"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quarta-feira, 4 de março de 2015

O ciclo 33 iniciou com novos apoios ao processo de paz. - O que se passa em Cuba


Por Matías Aldecoa

Se o ciclo 32 dos Diálogos de Havana entre o governo colombiano e as FARC-EP resultou ser muito fechado, o ciclo 33, iniciado na quarta-feira 25 de fevereiro, abre com o ativo respaldo da comunidade internacional ao processo de paz, o que o converte num ciclo atípico, que viu alterado seu habitual ritmo de 3 dias consecutivos de trabalho, seguidos de um dia de descanso.
Se destaca nesse sentido a chegada a Colômbia e a Havana do ex-secretário-geral das Nações Unidas e prêmio Nobel da Paz, Kofi Annan; do senhor Bernard Aronson, enviado especial do governo dos Estados Unidos para os diálogos de paz; e do prêmio Nobel da Paz [1987] e ex-presidente da Costa Rica, Oscar Arias Sánchez, quem também esteve em Colômbia.
A presença destas personalidades em distintos eventos e em conversações com as partes causou impacto político favorável em relação com os diálogos de Havana, o que, sem dúvida, terá incidência na opinião nacional e internacional a favor do processo.
O senhor Oscar Arias, em suas declarações, se mostrou partidário de um cessar-fogo bilateral; respaldou a busca de uma fórmula de justiça que reconheça a supremacia do direito à paz; e estima que são as condições próprias do conflito colombiano as que devem determinar os termos do acordo.


    Os intercâmbios com Kofi Annan.

Kofi Annan, quem em Colômbia se reuniu com o presidente Santos, anunciou um decidido respaldo aos Diálogos, e disse que é necessário envolver a todos os colombianos no processo de paz, que “a justiça não pode ser um impedimento para a paz” e que somos os colombianos quem devemos encontrar a forma de justiça mais adequada, de acordo com as próprias circunstâncias: “o modelo de justiça deve ser acordado por ambas as partes”.
Já na cidade de Havana, no dia 26 de fevereiro, o ex-secretário-geral da ONU sustentou em horas da tarde uma reunião com o Secretariado Nacional das FARC-EP, na qual intercambiaram opiniões sobre o processo de paz.




   
Kofi Annan na Mesa recebeu o informe da Comissão Histórica.
Na sexta-feira 27 de fevereiro, o senhor Kofi Annan, depois de ter se reunido com representantes do Governo, assistiu a uma sessão da Mesa com ambas as Delegações nas instalações do emblemático Hotel Nacional de Havana.
No recinto, o chefe da comissão de paz das FARC-EP, Iván Márquez, deu leitura ao documento “Para um segundo intercâmbio de ideias”.
O documento se centra em sustentar a legitimidade do direito à rebelião dos povos, qualificado como “direito de direitos”, ao qual se recorre “quando as condições históricas, de classe, de desigualdade e perseguição afligem a alma e a própria dignidade da pessoa e do cidadão”.
Após a reunião, o ex-secretário-geral da ONU concedeu uma rodada de imprensa na qual avaliou os avanços no processo de Diálogo e chamou as duas partes a continuarem fazendo esforços para alcançar um acordo.
A paz é assunto de todos”, disse, e acrescentou que “terminar um conflito não é fácil, as paixões e tensões que conduziram à guerra não desaparecem instantaneamente”.

As propostas das FARC-EP sobre vítimas.
Por outra parte, na manhã da quarta-feira 25 de fevereiro, no Palácio de Convenções de Havana, o comandante Pastor Alape, da delegação de paz das FARC-EP, ante um considerável número de jornalistas, deu leitura ao documento intitulado “Definição combinada de mecanismos e instrumentos de justiça para garantir os direitos das vítimas do conflito”.
Ao enumerar nove parágrafos da oitava proposta sobre vítimas do conflito, o comandante guerrilheiro disse que os critérios de justiça a aplicar no marco do fim do conflito devem ser combinados entre ambas as partes; que deve-se manter o asserto que a “responsabilidade principal” é imputável ao Estado e a outros atores políticos, econômicos e militares que detêm o poder. Depois ressaltou sobre a necessidade do “reconhecimento amplo do delito político e do direito à rebelião, incluídas as conexidades, com tudo o que isso implica”.
No dia seguinte, quinta-feira 26 de fevereiro, no Palácio de Convenções, o comandante Pablo Catatumbo continuou dando a conhecer novas propostas das FARC-EP acerca do tema de justiça para os rebeldes.
A circunstância de o Estado colombiano ter a responsabilidade fundamental no conflito ilegitimou e minguou a capacidade de exercer justiça. Também porque é uma verdade inquestionável que essa responsabilidade é compartilhada não só por todos os órgãos do poder público e demais instituições como também pelos partidos políticos, grêmios econômicos, meios massivos de comunicação e os sucessivos governos dos EUA.
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Levando em conta esta realidade, o comandante Pablo Catatumbo propôs, em nome das FARC-EP, “a organização e realização de um debate nacional acerca da justiça nestes casos”, debate em que deve participar de forma “direta e ativa” a organização guerrilheira.
Finalmente, o comandante Pablo Catatumbo reivindicou o reconhecimento da função de Estado que as FARC-EP têm exercido.


   
O enviado especial do governo dos EUA.
No dia 27 de fevereiro, depois de sustentar uma entrevista com o presidente Santos na casa de Nariño, o comissionado Bernard Aronson viajou para Havana, onde sustentou no dia seguinte um encontro confidencial com os membros do Secretariado que se encontram em Havana, fazendo parte da delegação de paz das FARC-EP.
A participação norte-americana no Processo, através de seu enviado especial, adquire importância, dado que os Estados Unidos têm estado presentes no conflito colombiano desde as origens, e no transcurso dele têm interferido doutrinária, financeira, política e militarmente; portanto, é de se esperar que preste seu concurso na construção de um acordo e na consolidação da paz.



   
Discussão do ponto 3, Fim do conflito

Para os dias 4 e 5 de março, se espera o início de trabalhos da Subcomissão Técnica, integrada por comandantes guerrilheiros e oficiais das forças armadas da Colômbia.
Como se sabe, a tarefa desta subcomissão é elaborar propostas referentes ao cessar-fogo bilateral e deixação das armas. Se espera que na primeira reunião da subcomissão se ouçam os primeiros expertos internacionais sobre os temas mencionados, reuniões nas quais participarão os países garantidores.
Este é o novo contexto onde FARC-EP e Governo trabalham para chegar a consensos no ponto de Vítimas.

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Equipe ANNCOL - Brasil


Colômbia propôs ao Estados Unidos repatriar “Simón Trinidad”


Fuente: pacocol.org
O ex-chanceler israelense e assessor internacional do processo de paz de Havana, Shlomo Ben Ami, confirmou nesta segunda-feira que o Governo apresentou aos Estados Unidos a possibilidade de explorar uma repatriação do chefe guerrilheiro Ricardo Palmeira, “Simón Trinidad”.
A guerrilha tem a ilusão de que se liberte a Simón Trinidad e isso também se mencionou à administração norte-americana. É uma administração que manda e impõe ao sistema judicial”, disse Ben Ami.
Não em vão, a proposta tem eco em alguns setores, pois nas panelinhas políticas já se disse que as constantes visitas do Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, assim como a designação de um Delegado Especial ao processo de paz, poderiam conjurar o favor político de repatriar a “Trinidad” em meio a negociação.
O ex-diplomata israelense disse que a presença de “Trinidad” na mesa, assim como seu regresso ao país, tem sido uma das solicitações da guerrilha para terminar o conflito no país.
O processo tem que acabar o mais rápido possível e o Presidente [Santos] tem que gestionar parte do pós conflito [...], não vai ser fácil ver alguns membros das FARC no Parlamento. Porém, é um preço que há que pagar”, disse o experto ao referir-se à eventual participação política da guerrilha após a firma da paz.
Em janeiro de 2014 as FARC solicitaram ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha [CICV] que realizasse uma visita humanitária ao guerrilheiro “Simón Trinidad”, denunciando as más condições de sua reclusão.
Num comunicado pediram às autoridades estadunidenses que melhorassem para ‘Trinidad’ suas condições de reclusão e ao Governo colombiano que possibilite sua incorporação à delegação de paz da guerrilha em Havana.
No domingo passado, o presidente da República, Juan Manuel Santos, afirmou numa entrevista com o diário espanhol El País que buscará interceder com os Estados Unidos para que os representantes e membros das FARC não sejam extraditados para este país.
Temos que encontrar uma solução, ninguém que vai entregar as armas para ir morrer num cárcere norte-americano. Isso é totalmente irrealista. Isso já é uma responsabilidade minha em minhas relações com os Estados Unidos de buscar uma solução para isso”, indicou o Chefe de Estado. E afirmou que é um tema “que, sem dúvida alguma, teremos que abordar agora na justiça transicional”, assegurou.
Eles vão perguntar: que vai passar conosco, vão nos extraditar? E eu tenho que dizer-lhes: pois, vamos buscar a forma para que não. No fundo, a justiça não pode ser um obstáculo para a Paz”, indicou Santos.
Santos também se referiu ao primeiro encontro entre o enviado especial dos Estados Unidos aos diálogos de paz, Bernard Aaronson, e os delegados das FARC. E acrescentou que cinco militares viajarão a Havana para tratar do cessar-fogo bilateral com as FARC.
Amanhã viajam cinco membros da subcomissão que se estabeleceu para discutir o cessar-fogo definitivo. Se vai discutir em forma simultânea vítimas, justiça transicional e o fim do conflito propriamente dito: desarmamento, desmobilização e reintegração. Neste ponto, o cessar-fogo tem que ser negociado nuns termos muito claros. Decidimos que sejam os próprios militares do serviço ativo os que viajem a Havana. Eu decidi desde um princípio manter os militares informados sobre a evolução do processo e assim seguiremos”, acrescentou.
Além disso, o ex-presidente César Gaviria defendeu sua proposta de justiça transicional para todos. Disse que a Corte Penal internacional não pode ser um inimigo da paz e disse que o país tem que adotar sua própria forma de justiça transicional.
O ministro para o pós conflito, o general reformado Óscar Naranjo, afirmou que há que romper o paradigma de que justiça é só o cárcere.
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Equipe ANNCOL - Brasil

Quem tem medo de Lula?


Por Emir Sader



A direita – midiática, empresarial, partidária, religiosa – entra em pânico quando imagina que o Lula possa ser o candidato mais forte para voltar a ser presidente em 2018. Depois de ter deixado escapar a possibilidade de vencer em 2014, com uma campanha que trata de colocar o máximo de obstáculos para o governo de Dilma – em que o apelo a golpe e impeachment faz parte do desgaste –, as baterias se voltam sobre o Lula.



De que adiantaria ajudar a condenar a Dilma a um governo sofrível, se a imagem do Lula só aumenta com isso? Como, para além das denuncias falsas difundidas até agora, tratar de desgastar a imagem de Lula? Como, se a imagem dele está identificada com todas as melhorias na vida da massa da população? Como se a projeção positiva da imagem do Brasil no mundo está associada à imagem de Lula? Como se a elevação da auto estima dos brasileiros tem a ver diretamente com a imagem de Lula?



Mas, quem tem tanto medo do Lula? Por que o ódio ao Lula? Por que esse medo? Por que esse ódio? Quem tem medo do Lula e quem tem esperanças nele? Só analisando o que ele representou e representa hoje no Brasil para entendermos porque tantos adoram o Lula e alguns lhe têm tanto ódio.



Lula deu por terminados os governos das elites que, pelo poder das armas, da mídia, do dinheiro, governavam o pais só em função dos seus interesses, para uma minoria. Derrotou o candidato da continuidade do FHC e começou uma serie de governos que melhoraram, pela primeira vez, de forma substancial, a situação da massa do povo brasileiro.



Quem se sentiu afetado e passou a odiar o Lula? As elites politicas que se revezavam no governo do Brasil há séculos. Os que sentiram duramente a comparação entre a formas deles de governar e a de Lula. Sentiram que o Brasil e o mundo se deram conta de que a forma de Lula de governar é a forma de terminar com a fome, com a miséria, com a desigualdade, com a pobreza, com exclusão social. Eles sofrem ao se dar conta que governar para todos, privilegiando os que sempre haviam sido postergados, é a forma democrática de governar. Que Lula ganhou apoio e legitimidade, no Brasil, na América Latina e no mundo justamente por essa forma de governar.



Lula demonstrou, como ele disse, que é possível governar sem almoçar e jantar todas as semanas com os donos da mídia. Ele terminou seu segundo mandato com mais de 80% de referências negativas na mídia e com mais de 90% de apoio. Isso dói muito nos que acham que controlam a opinião publica e o pais por serem proprietários dos meios de comunicação.



Lula demonstrou que é possível – e até indispensável – fazer crescer o pais e distribuir renda ao mesmo tempo. Que uma coisa tem a ver intrinsecamente com a outra. Que, como ele costuma dizer, "O povo não é problema, é solução". Dinheiro nas mãos dos pobres não vai pra especulação financeira, vai pro consumo, para elevar seu nível de vida, gerando empregos, salários, tributação.



Lula mostrou, na pratica, que o Brasil pode melhorar, pode diminuir suas desigualdades, pode dar certo, pode se projetar positivamente no mundo, se avançar na superação das desigualdades – a herança mais dura que as elites deixaram para seu governo. Para isso precisa valorizar seu potencial, seu povo, elevar sua auto estima, deixar de falar mal do país e de elogiar tudo o que está lá fora, especialmente no centro do capitalismo.



Lula fez o Brasil ter uma política internacional de soberania e de solidariedade, que defende nossos interesses e privilegia a relação solidaria com os outros países da América Latina, da África e da Ásia.



Lula foi quem resgatou a dignidade do povo brasileiro, de suas camadas mais pobres, em particular do nordeste brasileiro. Reconheceu seus direitos, desenvolveu politicas que favoreceram suas condições de vida e uma recuperação espetacular da economia, das condições sociais e do sistema educacional do nordeste.



Lula é odiado porque deveria dar errado e deixar em paz as elites para seguirem governando o Brasil por muito tempo. Um ódio de classe porque ele é nordestino, de origem pobre, operário metalúrgico, de esquerda, líder máximo do PT, que deu mais certo do que qualquer outro como presidente do Brasil. Odeiam nele o pobre, o nordestino, o trabalhador, o esquerdista. Odeiam nele a empatia que ele tem com o povo, sua facilidade de comunicação com o povo, a popularidade insuperável que o Lula tem no Brasil. O prestígio que nenhum outro político brasileiro teve no mundo.



A melhor resposta ao ódio ao Lula é sua consagração e consolidação como o maior líder popular da historia do Brasil. A força moral das suas palavras – que sempre tentam censurar. Sua trajetória de vida, que por si só é um exemplo concreto de como se pode superar as mais difíceis condições e se tornar um líder nacional e mundial, se se adere a valores sociais, políticos e morais democráticos.
Quem odeia o Lula, odeia o povo brasileiro, odeia o Brasil, odeia a democracia.



O Lula é a maior garantia da democracia no Brasil, porque sua vida é um exemplo de prática democrática. O amor do povo ao Lula é a melhor resposta ao ódio que as elites têm por ele.


Fonte: Carta Maior

terça-feira, 3 de março de 2015

Estados Unidos aceleram o golpe em Venezuela


TELESUR


26 fevereiro 2015






O plano golpista denominado Operação Jericó foi abortado pelos órgãos de segurança bolivarianos nos dias 11 e 12 de fevereiro últimos. Entre os objetivos contemplados pelo plano estava o ataque ou bombardeio ao Palácio de Miraflores, ao Ministério de Defesa e Telesur. Dizem que na guerra a primeira vítima é a verdade e os Estados Unidos já tiveram que sofrer várias vezes importantes derrotas midiáticas, como no golpe contra o presidente hondurenho Manuel Zelaya, graças às verdades difundidas pela Telesur in loco. Os principais implicados na conspiração foram detidos, entre eles militares reformados e na ativa. Suas declarações e a investigação dos fatos conduziram dias depois à detenção e ao processo de Antonio Ledezma, prefeito metropolitano de Caracas.
Há mais ou menos um ano também foi detido Leopoldo López, quem pouco antes tinha chamado desde Miami a “adiantar a saída do governo... e que Nicolás Maduro tem que sair imediatamente da Presidência da Venezuela... como vamos esperar seis anos mais... não podemos assumir uma atitude própria de um sistema democrático”. López é o responsável pelo desencadeamento em janeiro de 2015 de “La Salida” [A Saída], um plano desestabilizador que iniciou com protestos estudantis de universidades privadas e rapidamente tomou um aspecto de extrema violência, que custou a vida de 43 pessoas, entre elas militantes chavistas e membros dos corpos de segurança. Nas chamadas guarimbas [barricadas onde se utilizava uma violência feroz contra simpatizantes chavistas, membros de corpos de segurança ou simples transeuntes] intervieram ativamente mercenários, incluindo paramilitares colombianos, entre eles francoatiradores que com seus disparos ocasionaram várias mortes. No caso dos graves distúrbios na cidade de San Cristóbal, foi fundamental a atuação dos paramilitares colombianos e de delinquentes remunerados.



Vi em Caracas o indignado clamor de membros do Comitê de Vítimas das Guarimbas para que se faça justiça aos responsáveis por esses atos de violência.
Ledezma é o protótipo do político sem escrúpulos do velho partido Ação Democrática. Como López, foi cúmplice do derrotado golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez em 2002, porém ambos se beneficiaram da generosa anistia do comandante. De modo que suas atividades golpistas os converteram em reincidentes.
Assim como Atilio Borón, cabe perguntar se estes personagens teriam corrido igual sorte nos Estados Unidos por terem tentado ali a derrocada do governo. (www.cubadebate.cu/opinion/2015/02/22/conspirar-en-estados-unidos).
Em sua Doutrina de Segurança Nacional de fevereiro deste ano, diz o presidente Obama: “Nós apoiamos aos cidadãos cujo pleno exercício da democracia está em perigo, como os venezuelanos”. Eis aqui a explicação do extraordinário incremento das ações golpistas contra a Venezuela bolivariana, um dos países mais democráticos do mundo desde a chegada de Hugo Chávez à presidência.
O golpismo se intensificou sobretudo a partir da eleição do presidente Maduro em abril de 2013. Washington e as oligarquias decidiram jogar toda a carne no espeto para destruir a Revolução Bolivariana, aproveitando a muito sensível ausência física de seu líder histórico. Desde esse momento a violência brota periodicamente com o pano de fundo de uma colossal campanha midiática internacional de descrédito contra o governo bolivariano, ainda maior que a levada a cabo desde a primeira campanha eleitoral de Chávez [1998] até seu decesso. Seus protagonistas principais são os principais diários e televisoras dos Estados Unidos e da Europa, El País de Madri e seus homólogos da Sociedade Interamericana de Imprensa, CNN em espanhol, Televisa e seus iguais na região.
Quem pagou e continua pagando mercenários por realizar ações violentas em Venezuela?
A oposição venezuelana detesta a democracia, porém as instruções de Washington a levam a transitar descaradamente de reiterados e –ultimamente- constantes intentos de derrocar ao governo bolivariano, ao usufruto do “melhor sistema eleitoral do mundo”, segundo a definição do ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter. A oposição governa nuns quantos estados, em numerosos municípios e tem uma importante, ainda que minoritária, representação na Assembleia Nacional.
Parte importante das ações golpistas tem sido o desabastecimento, provocado pelos grandes empresários que retêm ou contrabandeiam para a Colômbia os produtos subsidiados da cesta básica que compram com dólares vendidos a preço preferencial pelo governo venezuelano.
Na planificação do golpismo contra Venezuela participam ativamente os Estados Unidos e suas embaixadas em Caracas e Bogotá. O governo bolivariano apresentou um intercâmbio de correios eletrônicos entre o embaixador ianque em Colômbia e a líder opositora María Corina Machado em que se evidencia um importante financiamento enviado por aquele para esta para romper os “anéis de segurança”, supostamente do presidente Maduro e de outros líderes revolucionários.
Washington utiliza também a fundações como o Instituto Nacional Democrata e o Instituto Nacional Republicano ou solicita a colaboração de personagens de confiança como os ex-presidentes Álvaro Uribe, Sebastián Piñera, Andrés Pastrana ou Felipe Calderón para encobrir sua liderança golpista. Destaque à parte merecem os legisladores cubano-estadunidenses Ileana Ross-Lehtinen, Mario Díaz Balart, Marcos Rubio e Robert Menéndez, todos célebres militantes da contrarrevolução em Venezuela.
O propósito dos planos golpistas, se não tiverem êxito no curto prazo, é criar uma situação de angústia e desgosto no povo venezuelano que propicie a perda da maioria parlamentar pelo chavismo nas eleições deste ano e assim criar um clima de anarquia e ingovernabilidade ao presidente Maduro. Estão brincando com fogo e podem sair com as mãos queimadas.

Twitter:@aguerraguerra

Tradução de Joaquim Lisboa Neto

segunda-feira, 2 de março de 2015

Coluna semanal do sociólogo James Petras


A ideia dos Estados Unidos É não assinar um acordo. A principal meta é desarmar as FARC”.
MAB: Existem muitos temas e queremos tentar abarcar o maior número possivel deles. Assim, podemos começar pela Venezuela.

JP: A questão da Venezuela é muito clara. Os Estados Unidos aumentaram os esforços para tombar o governo utilizando todos os mecanismos disponíveis, inclusive a força, a violência de rua, as mobilizações das grandes empresas comerciais para provocar o desabastecimento. E também a propaganda midiática, onde toda a imprensa está atuando em conjunto com os Estados Unidos, acusando o governo de autoritarismo porque começou a prender os golpistas que atuam em vários cargos, inclusive o prefeito de Caracas, o senhor Antonio Ledesma, que assinou um documento público fazendo uma chamada para derrubar o governo.

Esta política surte efeito porque está aproveitando a crise econômica com a queda do preço do petróleo para criar uma imagem de um país deteriorado e um presidente incompetente.

Por fim, o governo começou pelo menos a tomar algumas medidas para estabilizar a Economia, mas são muito duras. Por exemplo, a desvalorização aumentou o custo de vida para as pessoas comuns.

Também estão tomando medidas fortes utilizando o controle dos aparatos estatais, a fim de castigar os que estão tentando destruir a democracia. E esta intervenção governamental recebe muitos aplausos da grande maioria do povo que está contra a impunidade da oposição, que faz o que faz pensando que não pode ser castigada.

Agora, com as últimas intervenções de Maduro se tem mais confiança que o governo está à altura de tomar medidas, para proteger a democracia e o direito do governo de governar.


MAB: Como você vê a reação nos outros países da América Latina e no mundo em geral frente a isto que ocorre na Venezuela?

JP: Todas as organizações internacionais, sem exceção, particularmente as da América Latina, apoiam as medidas do governo, inclusive a necessidade de tomar medidas policiais contra os golpistas. Se alguém tentar analisar, por exemplo, os vários grupos, grupos não alinhados que representam mais de 100 países, respaldam o governo e denunciam o golpismo norte-americano. Porém, isso não aparece em nenhum meio de comunicação, nem na BBC, nem no New York Times que apresentam a opinião do mundo e das organizações latino-americanas. Simplesmente apresentam o assunto como uma repressão do governo sem uma razão.

A guerra propagandística é muito forte e tenta demonizar o governo para justificar e defender os golpistas, para que estes tenham as mãos livres. E a oposição internacional ao golpismo é muito importante, porque mostra que o governo de Maduro, diplomaticamente não está isolado. Neste momento, o golpismo norte-americano não tem nenhuma ressonância na América Latina, porém segue adiante. Obama, como um louco violento, pensa que tudo pode ser resolvido com a força.

Assim como fizeram na Ucrânia, organizaram um golpe. Querem repetir, agora na Venezuela, o mesmo processo de propagandear contra o governo, demonizar e, depois, lançarem-se com mãos livres a atacar o governo e tomar o controle do poder.


MAB: Fala-se de ‘golpe brando’ na Venezuela e na Argentina. É possível classificá-los assim?

JP: Começam brandos. Ou seja, utilizam a legalidade para influenciar a opinião pública, organizam marchas supostamente pacíficas, mas, de repente, encontram outra oportunidade de lançarem-se com medidas econômicas de desabastecimento, especulação, pressões de empréstimos e tudo mais, para enfraquecer o governo com medidas econômicas.

Então, primeiro protestos legais, depois medidas econômicas e, posteriormente, visam formar uma aliança com setores militares para tomar o poder. Por isso, não se pode separar as medidas brandas da trajetória violenta.

É um processo, então, não se pode terminar o debate dizendo que é um ‘golpe brando’. Porque ‘um golpe brando’ tem os mesmos efeitos que um golpe duro. Ou seja, vão reverter as mudanças sociais, as medidas progressistas, a independência da política exterior e voltar ao que podemos chamar de ditadura do capital, do capital selvagem, que pode resultar em um retrocesso de tudo o que o povo ganhou nos últimos anos.


MAB: Neste marco, Petras, soube-se esta semana que os EUA nomearam um representante para sentar-se à mesa das negociações de paz da Colômbia, que ocorre em Havana. E os EUA designaram, a pedido do governo da Colômbia, um enviado especial, Bernard Aronson.

JP: Sim, Bernard Aronson tem uma trajetória muito sinistra. No passado, esteve envolvido de muitas formas no apoio ao neoliberalismo, aos governantes autoritários na América Central, como padrinho dos chamados “tratados de paz”.

Então, está lá para garantir que não haja nenhuma concessão consequente por parte do governo para as FARC; quer assegurar que as FARC vão se subordinar à política imperialista na América Central, como em El Salvador, na Guatemala. Não é nenhuma figura neutra. É um partidário da militarização da Colômbia, da repressão à insurgência popular e, também, busca aprofundar o livre comercio e os tratados bilaterais entre Wall Street e Bogotá.

Aronson é um personagem sinistro e não podemos nos iludir que os EUA estão como ‘observadores’. Estão atuando nas negociações em Havana, assegurando que o governo faça o mínimo de concessões. E a linha dos EUA é, simplesmente, não assinar um pacto, mas fazer com que os dirigentes guerrilheiros sejam presos supostamente pelos crimes de guerra. Enquanto isso, os milhares de oficiais, civis, o ex-presidente (Álvaro) Uribe – que são os verdadeiros culpados, os assassinos políticos – são os principais aliados de Aronson.


MAB: Sim, tanto Aronson quanto Roberta Jacobson e John Kerry pediram às FARC e ao ELN que demonstrem seu valor renunciando à violência para sempre, eliminando-os.

JP: Sim, desarmá-los e matá-los. Eu acredito que é a trajetória.

Uma vez que estejam desarmados, vão sofrer a forte repressão. A ideia de desarmar as FARC é a principal meta, não é nenhum acordo. E os acordos assinados são irrelevantes porque uma vez que o governo desarme as FARC, uma vez que comece a controlar o território, vai continuar com a repressão política favorecendo a minoria, as grandes empresas petroleiras e de carvão. E deixar toda a retórica de paz e os acordos para trás.


MAB: A imprensa diz, com base nos comunicados do Exército da Colômbia, que ontem mataram 3 guerrilheiros no sul do país, na Colômbia.

JP: Sim, diariamente ocorre algum ataque nas comunidades progressistas no campo. Tanto as comunidades indígenas como as de camponeses vêm sofrendo muitas invasões. Além das muitas vítimas da guerrilha, existem as da Marcha Patriótica e de outras organizações populares.

No ano passado, mais de quatro dezenas de ativistas de direitos humanos sofreram ataques, assassinatos, encarceramentos.

Então, a guerra na Colômbia continua, apesar das conversações de paz em Havana. Existe uma tática dupla aqui: falar de paz em Havana e continuar a guerra na Colômbia.


MAB: E todos estes temas que estamos abordando referem-se às relações dos EUA com a América Latina, Venezuela, Argentina, Colômbia.

Hoje, lemos que aumenta a presença militar dos EUA no Peru, que passa de 125 soldados para 3.200
.

JP: A militarização está em marcha, por varias razões.

Primeiro, o outro lado da moeda é que o Peru arde agora com muitas mobilizações populares, protestos, tanto no campo, como nas comunidades, frente à mineração em larga escala, como nas cidades. E frente às mobilizações populares, os EUA estão fortalecendo a mão repressiva do governo de Humala.

Os processos de direitização na América Latina e a repressão estão em ascensão. Podemos vê-los, por exemplo, na mobilização supostamente em memoria de Nisman, na Argentina. Podemos vê-los nas campanhas de desestabilização na Venezuela. Podemos vê-los na militarização da Colômbia.

Eu acredito que a explosão dos escândalos no Brasil é outro fator detonante de recuperação da direita.

De toda forma é uma extensão da militarização global dos EUA com a intervenção na Síria, com a extensão de drones utilizados no Iêmen, a volta de tropas ao Afeganistão. Tudo é uma nova onda direitizante de Obama, que quer impor o poder norte-americano a partir da força e violência, não a partir de negociações de paz.

Eu acredito que o terror global dos EUA provoca o terror individual em seu próprio país.


MAB: Esta semana muda a Presidência do Uruguai. Sai José Mujica e assume Tabaré Vázquez.

JP: Sim, existe um discurso de Mujica que me parece interessante e gostaria de comentá-lo.

Mujica disse uma coisa que é verdade, porém em jogo. Disse que “a geração espontânea não cria sociedades justas” e cito textualmente: “é preciso vontade humana organizada para esta transformação”. Certo.

Porém, que tipo de política deve ter a organização humana visando uma transformação? Obviamente, a Frente Ampla é uma organização, porém ninguém pode dizer que durante a presidência de Mujica tivemos uma transformação. A única transformação foi que entregaram a metade do território produtivo aos grandes investidores estrangeiros, que formam os consórcios agrícolas.

Então, Mujica disse verdades como a que o espontaneísmo não chega a alcançar transformações, porém tampouco elas são obtidas pelas organizações políticas que seguem a linha neoliberal de sua Presidência.


MAB: É certo e acrescento que Joe Biden, como representante do governo dos EUA, chega esta semana para a posse.

JP: É um louco, cada vez que abre a boca caem pérolas de merda. Por exemplo, de qualquer forma tenta intervir na política e causa escândalos, porque diz coisas que são espontâneas, sem pensar nas consequências. Em Washington é considerado um palhaço, somente o mandam a viagens ao exterior para evitar escândalos domésticos.

Em todo caso, de uma forma ou de outra, representa a política imperialista. Porém, no caso da visita ao Uruguai, quer assegurar que Vázquez seguirá a linha de sua campanha eleitoral, que foi a conciliação com o Pentágono e o Departamento de Estado, ao invés de evitar qualquer aprofundamento nas relações com a Venezuela, Argentina ou outros países do MERCOSUL. Querem que Tabaré Vázquez aprofunde sua dependência e vínculos carnais com Obama.

MAB: Está sendo veiculado que as conversações entre o Irã e o grupo dos 5+1 estão concluindo. O que você sabe sobre isso?

JP: É evidente, (dizem) todos os ex-diplomatas, que o Irã não tem programas de armas nucleares. Segundo, as concessões feitas pelo Irã são substanciais enquanto os compromisos recíprocos dos EUA são mínimos. Por exemplo, suspender as sanções para os EUA é um processo que pode se prolongar por dez anos.

O Irã é um país muito pacífico, que busca conciliar com os EUA e está disposto a pagar o preço para acabar com as sanções e evitar a agressão de Israel. Agora, inclusive em Israel, alguns setores oficialistas reconhecem que a campanha de (Benjamin) Netanyahu de atropelar as negociações tem um efeito bumerangue. Para os EUA, um acordo com o Irã significa colaborar contra o ISIS e os grupos agressivos, contra a insurgência violenta. Para os EUA isso tem muito valor porque permite fortalecer sua hegemonia no Iraque e na Síria. Então, Israel agora tem que se cuidar, pois está provocando a ira da Casa Branca por conta da intromissão. Daí, vem Netanyahu dirigir a palavra ante o Congresso. Isso gerou oposição entre os ultrassionistas aqui, que estão preocupados com a intromissão de Netanyahu que soa muito mal para a maioria da população. Inclusive os mais fieis a Israel do Partido Democrata estão anunciando que não vão assistir à conferência.

Então, as perspectivas devem ser muito factíveis para um acordo com Irã-EUA, porém nunca se sabe porque os sionistas seguem tendo muita força.


MAB: Resta algum tema que você tenha interesse em comentar?

JP: Sim, poderíamos comentar algo sobre a Grécia.

Como disse em edições passadas, o SYRIZA tem uma política de ambiguidade, um discurso radical, porém sempre tornou posições conciliadoras.

O pacto de sexta-feira passada é terrível, significa a continuidade da supervisão de Bruxelas sobre a política da Grécia. Ou seja, o SYRIZA se submeteu à soberania norte-americana e à diretriz de Bruxelas.

Em segundo lugar, aceitou impor reformas neoliberais sobre o país. O SYRIZA fala de lutar contra a evasão fiscal, porém Bruxelas insiste nas privatizações.

Hoje em dia, percebo que um grande setor do SYRIZA está contra esse acordó e vai provocar um conflito interno pela indignidade que Alexis Tsipras e seu Ministro da Fazenda aceitaram.

Creio que a luta interna agora na Grécia vai se intensificar, pela capitulação do SYRIZA ante as exigências de Bruxelas.


Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)


Palavras dirigidas ao senhor Kofi Annan



La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 27 de fevereiro de 2015
Nos reunimos novamente após termos tido a ocasião de compartilhar com você no dia de ontem sobre os avanços do processo de paz. Foi muito agradável para nós podermos intercambiar também, no dia de hoje, algumas ideias a respeito [do tema].
Senhor Annan, você, como pessoa que nasceu no Terceiro Mundo e teve as vivências da exclusão, da miséria e das injustiças das quais padecem nossos povos, pode dar testemunho sobre a natureza do direito à rebelião, da legitimidade daquela potestade inscrita na natureza humana, explicada e difundida por patriarcas e filósofos de todos os tempos, e reconhecida de maneira expressa pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789.
Bem está inscrito no coração sensível do gênero humano o mandato de recorrer a esse direito de direitos quando as condições históricas, de classe, de desigualdade e perseguição afligem a alma e a própria dignidade da pessoa e do cidadão. Estes fundamentos, mirando os padecimentos da Colômbia, foram os que moveram nossos fundadores, os quais, por razões de legítima defesa, se viram obrigados a empunhar as armas há mais de sessenta anos. Eles fizeram eco, de alguma maneira, daquela consideração essencial “de que os direitos humanos sejam protegidos por um regime de Direitos, a fim de que o homem não seja compelido ao supremo recurso da rebelião...”.
Nosso caso não é o de Bósnia-Herzegovina, nem o de Ruanda, nem da Iugoslávia; nem somos Sudão nem Líbia. Nada do nosso se parece com estes casos nem com as circunstâncias que levaram à invasão do Iraque, acertadamente rechaçada por você se contrapondo à posição e ao espírito guerreirista que esgrimiram para o mal, naquele momento, os Estados Unidos e o Reino Unido.
Tampouco é nosso caso o que aconteceu na Irlanda ou vem sucedendo na Síria. O nosso tem sido uma muito antiga resposta digna ao despojo que ainda continua, ao desconhecimento de direitos fundamentais, ao abuso, à necessidade da legítima defesa desde os anos sessenta em que foram atacados, para aniquilá-los, com todo o poder bélico do Estado, aqueles campesinos de Marquetalia que lavravam a terra com o único desejo de viver em paz. Transcorreu meio século e aqui seguimos, os mesmos de então porém com caras diferentes, lutando por uma mesma causa, porque não é com bombas nem metralhadora que se acalma a inconformidade que a injustiça gera.
Senhor Annan, mais além da Casa de Nariño, a realidade que existe é a de um coeficiente de Gini que marca a desigualdade e a pobreza entre os nossos: 0.53 nas cidades e 0.87 concernente à propriedade rural, para situar a Colômbia como o terceiro país mais desigual do mundo. A respeito disso, e somente para que tenha um exemplo, lhe pedimos que olhe para o Chocó, território de nosso país com população majoritariamente afrodescendente. Lá se encontram, num cenário com abundantes riquezas naturais saqueadas pelas transnacionais, homens, mulheres e crianças em sua maior parte com os pés descalços sobre o barro, vivendo como animais e também morrendo por desnutrição. Quibdó, sua capital, deixada na mão do diabo como o mais pobre bairro de Kumasi, se encontra assentada entre minas de ouro e biodiversidade, a duas horas de voo da cidade de Miami, onde faz valer sua presença o capital colombiano.
Em nosso país, o qual conta com quase cinquenta milhões de habitantes, 77% da terra estão em mãos de 13% da população. 3.6% destes últimos é dona de 30% da mesma. Os procedimentos de despojo violento do último quarto de século deslocaram a mais de 6 milhões de campesinos.
Não queremos distrai-lo com mais alusões horripilantes de desigualdade e iniquidade social. Mais bem lhe reiteramos que à Mesa de Diálogo de Havana chegamos para honrar nossa palavra empenhada no Acordo Geral de 12 de agosto de 2012, com o convencimento de que, sim, se pode alcançar a paz em termos civilizados, e de que numa guerra de mais de meio século não se pode falar de um só vitimário, nem muito menos de um só responsável, como em algumas ocasiões se pretendeu, se querendo colocar a insurgência no banco dos réus. Nossos interlocutores já começam a aceitar esta realidade histórica. E, felizmente, uma comissão que teve aos seus cuidados o estudo da origem do conflito entregou à mesa doze informes de excelentes acadêmicos que indicam que a confrontação em nosso país é tão antiga como para superar duas gerações ou mais; e que as ações violentas de muitas variadas espécies, sem restrição de meios para adiantar-se e cometer-se, em muitos casos se originaram e provêm não só das partes combatentes como também de múltiplos atores políticos e sociais, oficiais e não oficiais, que deram rédea solta a seus ódios e métodos de destruição. [Colocamos em suas mãos cópia dos doze informes da Comissão histórica do conflito e suas vítimas, que antes mencionamos.]
A propósito deste tema, vale a pena recordar que o ex-presidente César Gaviria [1990-1994], em recente escrito publicado no El Tiempo, diário de maior circulação nacional, destacou que os atores do conflito se encontram entre a população combatente e não combatente; e entre círculos da empresa privada, e funcionários públicos de diversa condição. Assinalou igualmente responsabilidades graves à classe política para finalmente indicar que até juízes se encontram comprometidos. O próprio Comissionado para a Paz, doutor Sergio Jaramillo, concordou que a responsabilidade pela enorme e cruenta contenda bélica é coletiva. E o próprio Presidente Juan Manuel Santos não esperou muito para acolher a tese do ex-presidente Gaviria. Aspiramos a que as autoridades competentes iniciem as consequentes investigações de rigor sobre estas notícias criminais conhecidas por muitos, porém até agora reconhecidas nessa dimensão por um alto dignatário de Estado.
Devemos acrescentar que, para o bem do processo, o governo nacional já aceitou a existência de presos políticos, ao aceitar revisar “a situação das pessoas privadas da liberdade, processadas ou condenadas, por pertencer ou colaborar com as FARC-EP”. Igualmente, se admitiu que se “fará as reformas e os ajustes institucionais necessários para fazer frente aos desafios da construção da paz”. Ambos pontos estão incluídos numa Agenda que de nossa parte assumimos como invariável em seus aspectos substanciais, e têm a ver com necessidades a resolver no caminho de alcançar a finalização do conflito.
Por último, devemos destacar que, buscando assumir gestos práticos que desescalem o conflito e minimizem as dores da guerra, no dia 17 de dezembro do ano passado declaramos um CESSAR UNILATERAL AO FOGO, POR TEMPO INDETERMINADO, em meio a uma contenda armada interna que não iniciamos. Solicitamos que o referido cessar-fogo fosse verificado por organismos nacionais e internacionais. O governo recusou atender nossa decisão e solicitação. Dado que você vem na qualidade de Coordenador das Operações das Forças de Paz da ONU, aproveitamos sua presença neste dia para solicitar-lhe que se sirva transmitir suas experiências aos senhores plenipotenciários do governo, sobre o valor e alcance que para a população inerme têm medidas como a que tomamos livremente. Não mais mortos que façam mais distante um acordo de paz que, como nunca antes, se mostra possível no horizonte.
Muito obrigado.


DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP.


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Equipe ANNCOL - Brasil