"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quinta-feira, 7 de maio de 2015

A 15 anos do Movimento Bolivariano.


“…Temos o dever de contribuir para resgatar o espírito bolivariano em meio ao matagal mentiroso da interpretação oficial e pró-imperialista de sua obra, com o propósito de tornar viva sua imagem às massas populares da América. São elas as herdeiras legítimas de seu ardente pensamento genitor, e o limo fecundo que há de encarná-lo e multiplicá-lo na hora de agora e na história dos séculos”. (Gilberto Vieira)
Se cumpre hoje o décimo quinto aniversário do lançamento do Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia. Um movimento político amplo porém clandestino que surgiu numa data como hoje em 2000 durante o Processo de Paz que se adiantou em San Vicente del Caguán.
O Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia continua reunindo povo na clandestinidade, agitando suas brancas bandeiras de paz e o amarelo, azul e vermelho tremulando na luta pela pátria do futuro, a que sempre queremos em paz, com democracia, com dignidade e com soberania.
Em Havana, também estamos construindo a nova história da Colômbia.
Quanta razão tinha em suas palavras o legendário guerrilheiro Manuel Marulanda Vélez quando, dirigindo-se naquele 29 de abril de 2000 a milhares de homens e mulheres e à juventude reunida, manifestou:
Este encontro vai ser histórico em Colômbia pelo surgimento de um novo Movimento onde todos, sem distinções políticas, raças ou credos possam agrupar-se para defender seus interesses econômicos e sociais, com a certeza de que estamos abrindo caminhos para uma nova democracia, sem o temor de ser assassinados pelo Estado, e ao mesmo tempo lutando contra a intervenção dos Estados Unidos em nossos assuntos internos...”
E, por sua vez, o comandante Alfonso Cano, chefe desse Movimento Bolivariano que começava a desdobrar sua potência transformadora, quando explicou a proposta política como um instrumento civil, amplo, poli classista, orientado para a conquista do poder, para o ressurgimento da Colômbia sob uma nova ordem social justa, com umas Forças Armadas inspiradas no espírito de nosso Libertador, garantidores da liberdade, da soberania e das conquistas sociais.
As práticas do exercício político –dizia o Comandante Cano naquela ocasião- devem transformar-se, mudando o que Gaitán chamou os “velhos costumes da pequena mecânica política” para dar passagem ao exercício de uma democracia essencialmente direta, onde as execuções dos administradores da coisa pública se correspondam estritamente com a vontade popular. Construir o Quarto Poder ou o Poder Moral, como ensinou nosso Libertador, a partir do povo, para erradicar a corrupção e assinalar direções éticas certas aos administradores e à própria sociedade. Fazer da liberdade de imprensa uma realidade que impeça o monopólio, a manipulação e a desinformação. Revogar o mandato de todos os politiqueiros responsáveis pelo caos atual e alicerçar precedentes exemplares que erradiquem a impunidade das arbitrariedades que foram exercidas a partir do poder contra a nação inteira”.
...O rosto semioculto do Libertador Simón Bolívar que faz parte da presidência deste ato e que descobre seu nobre e profundo olhar, -dizia o imolado comandante-, significa que o novo Movimento Político terá um funcionamento clandestino. A amplitude dos objetivos a conquistar não ocultam os perigos que pairam sobre sua existência.
Não repetiremos a experiência da União Patriótica onde a heroicidade de seus integrantes e a generosidade que caracterizou seu compromisso foram brutalmente abatidas pelas Forças Armadas oficiais em trajes civis, até praticamente fazê-la desaparecer”.
...Assim que todos e cada um dos integrantes do Novo Movimento terão uma atividade dentro do setor social onde viva, trabalhe ou estude, sem que seja de público conhecimento seu pertencimento político. Como todos os bolivarianos, deverá fazer esforços por colocar-se à frente das lutas pelas reivindicações do povo e só compartilhará seu segredo com os poucos companheiros que lhe sejam destinados para trabalhar. Ninguém mais será conhecedor de seu pertencimento bolivariano”.
Difícil?, se perguntava o comandante, certamente sim, porém todos devemos relembrar que são os inimigos do poder os que impuseram as condições. Se as circunstâncias políticas mudam positivamente pela ação popular ou o processo de diálogos avança significativamente, ou se crescemos até ser maioria atuante e combativa, analisaremos a conveniência de novas formas de trabalho e de organização”.
Dentro de tais lineamentos tem marchado o Movimento Bolivariano durante estes 15 anos, aspirando a poder em algum momento mostrar seu rosto pleno porque se abriram em Colômbia as amplas avenidas da democracia.
Como diz a Carta de Reunião do MB: esta nova construção política alternativa é um movimento amplo, sem estatutos, regulamentos, nem discriminações, com exceção dos inimigos do povo. Não tem escritórios e sua sede é qualquer lugar da Colômbia onde haja inconformistas. No Movimento Bolivariano cabem todos os patriotas que sonhem com a concretização do pensamento político e social do Libertador. “Sua base a constituem milhões de colombianos vinculados aos núcleos clandestinos, de múltiplas e variadas formas como círculos, juntas, oficinas, famílias, uniões, irmandades, grupos, clubes, associações, conselhos, mesas de trabalho, mingas, confrarias, comitês e todas as formas que a bem tenham seus integrantes adotar e que, a seu ver, lhes garanta o segredo de pertencimento e a compartimentação”.
Hoje, a 15 anos de seu lançamento lá no Caguán, estamos renovando esse chamamento:
Todas e todos os que se sintam bolivarianos venham com nós outros, que o Movimento Bolivariano é uma imensa bandeira ao vento que segue em construção e que poderia ter neste momento a possibilidade histórica de dar o salto à luta política aberta, sempre e quando, como dissera Alfonso, AS CONDIÇÕES O PERMITAM.
É necessário, então, levar adiante este processo de paz que acendeu novamente a chama da esperança.
A unidade nos está dizendo nas mobilizações populares e em todos os rincões da pátria inconformista que é factível um triunfo popular se nos levantamos como um só punho de indignação frente ao mau governo.
A Colômbia pode ser governada de outra maneira. E isso é o que as FARC-EP queremos. Nos perguntamos: Por que têm que reger nosso destino as mesmas castas oligárquicas de sempre?
Estamos fatos de corrupção, de magistrados corruptos, de sistemas eleitorais fraudulentos, da entrega de nossas riquezas e nossa soberania às transnacionais, de arbitrariedades do poder e da brutal repressão, sim; porém, também sabemos que “não há melhor maneira de alcançar a liberdade que lutar por ela”.
Temos a certeza na vitória da reconciliação dos colombianos e é por isso que convocamos à rebeldia da juventude, às mulheres descendentes da Pola, aos campesinos, aos povos indígenas e comunidades negras, aos trabalhadores e desempregados, aos acadêmicos, aos policiais e militares bolivarianos, aos que queiram pátria soberana, a todos eles os convidamos a reunir-nos neste Movimento que nasceu há 15 anos em San Vicente del Caguán, como um instrumento de todos e todas para mudar a política, a economia, a educação, em favor da justiça social e do humano, com o sentimento de solidariedade que todos levamos por dentro.
Vamos, pois, pôr nosso peito nesse ideal, à restauração moral da República, confluindo na imensa exuberância da Constituinte, com sua força transformadora que há de abrir passagem à materialização do Tratado de Paz que todos desejamos que ponha fim a esta guerra, de um tratado de paz que nasça das mãos do povo colombiano que é o máximo poder soberano que nossa nação tem.
Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia.
La Habana, Cuba, 29 de Abril de 2015.
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Equipe ANNCOL - Brasil

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Colômbia: De qual paz fala, senhor Santos? Ou a fábula do farsante e a pomba ultrajada


Por: Matilde E Trujillo Uribe I Abril 2015 I


De que paz fala, senhor Santos? Isso tenho me perguntado quando vejo os horrores que você e o governo que preside assestam sobre o povo. Uma profanação de todos os direitos, uma armadura de poder e submissão, um simulacro de democracia com a morte cavalgando. Há três meses e 23 dias que iniciou neste ano e em tão pouco tempo os fatos gerados a partir de seu poder e do de sua classe espantam. Em linhas posteriores me referirei a alguns. Continuam a brutal política de extermínio, saqueio, despojo, entrega do país às multinacionais.[1] Vocês entregam nosso país como se fosse sua propriedade privada. Essas são, entre outras, as “graças” de sua classe, para as terríveis desgraças do povo. Não é diferente do que vem sucedendo com os sucessivos governos de turno desde a Frente Nacional, a não ser pelo incremento do sistema da cobiça.[2]
Julgará você, ainda que seu julgamento assinado por interesses USA não deve ser muito equânime. Então, os leitores julgarão. Senhor presidente Juan Manuel Santos, você tem ultrajado e fendido a paz, sem deixar lugar nem rincão algum do país sem essa marca de humilhação e barbárie própria de sua classe contra os humildes. Vocês impuseram a guerra. Como? Deslocando, massacrando, reprimindo, assassinando, encarcerando, empobrecendo, desaparecendo camponeses, indígenas, trabalhadores, operários, desempregados, estudantes, sindicalistas... e mais dos ninguéns, como diria o grande Galeano. Guerra que indolentes dissimulam com sorrisos de papelão, trajes de gravata e discursos de bobos da corte.
Porém, você fala de paz com arrogância em todos os cenários –há pouco se deleitava na Cúpula das Américas-. A paz é para você essa falsa roupagem com que vem se cobrindo desde que começaram as chamadas conversações com os insurgentes. A essa paz que você pronuncia, contrária aos fatos, temos de substitui-la e combatê-la até enterrá-la e lhe poremos uma cruz de estrada, como as que se veem a caminho de Buenaventura de terrível desventura. Inicio com alguns desses fatos da degoladora paz que alenta sua importante classe.
Fatos escabrosos: corpos desmembrados, desfigurados, torturados. As “casas onde os paramilitares esquartejam” : matança humana que mostra a demência paramilitar e o anticomunismo que lhe infundiram em suas entranhas os instrutores militares. Como é possível que um país mantenha tal grau de horror? Como se incuba e desenvolve? Você anunciou há mais de um ano ante a opinião pública que buscaria resolver esse assunto... Não é para menos, é um imperativo, uma exigência, uma obrigação sua como presidente! Porém... Que fez você? Militarizou a Colômbia. E pareceria um paradoxo que com toda essa força militar continua viva a tragédia; se não se soubesse que o paramilitarismo está preconizado nos mesmos militares. Você adianta a Aliança Pacífico –OTAN-, seu Master Plan 2050, os megaprojetos de ampliação portuária, a exploração mineira, a nova zona industrial que assentarão nos que antigamente foram os bairros que arrasaram a população nativa. Em Buenaventura agita a caldeira do diabo: desaparições, massacres, despojo, desterro e deslocamento. Expulsam com toda barbárie a seus habitantes para seus planos pró-imperialistas. O que podemos deduzir, senhor Santos?
E na Guajira, onde o mar há de estar bramindo de dor, os indígenas Wayúu estão morrendo de fome e sede, porque o rio mãe do qual se abasteciam, seu rio ancestral, foi represado e sua água privatizada pela exploração da maior mina de carvão [a céu aberto] do mundo. Por efeito disso e das condições deploráveis de descuido e abandono, as crianças estão morrendo de inanição, as mulheres de dor, os homens de desolação, os velhos de tristeza. É outro feito de paz, senhor Santos? Esta, a maior etnia indígena da Colômbia, atacada por seu governo que entrega, e respalda, não a seu povo mas sim às multinacionais que saqueiam o país.
Outro acontecimento recente que reitera a indolência de sua paz e a de sua classe ocorreu no norte de Antioquia: as Empresas Públicas de Medellín e a polícia da qual vocês tanto se vangloriam procederam a desalojar crianças, velhos, mulheres e homens que habitavam ancestralmente as ribeiras do cânion do rio. Comunidades que encontravam seu sustento através da procura do ouro mediante o método artesanal, da pesca e da agricultura tradicional respondendo a suas necessidades de subsistência. A inspetora ordena desocupar o lugar em três horas, o esquadrão móvel antidistúrbios –ESMAD, esse aparato de guerra, repressão e morte que vocês têm para silenciar marchas, protestos, greves, os cerca intimidando-os e afrontando-os. Como consequência, mais de 81 pessoas se veem obrigadas a deslocar-se.[3] Se enfurecem contra os despossuídos para beneficiar seus cofres?
Repressão! Esse é o tratamento com que você e seu governo ultrajou também aos humildes cortadores de cana que tiveram que recorrer à greve para defender seus direitos. “Às 5 da manhã..., um numeroso contingente do ESMAD atacou com força brutal a mais de 500 cortadores de cana do Engenho Risaralda”. “Agarraram-nos dormindo e lhes caíram em cima com paus e porretes. Até lhes tiraram seus facões e começaram a investir contra eles”. “Moeram-nos a golpes e neles dispararam bombas lacrimogêneas à queima-roupa”. Sem palavras, que podemos pensar, senão que seu sobrenome deveria aludir aos mil demônios.[4]
E no norte do Norte do Cauca a população indígena, dado o descumprimento do Estado –devolver-lhes as terras-, se viram impelidos à Minga de Libertação da Mãe Terra. Procederam a tomar as terras que lhes haviam sido despojadas, que fez você? Seu governo reitera a violenta agressão mediante seu aparato de terror, o ESMAD, gases lacrimogêneos, artefatos não convencionais e armas de fogo. O resultado: crianças, mulheres e homens feridos. Não tinham passado senão escassos dois meses, quando assassinam a 6 comuneiros indígenas, o massacre[5] foi silenciado pela mídia [enquanto faziam algazarra pelos 11 soldados mortos, fato simultâneo, ao qual em seguida me referirei]. Os assassinatos dos 6 comuneiros são aqueles tão característicos da conivência de paramilitares e exército. Se atracam contra os humildes, pois não vimos que tal atrocidade suceda aos que fazem parte de sua classe.
Nas regiões do Meta, do Cesar, do Magdalena, assim como na do Magdalena Medio, que melhor testemunho que o da delegação Asturiana de Verificação dos Direitos Humanos que esteve neste ano no país realizando esta observância?[6] Extrairei alguns trechos: “se incrementaram as montagens judiciais e as detenções massivas como método de retaliação contra aqueles que se negam a cooperar com o exército, usando como prova o depoimento de desmobilizados, ou dados fornecidos pelas tropas que não chegam nem a ser constitutivos de indício de atividades ilícitas. As detenções massivas também estão se produzindo contra opositores dos projetos mineiros e energéticos. Um plano sistemático contra a Marcha Patriótica e o Congresso dos Povos e suas organizações integrantes nas regiões, o que resulta muito preocupante por antecedente de extermínio da UP”. “Persiste a prática ilegal do exército de realizar blitz inesperadas para forçar o recrutamento de jovens campesinos...” As empresas transnacionais estão ocupando enormes territórios, gerando graves conflitos..., e se vão erigindo numa espécie de “estados dentro do Estado”. Violam com impunidade normas trabalhistas, ambientais e tributárias e impõem à população restrições de mobilidade como ocorre com Pacific Rubiales, que transfere para as comunidades sua “crise”, aumentando pobreza, desemprego, ademais de repressão e destruição ambiental histórica ou das multinacionais do carvão [Drummond, Goldman Sachs, Cerrejón-Glencore-BHP e outras] no Cesar”. Essa é sua carniceira paz senhor Santos? Poderia percorrer com estas linhas todo o território nacional e o quadro se repete.
E novamente a paz ultrajada com a lei de restituição de terras de seu governo, outra farsa para os que buscam justiça. Não, não serve. Tal é o caso dos pequenos mineiros do sul de Bolívar aos quais se lhes despojou do território em que viviam e trabalhavam. Sua pertinaz luta durante 11 anos termina flutuando entre ar nauseabundo e fedor dos direitos desfeitos.[7] Ou a daqueles que empreenderam marcha para recuperar as parcelas que lhes foram arrebatadas 15 anos atrás com ciladas, agressão e pressões. Me relembra essa canção “Lamento Borincano”, que pouco ou nada sentirão os de sua oligárquica classe. Em Urabá homens e mulheres, crianças e velhos saem pela vereda, pensam remediar sua situação, palavras de ordem alegres ao passo de seu andar, seus cartazes dizem “terra e paz”, ao chegar se encontram com a crua realidade; e, como o “jibarito”, tristes voltam à margem da rodovia.[8] Senhor presidente Santos, é evidente que a paz de seu governo tem o selo das elites corruptas e farisaicas; é evidente que a paz concebida a partir da riqueza e dos privilégios, a partir dos que favorecem o grande capital, a partir dos que detêm o poder, é contrária e oposta de como a concebe, a sente e a vive o povo. E assim o expressou o povo com veemência na marcha do 9 de abril. Nela a paz emergia como um animal ferido com sede de justiça social, de equidade, de democracia, de soberania, uma paz concebida como a realização plena dos direitos todos, saúde, educação, alimento, teto, a vida, o direito à terra e ao território. Vocês arruinaram os direitos do povo com os espinhos venenosos do seu mal nascido poder.
Que brutalidade! Feridos, mortos e encarcerados por lutar por seus direitos, vítimas nos campos e nas cidades, inclusive os que não estavam armados!, que não estavam combatendo e não brotaram por efeito do conflito ou enfrentamento armado de sua classe com a insurgência. Porém, tem você o cinismo à flor da pele, culpar a outros pelo dessangramento e a crueldade em que vem se debatendo o povo colombiano. Não, senhor Santos. Assumam sua responsabilidade!, isto não é novo nem excepcional, não são fatos isolados. Ouvi dizer e compartilho que a responsabilidade de uma guerra incumbe, em primeiro lugar, aos que a provocam, então e não precisamente são responsáveis os que se indignam e a convocam ou os que, com o supremo direito à rebelião, a enfrentam.
Eu creio, senhor Santos, talvez por apegar-me à esperança, que você é incoerente, ou por acaso são as habilidades de um jogador de pôquer? Que se pretenda a paz fazendo a guerra? Isso e nada é o mesmo. Pelo Cessar-fogo Bilateral se pronunciam diversas organizações sociais, políticas, ambientais, nacionais e internacionais. Foi também uma palavra de ordem arejada na marcha do 9 de abril. Também que abra os diálogos com toda a insurgência, o Exército de Libertação Nacional e o Exército Popular de Libertação, pois, como se entende uma divisão desta forma? Se lhes pede, se lhe roga, se lhe exige que cessem as operações militares, os brutais bombardeios que tudo destroem!, que cesse o dessangramento!, que esta aposta não seja unilateral. Relembro que um trecho do informe da delegação de Paz da insurgência dizia que no marco do cessar unilateral “o exército está realizando operações ofensivas contra as insurgências, dando-se casos de execuções de guerrilheiros que estavam feridos e, portanto, fora de combate”. A meu ver, esses assassinatos são mais que covardia, isso é outra mostra dos vis métodos com que os militares enfrentam ao adversário.
E isso me lembra o ocorrido recentemente no norte do Cauca em que perderam a vida 11 soldados. Pessoas também do povo que vocês usam como bucha de canhão. Porque não temos visto que os da oligarquia ponham seu peitinho, nem mandem seus filhos a tal ex abrupto. Diz o exército que foram atacados como se fossem mansas pombas, que se meteram ali “buscando proteger a população civil para enfrentar aos grupos criminosos que delinquem ali”, são palavras do General Valencia, não minhas. Quando o que os militares fizeram foi violar o DIH ao instalar suas casernas em meio à população civil, pondo-a assim em risco. Depois em seus meios de comunicação exacerbam e deformam os fatos para fazer uma propaganda contra os diálogos. O descaramento é que pouco disseram quando seu exército, aproveitando a trégua unilateral das FARC-EP, matou pelo menos 20 guerrilheiros em Nariño.*[9] É que a vida vale segundo seu critério? e “a vida não vale nada se ignoro que o assassino trilhou por outro caminho e prepara outra cilada”.*[10] Não pretenderão que, ao meter-se em terreno do adversário com armas e equipamento militar, exercer operações militares em todo o país, e em razão de que a outra parte esteja em trégua, estes fiquem quietos esperando que os matem? E por acaso devemos recolher-nos sem contestar sua versão? Eu vi como mentem uma e outra vez: é que temos de fazer caso omisso da versão da outra parte da contenda?
Nas cidades, senhor Santos, também sentimos a paz ultrajada, ferida, quase sem respiro, sumida e subsumida no modelo neoliberal que vocês, as elites com cheiro de enxofre, implementam. Essa injustiça que você, de tão grande linhagem, descendente dos que manejaram o país, não quer que se toque. Foi do primeiríssimo que nos diálogos em Havana deixaram sentado. E que ironia, os “maus”, segundo vocês advogando pelos anseios populares, e vocês, os “bons”, agindo contra esses anseios. Vocês reabastecidos de riqueza decidindo os destinos do povo com ácido muriático. Nas cidades não é mais que ver crianças e velhos jogados nas ruas buscando nos lixos restos de pão, para vocês são invisíveis, os ninguéns não interessam. Que os trabalhadores tenham salários de fome, que lhes importa, se são vocês os que decidiram que ganhem no mês o que vocês gastam numa noite de farra e diversão, a tal terceirização para cortar seus direitos. O povo amontado como animais cercados nos cordões de pobreza e miséria, enquanto vocês em luxuosas mansões se apropriam da cidade privatizando até as ruas e as árvores e as flores. A saúde e a educação como negócios de alta corrupção. Longo capítulo implicaria referir como se expressa a paz nas cidades com o selo da peçonha oligárquica. Mas não posso omitir, assim seja em curtas linhas, o incremento das ameaças a líderes, ativistas sociais, defensores de DDHH, organizações sociais. Os assassinatos seletivos como o que no início do ano se infringiu sobre o dirigente do Congresso dos Povos. [11] E, como se fosse pouco, se lhe soma o descumprimento de todo e qualquer acordo com os setores populares, a impunidade mais atroz, os terríveis campos de concentração e tortura, os cárceres de toda impiedade com o putrefato poder que vocês derramam.[12]
Senhor Santos, entenderá porque não posso despedir-me com meus melhores desejos para você e os de sua classe. Me empenho em crer que um dia desaparecerão da face da terra e que o povo vencerá para viver um novo amanhecer. Vocês impuseram a guerra e o povo imporá a Paz.


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Nota: Meu intento por não fazer longo este artigo foi impossível. Muitos fatos que ocorreram no presente ano de 2015 necessitariam ser registrados. A magnitude do que tem sido a política contrária à paz deste governo é impossível de se sintetizar em poucas páginas. Selecioná-los é outro risco, ao final não apliquei um critério estrito, mais bem algo ao acaso. Não cito todas as fontes consultadas, porém cada fato registrado podem encontrá-lo na rede.



(1) 40% do território colombiano está pedido em concessão para a mineração multinacional. Mais de um terço das transnacionais são estadunidenses.


(2) Os anos mais violentos da guerra em Colômbia remetem à década dos ’40, particularmente 1946-1950, superados em anos recentes pelos crimes do paramilitarismo [estratégia estatal].
(8) Para estes 100 campesinos a lei de restituição de terras.Las2orillas.
(9) Exército aproveita trégua unilateral das FARC EP e mata pelo menos 11 guerrilheiros em Nariño
(10) Canção: La vida no vale nada vem ao caso.



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Equipe ANNCOL - Brasil

terça-feira, 5 de maio de 2015

Vencer a batalha das ideias


Por Emir Sader


E quando, finalmente, a esquerda chegou ao governo, tinha perdido a batalha das ideias.”A afirmação de Perry Anderson sintetiza o maior desafio para os que queremos superar e substituir o neoliberalismo em todas suas dimensões.


Significa que o neoliberalismo fracassou como proposta econômica, o que abre a possibilidade para que a esquerda apareça como alternativa de governo. Quando chega ao governo, tem que enfrentar toda a herança maldita do neoliberalismo: recesso, enfraquecimento do Estado, desindustrialização, fragmentação social, entre outras coisas.


Mas, além disso, tem que enfrentar o elemento de maior força do neoliberalismo, a nível de cada pais, mas também a nível internacional: sua força ideológica, a força do “modo de vida norte-americano”, que impõe sua hegemonia de forma quase inquestionada em escala global. 


O estilo de consumo shopping center se globalizou de maneira aparentemente avassaladora. É uma espécie de ponta de lança do neoliberalismo, materializando seu principio geral, de que tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra. Por isso o shopping center é o exemplo mais claro do que se convencionou chamar de “não lugares”.


O shopping costuma não ter nem janela, nem relógio. Entrar em um desses espaços é se desvincular das condições de vida nas cidades como efetivamente existem, para se articular com a rede de consumo globalizada, mediante às marcas e seu estilo de consumo. Com o conjunto de “vantagens” que traz o shopping center -  proteção do mal tempo, do roubo, com lugar para estacionar, com grande quantidade de cinemas, de lugares para comer, além da diversidade de marcas, todas globalizadas – representa um instrumento poderoso de formas de vida, de sociabilidade, construídas em torno do consumo e dos consumidores.


O shopping center é a utopia neoliberal e expressa, da forma mais acabada – junto com a publicidade, as marcas, a televisão e o cinema norte-americanos, entre outros instrumentos – a hegemonia do modo de vida norteamericano. Lugar que ocupa praticamente sem questionamentos, salvo resistências do islamismo ou dos evangélicos.
A luta antineoliberal conseguiu impor consensos no plano econômico contra a centralidade do mercado, a favor da prioridade das políticas sociais, por exemplo. Mas não gerou ainda valores, formas de sociabilidade, alternativas ao neoliberalismo e a seu mundo de valores mercantilizados. É certo que há mecanismos monstruosos de promoção dos valores neoliberais, mas também é certo que não temos valores alternativos – solidários, humanistas – que apareçam como alternativas.
As politicas sociais dos governos pós-neoliberais tem um caráter solidário e humanista, mas não fomos capazes de traduzi-las em formas de sociabilidade, em valores, alternativos ao egoísmo consumista do neoliberalismo.
Não se pode simplesmente incorporar propostas anti-consumistas, em sociedade em que o acesso ao consumo é uma conquista para a grande maioria da população. Acesso que traz, junto, as vantagens do consumo e, por extensão, promove o mundo do consumo – incluído o shopping center – como um objetivo de vida. Assim, não se trata de uma batalha simples. Mas é indispensável para a construção de um mundo solidário e humanista.
Sem a critica do egoísmo consumista dominante, da falta de solidariedade – especialmente com os mais frágeis -, nao conserguiremos avançar contra a forte hegemonia ideológica do neoliberalismo e ganhar a decisiva batalha das ideias, decisiva nos enfrentamentos centrais do mundo de hoje.

Por Emir Sader

E quando, finalmente, a esquerda chegou ao governo, tinha perdido a batalha das ideias.”A afirmação de Perry Anderson sintetiza o maior desafio para os que queremos superar e substituir o neoliberalismo em todas suas dimensões.


Significa que o neoliberalismo fracassou como proposta econômica, o que abre a possibilidade para que a esquerda apareça como alternativa de governo. Quando chega ao governo, tem que enfrentar toda a herança maldita do neoliberalismo: recesso, enfraquecimento do Estado, desindustrialização, fragmentação social, entre outras coisas.


Mas, além disso, tem que enfrentar o elemento de maior força do neoliberalismo, a nível de cada pais, mas também a nível internacional: sua força ideológica, a força do “modo de vida norte-americano”, que impõe sua hegemonia de forma quase inquestionada em escala global. 


O estilo de consumo shopping center se globalizou de maneira aparentemente avassaladora. É uma espécie de ponta de lança do neoliberalismo, materializando seu principio geral, de que tudo é mercadoria, tudo tem preço, tudo se vende, tudo se compra. Por isso o shopping center é o exemplo mais claro do que se convencionou chamar de “não lugares”.


O shopping costuma não ter nem janela, nem relógio. Entrar em um desses espaços é se desvincular das condições de vida nas cidades como efetivamente existem, para se articular com a rede de consumo globalizada, mediante às marcas e seu estilo de consumo. Com o conjunto de “vantagens” que traz o shopping center -  proteção do mal tempo, do roubo, com lugar para estacionar, com grande quantidade de cinemas, de lugares para comer, além da diversidade de marcas, todas globalizadas – representa um instrumento poderoso de formas de vida, de sociabilidade, construídas em torno do consumo e dos consumidores.


O shopping center é a utopia neoliberal e expressa, da forma mais acabada – junto com a publicidade, as marcas, a televisão e o cinema norte-americanos, entre outros instrumentos – a hegemonia do modo de vida norteamericano. Lugar que ocupa praticamente sem questionamentos, salvo resistências do islamismo ou dos evangélicos.
A luta antineoliberal conseguiu impor consensos no plano econômico contra a centralidade do mercado, a favor da prioridade das políticas sociais, por exemplo. Mas não gerou ainda valores, formas de sociabilidade, alternativas ao neoliberalismo e a seu mundo de valores mercantilizados. É certo que há mecanismos monstruosos de promoção dos valores neoliberais, mas também é certo que não temos valores alternativos – solidários, humanistas – que apareçam como alternativas.
As politicas sociais dos governos pós-neoliberais tem um caráter solidário e humanista, mas não fomos capazes de traduzi-las em formas de sociabilidade, em valores, alternativos ao egoísmo consumista do neoliberalismo.
Não se pode simplesmente incorporar propostas anti-consumistas, em sociedade em que o acesso ao consumo é uma conquista para a grande maioria da população. Acesso que traz, junto, as vantagens do consumo e, por extensão, promove o mundo do consumo – incluído o shopping center – como um objetivo de vida. Assim, não se trata de uma batalha simples. Mas é indispensável para a construção de um mundo solidário e humanista.
Sem a critica do egoísmo consumista dominante, da falta de solidariedade – especialmente com os mais frágeis -, nao conserguiremos avançar contra a forte hegemonia ideológica do neoliberalismo e ganhar a decisiva batalha das ideias, decisiva nos enfrentamentos centrais do mundo de hoje.

domingo, 3 de maio de 2015

Encontro de solidariedade a Cuba pede fim do bloqueio imperialista

A presidenta do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (Icap), Kenia Serrano, chamou neste sábado (2) a multiplicar os esforços na luta pelo fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos à ilha caribenha.


Ao fazer uso da palavra durante o Encontro Internacional de Solidariedade a Cuba, que se realiza no Palácio das Convenções, em Havana, Kenia Serrano explicou que o regresso dos cinco antiterroristas a sua pátria não pode desmobilizar as forças amigas da nação antilhana.

A causa dos Cinco - como são chamados Renê González, Fernando González, Antonio Guerrero, Antonio Labañino e Gerardo Hernández – concentrou a maior parte da energia dos movimentos de solidariedade com nosso país, explicou Kenia no ato do primeiro vice-presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.

Mas sua volta ao país não nos pode deter, pois necessitamos do clamor mundial para recuperar o território cubano que a base naval de Guantânamo ocupa de maneira ilegal, indicou Kenia Serrano perante mais de mil participantes de 70 nações.

Será necessário – assinalou - que os amigos de Cuba difundam a realidade da ilha como o exercício dos direitos humanos e o alcançado pela sociedade civil, assim como denunciar as campanhas midiáticas contra o país caribenho.

A presidenta do Icap qualificou de exitoso o apoio brindado a Cuba e a despeito da diversidade de ideias e opiniões políticas sempre se consegue concertar ações para a luta.

Por sua parte, o secretário geral da Central dos Trabalhadores de Cuba, Ulises Guilarte, destacou a valentia dos presentes na reunião e agradeceu seu apoio incondicional e solidário.

Hoje lhes pedimos - disse Guilarte - seu apoio na exigência da eliminação do bloqueio imposto por Washington, que ao contrário do que a manipulação midiática quer transmitir, continua intacto, sobretudo naqueles aspectos que mais afetam os cubanos.

Com Cubadebate

sábado, 2 de maio de 2015

FARC-EP respondem ao Procurador Ordóñez

Fumigações com glifosato não cabem dentro de nova política antidrogas”

Por intermédio do Comandante Joaquín Gómez, as FARC-EP relembraram ao Procurador Ordóñez que a política antidrogas promovida pelo Estado fracassou, que os principais beneficiários dos cultivos de coca não são os campesinos que a cultivam mas sim os bancos nacionais e estrangeiros que ficam com algo mais de 80% dos lucros do negócio. Assinalou, ademais, que nas últimas décadas todas as campanhas presidenciais foram financiadas com dinheiros do narcotráfico.

“Se efetivamente houve uma solicitação de suspender o uso do glifosato por parte do governo no que concerne à luta contra as drogas de uso ilícito, as FARC saudamos esta determinação, assim não tenha surgido como produto das conversações de Havana, pois está claro que em relação com tal assunto especificamente, há uma divergência central com os delegados do Presidente Santos”, manifestou o comandante Gómez.

Denunciou que estas fumigações têm feito um dano terrível ao ecossistema e prejudicado gravemente aos campesinos, e assinalou que a nova política antidrogas deve basear-se nos direitos humanos; ademais, a erradicação deve ser combinada e acompanhada de projetos de desenvolvimento.

“Pensamos que, se de verdade quer contribuir para A Paz da Colômbia, o qual se nos apresenta como bastante duvidoso, deveria propender para que o acordo parcial de Havana nesta matéria tome imediata aplicação no território nacional, contando com que as FARC-EP têm a absoluta disposição para contribuir na aplicação do mesmo”, foi a última mensagem que o comandante Joaquín Gómez enviou ao Procurador Ordóñez.
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Equipe ANNCOL - Brasil

25 doenças que podem ser causadas pelo agrotóxico glifosato

A Monsanto investiu no herbicida glifosato e o levou ao mercado com o nome comercial de Roundup em 1974, após a proibição do DDT. Mas foi no final dos anos 1990 que o uso do Roundup se massificou graças a uma engenhosa estratégia de marketing da Monsanto. A estratégia? Sementes geneticamente modificadas para cultivos alimentares que podiam tolerar altas doses de Roundup.

Com a introdução dessas sementes geneticamente modificadas, os agricultores podiam controlar facilmente as pragas em suas culturas de milho, soja, algodão, colza, beterraba açucareira, alfafa; cultivos que se desenvolviam bem enquanto as pragas em seu redor eram erradicadas pelo Roundup.

Ansiosa por vender seu emblemático herbicida, a Monsanto também incentivou os agricultores a usar o Roundup como agente dessecante, para secar seus cultivos e assim fazer a colheita mais rapidamente. De modo que o Roundup é usado rotineira e diretamente em grande quantidade de cultivos de organismos não modificados geneticamente, incluindo trigo, cevada, aveia, colza, linho, ervilha, lentilha, soja, feijão e beterraba açucareira.

Entre 1996 e 2011, o tão difundido uso de cultivos de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) Roundup aumentou o uso de herbicidas nos Estados Unidos em 243 milhões de quilogramas – ainda que a Monsanto tenha assegurado que os cultivos de OGM reduziriam o uso de pesticidas e herbicidas.

A Monsanto falsificou dados sobre a segurança do Roundup e o vendeu para departamentos municipais de parques e jardins e também a consumidores como sendo biodegradável e estando de acordo com o meio ambiente, promovendo seu uso em valetas, parques infantis, campos de golfe, pátios de escola, gramados e jardins privados. Um tribunal francês sentenciou que esse marketing equivalia a publicidade enganosa.

Nos quase 20 anos de intensa exposição, os cientistas documentaram as consequências para a saúde do Roundup e do glifosato na comida, na água potável, no ar e nos lugares em que as crianças brincam.

Descobriram que as pessoas doentes têm maiores níveis de glifosato em seu corpo do que as pessoas sadias. Também encontraram os seguintes problemas de saúde que eles atribuem à exposição ao Roundup e/ou ao glifosato:

1)  TDHA: nas comunidades agrícolas, existe uma forte relação entre a exposição ao Roundup e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, provavelmente devido à capacidade do glifosato de afetar as funções hormonais da tireoide.

2)  Alzheimer: no laboratório, o Roundup causa o mesmo estresse oxidativo e morte de células neurais observados no Alzheimer. Isso afeta a CaMKII, uma proteína cuja desregulação também foi associada à doença.

3)  Anencefalia (defeito de nascimento): uma pesquisa sobre os defeitos no tubo neural de bebês cujas mães viviam em um raio de mil metros de distância de onde se aplicava o pesticida mostrou uma associação entre o glifosato e a anencefalia; a ausência de uma grande porção do cérebro, do crânio e do pericrânio formado durante o desenvolvimento do embrião.

4)  Autismo: o glifosato tem um número de efeitos biológicos alinhados a conhecidas patologias associadas ao autismo. Um desses paralelismos é a disbiose observada em crianças autistas e a toxicidade do glifosato para bactérias benéficas que combatem bactérias patológicas, assim como a alta resistência de bactérias patógenas ao glifosato. Além disso, a capacidade do glifosato de facilitar a acumulação de alumínio no cérebro poderia fazer deste a principal causa de autismo nos EUA.

5) Defeitos de nascença: o Roundup e o glifosato podem alterar a vitamina A (ácido retinoico), uma via de comunicação celular crucial para o desenvolvimento normal do feto. Os bebês cujas mães viviam em um rádio de 1 km em relação a campos com glifosato tiveram mais que o dobro de possibilidade de ter defeitos de nascença segundo um estudo paraguaio. Os defeitos congênitos se quadruplicaram na década seguinte a que os cultivos com Roundup chegaram ao Chaco, uma província da Argentina na qual o glifosato é utilizado entre 8 e 10 vezes mais por acre do que nos EUA. Um estudo em uma família agricultora nos EUA documentou elevados níveis de glifosato e defeitos de nascença em crianças, tais como ânus não perfurados, deficiências no crescimento hormonal, hipospádias (relacionada à normalidade da abertura urinária), defeitos no coração e micropênis.

6) Câncer cerebral: em um estudo comparativo entre crianças sadias e crianças com câncer cerebral, os pesquisadores detectaram que, se um dos pais estivera exposto ao Roundup dois anos antes do nascimento da criança, as possibilidades de ela desenvolver câncer no cérebro dobravam.

7) Câncer de mama: o glifosato induz o crescimento de células cancerígenas no peito por meio de receptores estrógenos. O único estudo em animais a longo prazo de exposição ao glifosato produziu ratas com tumores mamários e reduziu a expectativa de vida.

8) Câncer: pesquisas de porta em porta com 65 mil pessoas em comunidades agrárias da Argentina nas quais o Roundup foi utilizado – conhecidas como cidades fumigadas – mostraram médias de câncer entre duas e quatro vezes maiores do que a média nacional, com altos índices de câncer de mama, próstata e pulmão. Em uma comparação entre dois povos, naquele em que o Roundup fora aplicado, 31% dos moradores tinham algum familiar com câncer, ao passo que só 3% o tinham em um povoado sem Roundup. As médias mais elevadas de câncer entre as pessoas expostas ao Roundup provavelmente surgem da reconhecida capacidade do glifosato de induzir danos ao ADN, algo que foi demonstrado em inúmeras pesquisas de laboratório.

9) Intolerância ao glúten e doença celíaca: peixes expostos ao glifosato desenvolveram problemas digestivos que são reminiscentes da doença celíaca. Existem relações entre as características da doença celíaca e os conhecidos efeitos do glifosato. Isso inclui desajustes nas bactérias das tripas, deslocamento de enzimas implicadas na eliminação de toxinas, deficiências minerais e redução dos aminoácidos.

10) Doença crônica nos rins: os aumentos no uso do glifosato poderiam explicar as recentes ocorrências de falências renais entre os agricultores da América Central, do Sri Lanka e da Índia. Os cientistas concluíram que, “embora o glifosato por si só não provoque uma epidemia de doença renal crônica, parece que ele adquiriu a capacidade de destruir os tecidos renais de milhares de agricultores quando forma complexos com água calcária e metais nefrotóxicos”.

11) Colite: a toxidade do glifosato sobre bactérias benéficas que eliminam a clostridia, assim como a alta resistência da clostridia ao glifosato, poderia ser um fator significativo na predisposição ao sobrecrescimento da clostridia. O sobrecrescimento da clostridia, especialmente da colite pseudomembranosa, foi comprovado como causa da colite.

12) Depressão: o glifosato altera os processos químicos que influem na produção da serotonina, um importante neurotransmissor que regula o ânimo, o apetite e o sono. O desajuste da serotonina é vinculado à depressão.

13) Diabetes: Os níveis baixos de testosterona são um fator de risco para o tipo 2 de diabetes. Ratos alimentadas com doses significativas de Roundup em um período de 30 dias, abrangendo o começo da puberdade, tiveram uma redução na produção de testosterona suficiente para alterar a morfologia das células testiculares e o início da puberdade.

14) Doença cardíaca: o glifosato pode alterar as enzimas do corpo, causando disfunção lisossomal, um fator importante nas doenças e falências cardíacas.

15) Hipotireoidismo: uma pesquisa realizada de porta em porta com 65 mil pessoas em comunidades agrícolas na Argentina nas quais se usa o Roundup encontrou médias mais elevadas de hipotireoidismo.

16) Doença inflamatória intestinal: o glifosato pode induzir a deficiência severa do triptófano, que pode levar a uma grave doença inflamatória intestinal que desajusta severamente a capacidade de absorver nutrientes por meio do aparato digestivo devido à inflamação, hemorragias ou diarreia.

17) Doença hepática: doses muito baixas do Roundup podem alterar as funções das células no fígado, segundo um estudo publicado em 2009 na “Toxicology”.

18) Doença de Lou Gehrig: a deficiência de sulfato no cérebro foi associada à Esclerose Lateral Amiotrófica. O glifosato altera a transmissão de sulfato do aparelho digestivo ao fígado, e poderia levar a uma deficiência de sulfato em todos os tecidos, incluindo o cérebro.

19) Esclerose múltipla: encontrou-se uma correlação entre uma incidência aumentada de inflamação de intestino e a Esclerose Múltipla. O glifosato poderia ser um fator causal. A hipótese é que a inflamação intestinal induzida pelo glifosato faz com que bactérias do aparelho digestivo se infiltrem no sistema circulatório, ativando uma reação imune e, como consequência, uma desordem autoimune, resultando na destruição da bainha de mielina.

20) Linfoma Não-Hodgkin: uma revisão sistemática e uma série de meta-análises de quase três décadas de pesquisas epidemiológicas sobre a relação entre o linfoma não-hodgkin e a exposição a pesticidas agrícolas concluiu que o linfoma de célula B tinha uma associação positiva com o glifosato.

21) Doença de Parkinson: os efeitos danosos dos herbicidas sobre o cérebro foram reconhecidos como o principal fator ambiental associado a desordens neurodegenerativas, incluindo a doença de Parkinson. O início de Parkinson após a exposição ao glifosato foi bem documentado, e estudos em laboratório mostram que o glifosato provoca morte celular característica da doença.

22) Problemas na gravidez (infertilidade, morte fetal, aborto espontâneo): o glifosato é tóxico para as células da placenta, o que, segundo os cientistas, explicaria os problemas na gravidez de trabalhadoras agrícolas expostas ao herbicida.

23) Obesidade: uma experiência consistente na transmissão de uma bactéria do aparelho digestivo de um humano obeso para os aparelhos digestivos de ratos provocou obesidade nos ratos. Tendo o glifosato produzido uma mudança nas bactérias do aparelho digestivo de produtores de endotoxinas, a exposição ao glifosato poderia, dessa forma, contribuir com a obesidade.

24) Problemas reprodutivos: estudos de laboratório em animais concluíram que os ratos machos expostos a altos níveis de glifosato, tanto no desenvolvimento pré-natal ou da puberdade, padecem de problemas reprodutivos, incluindo o atraso na puberdade, a baixa produção de esperma e a baixa produção de testosterona.

25) Doenças respiratórias: as mesmas pesquisas com 65 mil pessoas na Argentina descobriram médias mais elevadas de doenças respiratórias crônicas.

Fonte: MST

40 anos da libertação de Saigon - A vitória contra contra dois impérios


Leneide Duarte-Plon


Dividir para dominar foi sempre o lema das grandes potências em todo o planeta. No Vietnã não foi diferente. No fim da guerra da Indochina, em 1954, a França perdeu sua colônia que, pelos acordos assinados em Genebra, passou a se chamar Vietnã, dividido em dois países – o Norte, comunista, e o Sul, sob a égide dos ocidentais. O exército francês capitulou diante da bravura do inimigo, que o venceu na batalha de Dien Bien Phu. As bombas de Napalm, fornecidas pelos americanos, foram utilizadas pela primeira vez pelos franceses na Indochina. Mesmo assim, a guerrilha dos aguerridos combatentes viet-mihn derrotou o antigo colonizador.
 
No ano seguinte, a guerra recomeçaria opondo o Exército Popular Vietnamita da República Democrática do Vietnã (Norte), governada por Ho Chi Minh, ao Vietnã do Sul, governado por um regime fantoche aliado dos Estados Unidos. Começava a Guerra do Vietnã, também conhecida como a Segunda Guerra da Indochina.
 
O povo vietnamita comemorou dia 30 de abril com uma grande parada em Ho Chi Minh-Ville (antiga Saigon) os 40 anos da tomada de Saigon, que culminou com a reunificação do país. Durante as comemorações o primeiro-ministro Nguyen Tan Dung denunciou os « crimes bárbaros » cometidos pelos Estados Unidos em seu país. Em 30 de abril de 1975, a entrada do exército do Norte na capital do Sul selou a unidade, sob um regime comunista que dura até hoje.
 
Nos anos 1950 e 1960, em plena guerra fria, para os Estados Unidos como para a França, a luta contra a “subversão comunista”, exportada pelo trio diabólico – URSS, China e Cuba – era um imperativo geopolítico. Daí a união de forças. Durante a guerra colonial na Indochina, 75% do equipamento do exército francês tinha origem norte-americana, segundo o historiador Alain Ruscio. Ele escreveu que os franceses foram os primeiros a usar o Napalm para bombardear o Exército Popular vietnamita, o Viet-minh.
 
Nos anos 60, a direita fascista francesa não perdoou ao filósofo Jean-Paul Sartre suas denúncias da tortura na Argélia, onde os bravos militares franceses queimavam vivos os muçulmanos suspeitos de ajudar a Frente de Libertação Nacional. O apartamento de Sartre foi atingido por uma bomba e o movimento de ex-combatentes pediu seu fuzilamento. Anos antes, na Indochina, o mesmo exército do “país dos direitos humanos” decapitara inúmeros viet-congs na guerra da Indochina.
 
Em matéria de barbárie, os fundamentalistas do Estado Islâmico não têm muito a ensinar...
 
A guerra contra dois impérios
 
O Vietnã de hoje é o resultado de 30 anos de guerra permanente contra duas potências ocidentais. Treinados pela China, de quem o líder comunista Ho Chi Minh era aliado, os combatentes vietnamitas, lutando numa guerra de guerrilha, humilharam a França em 1954 e, em 1973, levaram os americanos a se retirarem unilateralmente. Mas foi apenas a tomada de Saigon que marcou o fim da guerra, que continuou como uma guerra civil.
 
As potências ocidentais e seus aliados foram definitivamente vencidos graças ao gênio de Ho Chi Minh e de seu braço direito, o general Giap, que comandavam a Frente Nacional de Libertação do Vietnã do Sul (chamado de Viet Cong), apoiados pela China e pelos países comunistas do Leste da Europa. No Sul, a República do Vietnã (Vietnã do Sul) era sustentada militarmente pelos Estados Unidos apoiados por aliados (Austrália, Coreia do Sul, Tailândia e Filipinas).
 
No Vietnã, até a retirada unilateral e os acordos de Paz de Paris de janeiro de 1973, assinados entre Henry Kissinger e Le Duc Tho, os Estados Unidos tentavam barrar o avanço do comunismo. A terrível guerra do Vietnã deixou sequelas duradouras nos dois povos : mais de 1 milhão de combatentes vietnamitas e 2 milhões de civis mortos. Do lado americano a guerra matou 58.177 soldados e fez 153.303 feridos.
 
No Sudeste asiático, os Estados Unidos despejaram 7,08 toneladas de bombas (na Segunda Guerra Mundial os aliados jogaram menos da metade, 3,4 toneladas), destruíram as plantações e as armas como o Napalm e o agente laranja deixaram um saldo de terríveis doenças transmitidas de geração em geração.
 
Mulher de Giap morta sob tortura
 
O ano de 2013 marcou com um ponto final parte do passado colonial da França. Naquele ano morreram o general vietnamita Vo Nguyên Giap, aos 102 anos, o jornalista francês Henri Alleg, aos 92, e o general francês Paul Aussaresses, aos 95. Os três foram personagens primordiais na história da descolonização francesa. O “país dos direitos humanos” viu seu império colonial desmoronar no século 20, com as guerras de independência da Indochina e da Argélia, das quais os três homens foram protagonistas.
 
O jornalista e militante comunista Henri Alleg e o general Paul Aussaresses viveram pouco mais de nove décadas e estiveram em campos opostos na guerra de independência da Argélia. Quanto ao centenário general Vo Nguyên Giap, ele foi o grande herói do povo vietnamita, responsável pela vitória contra os franceses e, posteriormente, contra os americanos, ambos muito mais numerosos e mais fortes.
 
Morto em 4 de outubro de 2013, o general Vo Nguyên Giap foi um dos maiores estrategistas e líderes militares do século 20. Em maio de 1954, à frente dos guerrilheiros vietnamitas, o famoso Exército Popular Vietminh, criado no fim da Segunda Guerra Mundial, Giap expulsou os militares franceses definitivamete do território que a França chamava “Indochina francesa”, na famosa batalha de Dien Bien Phu, de triste memória para os franceses. Não é à toa que os jornais franceses não tocaram trombetas para anunciar os 40 anos da Libertação de Saigon. Aliás, todos eles, exceto o cumunista L’Humanité, escreveram Libertação de Saigon entre aspas.
 
A um jornalista francês, Giap contou: “Na batalha de Dien Bien Phu, para transportar um quilo de arroz aos soldados que faziam o cerco, era preciso consumir quatro no trajeto. Para fazer chegar ao local as armas, munições e os alimentos, utilizamos 260 mil pessoas, mais de 20 mil bicicletas, 11.800 balsas, 400 caminhões e 500 cavalos”. As armas eram desmontadas para serem remontadas no destino. A densa floresta tropical, perfeitamente conhecida pelos guerrilheiros, servia de proteção para os nativos e de armadilha para os franceses. Como o frio da Rússia foi uma armadilha para as tropas de Napoleão, cujas batalhas foram minuciosamente estudadas por Giap.
 
Em 1940, durante a época colonial da Indochina francesa, a mulher de Giap, militante comunista como o marido, fora barbaramente torturada pelos militares franceses. Seu marido havia viajado à China para encontrar-se com o líder vietnamita Ho Chi Minh, refugiado naquele país. A história oficial do colonizador atribuiu a morte da mulher de Giap a um suicídio, tática empregada posteriormente na Argélia pelos mesmos militares franceses para justificar mortes sob tortura.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

COLÔMBIA: O MAIOR OBSTÁCULO PARA UM ACORDO DE PAZ É O INTERESSE GEOESTRATÉGICO DOS EUA

Em 2001, o doutor e antropólogo Alberto Pinzón Sánchez formou parte de uma comissão encarregada de assentar as bases para uns acordos de paz entre a guerrilha das FARC e o governo de Andrés Pastrana. Uma década depois, os atuais diálogos em Havana parecem oferecer a esperança de pôr termo ao conflito armado mais longo na América Latina.

Que riscos continuam estando presentes no processo de resolução do conflito? Atualmente exilado na Europa, Alberto Pinzón Sánchez nos ajuda a entender o que está em jogo em Havana através de um olhar pleno de compromisso pelo futuro de seu país.
Alex Anfruns: Em 2001, sua nomeação para uma comissão com o nobre objetivo de assentar as bases para os diálogos de paz em San Vicente del Caguán e resolver o conflito em Colômbia terminaram lhe valendo a perseguição política e o exílio. Você pode explicar-nos que pretexto se utilizou com essa finalidade?

Alberto Pinzón Sanchez:
Sim. Obrigado por colocar-me em contato com teus leitores e permitir-me informar em primeira mão sobre o acontecido: Como é sabido, a comissão de 4 membros nomeada pela mesa do Caguán esteve integrada pelo magistrado Vladimiro Naranjo, pela dona do jornal El Colombiano de Medellín, pelo diretor do diário alternativo Voz Carlos Lozano e eu; tínhamos a missão de formular recomendações para diminuir a intensidade do conflito e para terminar o fenômeno do paramilitarismo, que nesse momento e como parte oficial integrante do Plan Colômbia vinha promovendo uma ofensiva político-midiática e de terror para cooptar definitivamente a totalidade do Estado.
Efetivamente, é o que sucedeu um ano depois com a chegada de Uribe Vélez à presidência da Colômbia. Obviamente, nossas recomendações, as quais hoje, depois de 14 anos, encontro totalmente vigentes, não agradaram ao Bloco de Poder Contra Insurgente Dominante em Colômbia que havia proposto os diálogos de paz do Caguán como uma tomada de ar político para promover o rearmamento militar do exército e da polícia da Colômbia, contemplado no Plan Colômbia, o qual foi aprovado entre Clinton e Pastrana em 1997, um ano antes do início dos diálogos de paz. Olhando isto hoje, se pode dizer que, à luz do Direito Internacional Humanitário, foi uma violação que o governo Pastrana fez, chamada “perfídia”. Então, o chefe máximo dos Paramilitares Carlos Castaño iniciou uma ofensiva midiática para deslegitimar a comissão em seu conjunto em especial, como ameaçou na página 312 de seu libro “Mi confesión” [“Minha confissão”] contra mim por considerar-me “um porta-voz do Comandante Alfonso Cano”. Às ameaças pela internet, seguiram tentativas reais de acabar com minha vida e me obrigaram a exilar-me na Europa em busca de refúgio, onde me encontro há 13 anos sem poder regressar ao meu lar em Colômbia.
Pode-se constatar que a repressão de caráter político que dura há décadas em Colômbia não só continua se produzindo como também evoluiu para formas de castigo preventivo, conduzindo a um elevado número de prisioneiros políticos, ao caso extremo dos “falsos positivos” e ao descobrimento de numerosas fossas comuns. Os perigos que espreitam ao povo colombiano continuam sendo, portanto, consideráveis. Que passos considera você que sejam chaves no desmantelamento da impunidade judicial?
Sim, as cifras de 70 anos do chamado conflito interno colombiano, que não é outra coisa senão uma “guerra suja contra insurgente promovida pelo Bloco de Poder Contra Insurgente Dominante em Colômbia” [BPCID] são aterradoras: Mais de um milhão de mortos, a maioria deles fuzilados pelo aparato repressivo do regime. Mais de 4 milhões de deslocados internos, aos quais se lhes arrebatou 5 milhões de hectares de terra cultivável. Uma expulsão de mais 5 milhões de imigrantes econômicos e exilados políticos em diversos países do mundo e que o regime chama piedosamente de “a diáspora colombiana”.
O extermínio de 5.000 quadros políticos do partido de Esquerda União Patriótica. Cerca de 2.000 casos dos chamados “falsos positivos” causados pelo exército colombiano e que é a forma mais inumana e cruel da luta de classes conhecida no mundo. E de momento 90 mortos assassinados do Movimento Social e Político, em especial da Marcha Patriótica; e que conste que não mencionamos nem aos professores, nem aos sindicalistas, nem aos líderes comunitários, nem aos mendigos, nem dependentes de drogas, nem os transformistas sexuais etc., vítimas invisíveis do que em Colômbia se chama da “limpeza social de descartáveis”. Acrescentemos a estas cifras macabras 9.500 presos políticos que estão apodrecendo amontoados nas masmorras do regime.
Obviamente, tudo isto tem sido possível pela impunidade judicial que em Colômbia alcança a aberrante cifra de 97%. Este é a voo de pássaro o macabro inferno do Terror do Estado, chamado eufemisticamente pelo regime de “conflito colombiano’.
Se temos em conta a longa história do conflito, assim como as consequências paradoxais porém significativas de sua própria experiência pessoal, pareceria precipitado sacar conclusões esperançosas. Qual é a responsabilidade do governo acerca do fenômeno do paramilitarismo? e quais são os principais interesses que estão em jogo, cujo peso tenha influído historicamente de maneira mais decisiva no bloqueio de uma solução pacífica?
O paramilitarismo é uma roda dentada a mais da grande e terrorífica máquina repressiva punitiva e de disciplinamento social que se chama Bloco de Poder Contra Insurgente Dominante em Colômbia [BPCID] construído há cerca de 70 anos e que tem várias rodas dentadas mais, como por exemplo:
1 – O exército e a polícia ou Força Pública.
2 – As companhias multinacionais como Chiquita, Drummond, Coca Cola, Oxy, BP, Repsol e outras multinacionais mineiro-energéticas.
3 – As bases militares dos EUA onde operam militares e agentes de inteligência “oficiais” estadunidenses, junto com “intermediários privados de mercenários” como a DynCorp.
4 – Os chamados grupos econômicos dos cacaus, como o grupo Bavaria, grupo Ardila Lulle, grupo Sarmiento Angulo, Grupo Antioquenho.
5 – As associações gremiais como Fedegán, Sac, Augura, Andi, Fedemetal, Fenalco, Asobancaria agrupados no “conselho gremial nacional”.
6 – O chamado Estado Nacional através de suas três ramificações: a esfera executiva, a esfera legislativa ou parapolítica e a esfera judicial encarregada de produzir a impunidade e a judicialização a que nos referimos anteriormente.
7 – O oligopólio dos meios de comunicação da família Santos e dos grupos espanhóis Prisa e Planeta.
8 – Os Narcotraficantes e lavadores de dólares a nível nacional, regional e local.
9 – As classes subalternas como pequenos comerciantes, empregados, jornalistas, profissionais independentes, médios proprietários, transportadores, desempregados, comerciantes informais e lumpens, que se submeteram ou foram cooptados.
10 – A casta política ou parapolítica com todas as suas imbricações regionais e locais. Todo este Bloco dominante é coordenado e dirigido pela fração hegemônica da oligarquia que agora mesmo se encontra numa aguda disputa de frações entre Santos e Uribe por sua supremacia.
Em resumo, o principal obstáculo é o interesse Geo-Estratégico que os EUA têm sobre a Colômbia e a área do Caribe. Depois lhe seguem os interesses concretos de cada uma das rodas dentadas do Bloco do Poder Contra Insurgente [BPCI] do qual formam parte essencial os EUA.
Que condições pensa que devam ser respeitadas para que a guerrilha das FARC, após decidir por uma trégua unilateral, tenha oportunidades para sua reconversão como oposição política no jogo democrático?
Creio que a questão não é armas por política, mas sim armas por reformas básicas. Agora bem, todos estes detalhes parece que são as curvas do acordo que se está construindo em Havana.
Que mecanismos considera que permitiriam tomar um maior protagonismo ao povo colombiano, fazendo prevalecer os interesses da maioria acima dos da oligarquia?
Sem dúvida alguma, a mais ampla e democrática participação popular que se concentraria numa Assembleia Nacional Constituinte.
Segundo seu ponto de vista, que fases deveriam ser privilegiadas doravante na consolidação de um processo de paz justo e duradouro?
Primeiro, uma trégua bilateral com a criação de um clima favorável e democrático de verdadeira discussão popular sobre as reformas básicas que o povo trabalhador colombiano necessita e quer, para depois desembocar na Assembleia Nacional Constituinte.


Fonte: Diario de Nuestra América, Investig’Action


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Equipe ANNCOL - Brasil