidades e de pequenas agroindústrias no Ministério de Ciência e Tecnologia.

Criar um grande programa de implantação de pequenas e médias agroindústrias na forma de cooperativas, para que os pequenos agricultores, em todas as comunidades e municípios do Brasil, possam ter suas agroindústrias, agregando valor e criando mercado aos produtos locais. O BNDES, em vez de seguir financiando as grandes empresas com projetos bilionários e concentradores de renda, deveria criar um grande programa de pequenas e médias agroindústrias para todos os municípios brasileiros.

Já apresentamos também ao governo propostas concretas para um programa efetivo de fomento à agroecologia e um programa nacional de reflorestamento das áreas degradadas, montanhas e beira de rios nas pequenas unidades de produção, sob o controle das mulheres camponesas. Seria um programa barato e ajudaria a resolver os problemas das famílias e da sociedade brasileira para o reequilíbrio do meio ambiente.

Infelizmente, não há motivação no governo para tratar seriamente esses temas. Por um lado, estão cegos pelo sucesso burro das exportações do agronegócio, que não tem nada a ver com projeto de país, e, por outro lado, há um contingente de técnicos bajuladores que cercam os ministros, sem experiência da vida real, que apenas analisam sob o viés eleitoral ou se é caro ou barato...

Ultimamente, inventaram até que seria muito caro assentar famílias, que é necessário primeiro resolver os problemas dos que já têm terra, e os sem-terra que esperem. Esperar o quê? O Bolsa Família, o trabalho doméstico, migrar para São Paulo?

Presidenta Dilma, como a senhora lê a CartaCapital, espero que leia este artigo, porque dificilmente algum puxa-saco que a cerca o colocaria no clipping do dia.

[Fonte: Carta Capital].


Colômbia, 2013: Santos enfrentará o latifúndio pecuário?


Por Fernando Dorado

ALAI AMLATINA, 02/01/2013.- Uribe acabou se distanciando e enfrentando Santos durante 2012. Não por questões pessoais, de caráter ou interesses individuais. São interesses de classe e de setores de classe que determinam e impulsionam estas mudanças.
Por isso, o fenômeno político (e econômico) de maior relevância na Colômbia durante o ano de 2012 foi a confrontação aberta entre os representantes políticos da oligarquia latifundiária tradicional (grandes pecuaristas) e a burguesia transnacionalizada [1] (que inclui grandes proprietários de terra produtores de cana de açúcar e palma). Donde Uribe vs Santos.

A contradição entre grandes proprietários de terra e burgueses industriais existe desde tempos atrás, e se expressou durante as décadas de 30 e 40 (López Pumarejo) e de 60 e 70 (Lleras Restrepo) do século XX. A reforma agrária precária e parcial que a débil burguesia industrial colombiana liderou foi uma das expressões desta contradição.
Apesar da existência perene, agora esta contradição se manifestou abertamente, e parece que tende a se aprofundar no futuro. Circunstâncias particulares como os diálogos com a guerrilha, a reforma tributária e alguns assuntos menores trouxeram à tona esse rompimento e sua tendência ao aprofundamento. Por isso, não é casual que o governo tenha aceito debater o tema do “desenvolvimento rural” e o problema da terra como primeiro ponto da agenda de debates com a guerrilha, e que nesta mesa – pela primeira vez – não estejam representados os grandes latifundiários e criadores de gado colombianos.


A situação é um aspecto da evolução das contradições estruturais presentes na realidade colombiana, e que devem ser entendidas – e estudadas – a fundo para que possamos nos orientar na vida e na ação política.

A burguesia transnacionalizada (“urbana”, financeira, industrial e agroindustrial) também se mostra independente das políticas mais direitistas da inteligência estadounidense (dos falcões do Departamento de Estado e da CIA), colocando diante de si a possibilidade de iniciar um novo caminho frente ao problema das drogas.

Por trás desta diferenciação está a consciência crescente entre amplos setores das burguesias transnacionalizadas da América Latina (principalmente as do Brasil e da Argentina, mas também as de Colômbia, México, Chile, Peru e alguns países da América Central) de que seu futuro não pode estar ligado total e unicamente aos EUA. Sabem que a bonança extrativista de matérias-primas (petróleo, gás, ouro, carvão, cobre, columbita-tantalita, agrocombustíveis etc.) não pode ser plenamente aproveitada senão a partir de um bloco latino-americano que lhes permita aproveitar as tensões e contradições presentes nos mercados globais.

Na Colômbia, a maioria da esquerda não aceita a evolução desta contradição. Frases como “Santos é igual a Uribe” ou “Santos é o Uribe III” servem apenas para cumprir tabela sem muita análise. O problema é que não analisar a tendência e o progresso destas contradições acaba levando água ao moinho alheio, a juntar de mãos dadas os mais irreconciliáveis inimigos, como está sucedendo hoje com parte da esquerda.

Não é casual que alguns setores do MOIR (partido político de esquerda que é hoje o principal esteio do Polo Democrático Alternativo, PDA) acabem coincidindo em muitos aspectos com o “uribismo”. Parece que enfim encontraram “sua” burguesia nacional, representada pelos grandes pecuaristas e grandes cafeicultores que começaram a “descobrir” que as políticas de Santos (que são herança das de Uribe) estão atingindo interesses vitais de suas economias agrárias.

Mas do outro lado estão os grandes proprietários de terra que já reconverteram seus processos produtivos e se sentem seguros com a política das cinco locomotivas neoliberais. Eles não teriam interesses propriamente nacionais, sendo parte da burguesia transnacionalizada.

Isto quer dizer que a burguesia transnacionalizada pode ceder em assuntos vitais a respeito do campo? Tudo depende da correlação de forças que mova a mesa de negociações mais para o lado do governo ou mais para o da guerrilha. Se as massas camponesas se mobilizam unificada e amplamente - e sobretudo se conseguem envolver amplos setores sociais urbanos nos assuntos relativos à paz -, os setores dominantes representados hoje no governo poderão negociar, de forma pontual, não uma reforma agrária, mas algumas mudanças na política para pequenos e médios produtores e para camponeses sem-terra, que poderão afetar interesses de grande latifundiários, principalmente da Antioquia e da Costa Atlântica.

Ou seja, a partir da análise de classe podemos prever que a burguesia transnacionalizada pode “sacrificar” interesses da oligarquia latifundiária e pecuarista em troca do fim do conflito armado, porque o que lhes interessa fundamentalmente é conseguir um ambiente propício para aprofundar os investimentos estrangeiros em infraestrutura viária e energética, assim como na exploração de recursos minerais e agrocombustíveis.

O governo – e as forças econômicas nele representadas – requer, portanto, que as guerrilhas e organizações populares que lutam pela paz com justiça social consigam construir um importante movimento social e político ao redor da paz, que sirva para contrabalançar a força política da oligarquia latifundiária e pecuarista que Uribe encabeça.

Tal tarefa não será fácil. O governo sofre a pressão de forças econômicas e militares que não aceitam de maneira nenhuma algum tipo de distensão na guerra que se faz contra a insurgência. Por isso não pode declarar um cessar-fogo bilateral, ainda que tal eventualidade possa ser contemplada pelo alto pelo governo, na prática, na medida em que os diálogos ganhem força política.

Mas, além disso, o governo teme que esse movimento social, se acaba se convertendo em uma forte corrente de opinião, o obrigue a ceder em aspectos estratégicos em que o grande capital não está disposto a ceder. Daí o delicado equilíbrio com o qual manobra, e sua atitude medrosa e calculista.

NOTA: Um dos temas pouco estudados pelos teóricos da esquerda na Colômbia é a transformação de importantes setores de grandes proprietários de terras e latifundiários (da cana-de-açúcar, palma e rentistas) em grandes agroindustriais, o que lhes atribuiu peso importante no bloco financeiro que se consolidou durante a década de 90 do século XX, e que hoje figuram em nível regional latino-americano como grandes burgueses transnacionalizados (Ardila Lulle, Sarmiento Angulo, entre outros).

Nota:
(1) Nova burguesia “urbana” é como Ignacio Ramonet a denomina  em sua análise do processo de Paz na Colômbia. Ver: ¿Paz en Colombia? http://www.rebelion.org/noticia.php?id=160119. Sobre a categoria “burguesia transnacionalizada” ver: “La Burguesía trans-nacionalizada y la reelección de Santos”: http://viva.org.co/cajavirtual/svc0280/articulo14.html e “Tres tipos de burguesía; tres grupos de países”: http://www.rebelion.org/noticia.php?id=143893
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Com apoio do PCB

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A PAZ PERTENCE AO POVO!




Fonte- farcep.co



Quiçá um dos aspectos mais positivos que o ano de 2012 deixa é a abertura da Mesa de conversações entre o governo e as FARC-EP, em La Havana. Assim, abre-se a possibilidade e encontrar uma saída civilizada ao prolongado e doloroso enfrentamento entre colombianos com tudo o que um conflito de tal natureza representa. Chegar até este ponto não tem sido fácil. Trata-se de vencer a resistência de setores econômicos, políticos, sociais e militares muito poderosos que, apoiados na intervenção norteamericana, negam-se a aceitar a necessidade de uma solução política para o conflito social e armado que faz o país sangrar, porque consideram que sem a guerra estaria ameaçada a sua hegemonia de classe e por essa razão temem a paz como o diabo teme a cruz.

Temem a paz porque sabem que para chegar a ela deve-se garantir a justiça social, construir uma verdadeira democracia de essência popular e recuperar a soberania nacional; e uma paz assim concebia significa o fim dos privilégios, pois a justiça social não é outra coisa do que a obrigação do Estado de garantir os direitos fundamentais como educação, saúde, moradia, aposentadoria para todos, subtraindo tais direitos das mãos da empresa privada a quem foram entregues para convertê-los em rentáveis negócios à custa do drama que significa para milhões de colombianos se ver privado dos mesmos, por não ter com quê comprá-los; sabem que uma verdadeira democracia implica na participação popular das decisões fundamentais, no planejamento da economia, na política, no social e nas relações internacionais. Quer dizer: o fim do domínio que exercem através do esmagamento do adversário por meio do uso da força e sabem que um regime de domínio político, violento e criminoso como o que regem, somente pode-se manter pelo uso da força e, para isso necessitam da guerra e do apoio dos EUA, em troca de empenhar a soberania e permitir o saque dos nossos recursos naturais.

Por isso, não é verdade, como querem fazer ver através dos seus meios de desinformação, que a abertura dos diálogos seja uma dádiva do governo e uma última oportunidade para a insurgência, produto da sua generosidade. Nada mais distante da realidade. Se a Mesa de La Havana existe hoje é graças à persistente luta de milhões de colombianos que, através das mais diversas formas de resistência, não se resignam com que a guerra fratricida, decretada desde o poder, seja o destino último das próximas gerações. Duas coisas certas há sobre esta questão: Uma é a responsabilidade primeira da classe dominante nesta guerra que nos faz sangrar a décadas e, a segunda, que somente o povo tem a capacidade de impor, pela força da sua mobilização, o fim do enfrentamento cujos únicos beneficiários são uma indolente minoria de privilegiados.  

Também não é verdade que o dono da paz seja o presidente Santos, como o parece considerar desde a grotesca arrogância própria da oligarquia colombiana. Acostumado desde o berço a ver atendidos os seus caprichos, basta ouvi-lo dizer, em tom imperativo e em forma de ultimato, que se os Diálogos não evoluírem como ele deseja, não terá nenhum problema em se retirar dos mesmos, afogando em sangue as esperanças de milhões de colombianos humildes que padecem as consequências do conflito na carne e no espírito. Par a burguesia é fácil decretar a guerra porque para eles a condição essencial para sustentar seus privilégios é a mesma, graças a ela puderam se mantiver no poder freando, a sangue e fogo, as transformações que as forças progressistas da nação reclamam. O enfrentamento em pouco ou nada os afeta. Finalmente, os combatentes mortos nas fileiras das Forças Armadas oficiais e nas da insurgência são filhos do povo, como o são os dirigentes sindicais e populares assassinados nessa outra forma de guerra que chamam de suja e, também os camponeses, indígenas e afrodescendentes expulsos de suas terras pelos grupos armados a serviço do narco-para-latifundismo e das empresas multinacionais, assim como o são as comunidades que hoje vêm a sua existência ameaçada pela arremetida da locomotiva mineiro-energética contra seus territórios.  

Da nossa parte, sem medo de errar, podemos dizer que a paz pertence ao povo e a sua conquista não poderá ser, se não, obra dele. É necessário não esquecer esta verdade tão simples porque o que está em jogo é nada mais nada menos do que o destino da pátria, com tudo o que isto significa. É vital entender a Mesa de Diálogos como o cenário onde se enfrentam duas visões diametralmente opostas de país. A tradicional, que tem imperado desde quando uma mesquinha minoria frustrou o sonho do Libertador no alvorecer da nossa nacionalidade e, a outra, a idéia de nação que emerge como construção e sonho coletivo do suor e do sangue de milhões de compatriotas.

É importante ter em conta que, como poucos, o ano que começa, será decisivo para o futuro da Colômbia. De um lado da Mesa, o estabelecimento já tem falado, e de quê forma, através de seus porta-vozes. Presidente, ministros, grêmios, diretores de meios de comunicação, congressistas dos partidos da coalizão governista, comentaristas e especialistas pagos, alguns comandantes militares, o chefe da delegação do governo em La Havana. Todos, em uníssono, repetem: está é a última oportunidade, se não aceitarem as generosas condições da sociedade serão aniquilados, o modelo econômico não está em discussão, o sistema democrático não é negociável, as reformas que necessita o país já estão sendo discutidas pelo Congresso, a segurança dos investidores e os direitos do capital estão garantidos, se as FARC aspiram a mudanças devem entregar as armas, desmobilizar-se e, quando sejam eleitos pelas maiorias poderão fazer as mudanças que quiserem, e um longo etc. que deixa nu da cabeça aos pés, a verdadeira face da classe dominante. A recente aprovação do TLC com a União Européia, do foro militar, a reforma tributária e os anunciados incrementos do orçamento de guerra e pessoal militar e todo o demagógico e reacionário pacote de leis e reformas estimulados pelo governo, ratificam o rumo pelo qual pretendem manter o país.   

Por isso, as FARC-EP, ao saudar os colombianos no inicio de 2013, não pode mais que convocá-los a que assumam um papel protagonista nesse cenário de discussão do grande tema nacional que é a Mesa de Conversações, e que sabemos, não se poderá conseguir senão através da sua própria mobilização  e luta, única forma de romper o isolamento e a distância que o governo tenta impor entre a Mesa e a nação. Requisito indispensável para avançar nessa direção é a convergência dos diferentes setores alternativos, das diversas formas de resistência que mediante variadas formas de ação de massas tem-se oposto ao modelo oligárquico e antipatriota imperante. Que o outro lado da Mesa seja ouvido. Que junto da insurgência, o povo tome a palavra. Que a outra visão de país faça ouvir sua voz: trabalhadores, camponeses, retirantes, indígenas, afrodescendentes, garimpeiros, jovens, estudantes, defensores dos direitos humanos, partidos e movimentos políticos diferentes dos tradicionais, a igreja e organizações sociais, personalidade democráticas, mulheres e homens comuns, comunidade LGBTI; todos, absolutamente todos os matizes que integram o arco-íris da nossa nacionalidade devem estar ai presentes, se, de verdade, o que se pretende é a construção de uma paz duradoura e estável. Entender que não se trata somente de solicitar ao governo que permita sua participação, trata-se de impor este direito através da mobilização de todos os setores interessados na construção de uma verdadeira paz com justiça social, democracia e soberania. Que se abra a Mesa à participação de todos aqueles interessados na reconstrução do país, que as conversações confluam em um só processo com todos os grupos insurgentes, que se possibilite o mais amplo e democrático intercambio entre os colombianos e o resultado será um novo contrato social que reflita a diversidade e riqueza da nossa nacionalidade. Somente assim estaremos cimentando, sobre alicerces firmes uma Nova Colômbia.   

Alcançar a paz é uma necessidade inadiável para a Colômbia. Por isso, não podemos permitir que o afã eleitoral do governante da vez prime por encima dos interesses de todos os colombianos; estabelecer prazos peremptórios não só não é realista, como é uma atitude criminosa. A paz é o bem mais precioso de uma nação. A paz pertence ao povo e sua missão histórica é impô-la a quem insiste no caminho da guerra. Essa deve ser a tarefa central que encha a agenda de todos os colombianos neste ano que começa. Transbordar com uma mobilização e luta maciça nas ruas e rodovias do país.   

E, junto do nosso povo, nesse empenho, estarão dedicados todos os esforços, toda a vontade, todo o trabalho dos combatentes farianos, ao longo e largo do território nacional. Nossa vocação pela paz, hoje testemunhada na ordem unilateral de cessar fogo por 60 dias, levanta-se como uma muralha diante dos que insistem no caminho da guerra, seguros como estamos que a paz com justiça social, democracia e soberania, é o maior anseio dos colombianos, sua necessidade mais imperiosa, a mais revolucionária de todas as suas aspirações. Essa é a trilha que, desde 1964, deixaram-nos traçada os indômitos marquetalianos.


Pela paz com justiça social, democracia e soberania! Mobilização e luta de massas
Somos FARC, exército do povo!
Montanhas da Colômbia, dezembro de 2012