"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

"De que vale a vida se quando a temos ela parece morta. A vida é para ser senirmos, para vibrar, para lutar, para combater. Isso justifica nossa passagem pela Terra." (Jaime Pardo Leal)


sábado, 30 de agosto de 2014

Marina abre o jogo e diz a que veio


Por Emir Sader


As políticas externa e interna estão estreitamente associadas. Uma define o lugar do país no mundo, a outra, a relação com as forças internas.

A política externa de subordinação absoluta aos EUA da parte do governo FHC se correspondia estreitamente com o modelo neoliberal no plano interno. A política externa soberana do governo Lula se relaciona indissoluvelmente com o modelo interno de expansão economica com distribuição de renda e ampliação do mercado interno de consumo popular.

Significativo o silêncio dos candidatos da oposição sobre política exterior, do Mercosul aos Brics, passando por Unasul, Celac, Banco do Sul, Conselho Sulamericano de Defesa. De repente, talvez revelando excessiva confiança nas pesquisas, a Marina lança os primeiros itens do seu programa, incluindo política externa e seus desdobramentos.

Lança a ideia de baixar o perfil do Mercosul, velho sonho acalentado pelos entreguistas locais e pelos governos dos EUA.

Como contrapartida, o programa dos marinecos destaca a importância que daria a acordos bilaterais. Ninguem tem dúvida de que ela se refere primordialmente a algum tipo de Tratado bilateral com os EUA, projeto do governo FHC que foi sepultado pelo governo Lula.

Pode-se imaginar as projeções dessa postura proposta pela Marina para outros temas, como Unasul, Celac e Brics. Significaria estender esse perfil baixo para essas outras instituições justamente no momento em que os Brics fundaram novas instituições, que projetam um mundo multipolar, e o Mercosul e Unasul retomam uma dinâmica de fortalecimento.

É tudo o que os EUA gostariam: deslocar o Brasil, país chaves nessas novas configurações de força no plano internacional, para voltar a ser um aliado subalterno deles e porta voz das suas posições, hoje tão isoladas. Dar golpes mortais no Mersosul e na Unsaul, enfraquecer as posições dos Brics.

A equipe de direção do programa da Marina é inquestionavelmente neoliberal: Andre Lara Resende, Neca Setubal, Eduardo Gianetti da Fonseca, Neca Setubal. A independência (do governo e dos interesses públicos) do Banco Central (e sua subordinação aos bancos privados) desenha uma política interna em consonância com acordos bilaterais com os EUA, em que entre o pré-sal como espaço de uma nova aliança subordinada com o império dos EUA.

Não contente de ser guindada à candidata da direita brasileira, Marina assume também a representação do capital financeiro internacional e do império norteamericano. Mostra a que veio.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014


É prematuro pensar em acordo de paz ainda neste ano, dizem FARC


Negociadores da guerrilha nos diálogos de paz analisam diferenças com governo colombiano e expõem objetivos do grupo agora e depois de um eventual cessar-fogo
28/08/2014
Vitor Taveira,
Do Opera Mundi
Desde outubro de 2012, as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o governo colombiano mantêm um diálogo de paz para tentar colocar fim a 50 anos de confronto armado. No início das negociações foram fixados seis pontos para a agenda, sendo que três deles já foram analisados. No momento, as duas partes discutem o tema das vítimas.
Em meio a esse contexto, Jairo Martínez e Tomás Hojeda, dois dos membros da delegação da guerrilha em Havana, concederam entrevista exclusiva a Opera Mundi. Por e-mail, eles analisam não só o atual estágio das negociações, mas também os motivos que levaram ao fracasso de diálogos anteriores.
Martínez e Hojeda classificam como “prematuro” pensar em um acordo com o governo ainda em 2014 e classificam o tema das vítimas como o mais polêmico da agenda. Como representantes das FARC, eles argumentam que a busca pela paz sempre foi um dos objetivos do grupo, diferentemente do que ocorre com as classes dirigentes do país.
Leia a entrevista abaixo.
Opera Mundi: O atual presidente colombiano, Juan Manuel Santos, foi ministro de Defesa do governo anterior, de Álvaro Uribe, ou seja, responsável direto pelas políticas de combate à insurgência. O que mudou em relação a seu antecessor?
Jairo Martínez e Tomás Hojeda: Uribe e Santos representam um mesmo projeto ideológico, o que está em jogo é quem vai controlar o poder político e a burocracia. Não se debate a propriedade dos meios de produção, a nacionalização dos recursos estratégicos, os estragos da liberdade de capitais, a alternância de poder, nada disso está em discussão. As diferenças políticas na maioria das democracias burguesas estão dadas por métodos para conseguir seu propósito. No fundo, não muda nada.
OM: Por que as FARC começaram a negociar um acordo com o governo do presidente Santos?
O ponto de paz nós temos proposto como uma estratégia política nossa. A bandeira para alcançar a paz é das FARC, por isso levamos essa consigna a todos os setores do país e pouco a pouco foi ganhando os milhões de colombianos nos colégios e universidades, ganhando os trabalhadores, camponeses, indígenas, afrodescendentes, deslocados, desempregados. É uma bandeira dos oprimidos.
A construção da paz é um assunto de toda a sociedade em seu conjunto, que requer a participação de todos e todas, sem distinção, incluídas outras organizações guerrilheiras às quais convidamos a se unir a este propósito. Este país não pode estar condenado para sempre à injustiça e à guerra. Estivemos presentes sempre que se abriu a possibilidade de buscar uma saída negociada ao conflito social e armado que o país vive.
Sobre estas tentativas de negociações em governos anteriores, por que fracassaram?
Historicamente, a classe dirigente não teve vontade para fazer as mudanças que o país demanda e para que a paz e a reconciliação sejam viáveis. Todos os processos de paz anteriores fracassaram porque foram concebidos para desarmar, desmobilizar as guerrilhas, sem realizar mudanças estruturais, de modo que sigam sempre garantindo o estado atual de privilégios para os de sempre.
Fracassaram porque os governos que empreenderam estes propósitos careciam do apoio político necessário para empreender um processo desta envergadura. Porque a máquina de guerra imposta pelos Estados Unidos sempre foi prioridade. Na Colômbia sempre houve conflitos e sempre houve processos de paz, mas nunca se tocou no fundamental: as causas estruturais que originaram a guerra.
Qual a diferença do atual processo de diálogos? Por que acreditar que desta vez pode chegar a um final exitoso?
A diferença deste processo em relação aos anteriores é que desde o início se elaborou um acordo geral para finalização do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura. Foram definidos seis pontos centrais que servem de guia. Três deles foram desenvolvidos parcialmente: política de desenvolvimento agrário integral, participação política e solução ao problema das drogas. Avançamos muito bem no quarto ponto, que se refere às vítimas.
Em todo processo há dificuldades de toda natureza, existiram e continuarão existindo, mas se percebe boa vontade de ambas as partes. Outro elemento positivo é a participação de setores sociais comprometidos na defesa do processo de paz, que estão muito mais comprometidas que nos diálogos anteriores.
Somos otimistas sobre o que está acontecendo na mesa de conversações de Havana, com a mirada positiva da região e as manifestações internacionais de apoio.
As negociações que estão sendo iniciadas em relação ao tema das vítimas são consideradas por especialistas as mais polêmicas da mesa. Como as FARC estão abordando o tema e quais suas diferenças em relação às posições do governo?
Sem dúvidas, é o tema mais polêmico. Simplesmente porque se está buscando encontrar as origens, as causas e as consequências de uma guerra que as oligarquias colombianas nos impuseram cumprindo orientações do grande império, os Estados Unidos da América.
Toda guerra deixa consequências nefastas. A nossa não é exceção. Provocou milhões de deslocamentos de população, centenas de milhares de expropriados, dezenas de milhares de desaparecidos e torturados, vítimas provenientes em sua imensa maioria de classes subalternas, dominadas e exploradas em nosso país.
Estamos tratando o tema das vítimas com propostas. Os comunicados conjuntos expressam que “ressarcir as vítimas está no centro do acordo”, por isso propusemos dez princípios: o reconhecimento às vítimas, o reconhecimento de responsabilidade, satisfação dos direitos das vítimas, participação das vítimas, esclarecimento da verdade, reparação das vítimas, garantias de proteção e segurança, garantias de não repetição, princípios de reconciliação e enfoque de direitos.
As diferenças são estruturais, mas é precisamente isso que estamos buscando entrar em consenso com o governo nos diálogos de Havana.
Quais as principais divergências que poderiam impedir a conclusão dos diálogos entre governo e insurgentes?
A principal divergência está em que temos duas concepções muito distintas, duas visões de Estado. A visão atual, orientada e manejada com as receitas do imperialismo, do neoliberalismo e da burguesia, em que a exploração e o lucro predominam, em que o ser humano conta apenas como matéria prima no mercado de trabalho. E a nossa visão de um Estado em formação pelo qual estamos lutando, no qual prevaleça a justiça social, a intervenção direta do Estado nos recursos naturais estratégicos e na distribuição das receitas.
Há especulações de que se poderia chegar a um acordo até o final deste ano. Isso seria possível?
As especulações neste sentido sempre saem oficialmente do governo. Nós pensamos e manifestamos que um acordo final para superação do conflito em prol de alcançar a paz com justiça social não depende de datas fatais, e sim que a disposição generosa do governo e seu compromisso abram as possibilidades e ofereçam garantias mínimas que ajudem a concretizar o acordo de transição concreta, já que as concepções mesquinhas permitem avançar pouco. Seria prematuro pensar que este ano haja assinatura de um acordo quando a comissão histórica para esclarecimento do conflito interno se conforma neste mês de agosto com um prazo de quatro meses para apresentar um relatório final à mesa de conversações. Sem dúvidas, esta comissão fortalecerá o debate e as discussões nas conversações trazendo o acúmulo desde 1930 até hoje, o que indica que há que levar o processo sem pressa e sem pausa.
Se concluído, enfim, um acordo final, quais seriam os principais desafios para a fase de pós-conflito que o país passaria a viver?
O processo de conflito social e armado completa 65 anos e começamos a visualizar o que se chama de pós-conflito, definido como a fase que vêm depois dos acordos de paz e que supõe a recomposição da sociedade. Isso inclui aspectos como a verificação do pactuado, as garantias de segurança e não repetição, a desmobilização, a reinserção, solução a populações deslocadas, o fundo de capitais para cumprir o pactuado, as formas de participação política de todos os movimentos e partidos de oposição, como se vai dar o processo social de perdão e reconciliação, entre outros.
Quais seriam os passos e estratégias do movimento insurgente para ingressar na vida civil?
Os passos se darão de acordo com o desenvolvimento e o cumprimento dos acordos gerais para finalização do conflito e construção de uma paz duradoura e estável, contidos na agenda geral pactuada entre o governo nacional e as FARC.
O desafio é consolidar, fortalecer, criar um amplo movimento de massas capaz de colocar-se à frente para servir de guardião e garantir que este processo não seja abortado, que este novo movimento político tenha a capacidade, através de uma Assembleia Nacional Constituinte, de desmontar a concepção e teoria da segurança nacional - do inimigo interno- e o paramilitarismo. No econômico, com o desmonte do neoliberalismo poderíamos chegar a um ponto em que a justiça social seja o elemento central.
A luta é social, política, ideológica e organizativa para o fortalecimento e criação de uma força tal que nos permita seguir desenvolvendo nosso plano estratégico. Queremos a tomada do poder político já por outros meios porque há que deixar claro que a este propósito não estamos renunciando. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014


La Habana, Cuba, 26 de agosto de 2014
Amarre sua língua, senhor Pinzón
Lemos com toda atenção as declarações do ministro de Defesa, senhor Pinzón, ao diário El Tiempo do domingo passado, Uma vez mais suas respostas e comentários fazem honra a seu grosseiro e daninho temperamento. Charlatão por definição, o senhor Pinzón trata de mostrar-se forte, sábio, habilidoso, rutilante, conhecedor de temas que geralmente escapam a sua compreensão. Uma lástima que sua figura não corresponda à importância do momento.
Geralmente, deixamos passar suas turmas e desacertadas opiniões porque estimamos que seu chefe, o Presidente Juan Manuel Santos, é a quem há que ouvir; é em quem haveria que crer. Isto, sem que deixemos de perguntar-nos por que se mantém numa pasta tão sensível para a paz a quem padece de uma ostensiva incontinência verbal.
Agora resulta –segundo Pinzón- que o General Javier Alberto Flórez, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Militares, veio a Havana para enviar a suas forças daqui uma mensagem de vitória: para ir assentando bases para que as FFAA possam “planificar a entrega de armas das FARC”; e para que “não façam uma canalhice com o país”. Em honra da verdade, não foi para isso que acordamos que viessem os senhores oficiais.
O que põe de presente o senhor Pinzón com seus altaneiros e mentirosos comentários é que, com efeito, se está dando um processo de paz que vem se medindo com duas rasouras: A sua e a de alguns outros agentes do Estado por uma parte, e a dos plenipotenciários do governo em Havana, por outra. Esquecem os primeiros que há uma agenda por atender e respeitar. Se trata dos pontos recolhidos no Acordo Geral firmado por nós e pelos representantes do governo no dia 26 de agosto de 2012. E recordamos e ressaltamos, porque aqui não veio o senhor General Flórez a desconhecer ou repropor o dito acordo, como, sim, o faz o senhor Pinzón, quando, pensando com o desejo, manifesta o que recolhe o já citado diário capitalino.
Valeria a pena que Pinzón se informasse sobre o que acontece na ilha de Cuba antes de seguir falando tão precipitada e irresponsavelmente na contramão dos propósitos de paz.
Dizem os entendidos que o ministro Pinzón não pronuncia palavra sem consultar a seu superior. Outros que também manifestam estar informados indicam que Pinzón tem sua própria agenda. Nós queremos seguir pensando que agendas não há senão uma: a que deve conduzir à paz; a já subscrita pelos que foram empoderados para comprometer as FARC-EP e ao Estado. Há que ter cuidado, doutor Pinzón. Amarre sua língua. Creia-nos, se lhe afirmarmos que o espelho da malvada rainha madrasta de Branca de Neve é só produto da imaginação. É apenas um conto de fadas. Deixe de se perguntar frente ao mesmo espelho fantasioso “quem é o ministro mais macho da história”? Não vale a pena. A guerra e a paz são coisas sérias.


DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP


Por Javier Alexander Macías. Fonte: El Colombiano

Em entrevista exclusiva com El Colombiano, Santrich respondeu sobre o papel das vítimas na mesa, o modelo de reparação que o grupo guerrilheiro propõe e sua responsabilidade no conflito armado colombiano. Frente à pergunta de reparação a suas vítimas, afirmou que nas Farc tudo é coletivo e não têm nada para repartir.
Na negociação, em que se avançou mais além do acordo parcial dos pontos discutidos até agora?
Não negociamos nada com o governo, dialogamos enfatizando os problemas fundamentais de ordem econômica, política e social que as maiorias têm em Colômbia e que em concreto têm que ver com a desigualdade, a miséria e a carência de democracia. Recolhemos as reivindicações que as organizações sociais e políticas apresentaram nos foros de discussão dos temas da Agenda de Havana e em suas jornadas de protesto, e as convertemos nas propostas mínimas que levamos à mesa e que são públicas. O avanço consistiu em conquistar esses três acordos parciais sobre reforma agrária, participação cidadã e nova política antidrogas, que são formulações para melhorar as condições de vida dos colombianos. À parte, avançamos em constituir uma Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, que deve começar a esclarecer as origens, causas, efeitos e responsáveis pela longa confrontação da qual nosso país padece”.
Qual foi o momento mais crítico em dois anos de negociação?
Resolver os problemas enormes, profundos e de tanto raizame histórico de uma guerra que tem se prolongado por mais de meio século não é uma tarefa simples, apresenta múltiplas dificuldades e momentos de tensão, que não é o caso de detalhar aqui porque faz parte das controvérsias necessárias que temos e que as partes acordamos manter na discrição”.
O encontro com as vítimas, que benefícios traz ao processo de paz?
Se tratou de um acontecimento histórico que permitiu que as partes, os garantidores e os acompanhantes escutassem de viva voz da gente comum, que sofre as dores da guerra, seus próprios dramas. Porém, também se ouviram seus anseios profundos de reconciliação sobre a base da verdade, do respeito e do mútuo reconhecimento. Este certame preenche de muita esperança e compromisso as partes, e creio que em grande medida ao conjunto da sociedade que ouviu na rodada de imprensa as vítimas do conflito, e nos comunicados que se emitiram, que a vontade do povo está em que as partes não se levantem da mesa até chegar a um acordo que ponha fim à guerra”.
As Farc propõem a criação de um fundo para reparar as vítimas. De onde devem sair esses fundos para esta reparação?
Falamos de disponibilizar imediatamente recursos orçamentários para financiar ressarcimentos materiais durante pelo menos uma década, mediante a criação do que denominaríamos um Fundo Especial para a Reparação Integral, com participação das organizações nacionais de vítimas. Dissemos que isto se constitui em imperativo, são das coisas que não podem condicionar-se à firma do Acordo Final.
Agora bem. De onde sacar estes recursos? Esta não é uma pergunta de resposta simples. Alguém pode dizer que a mera desescalada da guerra ou a firma de um acordo bilateral de cessar-fogo pode liberar recursos que hoje se desperdiçam na confrontação. Relembremos que pelo menos 6 pontos do Produto Interno Bruto estão dedicados à guerra, e isso representa somas multimilionárias que devem fluir mais para o investimento social e para a solução de problemas como os dos que as vítimas padecem”.
Falando das vítimas das Farc, como seria a reparação por parte do grupo guerrilheiro aos afetados por suas ações?
Nós sempre falamos a partir da margem dos perseguidos e afetados pelo conflito que o regime impôs para garantir a acumulação capitalista que hoje se expressa, por exemplo, nas porcentagens de posse da terra. Você sabe que, para citar um caso, um terço do território nacional, ao redor de 40 milhões de hectares, está em mãos dos latifundiários pecuaristas. Essa realidade de desigualdade se construiu a sangue e fogo, assassinando, despojando e deslocando a população rural, sobretudo. Então, neste país, onde algo mais de 80% da vitimização foram causados pelo Estado e seus paramilitares, o essencial é resolver este tipo de problemas que são os que causaram e mantêm a guerra. O demais, digamos que vem como consequência.
Me refiro a que como consequência de um Acordo Final, o Estado, como máximo responsável desta confrontação, e o Estado reconstituído para estabelecer a justiça social e a paz, deve garantir os direitos de todas as vítimas. Isto inclui aqueles que tenham sido afetados por ações equivocadas ou por erros da insurgência. A parte que concerne diretamente ao ressarcimento das pessoas que possamos ter afetado durante a confrontação é mais de ordem moral, está mais ligada ao reconhecimento das faltas que possamos ter cometido durante esta confrontação tão longa e desigual na qual nós e nossas famílias também fomos afetados”.
Porém, as Farc têm bens que servem para a reparação de suas vítimas...
Tudo o que temos é coletivo. Ninguém nas Farc possui bens pessoais como guerrilheiro, assim que não temos nada para repartir. A reparação no [nível] material, como produto do Acordo Final, implica, reitero, que na nova ordem institucional que surja, o Estado em sua nova estrutura deve encarregar-se do ressarcimento de todas as vítimas do conflito e disponibilizar os recursos para implementar os acordos em função do estabelecimento da justiça social e da paz”.
As Farc expressaram que, segundo estudos, em Colômbia há mais vítimas do Estado e dos paramilitares que da guerrilha, porém a Unidade Nacional de Vítimas revelou que são mais as vítimas da guerrilha que dos outros atores armados. Por que essa diferencia? Falta reconhecimento das Farc de suas vítimas?
Não, não se trata de um desconhecimento de vítimas por parte das Farc. O que passa é que geralmente as cifras de uma instância como a Unidade Nacional de Vítimas se constroem tomando fontes mesmas do Estado, que estão distorcidas e apontam a todo custo a incriminar e desqualificar a insurgência e ocultar a responsabilidade do Estado na guerra. Esse tipo de informação o Estado também usa como arma de guerra, guerra de desinformação, de manipulação das consciências para desqualificar ao adversário.
Sentem que as vítimas estariam dispostas a perdoá-los?
Nossa luta é para que todas as vítimas sejam reconhecidas e reivindicadas. Em Colômbia tem havido um longo conflito onde o conjunto da sociedade é vítima. Isco começando pelas consequências dolorosas das políticas econômicas que matam mais gente que a própria guerra. Nesse sentido, acreditamos que o tema do perdão, que é um assunto da consciência íntima, não se pode condicionar nem utilizar como instrumento de estigmatização política ou de show para que se satisfaça o morbo da imprensa e dos guerreiristas que se escondem detrás da manipulação dos sentimentos alheios. O perdão é uma definição da consciência de cada quem. Todos carregamos nossas dores e sofrimentos e, se não temos a decisão do perdão, pelo menos devemos ter a determinação da convivência em meio as diferenças de pensamento, se queremos que esta guerra termine”.
Que diriam às suas vítimas?
Aos que tenham sido afetados injustamente por nossas ações, de todo coração se lhes pediria perdão e trataria de encontrar reconciliação. Particularmente, creio que se requer uma contrição de todos os que atuamos na guerra e um gesto simbólico de perdão político que surja da responsabilidade coletiva que existe em Colômbia ao redor da permanência da guerra: devemos sair do campo da vindita e construir alteridade. Já particularmente, há coisas que eu não as perdoaria a nossos vitimários, porém repito que, se queremos acabar a guerra, pelo menos deve haver um compromisso de convivência e respeito mútuo”.
Haverá resposta para as vítimas que pedem saber onde estão essas pessoas que estiveram em poder das Farc e nunca mais voltaram a saber delas?
O fenômeno do desaparecimento forçado é um assunto cuja responsabilidade se centra no Estado e seus paramilitares. Girar a argumentação, apresentando-a como se fosse o resultado de comportamentos e políticas das Farc é uma grande falsidade muito repetida de maneira premeditada pelos grandes meios de comunicação que pretendem posicionar a ideia de uma guerrilha vitimária da qual, inclusive, o Estado é vítima.
Não obstante, temos dito que estamos dispostos a ajudar a localizar lugares onde tenha havido combates e eventualmente terem ficado soldados e guerrilheiros mortos sem poder ser resgatados. Há alguns casos em nossas fileiras e, certamente, que nas fileiras do adversário, nos quais nunca irão aparecer combatentes que foram impactados por bombas ou explosões fortes. Isto é lamentável, doloroso, porém ocorre na guerra”. 
Há disposição para reconhecer as suas vítimas?
Nós falamos a partir da margem dos perseguidos e não como vitimários. Não obstante, reconhecemos que em alguns casos possamos ter afetado gente inocente: isto como produto de erros ou de equívocos, não como política ou ação sistemática. Então, como revolucionários estamos no dever de reconhecer o que nos corresponda e reconciliar-nos com os afetados e ofendidos”.