"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

PCB e UJC presentes no II Fórum pela Paz na Colômbia



Entre os dias 5 e 7 de junho, ocorreu, em Montevidéu, o II Fórum pela Paz na Colômbia. O evento, que contou com a participação de centenas de pessoas e inúmeras organizações políticas e movimentos sociais do continente, teve como principal incentivador a Marcha Patriótica.

O Fórum ocorreu em um momento extremamente delicado na vida política colombiana, no qual, após sucessivas agressões por parte do Estado e descumprimento do governo de uma série de garantias, as FARC-EP decidiram retirar o cessar fogo unilateral que sustentavam desde o último dezembro, o que gerou uma ameaça do governo de retirar-se das negociações de paz, o que poderia significar um aberto confronto das forças militares estatais e do paramilitarismo contra os trabalhadores.

Nesse sentido, durante todo o encontro foi reforçada a necessidade de uma ampla solidariedade internacional ao povo colombiano e do respaldo dos setores populares aos diálogos de Havana, assim como sua ampliação a fim  de incorporar outros setores da resistência armada como o ELN, no sentido de garantir não a paz desejada pelas elites colombianas, que pressupõe o extermínio da insurgência, mas sim a paz que abra a possibilidade para futuros processos de transformações radicais no país.
A violência e o desrespeito à vida e aos diretos básicos do povo colombiano não são uma questão recente. Na abertura do evento foi apresentado o relatório da comissão histórica que analisa o conflito colombiano, no qual pode-se demonstrar o caráter autocrático da forma de dominação burguesa no país, sempre disposta a utilizar de meios extremamente repressivos para fazer valer seus interesses em detrimento dos trabalhadores, o que hoje resulta em mais de 9.500 presos políticos.

No Fórum a questão específica colombiana foi somada ao panorama geral da luta no continente, onde, após um processo de aparecimento de alguns processos populares em distintos níveis de radicalidade, vive-se hoje uma dura ofensiva por parte do imperialismo, o que transparece claramente nas 80 bases militares norte-americanas no continente, a desestabilização de governos progressistas, como o caso da Venezuela e o apoio a golpes de estados, tais como os casos de Honduras e Paraguai. Nesse sentido, o caso colombiano ganha outra vez relevo, pois esse país configura-se como o aliado estratégico do imperialismo no continente, tanto pelo número de bases em seu território, quanto pelos acordos existentes entre o exército colombiano e de outros países na região, onde contingentes são treinados para a repressão de movimentos sociais.

O PCB e a UJC estiveram presentes desde o primeiro momento na construção desse Fórum justamente por compreenderem a centralidade que ocupa hoje em nosso continente a luta desse bravo povo. Durante o evento tivemos a oportunidade de expressar nossa solidariedade e visão política sobre o tema em uma mesa sobre o papel das mulheres na luta antimperialista e em outra sobre a militarização da América Latina, assim como estender nossa solidariedade à juventude daquele país, que desde os últimos anos vem protagonizando importantes manifestações e incorporando à luta dos estudantes as reivindicações históricas dos trabalhadores.

Temos a certeza de que o II Fórum pela Paz na Colômbia significará o fortalecimento da solidariedade internacional à luta do povo colombiano. Desde o Brasil, nos comprometemos a seguir firme nessa importante luta, prestando a esse heroico povo nossas mais generosas demonstrações do internacionalismo proletário.

FARC-EP chamam o Alto Comissionado a desescalar sua linguagem


La Habana, Cuba, 22 de junho de 2015

O comandante Ricardo Téllez apresentou hoje ante a imprensa um documento no qual a Delegação de Paz das FARC-EP faz um respeitoso chamado ao Alto Comissionado para a Paz, Sergio Jaramillo, a desescalar sua linguagem, que, segundo as FARC-EP, “nos distancia e fere a confiança construída”.
O Alto Comissionado fez declarações a um meio de imprensa, referindo-se ao dito pelas FARC-EP no marco do Dia Mundial dos Refugiados. Estas declarações foram qualificadas como infelizes pelas FARC:
Agora, publicamente e com desobrigado tratamento, rompe o compromisso de mútuo reconhecimento e respeito entre as partes, ao tempo em que nega a possibilidade de brindar novos Planos e Programas que favoreçam o propósito superior da reparação integral com que nos comprometemos”.
Escritório de Imprensa da Delegação de Paz FARC-EP

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Equipe ANNCOL - Brasil

O ESTADO E O EMPRESARIADO: VENDENDO A PAZ



A Mesa de Conversações em Havana deve derrotar poderosos inimigos, salvar grandes obstáculos e consensuar as diferenças para chegar a um Acordo Final; para isso, trabalha e avança com dificuldade, porém com firmeza. No entanto, o governo colombiano e o empresariado já converteram a Paz num negócio e oferecem suas bondades às transnacionais.
Vender a Paz agora, como estão fazendo e sem nenhum pudor, é nem mais nem menos que “selar sem ter a mula”, diz a sabedoria popular.
Nas agora tão em moda rondas de negócios, brindam todas as garantias para o investimento estrangeiro, prioritariamente na produção energética e na mega mineração; é a chamada reprimarização econômica promotora do extrativismo. Nessas voltas, vendendo a paz, andam o presidente Juan Manuel Santos, o vice-presidente e ministro de Habitação, Germán Vargas Lleras, o ministro de Fazenda Pública, Mauricio Cárdenas, o empresariado, até Frank Pearl, integrante da equipe de diálogo do governo.
Os que sempre tiveram tudo falam de sair em compras, no caso colombiano saem em vendas, a enfeirar as riquezas nacionais que são patrimônio de todos e todas. Não se trata de um ataque a todo transe, radical e descontextualizado ao investimento estrangeiro, é preocupação legítima pela necessária racionalidade e sustentabilidade da exploração dos recursos naturais, também a reiteração da soberania como princípio indeclinável.
Na insaciável busca de lucros, o neoliberalismo desconhece a dor de pátria, pois nada sabe de soberania.
Empresários e governo privilegiam o negócio e o lucro individual acima de tudo, para isso servirá a paz segundo sua ótica; por outro lado, as organizações populares, a guerrilha entre elas, consideram a necessária democracia e a justiça social como as conquistas da Paz. Se refletem assim as duas concepções enfrentadas.
As transnacionais que operam no país informam multimilionários lucros só superados pelos obtidos pelo setor financeiro; se fala sem pudor da estabilidade e do crescimento econômico do país, porém não se diz que é nas cifras da macroeconomia para nada refletidas na cotidianidade de homens e mulheres da Colômbia. Até o Fundo Monetário Internacional reconheceu os riscos do suposto auge exportador, sem corresponder-se com a produção, característico do extrativismo.
Um dos argumentos usados para suavizar ouvidos e convencer endinheirados para investir em Colômbia é que nada vai mudar com o diálogo, então, para que o processo? Não se trata de buscar acordos para assentar as bases de solução das causas econômicas, políticas, sociais e culturais do conflito?
É irreal a ideia de uma economia funcionando de acordo com a vontade e o subjetivismo.
Ademais, a Colômbia atrativa para o investimento estrangeiro com a paz como ingrediente central, atualmente tem como objetivo proteger as transnacionais dos necessários incrementos nos impostos e descarregar, como sempre, o peso da tributação nos setores menos favorecidos
 Nota:
Nem foi, nem é, nem será propósito nosso afetar o povo do qual somos filhos, ao qual pertencemos e nos devemos. ¡O demais é desinformação, é pura é físicabazófia!


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Equipe ANNCOL - Brasil

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Farc pede trégua para avançar em processo de paz colombiano


As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) pediram ao governo do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, uma trégua como passo necessário para avançar no processo de paz que tem sido desenvolvido desde 2012.


Ao lamentar as notícias de mortes em combate, que poderiam ser evitadas com um cessar fogo bilateral, pedimos mais uma vez ao presidente Santos que abra a possibilidade de refrear a guerra, de estabelecer uma trégua nas hostilidades”, afirmou o chefe da delegação de paz da maior guerrilha colombiana, Iván Márquez.

“Presidente Santos, ministro (de Defesa, Luis Carlos) Villegas: chegou a hora de parar com a guerra para não prejudicar o processo de paz e evitar mais mortes inúteis”, acrescentou.

“Só em um ambiente de confiança e de concórdia, poderemos convir o que falta para chegarmos ao acordo final. Não assumam como chantagem um pedido generalizado, cheio de humanidade”, expressou o líder guerrilheiro.

Há dois anos e meio, guerrilha e governo protagonizam em Havana diálogos para pôr fim à longa confrontação armada, ao mesmo tempo em que se mantêm as hostilidades na Colômbia, apesar dos repetidos chamados da insurgência a um fim bilateral do fogo, que permita avançar sem tensões nos diálogos de paz.

Este processo de paz que tem avançado como nenhum outro na Colômbia, e que hoje discute temas decisivos, complexos, unidos a aspectos nodais do fim do conflito, não deveria ter como pano de fundo o confronto armado, manifestou Márquez ao criticar a "decisão teimosa do governo" de manter as operações no campo militar.

Nunca estivemos de acordo com esse slogan absurdo e apartado do sentido comum de "negociar a paz como se não houvesse a guerra". É um sofisma seguir sustentando que a trégua favorece política e militarmente à guerrilha. Não, não; ela só favorece o anseio coletivo de reconciliação, considerou o insurgente.


Fonte: Prensa Latina

domingo, 21 de junho de 2015

Francisco e a Criação segundo o Papa Francisco


A contínua aceleração das mudanças da humanidade e do planeta se une hoje à intensificação dos ritmos de vida e de trabalho, naquela que alguns chamam, em espanhol, “rapidación” (aceleração). Embora a mudança faça parte da dinâmica dos sistemas complexos, a velocidade que as ações humanas lhe impõem hoje contrasta com a natural lentidão da evolução biológica. A isso se acrescenta o problema que os objetivos desta veloz e constante mudança não são necessariamente orientados ao bem comum e a um desenvolvimento humano, sustentável e integral”, escreve o Papa Francisco no XVIII parágrafo de sua encíclica, dedicada aos temas do ambiente, a “casa comum” da qual cada um deve cuidar.
Eis algumas antecipações do texto publicadas pelo jornal Corriere della Sera, 16-06-2015. A tradução é de Benno Dischinger.



Da contaminação dos rejeitos ao superaquecimento global
Existem formas de poluição que atingem cotidianamente as pessoas. A exposição aos poluentes atmosféricos produz um amplo espectro de efeitos sobre a saúde, em particular dos mais pobres [...]. A Terra, nossa casa, parece transformar-se sempre mais num imenso depósito de imundície. Em muitos lugares do planeta, os anciãos recordam com nostalgia as paisagens de outros tempos, que agora aparecem submersos por lixo [...]. Estes problemas estão intimamente ligados à cultura do rejeito, que golpeia tanto os seres humanos excluídos quanto as coisas que se transformam velozmente em lixo”.
O clima é um bem comum, de todos e para todos. Esse, em nível global, é um sistema complexo em relação com muitas condições essenciais para a vida humana. Existe um consenso científico muito consistente que indica que estamos em presença de um preocupante aquecimento do sistema climático. [...] A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de modificações de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou o acentuam. [...]. Se a tendência atual continuar, este século poderia ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós”.



As mudanças climáticas e os migrantes abandonados
As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, e constituem um dos principais desafios atuais para a humanidade. Os impactos mais pesados recairão provavelmente nas próximas décadas sobre Países em via de desenvolvimento. Muitos pobres vivem em lugares particularmente golpeados por fenômenos conexos ao aquecimento [...]. É trágico o aumento dos migrantes que fogem da miséria agravada pela degradação ambiental, os quais não são reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais e, portanto, carregam o peso da própria vida abandonada sem nenhuma tutela normativa. Infelizmente há uma indiferença generalizada diante destas tragédias, que acontecem atualmente em diversas partes do mundo. A falta de reações diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda daquele senso de responsabilidade pelos nossos semelhantes sobre os quais se fundamenta toda sociedade civil”.



A água, direito fundamental e o respeito pela biodiversidade
A água potável e limpa representa uma questão de primária importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos. [...]. Enquanto a qualidade da água disponível piora constantemente, em alguns lugares avança a tendência de privatizar este recurso escasso, transformado em mercadoria sujeita às leis do mercado. Na realidade, o acesso à agua potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas, e por isso é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem um grave débito social com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isso significa negar a eles o direito à vida, radicado em sua inalienável dignidade”.
Também os recursos da terra são depredados por causa de modos de entender a economia e a atividade comercial produtiva, demasiado ligadas ao resultado imediato. A perda de florestas e bosques implica ao mesmo tempo na perda de espécies que poderiam constituir no futuro recursos extremamente importantes, não só para a alimentação, mas também para a cura de doenças e para múltiplos serviços. [...] Mas, não basta pensar nas diversas espécies somente como eventuais “recursos” desfrutáveis, esquecendo que têm um valor em si mesmos. A cada ano desaparecem milhares de espécies vegetais e animais que não poderemos mais conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre. A imensa maioria se extingue por razões que têm a ver com alguma atividade humana. Por nossa causa, milhares de espécies não darão glória a Deus com sua existência nem poderão comunicar-nos a própria mensagem. Não temos esse direito”.



A renúncia ao paradigma tecnocrático
Existe um modo de compreender a vida e a ação humana que é desviado e que contradiz a realidade até o ponto de arruiná-la. Porque não podemos parar e refletir sobre isto? “De nada servirá descrever os sintomas, se não reconhecermos a raiz humana da crise Proponho, portanto, que nos concentremos sobre o paradigma tecnocrático dominante e sobre o lugar que aí ocupam o ser humano e sua ação no mundo”. “Em tal paradigma ressalta uma concepção do sujeito que progressivamente, no processo lógico-racional, compreende e de tal modo possui o objeto que se encontra fora. Tal sujeito se explica no modo de estabelecer o método científico com sua experimentação, que já é explicitamente uma técnica de posse, domínio e transformação [...]. Por isso, o ser humano e as coisas têm cessado de dar-se amigavelmente a mão, tornando-se, ao invés, contendentes.
Daqui se passa facilmente à ideia de um crescimento infinito ou ilimitado [...]. Isso supõe a mentira sobre a disponibilidade infinita dos bens do planeta, que conduz a “espreme-lo” até limite e além”.



O ponto de vista dos excluídos também na ecologia
Gostaria de observar que com frequência não se tem clara consciência dos problemas que golpeiam particularmente os excluídos. Eles são a maioria do planeta, bilhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e econômicos internacionais, mas em geral parece que os seus problemas sejam colocados como um apêndice, como uma questão que se acrescente quase por obrigação ou de maneira periférica, quando não são considerados como um mero dano colateral. [...] Mas hoje não podemos deixar de reconhecer que uma real concepção ecológica se torna sempre uma concepção social, que deve integrar a justiça nas discussões sobre o ambiente, para escutar tanto o clamor da terra quanto o clamor dos pobres”.

Paramilitarismo: Crônica de uma peste anunciada


 Por Luis Brito

A 5 de junho de 2015 o presidente Nicolás Maduro declara: “Vou ativar planos e estou ativando planos a fundo para ir, capturar e acabar com todas as células paramilitares que foram semeadas em Venezuela. Eu necessito do apoio da família colombiana que está em Venezuela, para limpar a Venezuela da peste paramilitar”. Disse-o a tempo. A peste já assassinou a duas centenas de dirigentes agrários, outros tantos dirigentes sindicais, figuras da alta política, impõe impostos de venda e adquire importantes empresas nos estados fronteiriços e gerencia um contrabando de extração que arruína ao país.

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Um novo fenómeno marca a realidade estratégica do mundo. Zetas, Aztecas, Mexicles, Negros, Polones, Gatilleros, Caballeros Templarios e Narco Juniors no México, Kaibiles guatemaltecos, Maras centro-americanos, Posses jamaicanos, Paramilitares colombianos, Talibãs, Al-Qaedas e Daesh do Oriente Médio e uma praga de exércitos privados organizados como cartéis, máfias e associações criminais sobrevivem ante os Estados constituídos, se aliam a eles, usurpam suas funções e estão em vias de destruí-los.

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Como surge um exército privado que desafia e às vezes supera ao público? Assim como os países hegemônicos mercantilizam a educação e a seguridade social, também privatizam a repressão. O exército dos Estados Unidos já não funciona com recrutas e sim com mercenários contratados entre suas marginalidades: afroamericanos, hispanos, imigrantes ilegais. Com outra volta da arruela, grandes intermediários transnacionais como Blackwater terceirizam desde 1996 a oferta e a demanda da bucha de canhão. E, com outra volta mais da arruela, os países hegemônicos financiam, treinam e armam corporações de sicários para destruir países, porém sem assumir responsabilidade por elas: Al-Qaeda, Daesh, as Autodefesas Unidas de Colômbia.

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Isto marca a transcendente diferença com organizações armadas revolucionárias como o 26 de Julho, as FALN, as FARC, o ELN, Sendero Luminoso, o MSLN, a FMLN, que insurgem com mil dificuldades, por sua vez, contra o Estado e contra os grupos econômicos que o manejam. Pelo contrário, as organizações paramilitares atuam em estreita colaboração com o Estado ou com as forças econômicas que dominam este. Em Colômbia, funcionam com a proteção, o apoio e o financiamento do governo, no qual se infiltram com a parapolítica; da oligarquia terra-tenente, cujos latifúndios protegem e ampliam com a violência, e do narcotráfico, ao qual servem de braço armado. Com o tempo, nos lugares onde a presença do Estado é frágil se cria outro Estado paralelo, eleito por ninguém, que
impõe impostos, expede e executa sentenças de morte e finalmente se funde com a autoridade visível de políticos e corporações em simbiose inextricável.

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A ascensão a partir de uma eterna batalha entre bandos armados até o monopólio da violência exercida pelo Estado marcou a passagem do feudalismo para a Época Moderna. A atual abdicação por alguns Estados do monopólio da violência a favor de bandos de esbirros marca a pós-moderna dissolução da soberania no caos. A pós-modernidade neoliberal predicou o Fim do Político e a Minimização do Estado: entre as funções deste que passaram ao mercado, está o manejo da violência sem freio. A natureza política tem horror ao vazio. Onde quer que o Estado se debilita ou se dissipe, aparecem grupos armados dispostos a usurpar suas funções em proveito próprio. O paramilitarismo é a confissão de Estados e corporações de que lhes é impossível manter “a ordem” dentro dos parâmetros de legalidade que eles mesmos apregoam: vale dizer, de que não são mais que uma fraude. Ante o caos homicida, não resta mais recurso ao simples cidadão que armar-se ele próprio, e combater o chumbo com o chumbo. É o que fazem os cidadãos das Autodefesas de Michoacán, o que no longo prazo terão que fazer os cidadãos em todas as partes do mundo.

6Boa parte dos 5.600.000 de colombianos que imigraram para a Venezuela fizeram-no fugindo de um sistema que acreditou servir-se dos paramilitares e acabou servindo a eles. Oxalá possamos sanar essa peste que levamos anos denunciando antes que outros tantos venezuelanos devamos fugir de nosso país.
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Equipe ANNCOL - Brasil




sexta-feira, 19 de junho de 2015

Nem paz, nem guerra, mas sim todo o contrário: deixar apodrecer a Mesa de Havana


Por Alberto Pinzón Sánchez
O “comunicador social” Ricardo Galán, cuja longa carreira na conformação do “oligopólio midiático contra insurgente” [OMCI] o converteu num dos mais importantes e influentes “spin doctors” da classe dominante colombiana, descreveu em sua última coluna on-line da revista Semana, o desconcerto que deve estar imperando nos sórdidos bastidores do Poder da Colômbia, devido às últimas escaladas do conflito armado.
O colunista, depois de priorizar a conhecida ficção ideológica de que Santos representa a “todo o povo colombiano” [“O desafio das FARC não é contra o governo de Juan Manuel Santos, é contra todos os colombianos”], passa a descrever a incerteza do não saber o que fazer para abandonar com a incapacidade de um “amém” aos fatos militares cumpridos, que os colombianos conhecemos muito bem com a imagem da “rolha no redemoinho”. Escreve assim:
[…] Aceitar o cessar-fogo bilateral significa entregar-lhes uma zona de conforto da qual não vão querer sair. Não só porque poderão continuar se enriquecendo e intercambiando droga por armas e objetos, por se acaso, senão porque desde ali exerceriam um poder muito parecido ao cogoverno. Levantar-se da mesa não parece ser uma opção porque, como bem relembrou o Presidente Juan Manuel Santos, o país aceitou negociar em meio às balas e não resulta coerente romper o processo de paz ante uma onda terrorista por crua, insensata, selvagem e desproporcional que nos possa parecer.
Que caminho escolher? Confesso que me surpreendeu a incapacidade de nossas forças militares e de polícia para reagir ante as últimas selvagerias das Farc. Vejo-as desinformadas, lentas, inseguras, desorientadas. Como se não entendessem qual é o momento e qual é seu papel. A explicação poderia estar na falta de Chefe… E, então, que fazer? Aguentar... O governo, disse o Senhor Presidente, nem se levanta da mesa nem cederá ao cessar-fogo bilateral. As Forças Militares têm a ordem de contra-atacar. Amém”[...]
Versão da qual se lhe podem “delimitar” várias coisas
1 – É uma grave irresponsabilidade histórica e política continuar persistindo contra os ensinamentos da experiência e da história, de maneira torpe e obstinada, na velha ideia oligárquica do século XIX, que tanto dano nos causou e com o qual se desenvolveram as chamadas 9 guerras civis; de que os problemas políticos e sociais em Colômbia têm uma “solução militar”. Crer que contando mortos e cadáveres em bolsas negras [de guerrilheiros e, claro, também de soldados e de “colaterais”] vai levar a uma solução da espantosa problemática social, econômica e política que a Colômbia vive desde há mais de sete décadas, quando a vida e os fatos demonstraram o contrário: que o conflito social e armado colombiano não tem solução militar e sim política. Quantos mortos mais [isso, sim, de colombianos pobres] custará aceitar esta verdade confirmada pelos fatos reais?
2 – Que, precisamente por se tratar de uma imprescindível Solução Política, é necessário que o “chefe militar” reclamado com ansiedade e urgência pelo comunicador Galán, seja melhor um chefe político. E, ainda que sua liderança esteja sendo disputada por seu rival Uribe Vélez, ninguém melhor que o presidente Santos, quem está revestido pela ficção de legalidade e legitimidade pelo aparelho eleitoral oficial da Colômbia e pela Comunidade Internacional.
É a ele quem lhe corresponde tomar as decisões políticas necessárias para avançar na mesa de Havana de onde não se pensa levantar para avançar para a finalização da confrontação, por exemplo, em dois temas essenciais, a justiça bilateral pactuada e a Constituinte.
3 – Porque, do contrário, com essa posição ambígua e típica do liberalismo dominante de “deixar fazer e deixar passar”, o que está se levando é à decomposição e ao apodrecimento do regime [o redemoinho] à mesa de Havana [a rolha] para que se detenha e não flua. Se corrompa. Se acabe.
4 – E, finalmente, entender que a solução ao conflito colombiano é uma situação sócio-histórica e geoestratégica única, irrepetível e incomparável, onde conselheiros salvadorenhos como Villalobos, o salvadorenho assassino do poeta Roque Dalton, ou guatemaltecos, ou nicaragüenses, ou sul-africanos etc. ou de qualquer outro país onde se realizaram outros processos de solução política de conflitos sociais e armados, em outros contextos sócio-históricos e dinâmicas geopolíticas, com outras contradições, e de onde se extraiu o conceito diletante e pouco sustentável do pós-conflito, tem muito que dizer frente ao novo, dinâmico, contraditório e mutável do conflito colombiano.
Que não é, nem deve ser, nem tem porque ser, uma fatalidade o dito por Villalobos [assessor da Inteligência militar Britânica, parte interessada no conflito colombiano] de que a finalização de um conflito é muito sangrenta. Em Colômbia pode não sê-lo se, como disse a direção das FARC, “se deixam de lado as desavenças” e as duas partes avançam rapidamente nos dois pontos essenciais antes mencionados da Justiça bilateral pactuada e a Constituinte. Se supera a abulia e a indecisão presidencial. Se reconstrói a confiança entre as partes e se avança vigorosamente rumo ao final do conflito, como foi o pactado.
Depois, virão, se se quer seguir na moda post, o post-acordo e as novas condições para dar o salto qualitativo, esperado durante tantos anos. Então, nem sequer então se poderá dizer Amem.

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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Procedamos JÁ com o cessar-fogo bilateral


La Habana, Cuba, 17 de junho 2015

Tudo é questão de vontade política: FARC-EP”
A mensagem que a insurgência mandou hoje à Colômbia e ao mundo através de seu porta-voz e membro do Secretariado Joaquín Gómez é que, apesar das incoerências e distorções do discurso de Santos, a guerrilha se une ao clamor nacional e internacional por um cessar-fogo bilateral.
Incoerências que, segundo o líder insurgente, se manifestaram desde o primeiro momento das conversações, quando em Oslo o Governo pintou um país muito diferente ao que é na realidade:
Colômbia não é o país das maravilhas bosquejado em Oslo mas sim o terceiro mais desigual do mundo. Não há um processo sério de restituição de terras; o que, sim, é certo, é que mataram cerca de 90 reclamantes. Por outro lado, o índice Gini é de 0,87, produto do despojo violento que durante décadas se executou contra a população rural. Tal despojo se fez mediante assassinatos e massacres tolerados pelo Estado, os quais ocasionaram o deslocamento forçado de 6 milhões de compatriotas e o roubo de 8 milhões de hectares no último quarto de século, que ampliaram os latifúndios dos potentados. Por outro lado, até agosto de 2014 só se haviam restituído 29.000 hectares aos campesinos”.
O comandante acrescentou que, dois anos e meio depois, o mandatário continua caindo na distorção, por exemplo, quando se refere ao acordo sobre política antidrogas, acusando a insurgência como responsável pelo narcotráfico.
No entanto, estas desavenças não têm por que impedir um cessar-fogo bilateral, segundo o comandante Gómez, quem finalizou dizendo que “tudo é questão de vontade política”.
Escritório de Imprensa da Delegação de Paz FARC-EP

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Equipe ANNCOL - Brasil


Pôr de lado as desavenças


La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 17 de junho de 2015
Das poucas coisas certas expressas pelo Chefe de Estado no Fórum de Oslo sobre processos de paz, está aquilo de que a guerra, como mecanismo definitório nos conflitos da atualidade, simplesmente se tornou obsoleta; que não é possível a vitória militar em guerras assimétricas e que o processo de paz com as FARC oferece uma luz de esperança num mundo ensombrecido pela guerra.
O mencionado discurso está infestado de distorções e de mentiras impiedosas. Colômbia não é o país das maravilhas bosquejado em Oslo mas sim o terceiro mais desigual do mundo. Não há um processo sério de restituição de terras; o que, sim, é certo, é que mataram cerca de 90 reclamantes. Por outro lado, o índice Gini é de 0,87, produto do despojo violento que durante décadas se executou contra a população rural. Tal despojo se fez mediante assassinatos e massacres tolerados pelo Estado, os quais ocasionaram o deslocamento forçado de 6 milhões de compatriotas e o roubo de 8 milhões de hectares no último quarto de século, que ampliaram os latifúndios dos potentados. Por outro lado, até agosto de 2014 só se haviam restituído 29.000 hectares aos campesinos.
Quanto desejaríamos que fosse certo que se está gerando emprego, acabando com a pobreza, garantindo saúde, educação gratuita e reduzindo o gasto militar. Bastaria dar um passeio pelos bairros populares do Bogotá para que, ao ver tanta miséria, se desvaneça essa ilusão.
Infelizmente, no cenário norueguês voltou Santos sobre a ocorrência de um louco sionista, Yitzak Rabin, para reiterar que continuará combatendo o terrorismo, como se não existisse um processo de paz, e que persistirá na busca da paz como, se não existisse o terrorismo. Decidiu assim passar por alto que está dialogando em Havana, através de seus plenipotenciários, com um movimento rebelde que tem uma proposta viável de país que busca superar a miséria, a desigualdade e a exclusão política.
Os pontos de vista do mandatário explicando os acordos parciais de Havana são uma distorcida posta em cena do pactuado. Por exemplo, na interpretação da política antidrogas se induz a acusar a insurgência como a responsável pelo narcotráfico, só para ocultar o peso específico que tem nesse negócio capitalista internacional a lavagem de ativos por parte de banqueiros corruptos aos quais não se lhes persegue, e o envolvimento comprovado do Estado colombiano com a máfia do narcotráfico nas últimas décadas.
Em outro plano de ideias e para não nos referir mais, por enquanto, a essa incoerente difusão do processo de paz na Europa, muitos organismos internacionais, fóruns e amigos da paz da Colômbia, entre os quais se encontram representantes da ONU, CELAC, UNASUL, União Europeia, entre outros, levantaram suas vozes para pedir que pare a guerra. E mais recentemente os governos de Cuba e Noruega, como países garantidores, fizeram “um chamado às partes a que continuem seus esforços para continuar avançando na discussão das questões pendentes, incluindo a adoção de um acordo para o cessar bilateral definitivo do fogo e das hostilidades”. As FARC respondemos afirmativamente. Procedamos já.
Com profundo sentimento de pátria, hoje, desde Havana e desde as montanhas e bairros humildes da Colômbia, as FARC-EP colocamos de lado as desavenças e, apesar das incoerências do discurso e das ações governamentais que o que fazem é incendiar ao país, uma vez mais nos manifestamos por um acordo de cessar-fogo bilateral que traga alívio e novas esperanças a nosso povo. Convidamos a depor as contradições, fazer um ato de profunda reflexão e a tentar um acordo que pare a confrontação imediatamente, sem continuar esperando que chegue a firma do acordo final. Quantos mortos poderíamos evitar e quanta angústia... Quanto mais poderíamos avançar. Tudo é questão de vontade política.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Acumulação capitalista na América Latina: Colômbia como arquétipo


Por Cecilia Zamudio





A situação política na América Latina se inscreve numa situação mundial na qual se acelera a acumulação capitalista, mediante maior exploração laboral, maior depredação ambiental e mais guerras imperialistas. Há um aprofundamento do roubo contra os povos da América Latina e uma intensificação do Terrorismo de Estado que garante a acumulação capitalista. Este acionar de morte mediante os exércitos oficiais e suas respectivas ferramentas paramilitares se vê claramente em países como México, Colômbia, Peru, Honduras, Paraguai etc. Se aprofunda a luta de classes, com um intento de extermínio dos lutadores sociais por parte das diferentes oligarquias e do grande capital transnacional: pondo em marcha diversas estratégias de intervenção e fortalecendo estruturas do narcotráfico para que estas sirvam na tarefa de terror.
A atualidade mexicana relembra muito o padrão repressivo implementado contra o povo colombiano desde há décadas: auge do narcotráfico com conivência estatal e emprego deste no fomento de mais grupos paramilitares destinados ao extermínio dos comunistas e demais lutadores sociais. Este incremento da guerra oligárquica contra as maiorias implica também na resposta popular: grandes mobilizações e lutas dos povos.
Cuba continua sendo a exceção neste quadro de saqueio, porque se conseguiu consolidar uma revolução com um sistema socialista. Há também vários países cujos governos têm tentado dar passos para uma mudança de sistema: sem que pelo momento se tenha produzido a socialização dos meios de produção em todo um Estado. Venezuela tem despertado grandes esperanças e o petróleo venezuelano tem representado para Cuba um balão de oxigênio, ao tempo em que Cuba tem enviado a Venezuela milhares de médicos para levantar centros de saúde em bairros pauperizados e zonas rurais. A ajuda cubana permitiu dinamizar grandes Missões Sociais. Houve um avanço na tomada de consciência em Venezuela; e há setores populacionais que começaram a conceber o socialismo como algo positivo, inclusive há setores da população que pugnam por realizar essa mudança de maneira urgente, e o dinamizam tomando fábricas e terras. Porém, por outro lado, o Grande Capital venezuelano e mundial tentam desestabilizar o processo, através do intervencionismo estadunidense, da ativação do fascismo, da sabotagem econômica e da criação de escassez.
A região Andino-Amazônica é de grande importância para o Grande Capital transnacional. Colômbia é um país cobiçado por seus imensos recursos [mineiros, hídricos, biodiversidade] e por sua localização geoestragégica [andino-amazônica, com acesso a dois oceanos, com 5 países fronteiriços]. É, ademais, o terceiro país mais povoado do continente, depois de Brasil e México: Colômbia é um assunto de grande importância para o Capital transnacional.
Há mais de oito décadas que os aparelhos militares do capitalismo mantêm uma guerra intensiva contra o povo colombiano, com uma permanente intervenção estadunidense. O capitalismo tem utilizado o extermínio político como maneira de se manter, implementando os meios mais cruéis para semear terror numa população que, no entanto, continua em pé de luta por sua liberdade e contra o saqueio internacional. 
 
·      Diretrizes estadunidenses: Estratégia paramilitar a serviço do Grande Capital
Os militares colombianos são treinados pelos EUA: integram a doutrina contra insurgente e o conceito do “inimigo interno” que regem o acionar do exército colombiano. São instruídos em técnicas de desaparecimento forçado e deslocamento massivo de populações. A missão estadunidense Yarbourough de 1962 preconizou a organização de grupos paramilitares, promovidos pelo Estado, cujo objetivo é assassinar a comunistas e a todos os que reivindiquem por justiça social. Os manuais da CIA, como o KUBARK, instruem em torturas físicas e psicológicas[1]: a tortura é preconizada de forma sistemática.
Em maio de 1964, sob direção estadunidense, o exército desenvolve a Operação Marquetalia: as comunidades campesinas comunistas do sul do Tolima são bombardeadas de maneira desproporcional e sitiadas. Famílias inteiras morrem de fome. Foi a maior operação de contra insurgência realizada até então na América Latina. Os campesinos sobreviventes conseguiram romper o cerco militar e se refugiaram em Riochiquito, onde conformaram o Bloco Sul, que anos mais tarde daria nascimento às FARC. O crescimento da guerrilha se explica pela necessidade da população de rechaçar um modelo econômico que saqueia o país e empobrece a população; e pelo fato de que toda reivindicação política sofre o Terror Estatal.
Colômbia é o terceiro país mais desigual do mundo: há 20 milhões de pobres e 8 milhões de indigentes, mais da metade da população está apenas sobrevivendo. Milhares de crianças morrem anualmente de fome, apesar das imensas riquezas do país. Para dar um exemplo concreto: nestes momentos, a comunidade indígena mais populosa da Colômbia, os Wayúu, está sofrendo extermínio, morrendo de física fome e de enfermidades associadas com a escassez de água, porque as multinacionais que exploram o carvão no Cerrejón desviaram toda a água de um rio que foi privatizado. Armando Valbuena, da comunidade Wayúu, denunciou que mais de 14 mil crianças faleceram por causa da privatização do rio Ranchería[2]. São multinacionais como BHP Billiton, Glencore Xstrata, AngoGold, Drummond, Gold Fields, OXY, BP, Repsol e demais, que em Colômbia desviam rios, envenenam as águas, bombardeiam montanhas, deslocam comunidades inteiras, financiam paramilitares para o extermínio sindical, se beneficiam de batalhões do exército para impor suas instalações [exemplo, o Batalhão 18 servindo à OXY]: cometem genocídio e ecocídio. Nesta situação de empobrecimento galopante das maiorias para benefício de um punhado de megapoderosos e no sistemático Terrorismo de Estado contra os que reivindicam seus direitos encontramos a origem do conflito social e armado em nosso país.
O Terror de Estado em Colômbia causou: mais de 9.500 presos políticos, dezenas de milhares de desaparecimentos forçados[3]. Mais de 4.000 fossas comuns foram encontradas nos últimos 8 anos, com 5.638 corpos de desaparecidos: é o resultado do instrumento paramilitar[4]. Neste ano de 2015 saem em liberdade vários chefes paramilitares em virtude da lei de impunidade que o Estado colombiano elaborou para seus militares: entre 5 e 8 anos de pena se estes dão algumas coordenadas de seus crimes. É em virtude desta lei, mal chamada “Lei de Justiça e Paz”, que a 22 de maio saiu livre o vulgo “Julián Bolívar”, um servidor do Grande Capital: esse paramilitar fundou uma Escola de Tortura nos Planos, é responsável por assassinatos, massacres, violações, desaparecimentos forçados etc[5]. O instrumento paramilitar nunca cessou sua atividade.
O Terrorismo de Estado resultou em que 60% dos sindicalistas assassinados no mundo são assassinados em Colômbia por agentes estatais ou pela ferramenta paramilitar. A maior fossa comum da América Latina foi encontrada atrás do Batalhão Militar da Força Omega, com 2000 cadáveres de desaparecidos por esse Batalhão do Plano Colômbia, que tem assessoria estadunidense[6]. O Estado colombiano eliminou fisicamente um partido político: a União Patriótica, com mais de 5.000 militantes assassinados[7].
 
·Deslocamento populacional para benefício da acumulação capitalista
 
Colômbia é o segundo país do mundo em matéria de assassinatos de ecologistas, com 25 vítimas em 2014[8]. 80% das violações aos direitos humanos e 87% dos deslocamentos forçados de populações se produziram nas regiões em que as multinacionais perpetram a extração mineira. 78% dos atentados contra sindicalistas se produziram no setor mineiro[9].
O Terrorismo de Estado é empregado para produzir paralisação das reivindicações sociais e para produzir massivos deslocamentos populacionais para abrir caminho ao grande capital; a metade do território colombiano está agenciado em concessão por multinacionais mineiras. A estratégia de deslocamento populacional também é utilizada para despovoar o campo da base social da insurgência.
Mais de 6,3 milhões [10] de pessoas tiveram que abandonar suas terras após sobreviverem a massacres dirigidos intencionalmente contra a população, executados pelo exército e pela ferramenta paramilitar: foram deslocadas por uma planificação do terror a serviço da acumulação capitalista. Os bombardeios do exército sobre as comunidades campesinas e as fumigações com produtos cancerígenos são também instrumentos para o deslocamento populacional [11].
 
·A motosserra e a diplomacia
Quando falamos de Terror de Estado em Colômbia, falamos de que a ferramenta de guerra suja comete os massacres esquartejando com motosserra: vários paramilitares confessaram que foram fabricados vários fornos crematórios onde metiam suas vítimas vivas; também, criatórios de jacarés alimentados com os corpos dos desaparecidos; empalações que consistem em introduzir na mulher um pau de escova pela vagina até que lhe saia pela boca, violações coletivas e outras aberrações. As vítimas sobreviventes narram as torturas mais atrozes. O exército não fica atrás na barbárie; os massacres são cometidos com sua total colaboração. Há casos tão evidentes como o massacre de Mapiripán em que os paramilitares foram levados em aviões da força aérea do norte ao sul da Colômbia, para que estivessem 10 dias violando e esquartejando a comunidade; enquanto isso, o exército impedia que as vítimas saíssem e fez um cerco para impedir que alguém lhes desse auxílio: 60 campesinos foram esquartejados. O general Uscátegui confessou que sua tarefa era garantir o massacre e para isso combater a insurgência das FARC, que tentou romper o cerco militar para auxiliar a população [12].
Há milhares de casos que atestam que o paramilitarismo é uma política de Estado e do acionar conjunto da força militar e paramilitar: como o massacre da Cacarica, quando, entre outras atrocidades, os militares e paramilitares jogaram futebol com a cabeça do líder comunitário Marino López, obrigando a população a assistir ao horror [13]. O massacre do Salado é outro exemplo: os paramilitares torturaram e assassinaram 80 pessoas enquanto um helicóptero do exército sobrevoava o povoado disparando sobre os campesinos; os assassinos fizeram tocar música durante as torturas. As mulheres foram violadas e esquartejadas de maneira a deixar um rastro de medo indestrutível na memória coletiva [14]. O massacre de Awa em Tumaco é outro exemplo do Terrorismo de Estado: das 12 vítimas, cinco eram crianças, entre elas um bebê de 8 meses. A mãe da família tinha se atrevido a denunciar o exército [15]. O massacre de Mulatos em San José de Apartadó foi outro massacre perpetrado pelo exército e pelos paramilitares: 8 pessoas foram assassinadas com facões, entre elas meninos de 2, 5 e 11 anos. Os assassinos declararam que “esses meninos teriam se convertido em guerrilheiros se os tivéssemos deixado vivos” [16]. O Terrorismo de Estado tem a finalidade de deslocar populações e submetê-las.
As estratégias empregadas contra o povo colombiano, aperfeiçoadas por “formadores” estadunidenses e israelenses, são também empregadas em outros países como método de controle social, contra insurreição e a luta popular: o vemos em México, Honduras, Peru, Paraguai e até em Venezuela, onde a oligarquia recorre de maneira crescente ao paramilitarismo.
Outro exemplo de como o Estado em Colômbia está disposto a tudo para servir ao Grande Capital são os “falsos positivos”: são assassinatos de civis perpetrados pelo exército, que depois apresenta seus cadáveres como “guerrilheiros abatidos em combate”. Estes cadáveres são utilizados na guerra psicológica: os meios de comunicação os exibem permanentemente como “dissuasão pelo terror”. Se documentaram pelo menos 5.700 destes assassinatos [entre as vítimas há várias crianças]: é uma prática comum do exército colombiano, que continua em 2015, como o denuncia o CINEP [17]. Apesar das atrocidades perpetradas pelo exército colombiano contra o povo colombiano, os diplomatas continuam sorridentes, enquanto seu governo oferece o país às multinacionais: tudo está em ótimas condições para as grandes fortunas, esses padrinhos do mundo capitalista.
 
·      A verdadeira Paz não pode passar senão pela Justiça Social: há contradições de classe fundamentais
 
Para conseguir a paz em Colômbia faria falta o desmonte da estratégia de guerra suja implementada a partir do Estado e mudanças estruturais no modelo econômico que garantam a todos uma vida digna. Estas mudanças imprescindíveis têm sido reivindicadas nas Conversações de Paz entre a guerrilha e o governo; tanto pela insurgência das FARC como pelas reivindicações que o povo colombiano tem enviado a Havana. Porém, o tema da “Paz” foi manipulado mil vezes pela oligarquia, que é a que faz a guerra contra o povo desde há séculos: as distintas conversações entre a guerrilha e o Estado sempre se interromperam quando correspondia ao governo concretizar mudanças estruturais. A oligarquia não está disposta a uma mudança de modelo de desenvolvimento, nem a uma reforma agrária, nem a respeitar a soberania alimentar; porque é no atual modelo que se enriquece, às custas do povo. Tampouco o capitalismo transnacional aceitará que se mude o modelo extrativista da mega mineração e do agroindustrial que garante aos capitalistas um enriquecimento vertiginoso; e são temas indispensáveis para o povo: há contradições de classe fundamentais.
Nos diálogos de Havana se pôde conhecer as propostas políticas da insurgência sobre infinidade de temas; uma documentação muito interessante que lamentavelmente tem sido invisibilizada pelos grandes meios de comunicação. E também, há que assinalar, tem sido pouco difundida pelos meios alternativos internacionais. Isto talvez se deva a que a desinformação imposta pela mídia do capital deixou uma marca de preconceitos e confusões. Os diálogos têm sido cobertos pelos meios de comunicação de países não-alinhados com publicações superficiais que não aprofundam no conteúdo das proposições políticas. Estes meios são, no entanto, os que poderiam contribuir com um balão de oxigênio informativo a um povo submetido ao terror de Estado.
Numerosos pensadores críticos foram assassinados pelo Estado colombiano, como os professores Correa de Andreis e Freytter Romero, o advogado de presos políticos Carlos Salvador Bernal, o jornalista Clodomiro Castilla etc. Frente à magnitude da perseguição política, vários pensadores críticos elegem o caminho da clandestinidade e integram a insurgência.
 
            A burla do «todos são iguais»
Apesar da evidência de uma estratégia estatal de eliminação do pensamento crítico e da luta social, a partir da USAID é financiada a burla do «todos são iguais». Esta burla inclui o conceito difuso dos “atores armados”, que pretende equiparar: por um lado, o Terrorismo de Estado planejado para garantir o saqueio capitalista e desenvolvido sobre a doutrina do “inimigo interno”, que inclui a estratégia paramilitar e todo o apoio estadunidense; e por outro lado os movimentos populares constituídos em guerrilhas que têm claras reivindicações políticas contra o saqueio capitalista.
A USAID pretende impor esta burla mediante seu privilégio na mídia, mediante o financiamento de ONGs e mediante o extermínio do pensamento crítico.
Milhares de pensadores críticos foram vítimas de desaparecimento forçado; outros foram encarcerados, como a socióloga Liliany Obando, o jornalista Freddy Muñoz [de TeleSUR], o professor Miguel Ángel Beltrán, acusado de ser um “ideólogo das FARC”, simplesmente porque sua investigação acadêmica era sobre a insurgência. Outros pensadores críticos tiveram que se exilar. A oligarquia criminaliza algo que é fundamental: o estudo da história do povo colombiano, isto é, a história real e concreta do que sucedeu.
Durante o atual Diálogo de Paz, as FARC produziram fatos concretos, como uma trégua unilateral que durou cinco meses, enquanto o Estado prosseguiu a guerra. Inclusive as comunidades campesinas denunciaram que militares e paramilitares aproveitaram a trégua da insurgência para agredir ao campesinato em zonas nas quais não se atreviam a ir antes da trégua [18]. A trégua Unilateral da insurgência finalizou em maio de 2015 após um massacre de 27 guerrilheiros perpetrado pelo Estado colombiano, que bombardeou um acampamento insurgente, e depois assassinou os feridos à queima-roupa enquanto estes pediam auxílio [19]. Dois Delegados de Paz da guerrilha já foram assassinados pelo Estado colombiano. 
O Terrorismo de Estado continua em escalada sob os auspícios do padrinho estadunidense. Vários participantes dos fóruns temáticos desenvolvidos em Colômbia já foram assassinados ou desaparecidos pelo binômio militar-paramilitar; outros foram encarcerados.


  • A guerra econômica é o primeiro verdugo do povo colombiano
Os colombianos desejamos uma paz com justiça social, porque, continuando a situação de espoliação e exploração atual, não existe verdadeira paz para o povo, dado que continuará sendo vítima da miséria, exclusão, mortes por enfermidades curáveis, mortes por causa da fome e repressão sistemática por parte dos exploradores. A guerra econômica é o primeiro verdugo contra o povo colombiano; a segunda causa de vítimas é a Guerra Suja promovida a partir do próprio Estado e seus aparelhos repressivos oficiais e paramilitares; estas são realidades documentadas, sobre as quais, no entanto, os meios de alienação massiva se calam. Porque, para os proprietários dos meios de comunicação, a morte do povo não constitui uma guerra, somente concebem que há guerra a partir do momento em que seus interesses são tocados; é somente a partir do momento em que há insurgências contra o modelo de saqueio que os capitalistas definem que há guerra. Por isso o tema da paz com justiça social é chave para o povo colombiano, porque não queremos uma “paz dos cemitérios” na qual os exploradores possam continuar capitalizando sobre a morte de montanhas, rios e crianças.
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Cecilia Zamudio, junho 2015
Referencias:
(1)Injerencia de los EEUU, contrainsurgencia y terrorismo de estado, Renán Vega Cantor2015. http://www.corteidh.or.cr/tablas/r33458.pdf
(2) El río que se robaron, privatización provoca 14 mil muertes : https://www.youtube.com/watch?v=V0lSITRieDw
(3) 2011 El representante de la ONU para los Derechos Humanos, Christian Salazar, informó que la ONU estima que más de 57.200 personas han sido víctimas de desaparición forzada en Colombia http://www.argenpress.info/2011/05/escalofriante-cifra-de-desaparecidos-en.html
(7) 5.000 militantes asesinados. Plan « Baile Rojo » http://www.youtube.com/watch?v=QVL54FcZq5E&feature=gv
(8) Deadly EnvironmentGlobal Witness 
(9) Boletín Informativo No.18 de PBI Colombia, Noviembre de 2011 
(12) Masacre de Mapiripán: http://vimeo.com/5114407
Declaraciones del paramilitar Freddy Rendón: http://www.derechos.org/nizkor/colombia/doc/paz/alejo1.html
(14) “En su declaración, Juan Vicente Gamboa “Pantera” señaló a los militares como los autores intelectuales de la masacre. (…) se reunieron en el Batallón de Infantería de Marina con él y planearon la ejecución de la masacre de El Salado, ocurrida entre el 16 y 19 de febrero de 2000, y aseguró que los oficiales le entregaron una lista con varios nombres y que ofrecieron poner a su disposición un grupo de 25 infantes de marina. Fueron asesinadas 100 personas(…). Se ensañaron con las mujeres, violándolas y torturadoras, a una de las habitantes le introdujeron alambres por la vagina. Mientras les gritaban que eso era porque eran amantes de los guerrilleros”  http://sinolvido.justiciaypazcolombia.com/2015/02/la-danza-de-la-muerte-paramilitar-en-el.html
(15) Masacre de familia Awa en Tumaco, Nariño, 2009:  http://justiciaypazcolombia.com/La-Masacre-Awa-reflejo-de-la
(…) Una de las víctimas había denunciado ante la Fiscalía al Ejército Nacional como culpable del homicidio de su esposo, ella era testigo y había recibido amenazas”.
(17)  5700 "falsos positivos" documentados, 4200 militares et 22 generales bajo investigación. CINEP denuncia continuidad de esta política de Estado http://ojosparalapaz-colombia.blogspot.com.es/2015/05/persiste-la-politica-de-estado-de-los.html
CINEP documentos,
 Telesur : https://www.youtube.com/watch?v=m7An_VcmQZg
Documento « Una herida que sigue abierta » http://www.verdadabierta.com/especiales-v/2015/falsos-positivos/
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Equipe ANNCOL - Brasil