"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Visita do Papa a Cuba e EUA sinaliza manutenção do diálogo entre os dois governos



Com apoio de ADITAL.
A poucos dias da chegada do Papa Francisco a Cuba, marcada para o próximo dia 19 de setembro, a emblemática Praça da Revolução, localizada na capital Havana, já se prepara para receber o Sumo Pontífice diante dos monumentos dedicados ao líder revolucionário socialista Ernesto Che Guevara e ao independentista e criador do Partido Revolucionário Cubano, José Martí. A expectativa é de que pelo menos 40 mil pessoas participem da missa papal, na praça de 72 mil metros quadrados.



Esta será a 10ª viagem internacional do seu Pontificado e incluirá 24 pronunciamentos, entre discursos, homílias e saudações, muitos delas em castelhano, seu idioma nativo. O Santo Padre partirá do Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci, em Roma, capital da Itália, para o Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, Cuba, no sábado, 19 de setembro, onde será realizada a cerimônia de boas-vindas.
No dia seguinte, domingo, 20, Francisco presidirá a missa na Praça da Revolução e depois fará uma visita ao presidente de Cuba, Raúl Castro. Depois, fará a oração das vésperas, com sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas, na catedral de Havana. A seguir, o pontífice saudará jovens cubanos no Centro Cultural Padre Félix Varela.
Na segunda-feira, 21 de setembro, Francisco deixará Havana e irá à cidade de Holguín, onde deverá celebrar uma missa na Praça da Revolução local e abençoar o município. Parte em seguida para Santiago de Cuba e ali deve se encontrar com os bispos de Cuba, no Seminário São Basílio Magno. Depois disso, Francisco irá ao Santuário da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira do país, para rezar com os bispos e o séquito papal.
Esta será a terceira visita de um Sumo Pontífice a Cuba. Em 1998, a viagem de João Paulo II à ilha contribuiu para melhorar as relações entre o governo local e a Igreja, enquanto Bento XVI ficou durante três dias na nação caribenha, em 2012, e celebrou uma missa na presença de Raúl Castro. Juntamente com o Brasil, Cuba será uma das poucas nações do mundo a ter recebido a visita dos três últimos papas.



De Cuba aos EUA
Ainda no dia 22 de setembro, Francisco se despedirá da Ilha e partirá para a capital dos Estados Unidos, Washington, onde será acolhido, oficialmente, na base Andrews Air Force. Na quarta-feira, 23, será realizada a cerimônia de boas-vindas no South Lawn, da Casa Branca, onde o Papa fará um discurso e depois se encontrará com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Em seguida, a programação prevê que o Sumo Pontífice se encontre com os bispos estadunidenses na Catedral de São Mateus, em Washington. Na parte da tarde, Francisco presidirá a missa de canonização do Beato Junípero Serra, franciscano que evangelizou a Califórnia, no Santuário Nacional da Imaculada Conceição.
Em 24 de setembro, quinta-feira, o Papa visitará o Congresso dos Estados Unidos, onde fará um discurso. A seguir, visitará o centro caritativo da Paróquia de São Patrício e se encontrará com os sem-teto. Às 16 horas locais, partirá de avião para Nova York, onde presidirá a oração das vésperas, com o clero, religiosos e religiosas, na Catedral de São Patrício.
A primeira visita do Papa Francisco à sede da Organização das Nações Unidas (ONU) está marcada para sexta-feira, 25, pela manhã, com uma saudação e um discurso do pontífice. Nesse mesmo dia, Francisco participará do encontro inter-religioso, no memorial do Ground Zero, em Nova York, lembrando as vítimas dos ataques de 11 de setembro de 2001. Na parte da tarde, o Papa visitará a escola católica Nossa Senhora Rainha dos Anjos e se encontrará com as crianças e famílias de imigrantes no Harlem. O dia se encerrará com uma missa, celebrada no Madison Square Garden, em Nova York.
Já no sábado, 26 de setembro, Francisco partirá para a Filadélfia onde celebrará uma missa com os membros do clero, religiosos e religiosas da Pensilvânia, na Catedral dos Santos Pedro e Paulo. Na parte da tarde, o Papa participará do encontro para a liberdade religiosa com a comunidade hispânica e outros imigrantes no Independence Mall, na Filadélfia.
À noite, Francisco participará da Festa das Famílias e da vigília de oração no Benjamin Franklin Parkway, Filadélfia, onde fará um discurso. No domingo, 27 de setembro, ele começará o dia se encontrando com os bispos convidados para o 8º Encontro Mundial das Famílias, no Seminário São Carlos Borromeu. Depois, visitará os detentos do Instituto Curran-Fromhold, para menores.
Às 16h locais, o Papa presidirá a missa conclusiva do 8º Encontro Mundial das Famílias, no Benjamin Franklin Parkway. A seguir, saudará a comissão organizadora, os voluntários e benfeitores. Depois, se despedirá dos Estados Unidos e voltará para Roma, onde chegará por volta das 10h locais da segunda-feira, 28 de setembro.



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Crise da fronteira ou crise social colombiana?



Por Javier Calderón Castillo/ Resumen Latinoamericano/ Marcha Patriótica

O fechamento da fronteira colombo-venezuelana no caminho da Ponte Internacional Simón Bolívar, assim como a promulgação do estado de exceção em 5 municípios do Estado de Tachira, na Venezuela, está sendo mostrada pela imprensa hegemônica como um ataque à Colômbia e aos colombianos. Para além das matrizes midiáticas, a medida tomada pelo presidente Maduro desnudou um problema profundo gerado por dois modelos diferentes de projeto político-econômico: o colombiano, profundamente neoliberal, repressivo e contrainsurgente, que tem o paramilitarismo como sua estratégia; e o venezuelano, um projeto pós-neoliberal, distribuidor da riqueza e que tem como fundamento a aliança povo-forças armadas.

Para entender o que está acontecendo, é preciso recordar que em 1999, nos preparativos do Plano Colômbia, foram mobilizados mais de 5 mil paramilitares sob o comando do temível Mancuso, perpetrando massacres, ameaças e tomando o controle sobre a política departamental. Mataram ou deslocaram o movimento social e popular, a segurança privada assumiu os movimentos de bairro, monopolizando a economia fronteiriça e a política local, tudo com o apoio das forças armadas estatais e dos planos de guerra estabelecidos nos manuais contrainsurgentes e antipopulares ditados pelos Estados Unidos.
Nenhum governo colombiano gerou políticas sociais para os habitantes da fronteira, a pobreza é a regra nos departamentos (províncias) do Norte de Santander, Guajira, Arauca, Vichada. Não chegaram políticas de geração de emprego digno, de melhoria da saúde, de ampliação da cobertura e qualidade da educação, nem muito menos se ampliou a democracia. Pelo contrário, a política central e local permitiu o domínio dos credores, usurários, traficantes de seres humanos, narcotraficantes, contrabandistas, entre outros. Uma política de fronteira que obriga os colombianos dessas regiões a exigir de Miraflores o que não é exigido da Casa de Nariño.
Tudo isso gerou um impacto negativo na economia venezuelana e ocultou a ausência de políticas sociais redistributivas na fronteira. Uma dinâmica criminosa liderada pelo narco-paramilitarismo colombiano, que gerou uma cadeia de corrupção com lucros exorbitantes. Segundo o presidente da Federação de Produtores Avícolas (FENAVI), da Colômbia, por mês ingressa do país vizinho em torno de 1500 toneladas de frango de contrabando (Sandoval: 2015). Em 2006, entraram no país ilegalmente cerca de 672.000 galões de gasolina provenientes da Venezuela (Revista Semana, 2006), o que permite dimensionar o negócio que possui uma cadeia de valor e corrupção que chega até os postos de gasolina na Colômbia (Egea: 2013, pág. 97)[1].
Porém, a ação narco-paramilitar não é apenas econômica. Com a chamada parapolítica na Colômbia, ficou clara a estreita relação de políticos de direita colombianos com o poder narco que ostentam os paramilitares. Trata-se de uma estratégia de poder territorial que se estendeu para todos os departamentos de fronteira e que se irradia para a Venezuela na forma de ingerência estrangeira na política venezuelana (El Tiempo; infografía: 2009). É coincidência que dos 335 municípios existentes na Venezuela a oposição governe 68 e que destes, 68,32% estejam na fronteira com a Colômbia? Os fatos nos indicam que não é coincidência, que corresponde a uma política apoiada pela direita colombiana e, em especial, pelo extremista Álvaro Uribe Vélez.
O fechamento da fronteira decretado pelo governo venezuelano é uma medida que obriga discutir a política social e econômica do Estado colombiano, não as políticas venezuelanas. Da Colômbia, o governo e a imprensa hegemônica exigem que os vizinhos respeitem os direitos humanos dos migrantes, quando o governo colombiano viola sistematicamente o de sua própria população. Exigem que a Venezuela não feche a fronteira porque ali os colombianos recebem saúde, educação e sobrevivem dos negócios gerados pelo contrabando da gasolina, com a comida subsidiada do MERCAL e PDVAL, entre outras coisas. O governo colombiano e os meios hegemônicos exigem que a Venezuela outorgue direitos à população colombiana, já que o governo neogranadino não outorga aos cucuteños nem a nenhum outro colombiano.
O presidente Santos faz uso do negacionismo quando minimiza o êxodo de colombiano/as para a Venezuela. No país vizinho existem mais de 300 mil refugiados ou solicitantes de refúgio deslocados pelo paramilitarismo, e mais de 3,5 milhões de migrantes ou exilados pela crise social e econômica colombiana. Muitos colombianos receberam casa própria pela missão de habitação Venezuela, receberam estudo superior pela missão Miranda. Todos querem a cidadania venezuelana para que chegue algo de bem-estar que nunca chegou de Bogotá.
Santos e a direita colombiana negam cinicamente a existência do paramilitarismo, porém continua sendo uma política de Estado apoiada por empresários e latifundiários, que pretendem permanecer no poder a sangue e fogo, como demonstram os fatos. Estes paramilitares representam os setores do poder que não querem a paz com justiça social, que pretendem continuar incendiando as fronteiras para promover uma crise na Venezuela, colocando em xeque a região e, com isso, os próprios diálogos de paz, nos quais o país vizinho atua como facilitador e desempenha um papel central como acompanhante do sonho da solução política ao conflito que mobiliza o povo colombiano.
O Estado colombiano deve se encarregar do subsídio da gasolina na fronteira, da assistência médica íntegra e gratuita da população, das políticas de emprego digno e bem remunerado, que subsidie os alimentos, que gere planos de habitação social, que amplie a oferta educativa estatal em todos seus níveis. Que o Estado nacional se encarregue dos direitos dos habitantes da fronteira com a Venezuela, o que é uma tarefa do movimento político e social colombiano que está emergindo como alternativa. É preciso um governo que gere tantos direitos sociais na Colômbia, que viajar para a Venezuela ou para qualquer outro país, seja uma opção de turismo ou de mobilidade e não a única opção para viver dignamente. Isso só será possível quando se derrotar o neoliberalismo.
O governo venezuelano deveria incluir o movimento popular e social colombiano na busca de soluções ao que se denominou crise fronteiriça, gerar uma ponte real com os projetos americanistas na Colômbia que trabalham na busca de uma sociedade pós-neoliberal. O povo venezuelano e colombiano são irmãos e não podem permitir que surjam distâncias entre duas nações que são as duas asas do mesmo ideário bolivariano. A diplomacia dos povos pode se converter na alternativa para lutar conjuntamente contra o paramilitarismo e o neoliberalismo, dos quais padecem os colombianos e que se pretende impor na Venezuela.
A crise que existe, então, é a pobreza generalizada na Colômbia, produto do modelo neoliberal e da repressão sistemática. A crise é entre dois modelos antagônicos que estão em disputa em Nossa América.
Por Javier Calderón Castillo
Marcha Patriótica Internacional

O outro, invisível do sistema



Por Raul Fitipaldi
Os refugiados da Europa não estão na moda. Os refugiados no Mundo e na história da humanidade não estão na moda. O que mostra a grande mídia são vítimas reais do sistema numa encenação involuntária que justificaria mais uma guerra de roubo e genocídio. Neste caso, os países centrais, com Alemanha na vanguarda, precisam obter uma vênia mundial para destruir a Síria, como já destruíram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e massacram diariamente o Iémen, através dos seus sócios árabes, demonstrando, com clareza, que o capitalismo não tem raça, credo, etnia ou gênero. O capitalismo neoliberal é um sistema de morte global.
Todas as raças e todos os credos tiveram ou tem seus genocidas, seus imperialistas, sicários e mercenários. Forma parte da estagnação civilizatória da humanidade. François “Papa Doc” Duvalier e “Baby Doc” Duvalier no Haiti; George Bush e George Bush filho, no Império atual; Margaret Tatcher no velho império; Mohamad Reza Pahlavi no Irã pro imperial; Fulgêncio Batista, Pinochet, Videla, Stroessner por aqui; Ne Win na Birmânia, Pol Pot em Camboja, Idi Amin Dada na Uganda, Ariel Sharon no Estado artificial e criminoso de Israel. Tem para todos os gostos, só mencionando os que vêm a nós da memória próxima e contemporânea. Todos produziram refugiados, emigrações forçosas, cometeram genocídios em maior ou menor escala e todos, absolutamente todos, contaram com o beneplácito das transnacionais imperialistas e do sistema capitalista. Há também líderes étnicos que se agregam a esta deplorável lista de carniceiros em diversos continentes. Todas as “intervenções humanitárias” (não confundir com solidária, como é a participação a cubana), produziram mais morte, mais dor, mais destruição, miséria e escravidão, e produziram alegria só à indústria armamentista, petroleira e aos fabricantes de medicamentos de Ocidente e comida lixo.
Fazer discriminações entre os refugiados por suas características religiosas, étnicas, etárias, nacionais ou de gênero é mais um ato em favor do divisionismo maquiavélico que propõem os países centrais. O divisionismo dos povos é estratégico para continuar seu interminável saqueio de riquezas naturais, culturais e civilizatórias, com a finalidade de aprofundar a visão única, deforme, militarista, patriarcal e classista da humanidade. Visão que é sua razão de ser doentia e, que subsiste, sejamos práticos, porque os beneficia materialmente. Os países centrais têm uma história enferma, possivelmente desde as Cruzadas, talvez já de antes. O sistema capitalista foi sua criação mais perversa e, nela, O OUTRO NÃO EXISTE. O outro pode existir só em condição de inferior, escravo, servil, incondicional e invisível.
Em algum momento da vida todos podemos ser o outro. Fui discriminado no colégio católico por muito pobre e filho de líder grevista. Discriminaram-me na adolescência quando a família do meu primeiro amor não queria que sua filha fosse namoradinha de um asmático. Mais tarde na juventude fui discriminado por deixar a igreja e virar comunista, “ateu confesso”. Fui discriminado por não ser judeu e banquei dois abortos indesejados. Discriminaram-me na categoria jornalística por ser livre e não trabalhar jamais para os monopólios. Me discriminaram por ser pai mãe e por deixar de sê-lo. Fui discriminado por ser hetero, por não beber, por não fumar, por estrangeiro, por e por e por. Por ser do PT e por não ser mais há 13 anos. 60 anos de discriminação. Fui esse “outro” para muitos, refugiado nas ideias, emigrante involuntário. Sei um pouco da dor do outro. Mas, é pouco mesmo pois tive o privilégio de comer, estudar e partilhar uma moradia.
Esse OUTRO que o sistema torna invisível e infame, só se transforma em humano quando toleramos, acolhemos, procuramos entender, aceitamos esse outro distante que criamos ou nos introjetaram com o veneno do diferente. Quando somos visíveis para o outro tomamos uma dimensão distinta e com ele construímos o presente, sonhamos o futuro. Quando o outro desaparece dentro de nós, para ser ele, ela, com nome e sobrenome, o outro pode ser haitiano, sírio, sudanês, senegalês, armênio, semita, guarani, esquimó, basco, será o que é e assim, como e pelo que é, desaparecerá e será NÓS. Nós contra essa nova guerra de Ocidente contra Síria. Nós contra as invasões humanitárias dos cascos azuis e da Minustah. Nós contra os exércitos, as armas, a discriminação. NÓS como Classe Trabalhadora, nós civilizadamente para esse Outro Mundo Possível e Urgente que, novamente, parece que se escapa entre os dedos, como um novo torrente de sangue.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Paz: De Guatemala a Colômbia ¿Se repetirá a historia?



Por Horacio Duque Giraldo
O processo de paz que atualmente se promove na Mesa de Diálogos de Havana deve examinar os pactos de paz da Guatemala de 1996 que, nos dias de hoje, são um completo fracasso. Oxalá não se repita a história em nosso caso. A fórmula é ampliar a participação do povo nos diálogos e acordos que se construam.
Sempre é aconselhável examinar outras experiências, especialmente internacionais, quando se pretende superar um problema tão complexo e arraigado como o da guerra civil que envolve a toda uma sociedade como a nossa.
O rumo que possam tomar as negociações de paz de Havana nos meses seguintes, os resultados dos acordos, os avanços na construção da paz, o papel das massas na tomada de decisões e a implementação dos consensos são pontos que podem bem ser considerados à luz da péssima experiência da Guatemala. Não se deveria repetir os erros dali; há que blindar cada pacto e estabelecer com clareza as obrigações do Estado.
Nesse sentido, a paz deve ser assumida como processo mais que como agenda e documento; como desafio social mais que institucional; como mobilização massiva; como cultura de transformação e não como razão pragmática; como construção conjunta, coletiva, plural, permanente e entusiasta, em vez da atual tragédia do desencanto, síntese do que não foi.
Guatemala assiste hoje a uma grande manifestação popular e social contra a corrupção. Presidente e Vice-Presidenta estão no cárcere como consequência de seus atos criminais. Porém, muitos apresentam a necessidade de superar os limites desta mobilização para colocar-se num plano de ações mais profundas que rompam as estruturas oligárquicas subjacentes do sistema. Há que ir por mais!, é a palavra de ordem popular nestes momentos de grandes ações de massas.
Em Guatemala, historicamente, a maioria da população vive muito mal. 54% estão abaixo da linha de pobreza. A isso se lhe soma um conjunto de problemas igualmente complexos que fazem da vida cotidiana quase um calvário: racismo, machismo, corrupção, violência desenfreada e impunidade.
Guatemala viveu um conflito armado interno, no qual se manifestaram atos de crueldade, desprezo à vida e à dignidade da população, através de métodos cuja degradação causam horror.
Porém, em Guatemala, terminou uma guerra interna de 36 anos e nada mudou, pelo contrário, piorou. Os problemas caracterizados continuam intactos. O retorno desta precária democracia já faz quase 30 anos, depois de ter despertado algumas esperanças, se mostra hoje em dia como outro fiasco mais. Se sucedem as eleições a cada quatro anos, e tudo continua igual. Ou pior!, como diz Marcelo Colussi, em várias de suas brilhantes análises sobre a nação centro-americana.
As esperanças que se poderia ter alguns anos atrás, terminada a longa guerra com a Firma dos Acordos de Paz em 1996, já se diluíram. Hoje, a situação geral do país é uma panela de pressão pronta para explodir a qualquer momento. Sucede, no entanto, que não há direção para tanto mal-estar. As forças da esquerda estão dizimadas, fragmentadas e o protesto popular é basicamente reativo [as mobilizações contra as indústrias mineiras e energéticas no fundamental], insiste Colussi.
No caso da Guatemala, os acordos de paz de 28 de dezembro de 1996 terminaram sendo um fiasco porque o grosso da sociedade se marginalizou da tomada de decisões. Nessa nação, as reformas pactuadas no acordo de paz foram negadas num referendo que se fez três anos depois que este fora firmado.
Que se votou nesse referendo?
Basicamente, eram três componentes substanciais: o primeiro, independência judicial e reforma no setor justiça; segundo, os direitos dos povos indígenas, que é o tema que menos se tem cumprido no país; e terceiro, a questão da carga tributária, que na América Latina é a mais baixa.
Vejamos o processo guatemalteco em seu desenvolvimento.
O enfrentamento armado em Guatemala começou na década dos sessenta e se pode considerar como principal causa, entre outras, o bloqueio dos espaços políticos e de participação provocado pelos governos anticomunistas, depois de ter derrocado, com o apoio dos Estados Unidos, ao segundo governo da revolução, presidido por Jacob Arbenz Guzmán. O movimento guerrilheiro teve entre seus principais fundadores ex-oficiais do Exército da Guatemala, os quais haviam participado num frustrado levantamento contra o governo do General Miguel Ydígoras Fuentes.
O processo de negociação da paz iniciou em 1987 e concluiu a 29 de dezembro de 1996, com a firma do Acordo de paz firme e duradoura, o qual sintetiza os acordos firmados pelo Governo e a URNG para pôr fim ao Conflito Armado Interno.
O ponto de partida para a busca da paz foi a subscrição do Acordo de Esquipulas II, em 7 de agosto de 1987, pelos presidentes de Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Costa Rica, para definir o procedimento que permitiria estabelecer a paz firme e duradoura em Centro-América, com base na Declaração de Esquipulas e na Ata de Contadora para a paz e a cooperação na América Central.
O temário geral e o procedimento a partir dos quais se levou a cabo a negociação dos Acordos de Paz foram definidos no Acordo de México, subscrito a 26 de abril de 1991.
Os presidentes da Guatemala que participaram na negociação dos Acordos de Paz, que contemplam 300 compromissos específicos, são Vinicio Cerezo Arévalo, quem governou de 1986 a 1991, Jorge Serrano Elías, de 1991 a 1993, Ramiro de León Carpio, de 1993 a 1996, e Álvaro Arzú Irigoyen, de 1996 a 2000.
Depois de 36 anos de conflito, finalmente, em 29 de dezembro de 1996, se levou a cabo em Guatemala a assinatura da paz firme e duradoura entre a Unidade Nacional Revolucionária Guatemalteca [URNG] e o Estado de Guatemala, acontecimento que pôs fim ao conflito.
O Acordo de Paz Firme e Duradoura, firmado a 29 de dezembro de 1996, introduz as bases necessárias para um desenvolvimento em paz a augurar um futuro moderno para o país.
O acordo contém 17 pontos, antes de tudo, declarações de vontade política. A adesão aos princípios orientados a garantir e proteger a plena observância e o respeito dos direitos humanos, o compromisso de investigar as violações dos direitos humanos ocorridos no marco do enfrentamento interno para contribuir a fortalecer o processo de conciliação nacional e a democratização no país, o reconhecimento da identidade e direitos dos povos indígenas como base para a construção de uma nação multiétnica, pluricultural e multilíngue. Forma parte do catálogo de objetivos políticos a necessidade de um desenvolvimento socioeconômico participativo orientado para o bem comum. Alcançar uma situação social mais justa se relaciona com a necessidade de um sistema fiscal mais equitativo e eficiente. Erradicar a pobreza e o desemprego, melhorar a saúde, a educação e capacitação e a seguridade social são consideradas tarefas prioritárias do desenvolvimento. Outro aspecto apresentado é a reforma do Estado e do Exército.
Os consensos alcançados se formalizaram nos seguintes acordos:
  1. Acordo marco sobre democratização para a busca da paz por meios políticos [Acordo de Querétaro]. Querétaro [México], 25 de julho de 1991.


  1. Acordo global sobre direitos humanos. México, D.F. [México], 29 de março de 1994.


  1. Acordo para o reassentamento das populações desarraigadas pelo enfrentamento armado. Oslo [Noruega], 17 de junho de 1994.


  1. Acordo sobre o estabelecimento da Comissão para o esclarecimento histórico das violações aos direitos humanos e os fatos de violência que causaram sofrimentos à população guatemalteca. Oslo [Noruega], 23 de junho de 1994.


  1. Acordo sobre identidade e direitos dos povos indígenas. México, D.F. [México], 6 de maio de 1995.


  1. Acordo sobre aspectos socioeconômicos e situação agrária. México, D.F. [México], 6 de maio de 1996.


  1. Acordo sobre fortalecimento do poder civil e função do Exército numa sociedade democrática. México, D.F. [México], 19 de setembro de 1996.


  1. Acordo sobre o definitivo cessar-fogo. Oslo [Noruega], 4 de dezembro de 1996.


  1. Acordo sobre reformas constitucionais e regime eleitoral. Estocolmo [Suécia], 7 de dezembro de 1996.


  1. Acordo sobre bases para a incorporação da Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca à legalidade. Madri [Espanha], 12 de dezembro de 1996.


  1. Acordo sobre o cronograma para a implementação, cumprimento e verificação dos acordos de paz. Guatemala [Guatemala], 29 de dezembro de 1996.


  1. Acordo de paz firme e duradoura. Guatemala [Guatemala], 29 de dezembro de 1996.


Nada disso se materializou. O Exército continua sendo um foco de violência e corrupção no Estado e na sociedade. Todos os oficiais comprometidos em massacres e atos de violência contra as comunidades indígenas continuam na impunidade e convertidos em agentes políticos protagônicos de primeira ordem.
Se repetirá a história em Colômbia?
Tomara que não.


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A confissão do Procurador



Por Carlos Antonio Lozada.
Integrante do Secretariado das FARC-EP.
A intervenção do Procurador Ordoñez no Congresso Nacional de Comerciantes em Cartagena tem o mérito de revelar as verdadeiras causas que o levam a opor-se cegamente ao processo de paz.
Até agora, para se opor aos diálogos, o funcionário sempre tinha falado em nome das vítimas e da sociedade, tal como o faz a cada vez que expressa sua opinião pessoal frente a temas de interesse geral para o país, como o aborto, os direitos da comunidade LGBTI, a legalização da maconha com fins terapêuticos, as relações entre Colômbia e Venezuela etc; ou para perseguir, abusando descaradamente de suas funções, funcionários públicos com ideias políticas alternativas ou opiniões diferentes de sua doutrina confessional.
Eu quero que se firme a paz e que se firme rápido, porém não a qualquer preço”, assegura, e, no tópico seguinte, deixa ver seus temores, tratando por sua vez de assustar os assistentes ao Congresso, com o fantasma do que ele chama “políticas populistas” e os remete às declarações das FARC-EP em relação a terras, mineração, petróleo e tratados de livre comércio.
Continua o Procurador Ordoñez revelando a seu auditório o que considera um mistério: “Ingênuos os que pensam que com o desaparecimento dessa guerrilha como aparelho armado termina tudo. Não. Pelo contrário, desde seu ponto de vista, se inicia uma nova fase de luta que persegue os mesmos objetivos de sempre, agora amparados pela legalidade”.
E finalmente confessa Ordoñez: “flagelos como a desigualdade, a pobreza, a corrupção e a falta de confiança na institucionalidade tornam a Colômbia propensa ao denominado “socialismo do século XXI”; “Insisto. Necessitamos, queremos, apoiamos que se chegue a um acordo com as guerrilhas, porém não podemos ser cegos sobre o que isso pode significar para o regime democrático, as liberdades e a iniciativa privada”.
Depois de ler suas palavras, poderíamos nos sentir isentos de fazer qualquer precisão mais além de que se trata do velho, porém eficaz método de utilizar o medo para mobilizar [imobilizar?] a opinião, desta vez com o fantasma do “socialismo do século XXI”.
Pelo demais, não lhe falta razão a Ordoñez, a firma de um tratado de paz deve iniciar “uma nova fase de luta”, por meios civilizados, acrescentaríamos nós outros, entre aqueles que, por terem tudo, defendem o que ele denomina “o regime democrático, as liberdades e a iniciativa privada”, frente aos que sentimos a necessidade de um novo regime político que acabe com “flagelos como a desigualdade, a pobreza, a corrupção”, entre outros graves problemas que mantêm doente a sociedade colombiana, recuperando assim a legitimidade institucional, base fundamental para a convivência democrática.
Senhor Ordoñez, a ameaça não somos os que desejamos e trabalhamos pela paz com justiça social, democracia e soberania para nosso povo; a ameaça são aqueles que desejam e se esforçam em perpetuar a guerra com todos os seus horrores; porque, graças a ela, podem manter a entrega das riquezas naturais do país às transnacionais, o regime de dominação política, a exploração econômica e a marginalização impiedosa dos colombianos humildes.

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Equipe ANNCOL - Brasil


domingo, 13 de setembro de 2015

As razões da crise presente



Por Emir Sader

Na crise atual se cruzam razões de fundo, herdadas dos governos neoliberais, e questões que os governos do PT não souberam superar e que agora os afetam de maneira profunda.

Entre as razões estruturais estão a desindustrialização promovida pela abertura escancarada do mercado interno feita pelos governos Collor e FHC, que além de enfraquecer o poderio industrial do pais, gerou a dependência da exportação de produtos primários. Por outro lado, paralelamente, não se alterou o papel hegemônico do capital financeiro, que reproduz a especulação como fenômeno central no processo de acumulação de capital.

Além desses fatores econômicos, com todas suas consequências no plano social e político, o governo não avançou nem na democratização dos meios de comunicação, nem no fim do financiamento privado das campanhas eleitorais. Não afetou assim dois elementos políticos e ideológicos fundamentais que jogam fortemente contra o governo. A mídia, com seu terrorismo econômico e denuncismo seletivo e reiterado, o Congresso com seu cerco fisiológico sobre o governo.

A combinação desses fatores gerou as condições da crise atual. A eles se acrescenta um diagnóstico errado do governo, que o tem levado na direção oposta da forma como atuou na crise de 2008, levando a cortes reiterados de gastos, que só aprofundam e prolongam a recessão, isolando ainda mais o governo das suas bases populares, tornando-o mais frágil e mais prisioneiro da direita. O mercado, como se viu esta semana, vai sempre querer mais sangue, sempre vai impor novos cortes, que levam a novos cortes. O governo fica assim prisioneiro do mercado e da direita. Entrou no despenhadeiro interminável de responder à direita e ao capital especulativo com mais cortes, que é o que eles pedem.

O governo faz tudo isso, mas foi rebaixado pelas agências de risco, prevê recessão pelo menos até o fim de 2016, a inflação persiste, o desemprego aumenta. Um ano e meio a mais de clima de pessimismo e de deterioração dos índices sociais é a pior perspectiva possível. O ajuste nunca leva à retomada econômica, ao contrário, leva a mais recessão, com mais desemprego.

Esse não é o caminho com que reagimos vitoriosamente à crise de 2008, recuperando o pais da crise, retomando o desenvolvimento e aprofundando as políticas de distribuição de renda, ao invés de cortar recursos das políticas sociais. Assim, o caminho oposto é que deveria ser trilhado.

Reabrir créditos para reativar a economia, terminar de vez com cortes nos recursos das políticas sociais e nos custos do governo, taxar as grandes fortunas, combater dura e abertamente a sonegação. Além de propor um plano de saída da crise, coerente com esse projeto de retomada do crescimento econômico, sem ficar sujeito às iniciativas da oposição e de outros setores adversos ao governo, que cobram mais concessões políticas em troca do fim do risco do impeachment.

Não se é governo sem ter capacidade de iniciativa política, senão se é governado pelos outros, só se reage às ofensivas reiteradas do capital especulativo e da direita política. Falta coordenação política para isso e um plano econômico que não assopre na direção da tempestade mas que, ao contrário, mediante medidas anticíclicas, resista a ela. A via adotada só aprofunda a necessidade de mais cortes, a recessão, o isolamento e a fragilidade do governo. Com todos os cortes, não se impediu o rebaixamento da avaliação do governo e o retorno à ofensiva sobre o impeachment. Além de não se superar a recessão, com mais desemprego.

Essas são as raízes da crise presente. Um diagnóstico errado sobre ela levou ao pacote de ajuste, socialmente injusto, economicamente ineficaz e politicamente desastroso. Sem uma virada no plano econômico, o governo não terá mínimas condições de enfrentar a crise política, que se expressa na ofensiva permanente sobre ele. Desde dezembro o governo colocou a agenda do ajuste e nunca mais pôde sair dela. Já é tempo de fazer um balanço dos seus resultados, que só pioraram a situação, e dar uma virada no governo, a partir das experiências positivas do passado.

Aceitar os erros não revela fraqueza. Fraqueza é ceder interminavelmente às pressões conservadoras. Grandeza é reconhecer os problemas, os erros cometidos e dar uma virada econômica e política. É aprender do passado, para superar a crise presente e projetar um futuro de continuidade e não de ruptura com os governos iniciados em 2003. Não se pode colocar em risco tudo o que foi construído desde então, pela insistência equivocada no caminho oposto ao trilhado no passado.

sábado, 12 de setembro de 2015

Allende: 'A História é nossa e a fazem os povos'


Da Redação de Carta Maior


Discurso do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, dia do golpe de Estado que derrubou o governo da Unidade Popular e implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet:

"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.
Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranquilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranquilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."


Queremos seguir avançando


La Habana, Cuba, sede dos Diálogos de Paz, 11 de setembro de 2015

Iniciamos este novo ciclo com a convicção de que o processo deve redobrar sua marcha inevitável para o fim do conflito. Temos razões fundadas para o otimismo. Em apenas 7 dias, a subcomissão jurídica posta em marcha pelo Presidente Santos e o comandante Timoleón Jiménez nos colocou às portas do acordo sobre Justiça, como componente do Sistema Integral de Verdade, Justiça, Reparação e Não Repetição.
O entendimento avança também no terreno do Cessar-Fogo e de Hostilidades, Bilateral e Definitivo, na subcomissão técnica integrada por cinco generais e um almirante, e por comandantes do Secretariado e do Estado-Maior Central das FARC-EP, ao tempo em que começamos o estudo sobre o esclarecimento e desmonte do fenômeno do paramilitarismo, que não poderá ficar gravitando como ameaça de guerra suja sobre o firmamento do pós acordo.
Quando as FARC falam desde Havana ou desde a montanha, não fala a soberba e sim o realismo, que tem sempre em conta que o processo de paz não é um processo de submissão, mas sim um diálogo entre partes iguais que têm visões próprias de país. Estas, teremos que harmonizá-las, se o que se quer é alcançar o bem supremo da paz como direito síntese de todos os colombianos.
Não se pode confundir com soberba a precisão necessária de que este é um processo de paz e não um processo judicial contra as FARC. Não viemos a Havana para negociar impunidades nem abaixar a cabeça frente ao Direito Penal do Inimigo, mas sim para construir fórmulas combinadas que nos conduzam a uma paz justa e duradoura baseada no reconhecimento das vítimas e que nivele o caminho da reconciliação.
Por isso, quando falamos de Deixação de Armas, nos referimos a sua não utilização em política, compromisso que se deve subscrever tanto pela guerrilha como pelo Estado. Os mecanismos para tornar realidade a colocação das armas longe de seu uso, de tal maneira que se assegura a luta política limpa e democrática são os que estamos tentando acordar na Mesa de Conversações. Não se trata de impor caprichos e sim de adotar, apoiados no sentido comum, um convênio razoável que nos permita alcançar esse objetivo.
Reiteramos que em Havana não conhecemos o conteúdo do projeto de Ato Legislativo que, segundo a imprensa, se estaria socializando no Congresso. Se torna inconveniente resolver de maneira unilateral um dos assuntos que a Mesa de Conversações ainda não aborda, como é o da Referenda, contida no ponto sexto da Agenda.
Urge, para o êxito deste processo, superar o quanto antes as desavenças entre Colômbia e Venezuela, duas repúblicas irmãs, filhas de um mesmo pai, o Libertador Simón Bolívar. Em nome dos excluídos e dos sem voz em nosso país, agradecemos a Venezuela tudo o que tem feito pela paz e a reconciliação da Colômbia.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

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Equipe ANNCOL - Brasil

Porque Santos é Uribe, que América Latina não frustre a Venezuela



por Carlos Aznárez


Se há um aspecto positivo dos graves acontecimentos que levaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro a bloquear de ponta a ponta a fronteira com a Colômbia é que Juan Manuel Santos colaborou ativamente em se desmascarar ante aqueles que ainda tinham dúvidas sobre seu real perfil repressor e de estreita ligação com a reacionária burguesia colombiana. Nestes dias, a Santos “se lhe soltou a cadeia” [como dizemos na Argentina] e lhe brotou à cara descoberta sua autêntica veia uribista, aquela que brilhava por todo o alto quando desempenhava como ministro de Defesa do grande papa do narcotráfico e do paramilitarismo.
Agora, como naqueles anos de chumbo para os setores populares, Santos investe contra a Venezuela Bolivariana, ludibria suas políticas inclusiva, despreza a gigantesca acolhida com que Hugo Chávez Frías, primeiro e, agora, Maduro receberam a mais de 6 milhões de colombianos, aos quais lhes entregaram sua respectiva carteira de identidade e os tornaram proprietários de 180 mil casas das 800 mil que o socialismo bolivariano ajudou a construir
Raivoso, Santos ameaçava a torto e a direito ao povo venezuelano, porém, por elevação estende sua advertência guerreirista contra Equador, Bolívia e quanto país não comungue com seus padrões de Washington, esses aos quais lhes enaltece sua permanência numa dezena de bases militares. Com seu comportamento atual, Santos relembra aquele que em 2006 envergou roupas militares e não as tirou até 2009, acompanhando a Uribe Vélez em autênticos massacres de moradores, aos quais se lhes aplicou a “lei de falsos positivos”, contabilizando-os como “baixas da guerrilha”. Suas tropas [as “legais”] não lhe faltaram em operações combinadas com os militares dos EUA e assessores israelenses, tentando desmantelar os acampamentos insurgentes. Só basta recordar os gestos e ditos de Santos festejando com seus rapazes a invasão a território equatoriano para bombardear o lugar de onde o Comandante guerrilheiro Raúl Reyes fazia esforços para alcançar a abertura de conversações de paz. Seu corpo, aniquilado pelas bombas santistas, foi a mais dramática imagem das intenções pacificadoras de Uribe e seu ministro de Defesa. Nem o que falar do outro “exército”, o da motosserra e das invasões sangrentas aos povoados campesinos. Essas Autodefesas paramilitares amparadas por Uribe, porém toleradas até a saturação por Santos e seus generais. Ali e não em outro lado estão as razões dos milhares de assassinados e milhões de deslocados, muitos dos quais foram recebidos em Venezuela como irmãos de sangue e de história. Como desejava Simón Bolívar, o pai de todos eles de ambos os lados da fronteira.
Houve um momento confuso em todo este processo conflitivo entre Colômbia e Venezuela, e se deu quando nas últimas eleições Santos se disfarçou de pomba da paz [o poeta universal Rafael Alberti, desde o mais além, estará amaldiçoando-o], e se ofereceu a próprios e estranhos como o homem que podia frear o avanço uribista. Foram momentos complicados para um setor da esquerda colombiana e não poucos irmãos de similar pensamento no continente. Como costuma ocorrer, se impôs a tática de “votar no menos pior”, ou, como observara um dirigente popular: “Se Uribe ganha, nos executam no dia seguinte; com Santos duramos um ano”. Porém, o menos mau geralmente sempre termina demonstrando que não traz nada bom. E assim foi neste caso. Santos espantou a branca pomba de uma bofetada e subiu com tudo ao mais alto de sua natureza prepotente e cínica.
Santos é Uribe e Uribe é Santos. Não tenhamos dúvida disso. São parte da mesma política de acumulação capitalista e pró-imperialista que a Colômbia suporta desde há décadas. De vez em quando se confrontam e até aparentam uma aversão definitiva, porém a ambos os segue unindo o temor que eles mesmos provocam sobre a população campesina, operária e estudantil do país. Ou, por acaso, se diferenciaram na hora de reprimir aos milhares de mobilizados durante as últimas paralisações agrárias? Ou houve desencontros entre eles quando se tratou de enviar à prisão dirigentes populares como Hubert Ballesteros, aos militantes da Marcha Patriótica ou os recentes jovens lutadores do Congresso dos Povos? Ou alguém crê de boa-fé que um ou outro não estão por trás das manobras de corrupção, lavagem de dinheiro e outras graciosidades que terminou com grande parte de ministros dos últimos gabinetes e figuras parlamentares submetidos a julgamento ou enviados ao cárcere?
Tampouco pensam diferente Álvaro e Juan Manuel sobre o futuro de Venezuela, e nestes dias Santos se encarregou de reafirmá-lo, quando ameaça em levar as autoridades do país irmão aos Tribunais internacionais para julgá-las “por crimes de lesa-humanidade”, ou atiça a brasa buscando a queda do governo bolivariano e chavista para que os John Kerry ou os Obama de turno se apoderem do petróleo que tanto os atrai.
A escalada santista-uribista não se dá em qualquer momento. Coincide com a ofensiva política, econômica e militar imperialista no continente, com o desembarque de marines no Peru, com as estreitíssimas relações militares entre Paraguai e Uruguai com os Estados Unidos, que derivaram no assessoramento in situ, e em grandes manobras bélicas. Assim aparecem na superfície programas como o Capstone [recentemente firmado por generais e almirantes ianques com seus pares paraguaios], ou as operações de “capacitação conjunta” de expertos militares estadunidenses com fardados do Uruguai de Tabaré Vásquez. Precisamente, o mandatário que se comunicou com Santos –não com Maduro- para se oferecer como mediador no conflito fronteiriço.
Porém, ademais, e isto é fundamental, por trás de toda esta furiosidade do governo colombiano subjaz a intencionalidade de mais cedo que tarde chutar o tabuleiro da paz que subsiste em Havana. A Santos não lhe interessa uma paz com justiça social como aspiram as FARC, o ELN e a grande maioria do povo colombiano. Dali que qualquer desculpa, motorizada pelo próprio estabelecimento do Palácio Nariño, lhes possa servir para suas intenções.
Neste marco de gravidade que assedia a Revolução Bolivariana, não cabem meias-tintas, e é por isso que a decisão –ainda que tardia- tomada pelo presidente Maduro de bloquear a fronteira deve ser respaldada por todos os povos do continente. Porém, também por suas instâncias integradoras, como Unasul e Celac, as quais há que ajudar a desintumescer.
Se trata de uma razão de autodefesa lógica, apresentada por um país ao qual lhe estavam roubando gota a gota sua economia mediante uma guerra não declarada porém efetiva. Se trata de uma medida sanitária que busca destruir os bolsões de paramilitarismo e morte implantados pelo santismo-uribismo à margem de Táchira, Zulia ou em infinidade de trincheiras das grandes cidades venezuelanas.
Uma nação que todos estes anos esbanjou solidariedade com cada povo ou governo que a necessitasse, com suas missões de saúde, de alfabetização ou com esse projeto fundamental que é Petrocaribe não merece esta infâmia, como tampouco a de receber as críticas de ONGs que se autoqualificam de “defensoras de direitos humanos”, como o CELS e a CGIL da Argentina ou a decididamente golpista PROVEA de Venezuela. Sem dúvida, o lobby “democrata” gringo não perde tempo em juntar mais lenha ao fogo.

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Lista de correo diariodeurgencia de Resumen Latinoamericano
Tradução de Joaquim Lisboa Neto

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Chorar sobre o leite derramado? Ou atuar racionalmente.




Tal pareceria que o único analista de todo o Oligopólio Midiático Contra Insurgente colombiano, quem tem calado sobre as aparências emocionais e penetrado no fundo contraditório que move o assunto da chamada crise da fronteira colombo-venezuelana é Alfonso Cuellar. Estrategista contra insurgente, educado primeiro na seção internacional do diário El Tiempo de Bogotá, depois na Inglaterra pela British Petroleum BP [sempre o petróleo no meio] em segurança internacional e em seguida nos EUA em guerra internacional contra o narcotráfico e manejo de crises entre nações, quem momentaneamente escreve interessantes e destacadas colunas de opinião na revista do sobrinho do Presidente Santos, Semana.com. Não é senão que olhar-lhe nos olhos na foto para saber quem é.

Em sua última análise intitulada “dormindo com o inimigo”, ao analisar as três decisões que no médio prazo o governo enfrenta na atual situação com Venezuela [se pode ler integralmente no seguinte enlace:
http://www.semana.com/opinion/articulo/alfonso-cuellar/441277-3. Descreve a terceira decisão assim: ..........”A terceira decisão, que no momento parecia lógica, é hoje um obstáculo que restringe a capacidade de reação do governo colombiano aos desmandos venezuelanos: a participação oficial da Venezuela nas conversações de paz. Foi documentado o papel favorável que Hugo Chávez desempenhou em persuadir as Farc de sentarem-se a negociar. Por esse papel e pelas aparentes relações amistosas entre os dois países –ou pelo menos entre Santos e Chávez-, se acordou a designação de um delegado de Caracas como acompanhante do processo.

O envolvimento da Venezuela como observador é mais sui generis do que muitos imaginam. Ao consentir a presença de numerosos comandantes das FARC e acampamentos guerrilheiros em seu território, o governo venezuelano tem sido e é um ator do conflito. A efetiva implementação de um acordo de paz depende numa altíssima proporção a o que faz e o que deixa de fazer o regime de Maduro. Se as FARC podem continuar utilizando ao vizinho país como sua retaguarda estratégica, o que se firme em Havana ficará manco, muito manco.

Durante cinco anos, a garantia da boa vontade e conduta da Venezuela estava sustentada na normalização das relações entre as duas nações e na solidariedade regional com a Colômbia. Esses dois pilares ficaram destroçados com os acontecimentos destas semanas. É ingênuo tentar desagregar o papel venezuelano no processo de paz da crise bilateral, como têm apregoado alguns. São inseparáveis. O primeiro delegado venezuelano às negociações foi seu embaixador ante a OEA, Roy Chaderton, quem, na segunda-feira passada, deixou claro o que opinava sobre os colombianos deportados à força.

É evidente que a política de apaziguamento com o governo de Caracas perdeu sua utilidade. Este não correspondeu à confiança oferecida pela administração de Santos. A permanência venezuelana na Mesa de Havana é uma ameaça à segurança nacional da Colômbia. Exclui-la será custosa no curto prazo –as Farc poderiam inclusive ameaçar em levantar-se da mesa-, porém pior é não fazer nada. O futuro da República de Colômbia não pode depender dos interesses da República Bolivariana de Venezuela”.

Quer dizer, o chamado conflito interno de Colômbia não só é externo ou Transnacional como temos sustentado desde há muito tempo, como também se encarnou finalmente no conflito colombo-venezuelano. Claro, como mister Cuellar não maneja a dialética material, não entende aquilo da unidade e luta de contrários e por isso vê a contradição em movimento como uma dicotomia estática em branco e preto: se a Venezuela se vai do processo de paz, como o deseja o Comando Sul dos US Army e seus cipaios em Colômbia, mau [e isso que mister Cuellar não menciona o papel essencial de Venezuela nos eventuais diálogos com o ELN], porém, se se fica dormindo na cama, como diz mister Cuellar, pior. Por isso sua conclusão é incerta ou equivocada, pois Venezuela entrou a formar parte do futuro pacífico ou guerreiro da Colômbia.

E é que este é o problema de fundo que saltou como lebre no caminho, pondo patas acima toda a inapetência e apatia vigarista tão colombiana de deixar tudo para a última hora [nada está acordado até que tudo esteja acordado], princípio inalterável com o qual JM Santos e seus plenipotenciários de paz têm pretendido conduzir os acordos na mesa de Havana, com a errada pretensão ou ilusão de que na última hora e depois de uma campanha massiva de desprestígio pelos meios do Oligopólio Midiático Contra Insurgente, os insurgentes muito assediados e desprestigiados vão firmar o que se ponha diante deles: a rendição e a submissão incondicional à Promotoria corrupta da Colômbia, que em outra coluna paralela da mesma revista Semana desmascara a jornalista Jimena Duzán [ver denúncia em]
http://www.semana.com/opinion/articulo/maria-jimena-duzan-la-nomina-paralela-del-fiscal/441276-3)

Em Breve: os diálogos de Havana chegaram, para usar uma imagem gráfica, à parte final de um muito longo túnel, onde por fim se vislumbra a luz de seu final e de onde seria mais que custoso recuar ou regressar, e onde é essencial entender que já Venezuela entrou a formar parte constitutiva [queiramos ou não] de toda a situação conflitiva regional.

Por isto, as decisões do governo colombiano analisadas por mister Cuellar não poderão ser outras que a diplomacia direta ou Bilateral entre as duas nações irmãs siamesas inseparáveis, para resolver o longo e complexo “problema” do buraco negro em que se converteu a fronteira, que, para ou bem ou para o mal [para a paz ou para a guerra], entrou a formar parte integral do chamado conflito interno colombiano, sem cuja solução tampouco poderá haver paz em Colômbia.

É um sofisma politiqueiro de campanha aquele infeliz lema eleitoral que, pressionado pelas “aflições” ou dificuldades eleitorais, o chefe do glorioso partido Liberal lançou: “...com Venezuela, sem Venezuela ou contra Venezuela, faremos a paz”. A realidade-real está mostrando que só contando ativamente com Venezuela chegaremos a este desejado acordo de Paz.

Tampouco continuando a campanha midiática de ridicularização [não há dia em que não se caricaturize ou insulte ao presidente de Venezuela como burro, tonto, idiota, mal falado, torpe etc.] se vai ganhar o terreno perdido; pois o que o presidente venezuelano mostrou nos últimos dias deixou claro todo o contrário: que se preparou muito inteligentemente.
Enquanto a Inteligência Militar da Colômbia estava com todos os ferros e tecnologias gringas imagináveis buscando líderes guerrilheiros ou líderes sociais da mobilização popular para “neutralizá-los” em bolsas negras, a Inteligência Militar venezuelana preparava um plano militar contundente executado com precisão e eficácia, sem que os heróis colombianos se dessem conta para evitá-lo ou pelo menos tratar de pará-lo. O demais tem sido lamentar, com ira e intensa dor e o calar outorgando de Mindefesa, responsável pela segurança de todos os colombianos. Com isto, o mais conveniente é atuar racionalmente, em lugar de seguir chorando o leite derramado.
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Equipe ANNCOL - Brasil

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Documentos demonstram que o FBI vigiou o escritor colombiano durante duas décadas





O FBI manteve sob uma discreta vigilância o escritor Gabriel García Márquez durante mais de duas décadas, por ordens diretas de seu mais mítico diretor, Edgar J. Hoover. Assim o revelam os documentos desclassificados por petição do diário The Washington Post e que mostram que a agência estadunidense seguiu os passos do prêmio Nobel de Literatura desde o momento em que se INSTALOU em Nova Iorque para trabalhar para a agência de imprensa cubana Prensa Latina, em 1961.
O próprio Hoover parece ter firmado a ordem, que data de 8 de fevereiro de 1961, de que “no caso de que [García Márquez] entre nos EUA por qualquer motivo, o FBI deve ser avisado de imediato”. Assim se fez quando Gabo se INSTALOU no HOTEL Webster de Manhattan junto com sua mulher, Mercedes Barcha, e seu primogênito, Rodrigo, nesse mesmo ano.
Entre os primeiros informes registrados sobre as atividades de García Márquez em Nova Iorque, há detalhes como que pagou 200 dólares para custear um mês de estadia no hotel nova-iorquino. Os dados apontam que nesses primeiros meses nos EUA o FBI contatou com pelo menos nove “informantes confidenciais” que lhe mantinham inteirado sobre as idas e vindas do jornalista e escritor colombiano.
A vigilância se manteria durante 24 anos, a pesar de que, a esta altura, García Márquez já era um renomado autor que se relacionava com as mais altas autoridades mundiais, incluídos presidentes como o estadunidense Bill Clinton, assinala o Post.
O diário obteve 137 páginas desclassificadas do expediente –até agora desconhecido- que a agência federal manteve sobre o PRÊMIO Nobel de Literatura. O FBI manteve classificadas outras 133 páginas do dossiê, pelo que o Post reconhece que não pôde descobrir o que foi que provocou o interesse da agência sobre o escritor colombiano, que naquela época ainda não havia alcançado a fama mundial que lhe dariam seus romances mais famosos, como Cem anos de Solidão [1967] ou a mais tardia O amor nos tempos do cólera.
Porém, para seu filho Rodrigo García, ainda que a notícia da vigilância sobre seu pai supôs uma novidade, não constitui, no entanto, surpresa alguma.
Tendo em conta que este colombiano estava em Nova Iorque para abrir uma agência de imprensa cubana, o inusitado teria sido que não o espiassem”, disse o produtor residente em Los Angeles ao diário da capital. A ironia, acrescentou García, é que dispensaram seu pai de Prensa Latina uns meses mais tarde porque não o consideravam suficientemente radical. “Meu pai não era um comunista de carteirinha. De fato, havia publicado alguns artigos sobre suas viagens a países socialistas e suas análises eram mistas. Assim que não se o considerava um verdadeiro comunista, e perdeu esse trabalho”.
Não obstante, a afeição de Gabo a Cuba de Fidel Castro foi constante ao longo de sua vida, até o ponto de que o escritor serviu em várias ocasiões como intermediário entre Washington e Havana, segundo se revelou no livro Back Channel to Cuba, publicado uns meses depois da norte do escritor, a 17 de abril de 2014.
Ainda que não haja constância de que o FBI chegara a abrir uma investigação criminal contra Gabo, com a revelação de que foi vigiado pela agência, o escritor latino-americano passa a formar parte da seleta lista de autores sob a mira de Hoover, entre os quais se incluem o também Nobel e enamorado de Cuba Ernest Hemingway, John Steinbeck ou Norman Mailer.


Tradução de Joaquim Lisboa Neto


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

'É A GEOPOLÍTICA, ESTÚPIDO!'


Por Página 12

Querem atingir os BRICS, isso não é uma questão de economia, é a geopolítica, estúpido”, disse ontem a presidenta Cristina Fernández de Kirchner, em uma mensagem publicada através das redes sociais. “Lembra quando eu disse, na Bolsa de Comércio, que a luta geopolítica e a crise estava sendo trasladada aos BRICS? Lembra quando eu disse que é importante conhecer o mundo, mas que é muito melhor entendê-lo, para que ninguém possa nos enganar nem vender espelhos?”, perguntou Cristina, ao comentar um artigo do diário inglês Financial Times, que ela criticou e usou como exemplo para fundamentar seu pensamento. “Nossa visão não é caprichosa, é que nós percebemos que a crise se traslada com violência em direção aos BRICS”, disse ela em alusão ao grupo de países emergentes, integrado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

O artigo citado pela presidente da Argentina, publicado esta semana, se intitula “Emergentes: hora de consertar um modelo quebrado”. Nele, se defende a ideia de que “o Brasil se apoiou fortemente no consumo interno e agora não pode sustentar sua aposta (…) a Rússia necessita do petróleo, cujo preço se derruba (…) a Índia não é capaz de superar sua burocracia (…) a China se tornou dependente dos investimentos e as exportações foram ficando escassas”. A nota afirma também que “os modelos econômicos dinâmicos que permitiram aos países em desenvolvimento levar o mundo de volta ao crescimento depois da crise financeira de 2008-2009 estão colapsando, e ameaçam arrastrar o mundo a uma nova recessão”. A presidenta discutiu com esse artigo: “É inacreditável”, comentou a mandatária, e se perguntou “onde aconteceu a quebra do Lehman Brothers, em 2008? Onde se deu a crise das hipotecas? A queda do banco Bears?”. E afirmou: “Dizer que os emergentes `ameaçam arrastrar o mundo a uma nova recessão', é simplesmente falso”. “O mundo foi arrastrado à crise de 2008 pela especulação financeira, e nunca se recuperou. O que os BRICS tem a ver com isso? Somente o rol de vítimas, nenhum outro”.

“E mais adiante – continuou a presidente, em sua crítica – temos quatro parágrafos que merecem o Guinness, pela falta de vergonha: ‘Os modelos de crescimento são questionados em geral, e em alguns países já estão esgotados’, e quem afirma isso? Mohamed El-Erian, principal assessor econômico do banco Allianz e presidente do Conselho de Desenvolvimento Global de Barack Obama”, comentou Cristina Kirchner.

A Presidenta explicou que a nota assegura que “não se trata apenas da desaceleração do crescimento dos mercados emergentes, a debilidade desses mercados também altera as economias do ocidente e faz com que os seus desafios se tornem mais difíceis de enfrentar”. E questionou: “a crise foi criada por eles, em 2008, com a bolha financeira, e agora, os mercados emergentes, que sofreram as consequências naquela época, são os culpados por alterar as economias deles, os países do ocidente – e por `ocidente´ eles querem dizer somente os grandes países desenvolvidos, porque a Grécia também faz parte do ocidente”.

Ao citar outro parágrafo do artigo, CFK destacou que: “esta boa ficção está dizendo que não haverá investimentos produtivos em dólares para os países emergentes. Aqui se pode entender porque nós lutamos tanto para diminuir o endividamento, para fomentar a reindustrialização, apostamos no mercado interno, no investimento em investigação e desenvolvimento, etc? Entende por que insistimos tanto com o que acontece no mundo, e aqui os meios hegemônicos e seus porta-vozes econômicos ocultam prolixamente e deliberadamente, todos os dias, de cada semana, de cada mês, de todos os anos?”.

Tradução: Victor Farinelli