"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

"De que vale a vida se quando a temos ela parece morta. A vida é para ser senirmos, para vibrar, para lutar, para combater. Isso justifica nossa passagem pela Terra." (Jaime Pardo Leal)


segunda-feira, 20 de maio de 2013

La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 19 de maio de 2013 Nossa Lista de Mercado



Diz o presidente que as propostas que as FARC apresentam ante os meios de comunicação se parecem cada vez mais com uma Lista de Mercado.
Nos agrada a comparação, porque nos relembra a lista triste dos pobres quando vão comprar no armazém do vizinho produtos da cesta básica como arroz, chocolate ou azeite. E nossa gente não pede, por exemplo, meio quilo de arroz, mas sim 50 gramas; não meio quilo de chocolate – como deveria ser –, mas sim três barrinhas; não um frasco de azeite, e sim 2 onças... Por Deus! Não têm dinheiro para pagar o produto completo. Os que comercializam nos supermercados de camada seis não entendem isto. Não entendem a Juan Pueblo, entre consternado e angustiado, constatando que já não há “pão de a cem”. Só a perfídia do governo e de seus tortos burocratas da estatística esconde a subumana realidade para semear a falsa percepção de que o país progride. Os do governo dizem: “aumentamos as exportações”, porém não explicam que os que exportam nossas riquezas naturais e ficam com os lucros – que deveriam ser utilizados na solução de nossos graves problemas sociais – são as transnacionais.
Há pouco, o Departamento Administrativo Nacional de Estatística [DANE] anunciou a redução do número de pobres em 10 milhões. Esta suposta redução repentina de 30 para 20 milhões é uma farsa descarada. A acentuação das políticas neoliberais, o único que produz é miséria e mais desigualdade. De que cartola sacaria o mágico esse mentiroso e trêmulo coelho? Utilizando o índice neoliberal e tecnocrático do PIB para medir sua economia onde não se contabiliza para nada o índice de desenvolvimento humano nem a existência de uma crise humanitária gerada pelo terrorismo de Estado. 
As manipuladoras e instáveis variáveis de mediação que utilizam fazem com que a uma família que vive na favela, pelo fato de não pagar arrendamento – que pode custar 80.000 pesos – lhe somem esse “não gasto” como se fosse uma renda. Se uma pessoa trabalha duas horas por semana, ou se rebusca nas ruas, já é um empregado. Assim é que tiram, sem mais nem mais, o povo da pobreza. No entanto, por mais que depurem a base de dados do SISBEN, seus registros não baixam da cifra de 30 milhões de pobres num país de 46 milhões de habitantes.
Não importa que incomode ao governo, porém reiteramos ante o país a lista de mercado que queremos levar a nossos lares campesinos:
Remover a injusta concentração da terra em poucas mãos, que é a causa do conflito e da miséria do campo. Formalizar ou titular 9.5 milhões de hectares em mãos de campesinos organizados nas Zonas de Reserva Campesina. Desenvolver um tipo de mineração ligada ao investimento social, sem impactos negativos na produção de alimentos e no meio ambiente. Frear a estrangeirização da terra. Proteger a economia campesina frente ao TLC. Laboralização do trabalho rural que estabeleça um salário mínimo para os diaristas. Que aos trabalhadores do campo se lhes garanta direitos reconhecidos como o de previdência, saúde, educação, férias e seguridade social em geral. O campo colombiano deve modernizar-se privilegiando a economia campesina e abandonando de todas as maneiras suas irritantes expressões feudais.
Agora, estamos à espera das conclusões do Foro sobre Participação Política para armar uma nova lista de insumos que saciem a fome secular de democracia, desmilitarize o Estado e a sociedade, e permita ao Constituinte Primário, o povo soberano, construir com suas próprias mãos o tratado de paz que a Colômbia requer.
Nossa “Lista de Mercado” não sugere uma revolução por decreto, simplesmente reivindica os interesses mais sentidos das pobrezas e reclama o cumprimento, pelo menos, de normas constitucionais e legais vigentes.

DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP



Saudação da Delegação das FARC-EP ao Fórum Ecuménico pela Paz da Colômbia.

-->
 Participantes
do Fórum Ecumênico pela Paz.

Companheiras e Companheiros


O sangue de Abel o justo, clama desde a terra” e, é esse precisamente o mesmo clamor de justiça social, única forma possível da anseiada paz, escutado em nossa martirizada Colômbia


Desde Havana a Delegação de Paz das FARC-EP, saúda com sentimento pátrio o Fórum Ecumênico pela Paz, que estão realizando e, valora altamente o compromisso pela Paz em sua convocatória. É um aporte significativo ao incontenível torrente que se forja no país por construir soluções concretas ao conflito social e armado que sofremos.

“A justiça produzirá paz, tranquilidade e confiança para sempre”, citam vocês ao Profeta Isaías em sua convocatória e, nos identificamos plenamente, pois já não é secreto que um mundo justo, equitativo e com bem-estar para as maiorias é uma ensinamento do Nazareno.

Compartilhamos o propósito de unidade do movimento ecumênico colombiano, é esse o caminho para potenciar as ações empreendidas para vencer os obstáculos e as vontades adversas no caminho rumo à paz estável e duradoura. Portanto, teçamos nossas esperanças e proposta para cobrir a todas e todos com a conquista e desfrute dos plenos direitos.
A Mesa de Conversações em Havana é patrimônio dos colombianos do comum, de homens e mulheres de todas a idades, cores, crenças e condições sociais, trabalhistas e culturais. Defender essa Mesa é um direito e uma obrigação.

Nossa voz por ampliar a participação da cidadania nela tem obtido alguns frutos, mas ao igual que vocês, os consideramos insuficientes, é necessário ampliar dita participação. Insistiremos nisso, contem conosco para essa causa, por enquanto nos comprometemos a defender as propostas encaminhadas à solução diferente à guerra, que contem os direitos das maiorias, emanadas desse importante evento
Esperamos receber de vocês suas conclusões, propostas e iniciativas.

De cora
ção lhes desejamos êxitos.
__________________________
DELEGA
ÇÃO DE PAZ FARC-EP


sábado, 18 de maio de 2013

O quê foi injetado em Pablo Neruda? Dihidropiridina, Dipirona ou Dolopirona?






Por Mario Casasus


Mexico,DF – Em entrevista telefônica desde Viña del Mar, Chile, um médico chileno analisa o Caso Neruda, acrescenta dados desconhecidos sobre os seus contemporâneos e duvida que o medicamento aplicado a Pablo Neruda em 1973,  na Clinica Santa Maria: “Acho que deveriam procurar Nifedipina (Dihidropiridina) nos restos mortais do poeta que estão sendo examinados no Chile e nos EUA. Os laboratórios da Universidade da Carolina do Norte deveriam estender a busca para saber o que foi injetado em Neruda no dia 23 de setembro de 1973: Dihidropiridina, Dipirona, Dolopirona, ou outro componente tóxico. A vermelhidão da barriga após a injeção, como foi relatado, também é produzido pelo fármaco Dihidropiridina ao dilatar os vasos sanguíneos. Uma dose elevada pode ter matado Neruda”.

Depois de ver fotografias da época, de ouvir os antecedentes que combinam com o suposto assassinato de Neruda, após um par de videoconferências com o Colégio Médico e confirmar a identidade do médico, resolvi entrar em contato telefônico com o seu consultório. Devido à natureza da informação o médico chileno pediu anonimato. Confesso que, depois de mais de 400 entrevistas publicadas em clarín.cl, é a primeira vez que manterei em sigilo o nome do entrevistado e me faço totalmente responsável pela informação aqui apresentada. A identidade do entrevistado está confirmada e os indícios que ele apresenta poderiam esclarecer o Caso Neruda.

MC- Doutor, não acha estranho que a Clinica Santa Maria tenha perdido a ficha médica do paciente Pablo Neruda?

Dr. – Sendo a Clinica Santa Maria um estabelecimento ocupado militarmente, todos os funcionários estavam sob  “as ordens” da direção dos ocupantes – não necessariamente médicos - , isso ocorreu em todos os hospitais e clinicas após o golpe de Estado. Portanto, a documentação e o histórico clinico obtido durante essa ocupação, principalmente as fichas que eram do interesse da ditadura – nunca seriam arquivadas nas clinicas. Se a ficha médica de Neruda estiver em algum lugar, esse lugar é um arquivo militar e não nos arquivos da Clinica Santa Maria. O mais lamentável disto, se a hipótese do suposto assassinato de Neruda for correta, é pensar que o poeta involuntariamente entrou na boca do lobo acreditando que seria tratado em uma clinica segura.

MC -  O senhor conheceu alguma enfermeira do Caso Neruda?

Dr. – Lembro que uma enfermeira me disse que tinha sido designada para a Clinica Santa Maria proveniente do Hospital Militar e que, em 1974, a ditadura recompensou os seus serviços “herdando” a ela o apartamento mobiliado do Dr. Eduardo Paredes localizado na Av. Diagonal Paraguay, Edifício Torre San Borja. O Dr. Paredes foi detido em 11 de setembro de 1973 no Palácio de La Moneda e a viúva do Dr. Paredes foi desalojada e partiu para o exílio. Nunca esqueci a conversa com aquela enfermeira do Hospital Militar – ainda guardo as fotografias da época. Se investigarem os registros públicos de imóveis ou os endereços das enfermeiras da Clinica Santa Maria entenderam o que estou falando, pelo menos uma delas está ocultando seus vínculos com o Hospital Militar.  

MC -  De quem o senhor está falando?

Dr. – Eu lhe entrego os dados e as fotografias e vocês terão que investigar por exemplo: o que fazia a enfermeira na Clinica Santa Maria imediatamente após o golpe militar? Por que foi transferida do Hospital Militar? Quem era seu superior? Quem paga a sua aposentadoria? É imprescindível obter a lista completa das enfermeiras, médicos, auxiliares de limpeza e administradoresin que trabalharam na Clinica Santa Maria em setembro de 1973.

MC – O senhor conheceu o Dr. Sergio Draper?

Dr.- Não, ele diz que começou a trabalhar na Clinica Santa Maria em 20 de setembro de 1973, sendo que Neruda deu entrada no dia 19. Estranho não acha? Draper diz que deixou o seu paciente aos cuidados do “Dr. Price”, mas não se lembra do prenome do “Dr. Price”. Mas, insisto: conheci a enfermeira que recebeu como recompensa por seus serviços, o apartamento do Dr. Paredes que foi assassinado pela ditadura depois da sua detenção em 11 de setembro em La Moneda.

MC. -  O doutor Sergio Draper tem um consultório na Av. Salvador nº 130 – 3º andar, bairro de Providência, telefone 366-2000. O senhor gostaria de lhe fazer algumas perguntas?

Dr. – Não. Isso é da alçada da Policia de Investigações que deve esclarecer qual foi o papel de Sergio Draper no assassinato do presidente Eduardo Frei Montalva e no suposto assassinato de Neruda.

MC. – Nas três universidades chilenas da época, onde se podia estudar medicina, não existem registros de nenhum “doutor Price”, segundo a descrição de Sergio Draper, “Price” poderia se Michael Towley (agente da CIA). Como se pode localizar o “doutor” Price?

Dr.- Essa deve ser respondida por Sergio Draper, o “doutor” Price poderia ser um piloto de sobrenome Rose-Price, ou um coronel dos Carabineiros chamado Eduardo Price Quinteros, enfim, não sei. Mas insisto: a Clinica Santa Maria, como todos os postos de saúde, sofria a intervenção da ditadura, depois de lera descrição de “Price” e estudar as raras circunstâncias em que Pablo Neruda morreu, eu não descartaria uma investigação do doutor Harmut Hopp, patriarca da Colônia Dignidad, já que sabemos que Hopp tinha voltado dos EUA, tinha entre 28 e 29 anos e se “movia” livremente em clinicas, hospitais e laboratórios universitários tratando da documentação para revalidação do seu diploma, graças à sua posição de médico. Também tenho suspeitas contra o doutor Manfred Jurgensen Caesar (colaborador da Central Nacional de Inteligência). Lembro-me dele e encaixa perfeitamente na descrição do “doutor Price” e doeu ver o seu nome na lista dos médicos a serviço da ditadura, era uma pessoa simpática, mas tenho conhecido hipócritas piores. Ambos médicos – Hopp e Jurgensen – pareciam com o “doutor Price” e ambos trabalharam para a ditadura.     

MC. – O doutor Sergio Draper, em entrevista à revista Ñ (06/09/2011), declarou que injetou “dipirona” em Neruda; entretanto, Matilde Urritia disse ao jornal La Opinión que a injeção foi de “dolopirona” (05/05/1974). Qual medicamento produz os sintomas que aceleraram a morte de Neruda?

Dr. – Eu suspeito da substância Nifedipino – que na época era conhecida por uma sigla do laboratório Bayer: “Bay a 1040”. Em muitos lugares do mundo, incluído o Chile, o Nifedipino era injetado no abdome de animais de laboratório para obter dados científicos, antes de ser comercializado, com o nome Adalat, para determinar as doses via oral que não causem perigo a pacientes hipertensos. É um medicamento excelente, mas desde aquela época se sabia que matava quando as doses fossem elevadas. No Chile, os estudos com a substância injetável foram realizados em laboratórios universitários e, segundo sei, foi na Universidade Católica. Se as minhas suspeitas estiverem corretas, posso acrescentar que considero um truque das testemunhas ao falar em injeção de “Dipirona”; quiçá para argumentar um equivoco, pois o “Bay a 1040” tem um nome químico parecido: Dihidropiridina. Acredito que deveriam procurar Nifedipina (Dihidropiridina) nos restos mortais que estão sendo examinados no Chile e nos EUA, os laboratórios da Universidade da Carolina do Norte deveriam estender a busca para saber o que foi injetado em Neruda em 23 de setembro de 1973: Dihidropiridina, Dipirona, Dolopirona ou outro componente tóxico. A vermelhidão na barriga após a injeção, como foi dito, também é produzida pela substância Dihidropiridina ao dilatar os vasos sanguíneos e uma dose elevada pode ter matado Neruda.   

MC. – O que pensa dos primeiros exames forenses e a comunicação da metástase do câncer de Neruda?

Dr. – Pablo Neruda sofria de câncer de próstata, ninguém duvida do diagnostico de entrada à Clinica assinado pelo Dr. Vargas Salazar; o poeta foi operado duas vezes na França quando era Embaixador e, ao voltar ao Chile recebeu 56 sessões de radioterapia com cobalto ao longo de três meses ( no inicio de 1973), apesar da metástase Neruda podia viajar ao México em 24 de setembro, não havia razão para dizer que estava agonizante quando a sua esposa o deixou para ir buscar vários pertences em Isla Negra em 23 de setembro; o exílio no México já estava decidido e organizado. O que interessava aos supostos assassinos era impedir que Neruda saísse do Chile, porque haveria consequências que os militares queriam evitar. O importante é descobrir, depois de comprovar que os restos mortais são de fato de Neruda, se ainda é possível detectar substâncias que, injetadas no seu abdome, provocassem um choque – irreversível se não fosse tratado de imediato – como informou o jornal El Mercúrio em 24 de setembro de 1973. Mario, você diz que El Mercúrio retomou a informação do Boletim Médico da Clinica Santa Maria datado de 23 de setembro à noite, isso tem sentido, o estranho é que o Atestado de Óbito foi emitido no dia seguinte (24), assinado pelo Dr. Vargas Salazar que não estava de plantão na noite do dia 23, a Clinica não emitiu o Atestado de Óbito na noite do dia 23 e não informa o mesmo que o Boletim Médico da Clinica Santa Maria, retomado por El Mercúrio, La Tercera e La Prensa, todos de Santiago.  

MC. – È necessário comprovar que os restos mortais pertencem a Neruda? Isso não é obvio?

Dr. – A determinação do DNA é muito importante, os militares poderiam ter obtido um cadáver com metástase óssea; não é suficiente identificar os restos exumados de Neruda pela roupa ou pela cor do féretro.

MC. – Finalmente, o senhor estaria interessado em estudar os resultados da exumação de Neruda?

Dr. – Sim, os resultados dos exames são de interesse geral, pelas suas implicações judiciais e históricas; para os médicos os resultados serão matéria de estudo por anos, haverá que esperar um par de meses para que acabem as pesquisas forenses.







quinta-feira, 16 de maio de 2013

Delegação de paz FARC-EP: A Havana chegamos a superar, mediante o diálogo, os problemas que geraram a confrontação



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La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 15 de maio de 2013
 

A Havana chegamos com a finalidade de dialogar em função de superar, mediante o diálogo civilizado, as causas, os problemas de ordem social que geraram a confrontação, tal como o ordena o preâmbulo do acordo geral pactuado com o governo. Entre estes problemas, se conta a necessidade de uma reforma agrária estrutural, profunda, que é o assunto que durante longas jornadas tem ocupado nossa atenção e que felizmente já lança aproximações que esperamos sejam explicadas em breve, num comunicado conjunto que dê certezas a nossos compatriotas sobre os alcances esperançosos que até agora produzem os diálogos.
Hoje, reassumimos as conversações com maior disposição de avanço, com iniciativas dinâmicas que, como sempre, apontam a acelerar o ritmo de trabalho. Radicamos nossas 100 propostas mínimas para sua classificação oportuna, adequada a cada item do ponto um, e as reflexões que já quase permitem fechar os dois últimos aspectos referidos à laboralização do trabalho rural e da soberania alimentar. Assim as coisas, temos plena expectativa e desejo de abordar, o mais rápido, o segundo ponto, para cujo desenvolvimento já contamos com elaborações criativas que serão fortalecidas com as iniciativas que cheguem nas conclusões que lançou o foro que sobre tal tema se realizou em Bogotá. Isso em cumprimento do compromisso de escutar e fazer próprios os anseios do povo em nosso desempenho.
Assim estamos, e confiamos em que a delegação governamental virá com o mesmo ânimo e disposição.
Provado está que a estrutura latifundiária é a característica principal da espacialidade rural na Colômbia. Ela foi construída com procedimentos de despojo, violência, terror e morte, como espacialidade capitalista, gerando, ademais de miséria, profunda desigualdade, atraso, crise humanitária. Ela é causa fundamental da confrontação política, social e armada da qual padece a Colômbia. Sua solução de fundo será base para a construção da Paz estável e duradoura.
Queremos confiar em que, desta vez sim, surja um acordo que verdadeiramente aponte a realizar uma reforma rural estrutural, radical, cujos mecanismos de restituição, redistribuição e formalização, acompanhados de projetos integrais de desenvolvimento tenham êxito e acabem com a constante da titulação de terras inúteis que só tenha o propósito de não tocar nos interesses dos grandes proprietários.
Queremos confiar em que este processo não terminará num cenário de bancarização ou de estímulo a um mercado de terras que derive em despojo legal de benefício final para as transnacionais ou para os latifundiários locais, ou em que as alianças entre os pequenos campesinos ou possuidores rurais com os detentores do “músculo financeiro”, mediante a chamada associatividade, não termine convertida num esquema de aliança da raposa com a galinha.
Desde as FARC-EP seguiremos insistindo no fortalecimento da pequena e média propriedade com garantias de subsistência, de permanência, reiterando na defesa e no fortalecimento das Zonas de Reserva Campesina, impedindo a destruição ou o enfraquecimento que se tentou mediante normas como as que se plasmaram no PND 2010-2014, e outros instrumentos que dele derivam. Há que insistir, então, na ampliação e no fortalecimento destas ZRCs, o mesmo que das comunidades afro e os resguardos indígenas, respeitando suas entranhas socioculturais, sua territorialidade, sua tradição e seus direitos a acessar aos conhecimentos, recursos, serviços, técnicas e instrumentos de todo tipo que lhes permita acrescer a produtividade, o tecido social e a sustentabilidade ambiental.
Sobretudo, há que insistir na necessidade de formalizar todas as terras que hoje estão em mãos dos campesinos, exigindo ao menos o cumprimento das próprias normas institucionais que tão pertinazmente são açoitadas pelo Ministério da Defesa em detrimento da população rural.
Consideramos fundamental para o desenvolvimento sustentável do campo colombiano e do conjunto da sociedade a defesa das Unidades Agrícolas Familiares [UAF] como unidades de território, suficientes, necessárias para a sustentação digna da família como célula do tecido social.
O governo deverá olhar em que se, em verdade, deseja construir caminhos de entendimento, não pode repetir os erros do passado no que concerne a matéria de reforma agrária. Não se pode evitar uma nova etapa de recolonização e violência para não tocar o latifúndio, não se pode iniciar um novo ciclo de desapossamento e acumulação e muito menos se deve insistir na estrangeirização da terra, na depredação mineiro-energética, em não olhar para a busca das soluções alimentares desde o conceito de soberania.
Dentro destes parâmetros é que se deve entender o trânsito para um novo estágio social de justiça e paz, estável e duradoura. Assim as coisas, a essência da transição está na construção impreterível da justiça social em meio da desmilitarização da sociedade e do Estado, em meio do reconhecimento governamental de sua responsabilidade histórica na geração da violência, em meio do ressarcimento das vítimas do conflito por parte do atribuível último, que é o Estado, em meio do estabelecimento de uma verdadeira democracia que abra espaços de participação e decisão cidadã nos destinos do país, mediante uma Assembleia Nacional Constituinte que se erija em sólido tratado de paz.


DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
Quarta-feira, 15 de maio de 2013