"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

"De que vale a vida se quando a temos ela parece morta. A vida é para ser senirmos, para vibrar, para lutar, para combater. Isso justifica nossa passagem pela Terra." (Jaime Pardo Leal)


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Desmobilizemos os ódios


Escrito pelo Comandante Fabián Ramírez, Integrante da Delegação de Paz das FARC-EP

Setembro 2014. La Habana, Cuba


Em Colômbia existe um conflito social e armado, e deixou profundas feridas humanas, econômicas, políticas, culturais e sociais, por mais de cinco décadas. É inocultável este conflito, como também o são o sem-número de vítimas tanto na população civil como nas fileiras dos contendores. O dessangramento é evidente depois de mais de meio século de guerra em que como insurgência somos constantes na iniciativa do diálogo buscando resolver as causas objetivas da confrontação de maneira civilizada. As FARC-EP, por todos os meios possíveis, e procurando a participação de todos, militares, guerrilheiros e sobretudo o povo, temos buscado, e não nos cansaremos, de buscar uma saída acertada, sincera e real para acabar com esta guerra fratricida.


A chegada a Havana, Cuba, de uma equipe de militares ativos com sua única missão técnica de ver e buscar o desarmamento e a desmobilização da insurgência, e, como disse o ministro fanfarrão Pinzón, para que as FARC não aprontem uma armadilha ao país, é uma desfiguração do pactuado. Não se pode seguir dando pé para tergiversações ou más interpretações que logo se repetem para a população colombiana para desinformar e fazer a guerra suja e da propaganda contra insurgente.


As FARC-EP não são uma força guerrilheira derrotada, senão que uma força beligerante com perspectivas claras de poder que agora se empenharam com mais ênfase que nunca seu compromisso de buscar alternativas políticas à confrontação, fazendo exposições programáticas claras frente a assuntos de ordem econômica, política, cultural e social fundamentadas para que o país conquiste as transformações mínimas que abram as portas à democracia e à justiça sem necessidade de recorrer ao uso das armas, para que sejam reconhecidos os direitos das maiorias, e assim, então, entre todos mudemos o rumo equivocado no qual por mais de 50 anos a oligarquia teve a Colômbia.


Este é o sentido de cada iniciativa que se constrói em Havana, e dentro desta linha foi que se pactuou o estabelecimento da Comissão técnica para analisar o assunto da deixação de armas como via para atuar na vida política sem recorrer à violência. Porém, isto é tema que compromete as duas partes que estão sentadas na Mesa; quer dizer que isso implica também falar da desmilitarização do Estado e da sociedade.


Se com as FARC-EP o governo de Juan Manuel Santos, já faz dois anos, acordou uma agenda a seguir para que entre ambos e com a participação do povo buscássemos a saída incruenta a este conflito, pois, isto é o que há que fazer e não seguir sonhando com um esquema de submissão por parte da insurgência.


Este conflito colombiano não pode ser visto assim tão simplesmente. Se se demonstrou na história do país que as causas que o originaram continuam vigentes, e todos os dias se aprofundam mais, a solução não está em que uma guerrilha se desmobilize ou que os fuzis se silenciem; a chave está em que se desmobilize a fome, a desnutrição, a falta de educação, a falta de teto, a falta de trabalho, em que se desmobilize as detenções arbitrárias, as torturas, os desaparecimentos. Só assim, desmobilizando todos estes problemas que golpeiam aos colombianos, podemos dizer que os fuzis, por si sós, se silenciarão.


Já se conheceu que a equipe de militares profissionais, comandados pelo general Javier Flórez, que recentemente viajou a Cuba, chegaram para que se oficializasse sua presença na Mesa de Diálogos, e os guerrilheiros conscientes da importância e necessidade de uma breve solução a este conflito, lhes estendemos as mãos de homens e mulheres, que humildemente e sem nenhum interesse pessoal queremos o melhor para nosso país. Por isso lhes demos as boas-vindas para que, de uma vez por todas, desmobilizemos o mais rápido possível todos os problemas sociais que geraram e mantêm esta guerra.


Não se trata de preparar a um general, dois coronéis de exército, um capitão de fragata, um tenente-coronel da polícia, um major da força aérea, um tenente de navio e três advogados, todos com altos estudos e desempenho constante nas atividades da inteligência militar, para que busquem saídas exclusivamente para dois temas concretamente: a desmobilização da insurgência e a entrega de suas armas. Não. O que cremos é que estes altos militares estão em capacidade de entender e compreender que o principal para terminar com um conflito é a solução aos problemas que o originaram.


Não é uma desonra que estes altos oficiais cheguem a Havana e, num primeiro gesto de reconciliação, se deem as mãos com os guerrilheiros que estamos aqui em Cuba. Sabemos e vivemos em carne própria que estes oficiais buscaram por todos os meios possíveis assassinar-nos; porém, sem antes conhecer por que estamos lutando neste país. Cremos que, pelo contrário, deveríamos, os guerrilheiros, sentir-nos desprazerosamente saudando-nos cara a cara com o verdugo, porém não se trata de ver o problema de nossa pátria com sentido de vingança, senão que de vê-lo com desejos de verdadeira reconciliação; mais entre combatentes que vivemos pessoalmente os rigores da guerra.


Certamente saberemos compartilhar experiência e entender que o problema de sofrimento e dor a que nos tem submetido esta classe burguesa e corrupta que governa a Colômbia, é o mesmo sofrimento e submissão em que também estão imersos os militares que hoje nos combatem.


Sim, já é o momento para que generais, coronéis, brigadeiros, tenentes-coronéis, capitães, majores, tenentes, sargentos, cabos e soldados, junto com o povo e as FARC-EP componhamos o Comando Estratégico da “Transição” da fome, da miséria, do abandono..., para a igualdade, a humanidade, a reconciliação e a convivência; o que deve impor-se para sempre nesta Colômbia sofrida, submetida e explorada até alcançar um estágio de normalização.


A ideia equivocada da entrega de armas e a desmobilização não soluciona o conflito nem repara os danos causados por ele. Nenhuma das forças contendoras chegou à Mesa para capitular, a entregar as armas e a desmobilizar-se. O acordo de deixação da armas, como os demais acordos, se baseia na bilateralidade, acompanhado de passos prévios como a deixação dos costumes políticos que estimulam a guerra antipopular, passos como a desmilitarização da sociedade e do Estado, o desmonte do paramilitarismo, a democratização das Forças Armadas, o trânsito da Polícia Nacional para a missão que lhe corresponde, assim como outras medidas efetivas que promovam uma cultura política para a democracia, a reconciliação e a paz. Isto é, criar as condições materiais e espirituais para passar de um estado de guerra a uma situação de paz.
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domingo, 21 de setembro de 2014

A presença de Vargas na eleição de 2014!


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Por Beto Almeida


O debate entre os candidatos presidenciais revela a atualidade e a presença da Era Vargas na eleição presidencial brasileira. Tal presença decorre do alcance estratégico das medidas fundamentais tomadas pelo presidente gaúcho, em torno das quais giram os planos dos candidatos que disputam o Palácio do Planalto.
Mais recentemente, o debate girou em torno da CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas, que já conta 70 anos de vigência, mas é, até hoje, alvo preferencial da agenda parlamentar industrial, elaborada pela Confederação Nacional das Indústrias, que não esconde o objetivo de demolir os direitos laborais, intenção agora escondida sob a capa da flexibilização trabalhista. O senador Paulo Paim, gaúcho e filho pai varguista, é quem alerta: “todo dia tem um plano, uma proposta, aqui no Congresso para atacar a CLT”
A mais recente investida veio de Marina Silva, falando na “atualização” da legislação trabalhista, mas, segundo ela, preservando a segurança dos empregadores e trabalhadores, como se fosse possível uma conciliação de interesses tão antagônicos. A impossibilidade desta conciliação é algo que ela provavelmente teria aprendido em sua época de militância de esquerda, mas que a proximidade colaborativa com representantes do ambientalismo internacional financista e representantes do pensamento do poder econômico nacional. Carlos Lacerda também aprendeu e esqueceu muita coisa....

PT viabiliza CLT de Vargas

A simples leitura da Agenda Parlamentar da Indústria, e de sua argumentação, revela a meta clara de fulminar os direitos inscritos na CLT, apresentados como se fossem os obstáculos a uma visão empresarial da modernidade que exige o sacrifício dos trabalhadores e de suas famílias, tal como está ocorrendo hoje mesmo na Europa, a partir da destruição do Estado do Bem-Estar Social. Portanto, entre os que apóiam os candidatos Marina Silva e Aécio Neves, encontram-se os que pretendem a tal flexibilização. Justiça seja feita, Dilma tem dito com firmeza - mesmo sem a desenvoltura que poderia ter na defesa de teses tão nobres à nação e tão favoráveis ao seu governo - que o Brasil está aumentando o salário mínimo (outra criação de Vargas), sem demitir e sem destruir a CLT. Ao contrário, o petismo está impulsionando, desde a eleição de Lula, a formalização do trabalho, o que implica em dizer que a CLT de Vargas está sendo viabilizada pelo PT, numa clara aliança histórica entre Vargas-Jango e Lula-Dilma. Mais que isso, não apenas não tem sido permitido demolir direitos laborais como eles estão sendo ampliados, seja pela formalização (Carteira Assinada sai da clandestinidade a que foi relegada por FHC), seja pela criação de novos direitos, tais como o das trabalhadoras domésticas e o aumento da licença maternidade em alguns ramos de atividade profissional.
Trotsky e Vargas
Entre os que se opuseram a Vargas em seu esforço de criar uma ampla aliança nacional para lançar as base de um protagonismo de estado que nacionalizava o fundamental da economia e incluía os trabalhadores com direitos indispensáveis a qualquer ser humano como o voto da mulher (muito antes que a França o conquistasse), férias e descanso semanal e previdência social, estava o Partido Socialista Brasileiro. O elitismo "socialista" de então se somava à obtusidade stalinista do PCB. Primeiro stalinistas afastaram Prestes da Revolução de 30, e ele rejeitou convite feito por Vargas para ser o chefe militar da insurreição. Esta visão stalinista levou vários partidos comunistas da América Latina a se conflitarem com movimentos populares anti-imperialistas e revolucionários como o próprio 26 de Julho de Fidel, mas também a Peron, a Vargas, a Cárdenas, a Alvarado, a Torrijos, ao Sandinismo. Grande parte da esquerda também se opôs a Hugo Chávez. Enquanto isto, naquela época, Trotsky recomendava aos revolucionários da América Latina o apoio a Vargas no Brasil e a Cárdenas no México, argumentando que cumpriam parte do programa que interessava à classe operária, apesar de suas contradições internas. Não é de hoje, portanto, esta oposição supostamente progressista, de socialistas e comunistas, a qualquer governo que priorize os mais humildes, a imensa massa de seres que nunca tiveram nada na vida, apenas uma cova daquelas de Morte Vida Severina.
O outro tema que trás Vargas para a atualidade do debate eleitoral é a Petrobrás, quando, com a maior desfaçatez, os que pretenderam sempre privatizá-la, agora fingem ser seus defensores, encenação que se desmancha no ar quando se informa, concretamente, que os apoios que estes candidatos recebem do capital externa, exigem, sem qualquer disfarce, a retirada do estado da economia do petróleo. Novamente, Marina e Aécio se sintonizam com a UDN anti-Vargas e aos que se opuseram à vitoriosa Campanha do Petróleo é Nosso, enquanto vai ficando ainda mais claro um grau de sintonia histórica entre Vargas-Jango e Lula-Dilma, que necessita ser lastreado pela unidade das forças progressistas, inclusive de um setor do empresariado produtivo (estilo José Alencar), para ser traduzido em força política, e eleitoral.

Vazamentos de informação na Polícia Federal

Há necessidade de investigar a fundo toda e qualquer irregularidade que possa ter sido praticada na Petrobrás, para o que encontram-se em plena liberdade de atuação a Polícia Federal, o Ministério Público e a CGU, criada no Governo Lula. Mas, é preciso desmascarar os eternos privatizadores da Petrobrás que, após derrotados na votação da Lei da Partilha , que aumenta o papel do estado na economia do petróleo, querem agora fazer um show de moralismo de oportunidade para rotular o atual governo de corrupto. Tal qual a campanha do Mar de Lama no Catete, feita contra Vargas, para demolir as conquistas daquele governo trabalhista, que continuava a tarefa interrompida da Abolição. Mas há, também, a inadiável necessidade de rever convênios da Polícia Federal com o FBI, firmados no governo FHC, pelos quais, foi autorizada a construção de um prédio para funcionamento deste órgão dos EUA em pleno Setor Policial, em Brasília, prédio este que tem acesso vedado a qualquer brasileiro. Talvez seja uma boa pista para se rastrear tantos vazamentos de informações que deveriam ser sigilosas , beneficiando, muito especialmente, a Revista Veja, um veículo do intervencionismo internacional no Brasil.
Em debate recente na Associação Comercial do Paraná, o Senador Roberto Requião, outro varguista não declarado, argumentou de forma cristalina e incontestável em defesa do salário mínimo regional, que no seu governo, era o mais elevado do Brasil. Revelava como duas medidas adotadas quando governador - redução de impostos estaduais para empresários combinada com elevação do salário mínimo regional - elevou o PIB do Paraná, ampliando a taxa de emprego formal, apesar do que ele chama de “burrice encalacrada num setor industrial”, que quer apenas redução de impostos, mas não aumentar salário. É o que tem feito a política econômica de Dilma, desonerando impostos em certos ramos, valorizando o salário mínimo e salários em geral. Ainda assim, setores empresariais beneficiados por Lula-Dilma, agora, relutam em manter o apoio, tornando mais complexo o quadro eleitoral para a candidatura Dilma Rousseff.

O papel do BNDES e a irresponsabilidade social

Esta expansão do mercado consumidor, promovida por Lula e Dilma, é outro tema que também trás Getúlio Vargas para o debate eleitoral de hoje, especialmente a respeito do papel desempenhado pelos bancos públicos, particularmente o BNDES, criado na Era Vargas. Ao contrário das políticas de dilapidação patrimonial e da internacionalização que promoveu durante a Era FHC, financiadas pelo BNDES, hoje o maior banco de fomento do mundo atua em direção diametralmente oposta, não apenas alavancando a construção de obras de infra-estrutura indispensáveis no Brasil, como portos, aeroportos, ferrovias e a indústria naval (também criada na Era Vargas), como alavanca o processo de desenvolvimento produtivo na América Latina, com efeitos dinamizadores na economia brasileira, sobretudo na geração de empregos e ampliação da produção. É uma política oposta à que faz, por exemplo, os EUA com sua Aliança para o Pacífico, ou com suas sanções à Rússia, Irã, Cuba ou Venezuela. Com a criação do Banco dos Brics e do Banco do Sul, maiores possibilidades de integração econômica sem os EUA serão viabilizadas pelo Brasil, a exemplo do que já ocorre entre Rússia e China, Rússia e Irã, Rússia e Argentina, Irã e Venezuela etc. Eis uma raão prioritária para os EUA preferirem Marina Silva.
Diante da renúncia do PT em ter construído sua mídia própria, os jornais se transformaram , todos eles, em clarins da oposição e trombeteiam, diariamente, o mantra da “irresponsabilidade fiscal” contra Dilma. Na verdade, esse mantra é a defesa raivosa do oposicionismo impresso contra toda e qualquer política que permita o uso das receitas do estado em favor dos mais pobres. Para a burguesia, nada há de anormal em se torrar 45 por cento do orçamento em amortizações e juros da dívida pública, mas é “um absurdo total” aumentar salário mínimo e retirar pobres da indigência por meio de programas sociais como o Bolsa Família.Ficam se perguntando, com desprezo: “prá quê construir tantas Escolas Técnicas públicas e gratuitas para filhos de pobres? ” Enquanto o Brasil reduz o trabalho infantil e a desnutrição, estas crescem nos EUA, modelo que a burguesia quer implantar aqui.
 
Enquanto lá a principal economia é a bélica, espalhando cadáveres pelo mundo, no Brasil, enfrentando o raivoso oposicionismo impresso, a mortalidade infantil está sendo reduzida. É preciso colocar na conta do discurso da responsabilidade fiscal quantos cadáveres eles querem espalhar pelo país?

Disputa renhida, alerta total!

Ante um cenário de disputa renhida em um segundo turno, a recomposição de alianças com segmentos empresariais e também com os movimentos sociais vinculados à Central dos Movimentos Populares, entre os quais a Cut, deve ser priorizada.
Uma maior presença de Lula junto a Dilma na campanha, não apenas nos programas de TV e Rádio pode compensar parcialmente o truque midiático que apresenta Marina como se fora uma candidatura representativa , politicamente, de segmentos mais pobres da sociedade. Inclusive, com uma tentativa de apresentá-la como alguém muito próxima ou parecida com Lula, com uma história de vida similar, de origem pobre, etc
Esta é a razão de Marina não se apresentar com clareza, de voltar atrás em declarações consideradas problemáticas, para não assumir ostensivamente uma cara ainda mais conservadora, já que granjeia apoios em segmentos da pequeno burguesia com alguma proximidade às idéias progressistas. A orientação dos que efetivamente dirigem a sua candidatura - o grande capital, internacional e seus sócios locaisl - é para que Marina seja sempre algo ambígua, algo genérica, pouco concreta, a não ser quanto à crítica moral ao governo Dilma, pois o objetivo é uma vitória eleitoral, a partir do que o PSB, que já foi sequestrado por esta iniciativa conservadora, seja totalmente removido do comando do processo.

Alianças: governar ou não governar!

A presença ostensiva e permanente de Lula é indispensável, seja para eliminar dúvidas em relação ao pleno antagonismo que há com Marina Silva, mas, sobretudo, para dirigir a campanha para a recuperação de apoios de segmentos empresariais vinculados ao setor produtivo e ao mercado interno, também vítimas do rentismo parasitário que aposta na candidatura "socialista". Algo que incomoda segmentos de classe média que antes estiveram com Lula, é a necessidade inevitável de alianças com políticos como Sarney, Renan, Collor, Maluf face à inexistência de uma maioria parlamentar petista que lhe possibilitasse governar dispensando estas e outras alianças. A escolha era entre governar ou não governar! É necessário explicar didaticamente que esses setores políticos deram apoio parlamentar para que o governo Lula e Dilma pusessem em prática os programas sociais mais importantes, tais como o Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, o Mais Médicos, o Minha Casa Minha Vida, um orçamento que fortaleceu a educação,a saúde e a agricultura familiar, bem como a política externa independente das pressões dos EUA. Os que se opuseram a estas políticas, esses sim são os da velha política oligárquica, que foram contra os avanços sociais e econômicos da Era Vargas, e agora, com o apoio da mídia envenenada contra o PT, sabotam as políticas que levaram o Brasil a obter vários reconhecimentos importantíssimos a nível internacional, como o recente Relatório da ONU elogiando a redução da desnutrição e da pobreza.

A força da convocatória e o papel da militância

Ainda soa forte nos ouvidos da oligarquia conservadora a forte declaração do então presidente Lula, quando se insinuava uma tentativa de impeachment, afirmando " Não vou me suicidar como Vargas, não vou renunciar como Jânio, não vou sair do país como Jango. Vou defender nas ruas , com os trabalhadores, o mandato que o povo me deu pelo voto". FHC sentiu a gravidade da atitude e orientou a direita a desistir do impeachment, para que o processo não radicalizasse pela esquerda.
Estamos novamente diante de encruzilhadas históricas no Brasil. Em 1960, o candidato mais popular, Jango, foi colocado na vice candidatura do Marechal Lott, grande brasileiro, mas sem comunicação com o povo, portanto, sem voto. O resultado, como se sabe, é que Jango, mesmo como vice, foi o mais votado naquele pleito. Jango assumiu com a renúncia de Jânio e, tal como Vargas, não usou plenamente sua popularidade para organizar uma resistência com condições históricas de triunfar. Além de ter que enfrentar a boataria de que Marina tem “a mesma história de Lula”, e as novas manipulações que certamente serão trazidas na reta final da campanha, é preciso estar atento para o fenômeno das urnas eletrônicas sem auditoria possível, já que, forças ocultas, produziram a anulação da lei da impressão do voto, sancionada por Lula, atento ao problema. Num estranho e raríssimo caso em que o Judiciário patrocinou uma Ação de Inconstitucionalidade contra o Legislativo, a obrigação do voto impresso foi anulada, o que foi facilitado pela indiferença e insensibilidade de dirigentes petistas que, na época, pensavam em direção oposta à de Lula. Assim, agora, só resta a força de convocatória de Lula e do PT para mobilizar os fiscais para uma rigorosa e implacável conferência dos boletins de urna, das totalizações, utilizando-se todos os aplicativos disponibilizados pelo Fórum do Voto Seguro. Apesar de não eliminar plenamente as vulnerabilidades existentes, pode intimidar a ação de especialistas em fraudes.
Hoje, o homem mais popular do Brasil, Lula, não é candidato, mas tem condições de mobilizar nas ruas, nas praças, aos trabalhadores, aos setores mais explorados, alertando-os para os riscos que o país corre, de ver interrompido um curso de progresso social, com repercussões negativas graves para toda a sociedade brasileira e para a América Latina. Tem condições de ter mais presença na campanha, seja na TV e Rádio, seja nas ruas, alertando para o ódio anti-petista difundido pelo poder econômico, e , também, para possíveis manobras do campo conservador que sejam lançadas de última hora que visariam ampliar desequilibrar ainda mais o papel dos meios de comunicação sobre o eleitorado, sem que o PT e o campo progressista, possuam um único jornal nacional para responder ao trabalho de demolição de tudo o que foi conquistado nos últimos 12 anos de governos Lula-Dilma.

sábado, 20 de setembro de 2014

“PARA UMA NOVA COLÔMBIA SEM VÍTIMAS” PROPOSTAS ORIENTADORAS PARA A DISCUSSÃO DO PONTO 5 DA AGENDA, “VÍTIMAS”



Documento de discussão para a opinião pública e a Mesa de Diálogo.


Tal como se estabeleceu no preâmbulo do Acordo General de Havana, “O respeito dos direitos humanos em todos os confins do território nacional é um fim do Estado que se deve promover”.
No ponto 5 de sua Agenda se expressa que “ressarcir as vítimas está no centro do acordo”.


Nos felicitamos porque o anterior compromisso, assumido como eixo central de qualquer acordo, tenha convertido o atual processo de conversações de Havana num caso único na história do direito internacional e dos distintos processos de conversações para a finalização de conflitos armados havidos até agora, tal e como vêm manifestando diferentes vozes autorizadas entre a comunidade internacional de defensores dos direitos humanos. Como já manifestamos anteriormente, as FARC-EP fazemos nossa a transparente definição de vítimas estabelecida pelas Nações Unidas[1], ao tempo em que pusemos de manifesto nossos critérios e pontos de vista sobre a origem do conflito armado, suas causas e seu devir[2], sobre a existência do conflito armado interno antes de nossa constituição como organização guerrilheira, nosso caráter de organização surgida da vitimização da população campesina e outros setores populares, assim como nossa assunção da realidade da vitimização havida em Colômbia manifestada pelos estudos mais rigorosos efetuados e as estatísticas mais fidedignas, elaborados uns e outras por organismos acadêmicos independentes e instituições internacionais[3], inclusive ainda que possamos discordar dos anteriores em aspectos parciais.


Reconhecemos nas vítimas do conflito armado o sujeito político ativo sobre o qual deverá descansar a construção da Nova Colômbia que aspiramos a iluminar após a chegada de uma paz necessariamente com justiça social, processo do qual deverão ser protagonistas, -pelo que reivindicamos uma nova Assembleia Constituinte-, descartando com isso as visões que consideram as vítimas unicamente como sujeitos passivos da realidade colombiana, meras destinatárias de assistência social, no melhor dos casos, e das quais haveria que compadecer-se.


Convencidos, portanto, de que a satisfação dos direitos das vítimas faz parte fundamental das garantias para a conquista da paz, e que a terminação do conflito contribuirá decididamente para a satisfação desses direitos, formulamos as seguintes propostas orientadoras para a discussão do ponto 5 da agenda sobre Vítimas, discussão que necessariamente deve estar presidida pelo desenvolvimento dos dez princípios sobre vítimas já acordados pelas partes[4] e que sustentaram os debates nos diferentes Foros nacionais sobre vítimas:


PRINCÍPIO 1. “O reconhecimento das vítimas: É necessário reconhecer a todas as vítimas do conflito, não só em sua condição de vítimas, senão que também e principalmente em sua condição de cidadãos com direitos.”


1º.- Contexto: a Lei 1448 de 2011, de Vítimas e restituição de terras unicamente reconhece a condição de vítimas àquelas pessoas vitimizadas pelos fatos ocorridos a partir de 1º de janeiro de 1985. No entanto, em Colômbia existem vítimas causadas por fatos que já se iniciam desde os inícios da década dos anos 30 do século passado e como consequência dos tímidos intentos de reforma agrária que supôs a Lei 200 de 1936. A vitimização continuou de maneira consciente –tanto pela ação do Estado como por posturas e manobras de setores vinculados ao estabelecimento-, pelo menos desde essa década até a atualidade, pelo que a arbitrariedade com a qual a lei 1448 assinala uma data ao acaso para o reconhecimento das vítimas exclui a milhares destas do alcance da citada norma e, portanto, lhes nega reconhecimento[5].


Todas as vítimas provocadas pelo conflito armado interno colombiano devem ser reconhecidas como tais pelo Estado e pela sociedade em geral, não sendo admissível o estabelecimento de um limite temporário aleatório para o reconhecimento destas[6]. No marco da discussão sobre o Princípio 6º relativo às vítimas, Reparação, se deverão estabelecer os mecanismos de reparação de que deve desfrutar cada pessoa vitimizada, atendendo aos critérios que se estabeleçam pelas partes recolhendo, por sua vez, os critérios manifestados pelas organizações de vítimas. Deverão contemplar-se reparações simbólicas por parte do Estado a respeito daquelas vítimas que tenham falecido ou não possam ser identificadas.


2º. Propostas de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Vítimas causadas pelo conflito social e armado colombiano pelo menos desde a década de 30 do século passado à atualidade: reconhecimento pleno de sua qualidade de vítimas e garantia de acesso à totalidade dos direitos constitucionais –incluídos direitos econômicos e sociais- reconhecidos aos colombianos.
  2. Identificação dos agentes de vitimização existentes em cada período com o objetivo de garantir o reconhecimento de direitos às vítimas de cada um deles: agentes estatais, partidos políticos, grêmios e empresas, companhias transnacionais, governos estrangeiros, igrejas, grupos paramilitares, grupos rebeldes etc.
  3. Tratamento específico para os combatentes enfrentados em cada período, diferenciando-os das vítimas não combatentes: os membros das forças militares, policiais e de grupos rebeldes e guerrilheiros são combatentes protegidos pelas I, II e III Convenções de Genebra e pelo Protocolo Adicional II, que não podem receber o mesmo tratamento que as vítimas não combatentes –população civil-, por expressa disposição do Direito Internacional e do direito interno colombiano. Isso é assim conforme o princípio de distinção[7] aplicável nos conflitos armados não internacionais [CANI]. São vítimas unicamente na medida em que tenham padecido infrações do D.I.H. aplicável aos combatentes, pelo que seu tratamento como tais vítimas não pode ser equivalente ao dispensado às vítimas provocadas entre a população civil não combatente.
  4. Identificação da legislação interna e internacional aplicável às vítimas do conflito e identificação de algumas legislativas, tudo isso para gerar uma atenção integral às vítimas que permita garantir a totalidade de seus direitos, incluindo em seu caso a adoção de novas normas.




3º.- Objetivos a alcançar:


  1. Definição exata das categorias de vítimas, atendendo ao fato vitimizante e aos períodos temporários nos quais se tenham produzido, para identificar o objeto de atenção e adotar as medidas necessárias para garantir todos os direitos de todas as vítimas. Especial atenção deverá ser dada às famílias e pessoas encaregadas das vítimas, às vítimas causadas entre os membros das organizações políticas e populares de oposição, e à vitimização de familiares e amigos membros das organizações guerrilheiras, coletivos que até agora não tiveram nenhum apoio do Estado ou tiveram-no de forma insuficiente
  2. Atualização e desenvolvimento da legislação interna sobre vítimas, para assim garantir o pleno desfrute da totalidade dos direitos humanos por todas as vítimas. Especial atenção à incorporação ao direito interno dos Princípios e diretrizes básicas sobre o direito das vítimas de violações das normas internacionais de ddhh e de violações graves do DIH reconhecidos pelas NNUU[8].
  3. Definição de tratamentos específicos para comunidades vitimizadas coletivamente: campesinos, sindicalistas, povos indígenas, afrocolombianos, coletivos políticos e sociais, mulheres, jovens, terceira idade etc.




PRINCÍPIO 2. “O reconhecimento de responsabilidade: Qualquer discussão deste ponto deve partir do reconhecimento de responsabilidade frente às vítimas do conflito. Não vamos intercambiar impunidades.”


1º.- Contexto: Uma vez efetuado o pleno reconhecimento das Vítimas do conflito, o reconhecimento de responsabilidades implica esclarecer quem são os verdadeiros vitimários nesta guerra que nos impuseram, determinar aqueles que realmente têm responsabilidade na geração de vítimas, analisar se estes fatos foram perpetrados intencionalmente e se se encontram em situação de impunidade, acordando as medidas para que a referida impunidade cesse em seu caso. Assim, deverão determinar-se métodos eficazes de acesso à justiça para as vítimas. Para as FARC-EP, o Acordo Geral para a terminação do conflito de Agosto 2012 é o verdadeiro Marco Jurídico para a Paz.


As partes nas conversações também devem assumir suas responsabilidades de forma expressa, a respeito dos fatos vitimizantes dos quais sejam responsáveis. É o atual Governo quem representa ao Estado na Mesa de Conversações, e não resulta sustentável negar-se a reconhecer as responsabilidades do Estado colombiano na vitimização ocorrida por ocasião do conflito armado interno, principalmente quando são numerosas as decisões judiciais que estabeleceram a dita responsabilidade do Estado. A responsabilidade de qualquer Estado surge tanto por ação como por omissão, toda vez que é o Estado o responsável por garantir a proteção e o desfrute de todos os direitos a todos os cidadãos, o que inclui a perseguição eficaz tanto dos agentes do Estado como das forças paramilitares que provocaram vítimas de forma consciente com seu acionar.


As sentenças emitidas por tribunais internacionais e nacionais a respeito das vítimas produzidas no conflito armado interno em Colômbia cada vez ordenam mais medidas de reparação, como perdir perdão às vítimas, algo a que até agora se negaram os agentes do estado responsáveis pelas violações de direitos que causaram vitimizações, pondo diferentes entraves e impedimentos para o cumprimento do estabelecido em sentenças judiciais. [9]


As FARC-EP vimos manifestando que “[...] assim como reivindicamos o reconhecimento de responsabilidades por parte dos múltiplos atores responsáveis, com todas as medidas e ações que delas se derivem, manifestamos a vontade de assumir as nossas, sempre atendendo ao caráter político-militar de nossa organização, nossos propósitos e definições programáticas, nossos planos militares para a tomada do poder, nossas normas internas e de relacionamento com a população civil e, desde logo, das leis da guerra e das normas do Direito Internacional Humanitário [...].[10]


Quando em algumas de nossas ações militares realizadas durante o conflito se causou vítimas não combatentes, isso nunca se deveu à perpetração de ataques intencionais contra a população civil, mas sim devido a situações imprevisíveis nuns casos e também a erros injustificáveis em outros, ocasionados sempre por um acionar armado em situação de tremenda desvantagem militar em relação a nossos adversários. Por isso, as FARC-EP não nos reconhecemos como “agente vitimizante”, mas sim como perseguidos, e em tal condição exercemos nosso direito à rebelião, já reconhecido na Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776[11], na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1793[12], e na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948[13]. A um exército campesino e popular não se pode exigir o mesmo que a um imenso exército regular de um Estado, apesar do qual nós outros sempre nos esforçamos por incluir em nossos Regulamentos normas de respeito estrito aos Direitos Humanos o DIH[14] e por cumpri-las.


Mostramos nossa vontade de efetuar, durante o atual processo de conversações, um ato coletivo de contrição política em reconhecimento de nossas responsabilidades, como expressão de nossa vontade de contribuir para um Nunca Mais




2º.- Proposta de trabajo: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Determinação dos agentes vitimizantes, atendendo as fontes históricas e as estatísticas produzidas por instituições e centros de estudos especializados não dependentes do Estado colombiano, tudo isso a respeito das vítimas ocasionadas durante o conflito colombiano
  2. Estudo das formas de efetuar uma Declaração solene do Estado reconhecendo sua responsabilidade, por ação e por omissão, na geração de vítimas.
  3. Estudo das possibilidades, formas e prazos para efetuar o reconhecimento de suas responsabilidades por parte de cada interveniente no conflito diferente às partes nas conversações.


3º.- Objetivos:


  1. Reconhecimento de responsabilidades pelo Estado e outros sujeitos [armados ou não armados] na geração de vítimas do conflito, em concordância com a realidade refletida nas fontes de estudo e estatísticas antes mencionadas
  2. Pôr em marcha mecanismo para alcançar o fim da impunidade que existe de facto em relação aos responsáveis de fatos vitimizantes considerados crimes atrozes.
  3. Definir mecanismos de exigência de responsabilidade aos responsáveis de crimes atrozes cometidos por ocasião do conflito.


PRINCÍPIO 3. “Satisfação dos direitos das vítimas: Os direitos das vítimas do conflito não são negociáveis; se trata de colocar-nos de acordo acerca de como deverão ser satisfeitos da melhor maneira no marco do fim do conflito”.


1º.- Contexto: Resulta imperativo e inadiável adotar medidas eficazes para evitar que se sigam produzindo vítimas em consequência do conflito social e armado, como assim reclamaram insistentemente as vítimas do conflito social e armado, solicitando um imediato cessar bilateral do fogo [15]. É necessário remover os obstáculos legais e fáticos que impediram a plena satisfação dos direitos das vítimas causadas pelo conflito. Resulta imprescindível impedir a re-vitimização provocada pela negação de direitos às vítimas, assim como acabar com a estigmatização das anteriores. Para isso, procede determinar com precisão os métodos e mecanismos efetivos para a satisfação dos direitos das vítimas.


2º.- Proposta de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Determinação dos mecanismos de satisfação dos direitos das vítimas à verdade, à justiça, à reparação, à não repetição e à proteção e a segurança. Definição de medidas de prevenção de novas vitimizações.
  2. Determinação dos recursos que o Estado põe à disposição das vítimas para a satisfação dos direitos destas: recursos econômicos, sociais, culturais e educativos, humanos, infraestruturas e instalações, legais.
  3. Analisar os impactos que a vitimização teve nas vítimas: impacto físico –no momento de cometer-se o fato vitimizante e ao descobrir que o fato ocorreu-, impacto econômico e impacto psicológico.
  4. Medidas de formação de profissionais que garantam a atenção integral e de qualidade às vítimas, com especial ênfase na capacitação de funcionários e pessoal encarregado de atender as vítimas.


3º.- Objetivos:


  1. Acabar de forma imediata com qualquer situação ou fato que gere novas vítimas em consequência do conflito social e armado, a cujo efeito deverá adotar-se como medida imediata um alto ao fogo bilateral como passo prévio à firma de um armistício até que se acorde o fim definitivo do conflito.
  2. Definir concertadamente entre as partes mecanismos e instrumentos jurídicos para garantir os direitos das vítimas
  3. Posta em marcha de programas e serviços de atenção e assistência às vítimas do conflito com o fim de satisfazer integralmente todos os seus direitos, com especial ênfase na garantia plena e com suficiente qualidade dos direitos à moradia, à educação em todos os níveis e à saúde. Eliminação de qualquer barreira econômica, étnica e de gênero que impeça o pleno desfrute dos anteriores direitos. Posta em marcha de mecanismos de acesso a emprego digno e de qualidade e a projetos produtivos, contando neste caso com o devido financiamento a cargo do Estado.
  4. Aprovação de leis estatutárias e outras normas previamente acordadas entre as partes- necessárias para o pleno acesso das vítimas a todos os seus direitos, tanto seus direitos constitucionais como os derivados de sua condição de vítimas.
  5. Aprovação de medidas de discriminação positiva –tratamento preferencial por se tratar de um grupo discriminado, segundo definição da Corte Constitucional- das vítimas para o acesso ao desfrute de todos os seus direitos humanos.


PRINCÍPIO 4. “A participação das vítimas: A discussão sobre a satisfação dos direitos das vítimas de graves violações de direitos humanos e infrações ao Direito Internacional Humanitário por ocasião do conflito requer necessariamente da participação das vítimas, por diferentes meios e em diferentes momentos.”


1º.- Contexto: definição dos mecanismos efetivos de participação das vítimas e suas organizações representativas nos pontos e temários das conversações que lhes concernem. De igual maneira, deverão estabelecer-se mecanismos de intervenção e participação permanente das vítimas nos programas de atenção que se ponham em marcha, garantindo sua participação na definição destes programas e de seus conteúdos e formas de implementação, superando as atuais deficiências que as vítimas e suas organizações representativas denunciam nesta matéria. Resulta necessário estabelecer um sistema eficaz de consulta permanente e vinculante às organizações de vítimas sobre qualquer norma que deva ser aprovada para a posta em marcha dos programas de atenção ou para a garantia da satisfação de seus direitos.


2º.- Propostas de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


a) Formas de participação das organizações de vítimas nos pontos da agenda das conversações que lhes concernem.
b) Atenção especial às formas de participação dos seguintes coletivos de vítimas no processo de conversações: União Patriótica, campesinos, mulheres, sindicalistas, jovens, deslocados, povos originários, afrodescendentes, comunidade LGTBI, coletivos políticos e sociais vitimizados e outros coletivos em risco de exclusão social.
c) Formas de participação das exiladas e dos exilados e das pessoas refugiadas, oss quais foram objeto de uma dupla vitimização: a ocasionada pelo conflito social e armado e a provocada pelo desarraigamento que implica ter que abandonar a Colômbia, na maioria das vezes com escassos meios e recursos, e tendo que enfrentar as restrições de direitos implícitas nas legislações de estrangeirismo de muitos dos países de acolhida.
d) Manifestando nosso compromisso especial com os direitos das mulheres vítimas, deverão discutir-se os mecanismos que se adotarão para garantir tanto a plena satisfação dos direitos destas, assim como seu papel protagônico, tanto na consecução da paz e da reconciliação nacional como na construção da Nova Colômbia que surja de um acordo de paz.


3º.- Objetivos:


  1. Garantir a participação direta das organizações de vítimas no processo de conversações no ponto 5 da agenda, assim como naqueles outros pontos desta que lhes afetem diretamente, para que possam ser ouvidos seus critérios.
  2. Regulação das formas de intervenção direta das vítimas na elaboração, esboço e execução dos atuais e futuros programas e serviços de atenção a vítimas postos em marcha pelo Estado, assim como na elaboração da legislação sobre vítimas que deva aprovar-se após o fim das conversações.
  3. Acordar a elaboração e aprovação de uma legislação específica que garanta a participação plena e eficaz das mulheres em todos os níveis de adoção de decisões para a solução do conflito interno e no processo de paz. [16]


PRINCÍPIO 5. “O esclarecimento da verdade: Esclarecer o sucedido ao longo do conflito, incluindo suas múltiplas causas, origens e seus efeitos, é parte fundamental da satisfação dos direitos das vítimas, e da sociedade em geral. A reconstrução da confiança depende do esclarecimento pleno e do reconhecimento da verdade.”


1º.- Contexto: A Verdade é um direito humano que se deduz de outros direitos codificados. O direito à verdade implica conhecer a verdade íntegra, completa e pública sobre os fatos ocorridos, suas circunstâncias específicas e os que participaram neles. Assim, implica conhecer a verdade completa e total em relação com os fatos, suas circunstâncias específicas, a identidade dos responsáveis e partícipes e suas motivações, e adotar medidas “em resposta a um tipo particular de vulneração, relacionada com o exercício abusivo do poder do Estado, precisamente através de suas instituições” [17]. Em situações de conflito interno, as violações de direitos são “o resultado de um conflito social generalizado em que há uma multidão de agentes violentos, entre outros fatores.” [18].


Nos casos de desaparecimento forçado, execuções secretas e sepulturas clandestinas, o direito à verdade tem também uma dimensão especial: conhecer a sorte e o paradeiro dos desaparecidos, a cujo efeito deverão desdobrar-se todos os meios necessários para isso, incluída a criação de novas ferramentas de busca. Além disso, a jurisprudência e a doutrina internacionais consideram que a sociedade como tal tem também direito a conhecer a verdade acerca das graves diolações de direitos humanos e crimes sob o direito internacional. Isso foi cristalizado em particular no Conjunto de princípios atualizados para a proteção e a promoção dos direitos humanos mediante a luta contra a impunidade.[19]


O direito à verdade tem também uma dimensão coletiva: a sociedade tem o direito a conhecer a verdade acerca das graves violações de direitos humanos, as circunstâncias em que foram cometidas, os responsáveis por estas e seus motivos. A investigação destes crimes e a satisfação do direito que assiste aos familiares das vítimas de conhecer o que sucedeu e de saber quais foram os agentes responsáveis pelos respectivos fatos –especialmente quando se trate de agentes do Estado, posto que nestes casos tal conhecimento costuma ser sistematicamente obstruído-, não só beneficia aos familiares das vítimas como também a sociedade como um todo, de maneira que, ao conhecer a verdade quanto a tais crimes, tenha a capacidade de prevenir-lhes no futuro.


O direito à verdade tem sido caracterizado como inalienável e imprescritível tanto por instrumentos internacionais como pela jurisprudência e pela doutrina internacional. Nesta matéria o princípio 4 do citado Conjunto de princípios atualizado para a proteção e a promoção dos direitos humanos mediante a luta contra a impunidade estipula que: “Independentemente das ações que possam empreender ante a justiça, as vítimas e suas famílias têm o direito imprescritível a conhecer a verdade acerca das circunstâncias em que se cometeram as violações e, em caso de falecimento ou desaparecimento, acerca do destino que a vítima correu”.


2º.- Proposta de Trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Esclarecimento das estratégias, fatos e responsabilidades pelas graves violações de direitos humanos e crimes atrozes, incluídos o exílio e as perseguições políticas contra partidos e movimentos políticos de oposição, organizações sociais, campesinas e sindicais, comunidades étnicas, defensores de direitos humanos, cometidos em Colômbia desde 1936 até a data da conclusão e entrada em vigor do acordo de paz, com especial ênfase no acionar criminal de agentes estatais e grupos paramilitares;
  2. Esclarecimento do destino ou paradeiro das pessoas desaparecidas –especialmente quando se trate de vítimas do crime de desaparecimento forçado-, sua localização, libertação ou a restituição de seus restos a seus familiares;
  3. Esclarecimento das responsabilidades de atores não estatais, incluídos grêmios empresariais e grupos econômicos, nas graves violações de direitos humanos e do direito internacional humanitário, isto é, na perpetração de crimes atrozes; conforme ao estabelecido no Ponto 3 do Acordo Geral de Havana, “no marco do estabelecido no Ponto 5 [vítimas] deste acordo, se esclarecerá, entre outros, o fenômeno do paramilitarismo”.
  4. Identificação das políticas, doutrinas, normas, práticas e mecanismos que promoveram e permitiram a comissão de graves violações de direitos humanos e de crimes atrozes, a criação e promoção de grupos paramilitares e sua impunidade, e a vitimização de partidos e movimentos políticos de oposição, organizações sociais, campesinas e sindicais, comunidades étnicas, e defensores de direitos humanos;
  5. Debate sobre a criação de uma Comissão da Verdade: Mandato, conteúdos e critérios de composição e funcionamento, objetivos, métodos de trabalho e período de investigação, conclusões-recomendações e mecanismos de cumprimento delas, tudo isso em relação com o trabalho da Comissão Histórica sobre o Conflito.


3º.- Objetivos


  1. Determinar com exatidão o número exato de vítimas havidas em Colômbia desde o início do conflito, períodos de geração das mesmas e fatos vitimizantes que provocaram-nas.
  2. Esclarecer a origem do fenômeno do paramilitarismo e suas relações com o Estado, Forças Militares e setores econômicos e sociais.
  3. Alcançar acordos que garantam o estabelecimento de uma verdade extrajudicial, construída com ampla participação da sociedade colombiana, que permita a normalização da convivência e a reconciliação dos distintos setores da sociedade colombiana.
  4. Alcançar acordo entre as partes sobre a posta em marcha de uma Comissão da Verdade, prévia definição de seus conteúdos, composição e métodos de trabalho, períodos de estudo, duração, competências etc., de forma que inicie seus trabalhos imediatamente uma vez alcançados os acordos de paz
  5. Definir os mecanismos de seguimento e execução das recomendações efetuadas pela Comissão da Verdade
  6. Divulgação das conclusões da Comissão Histórica cujo objetivo é o esclarecimento das origens do conflito e a determinação dos atores responsáveis pelo mesmo, assim como dos agentes estatais, institucionais e privados que se beneficiaram com o mesmo.


PRINCIPIO 6 “A reparação das vítimas: As vítimas têm direito a serem ressarcidas pelos danos que sofreram por causa do conflito. Restabelecer os direitos das vítimas e transformar suas condições de vida no marco do fim do conflito é parte fundamental da construção da paz estável e duradoura.”


1º.- Contexto: A reparação maior é a verdade e a justiça, e ela deve ser procurada não só sobre as vítimas diretas, senão que também sobre os setores sociais que foram vitimizados tanto por políticas determinadas deliberadamente orientadas como por omissões que constituem graves e sistemáticas faltas de proteção devida. A reparação às vítimas transcende a mera reparação econômica ou pecuniária, dado que simplifica-la como um assunto meramente monetário seria uma nova afronta a sua humanidade, condição e dignidade.
Mais além da questão pecuniária, deve-se atender a magnitude real dos danos sofridos, proporcionando reparação material através dos devidos recursos, assim como reparação simbólica, moral, jurídica, política e cultural. Por isso, este Princípio é um dos mais importantes a abordar quanto à perspectiva ética de alcançar o bem comum e o bem viver, exigindo o pleno restabelecimento dos direitos das vítimas, reintegrar o que seja possível restaurar, e transformar suas condições de vida, como parte não só do fim do conflito, senão que da imperiosa construção da paz estável e duradoura.
Desta forma, se garante a justiça restaurativa, porém atravessando-a para um enfoque de justiça distributiva[20] ou socialmente redistributiva, superando uma mera concepção de justiça corretiva, ou de simples restauração a uma situação de vulnerabilidade e pobreza preexistente, de tal maneira que se possam criar as condições –mediante um enfoque diferenciado, por etnia e gênero imprescindivelmente-, de retorno e reconstrução tanto dos tecidos sociais devastados por ações no conflito como do direito dos sujeitos sociais populares diversos à melhoria efetiva de suas condições de vida.
Atendendo a exígua porcentagem de vítimas ressarcidas atualmente, é evidente que o Estado se esqueceu do imenso universo de vítimas que não foram reparadas em nada, os verdadeiros setores revitimizados, esquecimento intencional que reforçou uma situação de usurpação de direitos e precariedade das vítimas, ficando imersas estas, na prática, numa situação de escassa ou nula proteção.


2º.- Propostas de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Mecanismos de reparação que garantam o conteúdo exato do direito e da obrigação de reparação, num modelo de justiça no marco da normalização democrática, considerando as elaborações e propostas que os órgãos das Nações Unidas realizaram sobre reparação de vítimas, distinguindo entre medidas de reparação materiais e imateriais.
  2. Se sustentarão por cada parte suas propostas sobre reparação no marco de uma reconstrução nacional, atendendo o alto número de vítimas empobrecidas por diferentes causas, explicitando-se os mínimos de segurança vital digna para a população vitimizada e sobrevivente que cada parte propõe.
  3. Considerando os recursos abundantes que há no país para garantir uma verdadeira prosperidade econômica e um substancial melhoramento social de todos os colombianos e todas as colombianas, devem-se indicar os planos que cada parte proponha de acordo tanto com a sua responsabilidade direta como indireta, para pôr os referidos recursos a serviço do bem comum e do bem viver, assim como determinar a disponibilidade de bens, para não só assegurar o necessário ressarcimento como também o empreendimento de programas urgentes de transformação das condições de vida e a plena satisfação de justiça social para os setores vítimas e vitimizados.


3º.- Objetivos:


  1. Alcançar a solução de todas as causas estruturais do conflito cuja eliminação é a razão de ser destas conversações de paz, para assim remover todos os fatores incompatíveis com uma democracia política, social e econômica. Só assim encaminharesmos esforços reais de superação da marginalidade das vítimas de um sistema que se comprovou injusto. Para tal fim se adotarão todas as medidas necessárias para acabar com a marginalizaçao das vítimas, começando pelas medidas reparadoras das vítimas da guerra suja deflagrada pelo Estado a favor de umas elites.
  2. Adoção de medidas que garantam uma justiça reparadora distributiva efetiva, fugindo das atuais políticas de reparação que se mostraram ineficazes.
  3. Em matéria de reparação aos campesinos cujas terras lhes foram usurpadas durante o conflito, não basta tentar a restituição de uns poucos hectares de terra a uma mínima porcentagem dos campesinos despojados, senão que é impreterível empreender uma distribuição democrática da propriedade rural e urbana, isto é, atacar as raízes da iniquidade[21].
  4. Pôr em marcha programas de reparações coletivfas vinculadas a territórios, por exemplo, as Zonas de Reservas Campesinas ou as circunscrições especiais de paz, garantindo uma eficaz reparação coletiva no marco do processo de paz. Para tal efeito, se deverão acordar programas de “reparações territoriais transformadoras”, apontando a dar entidade coletiva e realmente modificadora do status quo, em favor do empoderamento popular.
  5. Habilitação de orçamentos públicos para a plena satisfação dos direitos das vítimas até que se tenha removido todos os obstáculos para a normalização de sua vida social em condições de dignidade.
  6. Criação de um Fundo Especial para a Reparação Integral, com participação das organizações nacionais de vítimas, devendo habilitar-se 3% do PIB como orçamento anual do dito fundo pelo menos durante um período de 10 anos.
  7. Aprovação de medidas de reparação coletiva para os distintos grupos sociais vitimizados.


PRINCÍPIO 7 “As garantias de proteção e segurança: Proteger a vida a e integridade pessoal das vítimas é o primeiro passo para a satisfação de seus demais direitos.”


1º Contexto: Sem o compromisso de deter já o dessangramento nacional, gerado por práticas sistemáticas adotadas desde e pelo Estado para conter tanto o levantamento em armas como a luta social e política de setores legais de oposição, assim como pelo próprio desenvolvimento do conflito armado entre contendores, quer dizer, sem um compromisso de cessar bilateral ao fogo, de trégua verificada, de armistício ou de um acordo em prol da humanização ou pelo menos da desescalada gradual e a fundo da confrontação, sem assumir esse dever de parar já o combate ou de regulá-lo, se estarão causando mais vítimas e será impossível dotar estas de garantias eficazes de proteção e segurança.
Por isso, para proteger a vida e a integridade pessoal das vítimas, tanto em nível individual como coletivo, se deve encarar o desafio e a obrigação exigida de múltiplas maneiras por diversos e numerosos setores da sociedade colombiana e da comunidade internacional, de deter já o conflito armado, para o qual as partes deveriam acordar a referida suspensão imediata de hostilidades como passo prévio a um acordo de armistício até que se adotem os definitivos acordos de paz.
Se a proteção eficaz da vida e integridade é premissa essencial para a satisfação dos direitos das vítimas, o primeiro passo efetivo para alcançar esse objetivo deve ser deter a guerra.


2º.- Propostas de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. As partes devem assinalar se estão dispostas ou não a acordar um alto ao fogo o mais extenso possívelo, assim como suas razões para adotar uma ou outra posição com fundamento em disposições, mecanismos ou mandatos de direito internacional.
  2. As partes devem expressar não só que nível de proteção podem brindar a respeito daqueles setores ou faixas de população às quais concernem suas funções e ações enquanto forças beligerantes presentes em territórios determinados, como também as medidas tendentes a superar falhas ou omissões sistemáticas de proteção. Dolorosa confirmação do anterior são as cifras de umas setenta pessoas assassinadas, reivindicadoras de restituição de terras, somente desde a entrada em vigor da Lei 1448 de 2011, ou de outras setenta pessoas assassinadas nos últimos doze meses por pertencer à organização política Marcha Patriótica.
3º.- Objetivos:


  1. Acordar de forma imediata até a firma em seu caso do acordo de paz, ou subsidiariamente alcançar-se um acordo de desescalada efetiva do conflito armado, medidas imprescindíveis para outorgar à população, tanto vitimizada como potenciais vítimas, garantias reais de proteção e segurança.
  2. Dado que o Estado deve garantir os que estão ameaçados e devem ser objeto de reparação, devem ser protegidos pela Força Pública, devem pôr-se em marcha eficazmente estes mecanismos de proteção num contexto no qual demasiadas vezes as pessoas necessitadas de proteção desconfiam das forças do Estado[22].
  3. Acordar que as anteriores medidas devem ser estritamente transitórias, posto que não se trata de escoltar as vítimas ou brindar-lhes esquemas de proteção ou segurança temporária mais ou menos eficazes, sendo o imprescindível conseguir a autodeterminação e organização das vítimas, atacando os fatores de exclusão, por exemplo, ou de terror, isto é, desarticulando o paramilitarismo e a presença dos projetos e capitais que recorreram à estratégia de despojo com a violência militar-paramilitar. Isso considerando que fica pendente reapresentar a concepção de Doutrina de Segurança atualmente imperante, matéria que a seguir abordaremos.


PRINCÍPIO 8. “A garantia de não repetição: O fim do conflito e a implementação das reformas que surjam do Acordo Final constituem a principal garantia de não repetição e a forma de assegurar que não surjam novas gerações de vítimas. As medidas que se adotem tanto no ponto 5 como nos demais pontos da Agenda devem apontar a garantir a não repetição de maneira que nenhum colombiano volte a ser posto em condição de vítima ou em risco de sê-lo.”




1º.- Contexto: Enquanto se pedem às FARC-EP seu desaparecimento como força militar para garantir que não possam realizar –por impossibilidade fática- nenhuma ação militar contra pessoa alguma, não se pode pedir o desaparecimento do Estado nem este ainda se comprometeu na transformação de suas forças armadas.
Tampouco se abordou nem muito menos determinou as medidas exatas e eficazes para fazer desaparecer completamente o paramilitarismo em qualquer de suas expressões.
Necessariamente, hão de abordar-se as medidas de reforma que de maneira eficaz devem garantir a substituição das doutrinas, concepções, eixos de formação e funcionamento de umas FFAA que têm operado contra um suposto “inimigo interno” no qual se incluíam muito mais pessoas e setores sociais que os combatentes alçados em armas. Se isso não se leva a cabo, se estará preservando um germe que permitirá que voltem a ocorrer não só os fatos atrozes havidos de responsabilidade do Estado como também a manutenção do paramilitarismo em qualquer de suas múltiplas expressões, com o consequente efeito de surgimento de novos capítulos de rebelião, resistência ou levantamento em armas ante planos de perseguição e extermínio.


2º.- Propostas de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Como acabar com qualquer situação que possibilite a existência no seio das estruturas do estado das concepções antidemocráticas que possibilitaram por décadas a posta em marcha de uma guerra suja contra importantes setores sociais, desterrando as denominadas “doutrinas contra insurgentes ou de segurança nacional” que consideram as forças armadas como estruturas de intervenção na vida política nacional a serviço exclusivo das elites e de poderes estrangeiros.
  2. Deverão ser discutidos os novos eixos doutrinários, teóricos, mandatos e funções das FF.MM, as bases de seus programas de formação e funcionamento conforme os princípios imperantes nas Forças Armadas configuradas para a defesa das fronteiras e da integridade do Estado frente a ameaças exteriores. Umas Forças Armadas neutras politicamente, isto é, desprovidas de ideologia política partidarista, consagradas à defesa do povo colombiano sem importar as opiniões políticas das pessoas que compõem o referido povo.


3º.- Objetivos:


  1. Acordar as novas doutrinas, teorias, mandatos e funções das FF.MM, as bases de seus programas de formação e funcionamento conforme os princípios imperantes nas Forças Armadas configuradas exclusivamente para a defesa das fronteiras e da integridade do Estado frente a ameaças exteriores, ao mesmo tempo que estritamente respeitosas dos direitos humanos de todas as pessoas.
  2. Acordar medidas concretas de desvinculação das forças militares das tarefas de segurança interior do estado, reestruturando simultaneamente o corpo de Polícia Nacional e vinculando-o funcional e organicamente ao Ministério do Interior.
  3. Deverão ser acordados mecanismos de depuração administrativa da força pública, organismos de segurança do Estado e da administração pública –incluídas as três esferas do poder do Estado- de todos aqueles servidores públicos que, por ação ou omissão, cometeram ou contribuíram para cometer graves violações de direitos humanos ou crimes atrozes e a criar grupos paramilitares ou a permitir sua impunidade. Expressamente deverá dissolver-se o atual ESMAD e constituir-se um novo corpo policial especializado que assuma suas funções, guiado pelo respeito estrito aos direitos humanos.
  4. Deverá estabelecer-se uma legislação que expressamente proscreva o paramilitarismo, assim como qualquer possível delegação do monopólio estatal sobre o uso das armas e da força, com o objetivo de deter na raiz qualquer fenômeno de paramilitarismo, anulando-se qualquer norma que possibilite a delegação do monopólio da força por parte do Estado e do uso das armas letais a setores privados.
  5. Para alcançar a paz, deverá estabelecer-se um novo marco constitucional que garanta de forma imperativa o pleno desfrute de todos os direitos humanos para todos os colombianos e todas as colombianas, incluídos expressamente todos os direitos econômicos e sociais que permitem às pessoas levar adiante uma vida em condições de dignidade humana. O reconhecimento do Direito Humano à Paz como direito síntese[23] é uma obrigação das partes nas conversações.
  6. Deverão ser acordadas as reformas institucionais, legais ou de qualquer outra índole, que constituam garantias de prevenção e de não repetição, a fim de que sejam postas em marcha por meio de iniciativas legislativas, políticas ou administrativas que serão decididas na mesa de conversações.


PRINCÍPIO 9. “Princípio de reconciliação”: Um dos objetivos da satisfação dos direitos das vítimas é a reconciliação de toda a cidadania colombiana para transitar caminhos de civilidade e convivência.”


1º.- Contexto: O perdão é o fundamento para a reconciliação nacional e premissa essencial para alcançar qualquer objetivo político e social. É o reconhecimento de que as vitimizações tiveram lugar no marco de um conflito interno, o qual constitui um atenuante do peso da dor. A reconciliação é a expressão de um ideário de recomposição real como base para alcançar uma paz com justiça social fundada no bem comum. É o processo de reconstrução nacional concertada que, a partir do fim do conflito armado, se iniciará entre pessoas ou coletivos que estiveram enfrentados. Reconciliação é também respeito às regras do jogo de uma democracia, isto é, respeito às normas de funcionamento democrático de uma sociedade que aspire a ser digna e cabal representante do referido sistema político.


2º.- Propostas de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Prévia exposição de seu ideário político e ético, sem renunciar a seus princípios e aceitando em seu caso a responsabilidade histórica que lhes correspondera pela origem e desenvolvimento do conflito, as partes deverão definir um novo projeto de país realmente inclusivo e baseado na plena garantia do bem viver para todas as colombianas e todos os colombianos.
  2. Deverá construir-se em comum o percorrido que haverá que ser transitado para alcançar a reconciliação, buscando soluções políticas aos problemas da sociedade colombiana e assinalando as falhas do sistema que provocaram o conflito social e armado. Só assim as partes poderão comprovar a coerência de suas propostas de negociação e das reformas propostas para assegurar uma dinâmica de eficaz combinação com vocação e força de autêntica reconciliação nacional.


3º.- Objetivos:


  1. Satisfazer a todas as vítimas em todos os seus direitos, enfrentando as causas que geraram o conflito como fórmula de estender pontes para a reconciliação verdadeira de todas as colombianas e todos os colombianos.
  2. Eliminar os métodos violentos de confrontação social e política e substitui-los por novas formas de civilidade e convivência que suponham aceitar novos valores sociais através de processos que acabem com as condições de iniquidade profunda e segregação social que deram lugar ao conflito.
  3. Proscrever as condições de exclusão das maiorias sociais que perpetuaram e multiplicaram as engrenagens da discórdia, da vitimização e da revitimização.


PRINCÍPIO 10. “Enfoque de direitos: Todos os acordos aos quais cheguemos sobre os pontos da Agenda e em particular sobre o ponto 5 “Vítimas” devem contribuir para a proteção e a garantia do gozo efetivo dos direitos de todos e todas. Os direitos humanos são inerentes a todos os seres humanos por igual, o que significa que lhes pertencem pelo fato de sê-lo, e em consequência seu reconhecimento não é uma concessão, são universais, indivisíveis e interdependentes e devem ser considerados em forma global e de maneira justa e equitativa. Em consequência, o Estado tem o dever de promover e proteger todos os direitos e as liberdades fundamentais, e todos os cidadãos o dever de não violar os direitos humanos de seus concidadãos. Atendendo os princípios de universalidade, igualdade e progressividade e para efeitos de ressarcimento, se levarão em conta as vulnerações que em razão do conflito tiveram os direitos econômicos, sociais e culturais.”


1º.- Contexto:


As FARC-EP manifestamos “nossa decisão de construir de maneira conjunta com o Governo nacional os fundamentos normativos do direito aplicável e requerido para que os propósitos de paz com justiça social que a sociedade em seu conjunto deseja sejam compatíveis com as demandas das vítimas por justiça”. [24]


A paz com justiça social só pode ser alcançada através do gozo efetivo de todos os direitos humanos para todas e todos, tanto os direitos civis e políticos como os direitos econômicos, sociais e culturais, categorias de direitos todos eles com a mesma proteção jurídica no Direito Internacional e nos mais modernos modelos constitucionais que abrem passagem e implantam em nossa região, na América Latina.


A Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pelas Nações Unidas em 1948, estabelece claramente o catálogo de direitos fundamentais da pessoa inerentes a sua condição de ser humano. São direitos imperativos, indivisíveis e indisponíveis, que consagram o trânsito do súdito feudal ao cidadão do estado democrático, social e de direito contemporâneo.


Nenhuma das três diferentes categorias de direitos humanos existentes –civis e políticos; sociais, econômicos e culturais; e direitos coletivos- se cumpre plenamente em Colômbia, dependendo seu descumprimento mais ou menos sistemático de distintos fatores, entre os quais se destacam a ausência de um Estado verdadeiramente social e de direito, a falta de plenos espaços de liberdades políticas e a negativa das minorias oligárquicas a permitir a redistribuição efetiva dos numerosos recursos naturais e econômicos disponíveis em nosso país.


Se bem que os países capitalistas organizados politicamente como Estados de Direito priorizam formalmente o respeito aos direitos civis e políticos individuais, na prática –e a Colômbia não é nisto uma exceção- descumprem habitualmente os conteúdos essenciais dos direitos econômicos e sociais, tais como o direito ao trabalho, à educação, à saúde, a umas condições de vida digna, à seguridade social ou à moradia, assim como os direitos coletivos, em especial dos povos originários e das comunidades afrodescendentes e campesinas em geral. Os anteriores direitos, para mais de dois terços da população colombiana não são mais que declarações de boas intenções sempre relegados em seu cumprimento por supostos motivos de política econômica, como se por acaso as decisões sobre política econômica não fossem adotadas por instituições políticas. De fato, o sistema constitucional colombiano carece de mecanismos legais de exigibilidade efetiva ao Estado do cumprimento dos conteúdos dos direitos econômicos e sociais recolhidos na Declaração Universal de 1948 e em outros textos normativos que formam parte essencial do direito internacional. Desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos[25] até a mais recente proclamação pela Assembleia Geral das Nações Unidas do Direito à Alimentação[26], passando pelo Pacto Internacional de Direitos Econômicos e Sociais[27] no Direito Internacional vigente não há dúvida da obrigação legal dos estados e agentes não estatais de garantir a todas as pessoas e não impedir o pleno desfrute de todos os direitos econômicos e sociais fundamentais, como assim o ratificou a Conferência de Viena[28].


A Nova Colômbia que surja dos acordos de Paz deve situar no frontispício de suas políticas a obrigação de assegurar o gozo efetivo de todos os direitos humanos para todas e todos, a satisfação material, verificável e irreversível de todos esses direitos não só às vítimas consideradas como individualidades, senão que atendidas e consideradas também em sua qualidade de coletivos ou setores sociais de referência. As FARC-EP consideramos que somente a plena satisfação, em condições de dignidade suficiente para um bem viver, de todos os direitos humanos a todas as pessoas e coletivos sociais permite a um povo reivindicar para si a consideração de viver num sistema político democrático e de direito.


2º.- Propostas de trabalho: deverão abordar-se os seguintes pontos de discussão:


  1. Dado que é o Estado quem tem o dever de promover, garantir e proteger todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, –tanto das vítimas como de todo o povo colombiano- estando como está o Estado representado na Mesa através do Governo, este deve expressar um compromisso firme em pôr em prática uma visão de integralidade e de não parcelamento dos direitos humanos.
  2. As partes devem discutir como acordar compromissos em políticas de satisfação integral dos direitos humanos, compromissos concretos e não etéreos, que, começando por garantir esta satisfação às vítimas do conflito social e armado, com caráter universal e com progressividade, alcance a todos os colombianos e colombianas, isto é, sem regressão ou involução alguma, preservando a atual disponibilidade de recursos para sua materialização, de tal modo que, com efeitos de ressarcimento a vítimas, se acabe não só com as vulnerações de direitos políticos, econômicos e sociais passadas, como também com as vulnerações que poriam em perigo a paz, uma vez concluído o atual conflito armado.
  3. As partes analisaram os avanços mais recentes havidos nos modelos constitucionais contemporâneos que já introduziram mecanismos efetivos de garantia pelo Estado do gozo e desfrute de todos os direitos humanos fundamentais a todas as pessoas, com o fim de concordar qual seria o mecanismo mais eficaz para a garantia a todas as vítimas do conflito do enfoque integral de direitos.


3º.- Objetivos:


  1. Constatar a incompatibilidade deste compromisso de proteção integral de todos os direitos e liberdades –o enfoque integral de direitos- com os atuais modelos imperantes em Colômbia tanto o econômico como de controle político e militar, modelos que não correspondem a um Governo decidir sua imutabilidade ou transformação, senão que a toda a sociedade colombiana através de uma convocatória ao soberano político, o povo, mediante um novo processo constituinte, que já iniciou seu caminho em Havana.
  2. Constitucionalizar, com um mandato imperativo de cumprimento a todas as instituições públicas em relação a suas competências, os princípios do direito internacional que garantam o pleno desfrute de todos os direitos políticos, econômicos, sociais, culturais e coletivos para todas as vítimas –pessoas e coletivos humanos- em condições suficientes para garantir dignamente um bem viver, com a perspectiva de sua extensão a todas as pessoas, povos e coletivos sociais.
  3. Estabelecer na Constituição e na legislação colombiana mecanismos efetivos de exigibilidade ao estado de garantias, respeito e real cumprimento de todos os conteúdos de todos os direitos humanos para todas as vítimas de conflito, e para todas as pessoas, povos e coletivos sociais.
Delegação de Paz das FARC-EP


[1]
   Resolución 60/147 de la Asamblea General de NNUU de fecha 16 diciembre 2005:
8. A los efectos del presente documento, se entenderá por víctima a toda persona que haya sufrido daños, individual o colectivamente, incluidas lesiones físicas o mentales, sufrimiento emocional, pérdidas económicas o menoscabo sustancial de sus derechos fundamentales, como consecuencia de acciones u omisiones que constituyan una violación manifiesta de las normas internacionales de derechos humanos o una violación grave del derecho internacional humanitario.Cuando corresponda, y en conformidad con el derecho interno, el término “víctima” también comprenderá a la familia inmediata o las personas a cargo de la víctima directa y a las personas que hayan sufrido daños al intervenir para prestar asistencia a víctimas en peligro o para impedir la victimización.
9. Una persona será considerada víctima con independencia de si el autor de la violación ha sido identificado, aprehendido, juzgado o condenado y de la relación familiar que pueda existir entre el autor y la víctima.”
[3]   Las principales instituciones que han elaborado las anteriores estadísticas y estudios, de forma continuada en el tiempo y rigurosa atendiendo a metodologías de investigación en ciencias sociales pacíficamente aceptadas por la comunidad académica internacional, son: la base de datos del CINEP “Noche y Niebla”, los informes sobre violaciones de derechos humanos en Colombia publicados anualmente por la Oficina en Colombia del Alto Comisionado para los derechos humanos de las NNUU y otros organismos del sistema ONU. Las anteriores bases de datos e Informes coinciden en términos generales en los porcentajes de agentes victimarios y hechos victimizantes.
[4]   Comunicado Conjunto de la Mesa de Conversaciones. La Habana, junio 7 de 2014. “Declaración de principios para la discusión del punto 5 de la Agenda: “víctimas”
[5]  En Colombia existen aún víctimas causadas por la guerra sucia contra la población campesina que se inicia ya en la década de los años 30 del siglo pasado como consecuencia de los tímidos intentos de reforma agraria que supuso la Ley 200 de 1936.
Un siguiente período de criminalidad sistemática del Estado se da entre 1946 y 1957. El Estado estaba entonces controlado por el Partido Conservador (1946- 1953) y por la dictadura militar del General Rojas Pinilla, también de filiación conservadora (1953-1957), quien en 1954 prohibió mediante decreto de 8 de septiembre de la Asamblea Nacional Constituyente, el comunismo e ilegalizó al Partido Comunista de Colombia. A través de los instrumentos de poder del Estado, los crímenes sistemáticos se dirigieron contra la militancia liberal y comunista, principalmente en las capas campesinas y trabajadoras, quienes ponían en riesgo, por su capacidad electoral y por sus niveles de organización, reivindicación y protesta, la hegemonía del poder. Dentro de este período se inició la persecución al Movimiento Gaitanista, como disidencia liberal, la cual llegó a su clímax el 9 de abril de 1948 con el asesinato de su líder y el desbordamiento de la violencia, que dejó como consecuencia numerosas víctimas fatales y el recrudecimiento de la persecución a sus militantes en los años posteriores. A la ejecución de centenares de miles de víctimas se suman la práctica generalizada de la tortura, de crímenes sexuales, de desplazamiento forzado y el despojo de sus tierras a enormes contingentes de población rural. La degradación de la violencia generada por el conflicto provocoasesinatos de menores, de mujeres embarazadas, y la instauración de distintos “tipos de cortes” como técnica de tortura y asesinato. En su libro “La Violencia en Colombia”, monseñor Germán Guzmán Campos trata de cuantificar al menos las muertes violentas relacionadas con el conflicto durante dicho período. Recurriendo a muchas fuentes, las calcula en un total de 180.000.
El siguiente periodo de la criminalidad estatal se inicia en 1962. El Estado seencuentra controlado entonces por el Frente Nacional (1958-1974). La característica eje de este período es la adopción de la estrategia paramilitar con el fin de excluir y exterminar a las capas simpatizantes de ideologías críticas del sistema imperante. La misión militar realizada en febrero de 1962 y encabezada por el General William Pelham Yarborough, director de investigaciones de la Escuela de Guerra Especial de Fort Bragg, Carolina del Norte, - en el marco del triunfo de la revolución cubana y la vinculación de Colombia a la Guerra Fría- concluyó en un informe secreto, con un suplemento ultra secreto en los cuales se exigía a los gobiernos de Colombia constituir grupos mixtos de civiles y militares para combatir a los simpatizantes de la ideología comunista, realizando ‘actividades terroristas paramilitares’. Rápidamente, el gobierno legalizó la estrategia mediante el Decreto 3398 del 25 de diciembre de 1965 (luego Ley 48 de 1968) permitiendo a los militares entregar armas de su uso privativo a los civiles y constituir grupos armados de civiles coordinados por el ejército.
Entre 1962 y 1981: Durante estos 19 años se fue configurando el marco legal del paramilitarismo, principalmente entre 1965 y 1969. El 6 de septiembre de 1978 el gobierno de Turbay Ayala emitió el Decreto 1923 llamado Estatuto de Seguridad, que tenía como objetivo principal modificar el tratamiento jurídico del delito político: aumentó sus penas en forma desorbitada; sometió su enjuiciamiento a la jurisdicción penal militar, de manera que se borraron las fronteras entre el poder ejecutivo y el judicial; lo asimiló al delito común; y restringió sensiblemente el derecho de defensa. De 1977 al 1981 comienza a operar la Alianza Anticomunista Americana,  la Triple A, -en el marco de la Operación Cóndor-  y se generaliza la práctica de la desaparición forzada por parte de agentes del estado y paramilitares. En este periodo se consolida la alianza entre la fuerza pública y organizaciones narcotraficantes, utilizando las siglas del MAS, Los Tiznados, MRN, y otras, para crear “escuadrones de la muerte”.
El período que va de 1981 a 1989: La característica central de esta fase es la aparición pública, la consolidación y la expansión de estructuras paramilitares, claramente apoyadas y protegidas por la fuerza pública y los diferentes gobiernos que se sucedieron en ese lapso durante el cual estaba vigente el fundamento legal (Ley 48 de 1968), el cual es derogado en 1989, primero por el presidente Barco y luego declarado inconstitucional por la Corte Suprema el 25 de mayo de 1989. El primer caso conocido de la implicación de compañías económicas extranjeras en la organización de grupos paramilitares es el de la empresa petrolera Texaco en Puerto Boyacá y territorio Vásquez, a partir de 1983. Las empresas bananeras multinacionales de Urabá, agrupadas a través de UNIBAN, lograron acabar con el trabajo sindical en las plantaciones asesinando a más de 400 sindicalistas utilizando grupos paramilitares a fines de los 80 y comienzos de los 90. La compañía suiza Nestlé ha sido acusada de servirse de paramilitares para asesinar a sindicalistas en las negociaciones por el pliego colectivo.
Entre 1985 y 1989 el accionar paramilitar -marcadamente anticomunista y vinculado al narcotráfico- fue el instrumento de la guerra sucia y el genocidio de los movimientos políticos, entre otros, A Luchar, Frente Popular y la Unión Patriótica, grupo político nacido de los diálogos del presidente Betancur con las FARC EP (1982-1986)
Entre 1990 y 2002 gobernaron tres gobiernos enmarcados en la nueva Constitución Nacional de 1991. Los gobiernos de esta etapa fueron: César Gaviria Trujillo (1990- 1994); Ernesto Samper Pizano (1994-1998) y Andrés Pastrana Arango (1998-2002), todos tributarios del espíritu del Frente Nacional aunque ya no ligados a una alternancia pactada. A pesar de continuar la guerra sucia en este periodo, dos de estos gobiernos realizaron diálogos o negociaciones con organizaciones insurgentes,las cuales fracasaron dando lugar a posteriores períodos de intensa represión y victimización.
Los dos gobiernos del presidente Álvaro Uribe Vélez (2002–2010): Como en todo este período, la característica central es la persistencia de la estrategia paramilitar, que llegó en esta fase a su máximo desenvolvimiento.
El gobierno del presidente Juan Manuel Santos Calderón (2010–2014) trata de distanciarse del lenguaje violento de su antecesor, con el cual compartió no pocas decisiones que propiciaron situaciones de degradación de los derechos humanos, ejemplo de ello son losdenominados “falsos positivos”, ejecutados por miembros de la fuerza pública. Quizás la fuente más persistente de criminalidad del Estado en esta fase está muy ligada a su estrategia económica de permitir a las transnacionales el saqueo de los recursos naturales, de manera que genera en su accionar una destrucción generalizada del medio ambiente y de territorios ancestrales de comunidades étnicas y campesinas, todo lo cual requiere, por su misma dinámica, la presencia intensiva de estructuras paramilitares junto con estrategias decisivas de connivencia de la fuerza pública y demás autoridades.
Durante 30 años jamás se produjo un solo enfrentamiento o combate entre la Fuerza Pública y las estructuras paramilitares a pesar de la gravedad de su accionar criminal, siendo abundantes los casos acreditados por los tribunales de cooperación y coordinación militar sobre el terreno entre las Fuerzas Militares y los grupos paramilitares.
Es a partir de 1964 cuando surgen las principales organizaciones guerrilleras que seguimos actuando en Colombia, las FARC EP y el ELN.
[6] En la medida en que todas las víctimas puedan ser efectivamente reparadas atendiendo al tiempo transcurrido desde el inicio del conflicto y  a las dificultades de identificación de todas a ellas.
[7] Normas 1, 2, 5 y 6 de la Lista de las normas consuetudinarias del derecho internacional humanitario de la Cruz Roja.  International review of the Red Cross, Volúmen 87 número 857, marzo de 2006
[8] Principios y directrices básicas sobre el derecho de las víctimas de violaciones de las normas internacionales de derechos humanos y de violaciones graves del DIH a interponer recursos y obtener reparaciones”. Resolución aprobada por la Asamblea General de las Naciones Unidas el 16 de diciembre de 2005.
[9] Salvo en el caso de la masacre de Trujillo, respecto al cual el Presidente Ernesto Samper efectuó una declaración de reconocimiento de responsabilidad del estado para evitar la presentación de una demanda ante la Corte Interamericana, todos los pedidos de perdón efectuados por parte del estado han sido exclusivamente en cumplimiento de una obligación establecida en sentencia judicial.
[10] Delegación de Paz de las FARC EP. Comunicado “Nuestro compromiso con las víctimas del conflicto y sus derechos”. La Habana, agosto 13 de 2014. Leer comunicado
[11] “Sostenemos como evidentes estas verdades: que todos los hombres son creados iguales; que son dotados por su Creador de ciertos derechos inalienables; que entre éstos están la vida, la libertad y la búsqueda de la felicidad; que para garantizar estos derechos se instituyen entre los hombres los gobiernos, que derivan sus poderes legítimos del consentimiento de los gobernados; que cuando quiera que una forma de gobierno se haga destructora de estos principios, el pueblo tiene el derecho a reformarla o abolirla e instituir un nuevo gobierno que se funde en dichos principios, y a organizar sus poderes en la forma que a su juicio ofrecerá las mayores probabilidades de alcanzar su seguridad y felicidad.”
[12] “Art 35. Principio de insurrección: cuando el gobierno viola los derechos del pueblo, la insurrección es para el pueblo, y para cada porción del pueblo, el mas sagrado de sus derechos y el más indispensable de sus deberes.”
[13] “Considerando esencial que los derechos humanos sean protegidos por un régimen de Derecho, a fin de que el hombre no se vea compelido al supremo recurso de la rebelión contra la tiranía y la opresión”
[14] “Normas de comportamiento con las masas” Coordinadora Guerrillera Simón Bolívar. Estatutos FARC: Arts 6 , 7.  Reglamento FARC: Arts 1 y 3.
[15] “ Informe preliminar Foro Nacional de Víctimas, Cali, Agosto 3,4,5, de 2014. viii) Propuestas sobre garantías de no repetición”. Naciones Unidas. Universidad Nacional de Colombia.
[16] Resolución 1325/2000 del Consejo de Seguridad de las Naciones Unidas sobre representación y participación de las mujeres en los procesos de paz.
[17] “Informe del Relator Especial para la promoción de la verdad, la justicia, la reparación y las garantías de no repetición, Pablo de Greiff”. Consejo de Derechos Humanos de las Naciones Unidas. Documento A/HRC/21/46
[18] Idem.
[19] Doc. ONU E/CN.4/2005/102/Add.1
[20] La “justicia distributiva” para Aristóteles, tiene que ver con lo que es justo o correcto con respecto a la asignación de bienes en una sociedad
[21] El actual marco legislativo de la Ley 1448 de 2011 determina que si no hay acuerdo entre poseedores actuales de tierras y los reivindicantes, se acude a instancia judicial, jueces de tierras, en la jurisdicción civil. A fecha de hoy se han emitido aproximadamente 700 sentencias, equivale a una restitución efectiva de 25.000 has. Existen innumerables solicitudes pendientes de resolución ante la Unidad de tierras. Se vienen  aplicando los denominados criterios de “focalización”: se inician las restituciones en las zonas que considera el estado que reúnen condiciones para hacerlo. En la práctica esto ha provocado una violencia muy intensa contra los líderes de la restitución, habiendo sido asesinados a fecha de hoy más de  70 de estos líderes. La actual política de reparaciones del estado no solo tiene incoherencias internas sino que está afectando negativamente a otras políticas del estado. Por ejemplo, la entrega de 200.000 ha de baldíos a grandes empresas, o las posibles tensiones que aparecerán entre pobres no victimizados y víctimas de despojos de tierras que hayan sido reparadas. En todo caso, la demora en la reparación de víctimas provoca situaciones de exclusión social a estas.
[22] Distintos autores, entre ellos Alejandro Reyes y otros, expresan que la tarea de protección a personas amenazadas es una forma de asignar un rol más democrático a las FF.AA., a través de una tarea precisa, frente a poderes que localmente las han orientado “eventualmente” contra víctimas.
[23] “Declaración de Oslo sobre el Derecho a la Paz” de la UNESCO (1997)
[24] Delegación de paz de las FARC-EP, Comunicado, agosto 13 de 2014.
[25] Artículo 25: "(…) toda persona tiene derecho a un nivel de vida adecuado que le asegure, así como a su familia, la salud y el bienestar, y en especial la alimentación, el vestido, la vivienda, la asistencia médica y los servicios sociales necesarios..”
[26] Artículo 8 de la “Declaración sobre el derecho al Desarrollo”, AG de las NNUU, 1986.
Declaración de Roma sobre la Seguridad Alimentaria Mundial: “el derecho de toda persona a tener acceso a alimentos sanos y nutritivos, en consonancia con el derecho a una alimentación apropiada y con el derecho fundamental de toda persona a no padecer hambre.” (Cumbre Mundial sobre la Alimentación de 1996)
[27] Adoptado y abierto a la firma, ratificación y adhesión por la Asamblea General en su resolución 2200 A (XXI), de 16 de diciembre de 1966. Art 11.
[28] “Declaración y Programa de Acción de Viena de la Conferencia Mundial de Derechos Humanos” 25 de junio de 1993.