"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sábado, 4 de julho de 2015

BRASIL. A tormenta sistêmica já está aqui

(repartindo a riqueza de apenas 85 famílias, se duplicaria para 3 bilhões de pobres!)
Por Raúl Zebiche/ Resumen Latinoamericano/  30 de Junho 2015.-

Grande São Paulo tem 22 milhões de habitantes, distribuídos em 39 municípios. É a maior cidade da América Latina e uma das mais populosas do mundo. No verão passado os reservatórios de água que a abastecem caíram a mínimos históricos de 5 por cento de sua capacidade. Houve cortes de água em algumas regiões e restrições em outras. A região vive o que os especialistas denominam de um ciclo de escassez de água que pode durar 20 ou 30 anos, algo bem diferente a uma seca pontual, como era habitual em outros períodos históricos em que não existia o que conhecemos como mudança climática. [Opera Mundi, 6 de maio de 2015]

O que estes dados indicam é que, com quase total certeza, em algum momento dos próximos anos haverá um drástico corte de água numa das megacidades do mundo, apesar inclusive das obras que o governo estadual está realizando às pressas, antes que comece um novo verão. 

Ante uma situação tão grave como esta, o Comando Militar do Sudeste vem se mobilizando, realiza debates e operações militares. Não para prover de água a população, mas sim para prevenir contra o caos social ante um possível corte de água, já que consideram a seca como um caso de segurança pública.

Em 27 de maio um comando de entre 70 e 100 militares armados com metralhadoras ocupou as dependências da companhia Sabesp [Saneamento Básico de São Paulo], prevendo uma eventual necessidade de ocupação em caso de crise, segundo o comunicado do exército [El País, 27 de maio de 2015]. Toda a área do complexo da empresa é considerada estratégica e a ação forma parte das atividades militares preventivas para a preservação da ordem pública e proteção das pessoas e do patrimônio, acrescenta o comunicado. 

Um mês antes, a 28 de abril, o Comando Militar organizou um debate destinado a um público de oficiais, soldados e professores universitários simpatizantes dos militares, em cuja mesa estava o diretor da Sabesp, uma delegada da Federação das Indústrias de São Paulo, um professor de engenharia e o chefe militar do sudeste. O objetivo era traçar um panorama técnico, político e social sobre a crise hídrica. A crônica assinala que a possibilidade de um corte de água “provoca estremecimentos na cervical do establishment do estado”, que os militares consideram que a população ideal da cidade deveria ser de somente 4 milhões e que o conglomerado urbano pode ficar sem água a partir de julho deste ano. 

O diretor da Sabesp, Paulo Massato, foi muito claro ao considerar as consequências sociais: Será o terror. Não haverá alimentação nem energia elétrica. Será um cenário de fim do mundo. São milhões de pessoas e explodirá o caos social. Não será só um problema de desabastecimento de água. Será muito mais sério que isso. [Opera Mundi, 6 de maio de 2015] 

Porém, quem deu o alerta trágico foi o general João Camilo Pires de Campos, o comandante militar do Sudeste, quem citou ao ex-presidente da ditadura militar Ernesto Geisel [1974-1979]: Em épocas de vacas magras, é necessário amarrar o bezerro. Para eles, o bezerro somos os setores populares, como vemos. 

As revistas militares abordaram também o tema. Uma das mais importantes destaca que em novembro passado a tensão era tão grande que a polícia militar está levando os caminhões pipa com escolta para alguns pontos da cidade, sobretudo na periferia, porque setores populares apoiados por milícias estão atacando os caminhões de abastecimento para saquear a água. [Defesanet, 30 de novembro de 2014] 

Citando cientistas sociais, Defesanet assegura que grandes mudanças foram precedidas por alterações climáticas, como a história nos mostra na Revolução Francesa, ao tempo em que assegura que São Paulo mostra que as convulsões sociais são uma constante nas grandes cidades. 

Porém, um dos fatos mais sintomáticos que a publicação revela é que, desde outubro do ano passado, quando a seca fazia temer cortes de água, o governo estava enviando militares para cursos com a SWAT [Special Weapons And Tactics], polícia militar especializada em manifestações nos Estados Unidos. E acrescenta que existe a possibilidade “de grandes fluxos migratórios para regiões onde ainda existe água [...], o que levaria ao esgotamento dos recursos naturais, com gravíssimos conflitos sobre a água e a terra, incluindo a propriedade privada”. [Defesanet, 27 de maio de 2015]Finalmente, a revista alerta que a crise hídrica pode provocar insurreições, levantamentos sociais graves e até revoluções armadas que poderiam se estender a todo o estado de São Paulo e a estados vizinhos como Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde vivem 100 milhões de pessoas. 

Até aqui o relato jornalístico sobre o pensamento dos militares e da burocracia estatal. Só cabe acrescentar que, em plena crise, a Sabesp difundiu uma lista de 537 clientes privilegiados que pagam menos quanto mais água consomem [indústrias, shoppings, redes como McDonald’s], que, em seu conjunto, consomem 3 por cento da água da cidade e têm descontos de 75 por cento. Eles consomem o equivalente a água utilizada por 115 mil famílias e foram os maiores responsáveis pelo aumento de 5,4 por cento do consumo anual de água. [El País, 10 de março de 2015] 

O acima exposto mostra duas questões. Uma, que eles estão preparados para uma situação muito grave, que têm previstas ações militares e políticas para sair adiante em meio a um caos tremendo que seria a falta de água. Dois, que o acesso a água é insultantemente desigual: desde 2005 a água disponível para grandes clientes aumentou 92 vezes em São Paulo. 

Que vamos fazer? É a pergunta que nos formulou o subcomandante insurgente Moisés durante a sementeira O pensamento crítico frente à hidra capitalista. É necessário que os movimentos levem a sério este tipo de debates, em vez de se apegarem às agendas eleitorais, já que é agora quando podemos fazer algo para mudar o mundo.
Fonte: La Jornada 
Tradução de Joaquim Lisboa Neto

Será possível a paz nas eleições de prefeitos e governadores?


Por Horacio Duque Giraldo
A insensatez do senhor Santos de impor a negociação da paz em meio à guerra não pode ser uma decisão absoluta que altere a condição pacífica de milhões de colombianos que querem umas eleições locais e regionais sem atos de guerra e violência. Um cessar bilateral do fogo e das hostilidades por um período que inclua até os dias ou semanas posteriores ao 25 de outubro deve ser uma demanda e um clamor generalizado da sociedade civil e do campo democrático nacional. Cessar bilateral que deve permitir a expressão da luta pela emancipação e pelas mudanças substanciais do Estado e da sociedade controlada pelo depredador modelo neoliberal que o Chefe da Casa de Nariño defende rigorosamente.
Dentro de três meses e vinte e cinco dias se realizarão as eleições de 1113 prefeitos, 32 governadores, centenas de deputados, com milhares de vereadores e edis das juntas administradoras locais.
Já está em curso uma massiva campanha com candidatos e propostas programáticas da mais diversa inspiração política, ideológica e cultural. 
Todos estes funcionários são escolhidos no marco da democracia local que é resultado de importantes conquistas populares, operárias, campesinas e democráticas. Os prefeitos são eleitos pelo voto cidadão desde fins dos anos oitenta como resultado dos acordos políticos do governo conservador de Belisario Betancur e das Farc lideradas por Manuel Marulanda Vélez e Jacobo Arenas. Desde aquela época existe um vigoroso regime de participação cidadã, descentralização e autonomia. Os governadores são também nomeados pelos cidadãos nos termos do disposto pela Constituição de 1991. 
Um aspecto que deve ser ressaltado em tais eleições é que, geralmente, o movimento guerrilheiro tem ordenado a suspensão de operações militares para as datas em que se apresentam as votações.
O desejável, em termos políticos, é que isso ocorra nas eleições vindouras.
No entanto, dadas as características da conjuntura, em que se promovem umas conversações de paz em meio ao conflito, situação que ocorre pela obsessão do senhor Santos de impor uma paz neoliberal com extermínio de seu adversário, uma decisão de cessar-fogo com vistas as eleições regionais deve ser bilateral e acompanhada dos maiores gestos de reciprocidade. A estas alturas, resulta uma estupidez pedir, depois do ocorrido desde dezembro de 2014 até meados de abril de 2015, que quem dê o primeiro passo seja aquele que se encontra em desvantagem à enorme potência bélica do governo. 
Não é crível a conjectura daqueles que sugerem que a paz não será um assunto de transcendência no processo eleitoral em curso porque as pessoas estão mais atentas a suas necessidades cotidianas. Os lamentáveis e trágicos fatos de guerra em curso, com seu demolidor impacto político regional, o que nos indicam é que o tema da superação da prolongada guerra civil nacional mediante os diálogos de Havana gravitará na disputa eleitoral de outubro, como ocorreu na votação presidencial do ano imediatamente anterior, sendo um ponto decisivo, relembrando agora o que se passou entre o primeiro e o segundo turno, quando 2 milhões de votos da candidata Clara Lopez em apoio à paz permitiram a derrota do guerreirismo uribista; desde logo, também estarão ali os outros elementos mais urgentes para a maioria da população, isto é, o desemprego, a corrupção dos politiqueiros, sua demagogia, a mobilidade, a  pobreza, a falta de saúde, de educação e a deterioração da natureza.
Prevalecendo a sensatez, o adequado, então, é aclimatar, como sugerem os altos funcionários das Nações Unidas em Colômbia, um cessar bilateral do fogo e das hostilidades por um período que se estenda até os dias seguintes ao próximo 25 de outubro. 
Uma decisão nesse sentido deve aprofundar o sentido democrático da política local e regional. Obviamente, para que esse conteúdo cobre força, o primeiro é exigir do governo e de seus aparatos armados as maiores garantias para a oposição popular.
Garantias que são determinantes na ampliação da mobilização contra hegemônica da resistência campesina/popular revolucionária. A pretensão do bloco dominante de cercear a essência democrática e transformadora do campo popular é uma absoluta estupidez. Uma completa arbitrariedade.
Como e por que razão os movimentos sociais, as forças democráticas, os núcleos revolucionários e socialistas devem renunciar a suas estratégias de mudanças radicais do Estado e do modelo neoliberal? Um cessar bilateral do fogo e das hostilidades, por mais delimitações temporais ou espaciais que inclua, não deve, não pode, para ser mais preciso, ser utilizado para sufocar a luta pela emancipação do povo colombiano. 
Será possível, então, umas eleições municipais e estaduais em paz?, é a pergunta que importa hoje para ser considerada pelas partes na Mesa de Diálogos de paz de Havana.
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Equipe ANNCOL - Brasil

sexta-feira, 3 de julho de 2015

FARC-EP: Gestos unilaterais de desescalada do conflito.



Quinta-feira, 2 Julho 2015 01:47
Relação de Gestos de desescalada do conflito, levados adiante unilateralmente pelas FARC-EP desde o início das explorações prévias aos Diálogos de Paz e até agora.
A Delegação de Paz das FARC-EP procedem a sua radicação na Mesa de Diálogos:
1 – Fim de qualquer retenção de pessoas com fins de arrecadação de contribuições de caráter geral nas quais se taxava aos indivíduos de acordo com a sua riqueza ou capacidade econômica. Fevereiro de 2012.
2 – Primeiro “cessar-fogo”. Unilateral e de caráter temporário. De 20 de novembro de 2012 a 20 de janeiro de 2013.
3 – Libertação dos prisioneiros de guerra que se encontravam em poder das FARC-EP, inclusive os capturados recentemente em operações militares após o início dos Diálogos de Paz. Libertação do veterano de guerra estadunidense, ex-marine, Kevin Scott. 27 de outubro de 2013.
4 – Segundo “cessar-fogo”. Unilateral e de caráter temporário. De 15 de dezembro de 2013 a 15 de janeiro de 2014.
5 – Libertação e entrega ao CICV de três menores de idade recrutadas, adestradas e infiltradas em acampamentos das FARC-EP pelas Forças Militares da Colômbia com o objetivo de realizar sabotagens ou assassinatos de mandos da guerrilha. 4 de maio de 2014.
6 – Terceiro “cessar-fogo”. Unilateral e de caráter temporário. De 20 de maio de 2014 a 28 de maio de 2014.
7 – Quarto “cessar-fogo”. Unilateral e de caráter temporário. De 9 de junho de 2014 a 30 de junho de 2014.
8 – Reconhecimento de responsabilidades em geral por afetações à população civil em consequência do acionar da guerrilha. Documentos “Para uma Nova Colômbia sem vítimas”, 6 de Setembro de 2014, e “Reconhecimento de responsabilidades guerrilheiras”, 30 de outubro de 2014.
9 – Libertação dos prisioneiros de guerra que se encontravam em poder das FARC-EP, inclusive os capturados recentemente em operações militares após o início dos Diálogos de Paz: soldados Cesar Rivera e Jonathan Díaz. 25 de novembro de 2014.
10 – Libertação dos prisioneiros de guerra que se encontravam em poder das FARC-EP, inclusive os capturados em operações militares após o início dos Diálogos de Paz: o general do exército colombiano Rubén Darío Alzate, a advogada vinculada ao Exército Gloria Urrego e o cabo primeiro Jorge Rodríguez. 30 de novembro de 2014.
11 – Manifestação de contrição e oferecimento de reparação à comunidade de Bojayá por fatos não intencionais ocorridos em consequência de operações de combate à guerrilha contra paramilitares e forças militares. 18 de dezembro de 2014.
12 – Quinto “Cessar-Fogo”. Unilateral e por tempo indeterminado. Se mantém desde o dia 20 de dezembro de 2014.
13 – Libertação dos prisioneiros de guerra que se encontravam em poder das FARC-EP, inclusive os capturados recentemente em operações militares após o início dos Diálogos de Paz: soldado profissional Carlos Bezerra Ojeda. 26 de dezembro de 2014.
14 – Renúncia à vinculação às fileiras da guerrilha de menores de 17 anos. “Anúncio sobre menores em conflito”, de 12 de fevereiro de 2015.
15 – Libertação e entrega ao CICV de dois indígenas [J.B. e L.J.Y.], menores de idade recrutados, adestrados e infiltrados em acampamentos das FARC-EP no Vale do Cauca, pelas Forças Militares da Colômbia, com o objetivo de realizar sabotagens ou assassinatos de mandos da guerrilha. 20 de fevereiro de 2015.


Delegação de Paz das FARC-EP
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Equipe ANNCOL - Brasil 

LAUDATO SI OU O CUIDADO DA CASA COMUM



Por um mundo melhor para a humanidade
Em 18 de junho de 2015, o Papa Francisco apresentou ao mundo sua encíclica Laudato si [Louvado sejas], subtitulada “Sobre o cuidado da casa comum”, que não é outro lugar senão a Terra, nosso planeta.
Em apenas uma semana após ter sido publicado, este documento foi celebrado por milhões de pessoas em diferentes latitudes, como a expressão de uma nova visão, avançada e pragmática, frente a problemas cruciais que em matéria de economia, política, modelos de desenvolvimento, mudança climática, biodiversidade e das desigualdades que o planeta enfrenta dentro de um rumo de depredação, que se não recebe um golpe de leme, pelo efeito do “consumismo extremo” e da desfiguração dos valores humanos que o capitalismo entranha, nos conduzirá ao caos e à destruição.
Numa de suas tantas reflexões importantes, o Papa Francisco disse que convida “todos a se deterem a pensar nos desafios sobre o meio ambiente”, acrescentando que “necessitamos de um novo diálogo sobre o modo como estamos construindo o futuro do planeta”, ideias absolutamente acertadas, que convocam à construção coletiva do outro mundo possível no qual as necessidades básicas do conjunto da humanidade estejam solucionadas, num ambiente de paz, dignidade e justiça.
Observamos esta encíclica como um importante instrumento de reflexão para os povos e os governos do orbe, que pode contribuir na busca de formulações e práticas que abram caminhos para a concretização de um mundo em que se superem as desigualdades e se conquiste um estágio de equilíbrio entre o ser humano e o conjunto da natureza, de maneira tal que seja efetivamente a casa comum da humanidade na qual possamos conviver, cuidando-a, sem abusar de seus dons e possibilidades, pensando no bem-estar de toda a sociedade.
Dentro desta perspectiva, a Encíclica Laudato Si pode ser um instrumento para pensar os tempos de hoje em função do futuro, atuando em defesa do gênero humano e da natureza como um só conjunto indissolúvel, interdependente, que requer profundas e urgentes mudanças no modo de vida, até alcançar uma era pós-capitalista, que garanta a sustentabilidade do planeta. Isto obriga, para o caso da Colômbia, no caminho de forjar a paz, a pôr freio também à exploração depredadora e à pilhagem dos bens comuns de sobrevivência coletiva, reunindo vontades, organizações políticas e sociais, ao movimento popular em geral, numa alternativa de mudança sem mais delongas, porque não é possível dar um salto para novos cenários de convivência, sem conflito, fazendo abstração das causas que o geraram. Há que apontar a resolver os problemas que originaram a confrontação, observando na defesa dos direitos fundamentais, materiais e espirituais, e em convocar como nunca a proteção da Mãe Terra.
Neste plano de ideias, a discussão e a reformulação de políticas neoliberais sobre assuntos tais como a exploração mineiro-energética desenfreada, e a própria exploração agroindustrial desmedida que inclui a estrangeirização da terra, que hoje por hoje se aventuram em nosso país, por exemplo, estão na ordem do dia esperando acordos que beneficiem a nação e sobretudo aos pobres.
Saudamos a coragem do diagnóstico que o Papa Francisco faz, com uma visão inclusiva e esperançosa, com uma perspectiva histórica e de futuro possível, para enfrentar com determinação e inteligência os abusos dos poderes econômicos e políticos que prostram a Terra degradando-a, submetendo milhões de seres à fome, à penúria, à miséria e à inconformidade que, não poucas vezes, pende para a rebelião como direito dos povos a se levantarem contra os regimes injustos.
Desde a insurgência fariana, em meio a uma inconformidade agudizada pelo aprofundamento da miséria e das desigualdades, cremos que existem em Laudato si formulações que podem contribuir para encontrar saídas para muitas das contradições que fazem com que a guerra persista. Porém, para que as propostas de ordem econômica, social, política, cultural e ambiental sejam debatidas sem a explosão de mais ações de força de lado a lado, que podem frustrar o processo de paz que promovemos, urge pactuar medidas racionais e razoáveis, como a do cessar-fogo bilateral, que vão criando condições para chegar ao Acordo Final, não para que tudo continue igual em benefício de um punhado de ricos e de multinacionais, mas sim para construir o bem viver, o bem-estar coletivo.

Tradução de Joaquim Lisboa Neto

Defender o Processo de Diálogo e o cessar-fogo bilateral já!


A grande mobilização pela paz do 9 de abril passado, Dia das Vítimas, levantou como bandeira principal a palavra de ordem de cessar-fogo bilateral, já! Transcorria, então, o cessar-fogo unilateral por tempo indeterminado decretado pelas Farc-EP e a suspensão de bombardeios por um mês por parte do governo, se observavam em todo o território nacional os efeitos positivos de distensão e cresciam as esperanças de uma desescalada real da guerra em correspondência com os avanços relativos porém constantes nos diálogos de Havana.
Hoje, a situação deu uma guinada perigosa. A direita, os meios massivos manipuladores da “opinião pública” e os guerreiristas alegam o suposto “cansaço da sociedade” com o processo de paz e pedem sua terminação abrupta. O governo optou pela via de “intensificar a guerra para alcançar a paz”, o que significa uma guinada para a solução militar, com o que novamente a população civil sofre os efeitos dos teatros de guerra, desembarques massivos de tropa, bombardeios em grande escala, como é o caso de Guapi e Argelia no Cauca, entre muitos outros. É o quadro que Pinzón entrega de herança ao novo ministro de Defesa Luis Carlos Villegas. Santos, Pinzón, Uribe, o Procurador e o Comando Sul coincidem em que há que forçar situações e alcançar “a paz por bem ou por mal”.
Santos se esquece de que há um ano conseguiu sua reeleição com um mandato muito preciso de paz pela dia do diálogo graças ao voto da esquerda. O governo não pode descartar e trair esse mandato. Exigem-no os votantes, os Países Garantidores, os porta-vozes da ONU, o Foro pela Paz de Montevidéu, a opinião internacional e todos os convencidos de que um melhor país em paz é possível. Aqueles que pensam em pôr fim à Mesa de Diálogos aspiram realmente a um golpe de Estado contra o compromisso constitucional da paz ratificado nas urnas. O estabelecimento deve entender que não vai subjugar em alguns meses o que não conseguiu fazer em sessenta anos. A paz e o diálogo tem seus tempos. A solução é política e não militar.
É justo o desejo de que os acordos cheguem o mais breve possível. Porém, o procedimento cruento do diálogo em meio à guerra problematiza a exigência de limites de tempo para a finalização do conflito, quando as forças do poder atual titubeiam entre a camisa de força das chamadas “linhas vermelhas” e as condições indispensáveis para dar saída aos principais temas da agenda da Mesa.
As hostilidades podem cessar. A vitimização cidadã pode terminar. O passo decisivo é o cessar-fogo bilateral sem que tenham que haver concluído ainda o diálogo e os acordos. Não há que pôr datas nem prazos traiçoeiros.
Os comunistas chamamos a defender o processo e a Mesa de Diálogo, a respeitar os avanços alcançados, a prosseguir na busca de acordos, a proteger e acompanhar as comunidades em resistência que se levantam fartas da militarização. Os Países Garantidores, os Governos Acompanhantes e os amigos do continente e do mundo respaldam a via do diálogo, a via política. A participação consciente da cidadania tem que expressar-se em múltiplas iniciativas e formas, em pronunciamentos, declarações, atos públicos, plantões, comícios, marchas nas ruas, ações culturais, concertos, performances, coleta de assinaturas. Milhões de Vedores da paz, como propôs a Frente Ampla. Participação ativa no Encontro pela Paz de 21 e 22 de julho. Presença e compromisso unitário na Grande Mobilização de Unidade pela Paz com justiça social do 23 de julho pelo Cessar-Fogo Bilateral Já!, a desescalada da guerra e o avanço para o fim das hostilidades.

PARTIDO COMUNISTA COLOMBIANO
Bogotá, 25 de junho de 2015 
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quinta-feira, 2 de julho de 2015

“Uribe me ofereceu 18 milhões de pesos”



Por Digna Irene Urrea. Confidencial Colombia. 30 de Junho de 2015
Nesta semana se reabriu um dos capítulos mais dolorosos na história do país: os chamados ‘Falsos Positivos’. Este gera todo tipo de reações e toca nas fibras do governo do ex-presidente Uribe, quem, devido ao informe da HRW, não reagiu muito bem. Confidencial Colombia falou com duas mães cujos filhos foram vítimas das referidas execuções extrajudiciais entre 2002 e 2008.
Num trinado, o hoje senador Álvaro Uribe Vélez adverte que ainda que não se absolva pelos assassinatos, assinala, sim, que a justiça nunca investigou sua hipótese de que esses civis estavam implicados em assuntos ilegais, fato que foi confirmado por suas próprias mães numa reunião que sustentaram com ele anos atrás.
Confidencial Colombia falou com duas mães cujos filhos foram vítimas das execuções extrajudiciais entre os anos de 2002 e 2008, sob o mandato de Uribe. Luz María Bernal e María Ubilerma Sanabria assinalam que efetivamente houve uma reunião a 12 de fevereiro de 2010 na qual oito famílias de ‘Falsos Positivos’ sustentaram um encontro com o ex-presidente.
Ainda que nenhuma das duas esteve no encontro para o qual foram convidadas, Bernal assegura que a ela o ex-mandatário ofereceu 18 milhões de pesos: “Nessa reunião a que não assisti, soube que às famílias que compareceram foram oferecidos 18 milhões de pesos, sei disso porque a mim também me ofereceram esse dinheiro, como quem diz tome e cale-se, não falem tanto”, sentencia a mulher.
Por sua parte, Sanabria conta que foram outras mães as que estiveram na reunião, porém assegura que eram vítimas como ela. Relembra que nas vésperas desse encontro lhes diziam que levassem muitas pessoas para que a reunião parecesse multitudinária; no entanto, coincide com Bernal ao afirmar que, finalmente, à convocatória de Uribe assistiram apenas oito famílias.
Também comenta que nesse ano [2010] Uribe estava fazendo campanha eleitoral, pois era o último ano de seu governo e buscava sua segunda reeleição –que caiu-, pelo que começou a respaldar a carreira presidencial de seu ministro de Defesa, Juan Manuel Santos.
Os trinados do hoje senador Uribe do Centro Democrático, no quais defende a Força Pública e sobretudo aos generais que supostamente estiveram envolvidos no assassinato de civis, como assinala o informe Human Rights Watch, foram fortemente criticados pelas mães.
Rechaçamos o maltrato a nossos generais, que agora toca no Gal. Montoya, herói da Pátria”, reza o trinado do ex-presidente.
Ao mostrarmos o trinado a María Sanabria, a mãe assinala que “ele tem que justificar de alguma forma os ‘Falsos Positivos’ para falar bem de seus coronéis e para tapar todas as cagadas que fez, por isso não sabe como incriminar aos rapazes assassinados para que o glorioso Exército fique em alto”.
Cabe assinalar que o informe da ONG diz que “pelo menos 44 supostas execuções extrajudiciais perpetradas por soldados da Quarta Brigada se deram durante o período no qual o General reformado Mario Montoya esteve no mando. Montoya foi comandante do Exército Nacional de 2006 a 2008”.
Sanabria continua, “me parece terrível e o cúmulo que não tenha havido justiça [...] Quando Álvaro Uribe ia sair da presidência, ele disse claramente que não iria permitir que algum de seus rapazes fosse para o cárcere por esses casos isolados e levamos 5700 execuções extrajudiciais a Uribe... Não lhe convém que os altos mandos sejam julgados porque eles vão dizer de onde saíram as ordens”.
Finalmente, adverte a mãe de Soacha que, frente às declarações do novo ministro de Defesa, Luis Carlos Villegas, nas quais diz que a justiça leva mais de cinco anos sem poder mostrar resultados, “não é que não tenha havido demonstrações de que sejam culpados, o que passa é que não há vontade de que se faça justiça, porém eles, sim, sabem. Se os altos mandos falam, pois, os primeiros que vão cair são Álvaro Uribe e Juan Manuel Santos”.


Jaime Estiven Valencia Sanabria, filho de María Ubilerma Sanabria
Tinha 16 anos, estava cursando a sétima série quando, com mentiras, o levaram para Ocaña, Norte de Santander. Ali, a décima quinta brigada do Exército “fingia falsas retenções”; numa delas, baixaram o jovem, lhe indocumentaram, torturaram-no, assassinaram-no e depois o fizeram passar por um narcoguerrilheiro. Foi desaparecido a 6 de fevereiro de 2008 e dois dias depois foi assassinado por mãos militares.
Sua mamãe María Ubilerma levou oito meses buscando-o, sem nenhum resultado positivo, até que, em 25 de setembro, por meio dos noticiários assinalaram que os jovens desaparecidos de Soacha estavam em fossas comuns em Ocaña e que a Força Pública os havia declarado como pessoas sem identificação.
Até o momento, o caso não teve nem a primeira audiência, ainda que seus advogados tenham tentado fazer todo o possível para que comece o julgamento e se faça justiça.
Durante sete anos Sanabria recebeu um sem-número de ameaças, entre estas a que mais recorda é a que chegou a seu telefone numa mensagem de texto: “mamãe, te quero muito: att cadáver”.
Um menino de 8 anos em corpo de adulto
O único caso de ‘Falsos Positivos’ que teve uma condenação foi o de Luz Marina Bernal. Seu caso é um precedente para que outros, como o de María Ubilerma Sanabria, tenham um julgamento e uma condenação.
Seu filho, Faír Leonardo Porras Bernal, de 26 anos, sofria de deficiência mental. Não sabia escrever, nem ler, nem identificar o valor do dinheiro; no entanto, a décima quinta brigada do Exército o declarou como chefe de uma organização narcoterrorista.
Vivia em Soacha e a 8 de janeiro de 2009 foi desaparecido do município e levado a Ocaña, Norte de Santander. Recebeu 13 impactos de bala; em 16 de setembro, de Medicina Legal chamaram a Luz Marina para dar-lhe a notícia de que seu filho havia sido encontrado numa fossa comum.
Desde há sete anos Bernal tem sido uma das cabeças mais visíveis das mães de Soacha, sua luta tem se concentrado em demonstrar e chegar aos altos mandos, isto é, àqueles que deram a ordem das execuções extrajudiciais.

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Equipe ANNCOL - Brasil