"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


domingo, 4 de novembro de 2012

Entrevista do Comandante Jesús Santrich

A Cadena Radial Bolivariana – Voz de la Resistencia – realizou uma
entrevista com o comandante Jesús Santrich, integrante do EMC das
FARC-EP e membro da delegação fariana nos diálogos pela Paz com
Justiça Social. Dialogamos fraternalmente com o camarada ao redor dos
temas centrais da agenda, e das posições das FARC-EP para abordar a
mesa de diálogos com o governo colombiano.

CRB: Sem dúvidas, esta é uma agenda diferente, tanto em sua forma como
em seu conteúdo. Como definiria você  esta agenda a qual denominaram
Acordo Geral para a terminação do Conflito...?

Jesús Santrich: É uma agenda simples que trata de resumir-se sem
estender-se em demasiados conceitos, muitos dos pontos que as FARC têm
elevado como bandeiras, reivindicando os interesses mais sentidos do
povo colombiano. Sobretudo em seu preâmbulo está recolhido o espírito
do que as FARC anseiam abordar junto ao povo para sair deste conflito
político-social-armado que dessangra a pátria. Há muita inspiração em
instrumentos como o programa Agrário dos guerrilheiros e a Plataforma
Bolivariana pela Nova Colômbia.

Por outro lado, e poderíamos buscar muitos outros filões de
interpretação, está nesse primeiro ponto que prossegue ao preâmbulo a
abordagem do aspecto agrário e de desenvolvimento rural que é nodal
como fator que gerou a confrontação; com um detalhe muito relevante e
é que para as FARC é ponto de partida o enfoque territorial do
assunto.

Numa formulação simples, partimos da definição do problema da terra
como intrínseco ao conceito de território, que implica a preocupação
pela soberania em assuntos como o do reordenamento territorial, a
definição da soberania alimentar e o sentido da pátria. Fora disso, é
impossível abordar o tema.

Finalmente, diria que na assinatura do referido acordo as FARC têm
deixado assentada sua magnanimidade, seu compromisso irredutível com a
paz da Colômbia.

CRB: O primeiro ponto da agenda é o difícil tema da terra e do
território. Como abordará as FARC-EP este tema no calor dos diálogos?

Jesús Santrich: Bem, de alguma maneira já o disse ao fazer a
caracterização rápida do acordo, porém poderíamos indicar alguns
aspectos que são de uso comum, que o governo os maneja plenamente e
sabe que são ponto de partida das injustiças que mantêm viva a
confrontação.

Por exemplo, a espantosa desigualdade que entranha a posse da terra.
Para ninguém é segredo que, desde as FARC, historicamente nossas
propostas advogam pela redistribuição da terra num país onde em mãos
de uns poucos latifundiários está concentrada a propriedade dos fundos
produtivos.

Esta situação de desigualdade é imensa, tanto como que 41% da terra
está em mãos de mais ou menos 100 mil pessoas; e isto é o que traz a
miséria ao campo, porque essas terras lhes foram arrebatadas,
despojadas dos campesinos mediante a violência institucional e
para-institucional.

Outras cifram falam de que em mãos de 2.428 famílias oligarcas estão
53.5% da terra apta para cultivar; em contraste, 2 milhões e 200 mil
famílias campesinas sobreviviam na área restante.

O Instituto Geográfico Agustín Codazzi calcula que as propriedades com
mais de 500 hectares compreendem 61% da superfície predial e pertencem
a 0.4% dos proprietários, e a concentração da terra cresce
vertiginosamente.

Segundo as contas deste instituto IGAC e CORPOICA, do hectareaje apto
para a agricultura, que pode estar na ordem dos 21.5 milhões de
hectares, somente são dedicados para cultivos algo mais dos 4 milhões
de hectares. É muito superior o número de hectares dedicados pelos
latifundiários à pecuária extensiva. Isso pode estar pela ordem dos 39
milhões de hectares em pastos destinados a um rebanho que não
ultrapassa as 25 milhões de cabeças, o qual significa que se destina
algo mais de hectare e meio por animal.

Apesar desta espantosa concentração da terra em poucas mãos [que
coloca o índice Gini referido à desigualdade no plano da distribuição
da terra em 0.87], mais de 60% do sustento alimentar do país depende
dos pequenos proprietários e dos parceiros, pessoas às quais não se
garante créditos, comercialização, nem condições trabalhistas
decentes.

Por isto, o agro vai em decadência, já estamos importando ao redor de
10 milhões de toneladas de alimentos.

A injusta estruturação latifundiária da terra na Colômbia não é
consequência da presença guerrilheira, são as aristocracias no poder
que elaboraram este esquema que agora aprofundam para entregar o
território às transnacionais da extração mineira e do negócio dos agro
combustíveis. E digo isto porque, em nossa visão, o assunto não está
exposto só no plano de lutar pela titulação de terras. Não, não. A
concentração da terra tomou tanto voo que agora até a titulação é
utilizada para fazer despojo legal dos campesinos, tal como agora o
propõe a famosa lei de restituição do presidente Santos, que, no
fundo, busca uma ulterior liberalização de mercados para que sejam as
transnacionais as que se aproveitem da legalização.

Nós temos uma preocupação pela maneira como os governos neoliberais
têm ido sobrepondo seus projetos extrativos, agroindustriais,
plantações para biocombustíveis e mega projetos mineiro-energéticos ou
de grandes barragens etc. sobre qualquer parte do território,
destruindo os solos, arrasando o meio ambiente e deixando em desastre
as relações socioculturais das comunidades originárias.

Assim, então, este tema há que enxergá-lo a fundo, não podemos
permitir que se siga atentando contra o solo, o subsolo e o sobre
solo, que é o conjunto do território com suas relações comunitárias e
o sentido de soberania e pátria, que é o que interessa ao povo
colombiano, antes que permitir que um governo qualquer cumpra suas
metas macroeconômicas, que o que fazem é enriquecer as transnacionais
e as entidades financeiras.

A Lei Geral Agrária e de Desenvolvimento Rural que tem o governo, meio
em marcha e meio engavetada, é mais que tudo um projeto de
reordenamento territorial, que o que busca é dispor o território para
facilitar a incursão das transnacionais num campo sem campesinos.

Isso é algo de enormes implicações para a soberania e a
sustentabilidade alimentar e ambiental, que não se pode passar por
alto. Inclusive se quis, com este projeto, com vistas a favorecer as
transnacionais, aniquilar as Unidades Agrárias Familiares e o tecido
social dos povoadores do campo.

Terra para a mineração, para a exploração florestal, para a geração de
agro combustíveis e não para resolver o assunto da soberania
alimentar, isto no marco da definição do uso da terra. Se assegura
para os interesses latifundiários o monopólio da definição do uso da
terra, e este é outro assunto que haveria que revisar detidamente.

Não passemos por alto tampouco que se encontra essa figura
problemática do chamado direito de superfície, que desde o governo se
pretende implantar precisamente porque coloca o campesino como um
rentista da terra; que arrenda seu pedacinho de terra por um valor
determinado dentro de um determinado tempo, que pode estar nos 30
anos, com a particularidade de que pode ser transferível; não a
propriedade como tal, senão o direito sobre o usufruto da propriedade,
dentro da lógica da bancarização, só comparável com os processos de
asseguramento das colheitas que hoje se estão fazendo com companhias
seguradoras transnacionais sobre as variáveis climáticas como: chuvas,
secas etc.

E mais, quando os campesinos começam a cultivar já estão pagando um
seguro, isto é, já os próprios custos de produção estão relacionados
com o sistema. Porém, de todo o complicado e fétido, o mais grave é a
maneira como o campesino é arrancado de sua terrinha mediante estas
argúcias leguleias. Por agora, te diria isto somente.

Tomado de http://www.abpnoticias.com/index.php?option=com_k2&view=item&id=1821:entrevista-con-el-comandante-jes%C3%BAs-santrich-integrante-de-la-delegaci%C3%B3n-de-paz-de-las-farc-ep-parte-1

Fonte:www.pacocol.org

sábado, 3 de novembro de 2012

Cecilia Magni, a “comandante Tamara”








“Eu sou chefe e tenho homens sob as minhas ordens”



Os melhores cães de caça a procuraram sem parar.

Nascida em uma familia burgesa, aos seis meses de ter começado a faculdade de Sociologia, na Universidade de Chile, começou a participar nas manifestações contra o régime militar. Quase ao mesmo tempo ingressou nas fileiras da Juventude Comunista, organização banida pela ditadura. Sua família só soube após dois anos e da sua própria boca: “sou membro do Partido Comunista. Sou comunista”(1). As relações com seu pai, que adorava, ficaram tensas, pois nessa família o general Augusto Pinochet era aplaudido.

Pouco tempo depois ingressou à guerrilha do Frente Patriótico Manuel Rodriguez, FPMR, depois de tomar a decisão mais difícil da sua vida: deixar de compartilhar o dia-a-dia com sua filha de dois anos. O pai da menina, que a apoiava no seu compromisso, assumiu a criança. Diante das criticas, ela repetia à sua irmã: “Não posso sofrer por uma única criança que é a minha filha e que amo, quando vejo sofrer a milhares de crianças que não têm direito a nada”. Deixar as outras coisas não era problema: a comodidade e o prestigio que a riqueza da sua família podia dar. “Ingressei nisto porque acreditava numa sociedade diferente, mais justa e este caminho é mais realista e válida para mudar o rumo do país”, disse à revista HOY desde a clandestinidade em 1987.

De olhos vivos, bela, encantadora, muito terna e de grade ímpeto, opunha-se à mediocridade: “Mesmo que sejas varredor de rua, deves ser a melhor”, repetia para a sua irmã mais nova. Esta incansável leitora foi batizada de Tamara pelos seus companheiros, como homenagem à memória da revolucionária que lutou ao lado do Ché, Tamara Bunke.

Começou na luta militar participando do ataque contra uma ponte ferroviária e assalto de uma casa de cambio, de onde escapou a bala pilotando uma moto. Conseguiu uma ascensão vertiginosa na organização guerrilheira, até chegar a ser a única mulher que obteve o grau de “comandante” na fechada direção da Frente. Ocorre que as suas capacidades políticas e militares eram inatas, além de ser uma grande conspiradora. Sempre tratou com carinho àqueles que estiveram sob suas ordens, preocupando-se até pelos seus problemas pessoais, como deve ser num dirigente.

A meados de 1986, Cecilia Magni, já convertida na “comandante Tamara”, participou do reduzido grupo de dirigentes que planejou a ação mais arriscada que, até aquela data, o FPMR já realizara. Foi a operação “Século XX” e seu objetivo era matar o ditador Pinochet. Apesar dos seus protestos, foi decidido no último momento que ela não participaria da emboscada, dada a probabilidade de que os guerrilheiros fossem mortos. E a sua experiência na logística era indispensável para o Frente. Em 7 de setembro daquele ano, Pinochet regressava para a capital após um final de semana de descanso, quanto vinte membros do FPMR abriram fogo contra a caravana de Pinochet. Após oito minutos da intrépida operação, cinco seguranças da escolta estavam mortos e onze feridos. Pinochet escapou ileso pois o foguete lançado contra seu carro não explodiu: ao ser atirado de curta distancia não houve tempo para ser ativado o que era necessário para poder atravessar a blindagem do carro. Nenhum guerrilheiro morreu. A responsabilidade de Tamara na obtenção de automóveis e casas para resguardar o grupo, bem como o transporte do armamento, foi irretocável. A ação foi destacada pela ditadura como “uma perfeita operação de inteligência”.

Em 21 de outubro de 1988, juntamente com o máximo dirigente do FPMR, Raúl Pellegrín, dirigiu a tomada militar do quartel dos Queñes, na região central do país. Os órgãos da repressão iniciaram uma caça implacável contra o casal, até conseguir capturá-los. No dia 29 desse mês ela foi encontrada na beira de um rio. No seguinte Pellegrin foi capturado. A ditadura afirmou que “morreram afogados”, mas seus corpos mostravam terríveis marcas de tortura, inclusive com ruptura da coluna vertebral de Cecilia. Sua captura foi obtida através de traição. Cecilia “Tamara” Magni tinha 31 anos.   

Pellegrin não era somente um camarada político mas era o homem da sua vida. O pai da sua filha disse, tempos depois: “Cecilia, no amor e na política, foi fiel e leal até as últimas consequências”

Seu pai afirmou que se ele soubesse que ela morreria assim, “jamais na minha vida teria brigado com ela”. Enquanto que a sua filha, já adolescente, disse: “As decisões das pessoas valem, quando as tomam valem, e eu não posso invalidá-la, seria faltar com o respeito”

En la entrevista que le realizara la revista HOY a la Comandante Tamara en 1987, también dijo: “Yo soy jefe y se me subordinan hombres. He estado a cargo de tropas, masculinas por supuesto. Nunca he tenido problemas. Te aseguro que mis subordinados difícilmente ven en mí a una mujer. Una vez me vieron con las armas encima. Me vieron con granadas, con revolver. Y ésa fue la única vez que me han dicho “qué linda estás”.”

Na entrevista dada pela comandante Tamara à revista HOY em 1987, também disse: “Sou chefe e homens foram subordinados a mim. Tenho sido encarregada de tropas, masculinas é claro. Nunca tivemos problemas. Meus subordinados dificilmente vêm em mim uma mulher. Certa vez viram-me com armas, granadas e revolver. Essa foi a única vez que me disseram ‘como está linda’”.



Hernando Calvo Ospina – jornalista e escritor. Colaborador de Le Monde Diplomatique. Este texto faz parte de um livro, ainda não editado, chamado “Flores Rebeldes Latinoamericanas”.

1) Salvo as duas citações tomadas da revista HOY, as outras pertencem ao documentário “Cecilia Magni Camarada Tamara”. Televisão Nacional do Chileão Nacional do Chile. Programa “Informe Especial”.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Avança a paz






Por Horacio Duque
Fonte: www.anncol.eu

Desde quando se fez público “O Acordo Geral para a terminação do
conflito e a construção de uma paz estável e duradoura”, entre os
delegados plenipotenciários [*] do Estado colombiano e das Farc-EP, no
passado 4 de outubro de 2012, na cidade de Havana [Cuba], a paz ganhou
um amplo consenso na sociedade nacional e no campo global.

De maneira mais precisa, tal fato é um triunfo político contundente
que estabelece uma fronteira visível com a etapa anterior de guerra e
violência estatal realizada ao longo de 120 meses pelo regime fascista
de Uribe Vélez, protetor dos interesses transnacionais e da
concentração da riqueza em poucas mãos.

O Acordo Geral é fruto de um Pacto realizado entre as duas partes com
plena potestade negociadora: o governo nacional e as FARC-EP.

O referido texto, em sua integridade, é o ponto de referência objetivo
para qualquer avaliação do processo. O demais é produto da visão
enviesada dos pessimistas, dos partidários das conflagrações perpétuas
nas quais levam a pior parte os pobres do campo.

Para os que vemos com objetividade o processo, todo o ocorrido desde
que se fez público o Acordo se dá no marco do consensualismo.

Um inventário superficial dos fatos registrados nos permite observá-lo
com clareza:


- Texto do Acordo Geral no qual se indica o início de umas
conversações para pôr fim ao conflito; é, sem dúvida, um documento que
transcende a conjuntura e fixa os pontos centrais para a evacuação da
Agenda.

- Discurso do Presidente da República, Juan Manuel Santos, ratificando
sua conformidade com o firmado por seus representantes; a expressa
manifestação de Santos reflete uma vontade política de levar adiante o
proceso e de cuidar da confidencialidade nos que assim se acordaram;

- Discurso do Comandante das FARC, Timoleón Jiménez, para expressar
seu compromisso com os diálogos; não só se manifesta ali a
indeclinável vontade da insurgencia em avançar para a convivencia,
senão que se afirma a unidade dessas forças em tornodo proceso;

- Integração autônoma das delegações das partes na Mesa de
conversações. É uma circunstancia positiva, que deve permitir um
debate democrático e o aprofundamento nos pontos centrais da Agenda;

- Instalação em Oslo da Mesa de Conversações, com 5 delegados
plenipotenciários de parte e parte, mais 5 delegados suplentes e 20
adicionais de apoio técnico por fora do recinto; adequado cenário para
apresentar as visões de cada setor e de dar princípio ao debate de
fundo;

- Exposição e roda de imprensa do senhor Humberto de La Calle, como
chefe da comissão governamental; o porta-voz do presidente Santos
deixou transparecer que sua representação não se contrai à defesa das
políticas governamentais, mas sim a defesa das expectativas do setor
privado cujo modelo se nega a debater;

- Exposição e roda de imprensa de Iván Márquez, em nome das FARC-EP. O
Comandante guerrilheiro reafirmou a vontade de paz de toda a
organização alçada em armas e dos setores sociais afetados pela
guerra;

- Participação e apoio de dois países garantidores, Cuba e Noruega,
mais dois acompanhantes, Venezuela e Chile. Garantia para a
sustentação do processo;

SEGUEM AS CONVERSAÇÕES sobre a Agenda de 5 pontos, começando pelo tema
do desenvolvimento rural, que devem dar-se a partir de 15 de novembro,
prévia organização de 6 grupos técnicos, no marco das regras e
procedimentos estabelecidos.

Ingenuamente, se pretende reduzir as conversações à Agenda temática,
sendo que o ponto de referência é o Acordo geral, do qual as Farc não
têm saído em suas apresentações públicas para analisar as locomotivas
mineiras e agrárias junto à organização da atual forma/Estado não
democrática da oligarquia.

A apresentação de Iván Márquez em Oslo é  a visão da insurgência
revolucionária, construída sobre a filosofia da paz consignada na
introdução do Pacto geral firmado, que Rodrigo Téllez leu de maneira
concisa. O demais é gana de torpedear [por parte] dos que veem com
pessimismo o processo, querendo seu fracasso.

As conversações em Havana requerem músculo político, cuja fonte está
no apoio popular participativo consciente. Necessitam, ademais, um
sujeito e uma subjetividade potente que respaldem a consecução da
convivência mediante a ação multitudinária.

CONSTRUIR O REFERIDO SUJEITO/SUBJETIVIDADE implica uma aproximação
imparcial ao texto do Acordo geral, que não  é só sua transcendental
Agenda de 5 temas, mas também os outros blocos programáticos
[axiologia, Mesa, participação internacional, regras do jogo, tempos],
cuja adequada interpretação e aplicação deve permitir construir nos
meses que vêm formas alternativas de coexistência entre as partes no
processo de transição democrática e de criação de uma nova
institucionalidade, e não a simples rendição dos combatentes
revolucionários.

Da filosofia da Agenda, das regras de funcionamento, dos tempos, nos
ocuparemos nas próximas análises.


[*] O termo plenipotenciário tem duas raízes latinas, que são plenus,
cujo significado é pleno, e potens, potência. A utilização do termo no
Acordo geral implica conotações jurídicas e políticas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Farc: “Militares e contratos de guerra impedem cessar-fogo”


                                                             
“Esta não é mais uma tentativa [para a paz]. Para as Farc é uma
constante manter as portas abertas para a busca de uma saída negociada
para o conflito social e armado”, diz Marco León Calarcá, em
entrevista exclusiva ao Portal Vermelho. Sobre o fato de não ter sido
decretado o cessar-fogo durante as conversas, em sua opinião isso se
deve ao fato de o governo manter acordos com militares e contratos de
guerra.

Por Vanessa Silva, da redação do Vermelho

No dia 15 de novembro será iniciada, em Cuba, a segunda fase da
negociação entre as partes envolvidas no processo de paz entre as
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo –
FARC-EP e o governo colombiano. A iniciativa é a quarta neste sentido
desde que a guerrilha entrou em ação no país em 1964.

Segundo Calarcá, a sociedade deve participar dos processos de
negociação de paz. Para isso, serão oferecidas condições para que a
população possa enviar propostas e participar dos debates.

Apesar de não haver sido pactuado um cessar-fogo — desde agosto
morreram 50 guerrilheiros e na última semana a insurgência matou seis
policiais — as Farc têm dado mostras de que estão abertas à
negociação, como deixa claro Calarcá, integrante da equipe de
negociações das Farc com o governo da Colômbia, em entrevista
exclusiva para o Portal Vermelho, realizada por e-mail. O guerrilheiro
denuncia que o cessar-fogo não é implementado por interesses escusos:
“o governo insiste em adiantar as conversas sem o cessar-fogo. Os
compromissos com o militarismo e os contratos de guerra se impõem”.

O processo de paz é apoiado por 80% dos colombianos e recebe críticas
do ex-presidente Álvaro Uribe. O líder da direita continental não
admite o que considera ser um “retrocesso” em sua política de
extermínio dos combatentes.

“O que buscamos com a mesa de negociação é chegar a acordos para
resolver o conflito colombiano. Isto significa erradicar as causas de
caráter econômico, político, social e cultural que nos mantêm em
guerra”, sinaliza Calarcá. Confira a íntegra da entrevista:

- Portal Vermelho: Importantes setores políticos sinalizam que é
necessária uma maior participação da sociedade no processo de paz da
Colômbia. Isso seria possível?

Marco León Calarcá: Sem dúvida. A paz é para todas e todos. Na Mesa de
Diálogos são contemplados alguns mecanismos para que organizações da
cidade e do campo, em suas diferentes formas — fóruns, mutirões,
associações, comunidades de jovens, homens e mulheres de todas as
idades, indígenas, afrodescendentes e todos e todas em geral, durante
o processo de discussão — façam chegar propostas e inclusive possam
enviar delegados presenciais para fazer sua própria defesa.

Haverá elementos necessários tais como página na internet, correios
eletrônicos, telefones e endereços de e-mail para facilitar a
comunicação da Mesa com a sociedade. Além disso, serão feitos os
“rincões da paz” (escritórios para a paz) em todos os municípios e
capitais como mecanismo facilitador e incentivador para que as pessoas
comuns possam se comunicar com facilidade com a Mesa e obtenham as
informações suficientes sobre o processo.

Também funcionarão a assessoria de imprensa, que em comum acordo
divulgará o resultado ou as conclusões do trabalho realizado, e o
escritório de comunicação com a sociedade.

- Foram acordados seis pontos para a finalização de todas as
negociações. Como serão implementados?

Realmente são seis pontos com subtemas e aspectos diversos. O que
buscamos com a Mesa de Diálogos é chegar a acordos para resolver o
conflito colombiano. Isto significa erradicar as causas que nos mantêm
em guerra de caráter econômico, político, social e cultural, além da
prática violenta e sanguinária do establishment colombiano. Nesse
sentido não utilizamos o termo “negociação”.

- É possível que não sejam discutidas questões políticas e econômicas
da Colômbia, como quer o governo?

Isso deve ser tratado, como foi anunciado claramente em Oslo pelo
Comandante Iván Márquez em nome do Estado Maior das Farc-EP. São temas
da organização guerrilheira que encarnam um sentido da vida política
das maiorias na Colômbia e que são consubstanciais. Primeiro, somos a
maioria em nossa pátria e não o capitalismo neoliberal estrangeiro
como assegurou [Humberto] De La Calle em nome do governo do presidente
Juan Manuel Santos em Oslo.

Abordar seriamente a discussão sobre o fim do conflito, com o firme
propósito e a vontade política de chegar a acordos que permitam a
solução incruenta tem como premissa resolver as causas do conflito e é
impossível se esquivar do econômico, político e social.

- Esta é a quarta tentativa de resolver o conflito. Por que devemos
acreditar que agora será diferente? Quais são as garantias de um lado
e de outro?

Não se trata de uma tentativa a mais. Para as Farc é uma constante
manter as portas abertas para a busca de uma saída dialogada ao
conflito social e armado. Sempre mantivemos viva a esperança de que o
povo pode impor seus anseios de mudança, de justiça social como base
da reconciliação nacional.

- É possível que as Farc sejam, no futuro, um partido político e
possam disputar as próximas eleições?

Somos uma organização político-militar que também possui uma estrutura
partidária. Somos militantes do Partido Comunista Clandestino
Colombiano. Obviamente não cabemos dentro do esquema partidário da
democracia liberal burguesa. E não necessariamente para nós exercer
política é participação eleitoral. Todos os dias e em toda a geografia
nacional, o movimento das Farc se expressa através da guerrilha, das
Milícias Bolivarianas, do Partido Comunista Clandestino Colombiano e
do Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia. A confrontação e a
repressão impõem a clandestinidade, mas nunca a imobilização. O
permanente contato com o povo do qual fazemos parte é nossa essência.

Sobre um partido político legal e eleições são possibilidades que
dependem do desenvolvimento do processo, teremos que ver.

- Com esse processo, existirão alternativas para os guerrilheiros?

Sempre consideramos que, por nossa luta ser pelos interesses da
maioria, em uma Mesa de Diálogos não deve figurar um capítulo à parte
sobre aspirações específicas da guerrilha. Consideramos que ao serem
resolvidos os problemas do povo, são resolvidos os problemas da
“guerrilhada”.

- Haverá anistia?

Nós temos propensão por um acordo de solução para os problemas
geradores do conflito. Não reconheceremos a institucionalidade
burguesa com a finalidade de esperar dela indultos e perdões. Dentro
do regime de terror estão os assassinos, que são os que devem pedir
perdão.

- E quanto aos paramilitares?

Os paramilitares são criação do regime que os mantém. Depois da farsa
dos acordos e a traição que significou para eles a extradição, muitos
grupos ativos no narcotráfico ficaram à espera das ordens de seus
chefes, militares civis e uniformizados. Para terem visibilidade agora
são chamados bandos criminosos, “bacrim”.

- Foi acordado que não haverá cessar-fogo durante os diálogos. Isso
pode fazer com que as Farc percam posições?

Não há um pacto sobre o cessa- fogo, é um ponto a ser tratado e o
faremos em seu momento, no entanto, nossa proposta é um cessar-fogo
bilateral agora, para economizarmos danos. Pensamos que se estamos com
vontade política de terminar o conflito, essa é uma coisa lógica. O
governo insiste em adiantar as conversas sem o cessa-fogo. Os
compromissos com o militarismo e os contratos de guerra se impõem. A
experiência demonstrou que não é o melhor.