"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Palavras de encerramento no evento de informe da Comissão Histórica



La Habana, Cuba, sede dos Diálogos de Paz, 10 de fevereiro de 2015
A Delegação de Paz das FARC-EP recebe com beneplácito os informes apresentados hoje pela Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, e manifesta sua satisfação pelo passo que demos na busca da verdade em torno dos fatos que configuram o conflito colombiano.
Até agora, o Estado colombiano tinha vindo sustentando um discurso unilateral sobre a origem do conflito, sobre suas causas, seus responsáveis e suas consequências. Fruto dos esforços das partes no atual processo de Diálogos de Paz, pela primeira vez o povo colombiano dispõe de um relato plural, ainda em construção, porém já não unilateral, mas sim reflexo das distintas visões que mantemos os que temos confrontado neste longo conflito social e armado que tem dessangrado a Colômbia por mais de 50 anos. Saudamos este primeiro passo, impensável quando começamos estes diálogos, e manifestamos nossa firme vontade e compromisso de trabalhar para que o povo colombiano continue avançando pelo caminho da verdade histórica, a fim de que esta nunca mais possa ser ocultada aos filhos e filhas da Colômbia.
O povo que não conhece sua história está condenado a repetir uma e outra vez erros irreparáveis e de trágicas consequências. Por isso a Memória Histórica é patrimônio inalienável dos povos livres e é nossa obrigação construí-la entre todas e todos, negando-nos a ocultar quantas explicações resultem imprescindíveis para a construção de um futuro de paz e reconciliação. As experiências de outros povos demonstram que renunciar a construir coletivamente uma Memória Histórica é um esforço estéril que só conduz à incessante reabertura de feridas que necessariamente devem ser cicatrizadas para alcançar e manter a paz. Porque não queremos que o mais trágico de nossa história se repita, porque é nossa obrigação superar décadas de guerra contra o povo colombiano, é pelo que as FARC-EP nos empenhamos neste esforço de construir um relato certo de nossa história recente, um relato da história e das causas mais profundas deste cruento conflito que tanta dor e danos tem causado aos colombianos.
É questão unânime que os pobres, os humildes, os despossuídos, nunca começaram nem quiseram as guerras. A paz é condição prévia indispensável para o progresso dos povos, para acabar com a pobreza, as desigualdades e a exclusão social, para empreender profundas transformações em benefício das maiorias e assim poder construir uma sociedade justa de homens e mulheres livres e iguais. Pelo contrário, quando as classes dominantes se negam a permitir os avanços sociais, proscrevem a igualdade, pervertem a justiça e negam a democracia política e social, o povo, para simplesmente poder viver dignamente, se vê compelido a levantar-se contra a tirania recorrendo ao sagrado direito à rebelião frente à injustiça e a opressão. Quem nega os direitos fundamentais a todo um povo não pode, por sua vez, fazê-lo responsável pelo imenso sacrifício que supõe exercer o direito à rebelião, nem pode criminalizá-lo pelo fato de aspirar a construir uma sociedade justa valendo-se do único recurso que ficou a seu alcance quando se lhe impede o exercício da democracia, o recurso às armas.
Mantemos a afirmação de que o conflito social e armado que a Colômbia padece não foi causado pelo levantamento campesino que deu origem às FARC-EP, nem por outros levantamentos rebeldes que se situam na origem das distintas expressões de insurgência que nossa Colômbia conheceu ao longo de sua história. Ninguém pode hoje manter com seriedade e mínima rigorosidade histórica que a posta em marcha de um projeto coletivo de vida pelos campesinos de apenas quatro veredas da imensa Colômbia desse lugar ao surgimento de uma “república independente” que ameaçasse a integridade de nosso país ou pusesse em perigo a própria existência do Estado. A rebelião foi a consequência de uma das causas do conflito: a agressão das classes dominantes; a causa do conflito foi a negação de direitos pelos poderosos, pelo estabelecimento, à maioria do povo colombiano.
No conflito colombiano não tem havido vencedores nem vencidos. Houve, sim, igual que em todas as guerras, uma vítima: o povo colombiano. Por isso afirmamos que carece de sentido que o Estado pretenda obter na Mesa de Diálogos uma vitória que foi incapaz de obter nos campos de batalha durante anos, apesar da imensa desproporção de meios e recursos, contando com ingentes forças desdobradas para a guerra pelo aparelho do Estado e também pelas potências estrangeiras que o têm apoiado. Não estamos ante um processo de subordinação ou submissão, porque nenhuma parte pôde vencer a seu adversário. E é obrigação de ambas as partes na Mesa de Diálogos construir um relato do conflito e de suas causas que resulte crível e rigoroso por basear-se em fatos objetivos, e que evite a tentação de apresentar uma insurgência que tem resistido numa guerra desigual como a responsável pelos crimes perpetrados contra o povo, em cuja defesa se levantou. Por isso temos rechaçado e rechaçaremos quantas visões pretendam apresentar o atual processo de busca de uma solução política para o conflito colombiano como um processo de exclusiva apresentação de contas ante a justiça. Rechaçaremos igualmente quantas propostas se nos formulem exigindo responsabilidades políticas ou jurídicas unilateral e exclusivamente à insurgência, pretendendo ocultar assim que a maior responsabilidade no conflito corresponde, sem dúvida, a um Estado e uma classe dirigente que se afastaram há anos do bom governo que obriga a buscar o bem comum, e que não hesitaram em oprimir todo um povo unicamente para preservar seus privilégios e impedir a justa divisão das imensas e comuns riquezas que nossa pátria contém.
Hoje, escutamos distintas explicações sobre a origem do conflito e sobre suas causas. Uma primeira conclusão há de ser que a rigorosidade na análise histórica é incompatível com a visão unilateral dos privilegiados; é incompatível com o discurso único que tem regido e imperado na Colômbia da violência que queremos deixar para trás. Para superar essa análise perniciosa e daninha para nosso povo foi que as partes acordamos pôr em marcha a Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, cujas conclusões hoje se nos expuseram. Estamos satisfeitos porque cremos que se abriu outro caminho para a paz. Cremos que entre todos demos um passo histórico, um passo imprescindível e mil vezes adiado até agora. Porém cremos que ainda resta muito mais por fazer. A história nos mostra que sem pôr-nos de acordo num correlato histórico comum, numa Memória Histórica coletiva, não haverá verdadeira reconciliação nacional e, portanto, o fantasma de uma nova guerra num futuro mais ou menos próximo ou distante não poderá ser definitiva e eficazmente conjurado.
É, portanto, uma necessidade que, assim como as FARC-EP vimos assumindo nossas responsabilidades pelas consequências e os efeitos que nosso acionar no conflito social e armado puderam ter, o Estado e o estabelecimento assumam suas responsabilidades sobre as causas que hoje foram aqui expostas. É imprescindível que as classes dominantes realizem um exercício de contrição e reconheçam que a negação dos direitos de todo um povo, a condenação deste à miséria e à exclusão, a desenfreada acumulação de imensas riquezas em poucas mãos e a usurpação de terras ao campesinato, sonhos e futuro, se situam inequivocamente na origem do longo conflito social e armado que agora entre todos estamos empenhados em superar. Somente um firme compromisso para que as ditas causas nunca mais voltem a aparecer em nossa pátria serão garantia para a sólida construção da Nova Colômbia em paz que todas e todos queremos para nossos descendentes.
Estimulamos o povo colombiano a debater e desenvolver as conclusões hoje aqui expostas por esta Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, a construir entre todos e todas, esse relato histórico, imprescindível para a reconciliação e ainda inacabado, sobre as causas do longo conflito social e armado. Exortamos a estudar nossa história para conhecê-la e nunca mais repetir os catastróficos erros cometidos, uma e outra vez, por uns maus governantes que não souberam dar a seu povo o bem-estar e a paz que todos, sem distinção de origem, classe ou condição merecemos.


DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
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Equipe ANNCOL - Brasil

FARC-EP Saúdam a Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas



La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 10 de fevereiro de 2015
Compatriotas relatores
Víctor Manuel Moncayo Cruz e Eduardo Pizarro Leongómez
Comissionada Maria Emma Wills e demais integrantes da
Comissão histórica do conflito e suas vítimas.


«Seja o que for, já não nos encontramos nos tempos em que a história das nações era escrita por historiógrafos privilegiados aos quais se lhes dava inteira fé sem exame... são os povos os que devem escrever seus anais e julgar aos grandes homens.» Simón Bolívar (Diario de Bucaramanga).


Apreciamos imensamente o trabalho realizado pela “Comissão histórica do conflito e suas vítimas”. Somos conscientes de que vocês não contaram com as melhores condições para realizar suas elaborações, sobretudo pela insuficiência de tempo. Não obstante, estamos convencidos de que souberam compreender que a dinâmica imposta por um processo como o que adiantamos não dá espera, e responderam ao chamado que lhes fez a Mesa de diálogos desde Havana. Certamente sempre se considerará que o realizado poderia ser melhor, se se tem em conta o rigor que demanda todo esforço intelectual e investigativo que se preze ser sensato e particularmente este que será um insumo fundamental para aprofundar na busca da verdade a respeito das causas e consequências da longa confrontação política, social e armada da qual a Colômbia padece, o qual gera imensas expectativas na opinião nacional frente aos resultados que agora se fazem públicos.
Suas contribuições ao entendimento da complexidade do conflito, assim como as análises que contribuam para seu trâmite pela via exclusivamente política, serão, com certeza, indiscutíveis. Além disso, suas aproximações à problemática das vítimas e à definição das responsabilidades, assuntos que, ao lado da busca de soluções à miséria, desigualdade e à carência de democracia se encontram no centro de nossas preocupações.
Desde o início mesmo dos diálogos, propusemos uma comissão que se ocupasse do esclarecimento da verdade histórica do conflito. Após mais de um ano de formulação da dita iniciativa, o Governo nacional respondeu positivamente a nossa proposta e se compôs a “Comissão histórica do conflito e suas Vítimas”. Em igual sentido, estamos certos de que se concretizará o acordo sobre a “Comissão de esclarecimento e não repetição”, com cujo trabalho se complementará o esforço por alcançar o propósito de construção da verdade histórica como parte de nosso compromisso com as vítimas e, em geral, com o país.
Tal propósito, evidentemente, representa uma tarefa pendente, sobretudo se se leva em conta que, sendo o conhecimento da história uma condição inevitável para traçar o curso do porvir, o qual é axiomático, a realidade histórica e sua interpretação também se converteram num campo de batalha. Paralelamente com as pretensões de uma vitória militar sobre nosso levantamento armado, que, aliás, nunca chegou, fizeram carreira a falsificação e o negacionismo. Por mero dispositivo e através da manipulação midiática, se pretendeu fazer desaparecer a existência do conflito e com isso a perspectiva de uma solução política e a possibilidade de encontrar a reconciliação em condições de justiça e vida digna.
Nossa longa e legítima luta buscou ser desprestigiada e apresentada como parte das atividades próprias de uma indústria criminal; nosso acionar guerrilheiro foi convertido em simples comissão de delitos, tipificados na longa lista do direito penal. Ainda hoje, os setores mais atrasados da opinião pública e funcionários mal-intencionados do Estado, inimigos da paz, como o Procurador Geral da Nação, persistem nessa ideia. Sua intenção é clara: apagar o inapagável; estimular a ideia de que nossa luta guerrilheira é a invenção de um grupo de indivíduos para se enriquecerem e, de passagem, ultrajar a população e convertê-la em objeto de vitimização; promover o ódio e a vingança entre os colombianos; suprimir de golpe a possibilidade da rebelião armada e continuar pelo caminho do desconhecimento do delito político e suas conexidades, ainda sabedores de que tal despropósito pode levar o processo de diálogo a uma sem saída.
Daí a importância do retorno à história. Só ela permite compreender nosso presente e projetar nosso futuro. O que ansiamos nós outros é o da paz com democracia verdadeira e justiça social, é o da reconciliação nacional. E esse retorno à história o concebemos como uma construção complexa na qual devem ter espaço todas as vozes. Por isso, nosso entendimento da Comissão partiu da necessária consideração de múltiplas perspectivas de análises e enfoques, sempre sob a suposição que ainda em presença deles há fatos e evidências históricas indiscutíveis; que o relato histórico não é só um assunto de interpretação, senão que deve ser elaborado precisamente com base numa rigorosa avaliação dos fatos e das evidências.
Somos conscientes das dificuldades para a elaboração do referido relato. Começando, como já assinalaram alguns historiadores, que para uma história do conflito faltam ainda por explorar –com o devido julgamento- as fontes guerrilheiras e os ainda não abertos arquivos do Estado, sem deixar de lado inclusive os de governos estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos que, como é bem sabido, têm jogado um papel determinante em nossa história. A elaboração dessa história ainda nos espera.
Quando acordamos a composição da Comissão, conhecendo os limites que a investigação histórica impõe, assinalamos que não pretendíamos que se realizasse uma nova investigação, senão que, a partir das já existentes e confiando no conhecimento dos expertos, se pudesse adiantar um exercício de interpretação que contribuísse para compreender a complexidade do conflito colombiano, suas causas e origens, sua persistência, os impactos gerados por este sobre a população e, ademais, que contribuísse na definição das responsabilidades. Não buscávamos um relato único; entre outras coisas, porque a história que nos aguarda não é a dos vencedores. Pretendíamos, reiteramos, que as mais diversas vozes fossem ouvidas, inclusive aquelas que teórica e epistemologicamente se podem situar no campo da história feita desde a subalternidade.
Estamos certos de que conseguimos essa incumbência. Os informes dos doze expertos, assim como o informe da relatoria, com sua aproximação teórica, metodológica e interpretativa diversa, enriquecerão as discussões da Mesa e, não nos cabe a menor dúvida, marcarão uma etapa no debate nacional, acadêmico e da opinião pública acerca da história do conflito social e armado. As vítimas do conflito contarão com um inevitável referente para compreender o que passou e especialmente pensar em como superar o que faz com que a vitimização se reproduza e persista.
Nesse sentido, queremos agradecer-lhes pelo trabalho realizado. Estejam certos de que o Informe da Comissão representa uma contribuição substantiva ao processo de paz. Seus alcances ainda não podem ser percebidos na devida dimensão. Certamente irá suscitar reações e inquietações diversas que deveremos assumir com sabedoria, sensatez, probidade e a obrigação ética de comprometer-nos em aliviar, como dizia o Libertador Simón Bolívar, “os horrores da guerra”, favorecendo a reconciliação. De tal maneira, então, que muito útil seria manter coesa e em funcionamento a equipe de estudiosos que integram a Comissão histórica do conflito e suas vítimas, a fim de continuar contando com tão importante fonte de consulta e assessoria no curso dos debates que levamos ao redor do ponto 5 da Agenda, referido a Vítimas, e os que já estamos às portas de abordar em relação com a finalização do conflito.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
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Equipe ANNCOL - Brasil

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

FARC-EP saúdam visita da Frente Ampla pela paz



FARC-EP saúdam visita da Frente Ampla pela paz
La Habana, Cuba, sede dos diálogos de Paz, 9 de fevereiro de 2015
Companheiras e companheiros da Frente Ampla pela paz
Nossa saudação fraterna e ampla, como é o caráter do espaço que hoje vocês integram somando esforços de diferentes organizações políticas e sociais populares, que decidiram seguir um caminho de convergência para o propósito fundamental e louvável de alcançar a paz para Colômbia.
Importantes organizações, personalidades e dirigentes políticos e sociais reconhecidos se encontram hoje comprometidas e comprometidos em garantir a boa marcha do empreendimento de unidade que durante tantos anos foi esquivo ao setor majoritário de compatriotas que clamam e lutam pela reconciliação nacional, em condições de justiça e dignidade. Felizmente, assim o corrobora a presença de vocês aqui em Havana, juntos, atuando mancomunadamente ao redor da altíssima causa da paz, fazendo parte essencial de um processo de verificação de algo tão importante como é o declaratório do cessar-fogo. Isto, ademais, marca uma etapa histórica no que concerne à participação protagônica e decisiva do soberano na definição dos destinos do país.
A visita de vocês, que vem a ser a primeira de ampla representação que porta-vozes dos diversos setores sociais fazem de maneira pessoal em Havana, a uma das partes em conversação, trazendo, ademais, uma mensagem de concórdia e esperança contra a continuidade da guerra, cremos que pode ser a abertura, que a insurgência tem exigido com tanta insistência, aos cenários de participação direta que necessariamente o povo deve ter na Mesa de Diálogos, se em verdade queremos alcançar uma paz estável e duradoura.
Atos de desprendimento e gestos que tomam por meta a busca do bem-estar comum são os que preenchem de autoridade moral aos que os exercem, e brindam a certeza em que é possível abrir caminhos a uma alternativa de mudança em nosso país. Com sinceridade assim o vemos, e cremos que é o que a presença da Frente Ampla pela Paz encarna, gerando otimismo em nossos corações.
Queremos agradecer, uma vez mais, a Frente Ampla pela PAZ, a cada uma de suas organizações e integrantes, agora de maneira presencial, por ter assumido o difícil compromisso de adiantar a verificação do cessar-fogo, unilateral e por tempo indeterminado, que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Exército do Povo decidimos decretar a 20 de dezembro do ano passado e que completa no dia de hoje 52 dias. Sem tal aceitação da verificação não nos teria sido possível dar início à determinação que tomamos pensando em razões estritamente humanitárias e em propiciar um melhor ambiente para as discussões na Mesa.
Vocês complementam sua intrepidez acorrendo a Cuba para realizar a análise do que têm sido estas semanas de silêncio das armas por parte das FARC-EP, e acreditamos que será fato de constatação, que se tratou de um tempo no qual com suma responsabilidade suportamos o assédio guerreirista de um regime que ainda não encontra o caminho para a desescalada prática da confrontação, e, pelo contrário, recrudesce suas operações militares, sem importar-lhe que a insurgência fariana não somente suspendera suas ações ofensivas contra unidades do exército e da polícia e contra a infraestrutura pública e privada, senão que também evitou o avanço das tropas institucionais e dos choques, ademais de haver atuado com paciência e ponderação frente já a vários ataques realizados contra nossas posições, os quais foram denunciados oportunamente.
Com os braços abertos, os recebemos com sentimento de pátria, para informar-lhes sobre os avanços das conversações e na expectativa de suas reflexões, da transmissão de suas experiências e inquietações; dispostos a ouvir suas observações e sugestões, e a que construamos juntos fórmulas que coadjuvem a dar maior avanço ao processo de diálogo com o governo, tendo sempre presente que é junto à cidadania que nos corresponde tomar as determinações que encaminhem a Colômbia para a conquista da paz verdadeira, porque o povo não pode ser um simples espectador da definição de seu futuro.
Muito obrigado novamente à Frente Ampla pelo respaldo inestimável que tem dado ao processo de paz em geral, obrigado por sua ação de verificação do cessar-fogo unilateral e por tempo indeterminado, obrigado por sua persistência em impulsionar a concretização sem demora do cessar bilateral, e obrigado por irem abrindo com a execução de sua agenda social anti-neoliberal, e com sua heroica oposição à agenda legislativa antipopular, um caminho de protagonismo para o constituinte primário.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
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Equipe ANNCOL - Brasil

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Proposta sobre Provisão de garantias reais e materiais de não repetição


  9.1.     Ações imediatas e preventivas de não repetição: a) Concretizar um cessar bilateral de fogos e de hostilidades; b) Suspender projetos de investimento mineiro-energética e de infraestrutura [em curso ou previstos) que estejam gerando em forma comprovada ou possam gerar deslocamento, despojo ou outras vulnerações graves sobre os direitos humanos; e c) Deter o trâmite e arquivar iniciativas legislativas que por seus conteúdos vão em contraposição aos acordos parciais alcançados na Mesa de Diálogos ou comprometam possíveis vulnerações dos direitos humanos, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais da população.

9.2 Reformas estruturais para a não repetição e a reconciliação nacional, que indicam a superação das condições estruturais da violência do sistema e dos processos de vitimização que dela se derivam. Se precisa pôr em marcha um processo constituinte aberto, com a mais ampla participação política e social, que deverá conduzir à convocatória e realização de uma Assembleia Nacional Constituinte. 
9.3 Proscrição do anticomunismo e da doutrina da “segurança nacional”, o qual implica a proscrição de medidas contra insurgentes e da “segurança nacional”, promovendo uma nova cultura política que garanta o reconhecimento e a regulação democrática do conflito social e da garantia e proteção dos direitos humanos pondo freio à intervenção estrangeira.
9.4 Desmilitarização da sociedade e reforma das Forças Militares e de Polícia, incluindo os serviços de inteligência do Estado. Isto implica: a) Reconversão das Forças Militares de forças contra insurgentes para forças de proteção da soberania nacional e das fronteiras pátrias; b) Redução do tamanho das Forças Militares; c) Diminuição do gasto e defesa até dois por cento [2%] do PIB e reconducão da poupança para gasto social e para a materialização dos direitos das vítimas do conflito; d) Reengenharia de instituições educativas militares do nível básico, médio e superior para instituições inteiramente civis; e) Reconversão de meios de comunicação de caráter militar para entidades civis; f) Redefinição das atividades cívico-militares para atividades genuinamente civis; g) Realização de programas de readaptação laboral e de emprego para funcionários do setor “Segurança e Defesa”; h) Subordinação da Polícia ao poder civil; i) Reengenharia dos serviços de inteligência para a proteção da soberania nacional; e j) Abertura pública dos arquivos das Forças Militares e de Polícia e dos serviços de inteligência.
9.5 Depuração do Estado e das Forças Militares e de Polícia, incluindo os organismos de inteligência que tenham estado comprometidos com processos de vitimização, atendendo as conclusões e recomendações da “Comissão de esclarecimento e não repetição”, concebida como uma contribuição ao estabelecimento da verdade histórica e ao reconhecimento dos direitos das vítimas do conflito.
9.6 Desmonte e erradicação do paramilitarismo, para o qual se comporá uma “Comissão de esclarecimento do paramilitarismo”, atendendo o estabelecido no ponto 3 do Acordo Geral. Com base nisso, o Governo e as FARC-EP –na “Comissão de erradicação do paramilitarismo”- criada para tal efeito, elaborarão de maneira conjunta uma agenda e um cronograma de seguimento que permita implementar as medidas e ações às quais houver lugar.
9.7 Garantias para o exercício da política e do direito à mobilização e ao protesto social. Se deverão prover garantias para sua plena expressão, não estigmatização, não perseguição e seu tratamento não repressivo. Além disso, implica o reconhecimento e as plenas garantias para a oposição política e social e o direito a ser governo. Se restabelecerá em forma plena e ampla o delito político e o reconhecimento do direito à rebelião, o qual gozará da correspondente proteção constitucional.
9.8 Composição da “Comissão constitucional permanente de garantia, proteção e promoção dos direitos humanos e de prevenção de suas graves violações”. Esta Comissão se integrará com representantes das organizações de mulheres, campesinos, indígenas e afrodescendentes, dos trabalhadores de direitos humanos e das vítimas do conflito, assim como dos movimentos políticos e sociais, como instância de participação, controle e vedoria social.
9.9 Compromissos das FARC-EP. As FARC-EP se comprometerão, no que lhes corresponda, a contribuir para a não repetição. Dentro de suas principais contribuições se encontram: a) Sua contribuição para a finalização da confrontação armada; b) Sua decisão de transformar-se num movimento político que impulsione as transformações estruturais; c) A ativa participação na construção da memória e da verdade histórica e de ações reparadoras; d) Suas experiências de democracia direta e comunitária, de economias e valores solidários e de cooperação social.
9.10 Provisão de segurança individual e coletiva. Se proverão as condições necessárias de segurança pessoal e coletiva a dirigentes políticos e sociais, operários, campesinos, indígenas e afrodescendentes, a defensores de direitos humanos, a suas múltiplas instituições e processos organizativos, sejam estes partidos, movimentos, sindicatos, coletivos, associações ou expressem outras formas de organização social. Se criará uma Comissão Permanente para tal efeito, que contará com representantes dos afetados e interessados.
9.11 Reconstrução e proteção da memória e da verdade histórica. Os informes da “Comissão histórica do conflito e suas vítimas” e da “Comissão de esclarecimento e não repetição” representam contribuições de maior significado em desenvolvimento desse propósito. Por tal razão, gozarão da mais ampla difusão tanto em seus formatos originais impressos e digitais como em versões pedagógicas e didáticas.
 La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 7 de fevereiro de 2015.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

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Equipe ANNCOL - Brasil

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Que significa tudo isto, Senhor Presidente?


Recentemente, conhecemos declarações oficiais do mais alto nível que negam a existência de grupos paramilitares, apesar da evidência diária de ameaças e crimes contra dirigentes sociais, políticos e populares que levam a firma de vários desses grupos de assassinos.
A realidade assinala outra coisa. No dia 30 de janeiro se produziu o crime do dirigente campesino Jáminton Andrés Ávila, do município de Yondó, no Nordeste de Antioquia, líder, entre outras organizações, da Zona de Reserva Campesina do Río Cimitarra, ao tempo em que se denunciam de novo as ameaças de morte contra o dirigente de ANZORC, César Jerez.
Em Cumbitarra, estado de Nariño, no último 23 de janeiro, se produziu um combate entre unidades da Frente 29 das FARC-EP e os membros de um grupo paramilitar que tinha fixado uma reserva na corregedoria de Remolinos e ameaçava com avançar até Palo Grande. O saldo foi de um paramilitar morto e mais dois feridos. Após esse acontecimento, marcou presença em Sidón, parte alta de Remolinos, uma patrulha do Exército que entrou decididamente a apoiá-los.
Reforçados pela tropa oficial, os paramilitares penetraram até as veredas Palo Grande e La Perdiz, de onde começaram a enviar chamamentos aos comerciantes de Sidón, Sánchez e Remolinos, para que se apresentem ante eles com somas que oscilam entre 5 e 20 milhões de pesos, sob a ameaça de morrerem no caso de se negarem [a pagar]. Segundo o expressado à população pelos paramilitares protegidos pelo Exército, se encontram à espera de mais homens e armas.
Por outra parte, a 30 de janeiro, em altas horas da noite, se apresentou uma patrulha da força-tarefa Apolo do Exército Nacional, na casa de um morador da vereda El Tierrero, município de Caloto, Cauca, destroçando as portas e causando toda uma desordem, após o que procederam a arrancar de sua cama, à força, o chefe da família. Ante os gritos e súplicas de sua esposa e filhos, a comunidade se apresentou, as quais as tropas tentaram rechaçar empregando suas armas de fogo, fuzis e lança granadas MGL. Só a valentia da população decidida a impedir a arbitrariedade oficial obrigou a tropa a retirar-se, que expressou abertamente ameaças contra a população e seus habitantes.
No município de Chaparral, sul do Tolima, se incrementam as operações militares na área rural, particularmente nas corregedorias La Marina e León, onde patrulhas de 10 soldados profissionais que levam consigo mulheres, enviam às casas da comunidade pequenos grupos vestidos à paisana, com uma ou mais mulheres, a que se apresentem como guerrilheiros que reclamam remessas, dinheiros ou qualquer outro encargo depositado ali para eles. Ante a surpresa e a negativa da população, mais tarde chega a tropa fardada nas mesmas casas, arrasando completamente seu interior e levando até a mais mínima das provisões das pobres famílias campesinas.
Continuam as operações militares nas áreas da Frente 15 e na região do Guayabero, no Meta, com tropas que avançam por terra, tomam posse de lugares dominantes e dali se dedicam a bombardear com granadas de morteiro 120 mm a área circundante. Sobra dizer que a orientação que se deu às unidades guerrilheiras é a de responder de maneira contundente.
Que significa tudo isso, senhor Presidente? Estamos à beira de assumir o tema da diminuição da intensidade do conflito, em meio a um cessar-fogo unilateral rigorosamente cumprido por nossa organização. Discutir sobre assuntos como o desminado ou a violência sexual em meio à guerra não representa para nós nenhum problema, sempre que sejam atendidas as dificuldades apresentadas em ambos os bandos. Porém, há de se ter em conta que nossa atitude atual tem contribuído para que as vítimas da confrontação sejam cada dia menos. Uma atitude semelhante por parte do Estado faria mais rapidamente realizável o velho anseio de pôr fim aos sofrimentos do povo colombiano.


SECRETARIADO DO ESTADO-MAIOR CENTRAL DAS FARC-EP
La Habana, 3 de fevereiro de 2015.
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Equipe ANNCOL - Brasil

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Mídia continua o massacre: o alvo é depor Dilma e destruir a esquerda


A mídia hegemônica continua com seu festival de absurdos, e não se enganem: o objetivo não é apenas destruir o PT, mas depor Dilma e varrer a esquerda do mapa.

Baseados em um depoimento dado em novembro de 2013, onde o depoente, em busca da famosa “delação premiada”, estima que o PT tenha recebido uma determinada quantia, estimativa que não conta com nenhuma prova ou sequer indício, os sites da mídia hegemônica fazem a festa nesta quinta-feira (5), festa que será repetida na manhã de sexta-feira (6) pelas manchetes dos jornalões. A cruzada imoral levada a cabo por parte do MPF e do judiciário a serviço do sistema oposicionista chegou ao ponto de, para fornecer um espetáculo à mídia hegemônica, conduzir de forma coercitiva o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, para prestar depoimento. A coerção não se justifica de nenhuma forma. Vacarri não estava foragido e não havia se negado a cumprir qualquer intimação. Portanto, o procedimento normal seria intimá-lo para prestar o depoimento, mas isso não serviria ao intento do circo que foi armado em nome do golpe.

Escândalo da Operação Golpe a Jato: delações como fruto aberto de barganha

O jornal Valor Econômico, desta quinta-feira (5), relata, sem nenhum tom crítico, como são escandalosamente barganhadas as “delações”. A matéria com o título “Novas delações premiadas começam a ser negociadas”, revela esta trama verdadeiramente kafkiana.
Relata o Valor: “Os acusadores insistiam para que os dirigentes da Camargo Corrêa assumissem a prática de corrupção com percentual de 5% sobre os contratos celebrados pela Petrobras com a empreiteira, no período de 2004 a 2014. Mas os executivos estavam dispostos a confessar a culpa até o máximo de 2% dos contratos. Discordavam também do período de tempo em que as irregularidades aconteceram (...) As negociações evoluíram quando as duas partes cederam: os empreiteiros se dispuseram a confessar pagamento de propinas de até 3% nos contratos firmados com a estatal. O MPF teria concordado”.

Escândalo da Operação Golpe a Jato: delações como fruto aberto de barganha II

Ou seja, os “delatores” dizem que a propina era de 2%, o MPF quer que eles digam que foi 5%, mas aceita 3%! Nada de investigação, nada de busca pela verdade, apenas uma reles barganha com fim político. Um fim político tão claro que o MPF exige que o período abarcado seja de 2004 até 2014, ou seja, se alguém quiser "delatar" o período FHC já está de antemão avisado que o MPF não o ouvirá, a mídia não divulgará e o prestimoso juiz Sérgio Mora não "premiará". É capaz até de aumentar a pena. Aliás, o PSDB, citado nos primeiros depoimentos “vazados”, simplesmente sumiu da operação Lava Jato, que pode ter tranquilamente seu nome mudado para operação Golpe a Jato.
Com apoio de vermelho

Noam Chomsky: Estamos à beira da total autodestruição?




Pela primeira vez na história da espécie humana, desenvolvemos claramente a capacidade de nos destruirmos. Isso é verdade desde 1945. Agora está finalmente sendo reconhecido que existem mais processos de longo prazo como a destruição ambiental liderando na mesma direção, talvez não à destruição total, mas ao menos à destruição da capacidade de uma existência decente
A reportagem foi publicada pelo O Diario. info e reproduzida pela revista Fórum, 01-02-2015. A tradução é de Isabela Palhares
O que trará o futuro? Uma postura razoável seria tentar olhar para a espécie humana de fora. Então imagine que você é um extraterrestre observador que está tentando desvendar o que acontece aqui ou, imagine que é um historiador daqui a 100 anos – assumindo que existam historiadores em 100 anos, o que não é óbvio – e você está olhando para o que acontece. Você veria algo impressionante.
Pela primeira vez na história da espécie humana, desenvolvemos claramente a capacidade de nos destruirmos. Isso é verdade desde 1945. Agora está finalmente sendo reconhecido que existem mais processos de longo prazo como a destruição ambiental liderando na mesma direção, talvez não à destruição total, mas ao menos à destruição da capacidade de uma existência decente.
E existem outros perigos como pandemias, as quais estão relacionadas à globalização e interação. Então, existem processos em curso e instituições em vigor, como sistemas de armas nucleares, os quais podem levar à explosão ou talvez, extermínio, da existência organizada.
Como destruir o planeta sem tentar muito
A pergunta é: O que as pessoas estão fazendo a respeito? Nada disso é segredo. Está tudo perfeitamente aberto. De fato, você tem que fazer um esforço para não enxergar.
Houve uma gama de reações. Têm aqueles que estão tentando ao máximo fazer algo em relação a essas ameaças, e outros que estão agindo para aumentá-las. Se olhar para quem são, esse historiador futurista ou extraterrestre observador veria algo estranho. As sociedades menos desenvolvidas, incluindo povos indígenas, ou seus remanescentes, sociedades tribais e as primeiras nações do Canadá, que estão tentando mitigar ou superar essas ameaças. Não estão falando sobre guerra nuclear, mas sim desastre ambiental, e estão realmente tentando fazer algo a esse respeito.
De fato, ao redor do mundo – Austrália, Índia, América do Sul – existem batalhas acontecendo, às vezes guerras. Na Índia, é uma guerra enorme sobre a destruição ambiental direta, com sociedades tribais tentando resistir às operações de extração de recursos que são extremamente prejudiciais localmente, mas também em suas consequências gerais. Em sociedades onde as populações indígenas têm influência, muitos tomam uma posição forte. O mais forte dos países em relação ao aquecimento global é a Bolívia, cuja maioria é indígena e requisitos constitucionais protegem os “direitos da natureza”.
O Equador, o qual também tem uma população indígena ampla, é o único exportador de petróleo que conheço onde o governo está procurando auxílio para ajudar a manter o petróleo no solo, ao invés de produzi-lo e exportá-lo – e no solo é onde deveria estar.
O presidente venezuelano Hugo Chávez, que morreu recentemente e foi objeto de gozação, insulto e ódio ao redor do mundo ocidental, atendeu a uma sessão da Assembleia Geral da ONU poucos anos atrás onde ele suscitou todo tipo de ridículo ao chamar George W. Bush de demônio. Ele também concedeu um discurso que foi interessante. Claro, Venezuela é uma grande produtora de petróleo. O petróleo é praticamente todo seu PIB. Naquele discurso, ele alertou dos perigos do sobreuso dos combustíveis fósseis e sugeriu aos países produtores e consumidores que se juntassem para tentar manejar formas de diminuir o uso desses combustíveis. Isso foi bem impressionante da parte de um produtor de petróleo. Você sabe, ele era parte índio, com passado indígena. Esse aspecto de suas ações na ONU nunca foi reportado, diferentemente das coisas engraçadas que fez.
Então, em um extremo têm-se os indígenas, sociedades tribais tentando amenizar a corrida ao desastre. No outro extremo, as sociedades mais ricas, poderosas na história da humanidade, como os EUA e o Canadá, que estão correndo em velocidade máxima para destruir o meio ambiente o mais rápido possível. Diferentemente do Equador e das sociedades indígenas ao redor do mundo, eles querem extrair cada gota de hidrocarbonetos do solo com toda velocidade possível.
Ambos partidos políticos, o presidente Obama, os media, e a imprensa internacional parecem estar olhando adiante com grande entusiasmo para o que eles chamam de “um século de independência energética” para os EUA. Independência energética é quase um conceito sem significado, mas botamos isso de lado. O que eles querem dizer é: teremos um século no qual maximizaremos o uso de combustíveis fósseis e contribuiremos para a destruição do planeta.
E esse é basicamente o caso em todo lugar. É preciso admitir, quando se trata de desenvolvimento de energia alternativa, a Europa está fazendo alguma coisa. Enquanto isso, os EUA, o mais rico e poderoso país de toda a história do mundo, é a única nação dentre talvez 100 relevantes que não possui uma política nacional para a restrição do uso de combustíveis fósseis, e que nem ao menos mira na energia renovável. Não é porque a população não quer. Os americanos estão bem próximos da norma internacional com sua preocupação com o aquecimento global. Suas estruturas institucionais é que bloqueiam a mudança. Os interesses comerciais não aceitam e são poderosos em determinar políticas, então temos um grande vão entre opinião e política em muitas questões, incluindo esta. É isso que o historiador do futuro veria. Ele também pode ler os jornais científicos de hoje. Cada um que você abre tem uma predição mais horrível que a outra.
O momento mais perigoso na história”
A outra questão é a guerra nuclear. É sabido por um bom tempo, que se tivesse que haver uma primeira tacada por uma superpotência, mesmo sem retaliação, provavelmente destruiria a civilização somente por causa das consequências de um inverno-nuclear que se seguiria. Você pode ler sobre isso no Boletim de Cientistas Atômicos. É bem compreendido. Então o perigo sempre foi muito pior do que achávamos que fosse.
Acabamos de passar pelo 50º aniversário da Crise dos Mísseis Cubanos, a qual foi chamada de “o momento mais perigoso na história” pelo historiador Arthur Schlesinger, o conselheiro do presidente John F. Kennedy. E foi. Foi uma chamada bem próxima do fim, e não foi a única vez tampouco. De algumas formas, no entanto, o pior aspecto desses eventos é que a lições não foram aprendidas.
O que aconteceu na crise dos mísseis em Outubro de 1962 foi petrificado para parecer que atos de coragem e reflexão eram abundantes. A verdade é que todo o episódio foi quase insano. Houve um ponto, enquanto a crise chegava em seu pico, que o premiê Soviético Nikita Khrushchev escreveu para Kennedy oferecendo resolver a questão com um anuncio publico de retirada dos mísseis russos de Cuba e dos mísseis americanos da Turquia. Na realidade, Kennedy nem sabia que os EUA possuíam mísseis na Turquia na época. Estavam sendo retirados de todo modo, porque estavam sendo substituídos por submarinos nucleares mais letais, e que eram invulneráveis.
Então essa era a proposta. Kennedy e seus conselheiros consideraram-na – e a rejeitaram. Na época, o próprio Kennedy estimava a possibilidade de uma guerra nuclear em um terço da metade. Então Kennedy estava disposto a aceitar um risco muito alto de destruição em massa a fim de estabelecer o princípio de que nós – e somente nós – temos o direito de deter mísseis ofensivos além de nossas fronteiras, na realidade em qualquer lugar que quisermos, sem importar o risco aos outros – e a nós mesmos, se tudo sair do controle. Temos esse direito, mas ninguém mais o detém.
No entanto, Kennedy aceitou um acordo secreto para a retirada dos mísseis que os EUA já estavam retirando, somente se nunca fosse a publico. Khrushchev, em outras palavras, teve que retirar abertamente os mísseis russos enquanto os EUA secretamente retiraram seus obsoletos; isto é, Khrushchev teve que ser humilhado e Kennedy manteve sua pose de macho. Ele é altamente elogiado por isso: coragem e popularidade sob ameaça, e por aí vai. O horror de suas decisões não é nem mencionado – tente achar nos arquivos.
E para somar um pouco mais, poucos meses antes da crise estourar os EUA haviam mandado mísseis com ogivas nucleares para Okinawa. Eram apontados à China durante um período de grande tensão regional.
Bom, quem liga? Temos o direito de fazer o que quisermos em qualquer lugar do mundo. Essa foi uma lição daquela época, mas havia outras por vir.
Dez anos depois disso, em 1973, o secretário de estado Henry Kissinger chamou um alerta vermelho nuclear. Era seu modo de avisar à Rússia para não interferir na constante guerra israelo-árabe e, em particular, não interferir depois de terem informado aos israelenses que poderiam violar o cessar-fogo que os EUA e a Rússia haviam concordado. Felizmente, nada aconteceu.
Dez anos depois, o presidente em vigor era Ronald Reagan. Assim que entrou na Casa Branca, ele e seus conselheiros fizeram com que a Força Aérea começasse a entrar no espaço aéreo russo para tentar levantar informações sobre os sistemas de alerta russos, Operação Able Archer. Essencialmente, eram ataques falsos. Os russos estavam incertos, alguns oficiais de alta patente acreditavam que seria o primeiro passo para um ataque real. Felizmente, eles não reagiram, mesmo sendo uma chamada estreita. E continua assim.
O que pensar das crises nucleares Iraniana e Norte-Coreana
No momento, a questão nuclear está regularmente nas capas nos casos do Irã e da Coreia do Norte. Existem jeitos de lidar com esse crise contínua. Talvez não funcionasse, mas ao menos tentaria. No entanto, não estão nem sendo consideradas, nem reportadas.
Tome o caso do Irã, que é considerado no ocidente – não no mundo árabe, não na Ásia – a maior ameaça à paz mundial. É uma obsessão ocidental, e é interessante investigar as razões disso, mas deixarei isso de lado. Há um jeito de lidar com a suposta maior ameaça à paz mundial? Na realidade existem várias. Uma forma, bastante sensível, foi proposta alguns meses atrás em uma reunião dos países não-alinhados em Teerã. De fato, estavam apenas reiterando uma proposta que esteve circulando por décadas, pressionada particularmente pelo Egipto, e que foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU.
A proposta é mover em direção ao estabelecimento de uma zona sem armas nucleares na região. Essa não seria a resposta para tudo, mas seria um grande passo à frente. E havia modos de proceder. Sob o patrocínio da ONU, houve uma conferência internacional na Finlândia Dezembro passado para tentar implementar planos nesta trajetória. O que aconteceu? Você não lerá sobre isso nos jornais pois não foi divulgado – somente em jornais especialistas.
No início de novembro, o Irã concordou em comparecer à reunião. Alguns dias depois Obama cancelou a reunião, dizendo que a hora não estava correta. O Parlamento Europeu divulgou uma declaração pedindo que continuasse, assim como os estados árabes. Nada resultou. Então moveremos em direção a sanções mais rígidas contra a população iraniana – não prejudica o regime – e talvez guerra. Quem sabe o que irá acontecer?
No nordeste da Ásia, é a mesma coisa. A Coreia do Norte pode ser o país mais louco do mundo. É certamente um bom competidor para o título. Mas faz sentido tentar adivinhar o que se passa pela cabeça alheia quando estão agindo feito loucos. Por que se comportariam assim? Nos imagine na situação deles. Imagine o que significou na Guerra da Coreia anos 1950 o seu país ser totalmente nivelado, tudo destruído por uma enorme superpotência, a qual estava regozijando sobre o que estava fazendo. Imagine a marca que deixaria para trás.
Tenha em mente que a liderança norte-coreana possivelmente leu os jornais públicos militares desta superpotência na época explicando que, uma vez que todo o resto da Coreia do Norte foi destruído, a força aérea foi enviada para a Coreia do Norte para destruir suas represas, enormes represas que controlavam o fornecimento de água – um crime de guerra, pelo qual pessoas foram enforcadas em Nuremberg. E esses jornais oficiais falavam excitadamente sobre como foi maravilhoso ver a água se esvaindo, e os asiáticos correndo e tentando sobreviver. Os jornais exaltavam com algo que para os asiáticos fora horrores para além da imaginação. Significou a destruição de sua colheita de arroz, o que resultou em fome e morte. Quão maravilhoso! Não está na nossa memória, mas está na deles.
Voltemos ao presente. Há uma história recente interessante. Em 1993, Israel e Coreia do Norte se moviam em direção a um acordo no qual a Coreia do Norte pararia de enviar quaisquer mísseis ou tecnologia militar para o Oriente Médio e Israel reconheceria seu país. O presidente Clinton interveio e bloqueou. Pouco depois disso, em retaliação, a Coreia do Norte promoveu um teste de mísseis pequeno. Os EUA e a Coreia do Norte chegaram então a um acordo em 1994 que interrompeu seu trabalho nuclear e foi mais ou menos honrado pelos dois lados. Quando George W. Bush tomou posse, a Coreia do Norte tinha talvez uma arma nuclear e verificadamente não produzia mais.
Bush imediatamente lançou seu militarismo agressivo, ameaçando a Coreia do Norte – “machado do mal” e tudo isso – então a Coreia do Norte voltou a trabalhar com seu programa nuclear. Na época que Bush deixou a Casa Branca, tinham de 8 a 10 armas nucleares e um sistema de mísseis, outra grande conquista neoconservadora. No meio, outras coisas aconteceram. Em 2005, os EUA e a Coreia do Norte realmente chegaram a um acordo no qual a Coreia do Norte teria que terminar com todo seu desenvolvimento nuclear e de mísseis. Em troca, o ocidente, mas principalmente os EUA, forneceria um reator de água natural para suas necessidades medicinais e pararia com declarações agressivas. Eles então formariam um pacto de não-agressão e caminhariam em direção ao conforto.
Era muito promissor, mas quase imediatamente Bush menosprezou. Retirou a oferta do reator de água natural e iniciou programas para compelir bancos a pararem de manejar qualquer transação norte-coreana, até mesmo as legais. Os norte-coreanos reagiram revivendo seu programa de armas nuclear. E esse é o modo que se segue.
É bem sabido. Pode-se ler na cultura americana principal. O que dizem é: é um regime bem louco, mas também segue uma política do olho por olho, dente por dente. Você faz um gesto hostil e responderemos com um gesto louco nosso. Você faz um gesto confortável e responderemos da mesma forma.
Ultimamente, por exemplo, existem exercícios militares sul-coreano/americanos na península coreana a qual, do ponto de vista do Norte, tem que parecer ameaçador. Pensaríamos que estão nos ameaçando se estivessem indo ao Canadá e mirando em nós. No curso disso, os mais avançados bombardeiros na história, Stealth B-2 e B-52, estão travando ataques de bombardeio nuclear simulados nas fronteiras da Coreia do Norte.
Isso, com certeza, reacende a chama do passado. Eles lembram daquele passado, então estão reagindo de uma forma agressiva e extrema. Bom, o que chega no ocidente derivado disso tudo é o quão loucos e horríveis os líderes norte-coreanos são. Sim, eles são. Mas essa não é toda a história, e esse é o jeito que o mundo está indo.
Não é que não haja alternativas. As alternativas somente não estão sendo levadas em conta. Isso é perigoso. Então, se me perguntar como o mundo estará no futuro, saiba que não é uma boa imagem. A menos que as pessoas façam algo a respeito. Sempre podemos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Um olhar diferente em torno da justiça transicional


Um olhar diferente em torno da justiça transicional
«Pode-se afirmar que, se a expressão econômica da globalização capitalista são os tratados de livre comércio, sua expressão jurídica é a justiça transicional»
A decisão de Juan Manuel Santos de pisar fundo o acelerador nas conversações que se adiantam em Havana tem relação direta com sua concepção mesma do processo de paz em geral. O verdadeiramente importante para o Estabelecimento é o relacionado com a deixação de armas e a reincorporação dos guerrilheiros à vida civil. Por esse grande momento esperaram dois anos, com tremenda impaciência, sim, porém com o propósito claro de exigir tudo das FARC agora mesmo. A seu ver, terminaram as jornadas nas quais era o Estado quem devia ceder, e é agora a insurgência quem está obrigada a responder as exigências da sociedade.
A mais elementar lógica impõe que, chegando-se a um acordo definitivo de paz, devam desaparecer as FARC como estrutura político-militar. Tal eventualidade deverá corresponder-se com sua inserção legal e ativa à política nacional. Nenhuma destas duas hipóteses se opõe à concepção estratégica da organização revolucionária em seu caminho ao poder. Porém, não cabe dúvida de que a segunda delas deve ser materializada num ambiente democrático e pleno de garantias. Tal é o espírito geral do Acordo Geral. No entanto, na hora da verdade, chegado o momento, se começa a observar que a contraparte não pensa do mesmo modo.
Para ninguém é um segredo, posto que se tornou público por parte de numerosos porta-vozes e funcionários oficiais que a posição governamental está fundamentada na apelação à chamada justiça transicional, o único marco de princípios e normas que considera idôneo para a definição dos temas mais difíceis e sensíveis objetos do processo. As FARC-EP somos uma organização revolucionária, marxista e bolivariana, que defende as bandeiras das classes oprimidas pelo regime vigente. É elementar, então, que, frente ao discurso sobre a justiça transicional, apresentemos um ponto de vista oposto ao das classes dominantes.
Poderíamos começar por uma afirmação categórica. Numa sociedade mundial caracterizada pela divisão em classes sociais, pela predominância de certos Estados ricos e poderosos sobre a imensa maioria pobre e dominada, pelo saqueio e imposições econômicas e políticas do grande capital transnacional sobre continentes inteiros, pelas abismais diferenças de toda ordem no interior de cada país e entre as nações mais opulentas e as demais, resulta uma verdadeira afronta aos povos sustentar que existem princípios universais aplicáveis a todos sem distinção.
Tal e como existem estratificações sociais no interior de qualquer cidade, as há também no mundo entre umas nações e outras. Reconhecer esse fato não significa aceitá-lo como justo ou necessário, mas sim atender objetivamente à realidade. Os Estados Unidos não significam o mesmo que o Haiti, do mesmo modo que Burundi não pode se equiparar à Suécia. A ordem internacional existente, apesar de todas as formalidades legais e belos princípios, não estabelece a igualdade e o respeito para todas as nações e povos, mas sim o domínio aberto e impune de uns Estados sobre outros.
Precisá-lo de modo amplo não é difícil, porém não constitui o propósito central deste artigo. Poderíamos, sim, sustentar que a atual ordem ou desordem mundial é o produto histórico de dois grandes acontecimentos sucedidos no século XX: a segunda guerra mundial e o desaparecimento da União Soviética. Mediante o primeiro deles, o mundo foi testemunha da emergência de um gigantesco poder alternativo ao sistema de dominação e exploração do capitalismo. Como resultado do segundo, nosso planeta ficou completamente exposto aos amos do capital.
Duzentos anos atrás, em emergência plena do capitalismo industrial na Europa e América do Norte, com projeção global, porém reduzidos fundamentalmente ao interior de cada um desses países, foram postos em prática princípios econômicos como a liberdade de empresa e de comércio que, na realidade, significaram a derrubada de todos os obstáculos ao enriquecimento da poderosa classe burguesa. Apagado do mapa o perigo da revolução mundial com a morte da URSS, renasceram os mesmos princípios, agora com toda a voracidade desbocada ao universo inteiro.
Nada nem ninguém poderia se opor à avareza universal do capital. Tudo o existente no mundo tinha que organizar-se para servir a esse propósito fundamental. Nações e povos que não estivessem de acordo seriam submetidos. E, no interior de cada país, o poder político devia repousar em mãos dos defensores dos interesses das grandes corporações transnacionais. Democracias de mercado, tratados de livre comércio, planos de ajuste, doutrinas contra o terrorismo, guerras preventivas, intervenções humanitárias, um novo léxico se impôs.
A justiça transicional é um exemplo vívido da elaboração ideológica e jurídica neoliberal. Apesar de todos os esforços dos teóricos e expertos por apresentá-la como a culminação dos princípios mais avançados da humanidade em matéria dos direitos humanos e de guerra, é, na realidade, a expressão mais elaborada e perfeita da pretensão de impor, com elaborados e atrativos argumentos, a dominação implacável do grande capital transnacional e das nações capitalistas mais poderosas sobre as mentes dos povos explorados e da humanidade inteira.
Não em vão, a ascensão da burguesia como classe dominante veio acompanhada do discurso do constitucionalismo liberal e do estado de direito. Ainda que se intente fazer crer que a herança da revolução francesa de 1789 foi a declaração dos direitos do homem e do cidadão, o que verdadeiramente aplaudem os poderes dominantes foi a expedição por Napoleão dos códigos civil e comercial de 1804 e 1807, que, unidos à tradição jurídica escravagista de Roma, constituiriam o arquétipo do regime da propriedade privada universal burguesa.
O edifício jurídico burguês se levantou sobre a base idealista de considerar que todos os homens eram iguais perante a lei, possuíam os mesmos direitos e deveres frente à sociedade e ao Estado. A realidade material era completamente diferente. Uma classe de proprietários possuía a riqueza em abundância desmesurada, enquanto a grande maioria mergulhava na necessidade. Tratá-los como iguais equivalia a consagrar juridicamente a desigualdade e a dominação dos mais fracos por parte dos mais fortes. Se impôs a primazia da aparência formal sobre a verdade real.
E sobre essa base se elaboraram as construções teóricas, constitucionais, legais e jurisprudências vigentes até hoje. Todos os ensaios por superar o encanto da igualdade ante a lei com a igualdade real nos fatos foram considerados pelos poderes dominantes como infames e perversos. O século vinte é pródigo em exemplos. A revolução bolchevique foi qualificada em seu dia como o maior atentado contra a civilização e a ordem cometida por uma avalanche de mendigos ignorantes e fanatizados. E foi atacada sem piedade nem pudor algum.
Igual passaria mais tarde com as revoluções chinesa e cubana. O povo do Vietnã, que sacrificava dez de seus membros para dar baixa a apenas um soldado invasor norte-americano, era considerado pelo Pentágono como um punhado de macacos aos quais havia que massacrar. O povo da Nicarágua, que coroou com êxito sua Revolução Sandinista, imediatamente foi objeto da mais descarada agressão pelos Estados Unidos, que fundaram os grupos contrarrevolucionários de assassinos e sabotadores, e minaram seus portos para reduzi-lo pela fome e pelas doenças.
Venezuela é o exemplo da hora. Chávez, o buenaço e nobre Presidente adorado até o delírio por seu povo, foi convertido no pior dos monstros pelo mundo capitalista. Do mesmo modo que se havia demonizado a Fidel Castro. Não responde, por acaso ou coincidência, que Josef Stálin e Mao Tse Tung tenham sido elevados ao lado de Adolf Hitler como os maiores criminosos da história da humanidade. O deste último se explica por seu atrevimento ao disputar a hegemonia mundial. O dos primeiros responde à sua colossal obra revolucionária.
O pecado que, por sua transcendência, os poderes estabelecidos não estão dispostos a perdoar. E, para castigar o qual do modo mais exemplar, expediram o conjunto de normas que integram o direito da guerra e dos direitos humanos. Uma contradição em si mesma. Foram as mais impunes violações dos direitos humanos no capitalismo as principais responsáveis pelos levantamentos travados pelos povos e nações em diferentes rincões do planeta. No entanto, são as poderosas potências capitalistas quem determinam a responsabilidade e o castigo.
O regime jurídico internacional que sobreveio à segunda guerra mundial refletiu uma situação de equilíbrio temporária. Em seus inícios, as Nações Unidas foram concebidas como o esforço por instaurar um regime universal de acordo com os interesses do grande capital. Na mesma direção foram criados o FMI e o Banco Mundial. Ter encontrado a firme oposição soviética a essa pretensão representou um duro revés para as grandes potências ocidentais. O [fato de] não poder atacá-la diretamente constituiu a origem da guerra fria e de seu plano de destruição a longo prazo.
Em meio a aflição permanente, a presença soviética significou profundas mudanças no concerto internacional. Pela primeira e talvez única vez na história da humanidade, a soberba e a violência imperialistas tiveram que prestar contas ao mundo por seus feitos, se viram pressionadas e limitadas por um adversário formidável, que, de um ou outro modo, assumia posições favoráveis às lutas dos povos que sonhavam em libertar-se do colonialismo e do saqueio. Pela natureza de seus interesses, o ódio tinha que aninhar-se na alma dos capitalistas do ocidente.
Isso teve reflexo na legislação internacional. Esta não podia assumir plenamente seu papel de codificação dominante por parte dos grandes poderes ocidentais. Talvez tenha sido a melhor época do direito internacional, há que ver como se multiplicaram as declarações de direitos de uma e outra ordem e como se foi estabelecendo na consciência universal uma espécie de critério moral, capaz de distinguir o justo do injusto em meio às maiores pressões. Os grandes movimento pela dignificação humana reverdeceram na segunda metade do século XX.
O que não impediu o capitalismo imperial dos Estados Unidos sufocar por todos os meios possíveis os avanços dos povos. Está demonstrado historicamente que grandes corporações desse país, assim como de várias potências europeias, alimentaram com seus créditos e cooperação técnica a máquina de guerra nazista. Como não necessita de nenhuma demonstração, já que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha assumiram durante a segunda guerra mundial a mais assombrosa tranquilidade ante o terceiro Reich e o Japão, à espera de que devorassem a URSS.
Foi esta última quem carregou sobre seus ombros o peso fundamental da guerra. E quem, após repor-se do ataque germânico inicial, finalmente conseguiu expulsá-los de seu extenso território, para passar, em seguida, a libertar o leste europeu do jugo fascista. Só as certezas de que o terceiro Reich já não conseguiria vencer a URSS e de que, se não intervissem diretamente na guerra, esta última se encarregaria de libertar toda a Europa e originar um mar de países socialistas ou democracias avançadas, precipitaram os EUA e a Grã-Bretanha a cumprirem seu desembarque na Normandia.
E entrar jogando um papel de alguma significação no último ano da confrontação. Vencida a Alemanha, a incerteza de derrotar o Japão obrigou os norte-americanos a recorrerem ao apoio da União Soviética, fato que resultou decisivo para a rendição nipônica, porquanto o grosso do exército japonês de Kuangtung instalado na Manchúria foi demolido pelo Exército Vermelho, que penetrou até as ilhas Kuriles e Coréia. O Japão capitula, por isso, a 2 de setembro de 1945, ainda que todas essas verdades tenham sido apagadas da bibliografia ocidental.
Os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre populações civis e não sobre objetivos militares de significação. Apesar disso, os aliados ocidentais, envergonhados patrocinadores do nazifascismo, se auto proclamaram campeões da democracia, dos valores cristãos e da liberdade. Teorias como a doutrina de segurança nacional, concebidas imediatamente por eles, beberam sua inspiração das fontes nazifascistas e viriam a ser aplicadas ao pé da letra nas escolas de formação militar e policial na América Latina, com suas sequelas de sangrentas ditaduras.
Com o propósito exclusivo de aniquilar o despertar dos povos do continente e manter o status quo de dominação e saqueio permanentes. Para o qual se fez necessário sustentar que a União Soviética se encontrava por trás da mais mínima manifestação de inconformidade social ou política em qualquer parte do mundo. Revolucionários e democratas passaram, por isso, a ser considerados como inimigos internos, agentes infiltrados do comunismo soviético e, consequentemente, objetivos militares na guerra contra a obsessão totalitária dos comunistas.
O heroísmo da classe operária, do campesinato, dos distintos estratos marginalizados e discriminados, assim como dos setores médios e intelectuais que levantaram as bandeiras da reivindicação social e política alcançou, então, contornos sobre-humanos, enfrentando os brutais regimes civis ou militares, que, animados pela teoria da guerra preventiva, empreenderam as campanhas de extermínio e terror que comoveram o mundo. Apesar da fúria do capital, não lhe era possível conseguir a condenação ao movimento revolucionário, o impedia a existência do campo socialista.
Outro foi o panorama ao desaparecer este último. Todos conhecemos a reação combinada das burguesias do mundo inteiro cantando a vitória, advertindo entre grunhidos que as ideologias nem as lutas no universo da globalização capitalista triunfante nada tinham que fazer. Fomos testemunhas do gigantesco movimento mundial desencadeado com o objetivo de conseguir a desmobilização de todas as lutas contra o capitalismo. E de como foram arriando as bandeiras em muitos lugares aqueles que se deixaram absorver pelo discurso dominante.
E foi precisamente nesse momento histórico, ao calor das absurdas teorias pseudocientíficas do fim da história, do choque das civilizações e das ondas democratizadoras quando fizeram aparição no mundo do direito as teses da justiça transicional e restaurativa como mecanismos ideais para desvertebrar os movimentos que pudessem conter alguma dose anti sistêmica. Seus elaboradores não tardariam em buscar raízes diferentes a fim de dissimular sua verdadeira natureza, achando-as em Nuremberg e até na antiga Grécia.
Fazê-lo possível significou a assunção de um papel assombrosamente cínico por parte das grandes potências capitalistas e em especial dos Estados Unidos. Eles, que haviam soltado sem nenhuma razão justificável sobre o pequeno e heroico povo vietnamita mais bombas que todas as lançadas por todos os exércitos no curso da segunda guerra mundial, que bloquearam Cuba de maneira inumana, que invadiram Granada e acabavam de ocupar o Panamá, assumiram, de um momento para outro, o título de campeões na defesa dos direitos humanos no mundo.
E se dedicaram a cozinhar em suas universidades e centros de pensamento as mais rebuscadas interpretações acerca do que significam os direitos humanos e suas violações, até o ponto de saturar o ambiente acadêmico com suas aventuradas teorias. De um momento a outro começaram a florescer em todas as esquinas do planeta organizações não governamentais de defesa dos direitos humanos e se outorgou à Cruz Vermelha Internacional um papel destacado na multiplicação dos princípios e normas do direito internacional humanitário.
A Universidade de Harvard se constituiu no grande gerador de ideias nessa direção. Com um enfoque abertamente canalizado a legitimar as políticas agressivas dos Estados Unidos, em seu novo papel de polícia mundial autorizado para intervir em qualquer lugar do planeta onde sua obsessão pelos recursos energéticos o exigirem. Um atado teórico de dimensões universais, com sucursais e agências em todo o mundo, fundações e corporações privadas, oenegês financiadas com generosidade e conferencistas prestigiosos se dedicaram a impulsionar o novo credo.
Que não oculta, por isso, sua natureza predadora. Para os efeitos práticos e visíveis, a justiça transicional, ainda para seus mais fervorosos crentes de boa-fé, se se trata de materializar de algum modo a justiça, deixa poucas satisfações, melhor dizendo, muito poucas, em quaisquer das experiências cumpridas em distintos lugares do mundo. Ante tão opressiva realidade, saltam em seguida as explicações fáceis próprias do mundinho acadêmico: interessante experiência, se criou consciência sobre a necessidade, se reafirmaram publicamente normas e valores essenciais etc.
Nenhum poder dominante foi alcançado graças à justiça transicional. Talvez um que outro dos executores de importância ou muitos subordinados na escala de mando chegaram a ver-se afetados por julgamentos ou condenações, porém a responsabilidade dos grandes poderes saiu sempre incólume. Ainda admitindo que os membros da junta militar argentina tenham sido castigados após uma longa luta, não propriamente da justiça transicional mas sim das vítimas e doridos, cabe pensar que se lhes cobrou mais bem seu ataque à Grã-Bretanha nas Malvinas.
De outro modo, estiveram gozando de alguma deputação vitalícia ou um tranquilo retiro. Não é difícil deduzir quando se observa que, por outro lado, essa mesma potência se negou a entregar Augusto Pinochet para que fosse julgado. O capital transnacional paga muito bem e defende até os máximos extremos aos que lhe servem fielmente. Luis Posada Carriles é um excelente exemplo. Não conhecemos de nenhum tribunal internacional de justiça reclamando-o para submetê-lo a julgamento, nem de reclamações em massa por parte de oenegês. Cuba e Venezuela ficaram sozinhas nisso.
Por outro lado, recordamos que em 2002 a oposição venezuelana reclamava com urgência falar de transição nesse país. E de como, uma vez dado o golpe de Estado de abril, diferentes porta-vozes políticos e de oenegês defensoras de direitos humanos saíram a exigir o julgamento de Hugo Chávez pelos supostos crimes contra a humanidade cometidos por ordem sua no dia onze. O qual nos vai necessariamente situando em torno da origem do termo transicional que adjetiva esta nova justiça. É uma justiça para processos de transição.
E essa palavra, sim, que tem duplo gume. Escutamo-la quando se falou da Líbia e depois com relação ao caso sírio. Não se pode evitar pensar que tal expressão tem uma relação íntima com toda encruzilhada histórica onde os interesses do imperialismo estão em jogo e se requer aplacar a oposição a suas políticas. Se nos dirá que tal semelhança resulta inconcebível quando se examinam casos como o da África do Sul e do apartheid, porém não se pode esquecer que o final deste último se conseguiu ao preço de conservar intocáveis os poderes econômicos que o sustentaram.
Simplesmente, a situação interna da África do Sul e a pressão internacional faziam insustentável a permanência de tão odioso regime, assim que todos os poderes se combinaram a fim de alcançar seu desmonte do modo menos traumático para os grandes proprietários da riqueza sul-africana, que não eram precisamente os negros humilhados. Em situações assim surge com enorme ruído a justiça transicional para limar as asperezas que afetem os interesses das transnacionais. Os determinadores de todas as violências não serão nunca os grandes malvados.
Lá, resultava inconcebível sentenciar a Nelson Mandela e aos demais líderes da luta contra a discriminação. Se impunha obrigatoriamente a convivência. Então, tomou toda sua força o discurso teológico e moral sobre o perdão e a reconciliação como elementos indispensáveis para a conservação da paz no sul da África. Claro, os que estavam obrigados a perdoar eram os negros chutados e cuspidos. Não faltou o bispo oportuno. Por se as dúvidas, também houve sérias murmurações acerca da responsabilidade criminal dos grupos anti apartheid.
Era melhor pactuar. Como mostram alguns telenoticiários internacionais de vez em quando, ali as autoridades continuam assassinando em massa a negros que reclamam seus direitos trabalhistas contra as grandes companhias mineiras, e algumas polícias locais ainda torturam e assassinam negros ao estilo dos velhos tempos. O campeonato mundial de futebol não conseguiu ocultar o rosto da discriminação e da desigualdade. Porém, que caralho, Mandela foi Presidente e se conseguiu evitar uma explosão revolucionária de consequências imprevisíveis na África. Há que aplaudir e calar.
Os amos e seus negócios continuaram sendo os mesmos. Assim como as inumanas condições de vida da imensa maioria negra. É a mesma lógica que se nos pretende impor em Colômbia. Porém, sobre uma base muito mais arrogante e perigosa. Se se examina com algum cuidado as experiências centro-americanas de desmobilização e entrega dos grupos rebeldes, é fácil concluir que havia demasiados elementos que envolviam a responsabilidade do governo e dos militares norte-americanos na execução de tanto crime infame contra esses povos.
Igualmente sucedia nas brutais ditaduras sul-americanas. Resultava impossível ocultar a mão do Pentágono e da CIA nas aventuras das forças militares do cone sul. Talvez isso explique que nos diferentes arranjos para o desmonte dos regimes de terror militar na América Latina dos anos oitenta e noventa se privilegiaram saídas excepcionais de ordem jurídica que, de alguma maneira, impediram chegar ao fundo do assunto. As leis de perdão em Argentina e Chile, seu desmonte e demais incidências pareceram encaminhados a atar a responsabilidade a certos níveis.
Ao fim e ao cabo, os movimentos revolucionários tinham sido defenestrados e destruídos em sua quase totalidade. E do que se tratava não era de instalar democracias abertas, mas sim a modalidade restrita das democracias de mercado absolutamente a serviço da globalização capitalista. Com o aplauso ardente de todas essas organizações não governamentais e fundações criadas para a defesa dos direitos humanos, que pouco a pouco foram arrogando-se para si o ostentoso título de sociedade civil. E, tudo bem, conseguiram-no.
Outra coisa distinta é que resulte impossível extinguir a luta dos povos, como continuam demonstrando os novos movimentos políticos e sociais em pé de luta ao sul do continente. Que, de algum modo, estragam a festa do neoliberalismo de suas classes dominantes. A experiência colombiana é muito diferente. Começando porque os movimentos insurgentes estão muito longe de serem vencidos pela via da força. E porque o que estes questionam, em coincidência com crescentes setores da luta popular, é precisamente o modelo econômico imposto ao país.
Que não é outro que o saqueio generalizado das riquezas naturais e de sua força de trabalho pelo grande capital transnacional. Porém, sobretudo, a diferença radica em que agora está presente uma nova etapa na dominação internacional. O imperialismo perdeu qualquer sintoma de decência e exibe uma ostentação demencial de sua força militar para massacrar a oposição a suas políticas em qualquer rincão do mundo. Com as bandeiras da guerra contra o terrorismo e as intervenções militares preventivas, exige obediência total sem discussões.
Por isso, o perigo da guerra como uma ameaça para a humanidade está hoje mais presente que nunca. Os EUA requerem dominar por completo as fontes energéticas do Oriente Médio e nesse empenho utilizam seu aliado incondicional de Israel. Ameaça Coréia do Norte e China. Sua atitude habitual não é outra que a intolerância com a oposição aos desígnios das corporações financeiras transnacionais. E deu o passo correspondente na ordem normativa. Soberania, garantias do estado de direito e autodeterminação dos povos terão que desaparecer.
Acordos Internacionais estabelecem princípios e artigos que não podem ser desconhecidos por ninguém, e que autorizam inclusive os poderes internacionais a intervirem onde se desconheçam. Na atual fase desesperada da expansão capitalista, fizeram emergência o Tribunal Penal Internacional e as chamadas obrigações de cada Estado com as vítimas dos conflitos e dos regimes antidemocráticos, que os mais expertos juristas aplaudem como gloriosos avanços da civilização, desconhecendo seu aberto caráter de classe e de submissão dos povos.
Agora, se nos diz que na última década a justiça transicional deixou de ser uma justiça para tempos de transição e passou a converter-se numa justiça permanente e universal. E que, graças a seus inovadores mecanismos, as democracias serão intocáveis e se castigará exemplarmente aos que se levantem contra elas. Há tratadistas que honestamente reconhecem que a justiça transicional permanente representa, na realidade, a proscrição de qualquer tipo de resistência popular aos regimes políticos. O que não lhes impede de aplaudi-la por sua sã intenção.
Basta hoje com que qualquer dos poderes dominantes ao interior de um país ou no campo internacional acuse a seus opositores de perpetração de um crime de guerra ou de lesa-humanidade para fazê-los merecedores da condenação aos mais profundos infernos. É a isto o que os iludidos acadêmicos e inumeráveis organizações defensoras de direitos humanos atribuem a mais alta dose de civilização e justiça. O imperialismo e seus agentes determinaram o que se pode chamar democracia e o que não, qual guerra é justa e admissível e qual não.
Partindo de uma auto qualificação democrática derivada do simples fato de estar do lado das políticas que interessam ao grande capital transnacional, e da mais odiosa atribuição de justiça a todas as guerras empreendidas contra os povos em defesa dos interesses das mesmas corporações. E o fazem no mesmo momento em que o mundo inteiro se horroriza pelas atrocidades cometidas por suas tropas em múltiplos cenários como Afeganistão, Paquistão ou Iraque, ou por seus aliados incondicionais, como faz Israel impunemente contra a Palestina.
Expõem-no simultaneamente com o patrocínio dos golpes de Estado em Honduras e Paraguai e as tentativas desestabilizadoras contra Venezuela, país ao qual os poderes imperiais e vizinhos ajoelhados ante os ianques qualificam como a mais repudiável ditadura, por cima da atuação permanente e massiva do povo venezuelano em defesa de sua revolução. No momento em que financiam e dotam de armas ao terror fabricado em Síria, Iraque, Irã, África e na própria velha Europa. As grandes cadeias televisivas reproduziram as imagens de Kadafi sodomizado antes de assassiná-lo. Sua intenção não foi a denúncia, mas sim a advertência.
Nenhuma dessas maquinações contra o mais elementar sentido da justiça merece a objeção ou a condenação de tão respeitáveis instituições internacionais, centros de produção do pensamento civilizatório ou oenegês defensoras dos direitos humanos. As mesmas que, nas mais absolutas condições de desconhecimento das realidades do conflito armado colombiano, que não é um assunto de agora e sim de meio século de perduração, não vacilam em somar-se ao coro dos que qualificam a insurgência pátria como umas forças degradadas e envilecidas.
Às quais há que impor as mais humilhantes condições no caso de chegar a combinar com elas algum tipo de pacto amigável com vistas a pôr fim ao conflito. Se trata de exemplarizar ante o conjunto dos povos o custo que tem sustentar a rebelião na situação de domínio global imperialista. Por isso se repete que as conversações em curso têm de ser entendidas como a última oportunidade que resta às FARC, para entender-se de boas migalhas não só com o estabelecimento colombiano como também com a comunidade internacional.
A qual se pretende entendamos como um corpo único, sólido e impermeável a nossas razões. A simples pretensão é ridícula. Apesar da propaganda midiática e dos discursos das classes dominantes, uma das características do mundo atual é precisamente a multipolaridade, como que o tempo da solitária arrogância imperial norte-americana começa a declinar ante novas realidades. Uma grande parte da comunidade mundial observa com crescente desconfiança a mania dos Estados Unidos e seus aliados de situar-se à margem dos efeitos da lei internacional.
Apesar de que as teorias jurídicas que sustentam a globalização capitalista atual surgem da Universidade de Harvard e outras prestativas instituições de educação superior na Europa, para ninguém resulta indiferente que as primeiras nações que se declaram eximidas de qualquer responsabilidade penal ante a juridicidade internacional sejam precisamente essas grandes potências. O Estado colombiano, tão profundamente preocupado pelos direitos das vítimas, não vacilou em exonerar de qualquer tipo de responsabilidade penal os militares gringos agasalhados aqui.
Em abjeta sujeição às imposições do governo dos Estados Unidos, quem, ademais, exigiu o compromisso de abster-se de recorrer a qualquer tribunal internacional em busca de justiça pelos mesmos fatos ilícitos. Semelhantes patentes de flibusteiro concedidas de antemão ao principal violador dos direitos humanos no mundo falam por si sós acerca da seriedade do discurso sobre direitos humanos das classes dominantes em Colômbia e da vontade real de respeito e sujeição às normas internacionais cujo cumprimento sagrado se exige das FARC.
Vistas assim a generalidade das coisas em torno da justiça transicional, convém lançar um olhar sobre a maneira como nos estão expondo o assunto. Em primeiro lugar, a justiça transicional nos é apresentada como o produto de diversas experiências de saídas negociadas a regimes ditatoriais ou a situações de guerra interna, isto é, como o simples produto do trabalho consciencioso de muita gente preocupada em pôr fim a situações de crises em matéria de direitos humanos e direito humanitário, sem nenhuma intenção econômica ou política oculta.
Um esforço por encontrar a fórmula extraordinária de conciliação e salvação, a saída mais prática a uma situação de conflito onde não existem vencedores nem vencidos. Porém, em seguida se acrescenta, desde logo, que girando em torno a uns pressupostos que todo o mundo está obrigado a reconhecer, certos princípios universais indiscutíveis. Consistem em leis internacionais fixadas em tratados bilaterais ou multilaterais que exigem a punição para uma série de delitos. Ainda que não há que alarmar-se, pode-se chegar a acordos acerca dessa punição, espécies de penas alternativas.
Que, ademais, se aplicarão de modo seletivo, para os casos mais graves e os mandos mais importantes. Obviamente, se fala das duas partes do conflito, o que conduz necessariamente a concluir que a suposta generosidade para [com] os opositores do regime aponta na realidade a beneficiar aos agentes criminais do Estado. Já está montada toda a parafernália midiática para sustentar que mal poderiam os guerrilheiros desfrutar de sua liberdade pessoal enquanto os heroicos militares e policiais envolvidos nos piores crimes pagam longas penas de prisão.
Como se se tratasse de um assunto menor, também se adverte que os sentenciados por esse tipo de crimes terão que pagar suas penas, isso não terá remédio. Haverá que entendê-lo como algo semelhante aos mortos em combate, já não se poderá fazer nada por eles. Desta maneira, vai se apertando a corda que indica a salvação para os que ainda podem se salvar. Se compreende que terá que acrescentar algo mais, a confissão plena do crime, suas motivações e detalhes. E, desde logo, como é natural, expressar o arrependimento e pedir perdão publicamente.
Haverá outros detalhes alternos, como a integração de uma comissão da verdade que produzirá seu veredito final para a história. E reparações para as vítimas. Claro, compreendendo de antemão que se trata de atender realidades mais que desejos, isto é, calculando cuidadosamente o alcance das finanças estatais. A grande massa de reparações será bem mais de índole moral. Museus da memória, atos públicos, edição de cartilhas. O importante é compreender que, graças a tudo isso, se terão conquistadas a paz e a democracia.
Bem, há um ponto que propiciará a estocada de morte às violências de todos os extremos. Se chama as garantias de não repetição, uma série de medidas encaminhadas a que todo o horror passado não voltará a se produzir. Quanto se tem, como sucede em Colômbia, a perspectiva de contar com uma democracia respeitável e um plano de desenvolvimento para a prosperidade geral, se considera facilmente que todas as violências são responsabilidade dos alçados em armas. E que a melhor garantia de que não se repitam será sua desmobilização efetiva. Assim veem eles as coisas.
E é a essas, nem mais nem menos, as concepções a que nos devemos enfrentar. O Estado em Colômbia, como sucede no conjunto da órbita capitalista, afirma representar os interesses de todos os cidadãos e nisso alicerça seu direito a exercitar a violência. É questão de concepção, de enfoque dominante, se reproduz no campo local a dimensão guerreirista e intolerante do grande capital em escala mundial. Comove no mais profundo que os que se chamam implacáveis defensores dos direitos humanos se acoplem a essa lógica e a legitimem sem pudor.
A violência e o terror de Estado não lhes parece um grande problema, quando na realidade são o verdadeiro problema. Nenhuma das violências que se sucedem na sociedade, e com maior razão a violência política com que reagem os povos, é alheia à máquina de repressão estatal e ao sistema explorador e injusto em que esta se alicerça. Em Colômbia, e podemos afirmar após meio século de confrontar ao regime com armas, tem sido o Estado, seu regime político, suas classes econômica e politicamente dominantes os responsáveis diretos de todas as violências políticas.
E se é obrigação internacional do Estado garantir os direitos das vítimas, a solução mais franca e plausível consiste na assunção de todas as violências como responsabilidade do Estado, de seu regime político, das relações de produção impostas. Foram os interesses políticos da oligarquia bipartidarista colombiana aliada com o imperialismo os geradores do crime de Gaitán, do 19 de abril, da violência partidária, do ataque a Marquetalia, a Casa Verde, do extermínio da União Patriótica e do movimento popular.
Eles criaram o monstro paramilitar e mergulharam a pátria na barbárie do horror, decretaram o Plano Colômbia, o Plano Patriota, a Espada de Honra, os falsos positivos, os assassinatos e desaparecimentos de hoje. Martirizado e heroico o povo colombiano, que tem resistido a todas as agressões e se mantém de pé. E que, na voz das FARC-EP, propende por uma saída política diferente da guerra e da morte. E que não vai se considerar satisfeito com uma justiça transicional senão com uma verdadeira justiça, cuja fórmula tem que aparecer da discussão na Mesa.
Discussão na qual o país inteiro tem que participar. Porque todos somos vítimas deste regime antidemocrático e violento. Não só os mortos, os desaparecidos, os torturados, os prisioneiros políticos, os deslocados e desterrados, não só suas famílias. Mas sim todos os colombianos, que não vivemos um dia de paz pelo menos nos últimos 65 anos. A soga oligárquica expediu uma lei de vítimas visando defender só seus interesses, para alegar depois que o Estado já se havia ocupado delas e que a Mesa deve discutir unicamente sobre as vítimas da guerrilha.
Semelhante pretensão resulta inaceitável de cabo a rabo. Porque se esquiva do verdadeiro problema. Por trapaceira. Por inútil. Ao enfrentar na Mesa a explicação da justiça transicional, as FARC e os colombianos devemos impedir que o governo circunscreva o assunto aos marcos preestabelecidos de antemão para render e humilhar a insurgência. Para tocar a badalada de queda da luta popular. Pelo contrário, a obrigação internacional de escutar e atender as vítimas há de ser a porta de acesso ao clamor do povo colombiano por tanta injustiça.
Do mesmo modo, se queremos deveras estabelecer garantias para a não repetição dos massacres e crimes seletivos tão usuais em nosso país, das frequentes montagens policiais e judiciais, do longo catálogo de crimes de Estado praticados impunemente por décadas, é necessário levantar as bandeiras da democratização, da participação popular livre em todos os cenários de adoção de políticas públicas, incluindo desde logo as relacionadas com o emprego da força e da violência contra o povo e suas aspirações.
Os colombianos estamos obrigados a pôr em evidência as desastrosas consequências econômicas, sociais, ambientais, culturais e políticas do modelo econômico imposto pelas classes dominantes. Esse capitalismo selvagem das locomotivas, dos tratados de livre comércio, da entrega de nossos recursos naturais, da confiança inversionista e da desregulação trabalhista se relaciona intimamente com a intranquilidade, a angústia e a violência, como demonstram as frequentes paralisações e protestos e as agrupações de polícias moendo a pau e chumbo a inconformidade.
Assim que as garantias de não repetição da barbárie devem começar por aí, por isso que o governo nacional e as classes dominantes se empenharam em proscrever da Mesa de Conversações o debate aberto sobre a política econômica do Estado. Dela somos vítimas milhões e milhões de colombianos, e vitimários não só a classe política no poder, como também todos esses setores empresariais, financeiros e agropecuários que faturam fabulosos lucros à custa da fome, do despojo e da perseguição de imensos contingentes de compatriotas.
É esse o principal combustível do conflito, o primeiro gerador de vítimas. É a todas elas a quem as FARC propomos sair às ruas, a reclamar seu direito a serem ouvidas e atendidas, a exigir a verdade, a justiça e a reparação. As garantias de que a negra noite da violência não voltará se repetir jamais. Estamos convencidos de que esse deve ser o verdadeiro conteúdo da discussão pela paz em Colômbia. Assim se expôs e ficou acordado no preâmbulo da Agenda de Havana. Não estamos alterando-a.
Por último, caberia a referência a um conceito que se costuma pôr em desuso por todo o discurso da globalização. Se trata da antiquíssima noção da soberania, da independência e autonomia pátrias que cada povo tem considerado sagrado desde a mais remota antiguidade. É completamente falso que a soberania nacional se encontre condenada ao museu da história. Pelo contrário, a libertação de todos os povos começa pela reivindicação desse direito fundamental, pela condenação à intervenção em seus assuntos internos, à ingerência estrangeira.
Nesse, como em muitos outros aspectos, retoma plena vigência a luta pela independência nacional. Está claro que se trata da segunda e definitiva independência, da luta contra a dominação imperialista norte-americana que se apresenta com a máscara do direito internacional. E, falando de museus, movem ao riso as pretensões burguesas. Após matar, desaparecer e perseguir a luta popular, agora propõe repará-la com a justiça transicional, edificando-lhe o belo lugar que sempre sonhou para ela, o museu da história, o rincão para os dinossauros.


Montanhas de Colômbia, janeiro de 2015.