"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

“A grande imprensa é um instrumento de dominação multinacional”: Nilson Lage


“A grande imprensa é um instrumento de dominação multinacional”: Nilson Lage

A popularização da internet e de aparelhos multimídia massificou a produção de informação e registro de toda sorte de acontecimentos, relevantes ou não. As redes sociais abriram espaço para que as pessoas experimentassem novas formas de se relacionar e se articular em torno de objetivos comuns. Estes fatores estão mudando a forma com que os cidadãos lidam com a imprensa, a política, o poder de forma geral.



A entrevista é de Rennan Martins, publicada pelo blog Desenvolvimentistas



Este processo de transição e assimilação de uma nova tecnologia pela sociedade levanta uma série de importantes questões. Qual o real potencial da internet? A grande imprensa realmente perdeu capacidade de influenciar a opinião pública? Como era e como é a configuração da mídia em nosso país? Que relação tem a mídia com o poder?



Estas questões tão caras a democracia merecem uma reflexão que nos auxilie no caminho de inclusão social e participação política. Para isso, é preciso ouvir os intelectuais e personalidades que atuaram e atuam no debate público brasileiro.



Conversei então com Nilson Lage, jornalista de larga experiência e professor de obra vastamente citada na academia. Lage diz que a mídia corporativa é a “essência do poder”. Considera que a regulamentação dos meios de comunicação é positiva, mas que não afetará tanto o alinhamento editorial dos veículos. Enxerga ainda que a imprensa latino-americana é coordenada desde Miami, promovendo valores antinacionais e patrocinando a submissão dos povos aos EUA.



Eis a entrevista.



Quais as principais diferenças entre o jornalismo analógico e o digital? Que possibilidades a massificação da internet nos trouxe?



A diferença básica é que a veiculação pela Internet eliminou os custos de transmissão (gráfica, eletrônica), distribuição e arquivamento, permitindo a multiplicação dos produtores e reduzindo radicalmente a escala de investimentos necessária a empreendimentos jornalísticos.



A segunda diferença em importância é que, virtualmente, toda a produção (gráfica, sonora, audiovisual) concorre para um só equipamento – o computador. Isso permite a composição dos diferentes media em produtos complexos (a página, o site, o portal, o aplicativo) dirigidos a uma ou a várias formas de exposição (em computador, smartphones, tablets, cinemas etc.)



A terceira diferença é que a Internet abala o conceito antigo de direito autoral, torna-o, em muitos casos, artifício legal contornável e tende a suprimir a apropriação de obras antigas e consagradas em novas edições, reimpressões, regravações etc.; facilita a recuperação de informação em arquivos e subtrai valor comercial de produtos antes muito prestigiados, como dicionários e enciclopédias.



Como você enxerga a inserção da internet e a massa de mídias no debate público? Há mudanças nas estruturas de poder e hegemonia?



É cedo para dizer.



A mudança de quantidade não configurou, por ora, qualidade nova. Os veículos tradicionais mantêm a hegemonia, embora com alguns novos concorrentes.
O sistema de informação pública organizou-se, historicamente, em todos os níveis, em modelo centralizado (poucos produtores → muitos consumidores) com redes de malhas que divergem de pontos bem definidos, baixa interatividade, retorno lento e respostas estocásticas. Assim funcionam os financiamentos, a veiculação publicitária, as fontes profissionais etc.
Uma das consequências é que o acesso à informação primária continua sujeito à mediação de poucos veículos, com privilégio da mídia tradicional. É mais viável negociar a informação (troca de informação por informação ou de informação por outra mercadoria) com poucos agentes, e conhecidos, do que facultar o acesso a número indefinido de incontroláveis interlocutores.
Finalmente, a produção de informação de acesso público é atividade profissional, com sua técnica, ética de convívio e práticas consolidadas. Constata-se que a aparente liberdade que a Internet propicia dá espaço à mistura de verdade e fantasia, constatações e invenções, mundo real e mundos possíveis, diálogo educado e insulto; facilita o reingresso de toda sorte de conceitos e valores abandonados ao longo da História e que se mantinham recessivos na sociedade.
O risco é uma explosão de entropia que resultará inevitavelmente em desinformação de massa.



Quanto à relação da imprensa com a geopolítica. Os conglomerados de mídia corporativa ocidentais atuam como braços do poder? A guerra de informação é real?



São a essência do poder.
Pode-se afirmar que o domínio da cultura saxônica, que antes disputava, no nível acadêmico e no mercado de consumo, com outras fontes – no Ocidente, principalmente, com a cultura francesa – consolidou-se na etapa norte-americana (após a década de 1920 e, sobretudo, da Segunda Guerra Mundial), dada a supremacia na área da informação.
A retórica do jornalismo americano tornou-se padrão de objetividade, impondo antagonismos absurdos (como democracia x comunismo), e ambiguidades surpreendentes (como liberal = socialista, socialista = comunista ou, no Brasil, trabalhismo,= comunismo), substituições convenientes (estrangeiro/internacional) etc.
Seguindo o estilo consagrado pela revista Time (1922), a combinação de informação objetiva com adjetivação criativa, metáforas e acumulações de sentido produziu um modelo de relato-comentário da realidade que se mostra dominante, principalmente em revistas se informação geral e suplementos.
Através de mecanismos hábeis e de recursos bem direcionados, transferiu-se a luta política histórica (o conflito de classes e da distribuição de riqueza no mundo) para o universo existencial (a relação ente os sexos, as raças, do homem com a natureza); a escatologia – questão dos fins últimos e causas primeiras da humanidade da vida, do universo – passou do universo religioso para o debate partidário, adquirindo extraordinário potencial de conflito.



Como se dá a relação dos grandes grupos de imprensa com os governos progressistas latino-americanos?



A grande imprensa, coordenada desde Miami pela Associação Interamericana de Imprensa (SIP), por via das associações nacionais, como a ANJ – e, de maneira similar, no setor de rádio e televisão (no Brasil, Abert) – é um instrumento (hoje, o principal) de dominação multinacional, o que determina sua oposição radical ao nacionalismo, ao desenvolvimento econômico autônomo e à integração regional que esses governos patrocinam.
Isto se consolidou historicamente com penetração continental da indústria estrangeira da informação (gravadoras de música, distribuidoras de filmes etc), a partir da década de 1950, e com a orientação empresarial das agências de publicidade, em cuja direção (e na filosofia de trabalho) se concentra a visão mais cínica e reacionária da sociedade – haja visto o papel que tiveram, em fatos ainda recentes no Brasil, expoentes do setor, como Ênio Mainardi ou Ivan Hassolocker, o dirigente do Ibad que ajudou a articular o golpe de 1964.
Impermeável às identidades nacionais, a retórica publicitária vende cosmopolitismo, individualismo, racismo, hedonismo, superficialidade, imoralidade que sequer se assume e, sempre que possível, cultura global amorfa, sem história e sem pátria. Seu discurso é o da irresponsabilidade, da autocomplacência e do escapismo.
É tão enraizado isso que dificilmente se imagina como poderia ser diferente.
Em relação as últimas eleições. Como se deu a cobertura dos fatos políticos? A isenção existiu?



Claro que não, se considerarmos a cobertura em geral. Muitos jornalistas se esforçaram para fazer um trabalho correto, como sempre acontece. Conseguiram, minoritariamente, também como de hábito, mesmo nos momentos mais difíceis.



Sobre a liberdade de imprensa no país. Nossos jornalistas têm liberdade de investigar e escrever? Que poderes mais constrangem os colegas?



A censura empresarial está geralmente introjetada e se implanta através das estruturas hierárquicas que divulgam as linhas editoriais, comandam as redações, supervisionam pautas e avaliam trabalhos. De modo geral, numa espécie de seleção às avessas, os editores principais dos grandes veículos são jornalistas não muito brilhantes, mas bastante domesticados, que operam como via de transmissão das ordens da empresa, assumidas em geral como normas de sua lavra. 
A política das redações varia um pouco, da relativa estabilidade aparente (em O Globo, por exemplo) ao estímulo da competição desvairada entre os repórteres (na Folha), com traço generalizado e crescente de insegurança que a concentração empresarial, a equação declinante empregados/candidatos a emprego e a decadência da mídia tradicional acentuam.
A liberdade é das empresas, desde que elas se articulem com os bancos que as financiam e agências que as sustentam, manobrando verbas públicas e privadas.



É sabido que no Brasil muitos políticos detêm concessões de rádios e televisão. Quais as consequências disso? Porque esse assunto tem pouco apelo entre os cidadãos?



Os cidadãos são mantidos na ignorância por um sistema (não só de comunicação, também educacional) que ordena os fatos como convém e oculta os que interessa ocultar.
A posse de veículos por políticos – algo mais generalizado no Brasil do que em outros países – decorre da origem histórica regional da imprensa, de um lado, e da estratégia montada pelas redes que se instalaram no Brasil com modelos e patrocínio estrangeiro, em particular a Rede Globo: ela assegurou sua hegemonia ao articular-se com as oligarquias regionais preexistentes, de que se originam (ou que representam), em sua maioria, os políticos que chegam ao congresso.



Nessas eleições muito se falou sobre a regulamentação dos meios de comunicação. O Brasil precisa dela? Por que?



Sim. Reduzirá ou eliminará a concentração de poder na mão da meia dúzia ou menos de famílias que controlam a informação no Brasil no plano nacional.
No entanto, não creio que afete radicalmente o alinhamento dos media. Por muitos que sejam os veículos e as redes – e por mais que aparentemente estejam competindo – terão traço comum dominante. É como as rádios FM da região metropolitana de São Paulo: são dezenas, como 14 milhões de ouvintes, mas não têm escolha: oferecem música pop-lixo, música brega-lixo, rock-lixo, sertanejo-lixo, mpb-lixo, qualquer coisa-lixo porque tocam o que interessa às gravadoras e por imposição do mercado publicitário, são impotentes para segmentar o público por padrões reais de gosto. Cabe aos ouvintes escolher entre um lixo e outro dentre o que lhe é oferecido ou recorrer ao CD-DVD-pen drive.



Há alguns dias a Comissão Nacional da Verdade publicou seu relatório final. Poderia nos dar um testemunho de como foi a ditadura na visão de um jornalista?



Um processo regressivo.
O Brasil tinha imprensa regionalizada, com correspondente na capital federal e veículos de todos os estados e principais regiões metropolitanas.
Havia jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão cobrindo amplo espectro ideológico dentro da normalidade de uma sociedade capitalista (a imprensa comunista sempre foi insignificante em termos de público): o trabalhismo de Última Hora, o nacionalismo classe-média do Diário de Notícias, a oposição radical e encasacada do Correio da Manhã, o catolicismo progressista (estética e editorialmente) do Jornal do Brasil, o reacionarismo provinciano do Estadão, a picaretagem assumida dos Diários Associados, o golpismo sistemático de O Globo, a criatividade da TV Excelsior etc.
Os militares – não tanto por interesse deles, mas por se deixarem convencer pelo inimigo que supunham amigo – destruíram tudo, e o que havia de liberdade foi quase toda junto.



Hoje em dia vemos toda uma nova geração dos blogueiros, que praticam comunicação sem formação específica, muitos deles com amplo sucesso. Que críticas faria a essas figuras? Que sugestões?



Não creio tanto nessa “falta de formação específica”. Há os cientistas políticos, os panfletários de ideias, os humoristas, os pregadores religiosos, os nefelibatas políticos… Sempre houve. Os que sobreviverem tendem a se profissionalizar.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cuba e EUA anunciam restabelecimento de relações diplomáticas


Em pronunciamentos simultâneos, transmitidos por suas redes nacionais de televisão, os presidentes de Cuba, Raúl Castro, e dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciaram nesta quarta-feira (17) uma mudança histórica nas relações entre os dois países, com o "restabelecimento das relações diplomáticas" e a "adoção de medidas mútuas para melhorar o clima bilateral".



Em discurso considerado histórico Castro agradeceu o apoio do Vaticano e do papa Francisco ao "melhoramento" das relações entre Cuba e Estados Unidos, e ao governo do Canadá por ter facilitado um diálogo de "alto nível", que os dois países realizaram ali durante vários meses de forma secreta.



Por sua vez, Barack Obama justificou a abertura do diálogo com Cuba afirmando que o "isolamento não funcionou", e argumentou  que "chegou o momento de um novo enfoque" sobre a ilha.



"Não espero que as mudanças que estou anunciando hoje provoquem uma transformação da sociedade cubana da noite para o dia", destacou Obama.



No entanto, defendeu que uma "política de compromisso" com a ilha pode ser muito mais eficaz que o "isolamento", e que "não serve aos interesses dos Estados Unidos tentar empurrar Cuba em direção ao colapso".



Nesse sentido, pediu ao Congresso, que a partir de janeiro estará controlado totalmente pelos republicanos, que inicie um debate "sério e honesto" sobre o embargo econômico unilateral imposto a Cuba em 1961.



O líder cubano esclareceu que, embora se tenha decidido avançar na normalização das relações entre os dois países, "isto não quer dizer que o principal tenha sido resolvido" e exigiu o fim do "bloqueio econômico, comercial e financeiro que provoca enormes danos humanos e econômicos".



"Embora as medidas do bloqueio tenham sido transformadas em lei, o presidente dos Estados Unidos pode modificar sua aplicação com o uso de suas faculdades executivas", lembrou Castro.

Trocas




Ontem, Obama e Castro, falaram por telefone para fechar o acordo. As medidas anunciadas hoje incluem a flexibilização das restrições às viagens e ao comércio entre Estados Unidos e Cuba, assim como às remessas que os cubanos recebem de território americano.



Além disso, Obama pediu a seu secretário de Estado, John Kerry, que revise a inclusão de Cuba na lista de países aos quais os Estados Unidos consideram patrocinadores do terrorismo.



O presidente americano também confirmou hoje sua participação na Cúpula das Américas, que o Panamá receberá em abril de 2015 e para a qual Cuba também foi convidada.



Fruto das conversas entre os dois países, foi decidida a libertação do americano Alan Gross, preso por subversão em Cuba, assim como de três agentes cubanos do grupo conhecido como "Los Cinco", que permaneciam presos nos Estados Unidos.

Embargos




Raúl Castro esclareceu que, embora se tenha decidido avançar na normalização das relações entre os dois países, "isto não quer dizer que o principal tenha sido resolvido" e exigiu o fim do "bloqueio econômico, comercial e financeiro que provoca enormes danos humanos e econômicos".



"Embora as medidas do bloqueio tenham sido transformadas em lei, o presidente dos Estados Unidos pode modificar sua aplicação com o uso de suas faculdades executivas", lembrou Castro.



O presidente cubano admitiu que persistem profundas diferenças entre os dois países, "fundamentalmente em matéria de soberania nacional, democracia, direitos humanos e política externa", mas reafirmou a "vontade" do governo de Cuba em dialogar sobre todos esses temas.
"Propomos ao governo dos Estados Unidos a adoção de medidas mútuas para melhorar o clima bilateral e avançar rumo à normalização dos vínculos entre nossos países, baseados nos princípios do Direito Internacional e na Carta das Nações Unidas", ressaltou Castro.



Neste novo clima de diálogo, Castro pediu que os EUA "removam os obstáculos que impedem ou restringem os vínculos entre nossos povos", em particular os relativos às viagens, ao correio postal direto e às telecomunicações.



"Os progressos alcançados nas conversas realizadas demonstram que é possível encontrar solução para muitos problemas. Como repetimos, devemos aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com nossas diferenças", ponderou.

Intervenção de Iván Márquez na abertura da quinta audiência de vítimas do conflito


Com sincero afeto e um respeito profundo, a Delegação de Paz das FARC saúda ao quinto grupo de vítimas do conflito que hoje nos trazem sua dor, amalgamada com o sentimento irrevogável de concórdia, e em suas mãos a tocha da esperança num futuro de justiça, sem guerra.
Bem-vindos e Bem-vindas, Piedad Córdoba, María Susana, Juan Manuel, Jairo, Domingo, Francia, Mauricio, Nilson Antonio, Camilo, Isabella e Magda. Que este cenário de Havana, disposto por seu povo e governo solidário como altar do altruísmo, sirva para dar-nos um abraço de reconciliação e fé na Colômbia nova.
Nossa saudação se estende a Nações Unidas-Colômbia, ao Centro de Pensamento da Universidade Nacional e à Conferência episcopal, organizadores deste desafio; o mesmo que aos países garantidores, Cuba e Noruega, e aos países acompanhantes, Chile e Venezuela.
Primeiramente, manifestar nosso pesar pelos sofrimentos que este conflito gerou e que estamos empenhados em terminar definitivamente, e ao mesmo tempo ressaltar a valentia e o compromisso com a paz, mostrado por todas e todos vocês ao acorrerem a Havana, ainda sabendo que muitos dos que lhes precederam foram re-vitimizados no seu regresso à Colômbia, pelo simples fato de manifestar seu apoio à Paz e à reconciliação.
Enquanto a Mesa de Diálogos avança em Havana sobre a discussão do ponto 5 da agenda, referente a VÍTIMAS, no país a situação destas continua sendo dramática, o qual, após dois anos de conversações, e 4 meses abordando a problemática das vítimas do conflito, nos parece simplesmente inaceitável. Esta realidade mostra a indolência e a passividade do Estado ante os fatos de vitimização que se registram em Colômbia, porque quem, se não as instituições do Estado, estão em condições e têm os recursos para acabar eficazmente com a perseguição e levar ante a justiça os responsáveis de tanta dor e perseguição?
Segundo as NNUU, desde o início dos Diálogos de Paz de Havana em Novembro de 2012, até junho de 2014, se ocasionaram 310.000 novas vítimas do conflito. Organizações que nada têm a ver com a insurgência nem com forças de oposição, como Anistia Internacional, acaba de indicar que, nos 9 meses transcorridos entre janeiro e setembro de 2014, foram assassinados 40 defensores de DDHH em Colômbia. Somente entre setembro e outubro de 2014 100 ativistas defensores dos direitos humanos foram ameaçados de morte por paramilitares.
O respeito aos direitos humanos em todos os confins do território nacional é um objetivo do Estado [...]”, reza o preâmbulo do Acordo Geral para a terminação do conflito de 26 de agosto de 2012. Consequentemente, desde o início da discussão do ponto relativo a VÍTIMAS, manifestamos a necessidade de adotar medidas eficazes para acabar com a geração de novas vítimas, o qual é premissa para abordar seriamente esta problemática e evitar que o fato singular, -nunca antes havido em nenhum processo de paz dos que se desenvolveram no mundo-, de situar no centro da solução do conflito os direitos das vítimas, não se convertesse exclusivamente num espetáculo midiático ou exibição re-vitimizadora daqueles que tanto padeceram por causa das crueldades do conflito.
Considerando que tem sido um clamor geral de todas as vítimas do conflito que acorreram a estas audiências, por experiência temos o convencimento de que nenhuma medida é mais eficaz para acabar com a geração de novas vítimas do que acordar de imediato um cessar bilateral do fogo, um armistício, que normalize a vida da população civil em Colômbia até a firma efetiva do definitivo acordo de paz.
Cada vez resulta mais carente de lógica, menos crível, que as FARC-EP reclamam um cessar-fogo para fortalecer-se e buscar vantagem militar sobre o terreno. Esta ideia é absolutamente contraditória com a atitude prática que temos mostrado de pôr todo nosso empenho na busca de entendimentos. Assim o indicam os três acordos parciais alcançados e nossa vontade de desescalada do conflito, recentemente evidenciada com a libertação unilateral, através de um Acordo Humanitário Especial, de vários prisioneiros de guerra, entre os quais se contava o General Rubén Darío Alzate e três fardados mais, o qual ocorre apesar da ordem desenfreada do Governo de recrudescer as operações militares contra insurgentes.
O Governo Nacional descumpriu claramente a regra estabelecida no Acordo Geral quanto a “iniciar conversações diretas e ininterruptas sobre os pontos da agenda [...]”, sem que o que ocorra no cenário da confrontação afete as atividades da Mesa. Não obstante, e apesar da fúria desproporcional dos bombardeios e dos embates da maior maquinaria de guerra de toda a América Latina, que ocasionaram a caída de entranháveis comandantes e combatentes, jamais abandonamos o compromisso de manter-nos em diálogo até alcançar o acordo final.
Nesta atitude estamos, porém com realismo e os pés sobre a terra, tendo claro que é este quinto ponto da Agenda o espaço e o momento de esclarecer e dar os primeiros passos para a solução definitiva do fenômeno do paramilitarismo, que é um dos maiores problemas que temos que resolver, se em verdade queremos avançar para a reconciliação. Dentro desta perspectiva, cremos que chegou o momento de abordar esta titânica tarefa, sendo certo que sem o compromisso efetivo do Governo nacional será impossível acabar com o paramilitarismo, por muitos que sejam os papéis que se firmem em Havana.
As partes na Mesa de Diálogos têm que estar à altura do imenso desafio que supõe acabar com o paramilitarismo, que é, sem dúvida alguma, a causa mais sanguinária de vitimização que a Colômbia tem sofrido desde o início do conflito armado interno, e principal fator de fracasso de anteriores processos de paz.
Nestes dias, recebemos notícias que pareceriam indicar que, apesar da decomposição e crise do sistema judiciário colombiano, pouco a pouco se vem abrindo caminho a uma verdade judicial, que coincide com a irrefutável verdade manifestada desde há anos pelos movimentos de vítimas: se trata dos estreitos vínculos entre o Estado e o paramilitarismo, e a inapelável responsabilidade de partidos políticos, instituições e empresários no surgimento, desenvolvimento, expansão e sobrevivência de um paramilitarismo sempre impune, hidra de cem cabeças, que, com a conivência do Estado e da oligarquia, volta a brotar a cada vez que se nos anunciou seu fim.
Agora, coerentemente, o Tribunal Superior de Medellín, em histórica Sentença de 12 de dezembro deste ano, assegurou que o Estado colombiano é responsável pelas violações aos DDHH e ao DIH que os paramilitares cometeram e pelo “dano e a dor causados às vítimas”, requerendo ao Presidente da República para que reconheça, solene e publicamente, tal realidade. Se trata de um reconhecimento explícito da responsabilidade estatal no surgimento, expansão e consolidação do paramilitarismo, assim como na falta de perseguição e impunidade destes grupos criminais, seus integrantes, inspiradores e financiadores. O Tribunal acusa ao senador Álvaro Uribe Vélez por sua suposta participação no surgimento de grupos paramilitares em Antioquia, e ordena iniciar processos contra um ex-governador de Córdoba e contra um general do Exército por promoção e apoio às autodefesas.
Coincide o tribunal com as reivindicações das organizações de vítimas, ao solicitar que os membros da Força Pública que sejam investigados por violações aos direitos humanos sejam afastados de suas funções a partir da imputação de denúncias. Também acerta ao afirmar que a Promotoria da nação “foi omissa na investigação e acusação das graves infrações aos DDHH e ao DIH cometidas pelos paramilitares”. Não cabe dúvida, como assinalou o tribunal, que a ausência de investigações da Promotoria facilitou o acionar dos ‘paramilitares’ e aprofundou “o dano e a desesperança na população”.
É a justiça colombiana quem agora indica que o paramilitarismo “se converteu numa política traçada, financiada, permitida e facilitada pelos altos mandos das Forças Militares”. Seu surgimento e expansão, diferentemente do que se tem sustentado, não se deu devido a ausência do Estado em amplas zonas da geografia nacional. Pelo contrário, nasceram e cresceram ali onde havia presença do Estado e lado a lado com as Forças Militares. Em todo o país, onde queira que surgiram e passaram os paramilitares, havia brigadas, batalhões do Exército e comandos de polícia que deviam ter garantido a segurança das pessoas que acabaram sendo vítimas dos mais cruéis e inumanos atos de terror.
Também por estes dias, outro tribunal de Medellín condenou a 16 empresários de palma africana a penas que oscilam entre os sete e dez anos de prisão pelos delitos de concertação para delinquir, deslocamento forçado e invasão de áreas de especial importância ecológica. O projeto agroindustrial que buscava converter o Baixo Atrato chocoano na mais extensa área cultivada com palma de azeite não foi mais que uma complexa engrenagem criminal que envolveu a Vicente Castaño e suas hostes paramilitares, a mercadores de terras alinhados ao projeto paramilitar e a empresas palmicultoras.
Por tais razões, as FARC-EP proporemos, ante a Mesa de Diálogos, entre as medidas sobre verdade, reparação e não repetição, a criação de uma comissão para a erradicação do fenômeno paramilitar, que inicie seus trabalhos de forma simultânea à adoção de medidas de desescalada do conflito em que ambas as partes vimos trabalhando, e ao redor do qual já chegamos a acordos sobre os critérios que se porão em prática.
Sem desmerecer a importância de todas as vítimas que nos visitaram, devemos dizer que este ciclo não pode passar sem que ponhamos de presente que, transcorridas as 5 audiências que estavam programadas para recebê-las, infelizmente não se cumpriu o compromisso de ouvir as vítimas causadas pelas políticas econômicas. E isto se torna mais grave se levamos em conta que, segundo recentes declarações do Presidente do Conselho Norueguês de Refugiados, Jan Egeland, em Colômbia continua incrementando-se a desigualdade econômica entre o campo e a cidade, apesar dos avanços alcançados no processo de paz. Até quando teremos que esperar para que se acabe a desigualdade e a miséria nos campos e nas cidades da Colômbia?
Se se é coerente, o governo não pode continuar falando de paz enquanto implementa políticas econômicas que aprofundam as causas da guerra. Por isso se faz urgente, por exemplo, pôr freio ao projeto de Lei 133 sobre terras ociosas “pela qual se criam e se desenvolvem as Zonas de Interesse de Desenvolvimento Rural e Econômico, e se adiciona o artigo 52 e se interpreta o artigo 72 da Lei 160 de 1994”, pois esta se contrapõe, frontalmente, aos acordos já adotados em matéria de Reforma Rural Integral, lesando de maneira grave os interesses dos campesinos. Não é nada saudável para o processo que continuem se apresentando iniciativas legislativas ou de reforma constitucional que contradigam o pactuado, ou desconheçam o espírito do Acordo Geral.
Agora, com a vênia da condução deste evento, procedo a oficializar em nome das FARC uma cerimônia plena de ternura, surgida do coração insurgente e de um sentimento irrefreável de humanidade, consistente em entregar nesta audiência, num gesto simbólico de reparação e de veneração frente à dor e aos rompimentos da alma, a estatueta da mão que oferece uma rosa branca às vítimas do conflito.
Para vocês, Piedad, Gloria, María Susana, Juan Manuel, Jairo, Domingo, Francia, Mauricio, Nilson Antonio, Camilo, Isabella e Magda, mulheres e homens sofredores das consequências de uma guerra imposta pelo topo do poder, com a estatueta que hoje entregamos em suas mãos, estes versos do apóstolo de Cuba José Martí:
Cultivo uma rosa branca
Em junho como em janeiro
Para o amigo sincero
Que me dá sua mão franca.

E para o cruel que me arranca
O coração com que vivo,
Cardo nem urtiga cultivo;
Cultivo uma rosa branca.
Que o perdão e o amor nos abracem a todos, e que a alvorada cintilante do sol da paz que se eleva lentamente no horizonte dissipem a horrível noite da Colômbia. A paz triunfará.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

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Equipe ANNCOL - Brasil

DECLARAÇÃO FINAL DA XIII CÚPULA DA ALIANÇA BOLIVARIANA PARA OS POVOS DE NOSSA AMÉRICA-TRATADO DE COMÉRCIO DOS POVOS [ALBA-TCP] E COMEMORAÇÃO DE SEU X ANIVERSÁRIO


Os Chefes de Estado e de Governo dos países membros da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América–Tratado de Comércio dos Povos [ALBA-TCP] nos reunimos em Havana, a 14 de dezembro de 2014, para comemorar o X Aniversário da Aliança, organismo de integração genuinamente latino-americana e caribenha, sustentado em princípios de solidariedade, justiça social, cooperação e complementaridade econômica, fruto da vontade política e da profunda vocação integracionista dos Comandantes Fidel Castro Ruz e Hugo Rafael Chávez Frías.

De igual maneira, celebramos o XX Aniversário do primeiro encontro em Havana destes dois grandes líderes de nossos povos, fiéis expoentes e defensores do legado dos libertadores da América Latina e do Caribe.

Expressamos nosso firme compromisso com a consolidação e o desenvolvimento da ALBA-TCP e a luta pela segunda e definitiva independência da América Latina e do Caribe, em consonância com os ideais de nossos próceres, num complexo contexto regional caracterizado por uma ofensiva do capitalismo transnacional globalizado e do imperialismo estadunidense, que pretendem desestabilizar e derrocar governos progressistas democraticamente eleitos por seus povos.

Convencidos de que a ALBA-TCP constitui hoje um inexpugnável baluarte na defesa da soberania dos povos da região e das nações do Sul, acordamos:
  1. Ratificar os princípios de solidariedade, cooperação genuína e complementaridade entre nossos países, no aproveitamento racional e em função do bem-estar de nossos povos, de seus recursos naturais –incluído seu potencial energético-, na formação integral e intensiva do capital humano que nosso desenvolvimento requer e na atenção às necessidades e aspirações de nossos homens e mulheres, proclamados na Declaração Conjunta, firmada pelos Comandantes Fidel Castro e Hugo Chávez, e em outros documentos.
2. Saudar o ingresso como membros plenos da Federação de San Cristóbal e Nieves, e de Granada, nações irmãs caribenhas que aderem aos princípios fundacionais da Aliança Bolivariana Para os Povos de Nossa América-Tratado de Comércio dos Povos [ALBA-TCP].
3. Saudar os avanços registrados no processo de negociação do Tratado Constitutivo da ALBA-TCP.
4. Ratificar o apoio aos esforços que empreende o Governo da República Bolivariana de Venezuela, liderado pelo presidente Nicolás Maduro Moros, para preservar o imenso legado do Comandante Hugo Chávez Frías.
5. Apoiar ao Governo Bolivariano de Venezuela em seus esforços por resguardar a paz no país e derrotar definitivamente os intentos desestabilizadores e a guerra econômica promovida pelos inimigos internos e externos do processo bolivariano, considerando que estas agressões constituem também uma ameaça contra os esforços integradores de toda a região.
6. Condenar energicamente a aprovação pelo Congresso dos Estados Unidos de sanções contra a República Bolivariana de Venezuela, e expressar o mais profundo respaldo e solidariedade com o povo e governo desse país irmão, enfatizando que os países da ALBA-TCP não permitirão a utilização de velhas práticas já aplicadas na região, dirigidas a propiciar a mudança de regime político, como tem ocorrido em outras regiões do mundo. Ao mesmo tempo, rechaçar firmemente qualquer agressão, seja de tipo legal, econômica ou política, contra a República Bolivariana de Venezuela, assim como contra qualquer dos países membros da ALBA-TCP.
7. Respaldar o compromisso da República Bolivariana de Venezuela com o projeto PETROCARIBE, reconhecido por sua utilidade e contribuição à segurança energética e ao desenvolvimento econômico e social dos países membros; e rechaçar as campanhas de difamação contra a PETROCARIBE.
8. Aplaudir o encontro da Rede de Redes em Defesa da Humanidade [REDH], que teve lugar em Caracas, República Bolivariana de Venezuela, de 11 a 13 de dezembro, por ocasião do X Aniversário de sua criação, e continuar apoiando seu papel na mobilização da opinião pública internacional em favor das causas mais justas e contra a dominação imperialista.
9. Reclamar, uma vez mais, ao governo dos Estados Unidos da América uma mudança de política para a irmã República de Cuba que contemple o fim imediato do bloqueio econômico, comercial e financeiro; a cessação das ações subversivas, ilegais e encobertas, incluídas aquelas que empregam as tecnologias da informação e das comunicações, que violam a soberania e o direito dos povos à autodeterminação; o fim da absurda inclusão de Cuba na espúria e arbitrária lista dos países que patrocinam o terrorismo internacional e a libertação imediata dos três lutadores antiterroristas cubanos que ainda sofrem injusta prisão nos cárceres dos Estados Unidos. Reafirmar o respaldo ao direito soberano da República de Cuba de participar nas Cúpulas das Américas, sem condicionamento algum, em correspondência com o expresso pelos países latino-americanos e caribenhos por ocasião da VI Cúpula de Cartagena.
10. Apoiar aos países afetados pelos interesses das transnacionais e dos especuladores financeiros em sua legítima defesa contra os laudos emitidos por instâncias arbitrais extraterritoriais. Neste marco, reivindicamos nossos compromissos assumidos na II Conferência Ministerial sobre Estados e Transnacionais, particularmente a posta em funcionamento do Observatório do Sul.
11. Reiterar nossa solidariedade com a justa e histórica reivindicação do Estado Plurinacional da Bolívia sobre seu direito a uma saída ao mar com soberania.
12. Saudar a próxima assunção da Presidência Pro Tempore da CELAC pela irmã República do Equador, durante o ano de 2015, a partir da realização em São José, Costa Rica, da III Cúpula desta organização regional. Ademais, reiterar o compromisso de apoiar a gestão do Equador à frente da Comunidade e de trabalhar em prol do fortalecimento e da consolidação da CELAC, como o mecanismo de concertação política e integração, de genuína essência latino-americana caribenha.
13. Felicitar ao Estado Plurinacional da Bolívia por sua recente eleição como membro do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas a partir de 2015, o qual constitui um reconhecimento ao louvável trabalho do governo boliviano, liderado pelo companheiro presidente Evo Morales Ayma, em favor dos direitos humanos. Os países da ALBA-TCP expressam sua solidariedade e ratificam seu compromisso de apoiar a Bolívia nesta nova e importante tarefa.
14. Saudar a eleição da irmã República Bolivariana de Venezuela como Membro Não Permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o período 2015-2016. Isso constitui um reflexo do grande prestígio e liderança alcançados pela Venezuela e do apoio majoritário da comunidade internacional à Revolução Bolivariana, conduzida pelo companheiro Nicolás Maduro Moros. Os países da ALBA-TCP reiteram seu compromisso de respaldar a gestão de Venezuela neste conclave.
15. Felicitar ao Estado Plurinacional da Bolívia pela exitosa condução da Presidência do G-77 e China, cujos resultados contribuíram para o realce dos povos do Sul à luta pela erradicação da pobreza e da fome; promoveram o respeito aos direitos da Mãe Terra e o trabalho para alcançar o viver bem, em harmonia com a natureza.
16. Saudar a próxima assunção da Presidência Pro Tempore da União de Nações Sul-americanas [UNASUL] pela irmã República Bolivariana de Venezuela, em abril de 2016.
17. Felicitar ao Governo da República do Equador pela inauguração da nova sede da UNASUL na cidade de Quito, Metade do Mundo; e pelo relançamento da integração sul-americana, que se vê fortalecida com a nomeação do ex-presidente Ernesto Samper como secretário-geral da UNASUL, a adoção da cidadania sul-americana, a criação da Escola Sul-americana de Defesa, entre outros importantes aspectos.
18. Reafirmar o apoio à República Bolivariana de Venezuela, por ocasião de assumir a Presidência do Movimento de Países Não Alinhados [MNOAL] a partir do ano de 2015.
19. Felicitar ao Honorável Gaston Alphonso Browne, por sua eleição em 12 de junho como primeiro-ministro de Antigua e Barbuda; ao companheiro Evo Morales Ayma, por sua reeleição a 12 de outubro como presidente do Estado Plurinacional da Bolívia; e ao Honorável Roosevelt Skerrit, primeiro-ministro da Mancomunidad de Dominica, por sua reeleição em 8 de dezembro, com o que se reafirma a alta vocação democrática dos povos da ALBA-TCP.
20. Felicitar as partes implicadas pelos progressos alcançados nos Diálogos de Paz em Havana entre o Governo colombiano e as FARC-EP; e reiterar seu firme apoio à consecução de um Acordo Final para a terminação do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura em Colômbia.
21. Respaldar a irmã República Argentina por sua luta em defesa da soberania sobre as Ilhas Malvinas, Georgias e Sandwich del Sur, e a defesa de sua dignidade nacional, soberania e livre determinação frente ao ataque dos fundos abutres.
22. Manter e aprofundar a cooperação solidária com a irmã República do Haiti e apoiar todos os esforços de nossa região e de outros países do mundo em função da reconstrução econômica e social da nação haitiana.
23. Ratificar o caráter latino-americano e caribenho de Porto Rico e reiterar que sua plena independência e descolonização constitui um assunto de grande interesse para os países membros da ALBA-TCP.
24. Destacar a importância que confere a ALBA-TCP à reparação dos danos ocasionados pelo genocídio contra a população nativa e a escravidão no Caribe, e apoiar o estabelecimento de um diálogo sobre reparação com os países europeus, intimamente implicados no genocídio contra a população nativa e a possessão de escravos, para abordar as sequelas deste crime de lesa-humanidade.
25. Sublinhar a importância do direito dos países do Caribe a receberem um tratamento justo e diferenciado, tomando em consideração a pequena escala de suas economias, as vulnerabilidades particulares que enfrentam, as características de sua base produtiva e exportadora, e os devastadores efeitos da mudança climática, em particular os tradicionais furacões que costumam sacudir simultaneamente a vários deles.
26. Ratificar o direito dos pequenos estados insulares do Caribe, que em sua maioria são tratados injustamente como de “renda média”, a receberem, em condições preferenciais, a cooperação, o comércio e os investimentos.
27. Sublinhar que a crise climática é um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta e que sua causa estrutural radica em modelos políticos e econômicos baseados em padrões de produção e consumo insustentável dos países desenvolvidos, que geram uma maior desigualdade, injustiça e pobreza. Nesse contexto, reafirmar o compromisso dos países membros da ALBA-TCP com a Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática como a instância multilateral para a negociação nesta esfera e a imperiosa necessidade do respeito a seus princípios, em particular o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e a equidade, como foi uma vez mais confirmado pela XX Conferência das Partes da Convenção, concluída em Lima, Peru, em 14 de dezembro de 2014. Instar, neste sentido, os países desenvolvidos a assumirem estas responsabilidades e a comprometerem níveis de redução de emissões para preservar a vida no planeta.
28. Convocar uma reunião de negociadores e Chanceleres dos países da ALBA-TCP para coordenar as posições inerentes à XXI Conferência das Partes da Convenção, a celebrar-se em Paris, França, em 2015.
29. Apoiar a convocatória de um Encontro Mundial de Movimentos Sociais pela Salvação da Mãe Terra e para enfrentar os efeitos adversos da mudança climática, proposta pelo Estado Plurinacional da Bolívia, e que se celebrará em 2015 nesse país irmão.
30. Reiterar a importância das tecnologias da informação e das comunicações [TIC] para o desenvolvimento socioeconômico dos países membros da Aliança e, nesse sentido, desenvolver a cooperação nesta matéria, em plena conformidade com os princípios do direito internacional, com o objetivo de potencializar sua contribuição ao avanço da Agenda de Desenvolvimento e da manutenção das conquistas da ALBA-TCP.
31. Saudar a proposta da Nicarágua de criar um centro de capacitação em tecnologias agropecuárias da ALBA-TCP, com sede nesse país, para fortalecer o intercâmbio e a preparação dos pequenos e médios produtores e cooperativas dos países membros da Aliança.
32. Destacar que a atualização do modelo econômico cubano, sua Lei de Investimento Estrangeiro e a Zona Especial de Desenvolvimento Mariel brindam oportunidades adicionais, de maneira muito mais ampla, para acelerar a integração produtiva e fortalecer o intercâmbio econômico entre os países membros da ALBA-TCP.
33. Reconhecer a necessidade de fortalecer a participação dos Estados Membros nos mecanismos econômicos que compõem a nova arquitetura financeira da Aliança [SUCRE e Banco da ALBA] como via para ampliar os vínculos econômicos e a complementaridade entre nossos países.
34. Felicitar as ações conjuntas imediatas adotadas por ALBA-TCP e CARICOM para prevenir e enfrentar a epidemia do ebola. Continuar coordenando nossos esforços neste sentido, e manter um estrito seguimento ao cumprimento dos acordos adotados na Cúpula Extraordinária da ALBA-TCP sobre o ebola, celebrada em Havana no 20 de outubro passado.
35. Celebrar a entrada em vigor do Tratado Constitutivo do Centro Regulador de Medicamentos da ALBA-TCP e do Registro Grannacional dos Medicamentos de Uso Humano da ALBA-TCP [ALBAMED], através do depósito do instrumento de ratificação realizado pelo Estado Plurinacional da Bolívia, com o qual se fortalece o compromisso da Aliança em matéria de saúde, ao contribuir para a acessibilidade dos medicamentos essenciais como direito fundamental do ser humano.
36. Exortar aos países membros da Aliança a comporem um Grupo de Trabalho que identifique os resultados das pesquisas científicas e socialize as virtudes medicinais, culturais e alimentícias da folha de coca. Ademais, reiterar o convite aos países membros da ALBA-TCP a realizar intercâmbios comerciais dos derivados lícitos da folha de coca, no marco da Convenção Única de Estupefacientes de 1961, a fim de compartilhar os benefícios e valores que este produto oferece à humanidade.
37. Elaborar uma Agenda Permanente de temas prioritários para a Aliança e encarregar ao secretário executivo de seu seguimento, consulta e cumprimento.
38. Elaborar estratégias e ações concretas que permitam operacionalizar a construção e o desenvolvimento da Zona Econômica Complementar ALBA-TCP / PETROCARIBE / CARICOM / MERCOSUL como espaço de Complementaridade econômico-produtiva. Este passo resulta importante para garantir a sustentabilidade dos programas e ações sociais que têm elevado a qualidade de vida de nossos povos e que têm sido o sinal distintivo da ALBA-TCP desde sua fundação.
39. Apoiar a implementação das ações de cooperação nas esferas econômica e social entre os países membros da ALBA-TCP para relançar a agenda econômica e social da Aliança em 2015, recolhidas no Anexo I à presente Declaração.
40. Convocar uma reunião dos países da ALBA-TCP sobre a Missão Milagre [Misión Milagro] em Caracas, em janeiro de 2015, para avaliar, planejar e propor a ampliação deste programa.
41. Instruir o Conselho de Complementação Econômica, em sua próxima reunião em 2015, que convide os países de PETROCARIBE, com a finalidade de consensualizar a proposta de instrumento de constituição da Zona Econômica de Desenvolvimento Compartilhado ALBA-PETROCARIBE, com base na documentação remetida ao efeito, e submetê-lo a apreciação dos Chefes e Chefas de Estado e de Governo da ALBA-TCP.
42. Convocar o Conselho de Complementação Econômica da ALBA-TCP, em 23 de fevereiro de 2015, em Havana, para analisar as propostas que permitam impulsionar as ações no âmbito econômico da organização.
43. Convocar a realização da um Conselho Político da ALBA-TCP, a 24 de fevereiro de 2015, em Havana, no contexto das celebrações por ocasião do 120º aniversário do reinício das lutas pela independência de Cuba.
La Habana, 14 de dezembro de 2014

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Equipe ANNCOL - Brasil




terça-feira, 16 de dezembro de 2014

É o Pré-Sal, a Dilma e o Lula, estúpido! O Instituto Millenium também...


Por Davis Sena Filho


Todo mundo sabe, até mesmo os recém-nascidos, os mortos, os acordados de um coma profundo e os extraterrestres que o sistema de mídias privado e de direita, controlado por meia dúzia de famílias chefiadas por magnatas bilionários de imprensa se transformou em um partido político não oficial e de caráter conservador, entreguista e golpista.



Todo mundo sabe, menos os coxinhas de classe média de direita, além de certas celebridades, como o ex-roqueiro Lobão, e gente intelectualmente pouco honesta, a exemplo de Olavo de Carvalho, Demétrio Magnoli e Marco Antônio Villa, “ases” do reacionarismo tupiniquim aboletados no Instituto Millenium, parecem não saber que este movimento dos grandes trustes internacionais de petróleo contra a Petrobras, a ter como porta-vozes a imprensa de negócios privados, que atuam e agem no Brasil é na verdade uma estratégia organizada e engendrada para desmoralizar a histórica estatal brasileira e desconstruir a imagem do Governo Trabalhista, a ter como seus líderes a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, ambos petistas.



Se qualquer pessoa quiser saber onde começa o golpe de estado de caráter jurídico e midiático no Brasil, basta levantar seus olhos para o Instituto Millenium, além de clubes e associações empresariais urbanas e rurais, que, inconformados com a derrota eleitoral para o PT, ainda não desceram dos palanques e fazem uma oposição feroz, seletiva, histérica, manipulada e, evidentemente, de essência golpista, porque apostam em impeachment de uma presidente recentemente eleita, bem como em golpe militar, que, de forma cínica e hipócrita, chamam de “intervenção” militar.



Trata-se do Instituto Millenium, um misto de Escola Superior de Guerra (ESG) com o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), entidades que no passado conspiraram e fomentaram o golpe militar de 1964, com o apoio financeiro e ideológico da CIA norte-americana, a ter à frente golpistas poderosos e influentes como o presidente Castelo Branco, o general Golbery do Couto e Silva, o banqueiro Magalhães Pinto e os empresários Ivan Hasslocher, Glycon de Paiva, Gilbert Huber Júnior e Paulo Ayres Filho, dentre muitos outros, a exemplo das famílias midiáticas dos Marinho, dos Frias, dos Mesquita e dos Civita.



Neste momento, a política brasileira passa por um processo de achincalhe, linchamento moral e propaganda sistemática e perniciosa contra o Governo Trabalhista se repete, porque volta aos tempos do pré-golpe de 1964, com o envolvimento de certa banda da Polícia Federal, que se mostra insubordinada, porque à direita do espectro ideológico, bem como resolveu fazer política, ao ponto de delegados da PF do Paraná fazerem política contra o Governo do PT nas eleições presidenciais, além de atacá-lo frontalmente, inclusive a ofender o ex-presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff.



Paralelamente às ações de delegados partidários e pró-tucanos, o Governo petista se vê obrigado a lidar com outra frente oposicionista e que controla o Judiciário e o Ministério Público Federal. Juízes de altas cortes e promotores passaram a vazar investigações da PF para a imprensa de mercado, sendo que as informações geralmente tratavam quase sempre de pessoas ligadas ao Governo ou ao PT, de forma que se percebeu que tais vazamentos o são, sobretudo, seletivos, e, com efeito, tem a intenção de fazer com que o público pense que o PT é o inventor da corrupção no Brasil, e que o PSDB e seus áulicos são, na verdade, um monte de chapeuzinhos vermelhos ou rapunzeis, de olhares meigos e inocentes à espera de escaparem ilesas da bruxa e do lobo mau.



Porém, a Casa Grande governou o Brasil durante séculos, e, evidentemente, a corrupção nunca foi combatida, porque a direita é patrimonialista, elitista, violenta e, obviamente, sectária, pois partidária de um País que sirva a poucos e que os muitos somente tenham o papel de serem explorados por intermédio da força de trabalho, se possível, mal pagos e sem oportunidade de qualificação e ascensão social. Ponto.



Chega a ser surreal as realidades distorcidas pela imprensa alienígena e meramente comercial. Quanto mais o Governo investiga a corrupção perpetrada por quadrilhas de criminosos, por intermédio da Polícia Federal, subordinada ao Ministério da Justiça, mais a imprensa corporativa dá conotações mequetrefes e malfazejas, de forma que os consumidores desse segmento da economia, incrivelmente desregulamentado neste País, acreditem em matérias porcamente apuradas e sabidamente manipuladas e distorcidas, a fim de propiciarem um efeito negativo às ações do Governo petista, mesmo quando se torna evidente que o combate à corrupção no Brasil nunca foi tão levado a sério, tal qual como apregoou a candidata Dilma Rousseff quando disse que não deixaria pedra sobre pedra, nos debates contra o tucano derrotado, Aécio Neves, bem como no discurso da vitória.



Contudo, percebe-se claramente que o golpismo tucano-midiático não se restringe ao inconformismo e ao ódio por causa das quatro vitórias eleitorais do PT, em campanhas presidenciais. Não. Enganam-se os inocentes úteis e os replicadores do golpe, que não aceitam a distribuição de renda e riqueza, a ascensão social dos pobres, além da diminuição das diferenças regionais. O que está em jogo, mesmo e para valer, não é mais o terceiro turno, como queria o PSDB na voz irada de Aécio Neves, a ser repercutida no Senado e na imprensa empresarial e familiar subordinada aos interesses dos capitalistas dos Estados Unidos, União Europeia e Japão.



Não mesmo. A aprovação das contas da campanha eleitoral de Dilma e do PT se tornou a pá de cal que cobriu os interesses golpistas da Casa Grande, herdeira legítima da escravidão. A resumir: é o Pré-Sal, a Dilma e o Lula, estúpido! O Instituto Millenium também. O Globo, o Millenium e as alcateias que os acompanham já disseminaram editoriais entreguistas que apregoam o fim do modelo de partilha para o Pré-Sal ao defenderem a implementação do modelo de concessão, tão prejudicial aos interesses do povo brasileiro, como ficou comprovado por meio da venda de ações da Petrobras, em Nova Iorque, pelo Governo de FHC — o Neoliberal I —, o grão-tucano, o maior lesa-pátria da história, que foi ao FMI três vezes, de joelhos, humilhado, com o pires nas mãos, porque quebrou o Brasil três vezes.



É exatamente que a Casa Grande quer: entregar as nossas riquezas e continuar a reboque dos colonialistas e imperialistas como sempre fizeram, sem o mínimo de vergonha na cara, durante séculos. A burguesia e seu apêndice — a pequena burguesia (coxinhas de classe média) — querem determinar a agenda política e econômica do Governo Trabalhista, que foi eleito quatro vezes para dar continuidade aos seus programas de governo e projeto de País.



A Petrobras está a sangrar, mas não vai falir, até porque está a bater recordes de lucros em todas suas áreas, apesar da depredação dos ladrões, que estão a roubá-la desde o fim dos anos 1970, quando esses diretores ingressaram, por meio de concurso, na empresa brasileira mais emblemática, simbólica e que representa o orgulho brasileiro, bem como sua luta por sua independência e emancipação. A Petrobras foi recuperada pelo Governo do PT, e vai ficar muito mais forte com o combate à corrupção que ora está a acontecer, com determinação e coragem.



Além disso, sabemos também que a direita brasileira, uma das mais poderosas e cruéis do mundo, luta contra a política internacional dos governantes petistas, que abriram novas portas para efetivar relações comerciais, a realizar novas parcerias, assinar acordos e contratos e concretizar a criação de blocos poderosos, a exemplo do Brics, do Mercosul, da Unasul, bem como fortalecer as relações Sul-Sul, em termos hemisféricos. O Pré-Sal é nosso, estúpido!



Não adianta O Globo e seus congêneres tentar derrubar a mandatária reeleita pelo povo brasileiro. Seu editorial apenas serve para satisfazer os egos e desejos das aves de rapina, a exemplo de BP, Chevron, Shell e Exxon. As irmãs siamesas, que há mais de um século exploram as reservas dos países petrolíferos, a custo de miséria, violência, guerras, mortes e golpes de estado, com a aquiescência e a cumplicidade de elites escravocratas, como as brasileiras. O Pré-Sal é que está em jogo, estúpido, e não a corrupção na Petrobras, que está a ser severamente combatida pelo Governo Dilma Rousseff, além da desconstrução da imagem de Lula, que pode concorrer às eleições presidenciais de 2018. É isso aí.  

O aroma da Bolívia de Evo e Álvaro


Autor: Hernando Calvo Ospina (Colômbia/França)
Tradutora: Urda Alice Klueger (Brasil)

Se o Che nos escolheu para continuar a sua revolução, terá tido seus motivos”, me disse um boliviano repleto de orgulho, em La Paz.”

Os carros são muitos, demasiados. Principalmente os do serviço público. Não dá para entender como não batem uns nos outros. Os transeuntes devemos calcular como passar de uma cal,cada a outra sem se atropelados. Porém ninguém parece se importar. Somente aos que não somos daqui. Alguém disse uma vez que era a “Shangai latino americana”.
Paro para observar. Olho e olho por muitos minutos e comprovo que os índios, grande maioria neste país, não descem da calçada para dar passagem a um mestiço ou branco.
Lembro, faz dois anos, quando vi no parlamento às índias com suas saias típicas e seus chapeuzinhos. Aos operários com suas humildes, ainda que muito limpas roupas. Tive um impacto. É que a cultura ocidental, a “civilizada”, nos ensinou e nos acostumo que num recinto assim só se vai de paletó e gravata. Com saias bem cortadas e saltos altos.
Existe menos pobreza. O que quero dizer é que agora muito poucas crianças e idosos pedem esmola. Há poucos anos não se tinha tranquilidade para almoçar em um restaurante: os pedintes passavam regularmente, pedindo um pouco de comida ou dinheiro. Algumas pessoas se sentiam culpadas por ter o que comer. O normal era que o proprietário do lugar os enxotasse a pau. Nunca vi pedintes com outras caras além de indígenas. Eles, os donos originários destas terras, tinham sido como um lixo que incomoda e só eram braços para trabalhar, desde que chegaram os espanhóis no século XVI. Isso foi mudando a passos gigantescos desde que Evo, o índio, chegou ao governo em janeiro de 2006.
No ambiente da capital e de outras cidades se sente otimismo. Claro, faltam hospitais. E nos que estão sendo construídos, para atender à maioria, faltam médicos: continua sendo elitista a formação médica, como em quase todas as partes do mundo. Desde o alvorecer deste governo começaram a chegar milhares de médicos cubanos. Instalaram-se para trabalhar em lugares remotos, aonde apenas chegava o sol e o ar. Milhares e milhares de bolivianos têm descoberto que existe uma ilha chamada Cuba, e que essas mulheres e homens de uniforme branco os tratam como humanos.
Muitos, muitos deles, nem falar castelhano sabem, porque é em aimara, quechua ou guarani que se comunicam. Línguas milenares, reconhecidas faz poucos anos.
Em La Paz este governo, o do “irmão presidente” construiu um teleférico, o “amarelo”, que é o maior do mundo. Esta semana se inaugura o “verde”, que creio que é maior que o outro. Para os que vivem lá em cima, no município de El Alto, é uma economia de uma hora pra chegar embaixo, a La Paz. Custa somente TRÊS bolivianos todo o trajeto, de quase 30 minutos. É super moderno. Ao olhar-se, cabine após cabine, parece uma invasão de OVNIs. Os paceños, os de La Paz, sentem-se orgulhosos.
E Evo ganhou outras eleições. Todos o esperavam. Foi a grande festa nacional. O mais impressionante foi que arrasou em Santa Cruz, o reduto da oposição, onde aconteceram até atos terroristas, atentados contra a vida de Evo e projetos separatistas. Lá, a maioria são brancos. Vendo na TV os resultados nessa cidade, lembrei da rainha da beleza de TRÊS anos atrás, mais ou menos. A santacruzeña se atreveu a dizer, no concurso de miss universo, que na Bolívia não havia índios. Essa cidade e em Sucre, a capital original do pais, a publicidade e realizada com modelos nacionais, de cor e feições europeias.
Em Santa Cruz muitos industriais compreenderam que reinvestindo os lucros no próprio país poderiam também ganhar. Com Evo está se formando uma burguesia nacional, que reivindica a soberania. Aliada do processo de mudança. E seus empregados e trabalhadores não são semiescravos, e são pagos com justiça.
A imprensa, a que mais vende ainda, a das elites, a que segue adorando e esperando que os Estados Unidos voltem a governar com ela, tem o mesmo discurso que a do Equador e da Venezuela. Penso que seus milionários proprietários investiriam dinheiro se alguns poucos dos seus jornalistas se coordenassem para fazer os artigos de política nacional e internacional. Só haveria que mudar alguns nomes e dados para por no contexto de cada um desses países. Pois os textos são uniformes. O discurso é o mesmo. De qualquer maneira, admiro a esses jornalistas por todos os malabarismos que fazem para dar outra explicação à realidade.
Estive revisando o que propunha a tal oposição. Os bolivianos tiveram razão em lhe dar tal surra de votos. Bem, é que nada propunham. A base do seu discurso era criticar e inventar contra Evo e Álvaro García Linera, o culto vice presidente branco de coração mestiço e guerreiro. Falavam de “mudança”, de “democratizar”, de “servir às maiorias”. E a gente não sabe se deve rir ou ficar em dúvida: se foram os mesmos, ou seus compadres, ou avós, ou bisavós o que dirigiram o país por décadas, quase por séculos, como sua fazenda. Tiveram o país prostrado diante do capital estrangeiro e das decisões da embaixada estadunidense. A Bolívia era, antes de Evo, o segundo país mais pobre do continente, depois do Haiti. Enquanto suas imensas riquezas que têm somente iam para a os Estados Unidos e a Europa.
Lembro quando Evo entrou na casa presidencial, o Palácio Queimado, situado na pequena praça Murillo. Suponho que os funcionários que ali serviam estavam preocupados de que aquele índio sujaria os pisos encerados. Evo queria saber para servia cada escritório. Depois de ver o seu, perguntou pelo que havia justamente ao lado. Não queriam abri-lo. Diziam que deviam pedir autorização para uma pessoa que não era boliviana. Ou também se deveria chamar um escritório que era fora dali. Diante da insistência do novo presidente tinham que abri-lo. Melhor, forçar a porta, porque nenhum boliviano tinha a chave. Nem mesmo o serviço de segurança. Ali não era nada mais nada menos que o escritório da embaixada dos Estados Unidos, mas um escritório particular, de responsabilidade da CIA. Evo, atrevido, ordenou que se chamasse o responsável pela delegação diplomática para que tirasse o escritório ali do palácio. Foi seu primeiro ato de soberania.
Duas nações golpearam o orgulho europeu e tiveram que pagar: Haiti e Bolívia. Os escravos negros africanos se rebelaram no final do século XVIII. Humilharam o poderoso exército francês de Napoleão, declararam a independência do Haiti no primeiro dia de 1804 e declararam o fim da escravidão, três anos antes que a Inglaterra.
Na Bolívia nasceram as maiores revoltas indígenas contra o domínio espanhol. E desde o século XVII. Tupac Katari e sua mulher Bartolina Sisa se levantaram em armas, no final do século seguinte. Foram seguidos por milhares de indígenas. Sitiaram La Paz. Queriam acabar com a escravidão a que estavam submetidos seus irmãos de sangue. Claro, não se chamava escravidão porque os reis espanhóis e o Vaticano haviam decidido, desde o século XVI, que os índios tinham alma, eram humanos. Era o que não tinham os negros africanos. Porém, como havia necessidade de braços para as minas e os campos, puseram outros nomes à escravidão. Depois de muitas batalhas, foram derrotados. Foram esquartejados e exibiram suas partes por muitas regiões , para que os demais soubessem o que aconteceria a cada um se continuassem rebelados. Porém as cinzas continuaram ardendo, e pouco depois explodiram as batalhas em todo o continente contra o domínio espanhol. E europeu em geral.

Desde então, as potências europeias decidiram que os povos dessas nações deviam pagar sua ousadia, seu anelo de liberdade. Condenaram, nos à miséria.
E a Bolívia, com suas minhas de ouro e de prata tornou radiante as nações europeias. Roubaram tanta prata, a custa de milhares de vidas, que se diz que com tal quantidade se poderia construir uma ponte até Sevilha, cidade para onde iam os tesouros roubados.

Ana Rosa, uma pequena mulher que guarda uma biblioteca de informação histórica em sua cabeça, me surpreende quando me conta que o militar Cornéli Savaaedra teve uma decidida participação na Revolução de Maio, que foi o primeiro passo para a independência argentina. Converteu-se numa proeminente figura política, a ponto de chegar a ser um presidente da Primeira Junta de governo das Províncias Unidas do Rio da Prata. Saavedra era um boliviano, nascido em Oyuno, na atual província de Potosi. Um grande detalhe ao qual os argentinos dão pouca importância.
Hoje, com Evo e Álvaro, a Bolívia voltou a ser soberana. A maioria da sua população, a índia, sente que renasce o Império Inca.

Hernando Calvo Ospina é jornalita colombiano, residente na França e colaborador do Le Monde Dipomatique. Seu mais recente livro, traduzido para seis idiomar, é “Cala e respira”, publicado em espanhol pelo El Viejo Topo. Sua página WEB: HTTP://calvospina.free.fr/


“Somos rebeldes, não narcotraficantes”


Recentemente, escutamos o chefe da Delegação do Governo, doutor Humberto De la Calle, e o Presidente Juan Manuel Santos referirem-se à necessidade de reconhecer a natureza do delito político e suas conexões, afirmando o mais básico acerca da rebelião, enquanto a que é um direito fundamental, um direito humano, um direito dos povos.
Nesta mesma semana, na Cúpula Ibero-americana, no México, novamente, o primeiro mandatário aludiu ao delito político, porém associando-o ao narcotráfico. Ao fazê-lo dessa maneira, confunde na mente dos colombianos e de muitos no mundo a imagem do guerrilheiro com a do narcotraficante, incorrendo numa distorção conceitual de fundo, que, em vez de concitar apoio à causa da paz, gera confusão.
Esta confusão que desfigura a luta altruísta, que implica o legítimo desejo à rebelião, de alguma maneira aponta a assinalar as FARC-EP como um grupo de narcotraficantes.
Neste contexto, os argumentos dos altos funcionários do Estado, que aparentemente estariam ordenados a ampliar os conexos ao delito político, como parte das saídas jurídicas que viabilizem a paz, no fundo o que buscam é o desprestígio de uma força rebelde que, por princípio, considera nociva a existência do negócio capitalista do narcotráfico.
As FARC-EP temos exposto e assumido sempre, com responsabilidade e interesse, o debate público sobre o fenômeno do narcotráfico como um problema social e global, que requer o concurso das nações do mundo para sua solução. De fato, o acordo parcial do quarto ponto da Agenda de Diálogos assim o confere, e evidente é que está construído a partir de nossas propostas mínimas que o país conhece e que acusam ao setor financeiro, através da lavagem de ativos, como seu motor fundamental.
O delito político é outro assunto. A rebelião é delito político e todo ato, toda conduta que se realize para fazê-la efetiva tem caráter conexo.
A luta de meio século das FARC-EP se prende às condutas de tipo político e militar que configuram a rebelião; elas têm tido como objetivo supremo avançar na construção de outra Colômbia, em liberdade e democracia. E nisto se incluem os atos de financiamento que distintos setores tocaram, incluídos traficantes de todo tipo de mercadorias legais e ilegais, sem envolver-nos em procedimentos de cultivo de maconha, coca ou amapola, nem em atividades de produção ou comercialização de drogas de uso ilícito.
As atividades realizadas pelas FARC-EP, todas, têm sido executadas em função da rebelião, e assim ficou conferido e superado no pactuado sobre o ponto 4º do Acordo Geral, “Solução ao problema das drogas ilícitas”. De tal maneira que as acusações que nos liguem ao narcotráfico são pérfidas e inúteis no processo da reconciliação.
Nunca admitimos nem admitiremos ser narcotraficantes ou que os fatos que configuram o complexo fenômeno do narcotráfico se assimilem, em seu conjunto, ao caráter que têm o delito político e a rebelião; entre outras considerações, porque nunca poderíamos aceitar que um negócio, qualquer que seja, destinado ao enriquecimento pessoal, possa ser admitido como altruísta e revolucionário, menos ainda quando neles estão articuladas verdadeiras organizações e redes criminais transnacionais, cujo ninho é o poder financeiro mundial. Para o caso da Colômbia, este poder se cristalizou em grupos banqueiros, em cúpulas econômicas e políticas ligadas à lavagem de ativos, à especulação, à construção, à indústria, ao latifúndio, ao paramilitarismo, desde os tempos do Diretor da Aeronáutica Civil, de janeiro de 1980 a agosto de 1982, que concedeu centenas de licenças para circulação de aeronaves e pistas de aterrisagem de capos do narcotráfico.
Assim como as FARC-EP desenvolvem propostas na Mesa de Diálogos para recuperar o campo transversal e transparente do delito político e sua conexidade, diferenciando por razões éticas, políticas e jurídicas um rebelde de um paramilitar, ou de um narcotraficante, também vamos seguir insistindo no cumprimento de obrigações como a que se consagrou no Acordo sobre drogas ilícitas, referida ao tratamento penal diferenciado, para que o Estado não se enfureça contra pequenos agricultores que estejam ou estiveram vinculados com cultivos de uso ilícito, quando grandes narcotraficantes e patrocinadores estão livres e acomodados nas benesses do poder. Insistimos, portanto, no combate aos verdadeiros narcotraficantes, que são os comercializadores e lavadores de dinheiro.
Com o propósito de estabelecer critérios transparentes nesta matéria, será muito benéfico que o governo cumpra com o compromisso do ponto 4.3.6 do acordo parcial referido a esta temática que expressa que “No marco da discussão do ponto 5.2 da Agenda do Acordo Geral se estabelecerá o mecanismo que deverá, entre outros, abordar o tema do esclarecimento da relação entre produção e comercialização de drogas ilícitas e conflito, incluindo a relação entre o paramilitarismo e o narcotráfico...”.
Não estamos contra construir uma saída política, jurídica, de diálogo, de consenso social, nacional e internacional frente ao tema das drogas e dos circuitos que se alimentam desse flagelo e que, ao mesmo tempo, reforçam-no. Porém, a via não é relacionando o direito universal à rebelião e a categoria do delito político e sua conexidade ampla com um negócio de benefício pessoal lucrativo, que é oposto às razões altruístas, à essência e ao ideário humanista que as FARC-EP defendem.
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP
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Equipe ANNCOL - Brasil