"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

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"De que vale a vida se quando a temos ela parece morta. A vida é para ser senirmos, para vibrar, para lutar, para combater. Isso justifica nossa passagem pela Terra." (Jaime Pardo Leal)

Biografia não autorizada do narco-presidente Álvaro Uribe - Clique aqui para baixar

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Carta a meus pais: Miguel Antonio Beltrán e Alba Ruth Villegas

Pelo preso político Miguel Ángel Beltrán, 14/11/2009


Queridos pais

Imagino suas caras de surpresa quando na sexta-feira passada (22 de maio) escutaram o comandante de polícia, General Oscar Naranjo, dizer que o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) havia capturado “o terrorista mais perigoso das FARCs” e que se tratava de um professor universitário que respondia - igual ao vosso filho - pelo nome de Miguel Angel Beltrán Villegas.

Suponho que, a não ser pelas inquietantes imagens da televisão que corroboraram a notícia, onde me apresentava algemado com jaleco antibalas de cor preta, uma mordaça e um impressionante dispositivo de segurança, papai teria dado uma descomunal gargalhada, comentando a notícia com seu costumeiro humor negro: “se meu filho é terrorista, Uribe é a Virgem Santíssima”.

Mas neste país do Sagrado Coração de Jesus, onde os mal chamados “falsos positivos” (em realidade verdadeiros crimes de Estado) executados a “sangue frio” são o pão de cada dia, tudo é possível. Inclusive que os noticiários citem ao presidente Álvaro Uribe como o mandatário mais popular da América Latina e a mim como um perigoso terrorista internacional.

No dia seguinte, nos calabouços da SIJIN[1] de Bogotá, um guarda compartilhou comigo um artigo publicado pelo diário “El Tiempo” e que parecia um panfleto escrito nos tempos da Guerra Fria quando se dizia que “os comunistas comiam criancinhas”. Na sua coluna, o jornalista afirmava que vocês dois eram guerrilheiros e que eu havia realizado meus estudos na extinta União Soviética. Desta vez - lhes confesso – quem não pode segurar o riso fui eu: “meus pais “chusmeros”[2], vejam que piada divertida”, imaginava em meio à hilaridade que me produzia a notícia que, se eu era acusado de ter o codinome Cienfuegos, seguramente papai foi conhecido como faísca e mamãe como pólvora ou outro explosivo nome de guerra.

Mais do que irresponsável a afirmação do jornalista, colocou em grave risco a integridade física de vocês dado que neste país os ex-guerrilheiros tem sido impunemente assassinados, como pode ilustrar a morte de Guadalupe Salcedo, “Charro Negro”, Carlos Toledo Plata, Carlos Pizarro e muitos mais. Quisera dizer-lhes que secretamente pensei que era um orgulho que no citado artigo de imprensa os chamavam de guerrilheiros. Acaso não foram os exércitos irregulares patriotas os que derrotaram mais de três séculos de colonialismo espanhol? Não foram os guerrilheiros liberais os que enfrentaram as ditaduras civis conservadoras nos anos quarenta e cinqüenta? Não é a ação guerrilheira que tem preservado os escassos resquícios de democracia que hoje subsistem neste país?

Na Colômbia a história tem demonstrado que guerrilheiro é sinônimo de altruísmo, resistência e dignidade; Os LLanos (as Planícies), Chaparral, Villarrica, Marquetalia, Sumapaz e o Guayabero podem dar fé disso. Insultante teria sido se os chamassem “congressistas” ou “assessores presidenciais”, ocupação associada hoje à corrupção, ao Narcotráfico e ao paramilitarismo.

Mas a vida lhes reservou outros caminhos: papai se converteu em um ex-sargento vice- primeiro da policia e minha progenitora em uma abnegada mãe dedicada aos cuidados do lar. Com a generosidade e a entrega de vocês dois, sobrevivendo de uma precária pensão de policia habitando uma casa em “obra negra”, que lhes subsidiou o programa da “Aliança para o Progresso” (e que terminaram de levantar ladrilho a ladrilho), conseguiram criar, educar e alimentar sete filhos: cinco mulheres e dois homens. De modo que se alguma profissão exerceram vocês – há que aclarar ao jornalista – não foi a de guerrilheiro, mas a de magos e ilusionistas.

Hoje confinado neste presídio de alta segurança onde as horas transcorrem lenta e monotonamente, é inevitável recriar em minha mente essas histórias familiares que agora se acumulam em minha garganta como um grito de rebeldia contra toda a injustiça que pesa sobre mim este regime corrupto e narcoparamilitar. Ainda tenho fresco em minha memória aquele longínquo dia, quando a avó Sofia me relatou, sem derramar sequer uma lágrima, porque seus olhos estavam secos de sofrimento, a morte de Victor Villegas, meu avô materno, que era dono de uma extensa fazenda cafeteira no velho Caldas. Uma tarde qualquer – me contou vovó – sua vida foi ceifada a machadadas, pelo delito de ser “cachiporro”.[3].

Seu corpo inerte permaneceu estendido por várias horas na praça do povo. Ninguém se atrevia a recolher-lo por medo de represálias, mas minha avó que sempre se distinguiu por ter um caráter forte, fazendo pouco caso dos apelos de amigos e vizinhos dirigiu-se à praça do povo, recolheu o cadáver, o carregou vários quilômetros e, em cerimônia quase privada, lhe deu sepultura cristã.

Antes que concluísse o relato meus olhos estavam marejados de lágrimas, por isso talvez a avó que conhecia minha sensibilidade nunca me contou que, no momento de enterrar seu defunto esposo, em seu ventre uma pequena de apenas oito meses de existência agitava sua cabecinha, como perguntando por que lhe privavam de ter um pai que lhe arrulhasse no pescoço, lhe beijasse na testa antes de dormir e a levasse ao parque.

Minha tia Yormen – como depois batizaram esta menina – cresceu assim como tem crescido milhares de colombianos, isto é, como filhos do conflito armado e social que tem castigado o país por décadas.

Foi assim como minha imaginação infantil começou a povoar-se com as histórias “da violência” que saiam a reluzir, cada vez que chegava uma visita familiar. Recordo que - como éramos crianças - nos mandavam dormir porque se tratava de “conversa para adultos”.

Mas minha curiosidade era maior e, contrariando as ordens paternas, escutei atrás das escadas que conduziam ao segundo piso de nossa casa, algumas palavras que muito depois fariam sentido para mim: “godos”[4], “cachiporros”, “pajaros”[5], “chusmeros”, “chulavitas”[6], “Gaitán”[7], “sangrenegra”[8], “vingança”, “laureanistas”[9] e outros mais.

Muito cedo os relatos de fadas encantadas e de príncipes valentes, que com seus beijos desfaziam os malefícios da bruxa malvada, foram substituídos pelos terroríficos contos da polícia “chuvalita” que incursionava pelos povos liberais e cortava o pênis dos homens e o colocavam na boca de suas vítimas, pelos relatos fantásticos de homens de filiação liberal que eram obrigados a caminhar descalços sobre brasas ardentes e, ainda, extraíam os fetos das mulheres grávidas e os enfiavam em suas baionetas, exibindo com orgulho o apreciado troféu.

Escutava estas histórias com uma mescla de terror e fascinação e, como era de se esperar, ao longo da noite era impossível conciliar o sono. Então corria para minha irmã mais velha, que me aninhava em seus braços e, acariciando-me a cabeça, me dizia com sua voz doce para dormir, que essas histórias haviam acontecido há muito tempo na época da violência, mas que agora era tudo diferente; “godos” e “cachiporros” conviviam juntos e já não se matavam.

Ao escutar estas palavras uma sensação de segurança invadia todo meu corpo e fechava os olhos agradecido com a vida por não ter padecido o horror daqueles anos. E assim como minhas leituras infantis minhas simpatias se alinhavam com os mais débeis (chapeuzinho vermelho, Branca de neve, e Cinderela) e meus ódios com os mais cruéis (o lobo, a bruxa e a madrasta) nos relatos que escutava de vocês não me foi difícil tomar partido a favor dos “cachiporros”.

É certo que com meus escassos cinco anos não entendia o que significava esta palavra, mas no mais profundo de meu coração algo me indicava que eles eram bons e os “godos” maus. Na minha lógica infantil teve, no entanto, algo que começou a inquietar-me constantemente: os “chuvalitas” eram policiais e estes por sua vez eram “godos”, mas – veja que horror! – meu pai era policia.

A preocupação rondava tanto minha cabeça que um dia me enchi de coragem e cerrando os olhos me atrevi a perguntar: “papai, quantos cachiporros você matou?” Eu esperava um severo castigo por meu atrevimento, mas como resposta obtive uma sonora gargalhada. Em minha mente infantil essa risada significava que havia assassinado e esquartejado milhares de liberais. Então minha cara ficou séria e um calafrio percorreu o meu corpo. Ante a certeza de algo que já suspeitava, a imagem de um pai exemplar, do pai carinhoso, do pai bom desfazia-se em mil pedaços, como um cristal ao espatifar-se no piso.

Quando estava a ponto de desatar um soluço papai respondeu que em toda a sua vida não havia matado ninguém. E em seguida me esclareceu já com gesto sério – enquanto meu coração voltava ao corpo – em que pese ser um policial nunca deixou de ser um liberal gaitanista. E que sempre ocultou essa filiação política não só para proteger sua vida como também a de dezenas de famílias perseguidas pela violência conservadora; também para burlar ordens que não considerava corretas e procurar justiça onde a situação o requere.

A partir desse dia, tudo parecia mais compreensível e o enredo de idéias que tinha em minha cabeça começou a clarear-se. Por exemplo, compreendi porque mamãe sendo liberal se havia casado com um policial. Assim mesmo entendi a diferença entre um “pássaro” e um “guerrilheiro”. Soube também desde aquela vez que nas fileiras da polícia havia gente boa. E anos depois convertido em ativista estudantil rechacei aquela consigna dogmática tão em voga entre os universitários, que considerava que todos os militares eram assassinos.

Não obstante, a melhor lição que me trouxeram estas conversações com vocês e que se fizeram cada vez mais freqüentes foi que, independentemente de onde estivesse, devia sempre tomar partido a favor dos fracos e manifestar minha indignação contra toda injustiça.

Foi nesses primeiros anos de minha vida que comecei a interessar-me pela história política do País e aquela velha biblioteca de madeira, que ainda sobrevive na casa abriu-se para mim como se fosse um tesouro escondido: ”Viento seco” de Daniel Caicedo; “O que o céu não perdoa” de Fidel Blandón; “Um aspecto da Violência” cujo autor já não recordo, forma obras que devorei em questão de dias.

No entanto, o livro que mais me impactou foi o “Las guerrillas Del Llano”[10]. Seu autor, Franco Isaza, havia participado na contenda. Recordo-me que na biblioteca papai tinha a primeira edição impressa em Caracas, Venezuela, e que circulou clandestinamente sob a ditadura do general Rojas Pinilla, com um prólogo de Plínio Apuleyo Mendonza onde exaltava “a heróica resistência guerrilheira do partido liberal”.

Tinha sete ou oito anos quando li avidamente em uma dessas férias escolares. Com grande crueza Isaza retratava ali sangrentos massacres cometidos pelos chuvalitas nos povoados de El Llano, mas ao mesmo tempo explicava como os leões llaneiros foram se armando para defender suas vidas e propriedades, primeiro em aliança com os fazendeiros liberais e depois contra eles, que se puseram ao lado dos conservadores.

Nas diferentes conversas com meu companheiro de cela Heli Mejia, mais conhecido como “Martin Sombra” recriei estas histórias. Sombra me conta como sua mãe e suas tias foram violadas e assassinadas pela polícia chuvalita; e como seu pai, pouco depois teve a mesma sorte:

“Ante o corpo agonizante de meu pai, jurei que morreria como um guerrilheiro, por isso jamais me esqueci e em 1966 me vinculei aos núcleos iniciais das FARCs”.

Sombra é um vivo exemplo da continuidade – e por sua vez a descontinuidade – da luta guerrilheira na Colômbia. Um conflito que começou como um enfrentamento entre liberais e conservadores, mas que nos anos sessenta adquiriu claro conteúdo de classe, como ficou consignado no “programa agrário dos guerrilheiros” (FARC) e o Manifesto de Simacota (ELN).

Faz mais de um quarto de século que em minha teses de licenciatura em Ciências sociais comecei a investiga este passado histórico, porque acreditei ver nele algumas chaves para compreender a atualidade do conflito armado na Colômbia. Foi assim que me interessei por estudar as guerrilhas liberais do Llano.

Eram os tempos do processo de paz do presidente Belisário Betancur e, de diferentes setores do estado se pressionava para que os combatentes se desmobilizassem e entregassem suas armas. A investigação que realizamos em co-autoria com um companheiro de estúdio, filho de um exguerrilheiro liberal; levou-nos a concluir que os guerrilheiros do Llano haviam sido traídos pelo general Rojas Pinilla que solicitou aos rebeldes que entregassem suas armas em troca de promessas de paz que nunca cumpriu, ao contrário muitos foram presos e assassinados.

Por isso na introdução do nosso trabalho investigativo assinalamos que a derrota do movimento guerrilheiro convertia-se em vitória, porque jamais se voltaria a ver fileiras de insurgentes entregando suas armas a seus verdugos.

A história, no entanto, se encarregaria de desmentir parcialmente aquela afirmação. Anos depois, os guerrilheiros do M-19 desconsiderando esta lição histórica, entregaram suas armas e muitos deles forma assassinados começando pelo seu chefe máximo, o comandante Carlos Pizarro Leon Gomez mesmo contando com uma escolta de mais de 20 homens.

Diferente foi a sorte dos combatentes das FARCs que se esquivaram do processo de “cessar fogo trégua e paz” e se negaram a entregar as armas e anunciaram ao país a formação de um novo movimento político, a União Patriótica (UP). Me vinculei às fileiras da União Patriótica desde o início, porque vi nesse movimento amplo a possibilidade de uma mudança democrática pela via pacífica. Suas propostas de reforma política, agrária e social chamaram minha atenção, assim como seu compromisso com a busca de uma saída política ao conflito colombiano.

A candidatura do magistrado Jaime Pardo Leal satisfez todas as minhas expectativas: seu discurso inflamado, sua tradição de luta, sua capacidade intelectual e sua formação acadêmica me convenceram de participar, pela primeira vez, em uma contenda eleitoral. Mas a oligarquia deste país ao ver ameaçados seus mesquinhos interesses, exterminou a sangue e fogo este experimento político.

De pronto comecei a sentir com horror que essas histórias da violência que vocês relatavam em meus anos de infância não eram coisas do passado, sim do presente: corpos cortados com motosserra ou lançados como alimento a crocodilos, assassinos que jogavam futebol com a cabeça de suas vítimas, homens, mulheres e crianças esquartejados, populações inteiras arrasadas, marchas campesinas esmagadas indiscriminadamente;

Sindicalistas, estudantes e líderes populares desaparecidos, guerrilheiros desarmados assassinados impunemente e centenas de fossas comuns distribuídas por todo o território colombiano. Assim vi desvanecer-se o Partido da “vida e da esperança” para converter-se no “Partido da Morte”: senadores e candidatos à câmara, conselhos, prefeituras populares e militantes de base da UP foram exterminados barbaramente.

Tenho em minha mente gravados os nomes de Leonardo Posada, Pedro Nel Jimenez, Teófilo Forero, José Antequera, Pedro Luis Valencia, Bernardo Jaramillo, Miller Chacón, Manuel Cepeda e milhares de companheiros mais que despareceram sob este furacão de mortes pelas altas esferas do poder.

No entanto, ninguém como a família Canón Trujillo encarnou tão tragicamente o drama da guerra suja, o desaparecimento forçado, a tortura e o isolamento que padecemos os militantes da União Patriótica naqueles anos: o pai, Julio Canón, prefeito popular desta coletividade política no município de Vistahermosa, foi assassinado; dois de seus filhos trucidados (um deles apresentado como guerrilheiro morto em combate); o terceiro irmão desaparecido e outro mais torturado; enquanto os sobreviventes – entre eles Carmen Trujillo, a mãe cabeça da família – se viram forçados a abandonar a região.

O ciclo de extermínio contra a União Patriótica alcançou para mim seu ponto máximo, quando um domingo 11 de outubro, perto de 4h da tarde, faz já 22 anos, escutei pelo rádio a terrível notícia do assassinato de meu mestre, amigo e companheiro de luta Jaime Pardo Leal, então candidato presidencial desta organização política. Aquele dia não pude conter minha indignação e, como milhares de compatriotas, saí às ruas de Bogotá a manifestar meu espontâneo protesto pelo traiçoeiro assassinato do nosso líder popular que um mês antes havia denunciado com nomes próprios aos altos escalões militares comprometidos com os crimes da União Patriótica.

As barricadas nas ruas centrais da capital, o apedrejamento das entidades financeiras, a queima de ônibus e o saque de armazéns me lembraram, inevitavelmente as cenas de 9 de abril de 1948, que vocês haviam vivido e que tantas vezes repassei em minhas leituras universitárias. Para minha desgraça, essa noite terminei encerrado em um frio e escuro porão da estação de polícia do Ricaurte, onde fui torturado – e estive a ponto de ser desaparecido – por conta de um corpulento homem a quem, soube depois, seus companheiros chamavam de “Rambo”, aludindo à rudeza do protagonista desta fita gringa.

Por um feliz equívoco do sentinela de turno, que me confundiu com outro dos detidos, obtive milagrosamente minha liberdade pela manhã do dia seguinte. Consciente da distração do guarda que seguramente iria ser castigado saí temeroso, com o temor de que dessem pelo erro antes de cruzar a porta que dava para a rua; minhas pernas apenas me respondiam e meu coração parecia explodir.

Nessas condições, ainda não entendo como cheguei até em casa, que se encontrava a uma hora do local onde estava preso. Lembro-me que vocês, junto com meus irmãos e irmãs, estavam reunidos na sala. Papai se achava com as orelhas pregadas no rádio, como que esperando algum boletim informativo que desse conta de meu paradeiro; enquanto minha mãe e minhas irmãs oravam em frente a um quadro do Coração de Jesus que sempre nos acompanhou.

Minha aparição na sala da casa foi como uma imagem de um Cristo recém ressuscitado entre os mortos, só que em lugar da túnica branca, vestia uma camisa e uma calça totalmente esfarrapados. Meu corpo estava machucado por toda parte, minha cabeça com hematomas, meus braços com profundas escoriações e meu olho esquerdo convertido em um gelatinoso coágulo de sangue. Dos abraços, as lágrimas e a alegria do reencontro, logo passou a raiva e a indignação pelo maltrato recebido. Nesse mesmo dia papai redigiu um memorial escrito à máquina e dirigido ao comandante da estação Ricaurte. Depois de identificar-se como suboficial das Forças Militares “em uso de licença” entregou o memorial a um major que tinha a cargo o Comando, não sem antes pronunciar-se em longo discurso, onde recordava que a função da polícia era defender a integridade da população civil e não atropelar-lhe; que em seus mais de vinte anos de serviço militar jamais havia atuado contra ela, em que pese haver vivido os duros anos da violência para concluir suas alegações dizendo: “agora sim entendo por que a guerrilha os mata!!”

Com meus irmãos e minha mãe pensamos que iam deixar papai ali e que terminaria tomando o meu lugar no calabouço, mas pelo contrário, o oficial de policia o escutou atentamente e, com seu silencio, pareceu dar-lhe toda razão. Quando papai regressou para casa – feliz pela catarse feita – todos soltamos a respiração que até então estava contida. Depois desse bárbaro episódio, estive vários dias morto de pânico, esperando que em uma esquina qualquer aparecesse “Rambo”, montado em sua moto e disposto a concluir sua bestial tarefa.

Por sorte, isto nunca aconteceu e, vencendo meus medos interiores, assisti ao enterro de Jaime Pardo Leal e de muitos companheiros mais. Sentíamos ali – como o famoso tango de Gardel – que “a vida era um sopro”. Assim, talvez sem darmos conta, aconteceu algo terrível, que jamais deveria acontecer: ante o efêmero da vida nos enamoramos da certeza da morte.

Ríamos, bailávamos, sonhávamos e nos acostumávamos com ela. Cada dia, cada minuto e cada segundo que vivíamos intensamente era um instante que furtávamos da morte. Não fazíamos juramentos de amor, não prometíamos estrelas azuis, mas estávamos dispostos a dar tudo, porque a vida não nos pertencia e em qualquer momento chegaria a morte assassina.

Começamos então a render um culto religioso a Thanathos. Nossos sonhos, nossas palavras, nossos silêncios, nossos versos e até nossas consignas estavam impregnadas de um hálito de morte: “os mortos não choram – costumávamos gritar nas marchas – levantam suas bandeiras e a luta continua”.

Entretanto, em segredo chorávamos suas ausências e lamentávamos a escura desgraça de estar sem eles. Um de nossos jogos prediletos era relatar qual seria nossa última vontade: “Eu desejo que meu cadáver seja incinerado e as cinzas sejam lançadas no rio Magdalena” – dizia alguém; “Eu prefiro que meu corpo seja sepultado embaixo da terra e sobre ele plantem uma árvore que cresça até o infinito” – intervinha outra voz; “meu desejo póstumo é que durante minhas honras fúnebres cantem a canção do eleito”, que iniciava assim:

“sempre que se faz uma história, se fala de um velho, de uma criança ou de si; mas minha história é diferente, não vou falar-lhes de um homem comum, farei a história de um ser de outro mundo, de um animal de galáxia;

É uma história que tem a ver com o curso da Via Láctea. É uma história enterrada, é sobre um ser do nada.(...)”

Sua letra me recordava uma de minhas leituras preferidas quando era pequeno:”El Principito”.

O culto à morte era acompanhado de um total cinismo para encarar a mesma:

“E o companheiro que medidas tomou para encarar a morte? – perguntava alguém ingenuamente – “A do ataúde, claro”, respondia o aludido, sarcasticamente.

Em outras ocasiões quando alguém comentava que um amigo nosso havia se convertido em um quadro nacional, não faltava quem dissesse com ironia: “Está certo, mas se descuidar-se, em pouco tempo se converterá em um quadro na parede”.

Não faltava razão porque as sedes da UP estavam cheias de quadros de dirigentes da UP que foram assassinados. Com o tempo estes quadros foram se multiplicando com a imagem horrorosa de centenas de amigos e amigas que nos deixaram e dos quais só ficou a lembrança na mente daqueles que compartimos seus ideais, suas lutas e batalhas, e que, apesar disso, sobrevivemos a essa barbárie.

Sim, eu fui um dos sobreviventes. Não explico como nem por que. “As almas penadas”, diria minha avó Sofia, as mesmas que a guardaram dos “godos” quando com oito meses de gravidez, carregou o corpo ensangüentado do esposo; as mesmas que em meio da “chulavitada” protegeram a vida de vocês, uns autênticos liberais; as mesmas que a escoltaram quando tiveram que abandonar a fazenda cafeteira e radicar-se em Bogotá para escapar do terror dos “pássaros”

Claro, também paguei meu preço, no entanto, nada comparável com a entrega da vida. Em várias ocasiões fui golpeado e torturado pela polícia e a última dessas vezes – faz mais de 20 anos – permaneci preso nesta mesma prisão durante dois longos meses, mas a verdade se impôs e o juiz declarou minha inocência.

Recordo que nessa oportunidade vários universitários forma golpeados e detidos comigo, e mamãe com lágrimas os olhos, ainda que com um pouco de alívio, me disse: “filho, graças a Deus que não fizeram a você como a esse pobre rapaz que arrastaram pelo solo, arrancando-lhe a pele, o subiram a uma camionete e lhe quebraram a cabeça.com um cano.

Como haverá sofrido sua angustiada mãe! Eu apenas concordei balançando a cabeça machucada, mas jamais me atrevi a contar que “esse pobre rapaz era eu”. Porém toda experiência por mais difícil que seja sempre trás lições positivas e, para vocês, este doloroso episódio lhes deixou claro que já nesses anos, liberais e conservadores atuavam com a mesma intensidade contra a oposição. Ou acaso este genocídio e perseguição contra a União Patriótica não estava ocorrendo sob o regime “liberal” de Virgílio Barco que vocês haviam respaldado nas urnas? Com certa resignação tiveram que admitir que a polícia já não era, como no passado, um assunto entre “godos” e “cachiporros” – aliados pelo pacto da Frente Nacional – senão como certa vez assinalou Gaitán: “um enfrentamento do país Nacional contra as oligarquias plutocráticas incrustadas nos partidos tradicionais, porque a fome não liberal nem conservadora”.

Desde então, optaram por apoiar candidatos de esquerda. E dramaticamente a história parecia repetir-se. Assim como os gaitanistas que sobreviveram à violência dos anos 40, organizaram os primeiros núcleos de resistência armada para defender sua vida e a de seus familiares, muitos sobreviventes da União Patriótica não tiveram outra alternativa além de remontar-la.

Ricardo Palmera, hoje conhecido como Simón Trinidad , ilustra claramente esta parábola de vida, como registra o jornalista Jorge Enrique Botero em seu livro “Simón Trinidad, o Homem de Ferro”.

Apesar de nesse momento entender que a guerrilha constituía o único caminho que o sistema deixava para aqueles que mantinham seus ideais de luta por uma sociedade mais justa, nunca me atrevi a dar semelhante passo, ainda que sempre tenha visto com respeito e admiração aqueles que o fizeram.

Tres motivos tive para não fazê-lo: Em primeiro lugar, papai que toda vida portou uma pistola com salvo conduto, até que teve que empenhá-la para resolver uma crise econômica familiar, nos inculcou o respeito pelas armas – “oxalá nunca tenham que utilizar-las”, nos dizia frequentemente.

Coerente com este pensamento, uma noite em que surpreendeu dois homens roubando na sala de casa, papai fez um disparo para o alto, para dar-lhes tempo de escapar. Nós perguntamos por que não os havia ferido, se a lei o amparava. “Porque não era necessário, disseste, é possível que tenham sido vizinhos e seguramente tem filhos sob seus cuidados. Que não merecem ficar órfãos”.

Captei a mensagem imediatamente, a pesar de durante anos ter lamentado que tenham levado um volume de meu Manual de História da Colômbia.

Em segundo lugar, não tomei o caminho da luta armada, porque minha constituição física sempre foi frágil. Meus amigos diziam brincando que só me dava duas gripes por ano e que cada uma durava seis meses.

Por isso entendo sua preocupação quando nas imagens de minha prisão me apresentaram algemado e com um tapa-boca. Vocês como muitos devem ter pensado que como vinha do México portava o vírus AH1N1.

Se tivesse, teria morrido irremediavelmente porque as autoridades colombianas em seu afã de “legalizar minha captura” se negaram a fazer-me exame de laboratório (neste país é necessário ser Presidente ou Ministro para receber atenção médica imediata).

Em terceiro lugar, nunca pensei ser guerrilheiro porque desde menino minha paixão eram livros, não as armas. O dinheiro que recebia para o lanche e de meus tios eu juntava para investir tudo em livros.

Papai dizia que quando eu crescesse iria ser catedrático. Eu não sabia o que era isso, mas me entusiasmava a idéia de ganhar a vida sendo uma enciclopédia ambulante, como os “catedráticos” Abelardo Forero Benavides e Ramón de Zubiría; mãe em troca me olhava com admiração e estranheza: lhe preocupava que não saísse à rua para brincar com os outros meninos e que preferisse ficar no terraço lendo o dia todo.

Com o tempo as viagens, a experiência em outras cidades dentro e fora do país, e a condição de ser padre enriqueceram minhas leituras. Mas em meio a todas estas experiências, a caneta e o pensamento foram as únicas armas que aprendi a manejar.

Convertido em cientista social, e comprometido com a verdade, não deixei de utilizar estas armas para pensar a realidade deste país; para denunciar os crimes de Estado; para desnudar as alianças das elites governantes com o narcotráfico; para revelar a natureza “terrorista” do Estado que exterminou mais de cinco mil militantes da União Patriótica e a milhares de líderes da oposição.

Em uma palavra, para denunciar os horrores deste conflito armado e social que o presidente Uribe quer negar, através de sua mal chamada “Seguridade Democrática” qualificando de terrorista a resistência política e social do povo colombiano e a atividade de acadêmicos que queremos investigar esta realidade.

De José Martí aprendi que “trincheiras de idéias valem mais que trincheiras de pedras”, por isso meus únicos campos de batalha tem sido as aulas universitárias nas quais transcorreram dois terços de minha vida. Na Universidade Distrital e Nacional e não na União Soviética cursei simultaneamente meus estudos de graduação . Vocês sabem melhor que ninguém, pelo grande esforço econômico que realizaram para que eu pudesse manter esse privilégio.

Reunir o dinheiro para as passagens de ônibus; comprar as fotocópias (porque os livros era impossível) constituía uma luta do dia a dia, que pudemos driblar com êxito graças, também, à ajuda de minhas irmãs mais velhas, que diferentemente de mim, tiveram que trabalhar para pagar seus estudos profissionais.

Jamais estive na União Soviética nem como estudante nem como visitante e desafortunadamente já não poderei fazê-lo, porque a URSS desapareceu faz quase duas décadas. No entanto sempre mantive uma admiração profunda pela Revolução de Outubro, antes que as práticas estalinistas e burocráticas a pervertessem.

Mas minhas preocupações pela América latina me levaram ao México, onde pude cursar um mestrado graças a uma bolsa que me outorgou a Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (Flacso) depois de uma rigorosa seleção entre profissionais egressos das mais reconhecidas universidades do país.

Ao concluir estes estudos optei por seguir com um doutorado na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM); nunca paguei um peso pelas taxas de inscrição, porque no México a educação pública é gratuita. Esse foi uma das grandes vitórias da revolução mexicana que no próximo ano comemora seu primeiro centenário.

Apesar destes benefícios foram tempos difíceis. Meu filho, Ernesto, era de colo, mas com sua mãe sobrevivíamos a peso de tortillas (comida popular centro-americana feita de miho verde) e dos escassos subsídios que o Estado mexicano ainda mantinha. Por isso, ainda que hoje o governo de Felipe Calderón (cuja eleição foi marcada pela fraude eleitoral) tenha traído, com minha deportação, uma longa tradição diplomática de independência e solidariedade com a luta dos povos latino americanos, mantenho o sentimento de gratidão para com meus irmãos mexicanos. Deles sempre recebi solidariedade e hospitalidade.

Na UNAM tive oportunidade não só de obter um doutorado – cuja tese recebeu menção honrosa – mas também de conhecer centenas de pesquisadores comprometidos com um projeto de sociedade mais justa e equitativa, e que enriqueceram minha perspectiva latino americana.

Alguns como René Zavaleta Mercado, Ruy Mauro Marini, Sergio Bagu e Augustin Cueva, já não estão conosco; outros seguem ativos e tem sido para mim um exemplo de militância com a verdade e o pensamento crítico.

Assim, quando o Centro de Estudos Latino Americanos (CELA), espaço de excelência de produção acadêmica crítica, me brindou a possibilidade de realizar um período posdoutoral, não duvidei em aceitar o convite e através da Universidade formei uma comissão de estudos.

Claro, também houve outros fatores que precipitaram minha decisão: há vários meses estava sendo vítima de perseguição e assédio por parte dos órgãos de segurança do Estado. De modo algum queria que vocês se interassem desta situação. Não queria gerar mais preocupações.

Tão pouco disse a meus alunos e só conversei sobre minha situação com um par de colegas que me brindaram com seu total apoio. Por isso minha viagem foi repentina e discreta ao mesmo tempo.

No momento em que fui arbitrariamente privado da liberdade por autoridades migratórias mexicanas, me encontrava concluindo o pós-doutorado. Não estava recrutando militantes nem organizando células terroristas.

É possível que os governos de Felipe Calderón e Álvaro Uribe considerem que formar consciência crítica e orientar pesquisas sobre a história política de México e Colômbia seja uma “atividade terrorista”. Desde o 11 de setembro os setores de ultra direita tem recorrido ao pretexto do “terrorismo” para perseguir não só aos movimentos de oposição mas também os intelectuais críticos.

Minha vida tem estado estreitamente ligada à atividade acadêmica na universidade pública, há décadas, quando me vinculei a ela, primeiro como estudante e posteriormente como docente: a Universidade Distrital, a Universidade de Cundinamarca, a Universidade de Cauca, a Universidade de Antioquia e a Universidade Nacional podem atestar isto. Desta forma posso dizer que a perseguição da qual sou vítima hoje não é só uma perseguição contra mim, mas contra a universidade pública em seu conjunto.

Queridos pais, trairia vosso legado e a de meus Mestres – entre eles o de Jaime Pardo Leal, Orlando Fals Borda e Eduardo Umaña Luna – se ante as ameaças de um procurador, que promete confinar-me mais de 40 anos neste cárcere, pelos delitos de “conspiração para delinquir com fins terroristas”, “rebelião” e “financiamento de grupos terroristas”, me retratasse das idéias de justiça que tenho defendido em minhas palestras, nos diferentes foros públicos e em meus escritos.

Trairia também a meus alunos, a meus amigos e ao povo colombiano, se me rendo às pressões de um governo narcoparamilitar. Sei que milhares de mãos se uniram para defender a liberdade de pensamento, sei que milhares de vocês se juntaram para lançar um grito de justiça; sei que mais cedo que tarde, as mudanças que reclama este país abrirão caminho e os opressores de hoje estarão amanhã ajoelhados implorando clemência ante o tribunal da História.

Queridos pais, só queria que a vida me presenteasse com mais uns anos de existência para ver florescer em nosso território uma nova Colômbia, onde as crianças não tenham que chorar a ausência de seus pais mortos na guerra; onde o campesino tenha garantido o seu pedaço de terra e ajuda técnica para cultivá-la; onde a educação, a saúde e a habitação sejam um direito prioritário e não privilégio de uns poucos; onde os que exercemos o pensamento crítico não sejamos tratados como terroristas.

Meus queridos velhos, podem sentir-se felizes de que seu filho esteja hoje sentado no banco dos réus não como assassino ou corrupto, mas por defender os ideais de justiça e liberdade que vocês me ensinaram desde criança e que levo no coração como o mais precioso tesouro que a vida me deu.

Por isso, se este tribunal que hoje me julga chegar a condenar-me, assumirei com firmeza e dignidade a pena, porque me estimula a convicção de milhares de homens e mulheres que sonhamos com “outra Colômbia possível”.

Abraços fraternais,

Seu filho

Miguel Ángel Beltrán Villegas


Cárcere Nacional "Modelo"

Pavilhão de “Alta Segurança”

http://www.kaosenlared.net/noticia/107534/carta-mis-padres-miguel-antonio-beltran-alba-ruth-villegas

http://www.prensarural.org/spip/spip.php?article3256


[1] Sijin: Polícia Judicial e Investigativa

[2] chusmeros: termo pejorativo para chamar os guerrilheiros dando a entender que eram assaltantes armados

[3] cachiporro: é a forma pejorativa como eram chamados os militantes do Partido Liberal Colombiano

[4] Godo: termo pejorativo pra chamar um cidadão do Partido Conservador, dando a indicar que era retrógrado, atrasado... (dando com isso a idéia que os liberais eram progessitas)

[5] pássaros: assim foram chamadas as primeiras bandas de paramilitares organizadas pela oligarquia na década de 1950, querendo indicar que chegavam às casas, assassinavam as pessoas e rapidinho fugiam.

[6] chulavita: Resulta que a Polícia Política montada pelo Partido Conservador para assassinar liberais, comunista e conservadores que desertavam do Partido, teve sua origem num município chamado Chulavita. Então a esse corpo policial o povo deu o nome de 'chulavita'.

[7] Gaitán: Jorge Eliécer Gaitán, dirigente liberal y seguro candidato a ganar las elecciones en 1.948, assassinado pela CIA junto com a oligarquia mais reacionária da Colômbia.

[8] sangrenegra: pseudônimo de um mitológico guerrilheiro liberal.

[9] laureanistas: seguidores de um político nefasto para a Pátria, chamado Laureano Gómez, pró-imperialista até a morte.

[10] Las guerrillas del Llano: As Guerrilhas das planícies orientais da Colômbia.

Uribe, rei da salsa

Pelo Professor Emir Sader

A Colômbia é um país anestesiado. Ou, pior, dependente de um mecanismo diabólico. Com a Operação Colômbia, os EUA exportaram maciçamente não apenas armas, tropas, aviões, mas também seu mecanismo clássico de buscar responsáveis pelos seus problemas nos outros.

No próprio tema das drogas, o país que detém o maior mercado consumidor do mundo e a sociedade que depende das drogas, acusa os países produtores como responsáveis de atender à sua milionária demanda. Ao mesmo tempo, nenhum grande traficante está preso nos EUA, em condições que o comércio de drogas movimenta cifras incalculáveis nesse país.

No caso da Colômbia, o uribismo é o mecanismo pelo qual se busca a culpa pelos problemas do país não na miséria, na desigualdade, na injustiça, na corrupção, no narcotráfico, nas políticas neoliberais, na violência, mas nas Farc, primeiro, na Venezuela, depois.

A senadora Piedad Córdoba, que tem uma notável atividade de busca de soluções políticas aos conflitos internos, tendo sido a responsável pela liberação de vários presos e segue empenhada nessa louvável ação, é diabolizada pelo governo e pela imprensa, ao invés de ter apoiada sua candidatura ao Prêmio Nobel da Paz – de que é merecedora, mesmo se não fosse em comparação com o presidente dos EUA, Obama, cujo governo, além da continuação da invasão e das guerras no Iraque e no Afeganistão, está instalando 8 bases militares na Colômbia, elevando a militarização do país.

Piedad Córdoba vive agredida pelo governo e pela imprensa, por vários setores da sociedade que não conseguem aceitar que há uma via política, pacífica, de negociação, para os problemas do país. O país se tornou uribedependente, viciado nos argumentos de que a violência só se combate com mais violência, de que os problemas da Colômbia estão na existência das Farc e em países vizinhos que ameaçariam o país. Mesmo com a instalação de bases militares norteamericanas no país, em que documento oficial dos EUA afirma que, pelo menos uma delas – a de Palanquero – servirá para operações militares sobre o conjunto da região -, fecham-se os olhos para a violação da soberania nacional e para o fato de que isso representa o perigo para a convivência pacífica na região.

Ameaçam não apenas a Venezuela, a Bolívia, o Equador, mas o Brasil, a Argentina, o Paraguai, o Uruguai e o Chile – todos os países que detêm riquezas cobiçadas pelos EUA e que desenvolvem políticas que não obedecem a Washington da maneira subserviente que o faz Colômbia.

Uribe sobrevive, apesar dos escândalos ligados à violência, ao paramilitarismo, ao narcotráfico, que seguem sendo revelados, porque submeteu o país à chantagem da “segurança democrática”, em que supostamente somente ele poderia garantir a paz no país. Como? Com mais violência, com a militarização da Colômbia, tornando-se uma base militar nortemaericana, fortalecendo ainda mais os paramilitares e os narcotraficantes.

Se Berlusconi foi eleito o rei do rock pela Rolling Stones italiana, Uribe merece ser eleito o rei da salsa. Pelo poder de representação que desenvolve, pelo ritmo frenético com leva a Colômbia no caminho da sua perdição, pelas formas farsantes com que atua, tornando-se um artista do incentivo à violência, ao ódio, um enganador. Não um governante, que defenda os interesses do país, que coloque em prática as políticas que façam com que a Colômbia deixe de ser um país em que a economia cresce, mas os índices sociais continuam piorando.

Uma Colômbia pacífica, que se concentre na ação contra os seus reais problemas, precisa de outro tipo de governo. Da mesma forma que a América Latina integrada, soberana, justa, solidária, precisa de uma Colômbia democrática, justa, pacífica, amiga e não inimiga dos seus vizinhos. Uma Colômbia de vallenato, cumbia, salsa, dançadas e cantadas pelo seu povo musical e hospitaleiro e não pela farsa de governantes que a mantêm no limite da guerra, para tentarem se perpetuar no poder.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ELEIÇÕES NA BOLÍVIA NUM OLHAR DIFERENTE

ESPECIAL URDA KLUEGER


Oi, gente! Acordei descansada e sujissima hoje de manha, como e de se imaginar depois de tantas horas naquele trem (o calor fora infernal, ontem e durante à noite. Hoje de manha refrescou). Nossos amigos de Florianopolis fizeram o que e normal entre jovens da idade deles que saem para uma grande aventura: tomaram todo um litro de uisque durante a noite, e segundo a Sandrinha, ficaram muito engracados. Sei que quando acordei ja era a hora da dor de cabeca e da ressaca deles - mais umas 3 noites assim e eles entenderão que divertir-se e algo um pouco diferente. Mas eram uns amores de meninos - chegamos juntos em Santa Cruz de la Sierra. Pois {e, chegamos aqui nove e meia da manha, já com a perspectiva de voltar a viajar ainda hoje, para estar sexta, amanhã, em La Paz, para dar tempo de fazer uma pequena aclimatação à altitude amanhã, para no sábado não perdermos a grande concentração que vai haver na praça Murilo, onde fica o palácio presidencial, para o encerramento da camanha do Evo. No trem, a gente evitou ao maximo de levantar o assunto das eleições, pois tinhamos que conviver bem com todos la ate chegarmos aqui, e os opositores ao presidente são muito mais brabos que a classe media ai do Brasil, que se atem a coisicas de nada para desfenestrar o nosso presidente. Assim, pouco posso dizer sobre o que pensavam os nossos companheiros de viagem, a não ser que o pai de um dos rapazes de Florianópolis tinha avisado a ele que haveria eleições. O pai do menino era militar de carreira, do exército do Brasil. Apenas lá na parada onde havia a banda tocando foi que andei para lá e para cá perguntando aas pessoas de la sobre as eleições, e o resultado foi impressionante: 100% dos que falei votarão em Evo. Aqui, conseguimos passagens para as quatro e meia da tarde em ônibus leito (deveremos chegar oito ou nove da manhã, sem paradas, a La Paz) (a passagem custou 170,00 bolivianos - o cambio continua, por todos os lugares, a 3,60 por real - a passagem de trem custou 115,00 bolivianos - so para voces fazerem as contas e verem os precos.) Tomamos o maior banho aqui na estação, comemos vitaminas de frutas com bolo, e estamos por ai. Sandrinha ja andou por tudo lá na rua, e eu estou lembrando muito muito do Teles, aquele amigo tão querido com quem estive nesta cidade faz três anos, e com quem vivi tantas coisas interessantes aqui. Na verdade, estou até querendo chorar de tanta saudade do Teles. Quem o conheceu estará entendendo o que sinto. Se possível, passem esta mensagem para a família dele. Logo iremos viajar. Muito carinho para todos, Urda.

Oi, gente! Com algum atraso, ontem, saímos de Quijarro de trem. No nosso vagão, cinco jovens brasileiros, sendo quatro de Florianópolis (alunos da UFSC e da UDESC), verdinhos da Silva, indo para Machupichu, sem saber muito bem o que estavam fazendo nem como. Ate comida estavam levando em pesadas bagagens, acho que com medo de não achar comida na Bolívia - alem de uma moça com seu filhinha, bolivianos, que tinham passado ferias na Itoupava Central, em Blumenau. Em 15 dias lá o menininho voltava falando um bocado de português. E então foi aquela doçura de atravessar a Bolívia de trem, com paradas a cada pueblito, onde entravam pessoas no trem vendendo todo o tipo de comida que se possa imaginar, desde refeições salgadas, frutas, sobremesas, sucos, e o que mais se pode imaginar vindo da criação de um povo cheio de imaginação (desculpem a imaginação dupla - há que correr, aqui). A todo instante comprávamos uma nova coisa para comer ou beber, como quase todo o mundo, e a Bolívia deslizava la fora e estava cá dentro. Foi uma agradável tarde onde, depois de umas duas horas, passamos a andar praticamente ao lado da estrada asfaltada que esta se fazendo, paralela a linha do trem, e que permitira o transito de carros e ônibus do Brasil para cá, com facilidade, muito futuramente. E eu so ouvira falar de tal estrada faz poucos dias! De 600 km que tera, 400 km ja estao prontos, com obras ambientais, etc. Pareceu-me que sera uma grande reta. O animado trem seguiu ate chegar a noite e a grande lua cheia que imaginei ver aqui, no domingo, la com meus vizinhos da casa 34. Caio, se tu leres esta, diga a tua família que me lembrei muito de vocês! A lua era laranja, enorme e muito próxima, e antes que eu pudesse dar uma boa conversada com ela, chegamos (creio que pelas nove ou dez da noite) a uma cidadezinha onde ha parada de trem, e onde se pode comprar de tudo para comer e beber, ao lado da pista, e onde havia uma banda nos esperando para nos saudar com belas musicas, Tivemos ali uma parade de uma meia hora, e ao partirmos, a banda voltou a tocar para se despedir de nós. De novo prestei atenção nos cachorros, que estão gordos - tres anos atras, naquele lugar, eles mais pareciam cachorros-fantasmas! Depois da partida, encostei-me a janela para conversar um pouco com a lua... e dormi ate as oito da manha de hoje. A sensação que tinha era de que tinha dormido na minha cama, embora agora esteja sentindo cada osso e ossinho do meu corpo... hehehe! Segue parte 3. Urda


Amigos: Hoje, dia 03.12, 13:00 horas, estamos na estacao de trens e ônibus (de novo vai sem acentos) de Santa Cruz de la Sierra. Um pouco mais tarde viajaremos para La Paz. Amanhecemos, ontem, em Puerto Quijarro, e no cafe da manha, numa lanchonete próxima, esbarramos com a oposicão a Evo. A dona da lanchonete ja vestia uma camiseta pedindo a liberdade daquele sujeito (esqueço o nome) que cometeu o morticinio em Pando (creio que morreram 45 indigenas, segundo a minha lembrança), e a camiseta dela serviu para puxarmos conversa. Ih, a mulher soltava fogo pelas ventas! (Era, como quase todo o mundo, de características físicas indígenas, mas pintava o cabelo de loiro e usava roupas ocidentais.) Outra freguesa la presente resolveu desancar Evo, tambem, e a gente ficou só no humhum humhum, para ver o que elas tinham para dizer. Depois, saímos a andar pela cidadezinha, pois o trem so sairia aas 12:45 horas. Sandrinha saiu antes e ja fui com ela de cicerone - descobriu comites de campanha de Evo e de outro candidato, além de um comitê das Mulheres Indígenas, muito legal. Ela foi fotografando tudo. O que me parece e que a situacão economica da Bolivia mudou bastante nos últimos 3 anos, conforme já falei no outro boletim. Um dia eu conheci uma Bolivia so de cachorros gordos (creio que em 1993) - nos últimos anos, os cachorros eram magerrimos, e havia muita miséria. Ate agora nao vimos miseria (pobreza sim), e com raras exceicões, os cachorros não estão mais magros. Na noite anterior tínhamos ficado andando pela cidadezinha e nos deparamos com diversas coisas, uma das quais estou lembrando agora: diante de uma loja que fica aberta ate tarde, a família da loja e algumas crianças viam televisão na calcada. Ha que se dizer que em Quijarro se pega perfeitamente as televisões do Brasil, mas as pessoas estavam muito atentas era a um discurso de Evo, que encerrava sua campanha num dos estados vizinhos. Chegamos a tirar foto da atencao das pessoas na frente da televisão. Vou fazer uma parte 2 para que a mensagem siga inteira, pois no outro dia tive problemas de transmissão. Abracos, Urda.


2 de dezembro de 2009.


Oi, gente!


Dormi bastante bem lá no longínquo Aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, num lugar que parece tão longe que ate acho que não existe (desculpem a falta de acentos, não me acertei bem, ainda, com este teclado). E claro que dormi no chão, com a minha mochila como travesseiro, e que lá pelas três da manhã dei uma acordada de leve, lembrei do lugar de cada osso e ossinho e tratei de colocá-los de volta ao lugar.


Então, pela manhã, pegamos o vôo que nos trouxe ate Campo Grande/MS, e foi um vôo totalmente calmo e sem incidentes, se considerarmos as seis bolachinas de lanche que serviram a cada um, e que me deixaram com a maior fome.


Chegamos a Campo Grande já sabendo que ao meio dia haveria Ônibus para Corumbá, e conseguimos passagens na rodoviária. Deu tempo de comer um prato feito e dar uma espiada na Internet, antes de embarcarmos e cairmos no sono (Sandrinha passara a noite acordada).


No meio do caminho houve uma parada para café, e em seguida vinha o Pantanal, que esta bastante seco e onde se pode ver pouca coisa. Na verdade, dormimos a maior parte do tempo. O ônibus estava bem normal, cheio só de brasileiros normais, quase todo o mundo dormindo.


E então, pelas seis da tarde (horário daqui) chegamos a Corumbá (seis quilômetros da fronteira com a Bolívia), e enquanto averiguávamos os preços e facilidades de ônibus e taxis até a fronteira, apareceu o Salomão, boliviano que esta vindo de vacaciones (ferias) para cá (trabalha na Guiana Francesa) e que estava na estrada desde sábado (veio de avião desde o Amapá até Brasília, o resto por terra). Foi uma sorte acharmos o Salomão!


Dividimos um taxi com ele ate a fronteira (30 reais no total) e depois outro taxi ate o hotelzinho onde estamos (cinco bolivianos por pessoa, o que é menos de dois reais - amanha passo o cambio que se faz aqui, porque chegamos em horário em que o cambio não e bom, e só trocamos um pouquinho de dinheiro para as despesas de hoje, Vamos ver de quanto será amanhã (hoje estava a 3,60 por REAL!) ( e se janta muito bem por 10 bolivianos, o que dá um pouco menos de três reais, mesmo ao cambio de horário errado – o hotel limpinho, com banho e gente simpática, custa 35,00 bolivianos (um pouco menos de dez reais). Estou dando os valores daqui de Quijarro, plena fronteira, para que possam comparar., Imagino que fora da fronteira os valores mudem para melhor.


Chegamos com vento, calor, cansaço e poeira, e era visível, já na aduana, os cartazes e palavras de apoio a reeleicão de Evo colados aos vidros – mas poderia ser coisa obrigatória, né? Só que depois de nos darem os vistos, etc., os funcionários da Aduana, espontaneamente vieram nos falar da reeleicão, estavam encantados com o governo de Evo e das mudancas que estão acontecendo no país, chegando a dar santinho do Evo para a Sandrinha, como se fossemos votar. O calor, aqui, esta ENORME (durante o dia fez 48 graus C), e depois de um banho gelado, fomos jantar com Salomão, que morria de saudades da pátria e que queria comer o seu tradicional... pollo com papas fritas (galinha com batata frita, o arroz com feijão da Bolívia). Comemos muito bem junto com ele, e juntei as sobras (que eram muitas, principalmente as de pollo) para dar aos cachorros que vivem por aqui.


Eu diria que desde a ultima vez em que aqui estive (faz 3 anos, com o Teles) a situação local teve uma melhora, pois os pedaços de pollo, como no passado, estão muito grandes (bem mais no passado as pessoas comiam, numa refeição, ou uma galinha inteira, ou meia galinha - faz três anos e comiam só um ou dois pedacinhos, como no Brasil - hoje os pedaços estão bem grandões, enormes, mesmo), e também não vimos nenhum pedinte na rua, como vi tantos, e tão humilhados, faz três anos. As casas, pessoas, lojas, etc., parecem ser pobres, mas não está mais se vendo miséria, como ha três anos atrás. (Jantamos num restaurante, mas prestei atenção na comida que diversas índias vendiam aqui e ali - os pedaços de galinha estão bem grandões mesmo, quase como no passado mais distante). Tenho bastante curiosidade em chegar a Santa Cruz de la Sierra (deveremos viajar para lá amanhã, por volta do meio dia, de trem. São cerca de 17 horas de viagem), para ver se lá também houve mudança na situação econômica das pessoas, se lá também sumiram os pedintes humilhados, como um dia já vi este país.


Há que se considerar que aqui e uma cidadezinha de fronteira (Quijarro), mas eu achei que ela cresceu um bocado desde quando me lembro, e que está muito movimentada.


Abração para todos, e peco à Hana, a Bruna e ao Mario Henrique que digam para o Atahualpa que morro de saudade dele.


Tudo de bom,


Urda.

PCC:"Expandir a base da unidade para a mudança democrática"

Rebelião


A realidade econômica, social e política do país confirmam as afirmações sobre o impacto da crise econômica do sistema capitalista e o agravamento da situação da maioria da população, em particular dos trabalhadores, por efeito do modelo baseado na segurança democrática, a confiança do investidor, a chamada coesão social e o Estado comunitário. Nem o país estava blindado, como alardeavam os porta-vozes oficiais, nem é verdade que o pior já passou. O regime de uribista cavalgou num ambiente econômico externo favorável, mas esta circunstância não existe mais. No fim de seu segundo mandato, as medidas governamentais mostram suas brutais entranhas de classe favorecendo, subsidiando ou dispensando de seus impostos os mais ricos e as corporações transnacionais. Prepara-se um pacote de medidas trabalhistas, previdenciárias e em matéria de saúde que irão favorecer o desemprego, a instabilidade trabalhista, a informalidade, o desconhecimento dos direitos trabalhistas, o empobrecimento das famílias, a falta de escolaridade e falta de esperança dos jovens.

Neste contexto, o imperialismo deu um passo adiante na América Latina após o seu claro compromisso no golpe contra o presidente legítimo de Honduras. Impôs sobre a Colômbia as condições de um vergonhoso acordo de cooperação militar de caráter ilegal, encarnado na utilização de sete bases, cinco aéreas e duas navais, que transforma o território nacional numa plataforma da política intervencionista do Pentágono e o Estado num apêndice de suas provocações contra os países irmãos do continente, em particular contra o processo de mudança que avança na Venezuela.

O governo Uribe é o executor de semelhante traição à soberania que agravou o clima de desconfiança, a provocação e a tentativa de confrontar dois povos irmãos. Washington tentou justificar-se ao acusar a Venezuela de cumplicidade com o terrorismo e o narcotráfico, como parte de uma estratégia de guerra preventiva, rejeitada por todo o continente. Os comunistas, internacionalistas conseqüentes, reafirmam o caminho da amizade e da solidariedade bolivariana, chamam para unir todos os esforços dos povos e dos governos latinoamericanos para expulsar a presença ianque das bases destinadas à defesa da soberania; a rejeitar a IV Frota em águas continentais; a reafirmar a solução política e o diálogo entre colombianos para alcançar a paz sem interferência dos EUA; a consolidar a cooperação e a convivência pacífica entre os povos e o seu pleno direito de adotar o sistema social e político que livremente escolham.

O regime de uribista tem se consolidado como a da pior corrupção, oportunismo e desconhecimento da legalidade dominante. A repressão, legal e ilegal, mostrou sua realidade escandalosa nas alegações de espionagem do DAS, as ligações dos órgãos de segurança com o paramilitarismo, os assassinatos de sindicalistas, as ameaças nos bairros e universidades, o assinalamento aos defensores dos direitos humanos, a persistência dos crimes de Estado, em paralelo com a impunidade que protege os altos responsáveis. Cresce o número de presos políticos nas cadeias, as violações dos direitos humanos, os bombardeios sobre populações civis e a negação do direito internacional humanitário, o que torna mais urgente a solução política e o diálogo para o intercambio humanitário.

Uribe se aferra à reeleição por meio de referendo, amplamente deslegitimado pelas investigações judiciais e os arranjos fraudulentos. Na sua defesa, defende o estado de opinião, o que implica apoiar-se em pesquisas favoráveis e passar por cima da Constituição e da lei. De fato, sucessivas contrarreformas constitucionais têm enxugado ainda mais a Carta e a atuação ditatorial gerou confrontos com a Suprema Corte. Ao se recusar a continuar governando como antes e configurar um sistema arbitrário de contenção social, contrário às mudanças democráticas necessárias, as classes dominantes procuram fechar o caminho das forças populares.

A luta popular tem-se expressado fortemente no seio dos povos indígenas, nas greves de trabalhadores, as mobilizações dos professores e universitários, o encontro de Cali pelo acordo humanitário e as manifestações contra as bases ianques. A tarefa do momento é a luta social e política que coloque no centro a campanha eleitoral para avançar no rumo de um governo democrático e popular que substitua e corrija as diretivas beligerantes. Seu compromisso com a solução política é inseparável das reformas essenciais, particularmente a da reforma agrária democrática, a expansão dos direitos e liberdades, o respeito pelos direitos humanos, as medidas para enfrentar a crise econômica, a espoliação dos trabalhadores e suas efeitos na população. O Pólo Democrático decidiu por uma candidatura presidencial do senador Gustavo Petro e deve convocar, em torno de seu programa democrático, as forças do povo e dos setores políticos dispostos a comprometer-se com as mudanças. Entendemos a consulta com outras forças como um processo de acordos e compromissos para com os interesses populares rumo às mudanças democráticas. O Congresso do Povo pode ser o cenário que reafirme a candidatura presidencial unitária da esquerda.

Para os comunistas é um dever trabalhar para fortalecer a sua presença como uma força unitária do Pólo, comprometida com sua orientação de esquerda e com uma representativa ação parlamentar. Para o Senado levantamos o nome provado de Gloria Inés Ramírez; para a Câmara em Bogotá, a candidatura de Carlos Lozano; de Cundinamarca, Ever Rodriguez e Romero Omar em El Valle; assim como aliados em outros departamentos com o compromisso de apoiar Gloria Inés Ramirez e à presidência de Gustavo Petro.

Hoje, a luta por um novo país significa uma ampliação dos processos unitários, a ação conjunta de novas forças, especialmente quando o Império ultraja e pretende submeter à Colômbia e os irmãos latinoamericanos. O PCC convoca os colombianos (as), de todos os partidos e setores da sociedade, para construir o caminho para as mudanças democráticas, da paz com justiça social, da solidariedade continental, para honrar os 80 anos de sua existência nas comemorações do bicentenário das lutas libertadoras.


FORA AS BASES IANQUES DA COLÔMBIA!
VIVA O PÓLO DEMOCRÁTICO ALTERNATIVO!
VIVA A UNIDADE DO POVO COLOMBIANO!

Bogotá, 27 de novembro de 2009.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

URIBE É UMA AMEAÇA PARA A DEMOCRACIA E A ESTABILIDADE REGIONAL


Quem perturba o relacionamento dos países sul-americanos?


Rebelión.org


Em março de 2008 os tambores da guerra soaram na região. Os militares colombianos tinham bombardeado e invadido Equador (Sucumbios) para atacar um acampamento móvel das FARC. O presidente agredido Rafael Correa, rompeu relações diplomáticas com o agressor e colocou suas forças armadas de prontidão. Na fronteira entre a Colômbia e Venezuela o ar também era cortado a faca, uma vez que Hugo Chávez chamou a “preparativos de combate” em parte por solidariedade com Correa e em parte para sua própria defesa.

Desde aquele conflito algumas coisas mudaram. A visão otimista vai dizer que depois de vinte meses de ruptura entre Quito e Bogotá, retomaram-se as relações diplomáticas. Há poucos dias, os respectivos chanceleres acordaram recolocar os encarregados de comércio de suas embaixadas, o que indica a melhoria e o limite (a situação ainda não está madura para nomear embaixadores).

Sem ser pessimista, a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela está mais uma vez em alerta vermelho, com dez paramilitares colombianos mortos no lado da Venezuela, dois soldados da Guarda Nacional Bolivariana assassinados por militares ou paramilitares da outra parte e dois espiões colombianos detidos por órgãos de segurança de Chávez com documentos do DAS (Direção Administrativa de Segurança). Esta é a agência de inteligência colombiana que depende do Palácio Presidencial de Nariño.

Segundo o chanceler bolivariano, Nicolas Maduro, essa papelada capturada com os espiões demonstrariam os planos de Uribe para desestabilizar os governos de Cuba e Equador, além de, obviamente, a Venezuela. O ministro da Defesa colombiano, Gabriel Silva, não teve outra justificativa que dizer que era muito grave que a chancelaria de outro país tivesse documentos do DAS. Isso fez com que a bola ficasse na frente de Maduro, que respondeu: "o grave não é como chegaram às nossas mãos, mas o quê contém e que eles reconhecem como verdadeiro que o governo colombiano dirige uma operação de espionagem contra os governos da região”.

Tantas polémicas de alta tensão colocaram essas relações bilaterais num dos seus piores momentos, incluindo o fechamento temporário da fronteira que separa o Estado de Táchira (Venezuela) com o de Santander (Colômbia). Tal confronto não se alivia mesmo que padres católicos de ambos os países joguem uma partida de futebol em Cúcuta, Santander. São necessários gestos muito mais importantes da parte uribista, que vem atiçando este conflito pelo menos desde 2007. Naquela ocasião, Uribe pediu ao seu homólogo venezuelano que arbitra a libertação de retidos pelas FARC e, em seguida, revogou a nomeação, acusando-o de ser quase um membro do Secretariado Nacional dos rebeldes.

A distensão entre as partes, com "a fotografia" da reunião do Grupo do Rio na República Dominicana em 2008, foi apenas um momento. Neste “filme” as farpas tem muito mais peso.


O papel dos EUA

Aquele relacionamento conturbado ficou quase incontrolável pela intromissão de um terceiro, os Estados Unidos, que em meados deste ano confirmou a gestão de uso de sete bases militares na Colômbia. Isto rachou o vinculo de Bogotá com a quase totalidade da Unasul, União das Nações Sul-Americanas, composta de uma dúzia de países. Além de Chávez, nessa oposição militaram também Correa e Evo Morales, com uma postura critica mais morna de mandatários como Cristina Fernández e Luis Inácio Lula da Silva.
Em ambas as reuniões desse espaço sulamericano, na de Quito e de San Carlos de Bariloche, a Colômbia quase não teve amigos. Uribe sequer os conquistou após uma turnê previa por vários dos países envolvidos.

O problema foi que em outubro passado 30 finalmente foi assinado esse acordo, que longe de ser um bálsamo para a desconfiança regional funcionou como combustível jogado em uma fogueira. O Chanceler colombiano, Jaime Bermúdez (ex-embaixador em Buenos Aires) e o embaixador dos EUA em Bogotá, William Brownfield, assinaram o documento segundo o qual os militares dos EUA podem utilizar as bases da força aérea de Palanquero, Barranquilla e Apiay; do exército de Tolemaida e Larandia e as bases navais de Cartagena e Málaga.
Um dos pontos mais controversos é o que permite a permanência de 800 militares dos EUA e 600 empreiteiros (leia-se mercenários), que gozarão de imunidade em caso de delito. Essa imunidade será total para os primeiros. Não é de se esperar que essas quantidades sejam números rígidos, pois em 4 de novembro, ao ser publicado o texto do acordo, verificou-se que os dois governos podem aumentá-los.

Tentando mascarar o pacto, ambas as partes afirmaram que essas bases se concentrarão no combate ao narcotráfico e ao narcoterrorismo, que para as administrações de Uribe e Obama são a mesma coisa. Isto apesar da CIA e do DAS nunca terem mostrado sequer uma foto do extinto Manuel Marulanda, que por décadas dirigiu as Farc, fumando um baseado...
Em agosto passado, quando aumentavam as críticas ao anúncio das instalações militares, Hillary Clinton enviou uma carta aos chanceleres da UNASUL. Nela assegurava que as tropas de seu país atuariam apenas dentro da Colômbia. Como acreditar num império que utiliza o engano e a mentira como regra com poucas exceções?


Atiram contra Chávez

Para recapitular, em 30 de outubro, foi assinado acordo militar entre Bogotá e Washington, e em 4 de novembro, o seu texto foi conhecido, o que causou alarme em Caracas. Com estes elementos em seu poder, Chávez apelou aos membros das Forças Armadas de seu país e as milícias, assim como à população em geral, para “preparar-se para a guerra”. Sua chamada não foi, obviamente, para empreender qualquer ofensiva ou de ataque ninguém, mas para organizar a defesa nacional. Ele estava seguindo o velho ditado de “Vis pacem para bellum” (“Se queres a paz preparate para a guerra”).

Num dos parágrafos do seu programa dominical “Alo, Presidente” do dia 9/11, deixou muito claro o sentido de autodefesa da sua convocatória, independentemente de qualquer ataque à Colômbia. Chávez disse: “vamos formar corpos de milicianos para treinar os estudantes, trabalhadores, mulheres, prontos para defender esta pátria sagrada”.

Mas as autoridades colombianas, promotoras da desestabilização regional, aproveitaram esse discurso para denunciar a Venezuela junto à OEA. O representante da Colômbia para o organismo, Luis Hoyos, acusou a Venezuela, em 13/11, de ameaças de agressão e de não cooperar na luta contra o narcotráfico e o terrorismo.

Não é necessário dizer de que parte está Washington e a direita continental. Uma parte desta, a mídia, também tomou partido na controvérsia. Os jornais da SIP – particularmente La Nación e Clarín na Argentina – apontam seus canhões contra o chefe de Estado venezuelano, como se fosse o causador das tensões e até mesmo da guerra. Ele seria o autor das "bravatas" e das ameaças à paz.


Uribe seria uma freira carmelita descalça ...

A nação bolivariana é a vítima nessa história, pois desde 1999, quando Chávez assumiu seu primeiro mandato presidencial, vem sofrendo campanhas adversas que em 2002 incluíram um frustrado golpe de Estado. O fugaz ditador, o empresário Pedro Carmona, vive no exílio na Colômbia, como outros dos golpistas.

As declarações do Departamento de Estado e do Comando Sul considerando a Chávez uma ameaça à paz regional, seus exercícios militares, o relançamento da IV Frota em julho de 2008 e agora as novas bases na Colômbia, alem da já utilizadas, indicam quem é o verdadeiro perigo para a paz e a estabilidade regional.

Como advertiu o presidente bolivariano, da base de Barranquilla até Caracas, os aviões norteamericanos levam apenas 20 minutos. E, supondo que a administração de Obama não ordene voos desse tipo, quem garante que os futuros ocupantes da Casa Branca o fazam?

Fidel Castro escreveu que, no futuro, a direita republicana voltará a ser governo e “então se verá claramente o que significam essas bases militares que hoje ameaçam os povos da América do Sul com o pretexto de combater o narcotráfico”. E este homem alguma coisa sabe sobre a política norteamericana contra seus vizinhos.