"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Tchau Pinzón!


Boa notícia a saída de Pinzón do Ministério de Defesa. Foram vários meses reivindicando sua demissão. Era um francoatirador da ultra direita fascista contra o processo de paz. Agora, sim, podemos dizer que a paz vai por muito bom caminho. Que bom descanso.


Em minha terra –o Quindío- há um sábio ditado popular que me vem à memória. O mesmo diz que “com tal de que se vá, ainda que lhe vá bem”. Cai como um anel ao dedo para o evento que propicia estes comentários a saída do senhor Pinzón do Ministério de Defesa.


Tchau Pinzón, oxalá termine bem longe, para que não continue estorvando o processo de paz, tal como o fez ao longo dos Diálogos de Havana nos últimos 30 meses.


Seu discurso e sua gestão à frente dos assuntos militares é muito mais um caso de travestismo político deliberado. Entendê-lo implica recorrer à caixa de ferramentas lacaniana. Por sua boca se expressava a alma ultrarrecionária e uribista do próprio Santos. Essa figura ambígua é própria da personalidade oportunista dos políticos burgueses acostumados à cilada e à traição. Ademais de ser um mitomaníaco consumado. Um que come até seus próprios embustes.


Nada em Pinzón era de sua própria colheita, seu chefe tudo induzia na Casa de Nariño. O objetivo era confundir a tropa com o discurso paramilitar do cavaleiro de San Antonio de Pereira. Porém este, mais astuto, conservou e mantém seus enclaves no aparato militar governamental.


Era um jogo como a trinta bandos. Porém se necessitou do de Buenos Aires/Cauca para que Santos entendesse que as coisas da paz ou da guerra há que levá-las com seriedade.


É o valor dos denominados “acontecimentos verdade” tão bem elaborados pelo filósofo maoísta francês Alain Badiou.


Depois do mesmo, nos salões presidenciais entenderam que urgia deixar os jogos e as artimanhas.


Posteriormente, se encontram as chefias das guerrilhas revolucionárias em Havana para aprofundar a estratégia da paz democrática e com justiça social; não vai mais o veneno gringo contra a coca [oxalá descartem a praga do Fracking que em Ecopetrol e na Agência Naciional de Hidrocarbonetos promovem] e agora excluem do quadro político imediato o tagarela que intoxicava com sua contaminada verborragia o difícil processo de paz.


Oxalá entendam que os meios de comunicação da oligarquia perturbam a paz e seus progressos, com suas mentiras e montagens midiáticas. Democratizar a imprensa, a televisão e a rádio é um imperativo.


Oxalá também entendam que depurar os aparatos militares de tantos indivíduos fascistas e paramilitar é inexorável.


Oxalá entendam que mais corrupção da casta politiqueira e mais neoliberalismo como o do Plano de Desenvolvimento dinamitam gravemente as possibilidades de uma Colômbia em paz no curto prazo.


Com a saída de Pinzón, se vê a paz mais certa. São os atos que uma opinião pública e uma sociedade cansada da violência dos poderosos reclamam.


Encerro assinalando que talvez a saída de Pinzón se possa explicar como outra cortina de fumaça das que costuma o senhor Santos. Neste caso se trata de desviar a atenção a respeito da terrível tragédia dos mineiros de Riosucio e da calamidade de Salgar/Antioquia. Todos estes mortos não são mais que a consequência da corruptela da marmelada santista e do neoliberalismo do plano de Desenvolvimento.
Nota 1. Os índios Sikuani, quase 30 mil, de Puerto Gaitan/Meta, estão protagonizando um levantamento social contra Pacific Rubiales nos campos Rubiales e Quifa. São vítimas da violência paramilitar patrocinada por essa corporação dos hidrocarbonetos em associação com o senhor Bolaños, um cacique santo-uribista que saqueia as Prefeituras de Gaitan e Acacias. É o novo mandachuva da região. Apoiamos a rebelião indígena.
Nota 2. Morreu em Armenia Jairo Cardona, líde do magistério e um revolucionário íntegro. Paz em sua tumba e solidariedade com sua família e camaradas.

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Equipe ANNCOL - Brasil

Notícias que comovem e notícias que indignam


Quando a paz avança com algum ímpeto renovador, começam a manifestar-se as renovadas imputações contra a insurgência, as mais descaradas provocações.
 
Notícias há que comovem e despertam inconformidade. A tragédia dos mineiros de Riosucio, Caldas, encurralados por uma repentina intromissão das águas do rio Cauca nos socavões onde trabalhavam buscando ouro, tem algo em comum com a desgraça das famílias da zona rural de Salgar em Antioquia, afetadas à meia-noite por uma avalanche da quebrada La Liboriana. As vítimas de uma e outra são gente humilde, que sobrevive em angustiantes condições.
 
Mineiros e campesinos pobres que morrem por obra de um aparente infortúnio e que talvez sirvam para que os nomes de entidades e funcionários públicos encarregados de fornecer socorro se exibam e apareçam na mídia como os grandes salvadores, são, na realidade, produtos da iniquidade e da injustiça dominantes. Seres humanos condenados a rebuscar-se à intempérie seu sustento e o de suas famílias, são produtos da ordem social imperante, vítimas sem defensores do capitalismo selvagem.
 
Os kits de alimentação e higiene básica que fornecem a seus enfermos, ou as somas que o Estado destina ao pagamento das exéquias de seus seres queridos perdidos para sempre, até a anunciada inclusão no programa de casas gratuitas, não conseguem representar sequer panos de água morna para os graves problemas que põe a descoberto a adversidade noticiada. O problema é outro, o modelo econômico, as expectativas da grande mineração empresarial.
 
Assuntos a cuja simples menção o governo nacional se opõe radicalmente na Mesa de Conversações pela paz. É melhor dramatizar com as cenas trágicas da menina arrebatada das mãos de seu pai por obra da terrível corrente, enquanto sua mãe apareceu cinco quilômetros abaixo capturada entre o lodo. Isso move a dor e lágrimas, a coletas públicas. A pensar na má sorte e na vontade de Deus. A esquecer as verdadeiras causas.
 
Nos doem as angústias e as tristezas do povo colombiano, nos dilaceram no mais profundo da alma seus sofrimentos. Estendemos a todos os afetados por essas cruéis fatalidades nosso abraço solidário. Estamos perfeitamente convictos das razões pelas quais suas vidas e as de milhões de compatriotas em iguais ou piores condições estão permanentemente expostas. Para combatê-las, nos levantamos em armas já há 51 anos, após o ataque a Marquetalia.
 
Desde então, nos convertemos em objetos do ódio e da perfídia por parte dos grandes poderes. Disseram tudo de nós, nos acusaram de quanto crime e perversidade se possa conceber. Se nunca puderam nos aniquilar não foi por falta de vontade, todo o peso da força e da brutalidade estatal caiu nas mais diversas formas contra nós outros. Persistimos porque nossa causa continua sendo válida e justa, e porque um grande caudal humano nos apoia.
 
Os esforços por alcançar uma solução pacífica e civilizada ao conflito interno fazem parte de nosso arsenal e das aspirações das grandes maiorias colombianas vitimizadas e opostas às vias da violência e da guerra, empregadas como resposta secular a seus legítimos clamores. A paz nunca foi bandeira da oligarquia no poder, nem das grandes potências saqueadoras e agressivas. A paz tem sido sempre a bandeira dos povos que clamam por justiça.
 
É por isso que quando a paz avança com algum ímpeto renovador, quando o processo de busca da solução política arrasta atrás de si conteúdos novos não contemplados nas grandes alturas, começam a se manifestar os barulhentos desacordos, as calúnias de toda ordem contra as conversações, as renovadas imputações contra a insurgência, as mais descaradas provocações cujo objetivo é lançar tudo para baixo para que continue a guerra infinita.
 
Desde há um par de dias se converteu em notícia um suposto adestramento por parte das FARC de bandos criminosos mexicanos. Nenhum grande meio de comunicação colombiano deixou de destacar em grandes manchetes de primeira página a mentira, lançada a circular pela revista Progreso, do México, a qual respalda sua informação em supostas fontes anônimas de agências de inteligência dos Estados Unidos. Como quem diz, nada sério, aventureirismo total.
 
Maliciosamente, com o propósito de demonstrar sua imparcialidade e boa-fé, a grande imprensa publica no dia seguinte em suas páginas a informação segundo a qual as relações das FARC com os cartéis mexicanos podem existir tratando-se de tráfico de armas e de drogas, porém não no campo do treinamento militar. Isso de acordo com expertos consultados pela agência EFE, que nos absolvem em questão de adestramento militar, porém nos condenam como traficantes.
 
Outra demonstração mais da velha prática de lançar temas e difamações à espera de oportunistas prontos a recolhê-los e reproduzi-las com suas doses particulares de veneno. Assim funcionam os interesses do grande capital no mundo. Enquanto recebem como herói em Espanha ao general Al Sisi, sangrento ditador egípcio responsável por múltiplos crimes de humanidade, se denigre sem compaixão a Nicolás Maduro como um inimigo da democracia.
 
Unicamente porque o primeiro é fiel aliado de Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel na geopolítica do Oriente Médio, enquanto o segundo é líder indiscutível do povo de Venezuela, decidido a materializar o legado ideológico e político do Presidente Chávez. Não é raro que a grande imprensa mundial reproduza hoje que a Promotoria Geral dos USA investiga Diosdado Cabello por narcotráfico; se trata do mesmo roteiro empregado contra nós outros.
 
Enquanto o embaixador norte-americano Whitaker manifesta seu respaldo total ao governo colombiano e põe de presente as excelentes relações de seu governo com o ex-Presidente e senador Álvaro Uribe, as agências de inteligência estadunidenses se empenham em desprestigiar uma vez mais as FARC, para o qual contam com os grandes meios de comunicação, raivosos defensores da liberdade de imprensa, ou melhor, de empresa, como dissera acertadamente o Professor Renán Vega.
 
São os verdadeiros interesses ocultos por trás do processo de paz de Havana.
 
Montanhas de Colômbia, maio de 2015

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Equipe ANNCOL - Brasil

sábado, 23 de maio de 2015

FARC suspendem cessar-fogo unilateral


 Comunicado
 
Não estava em nossa perspectiva a suspensão da determinação do cessar-fogo unilateral e por tempo indeterminado proclamado a 20 de dezembro de 2014 como um gesto humanitário e de desescalada do conflito, porém a incoerência do governo Santos conseguiu isso, depois de 5 meses de ofensivas terrestres e aéreas contra nossas estruturas em todo o país.
 
Deploramos o ataque conjunto da Força Aérea, do exército e da polícia executado na madrugada da quinta-feira contra um acampamento da 29ª Frente das FARC em Guapi [Cauca], no qual, segundo fontes oficiais, foram assassinados 26 guerrilheiros.
 
Nos doem igualmente as mortes de guerrilheiros e soldados, filhos de um mesmo povo e procedentes de famílias pobres. Devemos parar este dessangramento.
 
Contra nossa vontade, temos que prosseguir o diálogo em meio à confrontação. Ainda que Santos anuncia que manterá a ofensiva, insistiremos na necessidade de acordar o quanto antes, para a saúde do processo de paz e evitar novas vitimizações, o cessar-fogo bilateral que com tanta insistência as maiorias nacionais têm reivindicado.
 
Agradecemos o trabalho de seguimento e verificação do cessar-fogo unilateral que durante cinco meses a Frente Ampla pela Paz e o movimento social e político da Colômbia realizaram.


Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP
Montanhas de Colômbia, 22 de maio de 2015


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Equipe ANNCOL - Brasil


sexta-feira, 22 de maio de 2015

O machado de guerra, o anzol da paz e os crápulas transparentes. Venezuela e Colômbia, dois processos relacionados na estratégia regional do Império.

Por Jorge Beinstein


Seria equivocado subestimar as especificidades dos casos colombiano e venezuelano, porém também seria grave limitar-nos às tramas nacionais ou dotá-las de uma autonomia excessiva. Muito se escreveu acerca da globalização do capitalismo às vezes para diluí-lo em uma dinâmica supranacional desconcertante, porém em certos casos com um resultado oposto onde o global aparece como uma referência abstracta, indescritível ou bem operando como uma força exógena misteriosa sobre o aparentemente “concreto” ou “tangível”, o que está ao alcance da mão, tão complicado e “nacional” que apenas pode ser entendido pelos que estão submersos nessa realidade. Então, se exagera o nível de poder real das oligarquias e máfias locais, de suas supostas fracções “reaccionárias” ou “civilizadas”, de suas contradições em países onde, como na Colômbia, estão instaladas bases militares do Império ou onde, como na Colômbia e Venezuela, proliferam os negócios transnacionalizados financeiros, mediáticos, narcos, comerciais, etc. e onde importantes sectores altos e médios sociais são, a partir do ponto de vista político-cultural, simples prolongamentos coloniais da sociedade estadunidense.

Actualmente, os Estados Unidos implantam uma guerra global cujo fracasso significaria o fim do Império. A lógica da reprodução do parasitismo norte-americano leva a superpotência a uma multiplicação de ofensivas à escala planetária, destinadas a quebrar os obstáculos que freiam seu projecto de superexploração devastadora dos recursos naturais e humanos do conjunto da periferia. Os dirigentes do Império consideram que essa pilhagem desaceleraria a decadência em curso, impediria o colapso do dólar, baixaria drasticamente os custos de mercadorias e salários coloniais engordando os benefícios de suas empresas, sustentando seus mercados internos cada vez mais concentrados.

A América Latina e o Caribe constituem um espaço decisivo do dito projecto. Sua recolonização integral é a peça chave de uma ofensiva planetária cuja implantação na região abarca uma ampla gama de operações convergentes. Trata-se de uma mega estratégia flexível que inclui as desestabilizações de média intensidade no Brasil e Argentina, a intervenção directa encoberta na Colômbia, os golpes de estado em Honduras ou Paraguai, a tentativa de desestabilização de alta intensidade apontando para a intervenção militar na Venezuela, o ensaio de “abraço-de-urso” buscando desarticular Cuba, a instalação de bases militares avançadas no Peru, etc. O objectivo final é a transformação do quintal latino-americano em uma região caótica, sem barreiras estatais nem rebeldias significativas a sua dominação.

A exacerbação das intervenções imperialistas coincide com (busca aproveitar o) declínio dos governos progressistas cujas dificuldades abrem brechas que facilitam essas investidas. O aprofundamento da crise global impacta sobre a América Latina. As altas taxas de crescimento económico ficaram no passado, as contradições sociais se aprofundam e colocam em xeque os equilíbrios progressistas que demonstram sua fragilidade. Um bom exemplo disso é o Brasil, onde o governo direitiza sua política sem conseguir acalmar o apetite das elites e das classes médias reaccionárias cada vez mais reaccionárias que buscam o revanchismo, apontando para a hiperconcentração de renda e submissão integral dos pobres.
 
É dentro desse contexto global-regional que devem ser situadas as operações imperiais em curso sobre a Colômbia e a Venezuela.

 
O machado de guerra

A Venezuela aparece como o objectivo central do capítulo da guerra energética global dos Estados Unidos. A república bolivariana conta com 20% das reservas mundiais de petróleo convencional, o primeiro global. A confrontação deste fato com a informação sobre as reservas limitadas e declinantes em médio prazo do petróleo convencional e de xisto nos Estados Unidos bastaria para medir a urgência do Império em devorar esse bocado. A propaganda acerca das supostas imensas reservas norte-americanas de petróleo de xisto terminou por se chocar com a dura realidade: recentemente a Agência de Energia dos Estados Unidos deu a conhecer que antes do fim da década actual a produção norte-americana de petróleo de xisto chegará a seu nível máximo depois do qual começará a decair. Na realidade, a crise desse sector já começou impulsionada pela baixa do preço que reduziu sensivelmente seus benefícios (fazendo-os negativos em um número crescente de casos).

Porém, não se trata apenas de petróleo, em que pese a demonização mediática internacional do processo venezuelano. O mesmo continua operando como um incentivo importante para os movimentos populares da região, para os comportamentos estatais independentes a respeito da dominação estadunidense. Apesar do falecimento de Chávez, a Venezuela segue sendo uma peça decisiva de articulações rebeldes ante o poder imperial, como ALBA e outras iniciativas regionais, e para outros espaços da periferia.

A “Ordem Executiva” de Obama contra a Venezuela declarando-a uma “ameaça extraordinária” à segurança nacional dos Estados Unidos não é um exercício retórico, mas um passo decisivo de uma ofensiva que busca intimidar o governo e as forças armadas venezuelanas, alentar a oposição, mobilizando seus grupos conspirativos mais radicais. Com essa decisão, Washington dá um salto qualitativo na deslegitimação do estado venezuelano ante o Ocidente, abrindo dessa maneira um capítulo de intervenções directas e clandestinas, de reconhecimento legal ou, de fato, de “representantes da oposição”, de apoio a possíveis levantes armados, a uma agressão do exército colombiano, etc., ou seja, a cenários conhecidos em outros lugares da periferia como a Síria ou a Líbia. Essa é a linha de ação principal.

Não faltam funcionários de governos progressistas latino-americanos e, inclusive, do próprio governo venezuelano que estão propensos a ver o lado moderado da tormenta, supondo que a declaração imperial tende bem mais a pressionar a Venezuela que empurrá-la astutamente para a direita, buscando a instalação de um “governo de unidade nacional” (mistura pragmática de chavistas razoáveis e opositores conciliadores), de amigo ou menos inimigo dos Estados Unidos. Na realidade, essa ilusão também constitui a estratégia estadunidense golpeando por um lado e oferecendo, ao mesmo tempo, uma saída pacífica tentando assim abrandar o campo inimigo, criar fissuras e deserções. O jogo constitui parte do manual para principiantes em guerras coloniais.

Washington sabe muito bem que, a longo prazo, não existe alternativa suave para a Venezuela, qualquer direitização brutal ou gradual geraria uma concentração de renda acompanhada inevitavelmente por revanches sociais das classes subalternas que, automaticamente, faria eclodir rebeliões populares. O processo bolivariano não trouxe a transição socialista prometida, não quebrou a espinha dorsal do capitalismo (partida essencial do caminho pós-capitalista), se atolou em uma confusa e interminável “transição” para a transição anunciada. Porém, o fez oferecendo numerosas conquistas sociais, mobilizando os de baixo, enchendo suas cabeças de esperanças, forjando identidade popular, auto-estima dos humildes. Isso não se pode apagar facilmente.

Assim como existe na Venezuela um fascismo maciço nas classes médias e altas, que apenas se forma com uma contra-revolução sangrenta, também existe um chavismo profundo nas classes baixas que aprenderam a odiar o capitalismo, os Estados Unidos, e que sabe lutar. O chavismo não esmagou o país burguês impondo o país popular e socialista. O resultado de sua condução desordenada foi a criação de dois países incompatíveis entre si.

Para Washington trata-se de conquistar a Venezuela, nem mais nem menos, não para instaurar uma nova ordem colonial, mas para parasitar livremente sobre o caos, para saquear riquezas navegando em meio da desarticulação violenta de uma sociedade estrategicamente submetida. Para visualizar o futuro venezuelano desejado por Washington não basta ler os velhos textos sobre a ascensão do fascismo na Itália ou dos neofascismos militares mais recentes na América Latina. É preciso olhar firmemente para o Iraque ou a Líbia.


O anzol da paz

Uma peça chave na conquista da Venezuela é o exército colombiano, a força armada regular com maior experiência de combate da região, 460 mil pessoas (incluindo as três armas mais a polícia nacional). De longe é o maior aliado militar dos Estados Unidos na América Latina, útil tanto para a realização de incursões rápidas como para uma invasão em grande escala e como aparato de apoio a uma guerra prolongada na Venezuela. É necessário acrescentar a estas forças profissionais várias dezenas de milhares de paramilitares imediatamente operativos ou de fácil recrutamento.

Porém, essa força agressiva potencial está imóvel no território colombiano por uma insurgência que não pode ser dobrada após meio século de repressão e que no caso de guerra civil ou de invasão à Venezuela poderia converter-se no núcleo principal de uma estendida guerra popular abarcando ambos os países ou pelo menos em um aliado estratégico decisivo dos combatentes venezuelanos. Para os estrategistas do Império, tirar da cena regional essa insurgência é um objectivo prioritário. Como não puderam fazê-lo pela via militar tentam agora conseguir através de um complexo operativo envolvente de pressões directas e indirectas e de ofertas tentadoras combinadas com a ameaça (e a prática) permanente do porrete bélico. Tentando converter a crescente debilidade (e decrescente legitimidade) do regime colombiano em uma sorte de armadilha letal colocada aos pés da insurgência, “permitindo” sua extensão (tendendo para o excesso de extensão) política mais ou menos legal com a finalidade de criar ataduras sistémicas de todo tipo (institucionais, políticas, ideológicas, sociais, etc.) que a impeçam sair da rota do apaziguamento. À trama local soma-se um não menos confuso jogo de pressões regionais e extra-regionais mais ou menos “amistosas” completando o cerco psicológico. Apaziguar, deslocar, dormir, penetrar esse factor perturbador extremamente perigoso é a obsessão desses manipuladores de alto voo. A estratégia tem algo de ciência e algo de póquer porque se baseia principalmente na capacidade (difícil de medir) de absorção (de degradação politiqueira) do regime colombiano, cuja evolução se articula cada vez mais em torno de duas dinâmicas inter-relacionadas que podem ser maquiadas, adornadas com garantias democráticas ilusórias, porém não eliminadas já que constituem o núcleo duro, sobredeterminante da reprodução do sistema, de sua inserção no capitalismo global.

Em primeiro lugar, o aparato militar cujo sobredimensionamento com relação à sociedade colombiana corresponde à longa guerra interna da qual foi protagonista, mas também à vinculação-dependência do aparato militar norte-americano e suas estratégias coloniais. Atravessado por negócios mafiosos próprios e laços directos com o império, dispõe de significativas margens de autonomia das camarilhas burguesas locais, com as quais compartilha interesses. Não é segredo para ninguém que os Estados Unidos contam com as forças armadas da Colômbia para suas futuras operações militares regionais e extra-regionais. Somente um progressista iludido pode acreditar que o Império e seus lacaios locais podem aceitar pacificamente a democratização e redução significativa dessa estrutura criminosa.

Em segundo lugar, a crescente hegemonia económica na Colômbia do complexo agrário-minerador exportador (agricultura quase sem camponeses e mineração ultraextrativista), que expulsa a população e destrói o meio ambiente, o modelo se impõe à lógica global do capitalismo, de seus polos imperialistas (decadentes, porém poderosos) decididos a saquear os recursos naturais da periferia.

A eliminação ou subordinação democrática desse núcleo duro equivaleria em termos concretos à quebra da espinha dorsal do capitalismo colombiano. Custa acreditar que os donos do sistema se resignem a perdê-lo enquanto o Império exacerba sua guerra planetária.

 
Os crápulas transparentes

Os Estados Unidos expandem sua presença militar pela América Latina secundado por seus aliados da OTAN.

Vejamos algumas notícias recentes. No Paraguai, acaba de desembarcar um contingente de especialistas em inteligência militar, segundo o informado pelo governo desse país, que se somam a um número desconhecido de “assessores” norte-americanos formais e de mercenários de origem diversa (1). Em Honduras (na base de Palmerola), os Estados Unidos decidiram pela instalação da denominada “Força Tarefa de Propósito Especial Ar-Terra de Marines-Sul” que, dotada da mais alta tecnologia, estará em condições de operar rapidamente em qualquer zona da região considerada “em situação de crise” (2). Durante 2015, 3.200 marines norte-americanos estão chegando ao Peru prolongando as tarefas de apoio que já vinham realizando destinadas, segundo a informação oficial… “a combater as ameaças insurgentes” (3).

Com relação à dupla Colômbia-Venezuela, as notícias não podem ser mais claras. Em começos deste ano foi anunciada a instalação no departamento de La Guajira, fronteira com a Venezuela (próximo de Maracaibo), de uma unidade blindada capaz de deslocar-se rapidamente, chamada “Força Tarefa de Armas Combinadas Médias” (FUTAM). A nova unidade militar disporá de blindados de última geração, segundo a publicação especializada “defesa.com”. No ato oficial de entrega dos mesmos, o ministro de defesa da Colômbia, Juan Carlos Pinzón, “referindo-se a um cenário futuro de pós-conflito ante a possibilidade de chegar a paz com a guerrilha das FARC, ressaltou que as Forças Armadas da Colômbia ‘estão hoje com capacidade de interoperar com outras do mundo, especialmente com as de outros países com status internacionais e com missões que busquem garantir a paz global’…”. Os “outros países” são, em primeiro lugar, os Estados Unidos e seus sócios da OTAN & Cia que “garantem a paz” (?) com suas guerras na Líbia, Iraque, Afeganistão, Iémen, Síria, Palestina, Ucrânia…

Isto coincide com o ocorrido na “mesa de especialistas” convocada pelo ministro Pinzón sobre o tema do futuro das forças armadas colombianas, onde Mary Beth Long, ex-subsecretária de Defesa dos Estados Unidos, assinalou que “os militares (colombianos) estão estudando outras ameaças na região que podem representar seus vizinhos, como Venezuela, e preparam-se para essas eventualidades. Eu os felicito por isso porque existem outros desafios no horizonte e sua força pública, sua liderança e sua polícia já estão se preparando para isso” (4).

Porém, o departamento de La Guajira não é apenas o lugar de uma base operativa destinada a agredir a Venezuela. Há poucos dias a agência de notícias ADITAL informava que “Desde que o principal rio da região foi represado e sua água privatizada pela indústria agrícola e pela maior exploradora de mina de carbono a céu aberto do mundo, a maior comunidade indígena da Colômbia, composta pelos povos Wayúu, morre de fome e sede. Situada no extremo norte do país, na península desértica de La Guajira, a população sofre por desnutrição, contabilizando pelo menos 37 mil crianças desnutridas. Dados apontam que cerca de 14 mil meninas e meninos já morreram de inanição”.
 

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(1), “Expertos británicos proveen asistencia de inteligencia en Paraguay”, HISPANTV, 19 de marzo de 2015,http://hispantv.com/newsdetail/Sudamerica/24647/Expertos-britanicos-proveen-asistencia-de-inteligencia-en-Paraguay
(2), “EEUU creará fuerza especial para América Latina con sede en Honduras”, ANNCOL, 3 de Abril de 2015,http://anncol.eu/index.php/mundo/politica-economia/item/122-eeuu-creara-fuerza-especial-para-america-latina-con-sede-en-honduras
(3), “Arribó al Perú el segundo contingente de soldados de EEUU”, defensa.com, 19 de febrero de 2015, http://www.defensa.com/index.php?option=com_content&view=article&id=14742:arribo-al-peru-el-segundo-contingente-de-soldados-de-eeuu&catid=55:latinoamerica&Itemid=163
(4), “Ex subsecretaria de Defensa dice que Colombia se prepara para eventuales conflictos con Venezuela”, noticias-uno, 28 de marzo de 2015, http://noticiasunolaredindependiente.com/2015/03/28/noticias/exsubsecretaria-de-defensa-dice-que-colombia-se-prepara-para-eventuales-conflictos-con-venezuela/
(5), Marcela Belchior, “Privatización de río provoca 14 mil muertes de indígenas por inanición”, ADITAL, 5 de Abril de 2015, http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=ES&cod=84561      ~   

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Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)  


FARC-EP propõe questões que podem agilizar o processo de paz


Em um comunicado, a organização guerrilheira disse ser fundamental o início imediato da análise do Relatório da Comissão Histórica do Conflito e Suas Vítimas. “Isto tornará possível encontrar as chaves, na história, que levarão à reconciliação nacional”.


Em segundo lugar, começar, imediatamente, a formar a Comissão de Esclarecimento do fenômeno paramilitar e promover as garantias de segurança em todos os níveis. “Nossa disposição permanece imutável para avançar em conjunto com o governo colombiano na diminuição da intensidade do conflito”.

Além disso, o terceiro item refere-se a desbloquear as discussões sobre a revisão das sentenças para os condenados por rebelião. “Estamos dispostos a levar estas discussões tendo como base a integração. Estamos prontos para chegar a um acordo sobre os mecanismos do governo para materializar as reformas e ajustes institucionais necessários para enfrentar os desafios da construção de uma paz possível”.

As delegações das FARC-EP e do governo colombiano liderado por Juan Manuel Santos começaram, nesta quinta-feira (21), o ciclo 37 das conversações que já ocorrem desde 2012.

Já foram alcançados acordos sobre questões fundamentais, como a questão da terra, participação política e drogas ilícitas.

Como parte do processo que visa acabar com o confronto armado, durante a última rodada de negociações, as FARC-EP e o governo concordaram em implementar um projeto-piloto para a limpeza de áreas com minas terrestres.

Fonte: Prensa Latina


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Tempo de Armistício


Por Iván Márquez
Integrante da Delegação de Paz das FARC-EP 

Sustentar, como se fez numa edição da Revista SEMANA, que dialogar em meio ao conflito não tem outra opção, porque não há maneira de verificar uma trégua, é sugerir que a paz ou o pós acordo seria impossível se se lhe aplicasse o mesmo argumento. O sofisma não consegue tapar o desejo subjetivo de que o cessar-fogo bilateral favorece o fortalecimento político e militar da guerrilha.


A paz não é assunto de vontades indecisas que se lançam pelo atalho de negar o cessar-fogo sobre a base de leituras enviesadas da trégua de ‘84, conceituando-a como “desastre”, só para afogar a voz multitudinária do sentido comum que o reclama.


O cessar-fogo se sustenta num profundo sentimento de humanidade. Nada sacamos se seguimos nos matando em meio a um diálogo que deve culminar num Acordo Final. O que se busca é fechar a porta a novas vitimizações e, como complemento, cercar com o silêncio dos fuzis e dos explosivos os diálogos de paz para que estes avancem sem sobressaltos para seu objetivo supremo.


Os que negam este anseio coletivo subestimando o papel da verificação, aduzem “que ademais há delinquência comum e narcotráfico que se confundem com a rebelião e que até um bêbado disparando tiros num povoado pode acabar com a trégua bilateral”. Essa visão não somente insinua um Estado pintado na parede, que deixa fazer e deixa passar, como também ignora a existência de um acordo parcial na Mesa de Havana endereçado a solucionar o problema das drogas ilícitas. Encerra em si uma grande confusão, que não permite distinguir a rebelião como direito natural dos povos, de atuações próprias de bandos delinquenciais. Nem fugazmente contempla a ideia da possibilidade de cooperação entre as partes antes confrontadas. Assim, não consegue sequer se colocar no nível de uma regular exposição de motivos para vender a ideia da concentração da força guerrilheira em pontos.


Alguns, inclusive, imaginam umas FARC confinadas em áreas demarcadas sob a vigilância seráfica de sua contraparte contendora. Esta pretensão numa era de efetiva aplicação de tecnologia militar de ponta ao conflito interno colombiano resulta algo ingênua. O importante é deter o fogo, interpor diques que encerrem o capítulo de mais vitimizações inúteis.


A 27 de maio de 1984, o Presidente Belisario Betancur e o comandante das FARC Manuel Marulanda Vélez emitiram quase simultaneamente a ordem de Cessar-Fogo, a qual foi acatada plenamente pela força insurgente. Não ocorreu o mesmo com o senhor general Miguel Vega Uribe, quem, imediatamente depois da ordem do Palácio de Nariño, emitiu a controversa resolução 001 do Comando do Exército que incitava as tropas oficiais ao desacato, alegando –em aberta insubordinação ao chefe constitucional das Forças Armadas- que, acima de tudo, cumpririam o mandado da Carta, de marcar presença em todo o território nacional.


Dessa maneira se foi gerando um ambiente muito nocivo que favoreceu múltiplas escaramuças, as quais alcançaram sua máxima expressão na emboscada do exército a uma coluna da Quinta Frente das FARC em 30 de novembro de 1985 em Cañas, jurisdição de Turbo [Antioquia], onde morreram 22 guerrilheiros e 17 terminaram feridos. Esse foi o começo da deterioração e do solapamento seriamente daquele cessar-fogo, e não as invenções que seus adversários propalam. Mais tarde, em junho de 1987, se produziu a emboscada das FARC ao exército em Riecito, entre Puerto Rico e San Vicente del Caguán, onde perderam a vida 27 soldados e outros 43 ficaram feridos.  

Já estava em marcha a matança ordenada pelo Estado contra a União Patriótica.


Esta triste experiência deve ser recolhida para evitar sua repetição. Num ambiente favorável como o que se respira hoje, com avanços tangíveis na Mesa de Conversações, com o bom entendimento e contato direto entre generais em serviço ativo e comandantes guerrilheiros, e numa situação em que se vislumbra a possibilidade do fim do conflito armado, o armistício como prelúdio da paz é a medida mais sensata que devemos tomar.


A mobilidade das forças em seus espaços habituais não será um problema se ao mesmo tempo está a decisão de cessar os enfrentamentos armados. Os protocolos são determinantes, e sua aplicação minimiza os riscos. A palavra empenhada e a assinatura de um pacto entre as partes, somadas a uma verificação eficiente e ao respaldo massivo da cidadania, criará uma atmosfera ideal para terminar de redigir o grande acordo de paz que inaugure uma nova era de convivência e reconciliação em Colômbia.

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Equipe ANNCOL - Brasil

Os mega-projetos chineses e a reorganização da hegemonia do comércio na América Latina


Nos últimos anos, os principais projetos de infra-estrutura na América Latina estão sendo financiados com capital chinês.


Akira Pinto Medeiros

Na última semana diversos veículos de comunicação, a maioria estrangeiros, noticiaram que a construção de uma mega-ferrovia havia entrado nos planos do Planalto. A visita do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, à Brasília tem como objetivo apresentar um plano de investimento orçado em US$ 50 bilhões que dentre outras obras e compras prevê a construção de uma ferrovia que ligue o Atlântico ao Pacífico, cruzando o Brasil e o Peru, estimada em R$ 30 bilhões.

O projeto até o momento não parece ter sido questionado pelos veículos tradicionais, é tratado até com simpatia por se propor a sanar um grande problema de logística do Brasil, a falta de uma saída ao pacífico. Vale destacar que o projeto beneficia principalmente os grandes produtores de commodities que terão seus custos reduzidos no processo de exportação para o gigante asiático. Estaríamos assim apenas seguindo a rota do dinheiro, facilitando a compra dos nossos produtos por aqueles que mais se dispõem à comprar.

Pelo desenho original a ferrovia sairá do Rio de Janeiro e passará pelos estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Rondônia, e Acre, antes de entrar no Peru - por onde seguirá até o pacífico. Não há dúvidas de que se trata de um mega-projeto que beneficiará os produtores brasileiros e os chineses. Mas será que é apenas isso?

Nos últimos anos temos visto uma movimentação bastante acelerada dos chineses na América Latina. De maneira sutil, os chineses estão reorganizando o comércio e a infraestrutura da região. Existe um tensionamento mais frio que o da Guerra Fria, onde ao que parece os Estados Unidos está em desvantagem. Não se trata de um debate de ideias, diversas missões chinesas têm visitado os países da América Latina, algo similar com o que os EUA fizeram no período entre guerras. Os chineses mostram sua destreza ao competir na economia globalizada de forma dura.

Nos últimos anos os principais projetos de infra-estrutura na América Latina estão sendo financiados com capital chinês, com exceção do Porto de Mariel em Cuba. O Canal da Nicarágua, começou a ser construído no final do ano passado pela HKNCD (Hong Kong Nicaragua Canal Development) e tem previsão de entrega para daqui a 5 anos. O projeto é maior, mais largo e mais profundo que o Canal do Panamá – principal trajeto para cruzar de um oceano a outro na atualidade – o que permitirá o trânsito dos maiores navios cargueiros da atualidade. O projeto do Canal da Nicarágua prevê um fluxo de aproximadamente o dobro da carga que hoje transita pelo canal vizinho.

O Porto de Mariel em Cuba, apesar de não estar sendo construído com capital chinês, também representa uma ameaça ao controle estadunidense do fluxo de cargas na América. Construído com empréstimo direto do BNDES, o mega-projeto cubano prevê capacidade para 800 mil contêineres por ano e será operacionalizado pela Singapur PSA International – que administra cerca de 30 milhões de contêineres pelo mundo. A recente aproximação entre os governos de Washington e Havana mostra, entre outras coisas, a preocupação dos empresários estadunidenses com este empreendimento. São cerca de 70 empresas transnacionais que já se manifestaram sobre a intenção de operar em Mariel, nenhuma delas é estadunidense tendo em vista o embargo econômico que a ilha do povo cubano vive.

Ainda sobre a aproximação chinesa na América Latina, recentemente o governo de Cristina Kirchner fechou um acordo para a transferência do equivalente à 11 bilhões de dólares que prevê a construção de duas hidrelétricas no país.

Todos estes projetos citados apresentam ganhos de eficiência das economias da região, além de garantir o abastecimento de commodities à China de maneira mais rápida e barata. Se analisarmos o mapa da América Central veremos que estes mega-projetos representam também a reorganização da geopolítica na região. O Canal da Nicarágua deságua próximo ao Porto de Mariel que visa ser um grande porto de escoamento para os Estados Unidos, América Latina e China.

Como se não fosse suficiente, o primeiro-ministro chinês desembarcou em Brasília hoje (19/05) para fechar o acordo da mega-ferrovia que ligará o Atlântico ao Pacífico. O projeto ligará a ferrovia norte-sul ao pacífico via Peru, barateando os custos do escoamento de minério de ferro e soja. O comércio entre o gigante asiático e a América Latina foi multiplicado por 20 entre 2000 e 2014, já superando US$ 262 bilhões. Em uma reunião entre os membros da CELAC e a China, em Pequim – realizada em janeiro – o presidente chinês Xi Jinping se comprometeu a destinar cerca de US$ 250 bilhões para projetos de infra-estrutura na América Latina nos próximos 10 anos. Quase metade das exportações brasileiras para a China são representadas pela venda de soja, segundo o Professor da UFF, Theotonio dos Santos, o negócio representa “...do ponto de vista da China, uma questão-chave. É claro que o fato de o Brasil não ter uma saída para o Pacífico é uma limitante muito séria para o país, como produtor e exportador.”.

A Presidenta da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, quando questionada sobre o acordo firmado com a China disse, durante a abertura de Sessões do Congresso Nacional no dia 1º de março: “Senhoras e senhores, argentinos, o mundo dentro de 5 anos, não dentro de 5 séculos, vai ser diferente. Dentro de 5 anos a China vai ser o mais importante ator econômico, se já não for, do mundo. Como, se durante toda a nossa vida nos disseram que tínhamos que ter relações carnais com aqueles que nunca nos davam nada e nos tiravam tudo? Como não vamos ter relações normais, comuns e diplomáticas, econômicas e estratégicas com aqueles que nos vêm oferecer investimentos? Não se pode ser tão estúpido, não se pode ser tão colonizado mentalmente, tão subordinado intelectualmente, tão pequeno de cabeça e de neurônios.”.

A movimentação chinesa não é um projeto a ser implantado, é um projeto em curso, que depende do não alinhamento automático aos EUA, e da preservação dos governos populares, para reorganizar a hegemonia do comércio na região e alavancar o desenvolvimento latino-americano. Sobre isso, Dos Santos diz: “Essa é uma política que a China vem seguindo, de usar esse excedente econômico colossal que tem para criar uma economia mundial que atenda não só as necessidades chinesas, mas também sirva para um desenvolvimento planetário, para sairmos dessa posição subordinada que nós temos dentro da economia mundial. Isso é interesse da China e é interesse nosso.”

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Com apoio de Carta Maior

Principais imperativos para alcançar a paz


Por Jesús Santrich
Depois do 36º Ciclo de trabalho no desenvolvimento das Conversações de Paz em Havana, o qual soma 360 dias contínuos de trabalho, sem incluir os recessos entre ciclos, nem os dias intermediários entre cada miniciclo, podemos dizer que, das posições públicas de cada uma das partes, se pode tirar conclusões sobre assuntos que se tornam em imperativos para alcançar a Paz:
1. Conquistar a justiça social e a democracia. É obrigatório dar passos para as transformações de ordem política, econômica e social que estabeleçam as bases para superar a miséria, a desigualdade e carência de democracia que impera em Colômbia, especialmente nas cidades. Teria que começar por realizar, desde já, pelo menos, as medidas de mudança que se plasmaram nos Acordos Parciais, enquanto se resolvem as restrições ou dissensos entre as partes, considerando que tudo o até agora pactuado se refere a transformações de benefício social que nada têm a ver diretamente com o futuro da insurgência e, geralmente, aludem a deveres descumpridos do Estado, como é o de realizar a Reforma Rural Integral que beneficie sobretudo aos habitantes do campo. Isto implicará, por exemplo, que de uma vez por todas se deixe de obstruir a composição e a consolidação das Zonas de Reserva Campesina e a oligarquia deixe para trás os intentos por desarticular as Unidades Agrícolas Familiares com iniciativas obscuras como a da composição das ZIDRES [Zonas de Interesse de Desenvolvimento Rural e Econômico] que aponta, ademais, para o despojo das terras ociosas de sua condição de tais, para finalmente entregá-las aos latifundiários locais e às transnacionais.
2. O direito à rebelião e a Margem Nacional de Apreciação. Dar reconhecimento político à insurgência, de maneira tal que se entenda que as guerrilheiras e os guerrilheiros o que têm exercido é o legítimo direito à rebelião armada e que, portanto, a solução dialogada ao levantamento deve ser política. Não se pode insistir em dar tratamento punitivo a um conflito de mais de meio século no qual subjazem profundas causas de injustiça social. Nenhum combatente irá para o cárcere por ter exercido o direito à rebelião armada. Isto implica também desmontar a criminalização do protesto social e a perseguição aos líderes populares que foram acusados ou se lhes acusa de rebelião e terrorismo por sua inconformidade frente as injustiças de todo tipo. Em consequência, se deverá definir os mecanismos e procedimentos para excarcerar a insurgentes e dirigentes populares, ou a qualquer pessoa que tenha sido privada da liberdade por estar acusada de qualquer delito político.
Dentro de tal perspectiva, se deverá dar o restabelecimento pleno do delito político com suas conexidades, e a disposição de normativas que contemplem amplas anistias e indultos. Em todo caso, insistimos em que para concretizar qualquer bloqueio político do processo, o qual há de estar subordinado ao acordo político, se deverá levar em conta a aplicação em Colômbia da Doutrina da Margem Nacional de Apreciação, em reivindicação da soberania e da exclusão das ingerências internacionais obstrutoras.
3. Responsabilidade do Estado infrator. O Estado como causador da confrontação e de sua permanência é o máximo responsável pelo conflito. Assim o deve reconhecer e assumir, partindo por entender que não pode ter a pretensão de ser juiz e parte de um processo que é eminentemente político. No caso de que se configura algum cenário jurídico, o jus puniendi, ou faculdade sancionadora do Estado a respeito da insurgência não existe; portanto, qualquer corpo normativo para a normalização da vida nacional deve surgir como convênio derivado do Acordo Geral de Havana, o de agosto de 2012, que é o único marco jurídico para A Paz até agora subscrito pelas partes.
4. Desmilitarização da sociedade e do Estado. Para a conquista de uma nova era de paz, a deixação de armas, que não é entrega das mesmas de nenhuma das partes, senão o compromisso mútuo de separar as armas de seu uso em política como parte de um processo de desmilitarização da sociedade e do Estado, implica que o tema Forças Armadas deverá ser analisado pelo menos em cinco aspectos essenciais:
  • Abandono e mudança da Doutrina da Segurança Nacional e do inimigo interno por uma doutrina patriótica, profundamente humanista, que conduza à depuração e qualificação das Forças Armadas e de Polícia.


  • Apropriação da Força Pública de seu papel constitucional, no que concerne à defesa das fronteiras e à defesa dos interesses cidadãos. A polícia deve se desmilitarizar e assumir as funções que lhe correspondem como parte do executivo.


  • Colocar o número de efetivos na dimensão adequada para um país que não está em guerra, com aluns orçamentos ajustados à mesma circunstância. Desmercenarização de cada uma das forças.


  • Revisar os convênios militares internacionais e prescindir da presença militar estrangeira em território nacional.


  • Desmantelar o paramilitarismo e demais instrumentos da guerra suja e do terrorismo de Estado.




5. O esclarecimento da verdade como aspecto central para a reparação das vítimas do conflito. No ponto que agora se discute, referido a Vítimas do conflito, se deverá estabelecer uma Comissão de Esclarecimento da Verdade, com ampla participação das vítimas. Tal Comissão, tomando como insumo básico os informes da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, esclarecerá a verdade histórica [indicando causas, consequências e responsáveis], e impulsionará a justiça transformadora, a reparação integral, o perdão político e social, e a não repetição em busca da reconciliação em condições de bem viver, assumindo-se que adiantamos um processo em trânsito para a justiça social.
6. Desescalar o conflito. Urge tomar novas medidas de desescalada, bilaterais, que aliviem as dores da guerra, entre as quais a mais prática e de maiores resultados favoráveis para a população é o cessar-fogo. Porém, é necessário também desescalar a linguagem guerreirista que impera nos grandes meios de comunicação, os quais, em vez de estimular a paz, estimulam os ódios e metem a lenha da mentira, da deturpação e da desinformação na fogueira da confrontação.
O passo mais transcendental para aliviar as dores da guerra e dar irreversibilidade ao processo de paz seria alcançar um armistício geral que tome como base o cessar bilateral de fogos e hostilidades, no qual naturalmente a guerrilha não estará localizada, nem encurralada, mas sim jogando um papel dinâmico ao lado das comunidades na construção da paz.
7. Construção e referenda de Acordos. A construção de um Acordo Final de Paz deve contar com a participação ativa da população, e o mecanismo de referenda que se pactue entre as partes deve ser o que proporcione o maior protagonismo e exercício da democracia. Em tal sentido, o instrumento que pode abrir espaços de ação para que o soberano que é o povo atue e decida, é a Assembleia Nacional Constituinte. Ela, como produto de um acordo político nacional que estabeleça sua composição, sua duração e o temário deverá encarregar-se de debater e encontrar saídas aos pontos de dissenso que não se consiga resolver na Mesa. A Constituinte, com a definição da uma nova Carta que configure um Tratado de paz, marcaria o início da refundação da Colômbia.
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Equipe ANNCOL - Brasil

quarta-feira, 20 de maio de 2015

El Salvador em festa pela beatificação de Dom Óscar Romero


Os salvadorenhos e salvadorenhas estão em festa aguardando a beatificação do monsenhor Óscar Arnulfo Romero pelo Vaticano, neste sábado, 23 de maio. A Arquidiocese de San Salvador, a capital do país centro-americano, assinala que é a primeira beatificação de um salvadorenho. O processo ocorre 35 anos depois do assassinato de Romero na Capela do Hospital "La Divina Providencia” por pistoleiros, enquanto celebrava uma missa, logo no início da guerra civil que assolou El Salvador de 1980 a 1992.

"É a beatificação do salvadorenho mais conhecido e amado em todo o mundo por seu amor aos pobres, à justiça, à verdade e à Igreja. Sua vida, dedicação e entrega até o final são sinais eloquentes do compromisso de um pastor que assumiu o risco de morrer por defender seu rebanho e as pessoas mais frágeis”, observa a Arquidiocese em nota.



A Igreja de El Salvador receberá no dia 23 de maio bispos, sacerdotes e delegações internacionais para acompanhar a beatificação do ex arcebispo de San Salvador, que acontecerá às 10h da manhã, na Praça do Divino Salvador do Mundo, considerada símbolo nacional do país, e em seu entorno. A celebração será presidida pelo cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos.



São esperadas cerca de 250 mil pessoas e pelo menos 12 chefes de Estado, além dos vice-presidentes de Cuba e Costa Rica. Aguardam-se delegações de Brasil, Colômbia, Chile, Estados Unidos, Itália, México, Nicarágua, Uruguai e membros da Organização dos Estados Americanos (OEA). Na programação também consta uma peregrinação até a Catedral Metropolitana, onde descansam os restos do arcebispo mártir. Mais de 1.100 sacerdotes se prepararão para a cerimônia no Seminário San José de La Montaña e também irão até a praça em procissão. O lugar teve significado especial na vida de dom Romero porque boa parte de sua formação sacerdotal foi feita ali.



Trégua entre gangues



O evento tem tamanha importância para os salvadorenhos e salvadorenhas que até principais "maras”, como são chamadas as gangues na América Central, se comprometeram a com o governo de El Salvador a dar uma trégua no dia beatificação de Dom Óscar Romero. "Este é o presente que, na sua beatificação, queremos dar a Dom Romero: o nosso arrependimento e pedido de perdão à sociedade por todo o dano já causado”, afirmaram os grupos.



Os porta-vozes das gangues aproveitaram para pedir o apoio a um plano de reabilitação e reinserção social dos seus membros: "Tomamos a decisão de responder, afirmativamente, ao chamamento público realizado por um dos lutadores mais incansáveis pela paz em El Salvador: o senhor Raúl Mijango, que apresentou ao país uma proposta de agenda para a paz com 26 pontos, 13 a ser abordados por nós e os outros 13 pelo Estado, governo e sociedade civil”.



As "maras” pedem que o executivo "não obstrua nem sabote este processo, mas facilite as condições que nos permitam avançar mais rápido no tempo e nos compromissos que devemos assumir perante a sociedade”. Segundo os porta-vozes das gangues, as ‘maras’ tiveram de recorrer a formas ilícitas para ganharem a vida porque suas famílias são historicamente esquecidas e marginalizados pelas gestões governamentais. "Nossa origem está nas comunidades mais empobrecidas, nos lares desarticulados pela emigração, pela violência e pela irresponsabilidade paterna ou materna; é a nós que são negadas oportunidades de educação, saúde, trabalho, lazer e a única coisa que nos é oferecida é a repressão, a cadeia e a morte”.



Os grupos criminosos assinala que, para dar confiança ao desenvolvimento do processo, é necessário que debate privado realizado no interior dos centros penitenciários seja monitorado por uma entidade de grande prestígio e reconhecimento internacional e que já conta com uma missão em El Salvador: o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e os bispos e pastores coordenados pela Iniciativa Pastoral pela Vida e pela Paz, IPAZ.



O presidente Salvador Sánchez Cerén e o ministro de Justiça e Segurança Pública, Benito Lara, já afirmaram que não voltarão a negociar sob nenhuma condição. Isso comprova que da trégua entre gangues iniciada em 2012, com a aceitação do governo e o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da Igreja, não resta mais nada atualmente. A trégua durou 15 meses, período em que a taxa de homicídios caiu de 15 para cinco assassinatos por dia, mas as extorsões e sequestros continuaram. O abandono do acordo, em 2014, voltou a elevar as mortes violentas para 10 a 12 por dia, com tendência de crescimento. O país centro-americano de seis milhões de habitantes é um dos mais violentos do mundo, com mais de 60 homicídios por 100 mil habitantes segundo os dados das Nações Unidas.



Patrono da Cáritas



Durante a XX Assembleia Internacional da Cáritas, realizada na última semana, em Roma, o monsenhor Óscar Romero foi escolhido como patrono da Cáritas Internacional. "



Dom Romero



Oscar Arnulfo Romero y Gadamez nasceu em uma família pobre e numerosa, no 15 de agosto de 1917, em Ciudad Barrios, em El Salvador. Em 1979, já arcebispo da capital San Salvador, o então presidente do país, Carlos Humberto Romero, foi deposto pelo golpe militar. A ditadura se instalou, acirrando a violência e provocando o caos político, econômico e institucional no país. Somente de janeiro a março de 1980, foram assassinados 1.015 salvadorenhos. Os responsáveis pertenciam às forças de segurança e às organizações conservadoras do regime militar instalado no país.



Nessa ocasião, dois sacerdotes foram assassinados violentamente por defenderem os camponeses. Diante desse fato, Dom Óscar Romero teve que se posicionar e logo se colocou no meio do conflito para ajudar a resolvê-lo. Sua ação pastoral visava ao entendimento mútuo entre os salvadorenhos. Ele criticava duramente a inércia do governo, as interferências estrangeiras, bem como as injustiças praticadas pelos grupos "revolucionários". Por essa postura firme, o arcebispo pagou com sua própria vida. Seu nome foi incluído na relação dos 1015 salvadorenhos e salvadorenhas assassinados naquele 1980.


A via bloqueada com violência



Por MARCO LEÓN CALARCÁ

Essa via fechada violentamente é a que devemos abrir entre todos e todas com a força da  razão.
 
A proposta de paz com justiça social, democracia popular, ainda que cheire a pleonasmo, e soberania, sustentada pelas FARC-EP desde sua gênese, explica sua presença na Mesa de Conversações em Havana. Sua convicção na saída dialogada não é um novo invento e muito menos produto de uma suposta derrota militar. A Missão de sua Delegação de Paz não tem fins retorcidos nem duplos. Algo difícil de entender por aqueles que fazem de sua vida um enredo de calúnias.
 
Perdem seu tempo e esforços os pseudo analistas buscando explicações diz-que profundas a um fato singelo, que consiste em que a luta revolucionária da organização guerrilheira não implica a guerra como um fim, já que a guerra foi imposta pelo estabelecimento e seus determinadores estrangeiros.
 
No Programa Agrário dos Guerrilheiros, primeiro documento oficial das FARC-EP, proclamado a 20 de julho de 1964 no fragor da resistência em Marquetalia, se explica com clareza o porque da luta armada e os pretextos assumidos pelo regime para a agressão, quando diz:
 
Nós outros somos revolucionários que lutamos por uma mudança de regime. Porém queríamos e lutávamos por essa mudança usando a via menos dolorosa para nosso povo: a via pacífica, a via democrática de massas. Essa via nos foi bloqueada violentamente com o pretexto fascista oficial de combater supostas ‘repúblicas independentes’ e como somos revolucionários que de uma ou outra maneira jogaremos o papel histórico que nos corresponde, nos restou buscar a outra via: a via revolucionária armada para a luta pelo poder”.
 
E o pretexto variou com o passar do tempo, de repúblicas independentes cabeça de praia do comunismo internacional passamos a ser narcoguerrilhas e depois claramente narcotraficantes, depois ameaça terrorista, narcoterroristas e por último simplesmente bandidos. Sempre na ideia de vedar toda possibilidade de expressão da legítima rebeldia que encarnamos.
 
De passagem, o Programa Agrário informa do fracasso das gestões para evitar a guerra, ao afirmar:
 
Nós outros batemos em todas as portas possíveis em busca de auxílio para evitar que uma cruzada anticomunista, que é uma cruzada contra nosso povo, nos conduzisse a uma luta armada prolongada e sangrenta”
 
E há que dizê-lo com toda franqueza, faltou força para acabar com o propósito de extermínio e o sonho de solucionar com operações militares os problemas sociais e políticos. Os pobres da Terra se expressaram, também intelectuais de estatura mundial, o âmbito cultural se solidarizou, porém foi insuficiente, os ricos de Colômbia foram insensíveis a essas manifestações, tal como hoje setores dessa oligarquia o são e por isso cobiçam descarrilar o processo de diálogos.
 
A Guerrilha Fariana nasce empunhando a bandeira da paz com todo vigor.
 
Também se revela a violência sustentada no tempo contra o povo e suas organizações, pois conta como: “Contra nós outros se desencadearam no curso dos últimos anos quatro guerras: uma, a partir de 1948; outra, a partir de 1954; outra, a partir de 1962; outra, a partir de 18 de maio de 1964, quando os Altos Mandos declaram oficialmente que nesse dia começava a ‘Operação Marquetalia’.”
 
Algo que corroborou o informe da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, uma de suas muitas contribuições ao esclarecimento da verdade histórica.

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Equipe ANNCOL - Brasil

terça-feira, 19 de maio de 2015

Colocar os agricultores familiares em primeiro para erradicar a fome


Nove em cada dez das 570 milhões de propriedades agrícolas no mundo são geridas por famílias, fazendo com que a agricultura familiar seja a forma mais predominante de agricultura e, consequentemente, um potencial e crucial agente de mudança para alcançar a segurança alimentar sustentável e a erradicação da fome no futuro. Os dados fazem parte do novo relatório das Nações Unidas.



A reportagem foi publicada por EcoDebate, 18-05-2015.



A agricultura familiar produz cerca de 80% dos alimentos no mundo. A prevalência e a produção significam que “são vitais para a solução do problema da fome”, que atinge mais de 800 milhões de pessoas, escreveu o Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva, na introdução do novo relatório da FAO de 2014 sobre o Estado da Alimentação e da Agricultura (SOFA 2014).



A agricultura familiar é também guardiã de cerca de 75% de todos os recursos agrícolas do mundo e, portanto, é fundamental para a melhoria da sustentabilidade ecológica e dos recursos. Estão também entre os mais vulneráveis às consequências do esgotamento dos recursos e às alterações climáticas.



Embora as evidências mostrem rendimentos impressionantes em terras geridas por agricultores familiares, muitas propriedades de menor escala são incapazes de produzir o suficiente para garantir meios de subsistência decentes para as famílias.



A agricultura familiar é, assim, confrontada com um triplo desafio: o aumento do rendimento agrícola para responder à necessidade mundial de segurança alimentar e de uma melhor nutrição; a sustentabilidade ambiental para proteger o planeta e para garantir a própria capacidade produtiva; e o aumento da produtividade e a diversificação dos meios de subsistência que lhes permita sair da pobreza e da fome. De acordo com o relatório SOFA, todos esses desafios implicam que os agricultores familiares têm de inovar.



Em todos os casos, os agricultores familiares precisam ser líderes de inovação, pois só assim podem apropriar-se do processo e garantir que as soluções oferecidas respondem às necessidades”, afirmou Graziano da Silva. “A agricultura familiar é um componente essencial dos sistemas alimentares saudáveis de que precisamos para levar uma vida mais saudável.”



O relatório chama a atenção do setor público, das organizações da sociedade civil e setor privado, para trabalhar com os agricultores, no sentido de melhorar os sistemas de inovação para a agricultura. Os sistemas de inovação agrícola incluem todas as instituições e atores que apoiam os agricultores no desenvolvimento e na adoção de melhores formas de trabalhar no mundo cada vez mais complexo de hoje. A capacidade de inovação deve ser promovida a vários níveis, com incentivos para os agricultores, investigadores, prestadores de serviços de assessoria e cadeias de valor integradas para interagir e criar redes e parcerias que permitam partilhar informações, segundo o SOFA.



Os responsáveis pelas políticas devem considerar também a diversidade da agricultura familiar em termos de tamanho, das tecnologias utilizadas, e da integração nos mercados, bem como as configurações ecológicas e socioeconômicas. Essa diversidade significa que os agricultores precisam de coisas diferentes dos sistemas de inovação. Ainda assim, todas as explorações agrícolas precisam de melhor governança, estabilidade macroeconômica, infraestruturas de mercado físicas e institucionais, educação, bem como de melhor investigação agrícola básica, de acordo com o SOFA.



O investimento público em pesquisas agrícolas, bem como em serviços de extensão e assessoria – que devem ser mais participativos – devem ser incrementados para enfatizar a intensificação sustentável e acabar com as diferenças de rendimento e produtividade da mão-de-obra que caracterizam os setores agrícolas em muitos países em desenvolvimento.



Embora os estudos agrícolas sejam feitos por empresas privadas na maioria dos casos, o investimento do setor público é indispensável para assegurar a pesquisa em áreas de pouco interesse para o setor privado – como pesquisa básica, culturas órfãs, ou práticas de produção sustentáveis. Essa pesquisa constitui um bem público com muitos potenciais beneficiários.
A agricultura familiar é vital



O relatório da FAO oferece um diverso conjunto de novos dados sobre a agricultura familiar. A maioria das propriedades agrícolas familiares é pequena. Oitenta e quatro por cento das culturas de todo o mundo têm menos de dois hectares. No entanto, o tamanho das propriedades agrícolas varia amplamente. De fato, as propriedades agrícolas com mais de 50 hectares – incluindo muitas de agricultores familiares – ocupam dois terços das terras agrícolas do mundo.



Em muitos países de elevado rendimento e de rendimento médio superior, as grandes propriedades agrícolas, responsáveis pela maior parte da produção agrícola, detêm também a maior parte das terras agrícolas. Mas, na maioria dos países de baixo rendimento e de rendimento médio inferior, as pequenas e médias propriedades agrícolas ocupam grande parte das terras para o cultivo e produzem a maioria dos alimentos.



As pequenas propriedades produzem uma proporção maior de alimentos no mundo em relação à quantidade de terras de que usufruem, já que tendem a ter rendimentos mais elevados do que explorações agrícolas com maiores dimensões dentro dos mesmos países e ambientes agro-ecológicos.



No entanto, a maior produtividade da terra na agricultura familiar implica uma menor produtividade ao nível da mão-de-obra, o que perpetua a pobreza e impede o desenvolvimento. Grande parte da produção mundial de alimentos envolve trabalho não remunerado realizado por membros da família.



O relatório sublinha que é imprescindível aumentar a produção por trabalhador, especialmente nos países de baixo rendimento, a fim de aumentar os rendimentos agrícolas e de promover o bem-estar econômico nas zonas rurais em geral.



Atualmente, a dimensão das propriedades agrícolas está cada vez menor na maioria dos países em desenvolvimento, onde muitas famílias rurais de pequenos agricultores obtêm a maior parte do rendimento a partir de atividades não-agrícolas.



As políticas devem aumentar o acesso a fatores de produção, como sementes e fertilizantes, bem como aos mercados e ao crédito, de acordo com o SOFA.



Organizações de produtores eficazes e inclusivas podem apoiar a inovação dos ccoperados, ajudando-os a ter acesso aos mercados, e a facilitar as ligações com os outros no sistema de inovação, além de garantir que os agricultores familiares tenham uma voz na formulação de políticas, destaca o relatório.



Para incentivar os agricultores familiares a investir em práticas agrícolas sustentáveis, que muitas vezes têm elevados custos e longos períodos de amortização, as autoridades devem procurar criar um ambiente favorável para a inovação.



Políticas destinadas a catalisar a inovação terão de ir além da transferência de tecnologia, de acordo com o SOFA. Têm também de ser inclusivas e adaptadas a contextos locais, para que os agricultores sejam proprietários da inovação, e de ter em consideração as questões intergeracionais e de gênero, envolvendo a juventude no futuro do setor agrícola.