"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Oito propostas mínimas.


Delegação de Paz FARC-EP.
Havana, Cuba. Sede dos diálogos pela paz com justiça social para Colômbia. 06 de fevereiro de 2013

Oito propostas mínimas para o reordenamento e uso territorial:

Diante de um ordenamento autoritário do território, concebido como um mero instrumento para a a obtenção de avultado enriquecimento, mediante a extração depredadora dos recursos naturais, ou inscrito dentro de estrategias militares de consolidação para proteger os grandes capitais, ou para impor relações de poder baseadas no exercício da violência estatal e paramilitar, as FARC-EP propõem:

1. Ordenamento social e ambiental, democrático e participativo do território. Referido ao ordenamento territorial fundamentado na mais ampla democracia e participação social, para construir uma sociedade que supere a injustiça e a desigualdade, capaz de atender seus requerimentos alimentários, estabilizar suas comunidades e realizar um manejo sustentável de seu território em busca do melhor-estar da população.

Propormos, convocar um grande debate nacional acerca da reorganização espacial e territorial e dos impactos sócio-ambientais que está impondo a exploração mineiro-energética. Abougamos ademais, pelo reconhecimento e estímulo do direito à consulta previa, livre e informada.

2. Reordenamento territorial e usos da terra para a soberania alimentar e o abastecimento nutricional e alimentário da população. Há de se fundamentar o uso da terra considerando sua vocação agro-ecológica, a sustentabilidade sócio-ambiental e a garantia da soberania alimentária, o qual implicará a atualização e definição precisa das zonas de reserva florestal e de parques naturais, a proteção especial das nascentes das águas e seu uso racional. Nos processos de substração de territórios e zonas de reserva florestal se deverá favorecer às comunidades camponesas, indígenas e afro-descendentes.

O reordenamento territorial deve desestimular a pecuária extensiva, liberando não menos de 20 milhões de hectares para propósitos agrícolas. Se definirá o fechamento da fronteira agrícola, aumento da produção alimentária, frear a desflorestação e as atividades de extração minero-energética, especialmente a mineração a céu aberto.

Ao respeito se deverá criar um ente de ampla participação de decisão popular encarregado de traçar e estabelecer pautas gerais de ordenamento territorial, definir os usos da terra e resolver os conflitos que de ele se derivem.

3. Sostenibilidade sócio-ambiental, direito à água e proteção das nascentes hídricas e dos eco-sistemas frágeis. Reconhecimento do direito humano à água e definição de medidas de proteção especial ou restauração, segundo o caso de eco-sistemas frágeis e estratégicos, das bacias, páramos, umidades, fontes e recursos hídricos em geral, assim como das zonas coralinas, entre outros. Abougamos por assuntos de interesse nacional como a suspensão definitiva de projetos de represas e hidroelétricas, orientados à exportação de energia, como o megaprojeto de El Quimbo.

4. Definição de territórios de produção agrícola e de alimentos. No marco do reordenamento territorial colocamos como primordial o propósito da produção agrícola que garante o abastecimento nutricional e alimentário da população. Propormos o aumento das áreas efetivamente cultivadas, pelo menos a 20 milhões de hectares e reivindicamos a economia campenesa e seus territórios (Zonas de Reserva Camponesa e Zonas de produção camponesa de alimentos) como principais produtores e abastecedores de alimentos que são. Os territórios indígenas e de afro-descendentes também devem ser considerados territórios de produção de alimentos e ser estimulados com programas específicos.

5. Criação de novos assentamentos rurais para a produção agrícola y de alimentos. O reordenamento territorial deve contemplar a construção de novos assentamentos para a organização da produção de bens agrícolas. Tais projetos se fariam em espaços próximos aos centros de consumo.
6. Recursos naturais não renováveis em função do interesse nacional e do melhor-estar da população. O novo ordenamento deve pôr freio à expansão desordenada e anárquica das economias minero-energéticas e estrativistas, estabelecendo proibições, limites ou regulações estritas segundo o caso. Significa tomar medidas como a de suspender a entrega de títulos mineiros e de concessões para a exploração e a extração petroleira. Se deve derogar a Resolução 0045 de junho de 20012, por meio da qual se declaram como áreas estratégicas para a grande mineração uma importante parte da região amazônica e um alta porcentagem de zonas de tradição e vocação agrícola.

7. Mineração artesanal digna. Pequena e media mineração com sustentabilidade socio-ambiental. Acompanhamento e proteção da mineiração artesanal para garantir o melhor-estar das comunidades rurais, cuja economia se concentra em essa ancestral atividade. Deverão ser reconhecidos e legalizados os títulos de mineração que estão nas mãos de pequenos e meio mineradores.

8. Plantios de uso lícito de maconha, popula e folha de coca e substituição de plantios de uso ilícito. Com o propósito de melhorar as condições de vida e de trabalho de comunidades rurais que atualmente dedicam sua atividade econômica, por razões de subsistência, aos chamados plantios de uso ilícito, se propõe cessar a política de criminalização e perseguição, suspender as pulverizações aéreas e outras formas de erradicação que estão gerando impactos negativos socio-ambientais e econômicos. Tem que ser reorientado o uso da terra rumo às produções agrícolas sustentáveis e incluso considerar planos de legalização de alguns plantios de maconha, popula e folha de coca com fins terapéuticos e medicinais, de uso industrial ou por rações culturais.


DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013


Delegação da paz FARC-EP Comunicado Reflexões X


Havana, República de Cuba.
Sede dos diálogos pela paz com justiça social para Colômbia
5 de fevereiro de 2013.
REFLEXÕES SOBRE A AGENDA DE HAVANA X

“O cumprimento de nosso destino manifesto é estendermos por todo o continente que nos tem sido asignado pela providência”. John L. O´Sullivan. New York, julho de 1845.

Como nunca antes a concepção expancionista do “detino manifesto” que de cabo ao rabo cruza a política exterior dos EUA está em desenvolvimento na América Nossa.

Mais uma vez advertimos que uma nova especialidade capitalista se configura em América Latina e O Caribe. Disso não escapa Colômbia, país que marcha por decisão das elites submissas a Washington pelo rumo do neoliberalismo como forma de acumulação e reprodução em favor dos monopólios estrangeiros. Determina essa situação que o aceso e uso da terra, que é o mesmo que dizer o aceso, uso e posse do território, suas riquezas naturais, sua biodiversidade, recursos hídricos, energéticos, solos, sob-solos, mares e sobre-solo estão sendo garantidos, mas para as potências capitalistas, especialmente para as transnacionais norteamericanas, pisoteando a soberania nacional.

A garantia do aceso ao território para os grandes inversionistas foráneos, enchendo-os de gabelas e exenções tributárias, implica a negação do real aceso do povo colombiano, fundamentalmente a seus setores rurais, o qual se soma ao pertinaz desarraigamento protagoniçado pelo terror dos latifunidários que durante décadas tem sido apoiados pelo Estado como expressão política das classes exploradoras.

Desde os centros do capitalismo mundial, com o apoio submisso das oligarquias locais, em função da acumulação pelo desarraigamento violento e, ahora por conta do despojo “legal”, se impulsam mega-projetos infra-estruturais, de extração mineiro-energética, forestal, de agro-industria para os biocombustíveis, os tratados de livre comercio e a implantação de bases militares que segurem a rapinha mediante a disuassão e a força. Objetivo: O controle dos recursos naturais como base de poder econômico e político.

O controle territorial, os processos de desarraigamento violento nas estrategias de acumulação das transnacionais, o saqueio dos recursos energéticos, mineiros, hídricos, de biodiversidade, etc., para afiançar o bio-comercio e a geração de biocombustíveis, são fator essencial que aprofunda e mantem a guerra que o regime tem desatado contra o povo e à qual resiste desde diversos flancos entre los que se contam as FARC-EP, que hoje se opõem ademais, aos nefastos processos de mercantilização da natureza que se escondem sob formas enganosas de desenvolvimento sustentável e proteção ambiental, argumentados sob os sofismas do desenvolvimento econômico baseado na biotenologia e na utilização de tecnologias limpas. Todo isso amparado no só na força do terror estatal, mas, também nos ordenamentos jurídicos que permitem levar à prática a     alienação apátrida do território.

Ao desenho de acumulação da terra por meio do desarraigamento violento e “legal”, que tem gerado uma estrutura de tenência latifundiaria favorecedoras dos interesses dos grandes latifundiários e transnacionais em contra do interesse social e nacional, temos oposto nossa iniciativa Desenvolvimento rural para a democratização e a paz com justiça social de Colômbia, conformada por dez propostas para uma política de desenvolvimento rural e agrário integral com enfoque territorial. Em desenvolvimento das mesmas temos apresentado os componentes da Quinta Proposta referida ao tema do aceso à terra e amanhã apresentaremos, oito propostas mínimas para o ordenamento social e ambiental, democrático e participativo do território, do direito à água y dos usos da terra, nas que recolhemos aspectos essenciais das iniciativas das organizações sociais que têm enviado suas propostas para a Mesa de Diálogos.

Contra o desarraigamento violento e legal, contra a concentração, o latifúndio e a estrangerização do território; pela democratização do aceso e do uso da terra, se devera-se-ão seguir levantando vozes e mobilizações, que ao mesmo tempo multipliquem a luta pela soberania e a paz de Colômbia.


DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONÁRIAS DA COLÔMBIA (FARC-EP).


Comunicado do Estado Maior Central das FARC-EP



A campanha da ultra-direita contra o Processo de Paz da Havana aumenta sua intensidade. O que algumas emissoras radiais e outros meios de comunicação qualificam como a primeira grande crise dos atuais diálogos entre o governo e as FARC, não passa de ser outra dessas criações virtuais dos meios de comunicação ao fim de criar falsidades inexistentes na realidade.

As conversações na Mesa continuam normalmente, ninguém deixou de assistir e ninguém tem ameaçado se afastar dela. Ao contrário, as duas partes trabalham em busca de pontos de aproximação sobre o tema agrário, com o afã de produzir acordos significativos que representem avanços certos rumo à terminação do conflito e a paz.

O resto é especulação, escândalo mal-intencionado. Os faltos da guerra afetam pessoas e interesses das duas partes enfrentadas. Não pode ocorrer de outra maneira. E é esse o conflito que queremos solucionar na Mesa. Pretender destruir a via que pode levar à paz, usando falsidades, mentiras, especulações sem fundamento na realidade é uma verdadeira loucura.

Quem se qualificam a si mesmos como patriotas e bem-feitores do pais, em lugar de botar mais lenha na fogueira deveriam proporcionar de modo franco e positivo o fortalecimento da via dialogada. O ex-presidente Uribe difunde histérico as fotografias de uns policiais tombados em uma emboscada, mas batia palmas todo emocionado quando Raúl Reyes e Iván Rios foram mutilados.

Isso, para mencionar um só exemplo. Os sucessores dos generais da República que deram partes orgulhosos sobre a aniquilação das guerrilhas nos estados do Chocó e a Guajira, para não ir mais longe, manifestam hoje sua preocupação pelo acionar das FARC nesses mesmos estados. Escarvar até encontrar e solucionar as causas da confrontação resulta mil vezes mais prático e humano.

Se algo deve ser colocada em dúvida e condenado é o recurso de invocar sentimentos humanitários com o fim de açular a agressão e a morte. Algo que se tem convertido em característica do tendencioso programa do senhor Herwin Hoyos em Caracol Rádio, quem propõe agora uma marcha contra o processo de paz e, segundo ele em nome da liberdade e da vida.

Pode ser um excesso qualificar alguém de “fascista”. Mas, isso de considerar que em um país existem grupos humanos que não podem ser objeto de outra coisas a mais que de sua eliminação física, pois com eles não cave nenhum trato ou acordo, por se tratar de terroristas despreciáveis, omitindo protuberantes realidades históricas e sociais, não pode ser chamado de outro modo.

E assim precisamente pensam todos aqueles fanáticos que sonham com umas FARC humilhadas e vencidas. Valer-se o uso da força, da violência extrema para aplastar seus contraditores. Como se a guerra popular não houvesse brotado do sangue e dos corpos torturados e esquartejados da oposição política revolucionária na Colômbia.

Toda vida humana é sagrada, incluída a dos policiais e soldados da Colômbia, claro está. Mas, se eles levam décadas triturando compatriotas sem piedade, cabe pensar também no valor da vida de suas vítimas. Qualquer boletim vitorioso do Ministério da Defesa põe de presente que tem-se conseguido com a atuação conjunto da Polícia, o Exercito, Força Aérea e a Armada.

E uma guerra na que a parte forte e bufona mente, engana, desinforma, com o total respaldo dos grandes meios de comunicação. O Exército e os paramilitares assassinaram impunemente milhares de pessoas em Urabá e, enxotaram de suas terras milhares de famílias. Quando a Corte Suprema de Justiça mandou o Estado a pedir perdão tão só à Comunidade de Paz de São José de Apartadó, todos eles calam.

Uribe e seu vice-presidente Santos que o mesmo dia do massacre de 2005 acusavam falsamente às FARC, os primeiros. O governo atual, os segundos. Os mandos militares, os terceiros. Os grandes meio de comunicação, os quartos. Nenhum deles daria apoio a uma marcha que exija o cumprimento do mandatado pela Corte.Herwin Hoyos, também não.

O plano dos fascistas está claro. Gerar um escândalo de dimensões internacionais com relação aos presuntos crimes de lesa humanidade cometidos pelos insurgentes; levar supostas vítimas aos micrófonos e tarimas, exacerbar e utilizar a dor das famílias dos soldados e policiais vítimas da confrontação. Todo para obter o repúdio universal contra os insurgentes.

Igual a como procederam os nazis com as comunidades judias. Com o propósito de conseguir a aprovação generalizada do genocídio. Enquanto faziam pública ostentação de seu poder militar de aplastamento. Enquanto se perseguia com sanha aos comunistas, ciganos e negros. Enquanto se pisoteava a dignidade e a liberdade de nações enteiras. Os métodos e fins são idênticos.

Os pistoleiros a soldo, preparados nas academias militares, recebem o título de herois. Os horrores cometidos no país por tamanha força simplesmente não existem, devem ser desaparecidos do imaginário popular. O sangue derramada injustamente e a dor causada não é possível que seja chamada de “violência”, por serem causadas apenas pelo exercício legítimo da força. Sua Excelência o Cardeal abençoa.

Tamanha monstruosidade em construção não pode ser tolerada. Precisamente,as FARC na Mesa lutaremos contra isso. E sabemos que milhões de colombianos de boa vontade nos acompanharão nesse histórico esforço. A paz não é isso que nos querem meter pelos olhos. A paz é verdade, a paz é justiça. Essa sim é a Grande Marcha que deve cumprir Colômbia.

ESTADO MAIOR CENTRAL DAS FARC-EP

Montanhas de Colômbia, 3 de fevereiro de 2013


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sobre os diálogos de paz entre as Farc-EP e o governo colombiano

Fonte: vermelho.org


 
Concluiu-se a primeira etapa dos diálogos de Havana. Para as forças democráticas e defensoras da paz, o balanço é positivo. Mas o prosseguimento do processo até que seja alcançada uma paz estável e duradoura enfrentará ainda muitas dificuldades e incertezas.

Entrevista com Carlos Lozano, ativista da paz pelo odiario.info.

Entrevista concedida à Hernán Camacho para a ‘Alianza de Medios y Periodistas por la Paz’ e publicada no odiario.info trata sobre os primeiros diálogos de paz entre as Farc-EP e o governo colombiano.

À mesa das negociações sentam-se forças de classe antagônicas. E no desenvolvimento do processo pesará de forma determinante a posição do imperialismo, que tem na Colômbia uribista o seu mais fiel aliado na América Latina.



Qual a avaliação, segundo o seu próprio balanço, desta primeira etapa dos diálogos de Havana entre o governo de Juan Manuel Santos e a guerrilha das FARC-EP?

“É um balanço positivo, sem exageros. Está demonstrado que é possível sentar-se em uma mesa para dialogar pela paz, apesar das diferenças e escassas coincidências entre as duas partes. Ainda que não haja resultados concretos conhecidos acerca do primeiro ponto em debate (o tema agrário), ganhou-se a participação cidadã. Ainda que o governo fosse relutante em relação a ele, no final foi uma conquista democrática e o resultado é bom, pois agremiações e organizações populares debateram e fizeram propostas que não poderão ser ignoradas. Assim, o balanço é positivo ainda que existam barreiras e obstáculos”.

Como por exemplo?

“Continua sendo um erro dialogar em meio ao conflito. Deseja-se um cessar-fogo bilateral para evitar que os atos da guerra alterem a boa marcha do processo. Mas, além disso, o governo está fechado à participação popular, continua a entendê-la como um ‘ruído’ na mesa e isso é negativo, porque a mesa deve ser legitimada com a participação da sociedade, pois estão sendo discutidos temas de interesse nacional e não particular. O governo também tem uma concepção estreita da agenda. Fez um Acordo Geral e agora quer desconhecê-lo, porque crê que o modelo não pode ser mudado e que a democracia é perfeita. São barreiras que dificultam avançar em bom ritmo e na direção correta”.

O doutor De la Calle disse no final das seções deste ano que não haverá mudança do modelo econômico, nem do sistema democrático.

“Aí está a barreira. O que querem mudar então? No tema agrário acreditam com arrogância que estão fazendo uma revolução agrária e que as Farc e o povo devem apoiar a lei de terras e suas políticas agrárias que não vão ao fundo de problemas substanciais como a posse da terra, o latifúndio, o uso do solo e até as situações que afetam o território e as regiões agrárias, como a exploração mineiro-energética que estão nas mãos de transnacionais inescrupulosas. E acreditam que a democracia é plena. Querem obrigar-nos a viver com a para-política, a violência a partir das alturas do poder, a exclusão, o clientelismo e o oportunismo dominante”.

Mas na Colômbia há eleições, sufrágio universal aceitável…

“Aceitável para quem? Para a classe dominante, para a política tradicional que detém o poder ao longo da história republicana depois de Simón Bolívar. São eleições à colombiana, sob as condições e as vantagens da oligarquia dominante. Por isso temem as reformas, não aceitam modificar as regras da política, porque são as suas regras”.

Por que temem, em sua opinião, a democracia?

“Porque o dia que houver, neste país, democracia plena e direitos para todos, igualdade perante a constituição e a lei, o poder vacilará. É um problema de classe. A classe dominante prefere a violência porque lhe permite impor a ’sangue e fogo’ os seus desígnios. Disseram-no de forma aberta e pública. Por isso, não consideram conveniente mudar esse sistema político imposto à força. É decepcionante escutar alguém da burguesia – que se acredita que seja decente – defender ao extremo o governo de Álvaro Uribe Vélez, por exemplo, e até o qualificarem de segundo libertador da Colômbia, fazendo omissão dos ‘falsos positivos’, das chuzadas (escutas ilegais), da proteção ao narco-para-militarismo, da para-política, da corrupção e outros atos vergonhosos. Parece-lhes um bom personagem porque defendeu a sangue e fogo os seus interesses econômicos. O modelo econômico, por certo em crise no mundo, é considerado inalterável, pois lhes permite enormes vantagens e lucros à custa do sacrifício do povo”.

Contudo há ex-guerrilheiros na política e na administração…

“Sim, são gestos pluralistas e democráticos na aparência. Mas na realidade espalha-se a intolerância em relação aos movimentos sociais e partidos que eles representam, são na melhor das hipóteses cooptados, ou então perseguidos com fúria, como está acontecendo com Gustavo Petro, prefeito de Bogotá. Ele apenas tocou nos calos dos negócios dos poderosos, colocou como fundamental o interesse público e afetou o lucrativo negócio particular do lixo, e vieram para cima dele, e de que maneira: querem tirá-lo. A campanha midiática é grosseira e antidemocrática. Veja a ‘grande imprensa’ como o ataca sem nenhum respeito. É um problema de classe, algo que a classe trabalhadora deve entender. A oligarquia estimula a sua divisão, quando ela se une para defender seus interesses. Isso deve mudar se o objetivo é a paz. De outra forma, será difícil atingi-la”.

Mas voltemos aos fóruns, com a experiência do fórum agrário. São válidos como mecanismo de participação?

“São válidos, claro que sim. A experiência deve repetir-se nos pontos seguintes. Como também são úteis as mesas regionais promovidas pelas comissões de paz do senado e da Câmara de Representantes. É que sem a participação cidadã e popular não é possível chegar à paz. Esta se constrói com a participação de todos e todas. De alguma maneira a paz deve ser imposta aos seus inimigos e aos cavaleiros da inércia que interpõem barreiras”.

No fórum agrário participaram as agremiações. Como resultou?

“Bom e positivo. Entre outras coisas, nas suas intervenções os porta-vozes da Andi e da Sac, por exemplo, demonstraram mais realismo e amplitude que o Governo Nacional. Escutaram com atenção as propostas e análises das organizações sociais e populares. Ficaram isoladas as posições ultradireitistas e belicistas da Fedegan, que representa o setor mais comprometido com o latifúndio e a violência. Sabemos muito bem porque se opõem à paz.”

Porquê?

“Porque representam o uribismo recalcitrante que é o setor mais degradado da classe dominante; se apóiam no terror, na guerra. Na carta da Fedegan, publicada nos meios escritos há alguns dias, há algumas assinaturas que produzem terror, são os que promoveram o para-militarismo, representam associações ligadas à violência contra os camponeses e a esquerda. Não se pode esquecer que o ex-presidente da Fedegan foi julgado por para-militarismo e o atual é investigado. O que esperar desse tipo de gente?”

Como vê as duas delegações?

“Bem, cada um cumprindo seu papel, cada um faz seu trabalho. O importante é que se tenha sensatez e criatividade suficiente para encontrar os pontos de convergência, não para satisfazer o ‘outro’, mas o país, o povo colombiano que será o maior beneficiário da paz estável e duradoura. Ainda é indispensável que o governo tenha uma só linha. A atitude do ministro Pinzón é provocadora, belicista. É um ministro dinamite. Alguns porta-vozes do governo dizem que ele sai do roteiro, mas ambas as partes devem ter uma só agenda, a que seja, mas uma só, coerente e comprometida com o Acordo. Pinzón está a mais no governo. A não ser que se trate da velha e desgastada tática em que uns se fazem de ‘bons’ e outros de ‘maus’. Isso o Governo deve deixar bem claro.”

Acredita que no final se atinja a paz?

“É possível se houver vontade política de ambas as partes e o apoio da sociedade. No entendimento que deve ser uma paz digna com democracia e justiça social. O Governo deve descer da nuvem da vitória, abandonar a fábula de que a guerrilha está derrotada”.

“Não parece que a insurgência esteja derrotada; pelo contrário, o fracasso da Segurança Democrática é o fracasso da linha militar. Só os uribistas a defendem com obstinação. É importante o critério de mudança. O conflito obedece a causas e enquanto elas existam não haverá paz. A democracia e a justiça são essenciais para levar a cabo o ‘Acordo Geral para o término do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura’. Para a esquerda a paz é indispensável, porque obrigará a unidade dos setores democráticos e populares para que surja uma opção de poder do povo com a capacidade de transformar a Colômbia. A paz é uma bandeira dos revolucionários na medida em que está estreitamente ligada à construção da nova Colômbia”.


Histórico do entrevistado

Carlos Lozano é advogado, jornalista e cientista político colombiano. Ele trabalhou para a conquista da paz na Colômbia, como um intermediário entre os revoltos e o governo. É um colaborador freqüente de revistas nacionais e internacionais.  Atualmente é diretor do semanário ‘Voz’, órgão oficial do Partido Comunista Colombiano. Membro do Comitê Executivo Central (CEC) do partido. Ele também se comprometeu a unidade da esquerda colombiana, é um forte defensor do Pólo Democrático Alternativo, cuja Direção Nacional faz parte.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Comunicado da Delegação das FARC-EP

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A Havana 02 de fevereiro de 2013

Compatriotas de Nossa América:


Não há muito tempo um mafioso e paramilitar “puro sangue” se colocou fraudulentamente a faixa presidencial para governar Colômbia durante 8 anos.


Suas campanhas políticas foram financiadas pelos chefes paramilitares com dólares do narcotráfico, segundo o confessam seus antigos irmãos no crime, pressos hoje nos EUA.
Ele é o responsável direto do horror desses crimes de lesa humanidade que o mundo conheceu com a denominação triste de “falsos positivos”. Durante seu governo, seu ministro da Defesa, Camilo Ospina, lançou a Diretiva 029 que desencadeou essa enlouquecida campanha da morte que segou a vida de milhares de jovens inocentes que seriam apresentados nos meios de comunicação como “guerrilheiros mortos em combate”. O Fiscal Geral deve explicar ao país por que não tem aberto ainda processos judiciais contra as jerarquias, responsáveis por esses crimes.
Foi Álvaro Uribe Vélez e seu irmão Santiago, os promotores principais do grupo paramilitar “Os Doze Apóstolos” que banhou em sangue o norte de Antioquia e, para apagar as marcas de sua responsabilidade, eliminou um por um todos seus testigos, menos um oficial que o denuncia desde seu refugio em Argentina. Sugerimos ler o livro da escritora colombiana Olga Behar, “Os Doze Apóstolos” pois abunda em detalhes.
Uribe como governador de Antioquia emitiu a ordem operativa aos paramilitares que perpetraram o massacre de EL Aro. Quando o chefe paramilitar Villba, que dirigiu essa ação, mencionou a Uribe no processo, então o forçou a mudar a versão em troca do benefício da casa pelo cárcere e, depois o mandou matar na porta dela.
Quando o cabecilha paramilitar Salvatore Mancuso em suas confissões comprometeu industriais, generais, governadores e políticos, então 13 chefes paramilitares foram extraditados de imediato para os EUA por Uribe, não para fazer justiça mas para impedir suas denuncias. Uribe traiu assim os seus companheros com os que desenhou o projeto paramilitar em reuniões na região do Urabá antioquenho e cordobés.

Para reeleger seu Fiscal de bolso, Mario Iguarán, enviou seu ministro do interior, Sabas Pretel de la Vega a recolher dinheiro entre os paramilitares para subornar magistrados. Entre “Macaco” e outros cabecilhas reuniram cinco milhões de dólares para esse propósito, mas esse dinheiro desapareceu das mãos de Sabas e Ramiro de la Espriella.
Realmente, os crimes do ditador guatemalteco, Rios Montt, julgado por este dias, palidecem diante a obra criminal de Álvaro Uribe Vélez, que agora anda reagrupando a extrema direita, como recurso desesperado, para se blindar jurídicamente a futuro.
Um personagem nefasto, como é Uribe,que não pode ganhar a guerra assassinando tantas pessoas inocentes e humildes de um país, não pode impedir hoje que Colômbia busque a solução política do conflito. As colombianas e colombianos todos, devem se mobilizar para defender a Mesa de Diálogos da Havana e, exigir ao mesmo tempo o direito constitucional que lhes assiste para ser protagonistas principais da paz com justiça social, em democracia e soberania.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

Comunicado do Secretariado do EMC (Estado Maior Central) das FARC-EP

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02/02/2013

Informamos à opinião nacional e internacional que o dia 25 de janeiro do 2013 capturamos os agentes da polícia nacional Cristian Camilo Yate Sánchez e Víctor Alfonso Gonzales Ramírez quando faziam inteligência militar encaminhada a golpear nossas unidades guerrilheiras.

Comunicamos a seus familiares que eles estão bem de saúde e que lhes estamos oferecendo um trato respeitoso e digno. Já estamos criando as condições necessárias para sua libertação, contando para isso com a mediação do Movimento Colombianos e Colombianas pela Paz e com o acompanhamento da Cruz Vermelha Internacional.

Igualmente informamos que nos combates da terça-feira passada no município de Policarpa, estado de Nariño, contra tropas do exército oficial, ademais de recuperar uma metralhadora tipo comando com seis cananas, um lança-granadas MGL, três fuzis Galil 223, mil cartuchos do mesmo calibre, 16 provedores para Galil e dez granadas de 40 mm, também capturamos um soldado raso, que estamos em disposição de entregar junto com os policias antes mencionados. Para qualquer um é estranho silêncio do Ministério de Defesa sobre esse soldado.

Secretariado do EMC das FARC-EP

Montanhas da Colômbia, 1 de fevereiro de 2013


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

OS NÃO DO GOVERNO COLOMBOIANO

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    01. Pela vocação de paz que sempre nos tem animado a manter a porta do diálogo aberta, atendemos o chamado do Presidente Juan Manuel Santos para explorar uma possibilidade de entendimento. As FARC propuseram que o s diálogos fossem desenvolvidos na Colômbia, de cara ao país. O governo disse NÂO!
    02. Solicitamos que ao Camarada Simón Trinidad lhe fosse possibilitado fazer parte da Delegação de Paz, pensando em que seu aporte e enorme experiência e sua vacação no âmbito da reconciliação, seriam de suma utilidade para o entendimento entre as partes. O governo disse: NÃO!
    03. Propormos o cessar bilateral de fogo para suscitar no país um ambiente de tranquilidade que permitiria um avanço mais dinâmico das conversações de Paz. O governo disse: NÃO!
    04. Propormos que se não era possível o cessar de foto, assináramos um tratado de regularização da guerra. O governo disse: NÃO!
    05. Convidamos ao Ministro de Agricultura a dialogar para esclarecer as propostas que em matéria agrária estão sendo desenvolvidas em paralelo à Mesa de diálogos. O governo disse: NÃO!
    06. Convidamos ao Ministro Pinzón e ao General Navas a que de maneira serena analisar a necessidade de um cessar de fogo e hostilidades, ou em seu defeito, um Tratado de Regularização da Guerra. O governo disse: NÃO. Seu Ministro de Defesa acrescentou que não falaria com bandoleiros, porém a insurgência continua dialogando com porta-vezes governamentais em A Havana.
    07. Ao contrário da visão do governo que que qualifica de “bochinche” a presença do povo na Mesa de Conversações, propormos possibilitar a plena participação cidadã em todos os momentos do processo. O governo disse: NÃO!

    08. Propormos a realização de uma Assembléia Nacional Constituinte como mecanismo refrendário que ponha ao Constituinte Primário como protagonista máximo de um Novo Contrato Social de Paz e justiça social. O governo disse: NÃO!

    09. Já são demais os estridentes NÃO do governo a todas nossas iniciativas em favor da Paz da Colômbia. Para completar, o povo colombiano tem escutado através dos meios de comunicação a reiterada ordem governamental de arreciar a guerra, que estranhamente agora se faz acompanhar de queixas pelas consequencias enquanto nos chama de cínicos.

Mas, quem tem institucionalizado o conflito armado e a guerra suja na Colômbia? Quem é o vitimário nessa confrontação que despoja o camponés desde o ano de 1940? Quem exterminou a Uniâo Patriótica? Quem tem realizado os massacres ou crimes de lesa humanidade que eufemisticamente são chamados de “falsos positivos”?
Diante da escalada da guerra comandada pelo governo, desde nossa legítima resistência, nossa insistência é que escalemos os intentos por alcançar a Paz e fazer uma grande campanha para proteger a Mesa de Conversações, entendendo que é preferível dar-lhe tempo suficiente a uma iniciativa de diálogo, que perpetuar a injustiça e a guerra sem outra opção.

DELEGAÇÃO PAZ DAS FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONÁRIAS DA COLÔMBIA, EXÉRCITO DO POVO (FARC-EP).



Lula e Fidel Castro se encontram em Cuba

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Na tarde desta quarta-feira (30), o ex-presidente Lula esteve com o ex-presidente cubano Fidel Castro. Pela manhã, Lula visitou as obras do Porto Mariel, acompanhado do atual presidente de Cuba, Raúl Castro.

Para baixar fotos em alta resolução, visite o Picasa do Instituto Lula.

Lula está em Cuba desde segunda-feira (28). Na terça-feira, ele depositou flores no Memorial José Martí, em Havana, na manhã desta terça-feira (29). O memorial é um monumento dedicado a José Martí, grande herói da independência cubana e fica na Plaza de la Revolución, na capital Havana. À tarde, Lula participou do lançamento do livro “Os últimos soldados da guerra fria”, do escritor brasileiro Fernando Morais. O evento aconteceu em Havana, capital de Cuba.

Lula participou nesta quarta-feira da III Conferência Internacional pelo Equilíbrio do Mundo, evento que marca as comemorações dos 160 anos do nascimento do político e escritor cubano Jose Martí, para o qual foi convidado em agosto de 2011.

Depois de Cuba o ex-presidente visita à República Dominicana, onde se encontrará com o presidente Danilo Medina Sánchez e o ex-presidente Leonel Fernádez.

No dia 2 de fevereiro (sábado) Lula chega à Washington , onde no domingo (3) faz o discurso de abertura da conferência da The International Union, United Automobile, Aerospace and Agricultural Implement Workers of America (UAW), o sindicato dos trabalhadores da indústria automobilística e aeroespacial norte-americana.
No próprio domingo Lula retorna ao Brasil