"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sábado, 6 de junho de 2015

Informe Conjunto da Mesa de Conversações entre o Governo Nacional e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo


La Habana, 4 de junho de 2015
 
AVANÇOS DA DISCUSSÃO DO PONTO 5:
COMISSÃO PARA O ESCLARECIMENTO DA VERDADE, DA CONVIVÊNCIA E DA NÃO REPETIÇÃO


O Governo da Colômbia e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo, em cumprimento do estabelecido no ponto 3 do numeral VI do Acordo Geral para a Terminação do Conflito e a Construção de uma Paz Estável e Duradoura de 26 de agosto de 2012, apresentam este Informe Conjunto sobre os avanços e acordos alcançados em relação ao Ponto 5 da Agenda –“Vítimas”.
O fim do conflito constitui uma oportunidade única para satisfazer um dos maiores desejos da sociedade colombiana e das vítimas em particular: que se esclareça e conheça a verdade sobre o ocorrido no conflito.
Neste novo cenário será possível contribuir com a construção e preservação da memória histórica e alcançar um entendimento amplo das múltiplas dimensões da verdade do conflito, incluindo a dimensão histórica, de tal forma que não só se satisfaça o direito à verdade como também se contribua para assentar as bases da convivência, da reconciliação e da não repetição.
Com este propósito, o Governo Nacional e as FARC-EP alcançamos um acordo para que se ponha em marcha, uma vez firmado o Acordo Final, a Comissão para o Esclarecimento da Verdade, da Convivência e da Não Repetição [adiante a Comissão], que será um mecanismo independente e imparcial de caráter extrajudicial.
A Comissão fará parte do sistema integral de verdade, justiça, reparação e não repetição que se há de acordar na Mesa para satisfazer os direitos das vítimas, terminar o conflito e alcançar a paz. Por isso, o acordo conseguido sobre a Comissão não pode ser entendido nem definitivamente fechado, nem isolado do sistema que estamos comprometidos a construir e que ainda não se concluiu. Continuaremos trabalhando para acordar outros mecanismos que nos permitam garantir os direitos das vítimas à verdade, à justiça e à reparação, ademais de contribuir para garantir aos colombianos e às colombianas a não repetição do conflito. No marco da discussão sobre a integralidade do sistema e seus mecanismos judiciais e extrajudiciais, se acordarão os temas cuja concretização depende da relação entre os diferentes mecanismos do sistema.
A Comissão deverá cumprir três objetivos fundamentais.
Em primeiro lugar, a Comissão deverá contribuir com o esclarecimento do ocorrido, de acordo com os elementos do mandato descritos mais adiante, e oferecer uma explicação ampla da complexidade do conflito, de tal forma que se promova um entendimento compartilhado na sociedade, em especial dos aspectos menos conhecidos do conflito. Neste sentido, saudamos a visita e o pronunciamento efetuado durante este ciclo por Zainab Bangura, Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Violência Sexual em Conflitos, e nos comprometemos a atender suas recomendações.
Em segundo lugar, a Comissão deverá promover e contribuir para o reconhecimento. Isso significa o reconhecimento das vítimas como cidadãos que viram seus direitos vulnerados; o reconhecimento voluntário de responsabilidades individuais e coletivas por parte de todos aqueles que, de maneira direta ou indireta, participaram no conflito como uma contribuição à verdade, à justiça, à reparação e à não repetição; e, em geral, o reconhecimento por parte de toda a sociedade desse legado de violações e infrações como algo que merece o rechaço de todos e que não se deve nem se pode repetir.
E em terceiro lugar, a Comissão deverá promover a convivência nos territórios. Para isso promoverá um ambiente de diálogo e criará espaços nos quais as vítimas se vejam dignificadas, se façam reconhecimentos individuais e coletivos de responsabilidade, e em geral se consolidem o respeito e a confiança cidadã no outro, a cooperação e a solidariedade, a justiça social, a equidade de gênero e uma cultura democrática que cultive a tolerância e nos livre da indiferença frente aos problemas dos demais. Assim se assentarão as bases da não repetição, da reconciliação e da construção de uma paz estável e duradoura. Por essas razões, é necessário entender a construção da verdade também como uma parte essencial da construção da paz.
O êxito da Comissão dependerá do compromisso de todos os setores da sociedade com o processo de construção da verdade e do reconhecimento de responsabilidades por parte daqueles que de maneira direta e indireta participaram no conflito. Por isso, tanto o Governo Nacional como as FARC-EP se comprometem a contribuir de maneira decidida com o esclarecimento da verdade sobre tudo ocorrido no conflito, incluindo as graves violações aos direitos humanos e infrações ao DIH.


  1. Comissão para o Esclarecimento da Verdade, da Convivência e da Não Repetição
Critérios orientadores:
Centralidade das vítimas: Os esforços da Comissão estarão centrados em garantir a participação das vítimas do conflito, assegurar sua dignificação e contribuir para a satisfação de seu direito à verdade em particular, e em geral de seus direitos à justiça, à reparação integral e às garantias de não repetição, sempre tendo em conta o pluralismo e a equidade. Todo o anterior deve contribuir, ademais, para a transformação de suas condições de vida.
Imparcialidade e independência: A Comissão será um mecanismo imparcial e independente com plena autonomia para o desenvolvimento de seu mandato e o cumprimento de suas funções.
Caráter transitório: A Comissão será excepcional e funcionará durante um tempo limitado de tal forma que suas conclusões e recomendações possam contribuir de maneira efetiva para a construção de uma paz estável e duradoura.
Participação: A Comissão porá em marcha um processo de participação ampla, pluralista e equilibrada no qual se ouvirão as diferentes vozes e visões, em primeiro lugar das vítimas do conflito que o tenham sido por qualquer circunstância relacionada com este, tanto individuais como coletivas, e também dos que participaram de maneira direta e indireta no mesmo, assim como de outros atores relevantes.
Enfoque territorial: A Comissão será uma entidade de nível nacional, porém terá um enfoque territorial com o objetivo de conseguir uma melhor compreensão das dinâmicas regionais do conflito e da diversidade e particularidades dos territórios afetados, e com a finalidade de promover o processo de construção da verdade e contribuir para as garantias de não repetição nos diferentes territórios. O enfoque territorial terá em conta também as pessoas e populações que foram deslocadas forçosamente de seus territórios.
Enfoque diferencial e de gênero: No desenvolvimento de seu mandato e de suas funções, a Comissão terá em conta as distintas experiências, impacto diferencial e condições particulares das pessoas em razão do sexo, gênero, idade, etnia, ou situação de invalidez, e das populações ou setores em condições de vulnerabilidade ou especialmente afetados pelo conflito, entre outras. Haverá especial atenção à vitimização sofrida pelas mulheres.
Coordenação com outras medidas de construção de paz: A Comissão se coordenará com os mecanismos que se ponham em marcha para a implementação do Acordo Final. Em particular, se coordenará, onde haja lugar, com os planos e programas de construção de paz que se ponham em marcha nos territórios, como consequência da implementação do Acordo Final.
Regras de procedimento: A Comissão estabelecerá previamente procedimentos que assegurem aos que participam nela as devidas garantias, e um tratamento justo, digno e não discriminatório.
Garantias para os comissários e as comissárias: Em relação a seu trabalho na Comissão, @s comissári@s não estarão obrigad@s a declarar em processos judiciais, estarão isent@s do dever de denúncia e suas opiniões e conclusões não poderão ser questionadas judicialmente.
Condições de segurança: A Comissão avaliará as condições de segurança necessárias para o desenvolvimento de suas atividades e coordenará, com as autoridades do Estado, a posta em marcha das medidas de segurança necessárias tanto para @s comissári@s como para os que participem nas atividades da Comissão.
Convivência e reconciliação: Para contribuir com o objetivo da não repetição e da reconciliação, as atividades da Comissão, em desenvolvimento de seu mandato, estarão orientadas a promover a convivência entre os colombianos, em especial nos territórios mais afetados pelo conflito e pela violência. Para isso, a Comissão zelará para que os espaços ou audiências que estabeleça sirvam para fortalecer o respeito e a tolerância, a confiança cidadã no outro e nas normas que garantam a vigência e o respeito dos direitos humanos. Desta forma, a Comissão ajudará também a assentar as bases sólidas para a construção da paz.
Metodologia: A Comissão tomará todas as medidas necessárias para garantir a maior objetividade e imparcialidade possível para o desenvolvimento de suas atividades, para o qual adotará procedimentos para contrastar e verificar a qualidade da informação que colete, incluindo sua confiabilidade, e para identificar a informação falsa que poderia ter sido fornecida de má-fé à Comissão. A Comissão tornará pública sua metodologia.
Mecanismo extrajudicial: A Comissão será um mecanismo extrajudicial. Neste sentido, suas atividades não terão caráter judicial nem poderão implicar na imputação penal dos que compareçam ante ela. A informação que a Comissão receba ou produza não poderá ser transladada por esta a autoridades judiciais para ser utilizada com a finalidade de atribuir responsabilidades em processos judiciais ou para ter valor probatório; nem as autoridades judiciais poderão requerê-la.
Mandato:
A Comissão terá como mandato esclarecer e promover o reconhecimento de:
  • Práticas e fatos que constituem graves violações aos direitos humanos e graves infrações ao Direito Internacional Humanitário [DIH], em particular aquelas que refletem padrões ou tenham um caráter massivo, que tiveram lugar por ocasião do conflito, assim como a complexidade dos contextos e das dinâmicas territoriais nas quais estes sucederam.
  • As responsabilidades coletivas do Estado, incluindo do Governo e dos demais poderes públicos, das FARC-EP, dos paramilitares, assim como de qualquer outro grupo, organização ou instituição, nacional ou internacional que haja tido alguma participação no conflito, pelas práticas e fatos aos quais se refere no parágrafo anterior.
  • O impacto humano e social do conflito na sociedade, incluindo o impacto sobre os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, e as formas diferenciadas nas quais o conflito afetou as mulheres, os meninos, as meninas, adolescentes, jovens e adultos maiores, as pessoas em situação de invalidez, os povos indígenas, as comunidades campesinas, as populações afrocolombianas, negras, palenqueras e originários, a população LGBTI, as pessoas deslocadas e exiladas, @s defensores/as de direitos humanos, sindicalistas, jornalistas, agricultoras, pecuaristas, comerciantes e empresári@s, entre outros.
  • O impacto do conflito sobre o exercício da política e do funcionamento da democracia em seu conjunto, incluindo o impacto sobre os partidos e movimentos políticos e sociais, em particular os de oposição.
  • O impacto do conflito sobre aqueles que participaram diretamente nele como combatentes e sobre suas famílias e entornos.
  • O contexto histórico, as origens e as múltiplas causas do conflito, tendo em conta como insumo os informes da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, entre outros.
  • Os fatores e condições que facilitaram ou contribuíram para a persistência do conflito, tendo em conta como insumo os informes da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, entre outros.
  • O desenvolvimento do conflito, em particular a atuação do Estado, das guerrilhas, dos grupos paramilitares e o envolvimento de diferentes setores da sociedade.
  • Os processos de fortalecimento do tecido social nas comunidades e as experiências de resiliência individual ou coletiva.
  • Os processos de transformação positiva das organizações e instituições ao longo do conflito.

Período objeto de estudo da Comissão (âmbito temporário):
Para abordar os distintos elementos de seu mandato, a Comissão terá como âmbito temporário o período do conflito. Como isso supõe um marco temporário extenso, será necessário que a Comissão estabeleça dentro deste prioridades de sua investigação. Não obstante, para efeitos de cumprir com o propósito de esclarecer plenamente as origens e múltiplas causas do conflito, a Comissão poderá explorar eventos históricos anteriores a este, tendo em conta como insumo básico, entre outros, os informes da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas.
Funções:
Para o cumprimento de seu mandato, a Comissão terá as seguintes funções principais:
  • Investigar sobretudo os elementos do mandato através das metodologias e formas de coleta e análise de informação que sejam necessárias para tal efeito, considerando as geralmente aceitadas pelas ciências sociais, contando com um enfoque de gênero, e tendo em conta os anteriores esforços de construção da verdade, incluindo como insumo básico, entre outros, os informes da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas.
  • Criar espaços nos âmbitos nacional, regional e territorial, em especial audiências públicas temáticas, territoriais, institucionais, de organizações e de situações e casos emblemáticos, entre outras, com o objetivo de ouvir as diferentes vozes, em primeiro lugar as das vítimas, tanto as individuais como as coletivas, e de promover a participação dos diferentes setores da sociedade para contribuir com uma reflexão conjunta sobre o ocorrido e as causas e efeitos da grave violência vivida pela Colômbia.
  • Esses espaços poderão incluir cenários públicos de discussão e reflexão ou cerimônias culturais, para que aqueles que tenham participado de maneira direta ou indireta no conflito possam fazer atos de reconhecimento de responsabilidade e pedir perdão, em suas diversas dimensões, tanto pelo dano e o sofrimento causados nas pessoas como pelos impactos políticos e sociais de seus atos; e em consequência oferecer explicações sobre os atos realizados, contribuir para a reparação, assumir compromissos de não repetição e de construção da paz, entre outros. Desta maneira se deverá contribuir para conhecer a verdade e para a convivência pacífica nos territórios.
  • Elaborar um informe final que tenha em conta os diferentes contextos, reflita as investigações em torno a todos os componentes do mandato e contenha as conclusões e recomendações de seu trabalho.
  • Orientar as vítimas e as comunidades vitimizadas que participem na Comissão sobre a oferta institucional e outras, para a satisfação de seus direitos e dos mecanismos para exigi-los.
  • Relações entre a Comissão e as vítimas e suas organizações: Esboçar e pôr em marcha uma estratégia de relacionamento ativo com as vítimas e suas organizações.
  • Implementar uma estratégia de difusão, pedagogia e relacionamento ativo com os meios de comunicação para prestar conta, durante seu funcionamento, dos avanços e desenvolvimentos no cumprimento de todas as funções da Comissão e assegurar a maior participação possível. O Governo adotará as medidas necessárias para que a Comissão conte com amplo acesso a meios de comunicação públicos. O informe final, em particular, terá a mais ampla e acessível difusão, incluindo o desenvolvimento de iniciativas culturais e educativas, como, por exemplo, a promoção de exposições, e recomendar sua inclusão no currículo educativo.
  • Adotar medidas para o arquivo da informação coletada no marco de suas funções e, ao término de seu mandato, tomar as medidas necessárias para assegurar sua preservação. A Comissão definirá a entidade que será depositária destes arquivos e os guardará.
  • Assegurar a transversalidade do enfoque de gênero em todo o âmbito de trabalho da Comissão, com a criação de um grupo de trabalho de gênero que contribua com tarefas específicas de caráter técnico, de investigação, preparação de audiências de gênero, entre outras. Este grupo de trabalho não será o único em tratar do tema, porém deve, sim, responsabilizar-se pela revisão de metodologias para que todos os instrumentos da Comissão tenham um enfoque de gênero, e da coordenação com organizações de mulheres e LGBTI. O anterior sem prejuízo da necessária autonomia da Comissão na definição de sua estrutura e metodologia de trabalho.
  • Prestar contas à sociedade de maneira periódica, pelo menos semestralmente, sobre as atividades e gestões desenvolvidas para o cumprimento de todas as suas funções.
  • Estabelecer seu próprio regulamento e programa de trabalho.

Processo de seleção:
A Comissão estará composta por 11 comissári@s. Para sua escolha se porá em marcha um procedimento de candidatura e seleção que ofereça garantias de legitimidade, imparcialidade e independência a toda sociedade colombiana e em particular às vítimas. O processo de postulação de candidatos será amplo e pluralista, assegurando que todos os setores da sociedade, incluindo as organizações de vítimas, entre outros, possam postular candidatos.
Os/as comissári@s serão eleitos por um comitê de seleção. Este comitê estará composto por 9 integrantes. O Governo e as FARC-EP, de comum acordo, selecionarão. através do mecanismo que acordemos, 6 d@s integrantes do comitê de seleção. Os/as 3 integrantes restantes serão @s delegad@s de 3 pessoas ou organizações que acordemos na Mesa. Todos os integrantes do comitê de seleção deverão inspirar confiança na cidadania.
A seleção se baseará exclusivamente nas candidaturas e a eleição levará em conta critérios de seleção individuais como a idoneidade ética, a imparcialidade, a independência, o compromisso com os direitos humanos e a justiça, a ausência de conflitos de interesses e o conhecimento do conflito armado, do Direito Internacional Humanitário e dos direitos humanos, e a reconhecida trajetória em algum destes campos. A seleção d@s comissári@s também deverá levar em conta critérios coletivos como a equidade de gênero, o pluralismo, a interdisciplinaridade e a representação regional.
O comitê de seleção poderá selecionar comissári@s estrangeir@s, porém estes, em todo caso, não poderão ser mais de 3.
O comitê de seleção terá até 3 meses para a seleção d@s comissári@s, contados a partir do encerramento da fase de candidaturas.
A seleção d@s comissári@s se deverá adotar por maioria de 2/3 dos integrantes do comitê de seleção.
Presidente/a da Comissão:
O/a presidente da Comissão deverá ser colombiano/a e será eleit@ de comum acordo entre o Governo Nacional e as FARC-EP pelo mecanismo que acordemos. O/a presidente/a da Comissão será seu principal porta-voz público, coordenará o trabalho d@s comissári@s, facilitará o bom funcionamento interno e dirigirá as tarefas desta, preferivelmente buscando o consenso no processo interno de tomada de decisões. O papel d@ presidente/a da Comissão é importante porque constitui ao mesmo tempo uma referência nacional e internacional.
Duração:
A Comissão terá uma duração de 3 anos, incluindo a elaboração do informe final. A Comissão contará com 6 meses para preparar todo o necessário para seu funcionamento. A publicação do informe final se realizará durante o mês seguinte à conclusão dos trabalhos da Comissão.
Compromissos de contribuição ao esclarecimento
O Governo Nacional, como poder executivo, e as FARC-EP se comprometem a contribuir decididamente no processo de esclarecimento da verdade e a reconhecer suas respectivas responsabilidades ante a Comissão.
O Governo adotará todas as medidas necessárias para garantir a contribuição de outras entidades do Estado e promoverá a participação de terceiros na Comissão, com o objetivo de que contribuam com o esclarecimento e o reconhecimento de responsabilidades, como parte das garantias necessárias para a não repetição.
Em conformidade com as leis aplicáveis, o Governo se compromete a facilitar a consulta da informação que a Comissão requeira para o cumprimento de suas funções, e a Comissão, por sua parte, lhe dará o tratamento legal correspondente.
Financiamento:
O Governo Nacional se compromete a garantir o financiamento oportuno de todo o funcionamento da Comissão, de tal forma que possa cumprir plenamente com seu mandato e funções de maneira autônoma e ininterrupta, incluindo a publicação e difusão massiva do informe final. A Comissão deverá adotar as medidas necessárias para que a execução de seus recursos se faça de maneira transparente, procurando garantir a austeridade no gasto. Se promoverá a vedoria cidadã sobre a execução dos recursos, proporcionando as garantias necessárias para isso.
Comitê de seguimento e monitoramento à implementação das recomendações da Comissão:
Se criará um comitê de seguimento e monitoramento à implementação das recomendações da Comissão que entrará em funcionamento uma vez se tenha publicado o informe final. Para o cumprimento de sua tarefa se facilitará a interlocução com diferentes entidades e organizações de vítimas e de direitos humanos, entre outras. Este comitê estará integrado por representantes de distintos setores da sociedade, incluindo organizações de vítimas e de direitos humanos, entre outras. A Comissão estabelecerá o tempo durante o qual funcionará o comitê. O comitê oferecerá informes periódicos de seguimento às recomendações. Estes informes deverão contar com um enfoque territorial, diferencial e de gênero. O comitê tomará as medidas necessárias para difundir seus informes amplamente nos meios de comunicação de âmbito nacional e regional. O Governo garantirá o financiamento do comitê para o cumprimento de suas funções.
2. Mecanismo de busca
Com a finalidade de contribuir para satisfazer o direito das vítimas e da sociedade em seu conjunto à verdade, e sem prejuízo dos procedimentos de esclarecimento que existam ou possam se adiantar durante o processo de conversações de paz, acordamos que à terminação do conflito é necessário multiplicar os esforços de busca, localização, identificação e recuperação de restos de pessoas mortas ou dadas por desaparecidas no contexto e em razão do conflito, sob qualquer circunstância. Para isso trabalharemos num novo mecanismo que funcionará em coordenação com a Comissão.
3. A participação das vítimas e da sociedade em relação com o Ponto 5
Dentro dos 10 princípios para a discussão do Ponto 5 – “Vítimas”, acordados na Mesa, a “participação das vítimas” ocupa um lugar muito importante. Estamos convencidos de que a construção da paz requer uma ativa participação das vítimas, e em geral das comunidades nos territórios, que ao fim e ao cabo são aquelas que se verão beneficiadas pelas transformações que os acordos que alcançamos perseguem.
Para a Mesa tem sido um objetivo fundamental conseguir a maior participação possível e a recepção do maior número de propostas relacionadas com a discussão do Ponto 5. Os avanços no acordo do Ponto 5 que apresentamos hoje se basearam justamente em ouvir as vítimas que vieram diretamente à Mesa e em ler as propostas das milhares de pessoas que as nos fizeram chegar através dos distintos mecanismos de participação.
Em primeiro lugar e pela primeira vez no marco de um processo de paz, a Mesa de Conversações escutou de maneira direta e recebeu as propostas de um grupo de vítimas do conflito. O processo de seleção destas vítimas esteve a cargo da ONU e da Universidade Nacional, com acompanhamento da Conferência Episcopal, as quais, sob os princípios de pluralismo, equilíbrio e sindérese, buscaram refletir todo o universo de violações aos direitos humanos e infrações ao DIH que têm tido lugar no conflito, tendo em conta os diferentes setores sociais e populações, e o enfoque regional. As delegações estiveram compostas por 12 vítimas e a Mesa ouviu uma delegação por cada ciclo, durante os ciclos 27, 28, 29, 30 e 31 de conversações.
Entre os fatos vitimizantes representados, se ouviram depoimentos sobre deslocamento forçado, homicídio, tortura, desaparecimento forçado, sequestro, violência sexual, execuções extrajudiciais e recrutamento forçado de menores, entre outros. Todas as pessoas vítimas que visitaram Havana com o objetivo de expressar seus depoimentos, suas propostas e suas expectativas frente ao processo de paz e a implementação dos acordos ante as duas delegações na Mesa de Conversações coincidiram em ressaltar a necessidade de pôr fim ao conflito.
Adicionalmente, entre julho e agosto de 2014, se organizaram 3 fóruns regionais [em Villavicencio, Barrancabermeja e Barranquilla] e um Fórum Nacional em Cali sobre o Ponto 5. Participaram 3.162 pessoas, das quais 51,7% eram homens e 48,3% mulheres. A estes fóruns assistiram mais de 600 organizações de vítimas.
Finalmente, até o momento recebemos 24.324 contribuições de vítimas, com mais de 59.000 referências aos diferentes aspectos deste Ponto, incluídas mais de 8.600 relacionadas ao tema de “verdade”.


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Equipe ANNCOL - Brasil

sexta-feira, 5 de junho de 2015

QUAL JUSTIÇA?


Existe uma corrente no país que pretende institucionalizar a visão de que a demora em alcançar acordos no ponto Vítimas da Mesa de Conversações se origina num suposto temor das FARC-EP a abordar o tema de justiça. A respeito disso é pertinente um esclarecimento, pois não há nada mais equivocado: O ponto 5 da Agenda de Havana contém dois numerais: Direitos Humanos e Verdade. Neste ano de discussão conseguimos avançar em esboços referentes ao parágrafo Verdade, discussão complexa que abordamos paralelamente com a de aspectos do ponto 3 “Fim do Conflito”, que são os de cessar-fogo bilateral e deixação de armas.
Questão muito distinta é que ante a insistência governamental em atravessar no processo temas de seu interesse particular, como o são as iniciativas de justiça transicional, cuja solução em nada deveria retardar a busca de saídas às necessidades das vítimas, as FARC-EP tenhamos dado oportuna resposta, como queira que não nos fechamos à discussão de propostas que pudessem contribuir para o fim do conflito. Por isso apresentamos iniciativas que estão em marcha para beneficiar o processo, como as medidas de desescalada do conflito, e o sabotado cessar unilateral de fogos, em procura do armistício que alivie a população inerme das dores da guerra.
Nossa prioridade, isso sim, tem sido levar à Mesa as propostas que as vítimas do conflito apresentaram. Nossas iniciativas estão em mãos do governo, sem que depois de um ano de debates se tenha dado oriunda das instituições alguma resposta que satisfaça as vítimas, exceto o decreto 0303 de 2015 referente a desaparecimentos orçados.
Frente a estas circunstâncias, devemos dizer que nenhuma desculpa há para que não se concretizem medidas urgentes de reparação que apontem a responder às exigências das vítimas; nenhuma justificativa há para retardar um acordo sobre Comissão de Esclarecimento e Verdade, assim como nenhum argumento racional pode ser esgrimido para escalar a guerra em momentos nos quais falamos de paz. E se do que se trata é de abordar o tema de justiça, de maneira transparente e oportuna desde há tempos vimos expressando ideias precisas para assumir o assunto.
Cremos que um processo de paz não é um processo de submissão nem rendição, também cremos que não se pode converter num processo judicial ou de debute de um conceito de justiça punitivista na qual o Estado possa atuar como juiz e parte. Nesta ordem de ideias, reiteramos que nenhum marco jurídico unilateral é reconhecido pela insurgência e muito menos concepções de justiça transicional que dele se derivem; em Havana não se vai intercambiar impunidades porque não é comparável o terrorismo de Estado ao exercício do direito à rebelião; nenhum guerrilheiro está disposto a pagar cárcere por haver exercido dito direito; ademais, se a algo se deve referir o conceito justiça é ao estabelecimento da justiça social, reparadora, prospectiva, pelo qual seria impensável a paz se não se começa a desmantelar a doutrina da segurança nacional, a teoria do inimigo interno e o paramilitarismo. E, finalmente, que é o Estado o máximo responsável pela guerra e seus vitimizadores.
Nunca daremos um voto de confiança ao sistema judicial colombiano nem a simples promessa sem garantias de suas instituições corruptas, porque não viemos a Havana para nos submeter. O mínimo para alcançar a reconciliação é que se proceda com as mudanças estruturais que acabem com a miséria, a desigualdade e a falta de democracia.
Delegação de Paz das FARC-EP

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Equipe ANNCOL - Brasil

Congressista colombiana chama à mobilização pela paz



A legisladora Ángela Robledo chamou os colombianos a reagirem em defesa do processo de distensão para impulsionar uma solução acordada ao conflito interno e exortou a participarem em uma grande mobilização pela paz em julho próximo.


Durante uma entrevista televisiva, a parlamentar afirmou que chegou a hora de sair às ruas para respaldar os diálogos entre o Governo e as Farc, iniciados em Cuba desde 2012 e que passam por momentos de complexidade.

Robledo adiantou que Bogotá será palco novamente de outras demonstrações de reivindicação pelo fim do período bélico, previstas para os dias 18 e 19 de julho.

A co-presidenta da Comissão de Paz do congresso explicou que essa iniciativa é promovida por diversas organizações sociais e políticas, movimentos sindicais, cerca de 14 igrejas e o Centro de Memória, entre outras instituições. É necessário parar a maquinaria da guerra, enfatizou em declarações ao Canal Capital.

O secretário-geral do Partido Comunista Colombiano, Jaime Caycedo, explicou à Prensa Latina que os manifestantes pedirão também uma trégua bilateral para reduzir a intensidade do conflito, que ocasionou a morte de mais de 230 mil pessoas.

Representantes governamentais e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (Farc) se reúnem na capital cubana para encontrar uma saída política para a guerra, única no continente.

A recente retomada dos bombardeios do Exército contra os acampamentos dessa força insurgente recrudesceu o conflito de mais de meio século. Como resultado dessas ações morreram pelo menos 40 guerrilheiros em poucos dias.

Depois do aumento das ofensivas militares nas últimas semanas, as Farc decidiram abandonar a trégua unilateral decretada em dezembro, por considerá-la insustentável nas condições atuais.

Tais acontecimentos acrescentaram elementos de tensão aos já complicados debates na mesa de acordo entre as duas partes beligerantes, concentrados agora no tema da reparação às vítimas da guerra, que rondam os 6.8 milhões.

Fonte: Prensa Latina

quinta-feira, 4 de junho de 2015

PERIODISMO PARA A PAZ




Por Paulo Catatumbo, da Delegação de Paz das FARC-EP



A coluna de opinião do passado 25 de maio, titulada: “Sirvió la muerte de Jairo Martínez?”, escrita pelo jornalista de diretor da revista Semana, Armando Neira, é uma prova clara de que na Colômbia sim é possível fazer bom jornalismo. (Ver artículo)



Através de um ameno estilo, tranquilo e respeitoso da verdade, o autor aborda os últimos acontecimentos da guerra em Colômbia apresentando com objetividade as posições das partes em conflito, para encerrar seu escrito fixando uma opinião pessoal e fazendo uma invitação à reflexão coletiva.



Resulta muito importante esse documento para abordar a analise da atual crise da Mesa de Conversações, de uma forma calmada e com cabeça fria.



Excelente o gesto de permitir que a guerrilha fale através de sua própria voz e não através de informes de inteligência ou de paulas preestabelecidas.



Trata-se de um bom exemplo para os grandes meios de comunicação o tratamento sossegado de temas álgidos, cuja tergiversação pode trazer amargas consequências.



Reconforta ler colunas de opinião como a do jornalista Neira. Oxalá esse mesmo estilo equânime fosse adotado nas redações e equipes de trabalho de alguns jornais, programas de notícias e franjas de opinião e, que lograra substituir essa forma de opinar e reportar tão ligada às reminiscências setárias da violência da década de 1950, carregada de estigmatizações e sanatização do outro (a guerrilha, no presente caso), assumindo sempre a falta de objetividade como bandeira principal.



Porque a verdade seja dita: é muito difícil avançar num Processo de Paz quando os grandes meios de comunicação impõem a difamação como estilo periodístico e prática habitual de tergiversar a verdade. A consequência: Quando essas visões distorcidas chegam ao ouvido de milhões de compatriotas, suas aspirações de paz e de reconciliação desmoronam e a confiança do país no Processo de Paz perde força.



Coincidimos com Neira (e isso não faz dele um amigo das FARC-EP nem um aliado do terrorismo). Em que é melhor dialogar sem o eco das ráfagas e sem ter que chorar os mortos de parte e parte.



Essa verdade, gigantesca como nenhuma outra, é hoje uma das maiores dificuldades do Processo de Paz.



Desde o lado insurgente consideramos que um Cessar-de-fogo bilateral abre as portas definitivas para um Acordo Final. Um exercício de prospectiva simples assim o demonstra: se de dezembro de 2014 a maio de 2015 nosso Cessar-de-fogo unilateral permitiu uma diminuição de 85% das ações da guerra em todo o país, ¿podemos imaginar o efeito de uns messes de Cessar-de-fogo bilateral sobre a vida cotidiana e o imaginário colectivo da nação?



Essa perspectiva de empeçar a converter a Paz em algo cotidiano para o país, debe ser acordada entre as partes dentro do mais breve tempo possível. Essa será a melhor maneira de romper o que Neira chama de “el acuerdo para matarnos a tiros” e avançar na concreção de um Acordo de Paz, que nos permita evitar sacrificar vidas valiosas para o desenvolvimento do país, como as de Jairo Martínez, Emiro Jiménez, Román Ruiz, os 11 soldados de Buenos Aires - Cauca e nossos 40 combatentes caídos durante a última semana.





TESTAMENTO DE HO CHI MINH


No ano em que se comemora o 40º aniversário da vitória do povo vietnamita, odiario.info homenageia Ho Chi Minh publicando o seu Testamento. O grande dirigente revolucionário faleceu antes de a vitória estar inteiramente alcançada. Mas a história confirmou a sua inabalável confiança em que ela chegaria. Nos dias de hoje, em que a ofensiva imperialista avança em todos os continentes, a heroica lição do povo vietnamita é mais actual que nunca. Mesmo um pequeno povo, se unido e dotado de uma firme direção revolucionária, pode não apenas afrontar a maior potência imperialista como pode também derrotá-la.






10 de Maio de 1969 República Democrática do Vietnam
Independência – Liberdade – Felicidade Ainda que a luta de nosso povo contra a agressão dos Estados Unidos pela salvação nacional deva passar por mais dificuldades e sacrifícios, estamos decididos a conquistar a vitória total. Isso é certo.



Pretendo, assim que isso se resolva, viajar tanto ao Norte quanto ao Sul para felicitar os nossos heróicos camponeses, quadros militares e combatentes, assim como visitar os anciãos e as nossas amadas crianças e jovens.


Assim, em nome de nosso povo, irei aos países irmãos do campo socialista e aos países amigos de todo o mundo para agradecer o seu apoio de coração e a ajuda que deram à luta patriótica de nosso povo contra a agressão dos Estados Unidos.



Tu Fu, o famoso poeta do período Tang na China escreveu:
“Em todas as épocas, poucos são os que alcançam setenta anos de idade”.
Esse ano, levando em consideração que tenho setenta e nove, posso considerar-me entre esses “poucos”. Ainda assim, a minha mente conserva-se perfeitamente lúcida, ainda que a minha saúde se tenha debilitado um pouco em comparação aos últimos anos. Quando alguém vivencia mais de setenta primaveras, a saúde deteriora-se com a idade. Não pode considerar-se Isso uma maravilha.



Mas quem pode dizer quanto tempo mais serei capaz de servir à revolução, à pátria e ao povo?


Portanto, deixo essas linhas antecipando o dia em que irei reunir-me com Karl Marx, V.I. Lénine e outros líderes revolucionários. Assim, o nosso povo em todo o país, os nossos camaradas no Partido e os nossos amigos no mundo não serão tomados de surpresa.


Primeiro, falarei sobre o Partido: graças à sua estreita unidade e dedicação total à classe operária, ao povo e à Pátria, o nosso Partido foi capaz, desde a sua fundação, de unir, organizar e dirigir o nosso povo, de êxito em êxito, numa firme luta.


A unidade é uma tradição extremamente preciosa do nosso Partido e do povo. Todos os camaradas, desde o Comité Central até às células devem preservar a unidade e a união do pensamento no Partido como a menina dos olhos.


No interior do Partido, estabelecer uma ampla democracia e praticar a autocrítica e a crítica de maneira regular e séria é a melhor forma de consolidar e desenvolver a solidariedade e a unidade. O afeto e a camaradagem devem prevalecer.


O nosso partido é um partido no poder. Cada membro do Partido, cada quadro deve estar profundamente inspirado pela moral revolucionária e demonstrar empenho trabalhador, frugalidade, integridade, probidade, dedicação total ao interesse público e completo altruísmo. O nosso Partido deverá preservar a pureza absoluta e provar-se digno do seu papel de condutor e servidor legal do povo.


Os membros da União de Jovens Operários e a nossa juventude em geral são bons, estão sempre preparados para se oferecer, sem temer as dificuldades, ansiosos pelo progresso. O O Partido deve fomentar as suas virtudes revolucionárias e prepará-los para que sejam os nossos sucessores, tanto “vermelhos” como “experientes”, na construção do socialismo.


A preparação e a educação das futuras gerações de revolucionários são de grande importância e necessidade.


Os nossos trabalhadores, nas planícies e nas montanhas, resistiram durante gerações a penúrias, opressão e exploração feudal e colonial. Além disso, experimentaram muitos anos de guerra.
Porém, o nosso povo também mostrou grande heroísmo, valor, entusiasmo e trabalho. Seguiu sempre o Partido com lealdade incondicional desde que veio à luz.



O Partido deve levar a cabo planos eficazes para o desenvolvimento econômico e cultural para melhorar constantemente a vida de nosso povo.


A guerra de resistência contra a agressão dos Estados Unidos pode prolongar-se. O nosso povo pode enfrentar novos sacrifícios humanos e materiais. Não importa o que passe, devemos manter a nossa resolução de combater os agressores ianques até alcançarmos a vitória total.
As nossas montanhas sempre existirão, os nossos rios sempre existirão, o nosso povo sempre existirá. Com a derrota dos invasores norte-americanos reconstruiremos a nossa terra até fazê-la dez vezes mais bonita.



Independentemente das dificuldades e dos contratempos que apareçam, o nosso povo está confiante de que obterá a vitória total. Os imperialistas dos Estados Unidos certamente terão que renunciar. A nossa pátria certamente será unificada. Os nossos compatriotas no Sul e no Norte serão certamente reunidos sob o mesmo céu. Nós, que somos uma nação pequena, obtemos a mais honrosa medalha por haver derrotado, através de uma heróica luta, dois grandes imperialismos: o francês e o norte-americano, assim como por termos dado uma valiosa contribuição ao movimento mundial de libertação nacional.


Sobre o movimento comunista mundial, o facto de ter sido um homem que dedicou toda a sua vida à revolução faz-me sentir ainda mais orgulho pelo crescimento do comunismo internacional e dos movimentos operários, ainda que me doa a divergência que hoje existe entre os Partidos irmãos.
Espero que o nosso Partido faça todos os esforços possíveis para contribuir na restauração da unidade entre os Partidos irmãos que têm por base o marxismo-leninismo e o internacionalismo proletário na razão e no sentimento.



Confio plenamente que os Partidos e países irmãos se irão unir novamente.


No que diz respeito aos assuntos pessoais, por toda a minha vida servi a minha Pátria, a revolução e o povo com todas as minhas forças e com todo o meu coração. Se agora devo deixar esse mundo, não tenho nada de que me lamentar, excepto de não ter sido capaz de servir mais e melhor.
Quando já tiver ido, para não desperdiçar o tempo e o dinheiro do povo, devem evitar um funeral oneroso.

Finalmente, a todo o povo, a todo o Partido, a todo o exército, a meus sobrinhos e sobrinhas, aos jovens e crianças deixo o meu amor ilimitado.



Também transmito as minhas cordiais saudações aos nossos camaradas e amigos, à juventude e à infância de todo o mundo.


O meu maior desejo é que o nosso Partido e o nosso povo, unindo estreitamente os seus esforços, construam um Vietnam pacífico, reunificado, independente, democrático, próspero e que dê uma valiosa contribuição à revolução mundial.



Hanói, 10 de Maio de 1969.



Ho Chi Minh.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

FARC-EP: 51 anos de luta pela paz



Guerrilheiro Marquetaliano 1964
Sempre acreditamos que a tomada do poder é impensável sem a participação ativa e decisiva das massas populares organizadas e a esse propósito dedicamos a parte mais importante de nossos esforços.”

Nós, as FARC-EP, celebramos em 27 de maio de 2015 mais um aniversário de nosso nascimento em Marquetalia. Durante 51 anos contínuos combatemos as forças militares e policiais colombianas, seus grupos paramilitares, seus apoiadores norte-americanos, britânicos, israelenses e os demais, com uma impressionante assimetria de recursos de toda ordem, movidos exclusivamente por nossas convicções, inspirados por nossos mártires e sem alterar em um milímetro nossos princípios e objetivos. E permanecemos combatendo-os, ao preço de nosso sangue e nossas vidas, com a mesma coragem e disposição.
Nossa luta armada de mais de meio século na Colômbia foi a expressão particular de uma luta econômica, ideológica e política universal, que enfrenta os poderes do capital, o latifúndio e a violência, contra as aspirações dos povos, dos trabalhadores e da paz. Pegamos em armas há mais de cinco décadas porque em nosso país as vias democráticas legais foram fechadas violentamente para o exercício da atividade política opositora. Porque pronunciar-se contra a injustiça do sistema capitalista e a exclusão política vigente transformou-se em crime, porque a prisão e o caixão se fizeram destino seguro para aqueles que se negaram a seguir a voz dos partidos tradicionais da oligarquia ajoelhada ante o governo de Washington.
As FARC-EP formaram ao longo destes 51 anos uma imensa comunhão de colombianas e colombianos de todas as regiões e culturas, de dimensões e profundidade muito maiores que nossas estruturas armadas. Contamos com o sincero afeto e a solidariedade de muitos povos do continente e do mundo. Podemos dizer, com orgulho, que são os elevadíssimos graus de consciência, combatividade e heroísmo dessa grande fraternidade fariana que nos permitem fazer frente, sem nos intimidarmos jamais, à mais intensa arremetida ideológica, política e militar empreendida pelo imperialismo, a oligarquia e seus aliados contra um povo de Nossa América em toda sua história.
Nós, as FARC-EP, somos um partido político em armas, o somos desde o dia de nosso nascimento. Tínhamos em Marquetalia nossas ideias e propostas para as comunidades isoladas e colônias agrícolas derivadas da amarga noite de violência liberal conservadora. Porém, ante a enorme arremetida de que fomos vítimas em maio de 1964, por ordem do Presidente Guillermo León Valencia e em execução dos planos do Pentágono, elaboramos, em meio à confrontação, uma simples declaração que denominamos Programa Agrário dos Guerrilheiros, na qual ficaram registradas as razões de nossa histórica luta, a natureza de nossos objetivos e a necessidade de formar um grande movimento nacional pelas mudanças urgentes que requeria o país.
Durante mais de cinco décadas, damos a conhecer a infinidade de documentos que refletem nossos projetos para a Colômbia, sempre odiados pelos donos do poder, distorcidos e manipulados pelos grandes meios de comunicação, perseguidos por todos os aparatos de morte e terror. No longo caminho empreendido para a materialização da paz, cada vez que nós das FARC-EP sentamos a uma Mesa de Conversações com o governo nacional, demos a conhecer ao país e ao mundo nossos pensamentos e aspirações para a Colômbia. Assim, o fizemos com a plataforma política que serviu de lançamento ao movimento político União Patriótica, assim como nas múltiplas Audiências Públicas celebradas no Caguán. Da mesma maneira, agimos hoje com as propostas mínimas sobre cada um dos pontos da agenda de Havana.
Nossa preocupação principal ao longo destes 51 anos de luta tem sido a formação de um grande movimento político que se constitua na verdadeira alternativa de transformação democrática para o país. Uma gigantesca torrente de massas que tenha a capacidade de desprezar a oligarquia na Colômbia e arrebatar-lhe o poder. Sempre acreditamos que a tomada do poder é impensável sem a participação ativa e decisiva das massas populares organizadas e a esse propósito dedicamos a parte mais importante de nossos esforços. A ganância do imperialismo norte-americano e da oligarquia dominante na Colômbia fez ver em qualquer líder ou organização social ou política de oposição um verdadeiro perigo para seus interesses, fazendo necessário removê-los do meio de modo exemplar. Isso explica o derramamento de sangue ininterrupto de nossa pátria.
Nunca deixamos de relacionar a ideia da paz com as de democracia e justiça social. Porque a pobreza e as carências, as iniquidades próprias da desigualdade social e os privilégios políticos são a principal fonte de inconformidade e protesto contra um regime. Os povos, as classes desfavorecidas reclamam por seus direitos quando os mesmos são negados ou violados, organizam-se politicamente na oposição quando são concedidas as garantias para fazê-lo. Porém, se são impedidos de se organizar como oposição, sendo perseguidos, encarcerados e assassinados por apresentarem sua inconformidade, essa violência, essa negação absoluta da democracia, essa institucionalização do crime e do terror se convertem no principal alimento da rebeldia, na causa principal do levante armado e da guerra.
Nós, as FARC-EP, somos oposição política em armas porque a violência e o terror de Estado imperantes na Colômbia se encarregam de proibir as expressões políticas de inconformidade com o regime. O que reclamam os ecos de nossos fuzis é o direito à vida de todos os colombianos que não acreditam nas bondades do sistema, é o direito a expressar as ideias livremente e fazer política com elas, sem que recebam dois disparos na nuca na porta de sua casa. Nenhum país do continente, nem sequer aqueles do cone sul que suportaram por anos horrendas ditaduras, contam um número tão impressionante de vítimas estatal como as que contam a Colômbia, de cuja estabilidade democrática ufana suas classes dominantes com verdadeiro cinismo.
O extermínio de organizações políticas completas, o elevadíssimo número de assassinatos políticos, a desenfreada e impune ação de grupos paramilitares e matadores, a aterradora lista de massacres, desaparecimentos, montagens judiciais, despojos violentos da propriedade, deslocamentos forçados, ameaças e desterros, a ocorrência cotidiana da brutalidade policial repressiva, falsos positivos e operações militares de terror, imputáveis todos ao Estado, a seus altos funcionários e comandos militares e policiais, apoiados por governos estrangeiros, altos empresários, dirigentes políticos tradicionais, latifundiários, grandes meios de comunicação e setores da igreja católica, não podem ser dissimulados nem justificados. Trata-se de verdades que provam de modo inquestionável a ausência de uma democracia real em nosso país e são, portanto, a principal causa a atender e solucionar na busca da paz.
Não esquecemos as vidas arrebatadas de nossos companheiros de luta e de nosso povo durante todos estes anos, ao tempo que expressamos nosso afeto e solidariedade com os camaradas lesados, feridos de guerra e afetados por enfermidades. Doem-nos nossos prisioneiros e prisioneiras de guerra, que suportam o tratamento cruel e desumano nos cárceres do país e do exterior, sem abandonar seu sonho de revolução e socialismo. Para elas e eles, nosso abraço e nosso alento. À população civil afetada pelas repressões, deslocamentos e demais crimes do militarismo fascista, dentro dos quis cabe incluir a perseguição judicial, nosso sentimento de irmandade e nossa decisão de lutar até o final por ela. Neste 51° aniversário, reiteramos que sem os direitos à vida, à integridade pessoal e à liberdade dos opositores, sem a vigência de garantias certas para o exercício de sua atividade política, sem o ressarcimento de seus direitos violados, é inútil pensar na finalização do conflito.
Do mesmo modo, voltamos a insistir na ignorância que significa pensar que o conflito colombiano terminará pela via da força e da submissão. O imperialismo e a oligarquia deveriam entender isso depois de 51 anos de tentativas frustradas. As FARC-EP sempre sustentaram que a solução é política, pela via das negociações, mediante um acordo que ponha fim às causas que originaram e alimentam o confronto. Este aniversário coincide com um conjunto de avanços importantes nesse sentido, alcançados com o governo de Juan Manuel Santos. Ainda considerando a força das explicações pendentes, é inquestionável que o acordado em matéria dos três pontos da Agenda carece de antecedentes e abre as portas ao otimismo. Avançam as discussões sobre o ponto das Vítimas e, paralelamente, trabalha a Subcomissão de cessar-fogo e o fim do conflito, onde, pela primeira vez na história, se sentam à mesa, para dialogar com respeito, importantes comandos das forças armadas enfrentadas durante todos esses anos.
A Mesa de Havana abriu as portas para as mais diversas representações das vítimas, incorporando a visão de gênero, produzindo o Informe da Comissão Histórica, celebrando pela primeira vez um acordo humanitário de descontaminação de explosivos. Implicou no reconhecimento das FARC-EP como organização política e validou tal caráter ante a comunidade internacional, representada pelos países acompanhantes e garantidores do processo, o que por sua vez recebeu as mais diversas manifestações de apoio, entre as quais cabe destacar a nomeação de enviados especiais por parte dos governos dos Estados Unidos e Alemanha. Também, e o mais importante, despertou um amplo debate nacional em torno do significado da paz e as aspirações do povo colombiano, que se mobilizou de forma majoritária em apoio à solução política, ao cessar-fogo bilateral e à Assembleia Nacional Constituinte.
O conjunto do exposto dá lugar ao mais positivo dos ânimos com relação à obtenção de um Acordo Final completamente satisfatório para ambas as partes, capaz de conseguir o referendo das grandes maiorias nacionais e digno do reconhecimento internacional. As FARC-EP consideram que seria uma grande vitória para o povo colombiano a assinatura desse Acordo Definitivo de Paz, em cuja elaboração nós consideramos urgente o acréscimo do Exército de Libertação Nacional e o resto da insurgência revolucionária consequente. Por isso, reiteramos hoje nossa decidida disposição em obtê-lo, entendendo sempre que se trata da confluência de duas vontades e não da submissão de uma delas ao império da que se considera mais forte, porque pode bombardear pelo ar e matar de uma vez, covardemente, dezenas de seus adversários.
O otimismo e a fé expressos na consecução de um Acordo Final não deixam de ser atravessados por sombras sinistras, contra quem o povo colombiano, mobilizado de formas distintas, deve fechar o caminho com a firme decisão. A primeira delas é a promoção e expedição de normas constitucionais e legais que o governo nacional sabe vão em aberta contradição com o pactuado e o pendente de ser aprovado em Havana. O previsto em matéria de terras e política de exploração de recursos naturais no Plano Nacional de Desenvolvimento impossibilita a execução de acordos pontuais assinados na Mesa de Havana, do mesmo modo que ocorre com reformas de corte mais antidemocrático ainda, previstas no chamado equilíbrio de poderes.
Independente da Mesa de Conversações, o governo insiste em aprovar um marco legal para a paz e uma justiça transicional, conforme o interesse exclusivo de certos setores comprometidos até os ossos com os mais diversos crimes, ao mesmo tempo em que adianta uma campanha geral de propaganda em torno das condenações e penas impostas aos comandantes guerrilheiros. Tudo visa apresentar como fatos consumados sem qualquer discussão. Isso só pode despertar dúvidas e desconfianças.
A reiterada negativa em acordar um cessar-fogo bilateral desde a primeira aproximação feita por nós e sua insistência em conversar em meio ao confronto até o último dia, só pode ser interpretada como a aspiração em obter mediante rios de sangue nossa rendição na Mesa de Havana. Enquanto isso, nossos gestos unilaterais de paz são desprezados, reagindo com escândalo, ameaças e ordens absurdas a nossa mais que justificada resposta militar. Buscamos uma solução pacífica, civilizada e democrática à guerra que nos foi imposta há 51 anos porque sabemos da dor que ela causa a nosso povo, porque entendemos que a morte das filhas e filhos da mesma pátria se produz em benefício exclusivo das classes abastadas, porque sabemos que um povo reconciliado pode unir-se e trabalhar por uma ordem econômica e social mais justa e humana.
Juramos vencer!... E venceremos!
SECRETARIADO DO ESTADO MAIOR CENTRAL DAS FARC-EP
Montanhas da Colômbia, 27 de maio de 2015.

terça-feira, 2 de junho de 2015

"O tema da justiça é uma mula morta no caminho da paz": Iván Márquez


O chefe da Delegação de Paz das FARC falou sobre as tensões que a Mesa de Diálogos vive pelos fatos de guerra. Fonte: El Espectador

Por: Alfredo Molano Jimeno
Numa das rodadas mais tensas nos mais de dois anos de processo de paz entre o Governo e as FARC, o chefe da Delegação de Paz da guerrilha explica que, após a morte de mais de 40 guerrilheiros na última semana, a confiança da Mesa está mal ferida e assinala que só um cessar-fogo bilateral pode ajudar a que o processo avance com maior celeridade. Também fala do assunto da justiça transicional, da Assembleia Nacional Constituinte e do avanço de um acordo sobre uma comissão da verdade. Afirma que o diálogo com os militares imprimiu um melhor ritmo à Mesa, e pede pela rápida instalação de um processo de paz com o ELN.
Se fala de que a Mesa entrou num momento de estancamento... O que há de certo?
É assim. Eu diria que estamos atravessando uma turbulência. Havíamos conseguido aproximar-nos numa visão em torno à comissão de esclarecimento da verdade. No ciclo anterior dissemos que esperávamos que nesta rodada poderíamos dar ao país a notícia de sua composição. Porém os fatos ocorridos no campo militar lamentavelmente adiaram este assunto e é que essa comissão vai nos mostrar as responsabilidades que cada quem tem. Se se vai falar de justiça, se necessita da verdade porque aqui se fala de justiça, porém aplicável aos “maus”, mas não dos responsáveis supremos, que é o Estado. No dia em que o Estado assuma como o máximo responsável, creio que teremos começado a suprimir o caminho da guerra.
Há mais de um ano se discute o ponto de vítimas, por que tem parada a discussão?
O tema de justiça se atravessou como uma mula morta no caminho dos acordos. Há que remover esse obstáculo e dedicar-nos a resolver o tema das vítimas. Neste processo se deram coisas novas, como as audiências com as vítimas do conflito. Porém, ocorre que não se move nada a favor das vítimas. Enquanto discutimos o tema, continuam matando defensores de direitos humanos reclamantes de terra, continuam perseguindo aos líderes do movimento social. A Marcha Patriótica já leva mais de cem mortos. Porém, ademais pusemos sobre a mesa uma combinação de propostas para discuti-las, que são mais de 140. Porém estão represadas ainda que, sim, houve alguns avanços. Agora estamos falando da comissão da verdade, que é um instrumento muito importante para levantar o freio à discussão. Ao mesmo tempo, estamos discutindo assuntos relativos ao fim do conflito, enfocados em dois aspectos: o cessar-fogo e a deixação das armas. Aí se está fazendo um bom exercício e ganhamos muito em confiança e, ainda que pareça incrível, tem havido uma grande sintonia entre os altos oficiais da Força Pública e os Comandantes guerrilheiros. A que se dá entre os guerreiros e estamos muito satisfeitos de poder falar com os destacados oficiais designados pelo Governo e com eles pudemos constatar que eles querem a paz como a querem a maioria dos colombianos.
Quando se fala de justiça, inevitavelmente, alguém pensa no cárcere, você crê que se isso se resolve se poderia avançar na paz?
O que ocorre é que se tem pretendido difundir que as FARC rechaçam as ideias de justiça transicional. Nós outros buscamos uma justiça combinada entre as partes. Entendo a justiça transicional como um acordo político. Porém, em Colômbia se tem dado que o Governo, de maneira unilateral apresentou, sem ter em conta a seu igual na mesa, se foi pelo atalho do Marco Jurídico para a Paz. Isso não deixa um bom sabor. Nós outros cremos que podemos encontrar uma fórmula de reconciliação sobre as bases de verdade histórica, justiça transformadora, reparação integral e não repetição. Creio que ali está a chave para sanar as feridas. Necessitamos remover as estruturas injustas que geraram o levantamento armado, como direito universal. Tudo isto está ligado a transformações estruturais, que estão contempladas na agenda de Havana. A paz da Colômbia não se resolve traçando linhas vermelhas.
Quais são essas linhas vermelhas que se apresentaram?
Diz o Governo que não está em discussão a política econômica, porém é que a Colômbia não pode estar condenada à injustiça, ao saqueio dos recursos naturais por parte das transnacionais, e dos políticos corruptos. Não nos opomos à extração mineiro-energética, porém a queremos a serviço do povo.
E no tema de sanções, que se viu como a noz do problema da justiça, quais são as alternativas que vocês apresentam?
Os colombianos devemos refletir sobre a mensagem que as vítimas nos trouxeram. Elas disseram que vinham despojadas de ódio e de vingança, a pedir-nos que não nos levantássemos da Mesa até firmar o acordo final. Isso é o que há que entender. Nos disseram que as benditas pesquisas dizem que a maioria pede cárcere para as FARC e alguém se pergunta se não estarão mal apresentados os questionários das pesquisas. Que passaria se lhes perguntam se estão de acordo com que a casta política corrupta vá para o cárcere? Nós outros não viemos a Havana para intercambiar impunidades. Há que abrir as portas à margem nacional de apreciação, que nos convida a fazer uma reflexão em torno às origens do conflito, porque um tribunal internacional não conhece nossa história, nossos costumes. Não sabem que aqui houve uma época de violência que produziu 300.000 mortos e não se pagou por eles nem uma missa. Há que extrair as fórmulas de nossa história e encontrar os responsáveis. Aí falaremos de justiça.


Porém, diga-me, quais são as fórmulas de justiça que vocês propõem?
O problema radica em pensar a justiça como um tema punitivo. O importante é levar adiante este processo e conseguir a paz. É um tribunal estrangeiro, que não conhece Guapi, nem Quibdó. Se é uma instituição razoável, tem que fazer-se a um lado por falta de elementos de juízo. Agora, a pergunta sobre o cárcere a devolvemos: pergunte aos dirigentes políticos, aos ex-presidentes, aos empresários. Será que eles estão dispostos a pegar cárcere?
Porém, que garantías jurídicas podem ter sem o aval da justiça internacional?
É que aqui se disse que com vigência do Tratado de Roma é impossível as anistias gerais e os indultos, porém isso não é certo. Onde está o documento que diz isso? Esse tema está aberto à observação dos diferentes países, porém, como em Colômbia há obcecados em colocar detrás das grades a guerra, punitivistas de última hora que inventam ficções jurídicas que dizem que se não cárcere não há nada. Porém, falemos de determinadores. Imagine-se a um general falando de falsos positivos, que vai dizer?, que é produto de uma diretriz presidencial, e o presidente vai para o cárcere? É que não se tem apreciado o assunto, porque este não é um processo jurídico, é um processo de paz.
Então vocês veem a Assembleia Constituinte como a única garantia jurídica dos acordos?
Se necessita de um cadeado jurídico e isso só o dá uma Assembleia Nacional Constituinte. Que seja o povo, o constituinte soberano o que diga de que maneira se resolve isto. Uma paz estável e duradoura tem que ser o resultado de um grande acordo político, no qual participemos a maioria dos colombianos e isso só se consegue numa constituinte.
Porém, como seria essa constituinte?
Se necessita que nos ponhamos de acordo em três aspectos: o conteúdo, a composição e a duração. Uma constituinte para a paz, para isso a queremos. Não para blindar ninguém. O povo é sábio e saberá resolver esta situação.
Explique esses três aspectos...
O conteúdo terá que ver com as ressalvas que não pudemos nos pôr de acordo na Mesa; também sobre os temas de discussão e das reformas ao sistema eleitoral, à justiça, à democracia etc. Em segundo lugar, temos que acordar uma composição. Nós outros propusemos que se criem circunscrições especiais para os que nunca foram ouvidos, por exemplo, que os campesinos, os jovens, os afros ou os indígenas elejam seus representantes. E a duração, que pode ser de seis meses. Aí está a constituinte, onde os guerrilheiros devemos marcar presença, derivada do próprio acordo. Isso abre um horizonte muito extenso.
E não é perigoso que nessa constituinte, em vez de ampliar-se, se apequene a democracia?
Estamos falando de um acordo político prévio. No fundo, é preciso estar louco para opor-se à paz. Suspeitamos da loucura de Uribe, porém talvez não o esteja. Nós temos que fazer mudanças estruturais em Colômbia. Não estamos dizendo que se imponha um modelo, dizemos que há que fortalecer a democracia. Por que não pode haver um representante dos trabalhadores na junta do Banco da República? É que estão acostumados à exclusão. Se pode adotar uma política econômica que dignifique o povo.
Que impactos tiveram na Mesa os últimos acontecimentos de guerra em Colômbia?
Estremeceram a Mesa e Conversações. Porém os que estamos neste processo sentimos que é necessário dedicar nossos esforços para superar este mau momento. Os garantidores do processo, Cuba e Noruega, expressaram sua preocupação por perder os acordos alcançados e sugerem trabalhar na desescalada do conflito e propõem a necessidade de avançar para o cessar-fogo bilateral e nisso damos uma resposta positiva.
A desescalada demonstrou que os únicos gestos duradouros são os acordados pela Mesa, e não as decisões unilaterais das partes...
Porém, o que podíamos fazer se o Governo se nega ao cessar-fogo bilateral aduzindo que outorgaria vantagens militares à guerra? Declaramos por várias vezes cessar-fogo unilateral, o último por tempo indeterminado. Foram cinco meses de cumprimento cabal, se evitaram muitas mortes e atos de guerra, permitimos que as multinacionais petroleiras fizessem sua devastação, porém o Governo aproveitou para desdobrar suas forças. Para ocupar territórios de controle guerrilheiro. Foram muitos os guerrilheiros mortos neste cessar-fogo unilateral.
Porém a morte dos soldados do Cauca foi a que produziu a reativação dos bombardeios...
Quem não vê esses episódios desde o ponto de vista militar não o entende. Isso foi em defesa própria. Houve um desembarque de tropas que avançavam contra nossas unidades, então se produziu este resultado. Agora o presidente diz que se cometeram erros militares, e isso terá que esclarecer. Então veio o ataque a Guapi, no qual morreram 27 guerrilheiros e isso acabou de derrubar o cessar unilateral e foi contra nossa vontade. O Governo nos provocou durante cinco meses. Pinzón fez até o impossível para sabotar este esforço e o conseguiu.
Como solucionar isso?
Com o cessar bilateral de fogos. É que nos mataram mais de 40 guerrilheiros, entre eles os comandantes Román Ruíz e dois delegados da Mesa que estavam cumprindo tarefas de pedagogia de paz em unidades guerrilheiras, que são Jairo Martínez e Emiro.
Isso em que afeta o plano de desminado humanitário?
Pois, em que, a cada vez que se vão a fazer estas operações, que exigem o translado de guerrilheiros da Mesa à Colômbia, os que estamos em Havana ficamos tensos porque pode surgir qualquer situação. Porém, o importante é que este acordo tem se levado de maneira muito responsável por parte dos generais que estão na Mesa. Porém a confiança está minada.
Que significa para a guerrilha trabalhar com seu adversário no campo de batalha?
Já estamos trabalhando juntos e para nós outros isso tem sido decisivo porque vai nos permitir fazer uma tarefa eficaz. Porém há algo absurdo em tudo isto e é que se tem pretendido que só a guerrilha semeia minas e não é. O Exército abandona artefatos explosivos. Há uns dias os plenipotenciários apareceram com a bota da calça arregaçada pela morte de uma menina que supostamente tinha pisado numa mina. Pois, vão se encarregar de desarregaçar a calça porque a informação diz que se tratava de uma granada de morteiro abandonada pelo Exército. E é que em Buenos Aires [Cauca] não há campos minados. Esperamos que comece seriamente o desminado para beneficiar as comunidades.
Vocês também falaram que nos bombardeios de Guapi foram exterminados os guerrilheiros, que provas têm?
Os sobreviventes ouviram seus companheiros feridos clamando por auxílio e os militares os eliminaram com tiros de misericórdia. Por isso pedimos que uma equipe de forenses internacionais nos informem o que se passou e seria bom que se fizesse o mesmo com o cadáver de Alfonso Cano, que foi assassinado em estado de indefensabilidade.
O que o encontro com altos oficiais da Força Pública tem contribuído com a Mesa?
Tem significado uma oportunidade muito grande para propulsionar o processo de paz. Entre guerreiros os acordos fluem com mais facilidade. Aí não há retórica. Um militar não pode mentir para um guerrilheiro, nem um guerrilheiro para um militar sobre assuntos do campo de batalha. Ademais, tem sido um bom exercício conhecer-nos. Isso nos tem permitido constatar que somos gente do povo, humildes, e se acrescentou a vontade de buscar o fim do conflito. Esta guerra tem sido entre pobres. Os guerrilheiros não ouviram os disparos dos filhos dos presidentes ou empresários. As batidas se dão nos bairros pobres.
A cada vez que se conhece uma visita de Timochenko a Havana, em Colômbia se arma um escândalo...
Se Timochenko viaja a Havana não é para reunir-se com Gabino, é para reunir-se com as FARC. Ele é o chefe das FARC e com ele se acordam as decisões sobre o rumo da Mesa, como o faz o Governo. Eles, a cada oito dias, vão à Casa de Nariño a prestar contas ao Presidente. Nós outros não temos essa possibilidade. É mais difícil que viajemos à Colômbia do que ele venha. Alguns se escandalizam, porém, então, como vamos tomar decisões para chegar ao entendimento com o Governo? Nós não temos um avião para ir falar com Timoleón, que tem que estar conduzindo os blocos no país.
Se falou de uma reunião entre Timochenko e Gabino, para as FARC é imprescindível que o ELN se incorpore ao processo de paz?
Sim, sem nenhuma dúvida. Necessitamos que o ELN contribua para a construção da paz. Tem muito o que dizer e se necessita para preparar o terreno para levantar o novo edifício da Colômbia.
Que falta para esgotar o ponto das vítimas?
Sentar-nos a redigir acordos. Nós não somos o problema, já apresentamos nossas propostas. Quiséramos que fosse o mais rápido possível, porém isto não se resolve com um cronômetro na mão. Oxalá neste tema de vítimas não se apresentem desacordos. E estamos de acordo em que se necessita acelerar a marcha da paz.
Novos ares em Havana
Depois de várias semanas de tensão gerada pela reativação do conflito armado em Colômbia, com a qual se deram importantes baixas tanto de guerrilheiros como de militares que puseram as negociações num ponto de não avanço, os negociadores do Governo e das FARC tomaram um novo ar na discussão e ratificaram na sexta-feira, numa rodada de imprensa, o compromisso de continuar com o diálogo até conseguir a firma do acordo para a terminação do conflito.
Com este renovado ânimo conciliador, se deu a chegada de dois novos negociadores do Governo: a chanceler María Ángela Holguín, a encarregada de articular os acordos com os compromissos normativos internacionais que o país tem, e o empresário Gonzalo Restrepo, quem tem como missão estabelecer estratégias para a reinserção laboral dos guerrilheiros que deixem as armas e evitar a alta porcentagem de reincidência delinquencial que os desmobilizados têm.
O histórico desminado conjunto
Um dos avanços mais importantes alcançados na Mesa de Negociações de Havana e que se pôs em prática sem estar firmada a totalidade do acordo é o desminado. O plano piloto, segundo disse o chefe negociador do Governo, Humberto de la Calle, foi na vereda El Orejón, em Antioquia, onde asseguram que há mais minas que população civil.
É uma primeira mostra do que se pode conquistar mediante o trabalho coordenado, já que pela primeira vez um batalhão do Exército colombiano e as FARC em forma conjunta levam a cabo ações que favorecem a uma população afetada em forma dramática”, disse De la Calle, quem também fez referência ao cumprimento das FARC quanto à entrega de mapas de localização das minas, sobre o qual assegurou que para isso estão os acordos, “para cumpri-los”.

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Equipe ANNCOL - Brasil

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A existência do paramilitarismo é incompatível com um acordo de paz


La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 31 de maio de 2015


O paramilitarismo continua existindo em Colômbia, se estende novamente por todo o país e atua impunemente.

Segundo o Sistema de Informação sobre Agressões contra Defensores de Direitos Humanos [Siaddhh], desde que se iniciou a presidência de Juan Manuel Santos se registraram 1.762 agressões contra defensores de direitos humanos: 1.128 ameaças, 283 homicídios e 171 atentados. A Promotoria só está investigando 442 destes casos, sem maiores avanços. Em 2014 –durante os Diálogos de Paz- se incrementaram as ameaças em 133%, sendo assassinados 55 defensores. A maioria eram líderes indígenas, adscritos a juntas de ação comunal ou campesinos, isto é, população do campo colombiano.

Segundo as Nações Unidas, no primeiro trimestre de 2015 mais de 25 líderes sociais, políticos e defensores de Direitos Humanos foram assassinados. Desde o início dos Diálogos de Habana foram exterminados mais de 100 militantes da Marcha Patriótica. A Unidade Nacional de Proteção [UNP] informou que entre 2012 e 2015 recebeu 37.444 solicitações de proteção. Atendeu apenas a metade.

Se trata de agressões sistemáticas, com padrões de ataque e existência de entraves nas investigações nestes casos. Os responsáveis por estes crimes são, em sua imensa maioria, paramilitares, existindo em Colômbia mais de 80 estruturas destes grupos. As Águias Negras encabeçam a lista, ainda que as autoridades –numa atitude claramente negacionista- sustentem que os grupos paramilitares deixaram de existir. A relação de grupos paramilitares responsáveis continua com os Rastrojos, o clã Úsuga e o Erpac.

As FARC-EP propusemos na Mesa de Diálogos a posta em marcha de um mecanismo para o esclarecimento do fenômeno do paramilitarismo, tal e como se estabelece na alínea 7 do ponto 3, do Acordo Geral de Havana. Igualmente, pedimos o desmantelamento efetivo do paramilitarismo, única forma de cumprir com o estabelecido na alínea 6, “Garantias de Segurança”, do ponto 3 do Acordo.

Todas as colombianas e todos os colombianos sabemos que o paramilitarismo é uma grave realidade em nosso país, e sem seu desaparecimento não poderá haver paz efetiva e duradoura. Não é realista pensar que um fenômeno de tal magnitude pode ser extinto simplesmente com as conclusões que em seu caso alcançará no futuro a Comissão de Esclarecimento da Verdade e Não Repetição, que atualmente discutimos na Mesa. Ninguém em sua sã consciência aceitaria em Colômbia que as garantias de “segurança” para os firmadores do Acordo de Paz consistem em ter uma suposta proteção pessoal, em lugar de acabar com o maior dos fatores de risco para a vida, a integridade e a paz: o paramilitarismo.

A falta de vontade em acabar efetivamente com o paramilitarismo só se pode ler pela sociedade colombiana como falta de vontade para construir a paz.

A Comissão que se ponha em marcha para cumprir com o compromisso estabelecido no Acordo Geral sobre esclarecimento e desmantelamento do paramilitarismo deve esclarecer a história e a atual situação das referidas estruturas no país: corpos paramilitares, estruturas parapolíticas, grupos de mercenários assim como suas formas de operação, condução, vínculos com entidades ou agentes do Estado e fontes de financiamento. É obrigação do Estado processar eficazmente a informação que, procedente dessa Comissão, chegue a seu conhecimento, com o objetivo de desmantelar as estruturas paramilitares e parapolíticas, os bandos criminosos, casas de tortura ou os grupos de mercenários que subsistam no país, antes da firma dos acordos de paz.

Deve-se aprovar novas leis e políticas públicas para erradicar estas estruturas, assim como para prevenir definitivamente seu reaparecimento. Deve-se evitar que, no futuro e como veio ocorrendo ao longo de nossa história, o Estado, suas agências ou seus agentes possam criar, apoiar ou manter relações com estruturas paramilitares ou mercenárias. Na Nova Colômbia que surja após a firma de um Acordo de Paz, somente o Estado democrático pode ser titular do monopólio da força e do uso das armas, e isso com a única finalidade de salvaguardar a soberania nacional e os direitos fundamentais do povo colombiano.

Se isso não é assim, com toda certeza se repetirá o genocídio político já padecido pela União Patriótica, e todos sabemos que nenhum dispositivo de proteção individual estará em condições de evitá-lo.

DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP



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Equipe ANNCOL - Brasil

Sonho americano? Conheça 10 fatos chocantes sobre os EUA


Por Antônio Santos. Artigo originalmente publicado em Diário Liberdade

Os EUA costumam se revelar ao mundo como os grandes defensores das liberdades, como a nação com a melhor qualidade de vida do planeta e que nada é melhor do que o “american way of life” (o modo de vida americano). A realidade, no entanto, é outra. Os EUA também têm telhado de vidro como a maioria dos países, a diferença é que as informações são constantemente camufladas. Confira abaixo 10 fatos pouco abordados pela mídia ocidental.

 

1. Maior população prisional do mundo


Elevando-se desde os anos 80, a surreal taxa de encarceramento dos EUA é um negócio e um instrumento de controle social: à medida que o negócio das prisões privadas alastra-se como uma gangrena, uma nova categoria de milionários consolida seu poder político. Os donos destas carcerárias são também, na prática, donos de escravos, que trabalham nas fábricas do interior das prisões por salários inferiores a 50 cents por hora. Este trabalho escravo é tão competitivo, que muitos municípios hoje sobrevivem financeiramente graças às suas próprias prisões, aprovando simultaneamente leis que vulgarizam sentenças de até 15 anos de prisão por crimes menores como roubar chicletes. O alvo destas leis draconianas são os mais pobres, mas, sobretudo, os negros, que representando apenas 13% da população norte-americana, compõem 40% da população prisional do país.

 

2. 22% das crianças americanas vive abaixo do limiar da pobreza


Calcula-se que cerca de 16 milhões de crianças norte-americanas vivam sem “segurança alimentar”, ou seja, em famílias sem capacidade econômica para satisfazer os requisitos nutricionais mínimos de uma dieta saudável. As estatísticas provam que estas crianças têm piores resultados escolares, aceitam piores empregos, não vão à universidade e têm uma maior probabilidade de, quando adultos, serem presos.

 

3. Entre 1890 e 2012, os EUA invadiram ou bombardearam 149 países.


O número de países nos quais os EUA intervieram militarmente é maior do que aqueles em que ainda não o fizeram. Números conservadores apontam para mais de oito milhões de mortes causadas pelo país só no século XX. Por trás desta lista, escondem-se centenas de outras operações secretas, golpes de Estado e patrocínio de ditadores e grupos terroristas. Segundo Obama, recipiente do Nobel da Paz, os EUA conduzem neste momente mais de 70 operações militares secretas em vários países do mundo.



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O mesmo presidente criou o maior orçamento militar norte-americano desde a Segunda Guerra Mundial, superando de longe George W. Bush.

 

4. Os EUA são o único país da OCDE que não oferece qualquer tipo de subsídio de maternidade.


Embora estes números variem de acordo com o Estado e dependam dos contratos redigidos por cada empresa, é prática corrente que as mulheres norte-americanas não tenham direito a nenhum dia pago antes ou depois de dar à luz. Em muitos casos, não existe sequer a possibilidade de tirar baixa sem vencimento. Quase todos os países do mundo oferecem entre 12 e 50 semanas pagas em licença maternidade. Neste aspecto, os Estados Unidos fazem companhia à Papua Nova Guiné e à Suazilândia.

 

5. 125 norte-americanos morrem todos os dias por não poderem pagar qualquer tipo de plano de saúde.


Se não tiver seguro de saúde (como 50 milhões de norte-americanos não têm), então há boas razões para temes ainda mais a ambulância e os cuidados de saúde que o governo presta. Viagens de ambulância custam em média o equivalente a 1300 reais e a estadia num hospital público mais de 500 reais por noite. Para a maioria das operações cirúrgicas (que chegam à casa das dezenas de milhar), é bom que possa pagar um seguro de saúde privado. Caso contrário, a América é a terra das oportunidades e, como o nome indica, terá a oportunidade de se endividar e também a oportunidade de ficar em casa, torcendo para não morrer.

 

6. Os EUA foram fundados sobre o genocídio de 10 milhões de nativos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres em reservas índias foram esterilizadas contra sua vontade pelo governo norte-americano.


Esqueçam a história do Dia de Ação de Graças com índios e colonos partilhando placidamente o mesmo peru em torno da mesma mesa. A História dos Estados Unidos começa no programa de erradicação dos índios. Tendo em conta as restrições atuais à imigração ilegal, ninguém diria que os fundadores deste país foram eles mesmos imigrantes ilegais, que vieram sem o consentimento dos que já viviam na América. Durante dois séculos, os índios foram perseguidos e assassinados, despojados de tudo e empurrados para minúsculas reservas de terras inférteis, em lixeiras nucleares e sobre solos contaminados. Em pleno século XX, os EUA iniciaram um plano de esterilização forçada de mulheres índias, pedindo-lhes para colocar uma cruz num formulário escrito em idioma que não compreendiam, ameaçando-as com o corte de subsídios caso não consentissem ou, simplesmente, recusando-lhes acesso a maternidades e hospitais. Mas que ninguém se espante, os EUA foram o primeiro país do mundo oficializar esterilizações forçadas como parte de um programa de eugenia, inicialmente contra pessoas portadoras de deficiência e, mais tarde, contra negros e índios.

 

7. Todos os imigrantes são obrigados a jurarem não ser comunistas para poder viver nos EUA.


Além de ter que jurar não ser um agente secreto nem um criminoso de guerra nazi, vão lhe perguntar se é, ou alguma vez foi membro do Partido Comunista, se tem simpatias anarquista ou se defende intelectualmente alguma organização considerada terrorista. Se responder que sim a qualquer destas perguntas, será automaticamente negado o direito de viver e trabalhar nos EUA por “prova de fraco carácter moral”.

 

8. O preço médio de uma licenciatura numa universidade pública é 80 mil dólares.


O ensino superior é uma autêntica mina de ouro para os banqueiros. Virtualmente, todos os estudantes têm dívidas astronômicas, que, acrescidas de juros, levarão, em média, 15 anos para pagar. Durante esse período, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dívidas, sendo muitas vezes forçados a contrair novos empréstimos para pagar os antigos e assim sobreviver. O sistema de servidão completa-se com a liberdade dos bancos de vender e comprar as dívidas dos alunos a seu bel prazer, sem o consentimento ou sequer o conhecimento do devedor. Num dia, deve-se dinheiro a um banco com uma taxa de juros e, no dia seguinte, pode-se dever dinheiro a um banco diferente com nova e mais elevada taxa de juro. Entre 1999 e 2012, a dívida total dos estudantes norte-americanos cresceu à marca dos 1,5 trilhões de dólares, elevando-se assustadores 500%.

 

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada dez norte-americanos, há nove armas de fogo.


Não é de se espantar que os EUA levem o primeiro lugar na lista dos países com a maior coleção de armas. O que surpreende é a comparação com outras partes do mundo: no restante do planeta, há uma arma para cada dez pessoas. Nos Estados Unidos, nove para cada dez. Nos EUA podemos encontrar 5% de todas as pessoas do mundo e 30% de todas as armas, algo em torno de 275 milhões. Esta estatística tende a se elevar, já que os norte-americanos compram mais de metade de todas as armas fabricadas no mundo.

 

10. Há mais norte-americanos que acreditam no Diabo do que os que acreditam em Darwin.


A maioria dos norte-americanos são céticos. Pelo menos no que toca à teoria da evolução, já que apenas 40% dos norte-americanos acreditam nela. Já a existência de Satanás e do inferno soa perfeitamente plausível a mais de 60% dos norte-americanos. Esta radicalidade religiosa explica as “conversas diárias” do ex-presidente Bush com Deus e mesmo os comentários do ex-pré-candidato republicano Rick Santorum, que acusou acadêmicos norte-americanos de serem controlados por Satã.