"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

"De que vale a vida se quando a temos ela parece morta. A vida é para ser senirmos, para vibrar, para lutar, para combater. Isso justifica nossa passagem pela Terra." (Jaime Pardo Leal)


domingo, 20 de abril de 2014

O enigmático Hugo Chávez


Considerado um dos escritores mais importantes do século 20, o colombiano Gabriel García Márquez nasceu em Arataca, em 1927, e teve destacada atuação como jornalista. O artigo que reproduz sua conversa com Hugo Chávez foi originalmente publicado na revista Cambio, em fevereiro de 1999, publicação da qual foi um dos proprietários. O autor de Cem Anos de Solidão, uma das obras mais lidas e traduzidas em todo o mundo, recebeu o Nobel em 1982



Durante voo entre Havana e Caracas, Gabriel García Márquez conversa com Hugo Chávez, recém-eleito presidente


Ao entardecer, Carlos Andrés Pérez desceu do avião que o trazia de Davos, na Suíça, e se surpreendeu ao ver na plataforma o general Fernando Ochoa Antich, seu ministro da Defesa. "O que est acontecendo?", perguntou-lhe intrigado. O ministro o tranquilizou, com argumentos tão confiáveis que o presidente não foi para o Palácio de Miraflores, e sim para a sua residência oficial, La Casona. Começava a dormir quando o mesmo ministro da Defesa o despertou por telefone para informá-lo de um levante militar em Maracay. Mal havia chegado a Miraflores quando explodiram as primeiras descargas de artilharia.


Era o dia 4 de fevereiro de 1992. O coronel Hugo Chávez Frías, com seu culto litúrgico pelas datas históricas, comandava o assalto de seu posto improvisado no museu histórico La Planicie. Prez compreendeu então que seu único recurso era o apoio popular e se dirigiu aos estúdios da Venevisión para falar ao país. Duas horas depois o golpe militar tinha fracassado. Chávez se rendeu, com a condição de que também permitissem a ele dirigir-se ao povo pela televisão.


O jovem coronel mestiço, com sua boina de paraquedista e seu admirável talento de orador, assumiu a responsabilidade pelo movimento. E seu discurso foi um triunfo político.



Cumpriu dois anos de prisão até ser anistiado pelo presidente Rafael Caldera. Entretanto, muitos partidários — e inimigos políticos — compreenderam que seu discurso da derrota foi o primeiro da campanha eleitoral que o levou à Presidência da República menos de nove anos depois.


O presidente Hugo Chávez Frías me contava essa história no avião da Força Aérea venezuelana que nos levava de Havana a Caracas, há algumas semanas. Havíamos nos conhecido três dias antes em Havana, durante sua reunião com os presidentes Castro e Pastrana, e a primeira coisa que me impressionou foi o poder que emanava de seu corpo de granito. Tinha a cordialidade espontânea e a graça mestiça de um autêntico venezuelano. Ambos tentamos nos ver outra vez, mas isso não fora possível devido aos compromissos; foi, portanto, no avião para Caracas que conversamos sobre sua vida e seus projetos.


Foi uma experiência enriquecedora para um repórter de folga. À medida que me contava sua vida, eu ia descobrindo uma personalidade que não correspondia em nada à imagem de déspota que tínhamos formado através dos meios de comunicação. Era outro Chávez. Qual dos dois seria o real?


O principal argumento contra ele durante a campanha de 1998 havia sido seu passado recente de conspirador e golpista. Mas a história da Venezuela digeriu mais de quatro. Começando por Rómulo Betancourt, lembrado — com ou sem razão — como o pai da democracia venezuelana, que derrubou Isaías Medina Antarita, um antigo militar democrata que tentava limpar seu país dos 36 anos da ditadura de Juan Vicente Gómez. Seu sucessor, o escritor Rómulo Gallegos, foi derrubado pelo general Marcos Pérez Jiménez, que ficaria quase 11 anos no poder. Este, por sua vez, foi derrubado por toda uma geração de jovens democratas, o que inaugurou o período mais longo de presidentes eleitos.


Escapulário da sorte


O golpe de fevereiro de 1992 parece ser a única coisa que saiu mal para o coronel Hugo Chávez Frías. No entanto, ele o viu por um lado positivo, como um revés providencial. É sua maneira de entender a sorte, ou qualquer coisa que emane do sopro mágico que tem comandado seus atos desde que veio ao mundo em Sabaneta, estado de Barinas, a 28 de julho de 1954, sob o signo do poder: Leão. Chávez, católico convicto, atribui sua sorte ao escapulário de mais de cem anos que leva ao pescoço desde pequeno, herdado de um bisavô materno, o coronel Pedro Pérez Delgado, um de seus heróis tutelares.


Seus pais sobreviviam a duras penas com salários de professores primários, e ele teve que ajudá-los desde os nove anos, vendendo doces e frutas nas ruas. Às vezes ia de burro visitar sua tia materna em Los Rastrijos, um povoado vizinho. A seus olhos, era uma verdadeira cidade porque tinha uma rede elétrica que fornecia duas horas de luz no início da noite, e uma parteira que trouxe ele e seus quatro irmãos ao mundo. Sua mãe queria que ele fosse padre, mas ele só chegou a coroinha e tocava os sinos com tanta graça que todo o mundo o reconhecia por seu jeito de fazê-los repicar. “Esse que toca é Hugo”, diziam. Entre os livros de sua mãe encontrou uma enciclopédia providencial, cujo primeiro capítulo o seduziu de imediato: “Como vencer na vida”.


Era, na realidade, um receituário de opções, e ele tentou quase todas. Fã das pinturas de Michelangelo e de seu David, ganhou seu primeiro prêmio como pintor aos 12 anos, numa exposição regional. Como músico, tornou-se indispensável nas festas de aniversário e nas serenatas, tanto por seu talento com o violão como por sua voz. Como jogador de beisebol chegou a ser um catcher [apanhador] de primeira. A opção militar não estava na lista, nem a ele havia ocorrido por sua própria conta, até que lhe contaram que o melhor modo de chegar às grandes equipes de beisebol era ingressando na academia militar de Barinas.


Estudou ciência política, história do marxismo e leninismo. Apaixonou-se pelo estudo da vida e da obra de Bolívar, seu “leão” maior, e aprendeu todos os seus discursos de cor. Seu primeiro conflito com a política real foi por ocasião da morte de Allende, em setembro de 1973. Chávez não entendia porque os militares deviam depor Allende, se os chilenos o haviam eleito. Pouco depois, o capitão de sua companhia lhe deu a tarefa de vigiar um filho de José Vicente Rangel, que acreditavam ser comunista. “Veja as voltas que a vida dá”, disse Chávez, com uma gargalhada. “Agora, o pai dele é meu ministro das Relações Exteriores!”


Mais irônico ainda é que em sua formatura Chávez recebeu o sabre de oficial das mãos do presidente que, 20 anos depois, tentaria derrubar: Carlos Andrés Pérez. “Além disso”, disse eu, “você esteve a ponto de matá-lo”. “De maneira nenhuma”, protestou Chávez. “A ideia era instalar uma Assembleia Constituinte e voltar aos quartéis.”


Desde o primeiro momento, dei-me conta que era um narrador nato. Um produto íntegro da cultura popular venezuelana, que é criativa e poética. Tem um grande sentido do tempo e uma memória quase sobrenatural, que lhe permite recitar de cor poemas de Neruda ou Whitman, e páginas inteiras de Rómulo Gallegos.


Desde muito jovem, descobriu por acaso que seu bisavô não fora um assaltante de estradas, como dizia sua mãe, e sim um guerreiro lendário dos tempos de Juan Vicente Gómez. Foi tal o entusiasmo de Chávez que ele decidiu escrever um livro para purificar sua memória. Vasculhou arquivos históricos e bibliotecas militares e percorreu a região de povoado em povoado para reconstituir os itinerários do bisavô através de depoimentos dos sobreviventes. Desde então o incorporou ao altar de seus heróis e começou a levar o escapulário protetor que havia sido seu.


Início do movimento


Num desses dias, Chávez atravessou a fronteira, sem se dar conta, pela ponte de Arauca, e o capitão colombiano que revistou sua bagagem encontrou inúmeras razões para acusá-lo de espionagem: levava uma câmera fotográfica, um gravador, papéis secretos, fotos da região, um mapa militar com gráficos e duas pistolas do Exército. Os documentos de identidade, como ocorre com os espiões, podiam ser falsos.


A discussão se prolongou por várias horas num posto militar onde o único quadro era um retrato de Bolívar a cavalo. “Eu já não aguentava mais”, me contou Chávez, “pois quanto mais explicava, menos ele entendia”. Até que lhe ocorreu a frase salvadora: “Veja como é a vida, meu capitão: há menos de um século éramos um mesmo exército e esse que nos está olhando neste quadro era o chefe de nós dois. Como posso ser um espião?”. Comovido, o capitão começou a dizer maravilhas da Grande Colômbia e os dois terminaram a noite bebendo cerveja de ambos os países num bar em Arauca. Na manhã seguinte, com uma dor de cabeça mútua, o capitão devolveu a Chávez seus instrumentos de pesquisa e se despediu com um grande abraço na metade da ponte internacional.


Foi nessa época que comecei a compreender que alguma coisa de errado se passava na Venezuela”, disse Chávez. Tinha sido designado comandante de um pelotão de 13 soldados e uma equipe de comunicação na província de Oriente, para liquidar os últimos redutos guerrilheiros. Numa noite em que chovia muito, um coronel do serviço secreto com uma patrulha de soldados e alguns supostos guerrilheiros — famintos e esqueléticos — pediu-lhe para pernoitar na caserna. Por volta das dez da noite, quando Chávez começava a dormir, ouviu do quarto contíguo gritos dilacerantes. “Eram os soldados que estavam batendo nos presos com bastões de beisebol envoltos em trapos para que não ficassem marcas”, contou Chávez. Indignado, exigiu que o coronel lhe entregasse os presos ou que se fosse imediatamente dali. “No dia seguinte me ameaçaram com um inquérito e corte marcial por desobediência”, disse, “mas acabaram só me mantendo por um tempo sob observação”.


Alguns dias mais tarde teve outra experiência ainda mais marcante. Um helicóptero militar aterrissou no pátio do quartel com um carregamento de soldados recém-feridos numa emboscada da guerrilha. Chávez carregou nos braços um soldado com várias balas no corpo, apavorado. “Não me deixe morrer, tenente”... dizia-lhe. Só deu tempo para o colocar numa ambulância. Outros sete morreram. Nessa noite, desacordado em sua rede, Chávez se perguntava: “O que é que eu faço aqui? De um lado, camponeses vestidos de militares torturam camponeses guerrilheiros, e do outro, camponeses guerrilheiros matam camponeses vestidos de militares. A essas alturas, com a guerra terminada, não tem o menor sentido ficarem uns atirando contra os outros”. E aí concluiu, no avião que nos levava a Caracas: “Foi essa a minha primeira crise existencial”.


Discurso de improviso


No dia seguinte, acordou convencido de que seu destino era fundar um movimento. E o fez aos 23 anos, com um nome evidente: Exército Bolivariano do Povo da Venezuela. Seus membros fundadores: cinco soldados e ele, com a patente de subtenente. “Com que finalidade?”, perguntei. Muito simples, disse ele: “Com a finalidade de nos preparamos se acontecesse algo”. Um ano depois, já como oficial paraquedista de um batalhão de blindados em Maracay, começou a conspirar seriamente. Mas fez questão de frisar que usava a palavra conspiração só no sentido figurado: convocar voluntários para uma tarefa comum.


Essa era a situação a 17 de dezembro de 1982, quando ocorreu um episódio inesperado que Chávez considera decisivo em sua vida. Era já capitão no 2º Regimento de paraquedistas e oficial do serviço secreto. Quando menos esperava, o comandante do regimento, Ángel Manrique, o escalou para pronunciar um discurso diante de 1.200 homens, entre oficiais e tropa. À uma da tarde, com o batalhão já reunido no campo de futebol, o mestre de cerimônias o anunciou. “E o discurso?”, perguntou o comandante do regimento ao vê-lo subir à tribuna sem papel. “Eu não escrevi”, respondeu Chávez. E começou a improvisar. Foi um discurso breve, inspirado em Bolívar e Martí, mas com um toque pessoal sobre a situação de injustiça na América Latina, 200 anos após a independência.


Os oficiais o escutaram impassíveis. Entre eles, os capitães Felipe Acosta Carle e Jesús Urdaneta Hernández, simpatizantes de seu movimento. Irritado, o comandante repreendeu-o: “Chávez, você parece um político”. Felipe Acosta, que estava a dois metros de distância, dirigiu-se ao comandante: “O senhor está equivocado, meu comandante. Chávez não é um político. É um capitão da nova geração, e quando alguns poderosos corruptos o escutam, mijam-se nas calças”.


Depois disso, Chávez foi a cavalo com os capitães Felipe Acosta e Jesús Urdaneta até Samán del Guere, a dez quilômetros de distância, onde repetiram o juramento solene de Simón Bolívar no monte Aventino. “No final, é claro que fiz algumas mudanças”, disse. Em lugar de “quando tivermos quebrado as correntes que nos oprimem pela vontade do poder espanhol”, disseram: “Até que tenhamos quebrado as correntes que nos oprimem e oprimem nosso povo por vontade dos poderosos”.


Desde então, todos os oficiais que se incorporavam ao movimento secreto tinham que fazer esse juramento. Durante anos fizeram congressos clandestinos, com representantes militares de todo o país. “Durante dois dias fazíamos reuniões em lugares escondidos, estudando a situação do país, fazendo análises e contatos com grupos civis, de amigos. Em dez anos”, diz Chávez, “conseguimos fazer cinco congressos sem sermos descobertos”.


A tragédia do Caracazo


Para o comandante Chávez, o acontecimento mais importante de sua vida foi o Caracazo, a sublevação popular que devastou Caracas em 1989. Ele sempre repete: “Napoleão disse que uma batalha se decide num segundo de inspiração do estrategista”. A partir desse pensamento, Chávez desenvolveu três conceitos: um, o momento histórico; o segundo, o minuto estratégico; e três, o segundo tático.


Aconteceu um drama tremendo, e eles não estavam preparados. “Ou seja”, conclui Chávez, “o minuto estratégico nos surpreendeu”. Referia-se à insurreição popular de 27 de fevereiro de 1989: o Caracazo. Carlos Andrés Pérez acabava de assumir a presidência com uma votação caudalosa e era inconcebível que, em apenas 20 dias, se pudesse produzir uma revolta tão violenta. “Na noite do dia 27, eu ia para a universidade, onde fazia um curso de doutorado, e parei na caserna de Tiura para abastecer o carro”, me contou Chávez minutos antes de pousar em Caracas. “Vi a tropa saindo e perguntei a um coronel: ‘Para onde vão esses soldados?’. Estavam levando os homens da Logística, que não estão treinados para combate, muito menos para combate de rua. Eram recrutas assustados com seus próprios fuzis. Por isso insisti com o coronel: ‘Para onde vai essa gente?’. E o coronel respondeu: ‘Para a rua. A ordem é acabar com os tumultos do jeito que for, e eu vou fazê-lo’. E então eu disse: ‘Mas, coronel, o senhor já pensou o que pode acontecer?’. E ele respondeu: ‘Escute bem, Chávez, trata-se uma ordem e não há nada para fazer. Seja o que Deus quiser’”.


Chávez se lembra que estava com muita febre naquela noite por causa de uma crise de rubéola. Quando ligou o carro, viu um soldado que vinha correndo com o capacete caído, o fuzil dependurado e a munição desarrumada. “Aí eu parei e o chamei”, conta Chávez. “Ele entra, todo nervoso, suando, um jovenzinho de 18 anos. E eu pergunto: ‘Para onde você está correndo?’. ‘Eu perdi o meu pelotão. Eles vão ali na frente, naquele caminhão. Me ajude, major, me leve até lá.’ Alcancei o caminhão e perguntei ao motorista: ‘Para onde vocês estão indo?’. E ele disse: ‘Eu não sei de nada. Acho que ninguém sabe’”.


Chávez respira fundo e quase grita, asfixiando-se na angústia da lembrança daquela noite terrível: “Você sabe, eles mandam os soldados para a rua, assustados, com um fuzil e quinhentos cartuchos. Eles atiravam sobre tudo que se movia. Varriam as ruas à bala, as favelas, os bairros populares. Foi um desastre! Milhares de mortos! Entre eles, Felipe Acosta. E meu instinto me diz até hoje que o mandaram matar”, afirma Chávez. “Foi o minuto que esperávamos para agir.” Desde então, começaram a preparar o golpe de Estado que fracassaria três anos depois.


O avião pousou em Caracas por volta das três da manhã. Vi pela janela o lago de luzes daquela cidade inesquecível. O presidente se despediu com um grande abraço caribenho e um convite implícito: “Nos vemos aqui em 2 de fevereiro” [dia da posse do primeiro mandato de Chávez].  Enquanto se afastava, rodeado por militares condecorados e amigos de primeira hora, tremi com a inspiração de que havia viajado e conversado à vontade com dois homens diferentes. Um, a quem a sorte oferecia a oportunidade de salvar seu país. E o outro, um ilusionista, que poderia passar à história como apenas mais um déspota.


* Tradução por Le Monde Diplomatique



sábado, 19 de abril de 2014

Gabriel García Márquez, in memoriam


La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 17 de abril de 2014
 
  Gabriel José de la Concordia García Márquez, o ‘Gabo’,  Prêmio Nobel de Literatura e escritor insigne da Colômbia, tomou hoje a senda da eternidade aos 87 anos de uma vida prolífica em criatividade, que deixou para o mundo uma obra maravilhosa, que com realismo mágico reflete a presença destas terras de Nuestra América, as quais amou e dedicou sua inteligência como narrador e cronista de suas desventuras, esperanças e sonhos.


Com profundo respeito, a Delegação de Paz das FARC-EP, desde Havana, se abraça em sentimentos de pesar com seus familiares, parentes, amigos e a pátria toda que se enche de luto pela partida do maior escritor de nossa história. Vão de maneira especial nossas condolências para sua esposa dona Mercedes Barcha e seus filhos Rodrigo e Gonzalo.


A partida deste gigante das letras congregou num só punhado de identidade, solidariedade e luto a Colômbia, e isso traz a nossas mentes a certeza de que em cada clarão aberto na de nossa sobrevivência agreste seguirá surgindo a perseverança que necessitamos para continuar para uma era de reconciliação, com nossos José Arcadios e Úrsulas que se repetem sem cessar entre coisas de adivinhos, entre esconjuros e presságios, morrendo e revivendo como Melquiades, enquanto concebemos a existência, submergindo-nos muitas vezes na peste da insônia, desmemoriados de nosso passado, porém voltando de algum modo também como o cigano da alquimia, desde a morte, consumindo a beberagem milagrosa que devolve as recordações que remoçam a confiança no amanhã.


Com a despedida deste homem magnífico, reiteramos hoje que, como Aureliano Buendía, sonhamos e faremos a paz, um país onde possamos tranquilos fabricar pescadinhos de ouro sem acabar com nosso meio ambiente; com o empreendimento de Aureliano Triste, porém sem aqueles que sufocam greves a tiros; relendo nosso acontecer nos pergaminhos do Gabo, porém agora, sim, com a experiência de haver suportado os piores furacões da vida, sem que o vento nos possa arrasar, sem que nos possa apagar mais da memória humana, nem na recorrência das tragédias, porque, ainda que estejamos condenados a cem anos de solidão, faremos com nossas lutas e nossa infinita capacidade de amar e perdoar, que existe uma segunda oportunidade sobre a terra.


Com certeza, Gabo, conquistaremos com nosso povo que Macondo já não seja um pavoroso redemoinho de poeira e escombros. E que esse delicado vento de luz que é a paz embale nosso presente, enquanto tomas o caminho de Remedios a Bela. Com certeza, Gabo, repetiremos em teu nome, com compromisso inquebrantável, que “ainda não é demasiado tarde
para construir uma utopia que nos permita compartilhar a terra”.




DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP


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sexta-feira, 18 de abril de 2014

1967 latinoamericano: o Gabo e o Che


A notícia mais importante da sua vida não foi a dolorosa notícia de ontem, nem tampouco o Premio Nobel de 1982, mas o lançamento de Cem Anos de Solidão, em 1967

por Emir Sader


O Gabo sempre gostava de reiterar que, como jornalista – profissão que ele sempre reivindicou como a sua – a maior frustração que ele teria seria não poder dar a notícia mais importante da sua vida. Mas a verdade é que a notícia mais importante da sua vida não foi a dolorosa notícia de ontem, nem tampouco o glorioso Premio Nobel de 1982, mas o lançamento de Cem Anos de Solidão, em 1967.

O século XX foi o primeiro século em que a América Latina teve um protagonismo mundial. Iniciado, politicamente, com o massacre dos mineiros na Escola de Santa Maria de Iquique, em 1907 e, 3 anos mais tarde, com a Revolução Mexicana, se anunciava que seria um século de revoluções e contrarrevoluções no continente. O marco definitivo dessa trajetória viria com a Revolução Cubana de 1959.

Mas 1967 foi um ano simbolicamente determinante para a história latino-americana e para sua projeção mundial. É o ano da publicação da obra mais importante da nossa literatura,
Cem Anos de Solidão, mas também porque é o ano da morte do Che.

Uma, a maior obra prima da literatura latino-americana, outro, o personagem cujo gesto o levou a ser a imagem mais reproduzida no mundo.

Não há ninguém que tenha lido
Cem Anos de Solidão e que não se lembre das circunstâncias – onde, quando, com quem, em que edição – leu pela primeira vez o livro. Como não há ninguém que tenha vivido naquele não tão longínquo 1967, que não se lembre quando, onde, com quem, soube da noticia dolorosamente certa da morte do Che.

O discurso do Gabo ao receber o Nobel de Literatura é a mais notável reivindicação da América Latina. Ali, ele afirma que, da mesma forma se reconhece ao nosso continente sua criatividade, sua originalidade e sua criatividade nas artes, se deve deixar de tentar impor-nos  projetos políticos desde fora, deixando-nos exercer, da mesma maneira, nos caminhos da nossa história, essa criatividade, essa genialidade e essa originalidade, que nos reconhecem no campo das artes.


A íntegra do discurso


Segue abaixo a íntegra desse discurso, em espanhol, para homenagear Gabo e a lingua que trabalhou durante toda sua vida:


"Antonio Pigafetta, un navegante florentino que acompañó a Magallanes en el primer viaje alrededor del mundo, escribió a su paso por nuestra América meridional una crónica rigurosa que sin embargo parece una aventura de la imaginación. Contó que había visto cerdos con el ombligo en el lomo, y unos pájaros sin patas cuyas hembras empollaban en las espaldas del macho, y otros como alcatraces sin lengua cuyos picos parecían una cuchara. Contó que había visto un engendro animal con cabeza y orejas de mula, cuerpo de camello, patas de ciervo y relincho de caballo. Contó que al primer nativo que encontraron en la Patagonia le pusieron enfrente un espejo, y que aquel gigante enardecido perdió el uso de la razón por el pavor de su propia imagen.
Este libro breve y fascinante, en el cual ya se vislumbran los gérmenes de nuestras novelas de hoy, no es ni mucho menos el testimonio más asombroso de nuestra realidad de aquellos tiempos. Los cronistas de Indias nos legaron otros incontables. Eldorado, nuestro país ilusorio tan codiciado, figuró en mapas numerosos durante largos años, cambiando de lugar y de forma según la fantasía de los cartógrafos. En busca de la fuente de la Eterna Juventud, el mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca exploró durante ocho años el norte de México, en una expedición venática cuyos miembros se comieron unos a otros y sólo llegaron cinco de los 600 que la emprendieron. Uno de los tantos misterios que nunca fueron descifrados, es el de las once mil mulas cargadas con cien libras de oro cada una, que un día salieron del Cuzco para pagar el rescate de Atahualpa y nunca llegaron a su destino. Más tarde, durante la colonia, se vendían en Cartagena de Indias unas gallinas criadas en tierras de aluvión, en cuyas mollejas se encontraban piedrecitas de oro. Este delirio áureo de nuestros fundadores nos persiguió hasta hace poco tiempo. Apenas en el siglo pasado la misión alemana de estudiar la construcción de un ferrocarril interoceánico en el istmo de Panamá, concluyó que el proyecto era viable con la condición de que los rieles no se hicieran de hierro, que era un metal escaso en la región, sino que se hicieran de oro.
La independencia del dominio español no nos puso a salvo de la demencia. El general Antonio López de Santana, que fue tres veces dictador de México, hizo enterrar con funerales magníficos la pierna derecha que había perdido en la llamada Guerra de los Pasteles. El general García Moreno gobernó al Ecuador durante 16 años como un monarca absoluto, y su cadáver fue velado con su uniforme de gala y su coraza de condecoraciones sentado en la silla presidencial. El general Maximiliano Hernández Martínez, el déspota teósofo de El Salvador que hizo exterminar en una matanza bárbara a 30 mil campesinos, había inventado un péndulo para averiguar si los alimentos estaban envenenados, e hizo cubrir con papel rojo el alumbrado público para combatir una epidemia de escarlatina. El monumento al general Francisco Morazán, erigido en la plaza mayor de Tegucigalpa, es en realidad una estatua del mariscal Ney comprada en París en un depósito de esculturas usadas.
Hace once años, uno de los poetas insignes de nuestro tiempo, el chileno Pablo Neruda, iluminó este ámbito con su palabra. En las buenas conciencias de Europa, y a veces también en las malas, han irrumpido desde entonces con más ímpetus que nunca las noticias fantasmales de la América Latina, esa patria inmensa de hombres alucinados y mujeres históricas, cuya terquedad sin fin se confunde con la leyenda. No hemos tenido un instante de sosiego. Un presidente prometeico atrincherado en su palacio en llamas murió peleando solo contra todo un ejército, y dos desastres aéreos sospechosos y nunca esclarecidos segaron la vida de otro de corazón generoso, y la de un militar demócrata que había restaurado la dignidad de su pueblo.

En este lapso ha habido 5 guerras y 17 golpes de estado, y surgió un dictador luciferino que en el nombre de Dios lleva a cabo el primer etnocidio de América Latina en nuestro tiempo. Mientras tanto 20 millones de niños latinoamericanos morían antes de cumplir dos años, que son más de cuantos han nacido en Europa occidental desde 1970. Los desaparecidos por motivos de la represión son casi los 120 mil, que es como si hoy no se supiera dónde están todos los habitantes de la ciudad de Upsala. Numerosas mujeres arrestadas encintas dieron a luz en cárceles argentinas, pero aún se ignora el paradero y la identidad de sus hijos, que fueron dados en adopción clandestina o internados en orfanatos por las autoridades militares. Por no querer que las cosas siguieran así han muerto cerca de 200 mil mujeres y hombres en todo el continente, y más de 100 mil perecieron en tres pequeños y voluntariosos países de la América Central, Nicaragua, El Salvador y Guatemala. Si esto fuera en los Estados Unidos, la cifra proporcional sería de un millón 600 mil muertes violentas en cuatro años.
De Chile, país de tradiciones hospitalarias, ha huido un millón de personas: el 10 por ciento de su población. El Uruguay, una nación minúscula de dos y medio millones de habitantes que se consideraba como el país más civilizado del continente, ha perdido en el destierro a uno de cada cinco ciudadanos. La guerra civil en El Salvador ha causado desde 1979 casi un refugiado cada 20 minutos. El país que se pudiera hacer con todos los exiliados y emigrados forzosos de América Latina, tendría una población más numerosa que Noruega.
Me atrevo a pensar que es esta realidad descomunal, y no sólo su expresión literaria, la que este año ha merecido la atención de la Academia Sueca de las Letras. Una realidad que no es la del papel, sino que vive con nosotros y determina cada instante de nuestras incontables muertes cotidianas, y que sustenta un manantial de creación insaciable, pleno de desdicha y de belleza, del cual éste colombiano errante y nostálgico no es más que una cifra más señalada por la suerte. Poetas y mendigos, músicos y profetas, guerreros y malandrines, todas las criaturas de aquella realidad desaforada hemos tenido que pedirle muy poco a la imaginación, porque el desafío mayor para nosotros ha sido la insuficiencia de los recursos convencionales para hacer creíble nuestra vida. Este es, amigos, el nudo de nuestra soledad.
Pues si estas dificultades nos entorpecen a nosotros, que somos de su esencia, no es difícil entender que los talentos racionales de este lado del mundo, extasiados en la contemplación de sus propias culturas, se hayan quedado sin un método válido para interpretarnos. Es comprensible que insistan en medirnos con la misma vara con que se miden a sí mismos, sin recordar que los estragos de la vida no son iguales para todos, y que la búsqueda de la identidad propia es tan ardua y sangrienta para nosotros como lo fue para ellos. La interpretación de nuestra realidad con esquemas ajenos sólo contribuye a hacernos cada vez más desconocidos, cada vez menos libres, cada vez más solitarios. Tal vez la Europa venerable sería más comprensiva si tratara de vernos en su propio pasado.

Si recordara que Londres necesitó 300 años para construir su primera muralla y otros 300 para tener un obispo, que Roma se debatió en las tinieblas de incertidumbre durante 20 siglos antes de que un rey etrusco la implantara en la historia, y que aún en el siglo XVI los pacíficos suizos de hoy, que nos deleitan con sus quesos mansos y sus relojes impávidos, ensangrentaron a Europa con soldados de fortuna. Aún en el apogeo del Renacimiento, 12 mil lansquenetes a sueldo de los ejércitos imperiales saquearon y devastaron a Roma, y pasaron a cuchillo a ocho mil de sus habitantes.
No pretendo encarnar las ilusiones de Tonio Kröger, cuyos sueños de unión entre un norte casto y un sur apasionado exaltaba Thomas Mann hace 53 años en este lugar. Pero creo que los europeos de espíritu clarificador, los que luchan también aquí por una patria grande más humana y más justa, podrían ayudarnos mejor si revisaran a fondo su manera de vernos. La solidaridad con nuestros sueños no nos haría sentir menos solos, mientras no se concrete con actos de respaldo legítimo a los pueblos que asuman la ilusión de tener una vida propia en el reparto del mundo.
América Latina no quiere ni tiene por qué ser un alfil sin albedrío, ni tiene nada de quimérico que sus designios de independencia y originalidad se conviertan en una aspiración occidental.
No obstante, los progresos de la navegación que han reducido tantas distancias entre nuestras Américas y Europa, parecen haber aumentado en cambio nuestra distancia cultural. ¿Por qué la originalidad que se nos admite sin reservas en la literatura se nos niega con toda clase de suspicacias en nuestras tentativas tan difíciles de cambio social? ¿Por qué pensar que la justicia social que los europeos de avanzada tratan de imponer en sus países no puede ser también un objetivo latinoamericano con métodos distintos en condiciones diferentes? No: la violencia y el dolor desmesurados de nuestra historia son el resultado de injusticias seculares y amarguras sin cuento, y no una confabulación urdida a 3 mil leguas de nuestra casa. Pero muchos dirigentes y pensadores europeos lo han creído, con el infantilismo de los abuelos que olvidaron las locuras fructíferas de su juventud, como si no fuera posible otro destino que vivir a merced de los dos grandes dueños del mundo. Este es, amigos, el tamaño de nuestra soledad.
Sin embargo, frente a la opresión, el saqueo y el abandono, nuestra respuesta es la vida. Ni los diluvios ni las pestes, ni las hambrunas ni los cataclismos, ni siquiera las guerras eternas a través de los siglos y los siglos han conseguido reducir la ventaja tenaz de la vida sobre la muerte. Una ventaja que aumenta y se acelera: cada año hay 74 millones más de nacimientos que de defunciones, una cantidad de vivos nuevos como para aumentar siete veces cada año la población de Nueva York. La mayoría de ellos nacen en los países con menos recursos, y entre éstos, por supuesto, los de América Latina. En cambio, los países más prósperos han logrado acumular suficiente poder de destrucción como para aniquilar cien veces no sólo a todos los seres humanos que han existido hasta hoy, sino la totalidad de los seres vivos que han pasado por este planeta de infortunios.
Un día como el de hoy, mi maestro William Faulkner dijo en este lugar: «Me niego a admitir el fin del hombre». No me sentiría digno de ocupar este sitio que fue suyo si no tuviera la conciencia plena de que por primera vez desde los orígenes de la humanidad, el desastre colosal que él se negaba a admitir hace 32 años es ahora nada más que una simple posibilidad científica. Ante esta realidad sobrecogedora que a través de todo el tiempo humano debió de parecer una utopía, los inventores de fábulas que todo lo creemos, nos sentimos con el derecho de creer que todavía no es demasiado tarde para emprender la creación de la utopía contraria. Una nueva y arrasadora utopía de la vida, donde nadie pueda decidir por otros hasta la forma de morir, donde de veras sea cierto el amor y sea posible la felicidad, y donde las estirpes condenadas a cien años de soledad tengan por fin y para siempre una segunda oportunidad sobre la tierra.
Agradezco a la Academia de Letras de Suecia el que me haya distinguido con un premio que me coloca junto a muchos de quienes orientaron y enriquecieron mis años de lector y de cotidiano celebrante de ese delirio sin apelación que es el oficio de escribir. Sus nombres y sus obras se me presentan hoy como sombras tutelares, pero también como el compromiso, a menudo agobiante, que se adquiere con este honor. Un duro honor que en ellos me pareció de simple justicia, pero que en mí entiendo como una más de esas lecciones con las que suele sorprendernos el destino, y que hacen más evidente nuestra condición de juguetes de un azar indescifrable, cuya única y desoladora recompensa, suelen ser, la mayoría de las veces, la incomprensión y el olvido.
Es por ello apenas natural que me interrogara, allá en ese trasfondo secreto en donde solemos trasegar con las verdades más esenciales que conforman nuestra identidad, cuál ha sido el sustento constante de mi obra, qué pudo haber llamado la atención de una manera tan comprometedora a este tribunal de árbitros tan severos. Confieso sin falsas modestias que no me ha sido fácil encontrar la razón, pero quiero creer que ha sido la misma que yo hubiera deseado. Quiero creer, amigos, que este es, una vez más, un homenaje que se rinde a la poesía. A la poesía por cuya virtud el inventario abrumador de las naves que numeró en su Iliada el viejo Homero está visitado por un viento que las empuja a navegar con su presteza intemporal y alucinada. La poesía que sostiene, en el delgado andamiaje de los tercetos del Dante, toda la fábrica densa y colosal de la Edad Media. La poesía que con tan milagrosa totalidad rescata a nuestra América en las Alturas de Machu Pichu de Pablo Neruda el grande, el más grande, y donde destilan su tristeza milenaria nuestros mejores sueños sin salida. La poesía, en fin, esa energía secreta de la vida cotidiana, que cuece los garbanzos en la cocina, y contagia el amor y repite las imágenes en los espejos.
En cada línea que escribo trato siempre, con mayor o menor fortuna, de invocar los espíritus esquivos de la poesía, y trato de dejar en cada palabra el testimonio de mi devoción por sus virtudes de adivinación, y por su permanente victoria contra los sordos poderes de la muerte. El premio que acabo de recibir lo entiendo, con toda humildad, como la consoladora revelación de que mi intento no ha sido en vano. Es por eso que invito a todos ustedes a brindar por lo que un gran poeta de nuestras Américas, Luis Cardoza y Aragón, ha definido como la única prueba concreta de la existencia del hombre: la poesía.
Muchas gracias.


Adolfo Pérez Esquivel: “Dom Paulo Evaristo Arns me salvou duas vezes da ditadura brasileira”


O ativista de direitos humanos argentino Adolfo Perez Esquivel, de 82 anos, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1980, disse que foi "salvo duas vezes" por dom Paulo Evaristo Arns durante a ditadura no Brasil. 



A reportagem é de Marcia Carmo.


Em entrevista à BBC Brasil em Buenos Aires, Esquivel disse que foi preso na primeira vez por militares em São Paulo em 1975, e na segunda vez em 1981. "Em 1975, foi muito difícil, porque eles colocaram um capuz na minha cabeça, uma gravação de gritos de pessoas sendo torturadas e levantavam um pouco o capuz somente para que eu pudesse identificar latino-americanos que eles perseguiam."


Segundo ele, os militares queriam que ele "denunciasse" outros opositores ao regime no Brasil. "Eu disse que não conhecia ninguém”. Perez Esquivel afirmou ainda que três militares o interrogaram e não pode ver seus rostos. "Eram três interrogadores – um muito duro que dizia que iam me matar, que iam me torturar, outro que dizia que era conveniente que eu falasse e outro que queria se fazer de meu amigo, que estava ali para me ajudar", afirmou.


No dia seguinte à prisão, o então arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, conseguiu tirá-lo do local. "O cardeal me salvou duas vezes", disse o Prêmio Nobel durante a entrevista realizada na sede da ONG Serviço Paz e Justiça (Serjap) que dirige na Argentina.


Segundo Esquivel, Arns reuniu outros religiosos e defensores de direitos humanos e organizou uma manifestação na porta da delegacia, que não recordou onde ficava, assim que soube da sua detenção.


"Dom Paulo, certamente, falou com autoridades do Brasil para que eu fosse liberado. Mas não sei as gestões exatas que ele fez. O que sei é que ele não perdeu tempo em organizar uma manifestação na porta da delegacia para me salvar. E me salvou", disse.


Medo


Quando perguntado se tinha sentido medo de morrer na prisão durante a ditadura no Brasil, ele respondeu: "Daquela vez sim, foi mesmo preocupante".


Ele contou que foi preso no aeroporto em São Paulo, e que estava com o advogado Mario Carvalho de Jesus, da Frente Nacional do Trabalho, e com a austríaca Hildegard Goss-Mayr, atual presidente honorária do Movimento Internacional de Reconciliação e integrante do Serpaj, que mora em Viena.


"Nós três tínhamos viajado para um encontro com dom Paulo, mas fomos presos antes. Depois sim, nos encontramos com ele, porque ele atuou para me liberar", afirmou.


O Prêmio Nobel recordou que sua prisão ocorreu no mesmo ano em que dom Paulo condenou a prisão e morte do jornalista Wladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI, em São Paulo. "Dom Paulo convocou os religiosos contra a morte de Herzog que depois se soube foi mesmo assassinado", disse.


Esquivel foi preso em outras ocasiões no Equador e na Argentina, onde foi torturado, como recordou. "Eu sou um sobrevivente dessas tragédias que vivemos na América Latina", disse. Anos mais tarde, em 1981, ele foi preso após criticar a anistia no Brasil. "Eu falei na OAB do Rio de Janeiro e foram atrás de mim no aeroporto. Mas eu tinha mudado de voo para viajar com Leonardo Boff para São Paulo. Ainda assim me pegaram", disse.


Em São Paulo, quando chegava para dar uma palestra no colégio Sion, contou, onde realizaria um discurso com outros religiosos, incluindo dom Paulo Evaristo Arns, ele foi preso novamente.


"Me levaram para uma delegacia e dom Paulo reuniu várias pessoas em um protesto no local e graças a isso e a ele, novamente, me liberaram", disse.


Visita na prisão


Segundo Perez Esquivel, o então senador (Jarbas) Passarinho teria lhe visitado na prisão. "O senador Passarinho justificou porque a anistia era importante, dizendo que sem ela não seria possível construir uma democracia. E que as Forças Armadas tinham colocado ordem no caos. Discurso que achei típico de ditadores", afirmou.


E continuou: "Por esse motivo, dom Paulo costumava dizer que a democracia no Brasil só deixava passar um passarinho." Na OAB, recordou, ele afirmou que "as Forças Armadas não podiam ser anistiadas pelos crimes da ditadura".


Na ocasião, ele já era Prêmio Nobel da Paz, que recebeu em 1980 pela defesa dos direitos humanos na América Latina. "A minha segunda prisão no Brasil foi quase uma questão diplomática", disse.


Ele considera "importante" a realização de comissões da verdade no Brasil e da integração entre os países da região na busca de informações sobre o que aconteceu no período ditatorial.


Em janeiro, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram um acordo, no âmbito da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), para compartilhar documentos sobre as ditaduras nos três países.


Esquivel ressalvou, porém, que acha que as operações conjuntas contra opositores não se limitaram aos países do Cone Sul, onde a chamada ‘operação Condor’ significou ações conjuntas dos governos na busca dos que se opunham ao regime militar e foram entregues aos outros países ou mesmo torturados nos países vizinhos.


"Eu não chamo de ‘operação Condor’, eu digo que era a internacional do terror." Segundo ele, essa operação era "um monstro com muitos tentáculos".


Ele citou alguns casos de autoridades latino-americanas mortas em outros países, como o ex-ministro da Defesa do governo do presidente socialista Salvador Allende, do Chile, Orlando Letelier, morto com uma bomba colocada em seu carro em Washington por agentes da polícia do regime de Augusto Pinochet.


Ele afirmou ainda que a prisão, em 1976, com outros dezessete bispos latino-americanos e quatro americanos, no Equador, também "fazia parte da operação Condor". "De jeito nenhum a operação se limitou ao Cone Sul", reiterou.


Verdade


Na sua opinião, a Argentina está à frente do Brasil na investigação sobre os crimes da ditadura porque no governo do ex-presidente Raul Alfonsín, na redemocratização, a partir de 1983, os militares foram levados a julgamento.


Anos mais tarde, os governos de Alfonsín e de seu sucessor Carlos Menem, lançaram as leis de Obediência Devida e Ponto Final, definidas como anistia. As leis foram derrubadas no governo do ex-presidente Nestor Kirchner, que governou entre 2003 e 2007 e morreu em 2010.


"Talvez, a Argentina, do ponto de vista jurídico, tenha sido o país que mais avançou (nesta questão)." Perez Esquivel defendeu que os crimes da ditadura sejam investigados para que "todas as gerações saibam o que aconteceu".


"Algo importante que o brasileiro deve ter é a busca da memória. Não é apenas buscar o passado. A memória deve iluminar o presente e ser base para as gerações futuras", disse. Ele afirmou que a anistia "significa impunidade" e "impede a construção da democracia". "No Brasil lamentavelmente até agora impera a impunidade, com essa lei de anistia", disse.


Ele complementa que "para o direito internacional os crimes de lesa-humanidade jamais prescrevem". "Esperamos que eles não aconteçam nunca mais. Mas também por isso é importante saber o que aconteceu no Brasil e em toda a região, em todo o mundo", disse.


Fonte: UNISINOS