"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sábado, 25 de abril de 2015

Para que o processo? Para chegar à paz ou para nos submeter?


Termina hoje o ciclo trigésimo quinto dos diálogos de paz de Havana após três dias de importante trabalho. Na Mesa de Conversações, como sempre, se prosseguiu na busca de soluções aos problemas e divergências que levaram ao conflito e a sua cruel realidade no campo de batalha; o tema das vítimas continuou e continua sendo ponto central de nossas preocupações. Por sua parte, a Comissão Técnica integrada por generais e outros oficiais da República e comandantes guerrilheiros se apresta a dar a conhecer as datas de início do plano conjunto de descontaminação do território de materiais explosivos atendendo as necessidades humanitárias do conflito, sem deixar de lado o aperfeiçoamento do programa de desescalada que inclui iniciativas de natureza distinta à já mencionada.
Porém, se bem que entregamos este informe que deveria convidar ao otimismo, manifestamos nossa preocupação pelo que vem sucedendo no território colombiano. Não se pode negar que os fatos ocorridos na noite de 14 deste mês na vereda La Esperanza, município de Buenos Aires, Cauca, não tenha sido uma tragédia. E o foi, porque a guerra é uma enorme tragédia. Em nossa pátria, uma tragédia de mais de meio século. Precisamente por isto nos encontramos em Havana.
O povo não pode seguir caindo pela irresponsabilidade de um Estado todos os dias mais responsável. Cai o povo. O povo de verdade.
Porque nunca nos vimos enfrentados contra soldados de estratos cinco ou seis, porque os filhos dos ricos não vão para a guerra. Curiosamente, estratos estes que, sem preocupar-se pelo que aconteceu na noite do dia 14, clamam ao céu por mais sangue. O sangue alheio, naturalmente.
Que sucedeu? Por que sucedeu? Como sucederam os fatos do [dia] 14? Estes interrogantes parecem não ser da incumbência dessas classes que compõem o regime. E, com o poder dos meios de comunicação em suas mãos, envenenam ao país sem permitir que se estabeleça com serenidade a verdade do ocorrido. Porque não pode haver julgamento certeiro de nenhuma natureza se do que se trata é de envenenar os ânimos e com isso obstaculizar o caminho para a paz.
É que, se de fotografias de cadáveres se trata, basta recordar a vulgar exibição dos corpos destroçados que a chamada autoridade fez dos comandantes guerrilheiros mortos, não em combate, mas sim enquanto dormiam em seus acampamentos.
Porém, o que desejamos manifestar não coincide com a versão governamental do sucedido nessa noite. Nossa aspiração é que nos próximos dias se possa dar resposta aos três interrogantes acima formulados. Isso sim, reconstruindo os movimentos do exército desde as vésperas. Sua chegada à zona: A Comedulce, e seu deslocamento a Naranjal, Bellavista e Betulia. Sua entrada a La Esperanza. Tudo deixando entrever na região que não se tratava de um preparativo para uma festa. E isto em meio à trégua unilateral e por tempo indeterminado declarada pelo Secretariado das FARC-EP a 17 de dezembro de 2014 nos seguintes termos: “...inspirados no direito de gentes, tradição constitucional colombiana e em homenagem a todas as vítimas ocasionadas em razão do conflito que buscamos superar, e em consideração ao trabalho que nos compromete cada dia mais com o espírito traçado na parte motiva da agenda de Havana, e em atenção a que acreditamos que iniciamos um percorrido definitivo para a paz acompanhado de um processo constituinte, resolvemos declarar um CESSAR UNILATERAL AO FOGO E ÀS HOSTILIDADES POR TEMPO INDETERMINADO, que deve se transformar em armistício... Este cessar-fogo unilateral, que desejamos se prolongue no tempo, se daria por terminado somente se se constata que nossas estruturas guerrilheiras foram objeto de ataques por parte da força pública.
Agora, bem: Não vamos cair na armadilha estendida por aqueles que interpretam à sua vontade e capricho aquele aparte de nossa declaração do dia 17 de dezembro que assinala que a trégua chegaria a seu fim constatando-se ataques às estruturas guerrilheiras. Sabemos distinguir entre provocar, incitar, fustigar e atiçar para alcançar um fim prejudicado, e a necessidade imperiosa e o dever de dar uma oportunidade ao povo todo de reconstruir a nação. Como Estamos muito seriamente caminhando pela vereda da paz, não vamos colocá-la em perigo para agradar aos que medem seus êxitos regressando à situação a datas anteriores ao dia em que ordenamos a todas as estruturas das FARC manterem em silêncio suas armas, isso sim, ficando alertas. Por tal motivo, no dia de hoje reiteramos a decisão tomada em dezembro de 2014. Mantemos, então, O CESSAR UNILATERAL AO FOGO E ÀS HOSTILIDADES POR TEMPO INDETERMINADO, enquanto não sejamos objeto do assédio permanente das tropas. Há que entender que há ações ofensivas que se desdobram no marco da legítima defesa.
Chamamos a atenção do país para que o cessar in situ que hoje se reitera para ser mantido pelas estruturas das FARC em todo o país usufrua de uma vedoria. É da natureza do cessar do fogo e de hostilidades que esta se cumpra. Seu êxito radica ali. Há mecanismos para fazê-la. Qual pode ser o argumento para que um cessar ao fogo e de hostilidades não possa gozar de uma vedoria que evite mortes com as ocorridas a 14 deste mês? Tem a palavra o governo.
Para garantir o bom desenvolvimento das conversações com o propósito de culminar exitosamente o traçado no Acordo Geral para a Terminação do Conflito e a Construção de uma Paz Estável e Duradoura, verdadeiro Marco Jurídico para a Paz firmado em Havana em 26 de agosto de 2012, pelos plenipotenciários das partes e representantes dos países auspiciadores, se necessita, na linguagem popular, “temperar os nervos”; ao mesmo tempo, impedir que os interesses partidaristas de conjuntura como são as eleições de outubro próximo, infectem os diálogos; que os ódios nacionais que se percebem em todo escrito, em toda declaração, em todo comentário, se deponham; e que a paz seja de todos e para todos, no bom entendimento de que ao ser o Estado o centro da responsabilidade do acontecido durante os últimos sessenta anos, como se desprende claramente da história recente da Colômbia e de quem não queira tapar o sol com um dedo, para a tranquilidade de todos, para alcançar a verdade do acontecido, e por ser um direito das vítimas, o melhor é que o Presidente Santos e seu governo se aprestem a estudar serena e patrioticamente o cessar bilateral sem morosidades nem temores. Sabe bem o governo que as principais palavras de ordem levantadas pelos marchantes do 9 de abril se relacionavam com a urgência de firmar desde já um cessar-fogo bilateral que ponha fim ao dessangramento, a necessidade de entabular conversações de paz com o Exército de Libertação Nacional e a viabilidade de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte como mecanismo de referenda dos acordos alcançados. Com esse mesmo sentimento da multidão dizemos: Não mais mortos. Não mais. E que, para o bem e conhecimento de todos os compatriotas sobre o ocorrido nos últimos sessenta anos, que se abram os arquivos. Que se abram os arquivos!
Como bem o afirma o Comandante das FARC, Timoleón Jiménez, “cada vez o governo parece mais empenhado em reduzir os alcances do processo de paz à aceitação de condenações e penas por parte dos mandos guerrilheiros. Foram múltiplas e incisivas as posturas públicas do Presidente Santos a esse respeito, nas quais não se deixa de ler certo consentimento de advertência final.
Ou nos mostramos dispostos a aceitar essa condição que nunca foi pactuada como premissa das conversações, ou devemos ter claro que não será possível a firma de nenhum acordo. Nada está acordado até que tudo esteja acordado, nos repetiram sempre”. Então, perguntamos: Para que o processo? Para levar a Colômbia à paz e à reconciliação ou para conduzir a insurgência aos tribunais? Há que persistir nas conversações. Estas não podem romper-se por nenhum motivo.

DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
La Habana, 20 de abril de 2015

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Equipe ANNCOL - Brasil

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Galeano, García Linera e o pensamento crítico latino-americano


Por Emir Sader


As duas Assembleias Gerais de Clacso (Conselho Latinoamericano de Ciencias Sociais) que dirigi foram encerradas respectivamente por Álvaro Garcia Linera (em Cochabamba, em 2009) e por Eduardo Galeano (na Cidade do México, em 2012). Foram formas contundentes de mostrar aos cientistas sociais do continente as expressão maiores do pensamento crítico latino-americano contemporâneo.

Um, Álvaro Garcia Linera, professor universitário, militante político, preso e torturado por isso, grande intelectual revolucionário, que articula fina capacidade de elaboração teórica com a prática política. Tornou-se o maior intelectual latino-americano contemporâneo. O outro, Eduardo Galeano, de que conhecemos a insuperável capacidade de captar a realidade nas suas expressões mais cotidianas, ao lado dos grandes e cruéis fenômenos globais, a partir da sua visão humanista e solidária. O melhor escritor latino-americano contemporâneo.

Os dois correspondem, de distintas maneiras, ao que se chama de
intelligentsia  - intelectuais críticos, que abordam os temas mais relevantes, e linguagem acessível, defendendo aos mais oprimidos, humilhados, ofendidos. Uma categoria – intelectual da esfera pública – que está em processo de extinção.

A vida acadêmica condiciona a prática dos intelectuais de forma a que tendem a ser absorvidos por demandas burocráticas, a escrever conforme os cânones das instituições, a aderir a especializações cada vez maiores. E, como consequência de tudo isso, a despolitizar-se, a distanciar-se dos grandes problemas contemporâneos das nossas sociedades.

Nunca como hoje a América Latina necessitou tanto de intelectuais que coloquem sua capacidade de reflexão e de formulação de propostas alternativas a serviço do enfrentamento dos grandes desafios que se colocam para as nossas sociedades. Mas – é preciso dizer – poucas vezes, mais ainda em períodos históricos tão transcendentais como este, a intelectualidade latino-americana esteve tão ausente da participação ativa nos processos políticos e de elaborações teóricas vinculadas aos grandes desafios que enfrentamos. Há muitas exceções, mas não correspondem a todo o potencial do pensamento crítico das nossas universidades, dos nossos centros de pesquisa, das distintas formas de prática intelectuais.

Sem essa contribuição, que favorece a rearticulação entre a teoria e a prática, a reflexão intelectual se manterá intranscendente, enquanto que a prática política sentirá a falta da capacidade de criação estratégica, que necessita de um poder de elaboração teórica que capte os grandes problemas que enfrentamos e ajude a formular as alternativas para superá-los.

É verdade que entidades que antes convocavam a intelectualidade para essa participação - criavam espaços para isso, se pronunciavam sobre os grandes problemas políticos do nosso continente - agora se mostram dominadas por praticas burocráticas, despolitizadas, ausentes da esfera pública nos planos políticos e intelectual. Mesmo assim, é possível que os intelectuais se mobilizem e intervenham muito mais do que fizeram até aqui.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Santos e seu regime oligárquico, afundados no caos sistêmico que se propaga por toda Colômbia.


Por Horacio Duque

O processo de paz que se adianta entre as Farc e o governo neoliberal de Santos em Cuba agita com mais força a estrutura política oligárquica.
Cada acontecimento, cada passo nas conversações com a insurgência revolucionária, graças à enorme potência acumulada por ela, tem um grande impacto no resto da formação social.
Na conjuntura a Mesa Conversações viabiliza descobre e precipita a crise do Estado e do regime de dominação hegemônica. Confirmou-o a crise da putrefata justiça. Valida-o a crise econômica e fiscal em curso que pretendem maquiar. Alavanca-o a explosão militarista nas Forças Armadas, capturadas pela retrógrada plataforma fascista da ultra direita, com a qual coincide Santos [com seu Ministro da Guerra, Pinzón], na defesa do aparato bélico, aéreo, policial e paramilitar, como a única garantia da continuidade da dominação plutocrática, que, segundo o distraído senhor De La Calle, não existe por nenhum lado. De acordo com a sua última mensagem niilista, a oligarquia [Sarmiento Angulo, Ardila Lule, Santo Domingo, Sindicato Antioquenho etc.], não existe, pois é uma invenção de nós, os “esquerdistas” pré-modernos. Me dá riso esta piada da senilidade liberal.
Crise, a que Santos vive. Parece um doente com complicação de males. Tudo se lhe escapa das mãos, pois a única alternativa é a ascensão das forças populares e democráticas, para aproximar-se de um governo de transição que surja de uma Assembleia Constituinte pela paz e a democracia ampliada. Se trata de uma saída que não admite mais prazos.
Pelas reações dos sujeitos de peso, o processo de paz continuará, mesmo que estejamos ainda longe de um final exato das negociações.
Assim o pediu o governo de Obama e a hierarquia eclesiástica. Quem patina é Santos e sua cúpula ministerial e politiqueira da Unidade, pois se movem no pântano das ambiguidades, dos cálculos traiçoeiros e dos golpes baixos para manter o regime neoliberal e as arcaicas estruturas de poder da oligarquia feudal, bancária e militarista. É o que explica a imposição de seu Plano de Desenvolvimento e as leis que reforçam o modelo privatizador e a ditadura dos mercados.
O certo é que o Chefe da Casa de Nariño, quem devia ter renunciado a seu cargo há tempos, se move na direção da derrota da insurgência revolucionária e do triunfo da podridão política que agencia por todo o Estado com a corrupta distribuição das regalias petroleiras que têm sido literalmente saqueadas por seus coronéis nas regiões. Há que observar os casos dos estados do Cauca e do Quindío, para citar uns poucos. Em Popayán, Temistocles e a quadrilha liberal de Velasco e Cárdenas organizaram contratos de obra fraudulentos e torcidos para roubar milhares de milhões de pesos. De igual forma em Armenia procede dona Sandra Paola e Emilio Carriel, o velho cacique liberal [se diz social-democrata] que está em pleno conluio eleitoral com os seguidores de Uribe Vélez na região para impor prefeitos e governador. Este último caso confirma que Santos e Uribe coincidem estrategicamente na defesa de sua falsa democracia neoliberal. Coincidem no fundamental, como dizia Gómez Hurtado, por isso choram juntos os mortos oficiais do conflito.
Nessas condições, minha sugestão é que assumamos a conjuntura crítica em que estamos como o ingresso do Estado e da nação numa situação de caos sistêmico. Postulo que os acontecimentos/verdade dos últimos dias reflitam um salto qualitativo nesse sentido, no qual se desdobram várias grandes forças cujos choques e rixas dão forma a uma situação de crescente caos estrutural que requer saídas em sentido progressivo e democrático.
A crise e o caos sistêmico operam como uma máquina depredadora que destrói tudo com sua passagem; destrói, devasta, aniquila o que encontra em seu caminho. Avassala os modos de vida dos subalternos e das elites, ainda que uns e outros têm recursos diferentes para enfrentar a nova situação. Os do poder tentam tirar proveito do caos para continuar estando por cima. Os subalternos enfrentam desafios maiores, uma vez que sua existência está em perigo. Só podem sair contentes em movimento e em ação coletiva, lutando com outros e outras aos quais a desordem lhes impõe irmanar-se, sem se deixar comprar por burocratas e ministros em plano de transformismo com os movimentos populares e seus líderes.
O caos sistêmico tende a destruir [neutralizar e transformar suas identidades] a todos os atores coletivos, começando pelos mais frágeis e menos resistentes. Certas “esquerdas” [derivadas do aparelho liberal oficialista do estado de Antioquia] deixam de ser esquerdas não porque tenham poucos apoios, podem ter inclusive milhares de votos, senão porque lançaram pela borda a ética pra ficarem por cima, recebendo migalhas do poder e dos poderosos.
O importante nesta conjuntura é ter claro que não há outro caminho que o combate, que preparar-se para mais conflitos e lutas abertas sob suas mais diversas formas de manifestação, sem descartar a resistência armada. É neste sentido que proponho a necessidade de deixar para trás as simples marchas reivindicativas, os atos simbólicos, e passar ao alçamento generalizado contra a oligarquia imperante e suas manobras santistas e uribistas. São as lições de outros povos, como o palestino e suas intifadas.
As reformas que milhões de colombianos reclamam implicam resistências dos de cima, intensificação dos conflitos. É, outra vez, a hora dos movimentos sociais e populares. Porque só os de baixo organizados são capazes de enfrentá-los e derrotá-los.

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Equipe ANNCOL - Brasil

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Os governos corruptos não baixam do céu


Itzamná Ollantay [Blog]


Nestes últimos dias, nos inteiramos de capturas ou julgamentos de diferentes pulcros funcionários públicos de alta hierarquia por fraude fiscal [desvio de fundos públicos] em diferentes países.

O que talvez agitou mais, em especial aos setores hispanófilos, foi a detenção de Rodrigo Rato [com esse sobrenome...-n.t.], ex-vice-presidente da Espanha, ex-chefe do Fundo Monetário Internacional, ex-presidente de Bankia, por causa de uma multimilionária fraude fiscal. Isso se soma ao caso da organização criminosa [“desarticulada”] denominada Red Correa, dirigida e executada por várias dezenas de funcionários e políticos do Partido Popular, que operava dentro das engrenagens do Estado espanhol. Nem mencionar os casos de corrupção nos quais esteve vinculada nada menos que a família real espanhola recentemente.

Em Guatemala, o Governo do ex-militar Otto Pérez não pôde evitar por mais tempo o desmascaramento [talvez não a desarticulação] e a detenção de integrantes da Red La Línea, encabeçada e constituída nada menos que pelas máximas autoridades da Superintendência de Administração Tributária [SAT], incluindo ao Secretário Privado da atual vice-presidenta da República, e empresários privados. Este bando criminoso, assim como a espanhola Red Correa, operava desde o interior do próprio Estado, desviando fundos fiscais num país que ocupa o quinto lugar a nível mundial em desnutrição infantil.

Colômbia também se tornou notícia porque a Corte Suprema de Justiça do referido país condenou a vários anos de prisão dois ex-ministros do governo de Álvaro Uribe [este e outros de seus ex-ministros também estão relacionados em processos judiciais] por atos de corrupção. No Brasil e na Bolívia também os atos de corrupção descobertas balançaram seus governos progressistas nos últimos dias.

Nestes e outros países, a opinião pública tende a satanizar as funcionárias e os funcionários ou governantes corruptos como se fossem os únicos corruptos. Em alguns casos, o repúdio social também se estende ao setor empresarial por “não castigar a seus agentes corruptos”. Quase todos repudiamos a “estes” governos corruptos. Porém, os corroídos não são os governos [são a consequência] e sim os próprios Estados frágeis ou falidos que há tempos perderam seu monopólio fiscal/administrativo ao serem infiltrados por organizações criminais, e que, para operar, estes Estados necessitam de funcionários corruptos.

O problema está nas sociedades que praticamos o divórcio entre a moral pública [idealiza o ladrão executivo] e a moral privada [idealiza a virgem piedosa]. O problema está em nossa indiferença com os bens públicos [que os assumimos como bens de ninguém].

Estes e outros estridentes casos de roubos de fundos públicos nos obrigam a refletir sobre as causas destas condutas criminosas “normalizadas” na função pública [a corrupção assassina/mata a milhões de pessoas por fome e doenças]. Este mal endêmico não é problema de um governo, nem dos Estados unicamente. É um mal estrutural das sociedades que, por sua vez, configura o perfil psicológico da grande maioria das e dos aspirantes à função pública. Quantos de nós não sonhamos com a função pública para resolver ou alcançar nossas metas econômicas?

A corrupção pública não é um ato isolado, nem no tempo, nem no espaço, mas sim um processo condutual intensificado por culturas que praticamos. Sim, @s corrupt@s, assim como não vêm do céu, tampouco nascem moralmente deformados. Nós, homens e mulheres, como sociedade criamos aos corruptos e elegemos os corruptos para que nos governem.

Eles e elas praticam os “valores éticos” que como sociedade promovemos e normalizamos. As corruptas e os corruptos vão à missa e a cultos religiosos quase todos os fins de semana. Têm títulos acadêmicos e vestem paletó e grava, regularmente. Os funcionários/governantes mais corruptos, geralmente, vivem mais honrados e venerados por seus povos.

A corrupção pública como prática cultural não é só o lubrificante que faz funcionar a maquinaria do sistema neoliberal [para despojar os bens e serviços públicos], como também é a consequência inevitável do sistema-mundo-individualista que nos obriga a competir entre nós para tentarmos ter sempre mais que os demais, porém quase sempre pela via mais fácil.

Podemos destituir governos corruptos e/ou prendê-los. Podemos inclusive mudar a elite política e econômica dos países. Porém, isso não serve muito se não transitamos do sistema-mundo-individualista para um sistema-mundo-comunitário da sobriedade. O legendário Pepe Mujica, entre muitas lições, nos diz que: “Não necessitamos de muito para ser felizes”.

Temos que reeducar-nos para ser felizes, não para perseguir o sonho de chegar a ser ricos. Devemos reconstruir o sentido e a primazia do bem comum sobre o bem-estar/interesse individual. Reconciliar a moral pública com a moral privada. O problema está também em nós, não só em nossos governantes corruptos.

Tradução: Joaquim Lisboa Neto

Este conteúdo foi publicado originalmente por teleSUR sob o seguinte endereço: 
http://www.telesurtv.net/bloggers/-Los-gobiernos-corruptos-no-bajan-del-cielo-20150420-0001.html.

terça-feira, 21 de abril de 2015

A batalha da comunicação e as perspectivas para o segundo mandato



Por Rennan Martins
As últimas eleições e o clima político ainda deflagrado no país evidenciam o quanto a comunicação é crucial para o desenrolar saudável de uma democracia. A atuação cartelizada e o comportamento partidário da imprensa corporativa brasileira produzem sérias distorções que, num ambiente extremado, dá espaço a soluções antidemocráticas e desrespeitosas ao Estado de direito, tão duramente conquistado no fim do século passado.

A renovação ocorrida no Ministério das Comunicações e na Secretaria de Comunicação da Presidência abre a possibilidade de uma discussão sobre mudanças na política governamental, que visem a fortalecer o debate plural na sociedade. O tema é urgente, dada a ofensiva da grande mídia, que impõe sua agenda e quer a garantia de que as verbas publicitárias estatais sejam somente suas ad infinitum.
Para abordar, com propriedade, esse debate, o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Beto Almeida, jornalista e conselheiro da rede de TV multiestatal Telesur. Beto constata um ambiente desfavorável para a regulamentação entre os parlamentares. Indica medidas executivas, que independem dos congressistas, com potencial de democratizar a imprensa e questiona, arduamente, qual a razão do PT [Partido dos Trabalhadores] não possuir um jornal de massas.
Confira a íntegra da entrevista.
O atual ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, assumiu a pasta com o entusiasmo dos movimentos sociais. Até agora, sua gestão correspondeu às expectativas? Qual é a linha de atuação do ministro?
O entusiasmo do ministro Berzoini com a regulamentação democrática da mídia não significa que ele tenha condições de alterar a situação adversa que está instalada no Congresso. O ex-ministro Paulo Bernardo, além de ter engavetado as teses da Confecom [Conferência Nacional de Comunicação], chegou a afirmar que os petistas queriam censura por pretenderem a regulamentação midiática, além de ter ido ao Congresso da Abert [Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão] para defender, entre outras coisas, a flexibilização da "Voz do Brasil” [programa radiofônico público e obrigatório], causa preciosa para a patronal midiática. Seguramente, Berzoini vai trabalhar em outra direção, além de voltar a dar prioridade à Telebrás como empresa pública e à expansão da banda larga via presença da estatal, o que o ministro anterior, por razões óbvias, desprezou.
Creio que o ministro Berzoini, muito embora não possa alterar o travamento da democratização da mídia no Congresso, tem muito o que fazer de modo operativo. Pode alterar, via portaria, sem depender do Congresso, portanto, os critérios para a distribuição da publicidade institucional, deixando de discriminar a comunicação comunitária, universitária e educativa. Pode, ademais, acelerar o processo de implantação da TV digital em sinal aberto, incluindo TV’s comunitárias e universitárias. Isso é concreto, não passa pelo Congresso, está em nível de executivo. Pode, além disso, assumir uma posição clara em defesa da "Voz do Brasil”, noticiário radiofônico efetivo, amplo, plural, democrático, que, na prática, é uma regulamentação midiática em favor da diversidade informativa. E utilizá-la, dentro da lei, de modo mais adequado para informar sobre aquilo que diz respeito à vida dos cidadãos, pois é um noticiário de estupenda capacidade de comunicação popular!
Quais as principais propostas dos movimentos ligados a Comunicação Social? Que críticas fazem em relação ao atual modelo de imprensa?
Os movimentos sociais criticam, corretamente, a postura fascistóide dos meios de comunicação comerciais. Entretanto, por não ter sido construída nos 12 anos uma correlação de forças em favor da democratização da mídia, por ausência de iniciativas tanto do governo como do PT, os movimentos sociais não podem apenas apostar todas as fichas na Lei da Regulamentação da Comunicação, pois o Congresso é, atualmente, largamente desfavorável. Há apenas um efeito pedagógico, mas, de concreto, não se avança. Para se ter uma ideia, até mesmo segmentos das esquerdas abraçaram a tese da flexibilização da "Voz do Brasil” proposta pela Abert.
As críticas são justas, pela concentração, pelo elitismo, pelo antinacionalismo, pelo seu caráter antipatriótico, alienante, consumista, aberrante, embrutecedor etc. Mas não há, até o momento, uma consciência clara de que as esquerdas podem e devem fortalecer as TVs e rádios comunitárias. Há exemplos importantes neste sentido, mas a esquerda e o movimento sindical podem ocupar e fortalecer muito mais as TVs comunitárias, chegando a milhares e milhares de brasileiros com suas mensagens.

Porque a imprensa corporativa praticamente opera numa só direção? Qual a origem desse discurso único?
Há algo intocável na história: a luta de classes! Muitos setores de esquerda se iludiram pensando que isto não existe mais. Deixaram, com isso, de aproveitar oportunidades políticas para se construir uma mídia própria, acreditando que, quando necessário, poderiam ter espaços na mídia corporativa. Eis que esta mídia, a cada dia, é mais fascistizante, mais raivosa contra a democracia, contra os partidos de esquerda, os sindicatos. A origem desse discurso é que, quando a burguesia percebe que não pode mais deixar governos populares governando, ela adota o discurso do golpe. Isso é luta de classes. Não há nenhuma chance dessa mídia corporativa tornar-se plural, democrática, diversificada. Por acreditar nisto, a esquerda brasileira, hoje, está desarmada de mídia própria, sob um dilúvio tremendo de mentiras e ataques, e não tem sequer um panfletinho para responder. As ilusões cobram muito caro em história!
Porque o governo é tão imóvel quanto às medidas que democratizam a imprensa? Como explicar essa paralisia?
Medo. Combinado, agora, com falta de maioria parlamentar para mudar a Constituição. Mas, há iniciativas que não requerem mudanças constitucionais. Democratizem a distribuição da publicidade institucional alcançando também as mídias comunitárias, universitárias, sindicais, populares. Parem de reprimir o movimento de rádios comunitárias, pois no governo Lula houve uma onda de repressão, apreensão e destruição de equipamentos de rádios comunitárias, o que não está previsto na lei, que prevê apenas a interdição dos equipamentos. O governo deve indenizar o movimento de rádios comunitárias por esses atos ilegais.
Que medidas práticas e concretas desejáveis dependem somente de Berzoini para a implementação?
Reforçando o já proposto. Por meio de portaria, o governo pode fortalecer outros segmentos de mídia que, até hoje, estiveram preteridos na distribuição de publicidade institucional. Enquanto a Revista Veja já chegou a receber, numa única edição, 14 páginas de propaganda da Petrobras, alvo predileto de seus ataques, as TVs comunitárias estão preteridas, discriminadas, ignoradas, não receberam sequer uma página de publicidade em 12 anos.
Quanto ao novo secretário de comunicação da Presidência, Edinho Silva, o que esperar de sua gestão? Acredita que ele atenderá às reivindicações dos movimentos ligados à comunicação?
Creio que o discurso da presidenta Dilma sobre liberdade de expressão é uma rendição ante um monumental processo de descumprimento da legislação pelos detentores de concessões públicas de comunicação. Chegam a suspender a grade de programação para convocar manifestações que professam a derrubada injustificada do governo e, inclusive, um golpe militar! E esses concessionários seguem recebendo publicidade institucional. É um absurdo. Dilma nunca deu uma entrevista sequer a uma TV comunitária. Mas sancionou uma lei que veda o acesso das TVs comunitárias à publicidade. Como deve sobreviver esse setor, reconhecido legalmente pelo estado, mas preterido e discriminado por não ter o mesmo acesso à publicidade?
Como se dá, atualmente, o investimento das verbas publicitárias estatais? Quais são os critérios utilizados?
Os critérios devem ser pautados pela distribuição democrática, alcançando todos os setores midiáticos envolvidos. Se apenas empresas já muito fortes recebem a maior fatia da verba publicitária, isto significará concentração, o que implica em uma espécie de cartelização e até mesmo na prática de oligopólio e monopólio, proibido por lei.

No que consiste a regulamentação da mídia? Na sua opinião, em que sentido deveria se dar essa proposta?
Consiste em democratizar o uso do espaço público radioelétrico, impedindo que seja privatizado por grupos poderosos e oligopólios. Na Venezuela, na Argentina, no Equador, na Bolívia, o espectro eletromagnético é distribuído entre três modalidades de organização midiática. Um terço para o Estado, um terço para os empresários e o outro um terço para os setores sociais e comunitários. Isto sim é democracia e pluralidade, como reza a Constituição brasileira também. Aqui, no Brasil, em 12 anos de governo com o PT à frente, apenas uma concessão de TV, a da TVT, foi efetivada de fato. Aqui, a única possibilidade é o jornalismo impresso, que poderia e deveria ter sido impulsionado com força pela esquerda, a exemplo do que fez a esquerda na Grécia, que, em apenas um ano e meio, fundou um jornal popular cooperativo, que já se tornou, rapidamente, a publicação de maior circulação em Atenas. Exemplo a ser seguido. Aqui, o PT sequer tem um jornal, uma mídia própria de massas. E quem consegue eleger o presidente da República por quatro vezes seguidas tem condições de montar o maior jornal de circulação nacional! Hoje, o PT está sendo esquartejado em praça pública, midiaticamente falando, e não tem sequer um jornal impresso de massas para se defender! É plenamente viável um jornal de ampla circulação, autossustentável, para defender, como linha editorial, a legalidade democrática e tudo o que foi conquistado nos últimos 12 anos. Esse projeto liderado por Lula e Dilma teve 56 milhões de votos, o PT tem aproximadamente 2 milhões de filiados, como, então, não se pode fazer um jornal sustentável com 1 milhão de exemplares?! A Folha Universal do Reino de Deus tem um jornal com tiragem de aproximadamente 2 milhões de exemplares. O que houve foi a ilusão de que a mídia corporativa daria espaço para a esquerda, mas ela está pregando é o discurso golpista, aliás, como fez em 1954 e 1964.
Por que essa bandeira é tão pouco compreendida pela sociedade de forma geral? Como devemos agir pra que a mensagem chegue aos leigos?
Há uma deliberada confusão feita pelos magnatas da mídia, associando regulamentação a censura. Como não existe o contraditório, há apenas esta opinião circulando. Houve um tempo em que se dizia que cigarro não fazia mal, porque não havia o contraditório. Hoje, circulam informações amplamente sobre o malefício do cigarro. Mas não se permite conhecer o modelo de mídia da Argentina, da Bolívia, onde comunidades indígenas acessam uma rede nacional de rádios indígenas.
Regulamentação é como um sistema de sinais de trânsito. Ele organiza a circulação de veículos, parando o fluxo de uma avenida supermovimentada, para que, periodicamente, também circulem os veículos das ruas de menor movimentação. Sem sinais de trânsito, tudo seria um caos, as avenidas de grande fluxo esmagariam as ruas de menor trânsito e haveria desordem, indisciplina, um caos. Na comunicação, também é necessário ter regras para que transitem pelo espaço eletromagnético todos os sinais representativos da pluralidade e da diversidade democrática da sociedade.




Possível instalação de armamento nuclear constitui uma ameaça à paz e à integração regional


Por Fernando Arellano Ortiz
Ainda que o governo neoliberal de Juan Manuel Santos enaltece no âmbito interno de impulsionar um processo de paz com a insurgência das Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], sua política internacional (ditada a partir de Washington), em contraposição, aponta para desestabilizar a harmonia e a integração regional. Assim deixa entrever durante sua exposição magistral, recentemente, em Bogotá, o sociólogo e cientista político argentino, Atilio Boron, no marco da Cúpula Mundial de Arte e Cultura para a Paz, organizada pela Prefeitura da capital colombiana.
Por um lado, Borón diz que é um contrassenso que, enquanto a irrupção da China na geopolítica mundial está deslocando o protagonismo do Atlântico para o continente asiático, a Colômbia se empenha obstinadamente em impulsionar a Aliança do Pacífico, uma invenção de Washington para se contrapor à presença cada vez maior de Pequim na América Latina e atingir o processo integracionista da Pátria Grande. De outra parte, acrescenta, o fato de que o governo de Santos, de forma por demais disciplinada, tenha aceitado as diretrizes do Pentágono para que a Colômbia ingresse na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e ao mesmo tempo existam sérios indícios de que o Comando Sul tenha instalado armamento nuclear neste país andino, dá um claro sinal de ameaça para a paz da região.
O analista argentino dá ênfase em assinalar que a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] não é mais do que "a força imperial de choque”, a partir da qual Washington lança sua estratégia de ofensiva militar a diversos países ou regiões do mundo, aos quais determina ou considera que constituem ameaças para seus interesses. Em consequência, destaca, o ingresso da Colômbia nessa aliança militar extracontinental não aporta, em absoluto, a paz.
Conflito colombiano é pretexto para militarização dos Estados Unidos
Durante a sua conferência no Teatro Bogotá, Borón, com sua característica capacidade dialética e didática, por sua vez, mostrou como, na Colômbia, se leva a cabo um processo de paz com um ator armado como as Farc, em meio a um mundo convulsionado por múltiplos conflitos, originados, em boa medida, do declínio do imperialismo estadunidense.
"A paz na Colômbia é a paz de toda a América Latina”, foi o título da intervenção do reputado analista político e catedrático universitário, atualmente diretor do Programa Latino-Americano de Educação à Distância (Pled), do Centro Cultural da Cooperação de Buenos Aires.
No desenvolvimento de sua exposição, Borón demonstrou o rotundo fracasso da intervenção direta dos Estados Unidos em matéria de combate ao narcotráfico e à insurgência na Colômbia, já há várias décadas. Trouxe o exemplo do denominado Plano Colômbia, subscrito pelo então mandatário conservador Andrés Pastrana com a administração Clinton (toda uma estratégia de entrega da soberania a Washington).
Tal Plano, que aos colombianos foi vendido como uma "ajuda” estadunidense, resultou um completo fiasco, pois, como demonstrou Borón com cifras tomadas de informes das Nações Unidas, o narcotráfico, ao invés de diminuir, aumentou. Em efeito, houve um incremento exponencial de cultivos ilícitos tanto no México, Colômbia e Afeganistão, países onde, coincidentemente, os Estados Unidos intervêm diretamente.
Ademais, a intervenção direta do Pentágono, a CIA, a DEA e o Departamento de Estado nos assuntos colombianos tem servido para o enriquecimento de empresas de armamento estadunidense e ao mesmo tempo para o financiamento de campanhas de congressistas estadunidenses (que fazem lobby em favor dos consórcios que se beneficiam), assim como para a presença de Israel.
É que da guerra interna na Colômbia não somente se favorece em grau superlativo os Estados Unidos, mas também Israel, como bem anotou Borón. Desde 1960, o Mossad (serviço de inteligência) e organizações de espionagem israelitas que operam sob a fachada de segurança estão presentes em território colombiano, assessorando grupos paramilitares e redes mafiosas do narcotráfico.
Juan Manuel Santos, tanto como ministro da Defesa como, agora, na qualidade de primeiro mandatário acolhe e aplaude a presença israelense na Colômbia porque, como assinalou em reiteradas ocasiões, seria "muito positivo” que este país "seja a Israel da América do Sul”.
Por todo o anterior, Borón disse que oxalá as negociações de paz que se desenvolvem em Havana entre o governo de Santos e as Farc cheguem a bom porto porque o conflito colombiano é o melhor pretexto para a militarização dos Estados Unidos na região.
O contexto geopolítico
A conjuntura da realidade sociopolítica colombiana em meio a possibilidades certas de por fim a um conflito interno de mais de meio século passa pelo declínio do império estadunidense, do colapso europeu e da irrupção, em consequência, de novos atores na cena da geopolítica mundial.
Borón põe de manifesto no atual cenário mundial o protagonismo da China e Índia, o retorno da Rússia, a quebra da União Europeia, as alianças regionais e a decadência do imperialismo estadunidense, fatores todos estes que terão uma incidência direta no futuro político da América Latina.
É enfático ao chamar a atenção sobre o perigo que se abate sobre o mundo e, especificamente, sobre a região, o declínio de Washington, pois sustenta que na fase de decomposição os impérios se tornam mais repressivos e sanguinários e traz exemplos históricos, como a etapa final do império otomano com o genocídio armênio (em 1915), ou o caso britânico com a brutal repressão na Índia.
No plano econômico, o cientista político argentino demonstra como os Estados Unidos se encontram sem saída: por um lado, deve mais do que produz; por outro, é cada vez mais progressiva a substituição do dólar no comércio internacional. E, para complementar, fornece um dado a mais: enquanto, neste ano de 2015, a China construirá 15 mil quilômetros de vias férreas, em contraste, a nação estadunidense não construirá nem uma só, com o qual sua infraestrutura viária começa a ficar obsoleta.
A isso é preciso somar, diz Borón, a crescente desigualdade que se vem apresentando nos Estados Unidos, com sua consequente quebra a respeito da sua integração social. Não obstante, é exorbitante seu gasto militar, assim como é evidente também seu cada vez maior isolamento internacional, o qual fica refletido, por exemplo, nas últimas derrotas que teve que engolir a Casa Branca, precisamente, em sua principal zona de influência, a América Latina. Em efeito, primeiro, teve que aguentar que dois países latino-americanos, como Equador e Bolívia, pusessem um freio à sua atitude eterna de ingerência em assuntos internos. O presidente equatoriano, Rafael Correa, fechou a base militar de Manta; e o mandatário boliviano, Evo Morales, expulsou a missão diplomática estadunidense. Mais recentemente, na OEA (o Ministério das Colônias, como a denominou Fidel Castro), o governo de Obama perdeu de goleada quando propôs sua intervenção na Venezuela. Estes acontecimentos, acrescenta Borón, eram impensáveis há apenas alguns anos.
EUA lançam feroz reconquista da América Latina para assegurar recursos naturais
Em meio ao contínuo desmoronamento do império estadunidense, Washington não se contém em seu propósito ingerencista na América Latina porque é a maneira de assegurar mediante artimanhas e enganos (tratados de livre comércio, golpes brandos, Aliança para o Pacífico, terrorismo econômico, alianças militares), o acesso (via saque e a pilhagem) à rica biodiversidade que produz essa região, para poder continuar mantendo seu descomunal padrão capitalista de consumo.
Por essa razão, Washington espalha sua artilharia militar em todo o continente, como bem esboça Borón em seu magistral livro, "América Latina na geopolítica do imperialismo”, que ganhou o Prêmio Libertador do Pensamento Crítico, em 2013.
Os Estados Unidos, explica esse reputado analista internacional, instala sua estrutura militar na América Latina, tanto na Colômbia como em Honduras, para lançar suas aventuras. O mar do Caribe está totalmente controlado militarmente pelo Pentágono, que ademais conta com cerca de 80 bases ao longo do hemisfério. Não é gratuito tampouco que, em 2008, o Comando Sul tenha ativado a IV Frota, coincidentemente pouco depois de que o então governo brasileiro de Lula da Silva anunciasse a descoberta de uma grande jazida petrolífera submarina no litoral paulista.
Obviamente, que os pretextos para essa descomunal militarização dos Estados Unidos ao longo do continente são o narcotráfico, os populismos (como estigmatizam os governos progressistas da região), as calamidades naturais e a segurança continental. Falácias que ajudam a propalar os grandes oligopólios midiáticos de propriedade dos setores decadentes da ultradireita latino-americana. Por isso Borón exorta a não se confundir: "o nome de tudo isso é petróleo”, e dessa maneira explica porque toda a estratégia de desestabilização e satanização contra o Governo da Venezuela, do presidente Nicolás Maduro.
Se a Venezuela fosse produtora de tomates ou de batatas, os Estados Unidos buscariam derrubar o Governo Bolivariano da Venezuela com a ativa colaboração dos seus lacaios da direita latino-americana?, interroga o cientista político argentino. Não é gratuito, portanto, o feroz ataque empreendido pela Casa Branca contra o processo político inaugurado pelo comandante Hugo Chávez.

Os EUA têm armamento nuclear na Colômbia?
Borón concluiu sua conferência em Bogotá, deixando uma inquietante interrogação: "A Colômbia bem poderia ser hoje um país no qual os Estados Unidos instalaram armamento nuclear, em aberta violação ao acordo internacional regional, mediante o qual nossos países se comprometeram a manter a América Latina como uma nuclearizada zona de paz”.
Se bem, acrescenta, o tratado subscrito entre Uribe Vélez e Obama, que autorizava a utilização de sete bases militares, foi declarado inexequível pela Corte Constitucional da Colômbia, "o certo é que este tropeço legal não impediu que os Estados Unidos tenham prosseguido operando militarmente nesse país”.
---- Com apoio de ADIAL

Que se abram os arquivos para que se saiba a verdade


Não há possibilidade alguma de esclarecer, nem de se aproximar da Verdade sobre o ocorrido em Colômbia durante o longo conflito político e armado se a sociedade em seu conjunto não tem a oportunidade de acessar fontes fidedignas de informação, à documentação que nos permita chegar à verdade pura e limpa do sucedido. É indigno [por parte] dos poderes públicos impedir ao povo o conhecimento dessa história, única forma de não voltar a repetir os erros e horrores da confrontação.
A reconciliação há de se construir sobre a verdade do ocorrido, não sendo possível alcançá-la unicamente com as explicações e argumentos que cada uma das partes possamos esgrimir.
Desclassificar, preservar e garantir o acesso à totalidade dos documentos reservados do Estado relacionados com as violações de direitos humanos, crimes de lesa-humanidade e crimes de guerra ocorridos durante o conflito, para construir memória, é uma reivindicação legítima do movimento de vítimas do conflito. É, ademais, insumo fundamental para a Comissão de Esclarecimento e Não Repetição, e matéria de consulta para a Academia e a Justiça. Assim o consideramos.
Abrir os arquivos documentais sobre o conflito não é um capricho das vítimas, tampouco é uma medida extraordinária ou uma simples ocorrência das FARC-EP. É uma inevitável obrigação que os Estados têm cometido com decisão e vigor em todos os processos de construção de paz ou de transição à democracia desde regimes autoritários a partir do final da II Guerra Mundial.
De fato, é uma obrigação que o Direito Internacional impõe ao Estado nestes processos, e assim foi reconhecido e assumido por ambas as partes quando aprovamos o “Ponto 5º, Esclarecimento da Verdade”, da “Declaração de Princípios para a discussão do ponto 5º da agenda, Vítimas”, em junho de 2014. A negativa a abrir plenamente os arquivos do Estado relacionados com o conflito, à parte de constituir uma fraude às vítimas, é uma infração de uma obrigação estabelecida no Direito Internacional que o Governo tem que cumprir cabalmente.
Este dever de abrir os Arquivos se estabelece sem margem possível de interpretação no “Conjunto de princípios atualizados para a proteção e a promoção dos direitos humanos mediante a luta contra a impunidade” aprovados a 8 de fevereiro de 2005 pela Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, concretamente nos princípios 14 a 17, com a finalidade de evitar a impunidade, fazer valer eficazmente os direitos das vítimas, permitir a defesa dos vitimários e garantir o livre acesso das comissões da verdade e dos tribunais, única forma de que estas instituições possam desempenhar eficazmente suas funções.
Pedimos ao Governo Colombiano que atenda com a maior brevidade e de forma plena esta exigência das vítimas do conflito e do direito internacional. Fazemos um chamamento expresso à Procuradoria Geral da Nação, à Promotoria da Nação e ao Defensor do Povo para que unam sua voz às muitas que dentro e fora da Colômbia estão clamando pela abertura dos arquivos relacionados com o conflito. Cremos que estas instituições, mais além de estarem obrigadas a zelar pelo estrito respeito às normas nacionais e internacionais, conforme seus respectivos mandatos, devem também fazê-lo como mostra de reconhecimento e compromisso com as vítimas.

DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
La Habana – Cuba – 19 de abril de 2015

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Equipe ANNCOL – Brasil

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Países da América Latina desenvolvem rede de inclusão digital


Por Márcio de Morais

A exemplo do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) brasileiro, criado para ampliar e baratear a cobertura do serviço, nações latino-americanas estão negociando a implantação de uma rede multinacional de fibras ópticas com o mesmo objetivo de promover inclusão digital em todo o continente.
Durante quatro dias, a partir da última terça-feira (14), discussões multilaterais buscaram aprofundar, no âmbito da União de Nações Sul-americanas (Unasul), definições e parâmetros para o projeto “Rede para Conectividade Sul-americana”, como foi batizado. A intenção é que essa rede ultrapasse 10 mil quilômetros de extensão.
Uma etapa inicial, e experimental, dessa rede já está em funcionamento desde junho de 2013. Ela conecta Santana do Livramento, município do Rio Grande Sul, à cidade uruguaia de Riviera, por meio de uma conexão promovida em parceria pela brasileira Telebrás e a Antel, empresa de telecomunicações do país vizinho.
Comitivas dos países da região se reuniram em Montevidéu (Uruguai) até esse sábado (18) com o objetivo de estabelecer um cronograma de procedimentos para viabilizar a rede que vai permitir a inclusão digital coletiva dos povos sul-americanos.
As negociações se dão no âmbito da Coordenação do Conselho Sul-americano de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan), órgão da Unasul. A ideia central do grupo é interligar os países por meio de um anel de fibras ópticas.
A estrutura contínua vai permitir que o tráfego de sinais digitais em alta velocidade circule sem intermediários entre todos os países do continente. Além de assegurar mais eficiência e segurança na conectividade, o menor custo operacional da rede vai baratear a oferta do serviço.
Em nota, o Ministério das Comunicações informa que, hoje, “o caminho percorrido pelos dados numa simples conexão à internet é extenso e caro” e que os estudos técnicos em andamento vão permitir a “implementação de um sistema mais rápido e mais barato de comunicação na América do Sul”, graças à circulação direta do tráfego entre as redes locais.
Medidas práticas, como a criação de um Grupo de Trabalho para encaminhamento do acordo entre os países e a aprovação do Termo de Referência para a contratação da pessoa jurídica que vai conduzir os estudos, foram firmadas durante essa semana.
Outra medida importante foi a definição da metodologia para desenvolvimento de hubs de integração óptica na região. Os hubs são equipamentos que permitem a conexão de computadores em rede.
Além de dois representantes do Minicom, analistas técnicos Igor de Freitas e Francisco Minervini,  a delegação brasileira é formada pelo ministro do Itamaraty, João Parkinson, o assessor técnico do Ministério do Planejamento, Rodolfo Osório, o diretor do Ministério dos Transportes, Francisco Luiz Batista da Costa e um representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Fim da OEA está cada vez mais perto



Por Emir Sader.

A OEA reinava, até há pouco tempo, como o fórum dos países da América, reunindo os países da América Latina e do Caribe, mais os EUA e o Canadá. Era uma sobrevivência não apenas da guerra fria, mas sobretudo da Doutrina Monroe, constituindo-se na instância através da qual os EUA impunham sua hegemonia sobre o continente.
 

A Cúpula das Américas, realizada no Panamá, ao invés de ser a abertura de uma nova fase para a OEA, representa mais um passo na direção da sua intranscendência. O mundo que ela expressava não existe mais. Os processos de integração latino-americana foram criando suas próprias instâncias, deixando a OEA como organismo superado pelas novas realidades do continente.
 

O OEA foi uma sobrevivência da guerra fria ou melhor, da própria Doutrina Monroe. Servia como espaço de imposição da hegemonia norteamericana, da “América para os (norte)americanos”. Era uma instância espúria que, embora fosse a que pretendia representar ao conjunto do continente era, na realidade, nas palavras de Fidel “O Ministério das Colônias dos EUA”.
 

Quando países da America do Sul começaram a organizar espaços de integração regional – Unasul, Conselho Sulamericano de Defesa, Banco do Sul -, a OEA foi perdendo espaço. E quando se constituiu a Celac, agrupando a todos os países da America Latina e do Caribe, a OEA foi perdendo sentido de existir.

Atualmente a estratégia dos países da América Latina é a de que a Celac nos represente a todos, deixando a OEA apenas para as relações entre todos os países do continente, agrupados na Celac, e os EUA e Canadá.
 

A Cúpula do Panamá representou o retorno oficial de Cuba a essa instância, embora não o retorno de Cuba à OEA, de que ela foi expulsa, por ordem dos EUA, em 1962. Recentemente, atendendo a reivindicações dos países do continente, a OEA chamou Cuba para que se reintegrasse à instituição, mas Cuba rejeitou essa possibilidade.  O fim do bloqueio dos EUA atende ao lema cubano:  “Con OEA o sin OEA, ya ganamos la pelea”.
 

A reunião, que deveria consagrar o restabelecimento de relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, terminou completamente contaminada pela decisão dos EUA de considerar a Venezuela uma “ameaça à segurança nacional dos EUA.” O clima amistoso com que Obama esperava ser recebido, pelo reatamento com Cuba, foi substituído pela hostilidade pela posição em relação à Venezuela.
 

Obama tratou de se fazer de desentendido, chegando a declarar que nunca as relações entre os EUA e a América Latina estiveram tão boas. Desconhece a distância imensa que foi se abrindo, conforme o continente foi construindo seus próprios organismos de integração, excluindo os EUA e o Canadá.
 

Apesar do clima de hostilidade à decisão norteamericana sobre a Venezuela, a falta de consenso levou à impossibilidade de um documento final da reunião. Mas Obama perdeu a parada, na sua tentativa de centrar a reunião na normalização das relações com Cuba. Apesar do importante encontro com Raul Castro, a sombra da prepotência nortemericana – amainada por declarações de desmentido do próprio Obama – seguiu pairando no Panamá.
 

A OEA saiu ainda mais enfraquecida da Cúpula, diante da contraposição entre as posições dos países do continente – agrupados na Celac – e as dos EUA. A OEA está mais perto do seu fim.

domingo, 19 de abril de 2015

Santos ordena bombardear a paz. O caso Santo Domingo/Arauca.


Por Horacio Duque Giraldo


Criminal e desesperada a ordem santista de bombardear e destruir o processo de paz. Se repetirão casos como o de Santo Domingo/Arauca.
Por causa dos trágicos fatos de guerra ocorridos numa operação defensiva do território na vereda La Esperanza do município de Buenos Aires, Cauca, o senhor Santos, chefe da Casa de Nariño, deu a cruel ordem de reiniciar os bombardeios aéreos em todo o território nacional.
Se trata de uma fatal determinação, típica de quem atua como um jogador de pôquer para sacar vantagens politiqueiras, que terá sérias e imediatas consequências na cruenta guerra civil da qual padece a sociedade colombiana há mais de 50 anos.
Esta decisão vai ter duras repercussões no processo de desescalada do conflito que havia avançado consistentemente com a trégua unilateral ordenada desde Dezembro/2014 pelas Farc, com os pactos em matéria de desminado e as decisões quanto a menores combatentes.
Quer dizer que os diálogos exigirão mais tempo e calma para determinar de maneira muito precisa os compromissos governamentais com a implementação efetiva das reformas e mudanças democráticas, sociais e políticas adotadas via consenso.
Falar de datas para a firma de um Acordo Final não é um disparate liberal ou radical, só que se deve considerar que uma parte cronológica [e não ontológica, como deveria ser] depende do avanço real nos temas estabelecidos na Agenda e da vontade real do governo de tornar efetiva a paz com justiça social e democracia ampliada, que é ao que se nega a oligarquia plutocrática que o senhor Santos e seu gabinete de tecnocratas representam.
O governo e sua cúpula dirigente mantêm uma posição irredutível de não tocar no modelo neoliberal e impor sua democracia clientelista e mercantil. Ao que se agrega a sabotagem estrutural à paz por parte dos generais e militares adeptos do fascismo contra insurgente e anticomunista de Uribe Vélez e da ultra direita latifundiária, com o consentimento santista.
O uso da infraestrutura da Força Aérea no conflito terá consequências desastrosas. É como usar gasolina para apagar um incêndio.
Em anos recentes, a ação dos veículos aéreos para desdobrar enfrentamentos de guerra foi sangrenta. Basta recordar o caso da vereda Santo Domingo/Arauca.
Como é bem sabido, no município de Tame está situada a corregedoria de Santo Domingo, e ambos fazem parte do estado de Arauca. A 13 de dezembro de 1998, depois das dez e meia da manhã, quando se celebrava por uma humilde comunidade campesina uma feira com atividades desportivas e culturais, um avião fantasma das FAC [Forças Armadas da colômbia] e um “número não determinado” de aviões e helicópteros de guerra bombardearam o povoado; um ‘dispositivo cluster’ explodiu sobre um caminhão, causando a tragédia.
De tal “façanha militar” resultaram mortas 17 pessoas, entre adultos e menores de idade. Os sobreviventes tiveram que abandonar o povoado durante 17 dias, tempo em que o Exército permaneceu na área junto a grupos paramilitares dos narcos Mellizos Mejía, as casas da população civil foram abusivamente violentadas, se registraram invasões ilegais e foram saqueados seus comércios, destruídos seus bens, furtados seus dinheiros e joias, e as galinhas de propriedade da população civil foram consumidas pelos soldados.
As autoridades negaram o ocorrido; “não existia clareza sobre os fatos em que se apresentou o enfrentamento”, disseram, indicando ademais que os aviões das FAC haviam chegado até o município devido a “um operativo militar conjunto entre o Exército Nacional e a Força Aérea para combater a guerrilha das Farc na área geral de Tame. Se expediram as ordens RELÂMPAGO II, PANTERA E PANTERA I”.
Os familiares das vítimas processaram o Estado indicando que a Força Pública, desde a data do massacre, utilizou procedimentos falsos e obstruiu e prolongou as diversas investigações adiantadas pelos fatos que foram julgados posteriormente, quando foi evidente que o ocorrido se tratou de um massacre; destacando, ademais, que a prova documental fornecida pelas FAC era incoerente e incongruente e evidencia os erros táticos e estratégicos em que a Força Aérea incorreu, o que se repetiu ao longo dos últimos anos em muitos casos e vai se repetir agora com esta demencial ordem.
Por esses fatos, o Conselho de Estado ordenou às FAC pagar aos familiares das 17 pessoas, entre elas 6 menores de idade, pelo massacre de Santo Domingo, um total de $ 1.125 milhões de pesos.
Um adido militar, Coronel Sergio Andrés Garzón, regressou da França para responder pelo ataque criminoso a Santo Domingo/Arauca.
A decisão de ordenar a captura dos oficiais das FAC comprometidos no magnicídio foi adotada por uma fiscal de Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário [DIH], quem acusou ao Coronel Sergio Andrés Garzón e ao major Germán David Lamilla como coautores do concurso homogêneo de 17 homicídios com dolo eventual.
Pelo mesmo fato também foram condenados a 30 anos de prisão, cada um, o capitão César Romero e o tenente Johan Jiménez, os quais pilotavam o helicóptero que lançou o artefato explosivo.
Fatal e delirante a ordem de Santos. Põe novamente a rodar uma infernal máquina de morte integrada por quase 14 mil efetivos, 300 aeronaves de combate que está sob a condução do Gal. Guillermo León León.
Morrerão campesinos, anciãos, mulheres, crianças, animais e se destruirão espaços de trabalho das comunidades.
Absurda decisão que se coloca na contramão do que observamos recentemente na Cúpula do Panamá, espaço que permitiu, depois de 50 anos de equivocações e perversidades gringas, a aproximação entre Obama e Cuba, sem que a pequena nação caribenha renunciasse a suas políticas revolucionárias e socialistas. Obama reconheceu os erros de seu país e se mostrou disposto a corrigir.
Aqui, pelo contrário, a elite oligárquica dominante se nega a reconhecer seus erros e persevera na violência estatal contra as classes populares e as massas campesinas para continuar favorecendo a riqueza e o poder de grupos minoritários que dominam o Estado em todos os seus níveis.
Em vez de bombardeios, o que a paz com justiça social exige é um cessar do fogo e de hostilidades bilateral e permanente. O que a paz exige é mais democracia ampliada e vigência dos direitos políticos, garantindo que a liberdade impere nos meios de comunicação, monopolizados por grupos empenhados em mentir e intoxicar a sociedade com mentiras e traições.
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Equipe ANNCOL - Brasil

sábado, 18 de abril de 2015

“MUDAR O PT PARA CONTINUAR MUDANDO O BRASIL


- Por Rui Falcão


Companheiros e companheiras



O PT nasceu para ser diferente. E foi. O PT nasceu para mudar o Brasil. E mudou. Desde o início de nossa trajetória, em 1980, adotamos um novo modo de fazer política que contribuiu de maneira decisiva para ampliar e aprofundar a democracia no país. Crescemos lutando para que os excluídos tivessem voz e vez. Junto com os movimentos mais representativos da sociedade, resistimos ao injusto modelo neoliberal e conseguimos impedir que privatizassem completamente o patrimônio público brasileiro, construído com o sacrifício de gerações. E, a partir de 2003, chegando pelo voto popular ao governo federal, promovemos uma verdadeira – e pacífica – revolução social, que, pela primeira vez, colocou a inclusão dos mais pobres e o combate à desigualdade no centro da agenda nacional, libertando da fome e da miséria 36 milhões de pessoas, e provando que o país podia crescer em benefício de todos.
A contribuição do PT ao país é, pois, concreta, evidente, inegável. Ninguém de boa fé pode deixar de reconhecê-la. Pesquisadores e estudiosos de todo o mundo afirmam que, sem o PT, a história do Brasil pós-ditadura seria incomparavelmente menos democrática e justa. Ao implantar um novo modelo de desenvolvimento, baseado na solidariedade social, e combater com tanto sucesso a pobreza e a exclusão, o PT cumpriu uma notável missão ética e civilizatória, levando a população brasileira a atingir um patamar inédito de dignidade e cidadania.
Por que, então, somos hoje alvo da mais feroz campanha de desmoralização já lançada contra um partido político no Brasil? A quem serve esse verdadeiro massacre político e midiático? Quais são os seus reais objetivos?
É preciso dizer com toda a clareza: o ódio dos conservadores ao PT não é causado por nossos erros políticos, mas por causa dos nossos extraordinários acertos sociais, que contrariaram interesses poderosos e desafiaram preconceitos seculares.
Mas não podemos ignorar que nossas falhas e insuficiências políticas também contribuíram para desgastar a imagem do Partido, que passou a ser visto por muitos como uma legenda igual às outras, em descompasso com a sua história profundamente inovadora e com as expectativas que sempre despertamos na sociedade.
Para corrigir tais falhas, sem abrir mão das enormes conquistas sociais que obtivemos,  e continuar impulsionando o país no rumo  da prosperidade e da justiça, é preciso fazer uma reflexão autocrítica e    enfrentar com humildade e coragem os desafios atuais – como o PT sempre foi capaz de fazer ao longo de sua caminhada.
Essa reflexão deve ser compartilhada não só com a militância petista, mas com os milhões de brasileiros e brasileiras que acreditam na luta por uma sociedade cada vez mais livre, justa e igualitária. Pois, o que está em jogo não é apenas a imagem de um partido, por mais importante que ele seja, mas o direito inalienável que tem o nosso país de continuar avançando no seu projeto de desenvolvimento soberano e sustentável.
A Grande Transformação - Nestes primeiros anos do século XXI, o Brasil despertou a atenção do mundo pela combinação virtuosa de um projeto sustentável de desenvolvimento nacional com um movimento de inclusão social sem precedentes, na vigência da democracia e das liberdades fundamentais. Só muito raramente se consegue que esses três fatores – econômico, social e político – coincidam no tempo das nações, criando oportunidades de progresso material e humano para o conjunto do País, tornando possível realizar sonhos coletivos longamente acalentados.
É, de fato, extraordinário que uma nação marcada secularmente pela desigualdade  e  concentração de renda, pela dependência econômica e por sistemas políticos autoritários e excludentes, tenha conseguido  realizar tudo o que realizamos nos últimos 12 anos. A começar pela mais ética e simbólica de todas as transformações, que foi acabar com a fome em nosso país.
Esse novo Brasil, mais justo e mais democrático, é o resultado de uma grande aliança, liderada pelo PT, que envolveu partidos, movimentos sociais e amplos setores da sociedade num diálogo intenso e permanente.
Pela primeira vez as grandes políticas públicas passaram a ser elaboradas com forte participação cidadã. Os trabalhadores da cidade e do campo, as mulheres, os negros, os indígenas, a intelectualidade, a juventude,  os defensores dos direitos humanos e da diversidade sexual e os ambientalistas assumiram um protagonismo efetivo nas definições de governo, por meio de conferências, conselhos e mesas permanentes de negociação. A sociedade civil deixou de ser mero objeto para tornar-se autêntico sujeito das escolhas do país, trazendo um sopro renovador e criativo para a vida pública.
E, sobretudo, os pobres e os assalariados foram instalados no coração de todas as políticas e ações do governo.
O Brasil que saiu do Mapa da Fome das Nações Unidas é o mesmo Brasil que se tornou uma das maiores economias globais; que dobrou a produção agrícola e se tornou um dos maiores exportadores mundiais de alimentos; que está entre os primeiros na indústria aeronáutica, de automóveis, de petróleo, na indústria química, de cimento, celulose, de vestuário, calçados, bebidas, na siderurgia, entre outros setores; que tem uma das mais sólidas posições em termos de reservas internacionais e se tornou um dos cinco maiores destinos de investimento externo direto no mundo.
É o mesmo Brasil que dobrou para 7 milhões as matrículas nas universidades, adotando as cotas para negros, indígenas e alunos de escolas públicas; que democratizou o acesso ao crédito e garantiu aumento real e constante dos salários; que  criou 21 milhões de empregos formais, que assentou e criou condições para milhões de famílias produzirem no campo. Que começou a corrigir o injustificável desequilíbrio entre as regiões, levando obras de infraestrutura e grandes investimentos produtivos ao Nordeste e ao Norte do país. E que foi capaz de fazer tudo isso recuperando e garantindo a estabilidade econômica.
É um país que despertou a confiança de seu povo e conquistou o respeito internacional. Que passou a praticar, sem arrogância nem subserviência, uma política externa soberana, voltada para a integração latino-americana e caribenha, a cooperação com os povos da África e a parceria com os BRICS, sem prejuízo das suas tradicionais relações com a Europa e a América do Norte.
O PT Contra a Corrupção – A corrupção, tanto privada como pública, é um problema grave para qualquer país e, por isso, deve ser combatida com o máximo rigor, em caráter permanente. Seja no âmbito municipal, estadual ou federal, ela fere um dos princípios básicos da democracia, que é a igualdade de direitos – a  isonomia – entre as empresas, as entidades, os indivíduos.  Deturpa a vida econômica e civil, premiando indevidamente a concorrência desleal, os cartéis e monopólios, em prejuízo do legítimo interesse coletivo. A corrupção é um veneno moral, que degrada as pessoas e contamina a sociedade. Nenhum país conseguiu eliminar completamente a corrupção, mas é  possível – e necessário – reduzir drasticamente essa prática, punindo duramente os que dela se valem, tornando-a cada vez mais difícil e arriscada.
O PT pode se orgulhar também de ter promovido, nesses 12 anos, os mais significativos avanços na adoção de práticas republicanas, de transparência do Estado e de combate à corrupção na esfera pública. Já no primeiro dia de governo, em janeiro de 2003, criamos a Controladoria Geral da União, institucionalizando em nível ministerial a fiscalização sistemática sobre a aplicação de recursos federais.
Adotamos como regra o pregão eletrônico, reduzindo a possibilidade de fraudes em licitações. Criamos o Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspeitas, excluindo dos contratos públicos fornecedores que cometeram ilícitos. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) passou a monitorar movimentações atípicas envolvendo agentes públicos. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), fortalecido por nova legislação, intensificou a atuação no combate aos cartéis.
Criamos o Portal da Transparência, que recebe mais de 1 milhão de consultas por mês e que foi considerado pela ONU uma das cinco melhores práticas de combate à corrupção em todo o mundo. Aprovamos a Lei de Acesso à Informação, que colocou o Brasil entre os países que praticam os mais avançados princípios de governança. Editamos o Decreto 5.497/2005 que reservou para servidores concursados 50% dos cargos no nível DAS-4 e 75% nos níveis DAS-1, DAS-2 e DAS-3, que antes eram de nomeação totalmente livre. Portanto, ao contrário das mentiras difundidas pelos nossos adversários, o governo do PT foi o primeiro a tomar medidas concretas para combater de fato o aparelhamento partidário do Estado.
O Congresso Nacional aprovou, nesse período, a Lei que regulamenta o conflito de interesses no Executivo Federal, coibindo condutas abusivas de servidores; a Lei Anticorrupção, que estabelece penas para empresas corruptoras, e a nova Lei contra organizações criminosas, que regulamenta a chamada delação premiada.
No último dia 16 de março, consolidando esse esforço de 12 anos, a presidenta Dilma Rousseff enviou ao Congresso, com pedido de urgência na votação, o projeto de Lei que pune enriquecimento ilícito de servidores, o projeto que institui a ação de perda de bens obtidos ilegalmente, a extensão do critério da Ficha Limpa às nomeações para cargos de confiança nos três Poderes e o projeto que criminaliza a prática de caixa dois nas eleições.
Nosso compromisso de combater a corrupção nunca foi abstrato. Afirmamos, na prática, o princípio constitucional da autonomia do Ministério Público, respeitando as indicações para o cargo de Procurador-Geral da República definidas nas eleições da Associação Nacional do Ministério Público. Recorde-se que o Procurador-Geral do governo do PSDB arquivou 217 inquéritos criminais envolvendo autoridades e engavetou outros 242, de um total de 626 denúncias recebidas. Por isso era chamado, com toda razão, de engavetador-geral da República.
Ao contrário do que se fazia anteriormente, passamos a escolher a direção do Departamento de Polícia Federal por critério de mérito. Além de garantir a sua autonomia, nosso governo aumentou significativamente o orçamento da PF, ampliou o quadro de agentes e delegados, investiu em melhores salários e novos equipamentos. Criamos as delegacias especializadas no combate à corrupção e desvio de recursos públicos, que já são 17 em todo o país.
Nenhuma análise objetiva, isenta de sectarismo partidário, deixará de constatar que esse conjunto de medidas de controle e transparência, implantado pelos governos do PT, cria fortes obstáculos para o desvio de recursos públicos.
Mas não podemos deixar de fazer a nós mesmo uma pergunta crucial: se fomos tão ousados e determinados para acabar com a fome, reduzir fortemente a pobreza e as desigualdades sociais e regionais, gerar milhões de empregos, fortalecer de modo tão evidente o controle a transparência na administração pública federal – por que não tivemos a mesma ousadia e determinação para reformar o sistema político brasileiro, como reivindica a maioria da população, e estabelecer novos padrões de conduta na vida pública do país?
Reformar a Política brasileira sempre foi um compromisso programático do PT. Sempre sustentamos que é preciso corrigir antigas e notórias distorções do sistema partidário e eleitoral, para que ele se torne mais ético e representativo da sociedade, e também mais aberto à participação cidadã. Ao longo da sua história, como se sabe, o PT fez diversas tentativas nesse sentido, em parceria com outros partidos progressistas, entidades da sociedade civil e movimentos sociais. Em 2004, por exemplo, apresentamos no Congresso Nacional um conjunto de propostas com este objetivo– entre elas, o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais – que conseguimos levar a votação em 2006, mas foi derrotado pela maioria dos partidos.
A verdade, no entanto, é que, não tendo conseguido mudar o sistema político, acabamos por nos adaptar a ele, passando a reproduzir os comportamentos dos partidos tradicionais que tanto criticamos.
Financiamento empresarial, a raiz do mal - Apesar de previsto na legislação e, portanto, praticado legalmente por todos os partidos, o financiamento empresarial é danoso à independência e à lisura da atividade política.
Não é porque todos os partidos, sem exceção, o praticam que ele se torna menos nocivo, principalmente a partidos como o nosso, que nasceram para lutar não só pela justiça social, mas também por uma política mais limpa e digna.
A Lei 9.504 de 1997, que eliminou todos os limites para as contribuições de empresas, escancarou as portas dos partidos para a influência do poder econômico. Ela foi aprovada num Congresso dominado pela base do governo de então – o PSDB e o atual DEM – na mesma época em que a Constituição foi alterada para permitir a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O financiamento empresarial propiciou que as campanhas se tornassem cada vez mais caras e sofisticadas, o que por si só é uma distorção antidemocrática. Nesse contexto, o financiamento de campanhas tornou-se elemento central das relações entre partidos, especialmente na formação de acordos e coligações entre as maiores legendas e seus aliados.
 A raiz do mal já poderia ter sido extirpada, desde 2014, se tivesse sido respeitada a vontade dos seis ministros do Supremo Tribunal Federal que votaram pela inconstitucionalidade do financiamento empresarial, em ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil. O entendimento da maioria, no entanto, foi sobrestado pelo pedido de vistas de um único ministro, que vem manobrando declaradamente há mais de um ano para manter o status quo.
Mesmo combatendo o financiamento empresarial, nos debates públicos e no Congresso, o PT praticou, nos últimos anos, o que a legislação permite. Recebemos contribuições de empresas, dentro da lei, e fizemos campanhas caras, tão caras quanto as dos demais partidos, que nos criticam de maneira hipócrita.
Basta tomar o exemplo das empresas investigadas na chamada Operação Lava-jato. Nas eleições de 2014, o conjunto dessas 16 empresas fez contribuições a 19 partidos diferentes, no valor total de R$ 222 milhões. Os valores destinados ao PT e ao PSDB são muito semelhantes: R$ 56 milhões e R$ 54 milhões, respectivamente.         
Um partido diferente, como o PT sempre foi, não pode continuar acomodado a esta situação. Publicamente e no Congresso Nacional, propomos o financiamento público exclusivo das campanhas. Mas, enquanto ele não se viabiliza, ou até que não se vede o financiamento empresarial, temos de agir, mais uma vez, com ousadia e coragem. Trata-se de repudiar concretamente o rebaixamento da política pelo financiamento empresarial. Dar o exemplo, que é o mais forte dos argumentos, na política e na vida. Por isso, estamos propondo que, a partir de agora, as instâncias do PT não mais aceitem contribuições de empresas para sua sustentação.
Essa é uma decisão difícil de ser tomada por um grande partido, especialmente quando ele tem a responsabilidade de defender um projeto histórico de transformação do país. Mas é um passo necessário, que vai nos diferenciar novamente das estruturas viciadas que sempre criticamos, do sistema político que o PT nasceu para modificar. Nós sabemos que só vale a pena fazer política de cabeça erguida, e isso implica em romper com uma prática que a sociedade já condenou.
Por isso propomos ao Diretório Nacional:
- Suspender, imediatamente, o recebimento de qualquer tipo de contribuição de empresas; 
- Levar essa proposta a debate e deliberação no V Congresso do PT;
- Conclamar os partidos aliados a se unirem ao PT nessa opção;
- Fortalecer ainda mais a mobilização política e social por uma reforma política que estabeleça o financiamento público exclusivo das campanhas eleitorais.
A partir desse exemplo, estaremos contribuindo para recuperar a credibilidade da Política como agente de mudança social.  Estaremos dizendo ao nosso povo que é possível mudar e melhorar a política, ao invés de simplesmente negá-la como fazem os manipuladores e os autoritários.
E estaremos dando um passo importante para revigorar internamente o PT, pois o financiamento empresarial foi a porta de entrada no partido de muitos desvios da política tradicional, que tanto criticamos.
A concentração quase exclusiva da atividade partidária na disputa político-eleitoral-institucional  acarretou um duplo desvio. Primeiro, abriu um imenso vazio teórico, de análise, reflexões e iniciativas sobre o que vem acontecendo no Brasil e no mundo. Segundo, porque a conquista de votos não tem se misturado à luta de massas, de tal sorte que se possam criar condições de construir uma força política organizada e estável, um verdadeiro bloco histórico capaz de inverter a correlação desfavorável na sociedade e de impulsionar mudanças estruturais.
É preciso mudar o PT para continuar mudando o Brasil.
A tentativa de criminalizar o PT - Há quase dez anos as elites conservadoras tentam arbitrariamente criminalizar o PT e seus legítimos governos, desrespeitando o que existe de mais sagrado na democracia – o voto popular e o Estado de Direito.
Quando ganhamos pela primeira vez as eleições presidenciais, em 2002, as oligarquias dominantes tentaram inicialmente nos cooptar para a sua fracassada agenda neoliberal. Queriam domesticar o nosso partido para que ele não cumprisse os seus compromissos de vida com os trabalhadores e os pobres, e se limitasse a gerir sem mudar uma das sociedades mais cruéis e injustas do planeta. Queriam fazer conosco o que já tinham feito com governos anteriores, impondo ao país, por meio de seus monopólios de comunicação, a agenda antipopular e antinacional rejeitada nas urnas.
Não puderam deixar de reconhecer, naturalmente, a seriedade e a capacidade de sacrifício com que enfrentamos a crise herdada dos governos tucanos, debelando a inflação de dois dígitos e o descontrole fiscal que havia elevado a dívida pública a 62% do PIB. Mas quando dissemos, no final de 2004, ao livrar o país da tutela do FMI, que o necessário rigor fiscal e monetário não era incompatível com desenvolvimento, geração de empregos, aumentos salariais, distribuição de renda e inclusão social, começaram a voltar-se contra nós.
Quando perceberam que o Estado, sob a nossa liderança, não serviria mais unicamente aos privilegiados, e sim a toda a população, sobretudo aos mais carentes, e que as elites deixariam de se beneficiar com exclusividade dos fundos públicos, desencadearam contra o PT e o governo federal uma verdadeira campanha de cerco e aniquilamento que agora se intensifica.
Incapazes de nos derrotar nas urnas, os eternos “donos do poder” – na expressão lapidar do grande jurista Raymundo Faoro – apelaram para campanhas de desmoralização e intimidação, como haviam feito com Getúlio Vargas, em 1954; em 1955, com Juscelino Kubitschek – de quem diziam: “JK não pode ser candidato; se for, não pode ser eleito; se eleito, não pode tomar posse; se empossado, não pode governar” – e, em 1964, com João Goulart, quando mergulharam o País nas trevas da ditadura civil-militar.
Campanhas urdidas e coordenadas em nível de estado maior pelas classes dominantes tanto foram exitosas no Brasil como lá fora. Seja para destruir governos democráticos, seja para proscrever partidos de esquerda ou para censurar ideias e movimentos progressistas. Ainda de memória recente, embora do século passado, a odiosa praga do macarthismo nos Estados Unidos e o forjado incêndio do Reichstag, na Alemanha dos anos 1930, que abriu caminho para a ascensão de Hitler.
Com método, obstinação e grandes recursos midiáticos, as classes dominantes transformam o boato em notícia, a suspeita em denúncia, a calúnia em verdade. Hierarquizam calculadamente o noticiário, destacando e apresentando de forma escandalosa os desvios imputados a pessoas do nosso partido, não importando que sejam reais ou inventados. Omitem ou escondem, seletivamente, as denúncias contra os partidos que os servem, por mais graves que sejam. Tentam cobrir o PT com a lama de sua hipocrisia.
Aqueles que sempre se beneficiaram das distorções do sistema e que construíram sua riqueza e poder à sombra da ditadura, passaram a nos atribuir todas as mazelas crônicas da política brasileira. Quando descobriam que nosso Partido é sério, mas não é domesticável, colocaram o PT, e só o PT, no banco dos réus. Mesmo que para isso tenha sido necessário torturar os fatos, violar a jurisprudência e afrontar a consciência jurídica do país, como ocorreu em vários momentos da Ação Penal 470.
Nenhum outro partido sofreu uma campanha de desmoralização tão furiosa quanto a que se fez contra o PT ao longo daquela ação penal.  Nada se fez, minimamente comparável, em relação a escândalos como a corrupção nas obras do Metrô nos governos do PSDB de São Paulo, ou do desvio de dinheiro público para campanhas eleitorais do PSDB e do DEM na Lista de Furnas e nos chamados mensalões de Minas e do Distrito Federal.
Em 2005, acharam que bastaria fazer-nos “sangrar até morrer” e que, assim, o poder voltaria naturalmente a suas mãos. Estavam convencidos de que o sonho de um governo popular no país seria algo passageiro e irrelevante.
A ação penal 470 foi utilizada, ao longo de quase sete anos, para desgastar a imagem do PT e tentar criminalizá-lo. O julgamento daquela ação ocorreu  com inédita pressão da mídia sobre os membros do STF e a  prevalência de aberrações jurídicas como a aplicação da tese do “domínio do fato”, repelida pelo seu próprio autor, o jurista alemão Cal Roxin. Desde então, tornou-se desnecessário apresentar provas ou garantir o contraditório, quando se trata de apontar o dedo contra o PT.
Foi nesse ambiente de arbitrariedade que o PT e o nosso governo tornaram-se alvos políticos da chamada Operação Lava-Jato. Conduzida por agentes do Estado que sequer disfarçam seu engajamento partidário, essa operação avançou pela trilha de violência jurídica aberta no julgamento da AP 470. Criminosos apanhados numa rede de evasão fiscal e lavagem de dinheiro – há muito conhecida pelo Judiciário e pelo Ministério Público do Paraná – são premiados com privilégios penais e até financeiros, em troca de depoimentos que possam incriminar o PT e o governo. Bandidos reincidentes são transformados em heróis, fazendo acusações sem provas, bastando que apontem para o PT e o governo.
É essencial para o país investigar desvios na Petrobras – e em qualquer outro setor – e punir com rigor quem os tenha comprovadamente cometido. Mas fica cada dia mais evidente o proveito político-partidário a que a investigação tem servido. Por que razão elas não se estendem às conexões do esquema com políticos e governos da oposição – que são muitas e notórias. Por que o vazamento seletivo de depoimentos capazes de manchar o PT, e tão somente o PT?
A transformação de um processo em espetáculo de mídia, o constrangimento que se tenta impor ao direito de defesa, a abolição do princípio da presunção de inocência e as arbitrariedades cometidas, supostamente em nome do combate à corrupção, constituem uma ameaça não ao PT, mas à consciência jurídica da Nação. Estamos assistindo ao nascimento de um estado de exceção dentro do estado de direito, e contra isso o PT lutará, ao lado das forças democráticas da sociedade.”