"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

"De que vale a vida se quando a temos ela parece morta. A vida é para ser senirmos, para vibrar, para lutar, para combater. Isso justifica nossa passagem pela Terra." (Jaime Pardo Leal)


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Encontro Nacional Frente Ampla pela Paz, pela Democracia e pela Justiça Social Bogotá


A partir da diversidade de processos, organizações e lideranças sociais e políticas de caráter popular, democrático e de esquerda, convocamos para esta primeira reunião nacional a fim de discutir e definir coletivamente junto a dinâmicas regionais e setores interessados uma rota de encontro e reencontro, para construir e fortalecer as unidades e as convergências necessárias para derrotar a guerra e abrir um caminho às mudanças democráticas indispensáveis para uma paz estável e duradoura.
A paz reclama um consenso nacional de transformação que difere da concepção estreita de paz e democracia dos setores tradicionais. A essa política urge contrapor uma alternativa de mudança e de poder que expresse as aspirações de trabalhadores, campesinos, estudantes, indígenas, mulheres, afrodescendentes, artistas, diversidades de gênero e povo em geral, que durante os últimos anos de maneira digna se manifestaram.
Superar a guerra, construir a democracia e a justiça social exige uma força sociopolítica capaz de disputar a hegemonia, os governos e o poder aos setores tradicionais nos mais diversos campos da conflitividade nacional. Nas atuais circunstâncias, como nunca antes, a unidade é um imperativo ético e político inevitável. A ideia viva de uma frente ampla para a paz, a democracia e a justiça social nos convoca e é um caminho que convidamos a construir entre todos e todas.
Objetivo geral
Propiciar um espaço de intercâmbio e construção coletiva entre representantes e lideranças de diversos setores populares, democráticos e de esquerda, provenientes de diversas regiões e setores, interessados na construção coletiva de uma Frente Ampla pela Paz, pela Democracia e pela Justiça Social.

Participantes

Representantes de processos regionais de unidade e organizações sociais e políticas identificadas com a convocatória.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

São decisões que não dão mais espera, Santos




Na raiz do escândalo que quiseram armar com a viagem de Timoshenko a Cuba em desenvolvimento do processo de paz que se adianta em Havana, um dos tantos colunistas dedicados profissionalmente a denegrir as FARC aventurava na semana passada que nós devíamos estar felizes, pois havíamos posto todo o país a brigar entre si, enquanto continuávamos obtendo interessados proveitos da existência da Mesa de Conversações.
De considerações desse tipo estão repletas as páginas da grande imprensa reacionária há mais de trinta anos, quando o Presidente Belisario Betancur abriu o processo de paz que não termina ainda com satisfações para a Colômbia. Ainda ecoa na memória de muitos a razão esgrimida pelo doutor Otto Morales Benítez ao renunciar a seu cargo de comissionado de paz do doutor Betancur. A paz contava com muitíssimos inimigos escondidos.
Isso continua sendo completamente certo. E os debates, diatribes e denúncias elevados contra o Presidente Santos confirmam-no plenamente. O desespero por arruinar os diálogos de Havana é enorme. O Presidente Santos deve saber algo que não se atreveu a dizer com relação a sua intenção de ensaiar a via política com a insurgência. De outra maneira, não se entende por que sua obstinada condescendência para com os que se lhe opõem frontalmente.
Hoje está suficientemente claro para o país e o mundo que o Presidente Uribe gestionou vários contatos com as FARC-EP com vistas a entabular conversações de paz. Inclusive Daniel Coronel revelou movimentos secretos de fundos encaminhados a facilitar esses contatos, coisa da qual nem nesses dias nem até agora nós tivemos a menor ideia. Personagens então de suas ligações, como Frank Pearl e outros, nessa época e nesta atuaram em gestões de paz.
Assim que alguém acreditaria que não deveriam existir razões nem para os receios de Santos nem para as raivosas atitudes adotadas pelos áulicos do Procurador Geral da Nação rebusca muito para afinar argumentos jurídicos contra as decisões políticas do Presidente Santos, ele mesmo ou qualquer outra autoridade competente poderia facilmente tecê-las contra o Presidente Uribe e os seus.
A via do diálogo, das conversações para solucionar pacificamente um conflito armado, trate-se da Colômbia ou de qualquer outro lugar, passa necessariamente pelo reconhecimento da existência do adversário e das aproximações a ele. Pela criação de condições que façam materialmente possível o intercâmbio de posições. Muito ao contrário de nossa proposta, o governo de Santos excluiu o território nacional como cenário. E houve que aceitar.
Sobre a base de que umas conversações a mais de dois mil quilômetros do país e com um oceano no meio exigiriam determinados mecanismos para sua viabilidade. Acreditamos relembrar que em algum momento o próprio Uribe promoveu denunciar Andrés Pastrana por conta de suas aproximações de paz com o Camarada Manuel Marulanda nos tempos do Caguán. Está visto que o ódio pode inspirar os maiores absurdos. As próprias circunstâncias impõem certos requisitos.
Santanderismos e leguleiadas caem por seu próprio peso quando o que se encontra no meio é o bem supremo da paz, um direito síntese dos povos que não lhes pode ser arrebatado sob nenhuma consideração. Por isso apoiamos todas as decisões do Presidente Santos quando queira que se atreve a dar passos contra condenar a Colômbia ao destino fatal de uma guerra sem fim. E acreditamos que todos os colombianos de boa vontade devem fazê-lo.
E por isso exigimos dele um compromisso mais decidido com o processo de paz de Havana. Em seus começos, vimo-lo francamente envergonhado, com desânimo, com indiferentes desejos de defender o que se adiantava na Mesa. Porém a possibilidade da reeleição pareceu torná-lo decidido finalmente a defender abertamente o que fazia. Por isso ganhou, porque obteve o respaldo do enorme caudal de compatriotas que sonha com uma Colômbia em paz para seus filhos.
Agora o vemos exageradamente emocionado, às vezes. Considerando tudo já de um cacho, dando por assentado que o Acordo Final é um fato. Ainda sabendo que estão pendentes discussões muito sérias, temas decisivos que o poriam na disjuntiva definitiva de eleger entre a paz para toda a nação ou a confrontação para a satisfação de uns poucos. Ainda assim, nos agrada mais esse Santos, comprometido publicamente com seu processo, chocando de frente com seus inimigos.
Promovendo o que chamam de pós-conflito. Buscando apoio externo político e financeiro para isso. O qual é bom, porém a todas as vistas insuficiente. Torna muito difícil entender como pode apresentar-se como paladino da reconciliação um Presidente que rechaça combinar um cessar-fogo que deteria o dessangramento dos filhos de sua pátria. E ademais só, sem a companhia de porta-vozes da insurgência que gerariam a seu lado a credibilidade necessária num acordo.
Que, ademais, conhecemos melhor que ninguém a real situação das zonas abandonadas pelo Estado em Colômbia, em cuja reabilitação em justiça estaríamos chamados a jogar, em conjunto com as comunidades, um papel importante. Porém se insiste por parte do governo nacional em escalonar e acelerar a confrontação em todo o país, com sua sequela de morte e horrores. E se continua nos negando com ênfase a possibilidade da menor atuação política interna ou externa.
O problema não está em que o senhor Uribe e o resto da catacumba se ponham bravos frente à possibilidade de avançar caminho para a paz. Eles estiveram bravos e fazendo a guerra sempre. A questão não é temer a suas reações, senão fazer a um lado e isolar suas posições extremas. E para isso é necessário romper definitivamente com eles. Apesar de ter se reeleito com a bandeira da paz, vencendo-os nas urnas, o Presidente continua sendo vacilante.
E por isso começa a afundar-se mais o interrogante do por que essa atitude dubitativa. No nosso caso, temos nossas próprias dificuldades, que não esquivamos, senão que afrontamos com a convicção absoluta no que estamos fazendo. Há gente, inclusive da que se faz chamar de esquerda, afirmando provocadoramente que o acordado nos três pontos até hoje constitui uma traição e uma renúncia a nossas bandeiras de luta. Isso não nos impede de seguir adiante.
Estamos certos de que a firma de um armistício que ponha fim aos enfrentamentos armados seria um passo gigantesco na construção da paz em Colômbia. E uma mensagem inequívoca ao mundo de que quando se fala das possibilidades de um pós-conflito se está expressando com suficiente propriedade. Muito mais se as duas partes proclamássemos conjuntamente. São decisões que não dão mais espera, Santos. Que fariam a todos acreditarem no processo de paz.
Timoleón Jiménez
Comandante do Estado-Maior Central das FARC-EP
Montanhas de Colômbia, outubro de 2014

As coisas não serão como a oligarquia sonha





«No país se configura a cada dia com maior força um amplo movimento social e político que trabalha por uma paz muito diferente da que o regime pensa»


A tropa dos grupos narco paramilitares pertencia ao povo raso. E sua missão era estripar seres humanos, capturar compatriotas inconformistas para atirá-los aos fossos de jacarés ou despedaçá-los com motosserras, assassinar suas vítimas com armas de fogo para depois lhes amputar a cabeça e fixá-la em varas expostas à passagem de outros moradores, saquear seus bens e incendiar suas propriedades, desterrá-los à força de cometer as mais espantosas atrocidades.
Atuavam acreditando serem os bons. Forças armadas, organismos de inteligência, personagens de grande superioridade social, destacados colunistas da grande imprensa, figuras políticas reconhecidas, jornalistas estrela do rádio e da televisão, todos se uniam para expressar a necessidade de reconhecer a justiça das razões do paramilitarismo e a urgência de outorgar-lhe reconhecimento político. Assim, a massa sanguinária que aterrorizava boa parte do país se sentia redentora.
O esforço conjunto do estabelecimento produziu seus efeitos e as posições afins ao extermínio adquiriram carta de apresentação social, se tornaram de bom recibo. Não foram só os membros de base dos grupos paramilitares os que, sobrevivendo em condições difíceis, resultaram envolvidos na engrenagem do terror. Também uma considerável massa de colombianos rasos, sobretudo das grandes cidades, terminou seduzida pelo discurso da segurança e da guerra.
Da solapada atitude militarista de Andrés Pastrana se passou ao desenfreado totalitarismo de Álvaro Uribe, em ombros do agrupamento nacional da ultra direita triunfante nas eleições. As forças militares e de polícia, conduzidas já sem fingimento algum desde Washington pelos estrategistas do Pentágono, da CIA e da DEA, passaram a tomar o controle do país por meio da violência brutal de suas operações, e terminaram elevadas à categoria de heróis da pátria.
Se reforçaram em níveis impensáveis seu orçamento e pé de força, ao tempo em que a tecnologia e o apoio dos USA, da Grã-Bretanha e de Israel apontaram a apresentá-las como invencíveis, inclusive no concerto regional. Tudo isso, somado à apoteose do paramilitarismo e da investida midiática generalizada a favor do ódio, imprimiu em boa parte dos colombianos uma mentalidade agressiva e intolerante. Exemplo disso são as recentes declarações do hacker Sepúlveda.
Devemos reconhecer, efetivamente, que a política do terror terminou por fazer-se a um lugar no ânimo de boa parte de nosso povo. Muitos denominaram-no direitização do país. A fachada democrática da institucionalidade colombiana não consegue dissimular a realidade dominante da violência e do medo. A oligarquia sabe que resulta impossível dominar toda a população pela força, há que ganhar parte dela, e dedica muitos recursos a isso.
Se fala do partido político das forças armadas. Seu meio milhão de integrantes, privilegiados em muitos aspectos, em comparação com o resto da população trabalhadora, não só é doutrinado em suas escolas de formação e prática cotidiana como também gira ao redor de um grande entorno ideológico que envolve as suas famílias, amizades mais próximas e a milhares de aposentados e seus chegados. Fazem política diariamente com suas emissoras e operações cívico militares.
Se os nazistas acusaram os judeus bolcheviques como responsáveis pela tragédia econômica e social da Alemanha, a direita colombiana fez o mesmo com os que chamaram terroristas das FARC e seus cúmplices. O ambiente psicológico criado a partir da Presidência e reforçado pela mídia, pelas forças armadas, pelos empresários, pela classe política, pelos grupos narco paramilitares e por seus financiadores, entre outros, induziram o país à cegueira e à indiferença.
Os assassinatos, os massacres, os horrores da violência militar e narco paramilitar foram perdendo sua dimensão de espanto. Se acaso passaram a ser tristes episódios isolados, por outro lado, todos tinham que se estremecer pela barbárie do acionar guerrilheiro e o grau de desumanidade de seus comandantes. Nessa direção apontou a estratégia política das classes no poder: apagar ou minimizar o horror oficial e narco paramilitar com o suposto horror guerrilheiro.
O narco paramilitarismo podia ser convertido em movimento político com garantia de impunidade. As reforçadas forças armadas poderiam cumprir o vazio deixado por aquele. Assim sobreveio o processo com os primeiros, a chamada lei de justiça e paz e a farsa de sua desmobilização, enquanto que para as segundas se implementaram o Plano Patriota e seus complementos, ao tempo em que se institucionalizavam os falsos positivos e se promoveram suas frequentes matanças.
A frenética obsessão de Adolf Hitler terminou por conduzir o mundo à Segunda Guerra Mundial e a Alemanha à sua destruição total. As classes no poder aprendem as lições, assim que, com tudo e agradecer sua gestão ao Presidente Uribe, combinaram na necessidade de substitui-lo antes que terminasse por incendiar o continente com seu visceral ódio às FARC, Venezuela e Cuba. Nos ombros da ultra direita, chegou um mais moderado Santos a culminar a obra.
Os diálogos de paz, como está mais que demonstrado, não foram uma concessão sua. Uribe já os havia proposto, ainda que se indigne ao recordá-lo. Para o projeto da ultra direita sempre esteve claro que, após a redução militar das FARC e sua ruína política por conta da gigantesca campanha midiática de descrédito, havia que abrir uma mesa de conversações com o propósito de conseguir a firma de sua rendição. É sua maneira de entender a paz.
Por isso, não nos surpreende o modo como pretendem superar o tema de vítimas em discussão na Mesa de Havana. Buscam com que os sistemáticos crimes das forças armadas e do narco paramilitarismo não tenham espaço ali. Em seu parecer, isso já foi solucionado, o governo expediu uma lei para essas vítimas, o que há que tratar e castigar são nossos supostos crimes. Ademais de cínica, a oligarquia colombiana se equivoca outra vez conosco.
Como insurgência revolucionária rechaçamos frontalmente qualquer imputação criminal. Os alçados em armas, definitivamente, não somos delinquentes. Ao dar cara às vítimas, reconhecemos que no exercício de nosso acionar se sucederam erros imponderáveis, que lamentamos profundamente. Os quais estamos dispostos a reconhecer e explicar. Porém, nós não elegemos o levantamento armado, fomos obrigados e ele pela fúria assassina da oligarquia liberal conservadora.
É ela a chamada a responder por esta guerra, suas consequências e seus milhões de atrocidades. Ainda que todavia conte com parte do povo: o partido das forças armadas e do narcotráfico, as hostes do caciquismo e dos beneficiários da esmola social, as clientelas partidárias e os que vendem o voto. Porém, o grosso da opinião que antes acreditou em sua propaganda se encontra desencantado pela realidade em que vive. Os anos de guerra total agravaram seus problemas.
No país se configura, a cada dia com maior força, acima do silêncio midiático, um amplo movimento social e político que trabalha por uma paz muito diferente da que o regime pensa. Essa lógica imperialista da força bruta, tão ao gosto da classe dominante colombiana, que outorga um suposto direito a fazer o que seja em defesa de seus interesses, desperta um profundo rechaço em todos os povos do mundo. É ela a chamada ao lixeiro da história.
Montanhas de Colômbia, outubro de 2014.

Maior aeronave brasileira pode ser exportada para 70 países


A Força Aérea Brasileira (FAB) apresentou, nesta terça-feira (21), em Gavião Peixoto (SP), o protótipo do KC-390, a maior aeronave projetada e fabricada no Brasil. Desenvolvido pela Embraer, o cargueiro nasce com um grande potencial de exportação. Argentina, Chile, Colômbia, Portugal e República Tcheca confirmaram a intenção de obter as aeronaves.


Desde o início, o projeto visava o desenvolvimento de uma aeronave a jato capaz de cumprir todas as missões realizadas pelo C-130 Hércules, avião fabricado nos Estados Unidos desde a década de 1950 e atualmente com cerca de 2.400 unidades servindo em 70 forças aéreas no mundo.

Quando a linha de montagem estiver ativa, a expectativa da Embraer é gerar mais de 12 mil empregos diretos e indiretos. A estimativa é alcançar mais de cem unidades produzidas na primeira década, a maioria para substituir os turboélices C-130 Hércules.

O investimento total no projeto é de R$ 12,1 bilhões, sendo R$ 4,9 bilhões para o desenvolvimento da aeronave e R$ 7,2 bilhões para a aquisição de 28 unidades para a FAB.

De acordo com a Embraer, o voo inaugural do KC-390 acontece ainda este ano e, após uma série de testes, a Força Aérea Brasileira receberá a primeira unidade em 2016. A frota da FAB cumprirá missões como operar em pequenas pistas na Amazônia, transportar ajuda humanitária, lançar paraquedistas, realizar buscas, reabastecer outras aeronaves em voo, pousar na Antártica e lançar carga em pleno voo, dentre outras.

Vantagens

“A aeronave vai fazer tudo o que o C-130 faz. Melhor e mais rápido”, compara o Coronel Sérgio Carneiro, engenheiro da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate da FAB, gerente do projeto.

Equipado com um par de turbinas a jato, o KC-390 traz vantagens sobre o turboélice C-130 Hércules. Enquanto a aeronave da década de 1950, em sua versão mais moderna, não passa dos 671 km/h, o avião brasileiro irá voar a 850 km/h.

Outras vantagens são o menor custo de manutenção e a autonomia. Um KC-390 poderá decolar de Brasília e chegar sem escalas a qualquer capital brasileira com 23 toneladas de carga, sua capacidade máxima. Nas asas, o avião poderá levar até 23,2 toneladas de combustível. Além de alimentar as próprias turbinas, também será possível fazer o reabastecimento em voo de outros aviões ou helicópteros.

O compartimento de carga terá 18,54 metros de comprimento, um pouco maior que uma quadra de vôlei. A largura é de 3,45 metros e a altura é de 2,95 metros. O espaço é suficiente para acomodar equipamentos de grandes dimensões, além de blindados, peças de artilharia, armamentos e até aeronaves semidesmontadas.

O blindado Guarani e o helicóptero Black Hawk, por exemplo, cabem dentro do compartimento de carga do KC-390. Também poderão ser levados 80 soldados em uma configuração de transporte de tropa, 64 paraquedistas, 74 macas mais uma equipe médica ou ainda contêineres, carros blindados e outros equipamentos.
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Com blog do Planalto





Dois anos em La Habana


Se cumprem dois anos do início das conversações públicas do Governo de Juan Manuel Santos e as FARC-EP, em Oslo, capital do reino da Noruega, após a firma do “Acordo Geral para a terminação do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura”, subscrito depois de vários meses de discussão na “fase secreta” que antecedeu a etapa pública.
Foram dois anos de duras provas, não isentos de tensões e exasperadas discussões, inclusive públicas, e de ameaças e ultimatos, por parte do Governo, cada vez que os atos de guerra da insurgência afetam a Força Pública. É o resultado de dialogar em meio à guerra, imposto pelo Governo com a pretensão de golpear a guerrilha e pressioná-la a aceitar os acordos de “entrega de armas e desmobilização”, segundo a linguagem oficial.
Dois anos depois, a partir do lado das organizações humanitárias e ativistas da paz, se insiste na trégua e no cessar de fogos bilateral como forma de que os diálogos avancem num ambiente de distensão e sem o ruído das armas.
Também avançam em meio à ameaça dos sabres pelas imposições do militarismo frente a um presidente Santos medroso; e das ações abertas, de dentro e fora do Governo, dos inimigos da paz em Colômbia. Provocações como a espionagem às delegações de paz, incluindo ao chefe da missão oficial Humberto de la Calle Lombana, a operação Andrômeda da inteligência militar e a atividade subversiva e ilegal do hacker Sepúlveda em conexão com militares, policiais e com a campanha presidencial uribista, foram fustigações para arrebentar a mesa de Havana.
À frente dos provocadores estão o ex-presidente e agora senador Álvaro Uribe, alguns mandos militares, oficiais reformados, pecuaristas, narcoparamilitares e o ministro de Defesa, Juan Carlos Pinzón. Ninguém entende por que este continua no gabinete, a não ser que seja orquestrado para que Santos se faça de bom e o ministro de mau.

No entanto, em contraste, crescem as forças da paz, que estão construindo a Frente Ampla pela Paz, a democracia e a soberania, não só para defender os diálogos com a insurgência como também na perspectiva de forjar um movimento alternativo com opção de poder popular.
O balanço dos dois anos é positivo. Há duas semanas foram divulgados os esboços dos acordos parciais sobre os três primeiros pontos debatidos [desenvolvimento agrário, participação política e drogas ilícitas], mantidos em segredo até então por pressão governamental. A publicação deixou claro que existem evidentes avanços, ainda que também pontos pendentes, muito importantes e transcendentais para que desapareçam as causas do conflito colombiano.
Apesar do conceito da paz express que o governo manejou em função da campanha re-eleitoral, se impôs a ideia do “tempo razoável” para que a agenda possa ser completada com o debate de cada um dos temas que dela se derivam. Ainda que os porta-vozes governamentais continuam pressionando com o tempo, agora com o argumento de que é necessário preparar o pós-conflito quando ainda faltam os acordos sobre três pontos [são seis os que a agenda contém] e também faltam dirimir os desacordos nos três pontos que já têm acordos parciais.
Os últimos dias estiveram movidos pela divulgação das visitas de Timoleón Jiménez a Havana por parte do ministro Pinzón, apesar de que haviam sido combinadas com o Governo em função do trabalho da Delegação de Paz das FARC-EP. Contudo, o presidente Santos guardou silencia ante a provocação e a insolência de Pinzón.
Se avançou, porém falta muito trecho ainda. Está longe o tal pós-conflito, que não é outro senão a implementação dos acordos e o desenvolvimento da Assembleia Nacional Constituinte que deve ratificar os acordos, dirimir os desacordos e aprovar reformas políticas, sociais e econômicas profundas para uma nova Colômbia democrática e do progresso social.

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Equipe ANNCOL - Brasil
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A essência da Bolívia de Evo e Álvaro


 
Se o Che nos escolheu para continuar sua revolução, não terá sido por acaso”, me diz um boliviano, repleto de orgulho, em La Paz.
 
Os carros são muitos, demasiados. Em particular os do serviço público. Não se entende como não chocam com mais regularidade. Os pedestres devemos calcular como passar de uma calçada para outra sem ser atropelados. Porém, não parece incomodar a ninguém. Só aos que não são daqui. Alguém disse alguma vez que era a “Xangai latino-americana”.
 
Me detenho a detalhar. Olho e olho por vários minutos e comprovo que indígenas, grande maioria neste país, já não descem da calçada para dar passagem a um mestiço ou branco.
 
Relembro, há dois anos, quando vi no Parlamento as indígenas com suas saias e chapéus. Os operários com suas humildes, ainda que muito limpas, roupas. Me impactou. É que a cultura ocidental, a “civilizada”, nos ensinou e nos acostumou a que esse recinto só se vai com paletó e gravata. Com saias bem cortadas e saltos.
 
Existe menos pobreza. O que já quer dizer que muito poucos anciãos e crianças pedem esmola. Há poucos anos não se tinha tranquilidade para almoçar num restaurante: eles passavam regularmente a pedir uma migalha ou dinheiro. A pessoa se sentia culpada por ter o que comer. O normal era que o proprietário do lugar os arrancasse a pauladas. Nunca vi outras carinhas que não fossem de indígenas. Eles, os donos originários destas terras, haviam sido como o lixo que estorva, e só eram braços para trabalhar, desde que chegaram os espanhóis no século XVI. Isso mudou a passos agigantados desde que Evo, o indígena, chegou ao governo em janeiro de 2006.
 
No ambiente da capital e de outras cidades se sente otimismo. Claro, faltam hospitais. E, nos que estão construindo, faltarão médicos para atender a maioria. Continua sendo elitista a formação médica, como em quase todas as partes do mundo. Desde as primeiras luzes deste governo, começaram a chegar milhares de médicos cubanos. Se instalaram para medicar em lugares remotos, onde apenas o sol e o ar chegavam. Milhares e milhares de bolivianos descobriram que existe uma ilha chamada Cuba, e que essas mulheres e esses homens em bata branca tratam-nos como humanos.
 
Muitos, bastantes, nem sabem falar castelhano, porque é em aimará, quéchua ou guarani que se comunicam. Línguas milenares, reconhecidas há poucos anos.
 
Em La Paz este governo, o do “irmão presidente”, construiu um teleférico, o “amarelo”, que é o mais comprido do mundo. Nesta semana se inaugura o “verde”, que creio que é mais comprido que o outro. Para os que vivem lá em cima, no município de El Alto, é uma economia de uma hora para chegar em baixo, em La Paz. Só custa três bolivianos todo o trajeto, de quase 20 minutos. É super moderno. Ao vê-lo, cabine após cabine, parece uma invasão de óvnis. Os pacenhos, os de La Paz, se sentem orgulhosos.
 
E Evo ganhou outras eleições. Todos esperavam. Foi a grande festa nacional. O mais impressionante foi que arrasou em Santa Cruz, o reduto da oposição, onde se forjaram até atos terroristas, atentados contra a vida de Evo e projetos separatistas. Lá, a maioria são branquelos. Vendo na TV os resultados nessa cidade, relembrei a rainha de beleza de há três anos, mais ou menos. A santa-cruzenha se atreveu a dizer, no concurso de Miss Universo, que na Bolívia não havia indígenas. Nessa cidade e em Sucre, a capital original do país, a publicidade é realizada com modelos nacionais, de corte europeu.
 
Em Santa Cruz, muitos industriais compreenderam que reinvestindo na nação também poderiam ganhar. Com Evo se está formando uma burguesia nacional, que reivindica a soberania. Aliada do processo de mudança. Seus operários e trabalhadoras já não são semiescravos e pagam o justo.
 
A imprensa, a que ainda mais vende, a das elites, a que continua adorando e esperando que os Estados Unidos voltem a governar com eles, tem o mesmo discurso que a de Equador e Venezuela. Penso que seus milionários proprietários poupariam dinheiro se uns poucos de seus jornalistas se coordenassem para fazer os artigos, de política nacional e internacional. Só teria que mudar alguns nomes e dados para pô-los no contexto de cada um destes países. É que os textos são unificados. O discurso é o mesmo. De todas as maneiras, admiro-os por todos os malabarismos que fazem para dar outra explicação à realidade.
 
Estive revisando o que propunha a tal oposição. Razão tiveram os bolivianos em dar-lhe semelhante surra em votos. Bem, é que não propunham. A base de seu discurso era criticar e inventar contra Evo e Álvaro Linera, o culto vice-presidente branco de coração mestiço e guerreiro. Falavam de “mudança”, de “democratizar”, de “servir as maiorias”. E a gente não sabe se ri ou fica dubitativo: porém, se fossem os mesmos, ou seus compadres, ou avôs ou bisavôs os que manejaram o país por décadas, quase séculos, como sua fazenda. Tiveram o país prostrado ante o capital estrangeiro e as decisões da embaixada estadunidense. Bolívia era, antes de Evo, o segundo país mais pobre do continente, depois do Haiti. Enquanto as imensas riquezas que seu solo tem iam para os Estados Unidos e Europa.
 
Recordo quando Evo entrou na casa presidencial, no Palácio Quemado, situado na pequena Plaza Murillo. Suponho que os funcionários que aí serviam estavam preocupados de que esse índio sujasse os pisos encerados. Evo queria saber para que servia cada sala. Depois de ver a sua, perguntou pela que ficava justamente ao lado. Não queriam abri-la. Que deviam pedir autorização a uma pessoa que não era boliviana. Ou também se deveria chamar a um escritório fora daí. Ante a insistência do novo presidente, decidiram abri-la. Melhor, forçar a porta, porque a chave nenhum boliviano tinha. Nem o serviço de segurança. É que era a sala da embaixada dos Estados Unidos, mais em particular, a do responsável da CIA. Evo, atrevido, ordenou que chamassem o responsável da delegação diplomática para que saíssem do escritório e do palácio. Foi seu primeiro ato de soberania.
 
Duas nações golpearam o orgulho europeu e tiveram que pagar por isso: Haiti e Bolívia. Os escravos negros africanos se rebelaram ao finalizar o século XVIII. Humilharam o poderoso exército francês de Napoleão, declararam a independência do Haiti, no primeiro dia de 1804, e declararam o fim da escravidão, três anos antes que a Inglaterra.
 
Na Bolívia nasceram as maiores revoltas indígenas contra o domínio espanhol. E desde o século XVII. Tupac Katari e sua esposa Bartolina Sisa se levantaram em armas, em fins do século seguinte. 
Seguiram-nos milhares de indígenas. Sitiaram La Paz. Queriam acabar com a escravidão a que estavam submetidos seus irmãos de sangue. Claro, não se chamava escravidão porque os reis espanhóis e o Vaticano haviam decidido, desde o século XVI, que os indígenas tinham alma, eram humanos. O que os negros africanos não tinham. Porém, como havia necessidade de braços nas minas e nos campos, puseram outros nomes à escravidão. Depois de muitas batalhas, foram capturados. Esquartejaram-nos e exibiram suas partes por muitas regiões, para que os demais soubessem o que lhes iria suceder se continuassem insurgentes. Porém, as cinzas ficaram ardendo, e pouco depois explodiram as batalhas, em todo o continente, contra o domínio espanhol. E europeu, em geral.
 
Desde então, as potências europeias decidiram que os povos dessas duas nações deviam pagar por sua ousadia. Seu anseio de liberdade. Condenaram-nas à miséria.
 
Bolívia, com suas minas de ouro e prata tornou radiantes as nações europeias. Roubaram tanta prata, à custa de milhões de vidas, que se diz que com tal quantidade se teria podido construir uma ponte até Sevilha, cidade onde chegavam os tesouros roubados.
 
Ana Rosa, uma pequena mulher que guarda uma biblioteca de informação histórica em sua cabeça, me surpreende quando me conta que o militar Cornelio Saavedra teve uma decidida participação na Revolução de Maio, que foi o primeiro passo para a independência argentina. Se converteu numa proeminente figura da política, a ponto de chegar a ser o presidente da Primeira Junta de governo das Províncias Unidas do Rio da Prata. Saavedra era um boliviano, nascido em Oyuno, na atual província de Potosí. Um grande detalhe que os argentinos têm-no um pouco guardado.

 
Hoje, com Evo e Álvaro, a Bolívia voltou a ser soberana. A maioria de sua população, a indígena, sente que renasce o império Inca.
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* Hernando Calvo Ospina é jornalista e escritor colombiano, residente na França e colaborador de Le Monde Diplomatique. Seu último livro, traduzido para seis idiomas, é "Calla y Respira", publicado em espanhol por El Viejo Topo. Sua página web:http://hcalvospina.free.fr/


Fonte: Rebelión