"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Antes Honduras, agora Equador, depois...

Um ano depois do golpe de Estado em Honduras, os recentes acontecimentos no Equador demonstram que setores opostos às mudanças na região estão ativos e constituem uma ameaça para os processos democráticos em curso.

Por Carmen Esquivel

"Depois de Zelaya, o próximo sou eu", disse o presidente equatoriano, Rafael Correa, quando em junho de 2009 militares hondurenhos sequestraram o presidente Manuel Zelaya e o levaram à força à Costa Rica. A história lhe deu razão.

Apesar das peculiaridades de cada país, os acontecimentos de Honduras e do Equador têm um evidente paralelismo.

Ambas as conspirações têm entre seus protagonistas setores da ultradireita, apoiados pelos Estados Unidos, que diante da impossibilidade de chegar ao poder mediante eleições, tentam alcançá-lo de maneira violenta para não perder seus privilégios.

"Os que levantam a bandeira do socialismo estão na mira de forças da direita, cujo amo está em Washington", declarou o chefe de Estado da Venezuela, Hugo Chávez, ao saber do que acontecera no Equador.

Se voltamos ao 28 de junho do ano passado, recordaremos que Zelaya foi derrubado no mesmo dia em que ia ser realizada uma consulta para conhecer a opinião da cidadania sobre futuras reformas constitucionais.

Setores da oligarquia, que viram na consulta uma ameaça a seus interesses, tentaram enganar a opinião pública com o argumento de que a intenção do presidente era estender seu mandato para mais além de janeiro de 2010.

O que ocorreu agora no Equador evoca a ruptura institucional em Honduras.

Assim como Zelaya, Correa foi sequestrado e o pretexto para isso foi a Lei do Serviço Público, cujo conteúdo foi manipulado para desinformar os policiais insubordinados.

Se se tentou apresentar o que aconteceu em Honduras como uma sucessão presidencial, no Equador os grandes meios de comunicação internacionais falavam de uma simples sublevação policial.

Mas a detenção do presidente durante 12 horas em um hospital da polícia, as ações coordenadas em várias cidades e a tomada do aeroporto de Quito, puseram em evidência que se tratava de um plano para derrubar o governo.

Uma pesquisa realizada por Prensa Latina esta semana constatou que 66,7 por cento dos entrevistados consideraram os acontecimentos no Equador como uma tentativa de golpe de Estado e de magnicídio.

Afortunadamente no Equador, a firme posição de Correa, a mobilização do povo em defesa de seu presidente e a resposta do Comando Conjunto das Forças Armadas, abortaram a intentona.

Não ocorreu o mesmo em Honduras, onde a aliança de 10 poderosos grupos da oligarquia, com as forças armadas, a Procuradoria, o Congresso e a Corte Suprema de Justiça, conseguiram a derrubada de Zelaya e a imposição de um regime de fato.

Sem dúvidas, os acontecimentos em ambos os países, como outras tentativas de golpe de Estado similares na Venezuela (2002) e na Bolívia (2008), formam parte de uma estratégia para acabar com os processos de mudanças e desarticular os governos progressistas.

Tanto Zelaya como Correa incorporaram seus países à Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), um mecanismo baseado na solidariedade, cooperação e complementaridade das economias e não no livre mercado.

No país centro-americano, onde 70 por cento da população vive na pobreza, Zelaya destinou amplos recursos para fomentar a produção na área rural, outorgou créditos a pequenos e médios produtores e estendeu os programas de saúde e educação.

No caso do Equador, durante o governo de Correa a educação e a saúde já são gratuitas, o gasto social se multiplicou e as bases estadunidenses foram retiradas.

O que ocorre quando um país ordena a saída de uma base militar dos Estados Unidos, minimiza sua relação com Washington, rechaça o modelo neoliberal e ao mesmo tempo aumenta sua cooperação com o Irã e a Venezuela? - perguntava a pesquisadora Eva Golinger.

Segundo a analista venezuelana-estadunidense, Washington começou a movimentar suas peças para desestabilizar Correa no ano passado, depois do golpe de Estado em Honduras.

Setores da ultradireita estadunidense manifestaram seu apoio ao ex-presidente Lúcio Gutiérrez, a quem Correa acusou de estar por trás da conspiração.

Washington também mantém contactos dentro das forças de segurança do Equador e um dos três coronéis presos por tentativa de assassinato contra o presidente, estudou na chamada Escola das Américas.

Um papel similar foi desempenhado antes, durante e depois do golpe em Honduras.

Depois do seu sequestro, Zelaya foi levado à base de Soto Cano (Palmerola), o Departamento de Estado se negou a qualificar o ocorrido como um golpe de Estado e congressistas estadunidenses visitaram o país para apoiar a ditadura de Roberto Micheletti.

Já se disse que a consumação do levante em Honduras e a impunidade de que gozam os responsáveis, são o caldo de cultura para a reedição de outras tentativas de derrubar governos democraticamente eleitos.

Somente a unidade dos povos em torno de seus governos, a posição de mecanismos de integração como a Alba e a Unasul e o rechaço da comunidade internacional, poderão impedir a repetição de outro fato semelhante na região.


*Chefe da Redação Centro-América e Caribe da Prensa Latina.

domingo, 17 de outubro de 2010

O PÓS-CAGUÁN

Alberto Pinzón Sánchez

Fonte: Anncol


Aqueles que sabem dizem que escrever sobre a história de uma palavra nunca é tempo desperdiçado. Porque o belo som nativo "Caguán", com a qual os indígenas dessa região amazônica nas encostas dos Andes ao sul da Colômbia, chamaram em seu mito de origem a esse tempestuoso rio; depois de uma intensa e longa campanha mediática passou a significar, dentro da chamada opinião pública própria e internacional, engano e frustração? A resposta é porque lá, durante o governo do presidente Pastrana (1998-2002), se desenvolveram, até a sua ruptura, os conhecido diálogos de paz entre o Estado colombiano e a guerrilha das FARC.

Qual é a razão, após 10 anos de experiências de diversos tipos, de não existir uma análise séria do ponto de vista das ciências sociais, que vá além da simplicidade contundente ou a superficialidade dita pelas duas partes, de que se tratou de um engano mútuo e premeditado desde o inicio destinado a fracassar?

Por que razão ou motivo, havendo tantas e tão boas analises, também de todos os tipos, que desentranharam e dissecaram, minuciosamente, a maioria de elementos contraditórios (que os estrutural-funcionalistas chamaram "tensões") do Plano Colômbia, como uma lei extraterritorial do Congresso dos EUA e conseguiram não a sua desativação total, mas se o seu repúdio geral; não existe uma única análise que o relacione intimamente com outros fenômenos sociais que ocorrem simultaneamente, como os diálogos de paz de El Caguán, nem com o Ascenso ou captura posterior do Estado por parte dos narcoparamilitares como uma solução imposta à crise econômica e de governabilidade do governo Samper, que, obviamente, foram os mais significativos fenômenos sociais vividos pelos colombianos naqueles anos e, posteriormente, determinaram o desenvolvimento social e político da Colômbia?

Estas perguntas apontam para tentar estabelecer um elo direto (invisível pela ciência oficial) entre: 1-A muito bem documentado e analisada crise interna (econômica e social) da Colômbia, tornou-se evidente no governo Samper por causa do financiamento da sua campanha com dinheiro proveniente do tráfico de drogas e que foi habilmente utilizada pelo governo Clinton para fazer avançar o ordenamento geoestratégico neoliberal e imperialista na região andino-amazônica, através do Plano Colômbia /Iniciativa Regional Andina. 2 - A ascensão e captura do Estado colombiano por parte do narcoparamilitarismo emergente como solução fascista para essa crise, e 3 - Com os diálogos de paz desenvolvidos na zona desmilitarizada de El Caguán.

Por que o governo de Pastrana desmilitarizou e entregou às FARC, uma região tão grande como El Caguán, quando Manuel Marulanda, em nome do Secretariado pedira apenas a região da cabeceira municipal de São Vicente? Era uma pergunta que, assombrados, muitos peritos militares e em resolução de conflitos internacionais se faziam. Ninguém suspeita porque era um segredo diplomático muito bem guardado, que veio à tona 10 anos depois em uma disputa típica entre Uribe Vélez e Pastrana, quando este teve que declarar publicamente que tinha sido um imposição do governo Clinton, como parte essencial do desenvolvimento do Plano Colômbia. (1)

Então, tornou-se visível uma espécie de tática com duas frentes, colombo-estadunidense, encaminhada, como os fatos posteriores o demonstraram: Por um lado, para tomar ar político e fazer a reengenharia militar urgente nas Forças Armadas que foram severamente golpeadas com a tomada guerrilheira das bases militares no sul do país, sintetizada no slogan militarista “agora sim os derrotaremos”, e por outro lado, mostrar que as FARC não tinham a capacidade para dirigir uma determinada área territorial que suas vitórias militares superdimensionadas anunciavam e, menos ainda, governar um Estado tão complexo como o colombiano.

Mas não era só isso: No caso (bem previsto) de que a guerrilha não aceitasse tornar-se uma "força para a erradicação da folha de coca", como estava planejado, ou que os diálogos de paz desenvolvidos sob a condição imposta por Pastrana de dialogar em meio à guerra, fracassaram, como de fato aconteceu; possuía-se a justificativa política perfeita para iniciar uma intensa campanha mediática dirigida não somente a satanizar moralmente a guerrilha, mas para criminalizá-la e para converter o sequestro no pior crime da humanidade, como aconteceu. Pior do que os crematórios, as poças de jacarés, ou as valas comuns utilizadas pelo seu aliado fascista para-Estatal, para desaparecer suas indefesas vítimas civis (falsos positivos) do terrorismo de Estado que hoje, após uma década de experiências em El Caguán, contemplamos apavorados.

Por que razão, uma vez quebrado o processo de paz de El Caguán e terminado o governo Pastrana, o Partido Conservador, liderado por ele, junta-se ao candidato regional emergente Álvaro Uribe Vélez, que após perder o primeiro turno das eleições contra o candidato liberal Horacio Serpa característico defensor de Samper, no segundo turno consegue, inexplicavelmente, se impor?

Será que não existe uma linha de continuidade muito forte (que não quer ser vista) entre Pastrana, Uribe Vélez, o Partido Conservador, que o manteve durante todo o tempo como parte de seu governo e a linha militarista, que se impôs hegemonicamente na Colômbia sobre o fracasso de El Caguán e com a conversa mole da “pronta” derrota da guerrilha, tem impedido o início de qualquer outro processo de diálogo com vista a encontrar uma solução política para o histórico conflito social e armado colombiano?

Como conclusão resumida a todas essas perguntas, chamou muito a atenção a opinião dada pessoalmente a Camilo González Posso pelo sucessor López Caballero, o filho predileto de López Michelsen, o maior profeta da oligarquia submissa e militarista colombiana, que participou, nomeado por Pastrana, como parte do Estado nas negociações de El Caguán e melhora o lema de seu pai e faz legível, uma década depois, a política do atual governo: "Falar sem negociar e parar no tempo, para enseguida derrotá-los e voltar a dialogar com os que sobrarem".(2)


Citações:
(1) http://www.semana.com/wf_InfoArticulo.aspx?idArt=108157
(2) González Posso, Camilo. El Caguán Irrepetible. § 7 º, em: http://www.indepaz.org.co

O fascismo, o ódio e a demagogia alimentam a campanha de Serra

Por Milton Alves *

A campanha de Serra confusa e errática no início do processo eleitoral definitivamente encontrou um eixo, aliás já no fim do 1° turno, alimentado no fascismo, no ódio e na demagogia. Com a possibilidade de uma derrota ainda no 1° turno, a campanha tucana adotou o vale- tudo e partiu para uma ação de difamação e calúnias contra a candidatura de Dilma Rousseff, ressuscitando os métodos de Carlos Lacerda nos seus ataques virulentos e caluniosos aos presidentes Getúlio Vargas e João Goulart - nos anos 50 e 60.

Trata-se de um estilo de campanha que visa desconstruir o adversário e estimular o ódio e o preconceito. Não é por acaso que Serra e a campanha tucana recorreram a grosseira manipulação de temas como aborto e união civil entre pessoas do mesmo sexo, envolvendo as referidas questões com o matiz religioso, tentando estigmatizar e apartar a campanha de Dilma dos diversos segmentos religiosos do país.

Ao mesmo tempo, os tucanos partiram para a mais desvalada demagogia. Serra e seu partido, que sempre defenderam políticas monetaristas e fiscalistas sobre as questões da previdencia social, do salário mínimo e dos programas sociais, agora apresentam propostas como o reajuste do salário mínimo para seiscentos reais, a ampliação do Bolsa Família e aumento para os aposentados, num esforço para atrair o voto das camadas mais pobres de trabalhadores. É preciso desmascarar as mentiras de Serra e comparar o período de FHC/Serra com o do governo de Lula, que de fato realizou uma verdadeira política de recuperação do salário mínimo e ampliou efetivamente a rede social de proteção dos aposentados e dos excluídos através do Bolsa Família.

No debate da Rede Bandeirantes, o primeiro do segundo turno, Dilma Rousseff, com vigor, repeliu a campanha de calúnias, denunciando o jogo sujo do PSDB e da velha mídia corporativa, contribuindo para politizar o debate eleitoral. Além disso, alertou o eleitorado sobre questões como o fortalecimento do setor estatal da economia versus a linha privatista dos tucanos, a destinação dos recursos do pré-sal e a defesa e ampliação dos programas sociais.

A campanha eleitoral entra na fase decisiva. Os partidos aliados de Dilma, a base de apoio do governo Lula, e as forças sociais interessadas no aprofundamento da democracia e das conquistas sociais, precisam forjar uma ampla mobilização da sociedade, impedindo a escalada fascista e da promoção do ódio entre brasileiros promovida pela campanha de Serra. Nas ruas, nas redes sociais e também na imprensa vamos derrotar a impostura e o fascismo. O Brasil precisa seguir avançando…

* É jornalista, presidente do PCdoB no Paraná e membro do Comitê Central do PcdoB.
Fonte: Portal vermelho

sábado, 16 de outubro de 2010

Dilma: garantir conquistas e consolidar avanços

Serra representa outro projeto de Brasil que vem do passado, se reveste de belas palavras e de propostas ilusórias mas que fundamentalmente é neoliberal e não-popular e que se propõe privatizar e debilitar o Estado para permitir a atuação livre do capital privado nacional, articulado com o mundial.

Leonardo Boff

O Brasil já deixou de “estar deitado eternamente em berço esplêndido”. Nos últimos anos, particularmente sob a administração do Presidente Lula, conheceu transformações inéditas em nossa história. Elas se derivaram de um projeto político que decide colocar a nação acima do mercado, que concede centralidade ao social-popular, conseguindo integrar milhões e milhões de pessoas, antes condenadas à exclusão e a morrer antes do tempo. Apesar dos constrangimentos que teve que assumir da macroeconomia neoliberal, não se submeteu aos ditames vindos do FMI, do Banco Mundial e de outras instâncias que comandam o curso da globalização econômica. Abriu um caminho próprio, tão sustentável que enfrentou com sucesso a profunda crise econômico-financeira que dizimou as economias centrais e que devido à escassez crescente de bens e serviços naturais e ao aquecimento global está pondo em xeque a própria reprodução do sistema do capital.

O governo Lula realizou a revolução brasileira no sentido de Caio Prado Jr. no seu clássico A Revolução Brasileira (1966):”Transformações capazes de reestruturarem a vida de um pais de maneira consentânea com suas necessidades mais gerais e profundas, e as aspirações da grande massa de sua população…algo que leve a vida do país por um novo rumo". As transformações ocorreram, as necessidades mais gerais de comer, morar, trabalhar, estudar e ter luz e saúde foram, em grande parte, realizadas. Rasgou-se um novo rumo ao nosso pais, rumo que confere dignidade sempre negada às grandes maiorias. Lula nunca traiu sua promessa de erradicar a fome e de colocar o acento no social. Sua ação foi tão impactante que foi considerado uma das grandes lideranças mundiais.

Esse inestimável legado não pode ser posto em risco. Apesar dos erros e desvios ocorridos durante seu governo, que importa reconhecer, corrigir e punir, as transformações devem ser consolidadas e completadas. Esse é o significado maior da vitória da candidata Dilma que é portadora das qualidades necessárias para esse “fazimento” continuado do novo Brasil.

Para isso é importante derrotar o candidato da oposição José Serra. Ele representa outro projeto de Brasil que vem do passado, se reveste de belas palavras e de propostas ilusórias mas que fundamentalmente é neoliberal e não-popular e que se propõe privatizar e debilitar o Estado para permitir atuação livre do capital privado nacional, articulado com o mundial.

Os ideólogos do PSDB que sustentam Serra consideram como irreversível o processo de globalização pela via do mercado, apesar de estar em crise. Dizem, nele devemos nos inserir, mesmo que seja de forma subalterna. Caso contrário, pensam eles, seremos condenados à irrelevância histórica. Isso aparece claramente quando Serra aborda a política externa. Explicitamente se alinha às potências centrais, imperialistas e militaristas que persistem no uso da violência para resolver os problemas mundiais, ridicularizando o intento do Presidente Lula de fundar uma nova diplomacia baseada no dialogo e na negociação sincera na base do ganha-ganha.

O destino do Brasil, dentro desta opção, está mais pendente das megaforças que controlam o mercado mundial do que das decisões políticas dos brasileiros. A autonomia do Brasil com um projeto próprio de nação, que pode ajudar a humanidade, atribulada por tantos riscos, a encontrar um novo rumo salvador, está totalmente ausente em seu discurso.

Esse projeto neoliberal, triunfante nos 8 anos sob Fernando Henrique Cardoso, realizou feitos importantes, especialmente, na estabilização econômica. Mas fez políticas pobres para os pobre e ricas para os ricos. As políticas sociais não passavam de migalhas. Os portadores do projeto neoliberal são setores ligados ao agronegócio de exportação, as elites econômico-financeiras, modernas no estilo de vida mas conservadores no pensamento, os representantes das multinacionais, sediadas em nosso pais e as forças políticas da modernização tecnológica sem transformações sociais.

Votar em Dilma é garantir as conquistas feitas em favor das grandes maiorias e consolidar um Estado, cuja Presidenta saberá cuidar do povo, pois é da essência do feminino cuidar e proteger a vida em todas as suas formas.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.


MST e outros movimentos populares lançam manifesto pró-Dilma

"Vamos eleger Dilma Rousseff presidenta do Brasil

No início do processo eleitoral deste ano, os movimentos sociais e a Via Campesina Brasil tomaram a decisão política de empenhar esforços para eleger o maior número possível de parlamentares e governadores identificados com as bandeiras populares da classe trabalhadora, com o aprofundamento da democracia e soberania brasileira e com políticas que combatam a concentração da propriedade e da renda em nosso país.

Quanto à eleição presidencial, as organizações populares que compõem a Via Campesina decidiram lutar para que não houvesse a vitória eleitoral de uma proposta neoliberal, representando pela candidatura do tucano José Serra.

Passando o primeiro turno dessa campanha eleitoral, realizado em 3 de outubro, queremos, com este comunicado ao povo brasileiro, manifestar nossa decisão política frente às eleições deste ano.

Avaliação do 1º turno

As renovações que aconteceram nas Assembleias estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado Federal, além da eleição e reeleição de governadores progressistas, são alvissareiras. No Senado Federal, especialmente, fomos vitoriosos com a eleição de companheiros e companheiras identificadas com as nossas lutas e com a não eleição de senadores que se notabilizaram pela perseguição aos movimentos sociais, identificados com os interesses do agronegócio.

Destacamos como vitória a derrota eleitoral do governo tucano de Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul, que se notabilizou, juntamente com o governo tucano de São Paulo, pelo controle da mídia, criminalização dos movimentos sociais e repressão à luta pela Reforma Agrária, aos movimentos de moradia e ao movimento dos professores da rede pública estadual.

Em relação às campanhas presidenciais, não transcorreram debates em torno de projetos políticos e dos problemas principais que afetam a população brasileira. A campanha de Dilma Rousseff (PT) buscou apenas, de forma pragmática, divulgar o desenvolvimento econômico e as políticas sociais do governo Lula, apoiando-se na popularidade e nos enorme índices de aprovação do atual governo. Com essa estratégia, obteve quase 47% dos votos, que foram insuficientes para vencer no primeiro turno.

A candidatura de José Serra (PSDB) nos surpreendeu, não por sua identificação com as políticas neoliberais, e sim pelo baixo nível da sua campanha presidencial. Foi agressivo e perseguiu jornalistas em entrevistas, tentou interferir em julgamentos do Supremo Tribunal Federal (STF), espalhou mentiras e acusações infundadas.

Chegou a usar a própria esposa, que percorreu as ruas de Niterói (RJ) dizendo que Dilma Rousseff “é a favor de matar as criancinhas”. Somente uma candidatura sem nenhum compromisso com a ética e com a verdade, contando com o total controle sobre a mídia, pode desenvolver uma campanha de tão baixo nível. A biografia do candidato já é a maior derrotada nestas eleições.

A candidatura de Marina Silva (PV) cumpriu o objetivo a que se propôs: provocar o segundo turno nesta campanha eleitoral. O tempo dirá se o seu êxito serviu para fortalecer a democracia ou simplesmente foi utilizada pelas forças conservadoras, para que retornassem ao governo.
Já as candidaturas identificadas com os partidos de esquerda, que utilizaram o espaço eleitoral para defender os interesses da classe trabalhadora, infelizmente tiveram uma votação inexpressiva.

O descenso social que temos há duas décadas em nosso país, a fragmentação das organizações da classe trabalhadora e a fragilidade da política de comunicação com a sociedade certamente influíram no resultado eleitoral. Cabe uma auto-crítica aos partidos políticos que se limitam apenas às campanhas eleitorais para dialogar com a sociedade. E que não falte daqui pra frente trabalho de base e a formação política permanente.

As eleições deste ano demonstraram o poder nefasto e antidemocrático da mídia. Mas, por outro lado, foi potencializada uma rede de comunicadores independentes, comprometidos com a liberdade de expressão e com o direito à informação, e que enfrentam aguerridamente o monopólio dos meios de comunicação em nosso país. São avanços rumo à democratização da informação e na construção de uma comunicação democrática e plural, com a participação da sociedade.

O 2º Turno

Nós reafirmamos nosso compromisso em defesa das bandeiras de lutas da classe trabalhadora e na construção de um país democrático, socialmente justo e soberano. Independentemente do governo eleito, seja ele qual for, iremos lutar de forma intransigente pela expansão das liberdades e dos direitos democráticos oprimidos.

Vamos lutar também por mudanças nas instituições e serviços públicos, em benefício da ampla maioria da população; combater aos monopólios para o desenvolvimento com soberania e distribuição de renda; defender as conquistas trabalhistas, a redução da jornada de trabalho, o direito de greve para os servidores públicos; a Previdência Social pública, de boa qualidade, pelo fim do fator previdenciário

Defendemos também a realização de uma reforma urbana, com moradia, saneamento básico, transporte público e segurança; a construção de serviços de saúde universal e de boa qualidade; reformas na educação pública e promoção da cultura nacional-popular com caráter universal; o fim do latifúndio, limite do capital estrangeiro sobre os nossos recursos naturais e a realização de uma Reforma Agrária anti-latifundiária; a implantação de novas relações da sociedade com o meio ambiente e efetivação uma política externa de autodeterminação, solidariedade aos povos e que priorize a integração dos povos do continente latino-americano e do Caribe.

Infelizmente, os avanços do governo Lula em direção a essas bandeiras democrático-populares foram insuficientes, em em que pese o acerto de sua política externa. Também nos preocupa constatar que, no arco de alianças da candidatura de Dilma Rousseff, há forças políticas que se contrapõem a essas demandas sociais.

Porém, temos uma certeza: José Serra, por sua campanha, pelo seu governo no Estado de São Paulo e pelos oito anos de governo FHC, tornou-se o inimigo dessas bandeiras de lutas. Pelo caráter anti-democrático e anti-popular dos partidos que compõem sua aliança eleitoral e por sua personalidade autoritária, estamos convictos que uma possível vitória sua significará um retrocesso para os movimentos sociais e populares em nosso país, para as conquistas democráticas em nosso continente e uma maior subordinação ao império dos Estados Unidos. Esse retrocesso não queremos que aconteça.

Nossa posição nessa conjuntura

Assim, os movimentos sociais e a Via Campesina Brasil afirmam o seu apoio e compromisso de lutar para eleger a candidata Dilma Rousseff para o cargo de presidenta do Brasil. Queremos nos juntar aos movimentos sindicais, populares, estudantis, religiosos e progressistas para promover debates com a sociedade, desmascarar a propaganda enganosa dos neoliberais e autoritários e exigir avanços na democracia, nas políticas públicas que favoreçam a população, no combate aos corruptos e corruptores e na democratização do poder em nosso país.

Precisamos derrotar a candidatura Serra, que representa as forças direitistas e fascistas do país. Devemos seguir organizando o povo para que lute por seus direitos e mudanças sociais, mantendo sempre nossa autonomia política frente aos governos.
Conclamamos a militância de todos os movimentos sociais, os lutadores e lutadoras do povo brasileiro, para se engajarem nessa luta, que é importantíssima para a classe trabalhadora.

Vamos à luta!! Vamos eleger Dilma Rousseff presidenta do Brasil.

Via Campesina Brasil
Movimento dos Atingidos por Barragens- MAB
Movimento das Mulheres Camponesas- MMC
Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra- MST
Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil- FEAB
Assembléia Popular- PE
Centro de Estudos Barão de Itararé
Fórum Brasileiro de Economia Solidária
Marcha Mundial das Mulheres- MMM
Movimento Camponês Popular- MCP
Rede Brasileira de Integração dos Povos- REBRIP
Rede de Educação Cidadã Sudeste- RECID
Sindicato dos Engenheiros do Paraná- Senge-PR
Uniao de Estudantes Afrodescendentes-UNEAFRO"



sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O PRESIDENTE PARALELO



ANNCOL

As denuncias e a pressão nacional e internacional foram tão grandes que os jesuítas da Universidade gringa de Georgetown tiveram que cancelar o contrato que Uribe Vélez tinha com essa instituição para que contasse, perante um público seleto de políticos escolhidos pela CIA, todos os crimes de lesa humanidade que teve que cometer para levar a sua classe social narcoparamilitar a se apoderar do Estado colombiano com uma "ajudinha" do governo gringo.

Mas como a crise de podridão na Colômbia continua sua marcha implacável com os escândalos, as denuncias e os ventiladores de merda diários como os do Tuso, os da polícia política do DAS, ou os de Uribe two ou uribituo. "O Cavalerio" teve que precipitar seu retorno para a Colômbia para tomar as redeas que o hipocrita Chuky Santos, na tentativa de levar adiante seu plano de Unidade Nacional, está entregando, por debaixo dos panos, a Vargas Llera, Juan Camilo Restrepo, Pardo Rueda e à cabeluda Holguín, que substituiu à cabeluda Bermúdez na diplomacia com os países vizinhos.

Qual é a primeira coisa que Uribe faz ao chegar a Bogotá?: Reúnir-se com seus três melhores e mais leais "peões" que deixou com o poder real dentro do governo de Chuky Santos: O general Naranjo, Riverita e Benedetti; para garantizar, respectivamente, o bunker da Polícia, a lealdade das Forças Armadas e o apoio do Congresso. E é por isso que Uribe, sabendo que a lei da Ormetá, ou do silencio mafioso, vai garantir sua impunidade absoluta na Colômbia, disse arrogantemente na imprensa internacional que assume a responsabilidade política, não jurídica, por seus secretários pessoais e até mesmo pelo seu primo irmão "Marito".

Uribe sabe que nada vai-lhe acontecer, porque o verdadeiro poder emana dele. E por isso dá pena vero o coitado Chuky Santos fazendo chamados desesperados para que "cada um tome o seu posto que foi atribuído pela Constituição”. No Julgamento de Nuremberg todos os líderes nazistas foram enforcados ou condenados a prisão perpétua, mas nenhum deles acusou seu Führer, nem à Constituição nazista: “Todos realizaram a hecatombe e o genocídio da Segunda Guerra Mundial, crumprindo ordens superiores".

Qual é a diferença com a Colômbia? É que "o Cavaleiro", ao contrário de Hitler, ainda está viva e gozando da protecção Gringa, enquanto que a Chuky tem que fazer convocatórias desesperadas para exterminar os comandantes das FARC, realizando operações espetaculares que se transformarão em bumeranges, para distrair a opinião pública e encobrir o fato de que seus amigos Gringos colocaram um "Presidente Paralelo" que sim lhes mostrou ser capaz de desestabilizar toda a Região Andina e trabalhar três vezes na defesa dos interesses imperias.

A psicologia de massa do fascismo à brasileira

Por Luis Nassif, em seu blog

Há tempos alerto para a campanha de ódio que o pacto mídia-FHC estava plantando no jogo político brasileiro. O momento é dos mais delicados. O país passa por profundos processos de transformação, com a entrada de milhões de pessoas no mercado de consumo e político. Pela primeira vez na história, abre-se espaço para um mercado de consumo de massa capaz de lançar o país na primeira divisão da economia mundial.

Esses movimentos foram essenciais na construção de outras nações, mas sempre vieram acompanhados de tensões, conflitos, entre os que emergem buscando espaço, e os já estabelecidos impondo resistências.

Em outros países, essas tensões descambaram para guerras, como a da Secessão norte-americana, ou para movimentos totalitários, como o fascismo nos anos 20 na Europa.

Nos últimos anos, parecia que Lula completaria a travessia para o novo modelo reduzindo substancialmente os atritos. O reconhecimento do exterior ajudou a aplainar o pesado preconceito da classe média acuada. A estratégia política de juntar todas as peças – de multinacionais a pequenas empresas, do agronegócio à agricultura familiar, do mercado aos movimentos sociais – permitiu uma síntese admirável do novo país. O terrorismo midiático, levantando fantasmas com o MST, Bolívia, Venezuela, Cuba e outras bobagens, não passava de jogo de cena, no qual nem a própria mídia acreditava.

À falta de um projeto de país, esgotado o modelo no qual se escudou, FHC – seguido por seu discípulo José Serra – passou a apostar tudo na radicalização. Ajudou a referendar a idéia da república sindicalista, a espalhar rumores sobre tendências totalitárias de Lula, mesmo sabendo que tais temores eram infundados.

Em ambientes mais sérios do que nas entrevistas políticas aos jornais, o sociólogo FHC não endossava as afirmações irresponsáveis do político FHC.

Mas as sementes do ódio frutificaram. E agora explodem em sua plenitude, misturando a exploração dos preconceitos da classe média com o da religiosidade das classes mais simples de um candidato que, por muitos anos, parecia ser a encarnação do Brasil moderno e hoje representa o oportunismo mais deslavado da moderna história política brasileira.

O fascismo à brasileira

Se alguém pretende desenvolver alguma tese nova sobre a psicologia de massa do fascismo, no Brasil, aproveite. Nessas eleições, o clima que envolve algumas camadas da sociedade é o laboratório mais completo – e com acompanhamento online - de como é possível inculcar ódio, superstição e intolerância em classes sociais das mais variadas no Brasil urbano – supostamente o lado moderno da sociedade.

Dia desses, um pai relatou um caso de bullying com a filha, quando se declarou a favor de Dilma.

Em São Paulo esse clima está generalizado. Nos contatos com familiares, nesses feriados, recebi relatos de um sentimento difuso de ódio no ar como há muito tempo não se via, provavelmente nem na campanha do impeachment de Collor, talvez apenas em 1964, período em que amigos dedavam amigos e os piores sentimentos vinham à tona, da pequena cidade do interior à grande metrópole.

Agora, esse ódio não está poupando nenhum setor. É figadal, ostensivo, irracional, não se curvando a argumentos ou ponderações.

Minhas filhas menores freqüentam uma escola liberal, que estimula a tolerância em todos os níveis. Os relatos que me trazem é que qualquer opinião que não seja contra Dilma provoca o isolamento da colega. Outro pai de aluna do Vera Cruz me diz que as coleguinhas afirmam no recreio que Dilma é assassina.

Na empresa em que trabalha outra filha, toda a média gerência é furiosamente anti-Dilma. No primeiro turno, ela anunciou seu voto em Marina e foi cercada por colegas indignados. O mesmo ocorre no ambiente de trabalho de outra filha.

No domingo fui visitar uma tia na Vila Maria. O mesmo sentimento dos antidilmistas, virulento, agressivo, intimidador. Um amigo banqueiro ficou surpreso ao entrar no seu banco, na segunda, é captar as reações dos funcionários ao debate da Band.

A construção do ódio

Na base do ódio um trabalho da mídia de massa de martelar diariamente a história das duas caras, a guerrilha, o terrorismo, a ameaça de que sem Lula ela entregaria o país ao demonizado José Dirceu. Depois, o episódio da Erenice abrindo as comportas do que foi plantado.

Os desdobramentos são imprevisíveis e transcendem o processo eleitoral. A irresponsabilidade da mídia de massa e de um candidato de uma ambição sem limites conseguiu introjetar na sociedade brasileira uma intolerância que, em outros tempos, se resolvia com golpes de Estado. Agora, não, mas será um veneno violento que afetará o jogo político posterior, seja quem for o vencedor.

Que país sairá dessas eleições?, até desanima imaginar.

Mas demonstra cabalmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira, explica as raízes do subdesenvolvimento, a resistência história a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa. É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.

Seria interessante que o maior especialista da era da Internet, o espanhol Manuel Castells, em uma próxima vinda ao Brasil, convidado por seu amigo Fernando Henrique Cardoso, possa escapar da programação do Instituto FHC para entender um pouco melhor a irresponsabilidade, o egocentrismo absurdo que levou um ex-presidente a abrir mão da biografia por um último espasmo de poder. Sem se importar com o preço que o país poderia pagar.





quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O império por dentro (Quarta parte)

Por Fidel Castro


"Capítulos 20 e 21

"Continuam as avaliações sobre as opções relacionadas com a guerra no Afeganistão. Se identificam três prioridades em termos de esforços de caráter civil: a agricultura, a educação e a redução dos cultivos da papoula. Se conseguíssem estes objetivos poderiam minar o apoio ao Talibã.

"A grande questão permaneceu sendo o que poderia ser feito em um ano.

"Petraeus disse que elaborou um manual intitulado "Lições sobre a reconciliação ", sobre suas experiências no Iraque, do qual não tinha conhecimento Mullen.

"De acordo com pesquisas de opinião pública, dois de cada três norte-americanos acreditavam que o presidente não tinha um plano claro para o Afeganistão. Mesmo entre a população, as opiniões estavam divididas acerca de como proceder.

"Axelrod respirou fundo. O público não fazia qualquer distinção entre o Talibã e a Al Qaeda. Isso poderia ser parte do problema.

"Apenas 45 por cento da população aprovava a forma como Obama manejava a questão da guerra (ele tinha perdido 10 pontos em um mês, 15 pontos desde o mês de agosto e 18 desde que atingiu seu nível mais alto). A redução da cifra foi devido à perda de apoio dos republicanos.

"Axelrod não se preocupava; dizia que, ao final, seria ele, ou todos, que explicaria qual era a decisão em termos claros, para que as pessoas pudessem entender o que estava sendo feito e por quê.

"Panetta disse que nenhum presidente democrata podia ir contra as recomendações dos militares, especialmente se o presidente as tinha solicitado. Sua recomendação era fazer o que eles diziam. Expressou a outros funcionários da Casa Branca que, em sua opinião, a decisão deveria ter sido tomada em uma semana, mas que Obama nunca perguntou e ele nunca tinha expressado voluntariamente sua opinião ao presidente.

"O ex-vice-presidente Dick Cheney disse publicamente que os Estados Unidos não deviam titubear quando as forças armadas estavam em perigo.

"Obama quis tomar uma decisão antes de sua viagem pela Ásia. Disse que ainda não lhe apresentaram duas opções, que eram as 40 000 tropas ou nada. Disse que queria uma nova opção nesta mesma semana.Tinha em sua mão um memorando de duas folhas enviado por seu diretor de Orçamento, Peter Orszag, com a estimativa dos custos da guerra no Afeganistão. De acordo com a estratégia recomendada por McChrystal, o custo para os próximos 10 anos seria de 889 bilhões de dólares, quase US $ 1 trilhão.

"Iste não é o que eu estou procurando", disse Obama. "Não vou prolongar isso por dez anos; não vou aprofundar-me na construção de uma nação a longo prazo. Eu não vou gastar um trilhão de dólares. Os tenho pressionado a respeito. "

"'Não não está em função do interesse nacional. Sim, é necessário internacionalizar esta situação. Essa é uma das maiores falhas do plano que me apresentaram. "

"Gates apoiava a solicitação de tropas de McChrystal, mas pelo tempo que fosse necessário para manter a quarta brigada.

"Obama disse: 'Talvez nós não precisemos de uma quarta brigada, ou dos 400 mil efetivos das forças de segurança afegãs, que McChrystal se propõe a treinar. Poderíamos aspirar a um crescimento mais comedido desta força. Poderíamos aumentar os efetivos para combater o levante inimigo, mas sem nos envolvermos em uma estratégia de longo prazo. "

"Hillary opinava que a McChrystal deveria ser dado o que ele pedia, mas concordava que se deveria esperar antes de enviar a quarta brigada.

"Obama perguntou a Gates:"Você realmente precisa de 40 mil efetivos para reverter a ascensão do Talibã? E se nós enviarmos de 15 mil a 20 mil? Por que não seria o suficiente com esta quantidade de tropas?" Reiterou que não concordava com os gastos de um trilhão de dólares, nem com uma estratégia de contra-insurgência que se prolongasse durante dez anos.

"Eu quero uma estratégia de saída", acrescentou o presidente.

"Todo mundo percebeu que, ao apoiar McChrystal, Hillary unia forças com os militares e com o secretário de Defesa, limitando assim a capacidade de manobra do presidente. Tinha reduzido suas possibilidades de visar um número significativamente menor de tropas ou uma política mais moderada.

"Foi um momento decisivo em suas relações com a Casa Branca. Era ela de confiança? Podia ela algum dia realmente pertencer à equipe de Obama? Teria sido ela em algum momento parte de sua equipe? Gates achava que ela falava a partir de suas próprias convicções.

"Muito rápido, aqueles que tinham idéias semelhantes se agruparam. Biden, Blinken, Donilon, Lute, Brennan e McDonough eram um grupo poderoso, próximo a Obama, em muitos aspectos, e eram o equilíbrio contra a frente unida formada por Gates, Mullen, Petraeus, McChrystal e agora Clinton.

"Capítulos 22 e 23

"Obama, convocou os chefes do Estado Maior à Casa Branca. Durante os últimos dois meses, os militares fardados estavam insistindo no envio de 40 mil efetivos, mas os chefes de serviços individuais ainda não tinham sido consultados. Os chefes da Marinha de Guerra, do Exército e Força Aérea eram os que recrutavam, treinavam, equipavam e forneciam as tropas aos comandantes como Petraeus e seus chefes subordinados no terreno, como McChrystal. Estes dois últimos não assistiram porque estavam no Afeganistão.

"Obama pediu que propusessem três opções.

"James Conway, comandante geral dos marines, se referiu à alergia dos combatentes a missões prolongadas que se estendem além da derrota do inimigo. Sua recomendação era que o presidente não devia se envolver em uma operação de longo prazo para construir uma nação.

"O general George Casey, chefe do Estado Maior do Exército, disse que a retirada programada do Iraque permitiria ao Exército dispor dos 40 mil soldados para o Afeganistão, mas que ele estava cético sobre os principais compromissos das tropas nestas guerras. Para ele, a chave estava em uma transição rápida, mas que o plano de 40 mil era um risco global aceitável para o exército.

"O chefe de operações navais e o chefe da Força Aérea tinha pouco a dizer, pois qualquer que fosse a decisão no Afeganistão, seu impacto sobre as suas forças seriam mínimos.

"Finalmente, Mullen apresentou ao Presidente três opções:

"1. 85 mil tropas. Esta era uma cifra impossível. Todo mundo sabia que não se dispunha desta força.

"2. 40 mil tropas.

"3. 30 mil a 35 mil tropas.

"A opção híbrida era de 20 mil soldados e duas brigadas para dispersar os talibãs e treinar as tropas afegãs.

"Capítulos 24 e 25

"Obama propõe ao presidente paquistanês, uma escalada contra os grupos terroristas que operam a partir desse país.

"O diretor da CIA disse esperar apoio do Paquistão, porque a Al Qaeda e seus seguidores eam inimigos comuns. Ele acrescentou que se tratava da própria sobrevivência do Paquistão.

"Obama se dava conta de que a chave para manter unida a equipe de segurança nacional era Gates.

"Após seu regresso da Ásia, Obama convocou uma reunião de sua equipe de segurança nacional e prometeu que, em dois dias, tomaria a decisão final. Ele disse estar de acordo com os objetivos menos ambiciosos e mais realistas, e que os objetivos deviam ser alcançados dentro de um período de tempo mais curto do que o Pentágono tinha recomendado inicialmente. Agregou que o número de soldados começaria a declinar a partir de julho de 2011, o período de tempo que Gates havia sugerido na última sessão.

"'Nós não precisamos de perfeição; quatrocentos mil não vai ser a cifra à qual chegaremos antes de começarmos a reduzir as tropas'.

"Hillary parecia quase saltar sobre seu acento, dando mostras de que queria que a deixassem falar, mas Jones já havia decidido que a ordem das palavras e a secretária teve que ouvir os comentários de Biden em primeiro lugar.

"Biden tinha preparado uma nota apoiando o presidente, que questionava o tempo e os objetivos da estratégia. Petraeus sentia como se o ar abandonasse a sala.

"Biden não tinha certeza de que a cifra de 40 mil era politicamente sustentável e tinha muitas dúvidas sobre a viabilidade dos elementos da estratégia de contra-insurgência.

"Clinton teve a oportunidade de falar. Ela apoiava plenamente a estratégia. "Passamos um ano à espera de uma eleição e um novo governo ali. A comunidade internacional e Karzai sabem qual seria o desenlace se não incrementamos os nossos compromissos. O que estamos fazendo agora não vai produzir resultados. O plano não é tudo o que gostaríamos, mas nós não o saberemos se não nos comprometermos. Eu apoio o esforço; tem um custo enorme, mas se o acometemos sem desejos não vamos conseguir nada. " Suas palavras eram uma versão de uma frase muito comum usada por ela quando era primeira-dama da Casa Branca e que ainda usa regularmente: finja-o até conseguí-lo. "

"Gates sugeriu esperar até dezembro de 2010 para fazer uma avaliação completa da situação. Acreditava que julho era uma data muito antecipada para isso.

"Mullen, através de uma videoconferência de Genebra, apoiava o plano e disse que era necessário enviar tropas o mais rapidamente possível, que ele tinha certeza de que a estratégia de contra-insurgêncuia ia obter resultados.

"Ao ver que se alinhava um bloco a favor do envio de 40 mil efetivos, o presidente interrompeu:'Não quero ver-me dentro de seis meses nesta sala a discutir o envio de mais 40 mil'.

"'Nós não vamos pedir um acréscimo de 40 mil", disse Mullen.

"Petraeus disse que apoiava qualquer decisão que tomasse o presidente. E depois de ter declarado seu apoio incondicional, disse que sua recomendação, do ponto de vista militar, era que os objetivos não poderiam ser alcançados com menos de 40 mil efetivos.

"Peter Orszag disse que provavelmente teria de pedir ao Congresso recursos adicionais.

"Holbrooke concordaram com as afirmações feitas por Hillary.

"Brennan assegurou que o programa antiterrorista continuará, independentemente da decisão a ser tomada.

"Emanuel se referiu à dificuldade de pedir ao Congresso recursos adicionais.

"Cartwright disse que apoiava a opção híbrida de 20 mil efetivos.

"O presidente tentou resumir. "Após dois anos, há ainda elementos ambíguos nessa situação", disse ele. Ele agradeceu a todos e anunciou que estaria trabalhando nisto durante o fim de semana para tomar uma decisão final na próxima semana.

"Na quarta-feira, 25 de novembro, Obama se reuniu na Sala Oval com Jones, Donilon, McDonough e Rhodes. Ele disse que estava inclinado a aprovar o envio de 30 mil efetivos, mas que essa decisão não era definitiva.

"Este deve ser um plano para transferir-lhes o comando e sair do Afeganistão. Tudo o que façamos deve estar focado na maneira como vamos reduzir nossa presença ali. É parte de nosso interesse de segurança nacional. Deve ficar claro que isto é o que estamos fazendo ", disse Obama. "O povo americano não entende de número de brigadas, mas de número de tropas. E eu decido que sejam 30 mil. "

"Obama agora parecia mais seguro sobre o número de tropas.

"'É preciso deixar claro para as pessoas que o câncer está no Paquistão. A razão pela qual estamos operando no Afeganistão é para que o câncer não se espalhe até lá. E também precisamos remover o câncer do Paquistão. "

"Parecia que o valor de 30 mil era irremovível. Obama disse que, do ponto de vista político, era mais fácil dizer não para os 30 mil, pois assim poderia concentrar-se na agenda nacional, que ele queria que fosse o centro do seu mandato como Presidente. Mas os militares não entendiam isso.

"Politicamente, seria mais fácil para mim dar um discurso e dizer que o povo americano estava farto desta guerra, e que iria enviar apenas 10 mil assessores, porque essa era a maneira com a qual íamos sair de lá. Mas os militares iam se incomodar. "

"Ficou claro que uma grande parte de Obama queria precisamente pronunciar esse discurso. Parecia que ele o estava ensaiando.

"Donilon disse que Gates renunciaria se só se enviassem 10 mil assessores.

"Isso seria uma coisa difícil", disse Obama, 'porque não existe na minha equipe de segurança nacional outro membro mais forte que ele. "

"O presidente estava determinado a anunciar os 30 mil, a fim de manter a família unida.

"Capítulos 26 e 27

"Em 27 de novembro, Obama chamou Colin Powell ao seu escritório para uma conversa particular. O presidente disse que estava se debatendo entre vários pontos de vista diferentes. Os militares haviam se unido para apoiar McChrystal e sua solicitação de 40 mil soldados, e os seus conselheiros políticos estavam muito céticos. Ele continuava pedindo novas abordagens, mas seguiam dando-lhes as mesmas opções.

"Powell disse: 'Você não tem que suportar isso. Você é o Comandante em Chefe. Esses caras trabalham para você. O fato de adotarem uma posição unânime em suas recomendações não significa que elas estão corretas. Generais existem vários, mas só há um Comandante em Chefe ".

Obama considerava Powell um amigo.

"O dia após a Ação de Graças, Jones, Donilon, Emmanuel, McDonough, Lute e o coronel John Tien, um veterano do Iraque, foram ver o presidente em seu gabinete. Obama perguntou por que eles se reuniam novamente com ele para tratar do mesmo assunto. "Eu pensei que isso tinha acabado na quarta-feira", disse ele.

"Lute e Donilon explicaram que ainda havia dúvidas do Pentágono que não tinha sido respondidas, e eles queriam saber se um aumento de 10 por cento no número de de efetivos seria aceito, com o qual se incluiria os facilitadores.

"O presidente, exasperado, disse que não, que apenas 30 mil, e perguntou por que aquela reunião depois que todos haviam concordado. Ao presidente foi informado que ainda estavam trabalhando com os militares. Eles queriam agora que os 30 mil efetivos estivessem no Afeganistão no verão.

"Parecia que o Pentágono estava abrindo de novo cada um dos temas. Também estavam questionando a data de retirada das tropas (julho 2011). Gates preferia que fosse seis meses depois (no final de 2011).

"Eu estou preocupado", disse Obama, sem levantar a voz. Parecia que todas as questões seriam novamente discutidas, negociadas ou esclarecidas. Obama disse que ele estava disposto a voltar atrás e aceitar o envio de 10 mil assessores. E essa seria a cifra definitiva.

"Esta era uma controvérsia que opunha o presidente e o sistema militar. Donilon se assombrava ao ver o poder político que os militares estavam exercendo, mas percebeu que a Casa Branca tinha que ser o corredor de longa distância nesta competição.

"Obama continuava a trabalhar com Donilon, Lute e outros. Começou a ditar exatamente o que queria, elaborando o que Donilon chamou de "folha de prazos e condições", semelhante ao documento legal utilizado em uma transação comercial. Acordou que o conceito estratégico da operação seria "degradar" o talibã, e não desmantelar, destruir ou derrota. Copiou ao decalque as seis missões militares requeridas para reverter a ascensão do Talebã.

"Mas os civis no Pentágono e o Estado Maior tratavam de expandir a estratégia.

"Vocês não podem fazer isso ao presidente", dizia eu Donilon. "Isso não é o que Obama queria. Ele queria uma missão mais limitada". Mas a pressão continuou.

"'Coloque restrições', Obama ordenava. Mas, quando Donilon voltava do Pentágono, vinha com mais adições, e não menos. Um deles era enviar uma mensagem a Al Qaeda. 'Isso não vamos fazer', disse o presidente quando descobriu.

"Donilon se sentia como se estivesse reescrevendo as mesmas ordens dez vezes.

"Do Pentágono continuavam a chegar pedidos de missões secundárias. Obama seguia dizendo não.

"Alguns continuavam agora apoiando o pedido inicial de McChrystal de 40 mil efetivos. Era como se ninguém houvesse dito que não.

"'Não', disse Obama. O número final foi de 30 mil, e mantinha a data de retirada das tropas em julho de 2011, que também seria a data de começar a transferência da responsabilidade da segurança para as tropas afegãs.

"Suas ordens foram passadas para a máquina em seis folhas a um espaço. Sua decisão não era apenas fazer um discurso e referir-se aos 30 mil; esta também seria uma diretiva, e todos deveriam ler e assinar. Esse era o preço que ele teria de exigir, o jeito com que ele pretendia acabar com a controvérsia, pelo menos pelo momento. Mas, como agora todos sabemos, a controvérsia, como a guerra, provavelmente não teria fim, e a luta iria continuar.

"Em 28 de novembro foi mais um dia dedicado ao Conselho de Segurança Nacional, encontro em que participaram Donilon e Lute. A análise da estratégia se tornou o centro do universo. O presidente e todos eles estavam sendo esmagados pelos militares. Já não importavam as peguntas que o presidente ou qualquer outra pessoa fizessem. Agora a única solução viável eram os 40 mil efetivos.

"Donilon se perguntava quantos dos que estavam pressionando a favor dessa opção iam estar aqui para ver os efeitos da estratégia em julho de 2011.

"A conclusão era de que todos eles iriam, e aqui ficaria o presidente com tudo o que esses caras lhe haviam vendido.

"O debate continuava - em casa e na sua cabeça. Obama parecia hesitar quanto aos 30 mil efetivos. Pediu a opinião da sua equipe. Clinton, Gates e Jones não estavam presentes.

"O coronel Tian disse ao presidente que não sabia como ele ia desafiar a cadeia de comando dos militares. "Se você disser a McChrystal, 'estudei sua avaliação, mas decidi fazer outra coisa', provavelmente você terá que substituí-lo. Você não pode dizer 'faça do meu jeito, obrigado por seu trabalho'. O coronel quis dizer que McChrystal, Petraeus, Mullen, e até mesmo Gates, estaria dispostos a se demitir -algo sem precedentes no alto comando militar.

"Obama sabia que Brennan se opunha a um grande aumento de tropas.

"Obama herdou uma guerra com um começo, um meio, mas sem um final claro.

"Lute pensava que Gates era demasiado deferente com os militares fardados. O secretário de Defesa é a primeira linha do controle civil do Presidente. Se o secretário não garantia esse controle, o presidente teria que fazê-lo. Lute pensava que Gates não estava prestando um bom serviço ao presidente.

"O presidente chamou Biden por telefone e lhe informou que queria reunir-se toda a equipe de segurança nacional no domingo, no Salão Oval. Biden pediu para se encontrar com ele em primeiro lugar, e Obama disse que não. "

Fidel Castro Ruz

13 de outubro de 2010

O império por dentro (Terceira parte)

Por Fidel Castro


"Capítulo 15


"O almirante Mullen compareceu diante do Comitê de Serviços Armados do Senado para sua audiência de confirmação com vistas a um segundo mandato de dois anos, dois dias depois da primeira sessão dedicada à estratégia. Em seu depoimento o almirante se refere à estratégia sugerida por McChrystal e acrescenta que isso ‘provavelmente signifique mais tropas’.

"Quando Obama soube do testemunho de Mullen, deu a conhecer a sua equipe o quanto se sentia descontente ao saber que Mullen estava apoiando publicamente a estratégia de McChrystal. O almirante declarou que ‘o talibã tinha crescido tanto em tamanho como em complexidade’ e que por isso apoiava os esforços voltados para uma contra-insurgência com os recursos adequados. Acaso o almirante ignorava o que Obama tinha dito apenas dois dias antes? O presidente não tinha dito a todos os presentes, inclusive Mullen, que nenhuma das opções parecia adequada, que era necessário que eles desafiassem suas próprias presunções e que iam ter quatro ou cinco sessões de debate sobre este assunto? O que estava fazendo o principal assessor militar do presidente ao informar publicamente estas conclusões preliminares?

"Na reunião dos principais do Conselho de Segurança Nacional se evidenciava que estavam furiosos. Os generais e almirantes constantemente estavam antepondo obstáculos ao presidente.

"Emmanuel comentou que o que estava em movimento entre o almirante e Petraeus não era correto, que todo mundo havia apoiado publicamente a noção de que era necessário enviar mais tropas. O presidente nem sequer tinha tido uma oportunidade.

"Morrell opinava que Mullen podia ter evitado a controvérsia em sua audiência, simplesmente dizendo que sua função era a de assessor militar principal do presidente dos Estados Unidos e do secretário da Defesa, e que devia dar suas recomendações primeiramente a eles em particular antes de anunciá-las publicamente e que não considerava adequado compartilhá-las antecipadamente com o Comitê.

"Morrell pensava que tudo fazia parte da compulsão que Mullen sentia por comunicar, fortalecer a proeminência e a estatura de sua posição. Tinha uma página no Facebook, uma conta no Twitter, vídeos no YouTube e um sítio web chamado ‘As viagens com Mullen: una conversação com o país’.

"O próprio Mullen ao sair ao hall descobriu que ele mesmo era o tema de uma acalorada controvérsia.

"Emmanuel e Donilon lhe perguntaram: Como se supõe que nós devemos enfrentar este assunto? Tu disseste isto, e nós, que devemos dizer?

"Emmanuel acrescentou que esta notícia ia produzir as manchetes de todos os noticiários noturnos.

"Mullen ficou surpreso. A Casa Branca sabia de antemão o que ele ia dizer, mas em seu depoimento no tinha falado em quantidades específicas de tropas. Foi tão amorfo quanto pôde. Mas em sua audiência de confirmação ele tinha que dizer a verdade e a verdade era que ele compartilhava a noção da necessidade de uma contra-insurgência. ‘Isso é o que eu penso’, disse’. Qual era sua alternativa?

"Donilon se perguntava por que Mullen tivera que usar a palabra ‘provavelmente’ e por que não tinha dito ‘não sei’. Isso teria sido melhor.

"A manchete da primeira página do Washington Post da manhã seguinte dizia: ‘Mullen: Provavelmente serão necessárias mais tropas’

"Obama convocou o general aposentado Collin Powell a uma reunião privada as Sala Oval em 16 de setembro. Sendo republicano, Powell tinha dado forte apoio a Obama durante sua campanha.

"Referindo-se ao Afeganistão, Powell comentou que não se tratava de uma decisão que se tomava uma só vez, que era uma decisão que teria consequências para uma grande parte de seu governo. Recomendou: ‘Sr. presidente, não se deixe pressionar pela esquerda que quer que você não faça nada. No se deixe pressionar pela direita que quer que você faça tudo. Decida você mesmo em seu tempo’.

"E também lhe recomendou que não se deixasse pressionar pelos meios de imprensa, que ganhasse tempo, que recopilasse toda a informação de que necessitasse para garantir que depois ia sentir-se à vontade com a decisão tomada.

"Se você decidir enviar mais tropas, ou se isso é o que você pensa ser necessário fazer, assegure-se de compreender bem o que é que essas tropas vão fazer e trate de ter alguma certeza de que o envio de tropas adicionais vai redundar em êxito. Você não pode garantir o êxito em um teatro de operações tão complexo como o do Afeganistão, que se complica cada vez mais com o problema do Paquistão ao lado.

" ‘Você tem que garantir que a base deste seu compromisso vai ser sólida, porque nestes momentos é um pouco suave’, disse Powell, referindo-se a Karzai e à corrupção generalizada que existe em seu governo.

"O presidente não apoiava plenamente uma operação de contra-insurgência, porque isso significava assumir a responsabilidade do Afeganistão por um longo período de tempo.

"O presidente disse que quando fosse recebida a avaliação feita por McChrystal, era evidente que todo mundo tinha que se reunir numa sala a fim de garantir que todos estivessem cantando pela mesma partitura.

"Capítulo 16

"Em 29 de setembro Jones convocou os principais do Conselho de Segurança Nacional para um debate de duas horas, como preparação para a reunião do dia seguinte, sem a presença do presidente.

"Qualquer pessoa que tivesse visto um vídeo da reunião provavelmente se alarmaria. Oito anos depois de ter começado a guerra, ainda se batalhava por definir quais eram os objetivos principais.

"Biden tinha escrito um memorando de seis páginas exclusivamente para o presidente, questionando os informes de inteligência sobre os talibãs. Os informes apresentavam o Talibã como a nova Al Qaeda. Como os talibãs eram os que lutavam contra os estadunidenses, tinha se tornado usual que os árabes, os uzbeques, os tadjiques e os chechenos cruzassem a fronteira do Afeganistão para o que eles chamavam ‘o verão da jihad’.

"Biden indicou que estas cifras eram exageradas, que o número de combatentes estrangeiros não ultrapassava os 50 ou 75 de cada vez.

"Na quarta-feira, 30 de setembro o presidente realizou a segunda reunião para analisar o problema do Afeganistão e do Paquistão. Desta vez o grupo de assistentes era maior. Petraeus estava presente.

"O presidente perguntou:’Há alguém aqui que pense que devemos sair do Afeganistão?’. Todos ficaram em silêncio. Ninguém disse nada.

" ‘Bem’, disse o presidente, ‘agora que podemos prescindir disso, continuemos’.

"Obama também queria afastar-se do tema do Afeganistão durante o restante da reunião.

" ‘Comecemos pelo que nos interessa, que é realmente o Paquistão, não o Afeganistão’, disse. ‘De fato, podem dizer aos líderes paquistaneses que não vamos sair do Afeganistão’.

"Obama estabeleceu as regras para o resto da reunião. ‘Realmente quero centrar-me nos Estados Unidos. Considero que existem três objetivos chaves. Um deles é proteger os Estados Unidos, seus aliados e seus interesses no exterior. O segundo é a preocupação acerca da estabilidade e as armas nucleares em mãos do Paquistão. E se estou centrando minha atenção nos Estados Unidos, existe acaso alguma diferença entre os perigos que emanam da Al Qaeda ou do Talibã?’

"Lavoy e Petraeus fizeram suas intervenções. MacChrystal fez uma apresentação sobre o que ele chamava ‘o caminho’ para sua avaliação inicial.

"Obama expressou: ‘Bem, vocês fizeram seu trabalho, mas há três novos acontecimentos: os paquistaneses estão se comportando melhor; a situação no Afeganistão é muito mais séria do que antecipávamos; e as eleições afegãs não tiveram como resultado o ponto de viragem que esperávamos - um governo mais legítimo’.

"Biden favorecia o pressuposto, impugnado pelo presidente, de que o Paquistão evoluiria da mesma forma que evoluiria Afeganistão.

"Robert Gates propunha ter em conta os interesses no exterior e os aliados.

"No final da reunião Hillary perguntou de que forma seriam utilizadas as tropas adicionais, para onde iriam, se iam na qualidade de assessores e como seriam aplicadas as lições aprendidas no Iraque.

"As análises de inteligência ao mais alto nível nunca foram conclusivas acerca de uma ação no Afeganistão nestes momentos. Um Afeganistão completamente desestabilizado cedo ou tarde desestabilizaria o Paquistão. De modo que a interrogação diante do presidente e sua equipe era a seguinte: Podiam os Estados Unidos assumir esse risco?

"Gates se reuniu com o embaixador paquistanês, Haqqani, nos Estados Unidos. Tinha que fazer-lhe chegar uma mensagem explícita do presidente: não sairíamos do Afeganistão. Haqqani se referiu a uma longa lista de coisas que o exército paquistanês necessitava. O Congresso tinha aprovado um fundo de 400 milhões de dólares em maio para melhorar o arsenal da contra-insurgência. Haqqani abordou o problema do valor de 1 bilhão e 600 milhões que os Estados Unidos deviam ao exército do Paquistão por permitir levar a cabo operações militares ao longo da fronteira. Depois do 11 de setembro, os Estados Unidos tinham criado uma conta de gastos a favor do Paquistão e de outros países, chamada Fundo de Apoio à
Coalizão, com a qual se reembolsava os aliados pela ajuda prestada.

"Capítulo 17

"Obama se reúne com um grupo bipartidário de aproximadamente 30 líderes do Congresso com o fim de dar-lhes uma informação atualizada sobre a revisão da estratégia.

"Vários legisladores criticavam o enfoque de Biden que defendia uma ofensiva antiterrorista. Interpretavam isso como uma forma de reduzir a presença dos Estados Unidos.

"Biden esclareceu que não estava defendendo uma política que implicasse uma operação realizada apenas com o uso de Tropas Especiais.

"O presidente teve que esclarecer que ninguém estava falando de abandonar o Afeganistão.

"McCain disse que só esperava que a decisão não fosse tomada ligeiramente e que respeitasse o fato de que a decisão devia ser tomada por Obama como comandante em chefe.

"Obama lhe respondeu: ‘garanto que não estou tomando nenhuma decisão de maneira ligeira. E você tem toda razão. Quem tem de tomar a decisão sou eu que sou o comandante em chefe’.

"Obama continuou dizendo: ‘ninguém sente tanta urgência em tomar esta decisão – e fazê-lo de maneira correta – como eu’.

"Nesse mesmo dia às 3 h 30 da tarde Obama voltou a reunir sua equipe para analisar a situação do Paquistão.

"O consenso dentro da comunidade de inteligência era que a situação no Afeganistão não ia se resolver se não houvesse relações estáveis entre a Índia e o Paquistão.

"Mullen apontava que os programas de colaboração entre os exércitos dos Estados Unidos e do Paquistão tinham ascendido a quase 2 bilhões ao ano, em equipamentos, treinamentos e outras aplicações.

"Houve sugestões de abrir novas instalações no Paquistão com a finalidade de infiltrar fontes de informação nas tribos e incluir assessores militares estadunidenses nas unidades paquistanesas.

"Obama aprovou todas as ações no terreno. Era inusual receber uma ordem imediata do presidente, pois até o momento nas reuniões de trabalho se falava muito e não se tomavam decisões.

"Capítulo 18

"Por fim, McChrystal tinha a oportunidade de apresentar sua opção para o incremento de tropas somente diante dos principais (Obama não estava presente) em 8 de outubro.

"A essência de sua exposição, com 14 slides, era que as condições no Afeganistão eram muito piores que se pensava, e que só uma ofensiva contra-insurgente que contasse com plenos recursos podia remediar a situação.

"Jones disse que havia perguntas ainda sem resposta e anotou em sua caderneta que era impossível pôr em prática qualquer estratégia para o Afeganistão que não abordasse o problema dos santuários no Paquistão.

"McChrystal apresentava três opções:

"1. de 10 mil a 11 mil efetivos para treinar as forças de segurança afegãs.

"2. 40 mil efetivos para proteger a população.

"3. 85 mil efetivos para o mesmo propósito.

"McChrystal esclareceu que o objetivo neste caso não era derrotar o talibã mas degradá-lo, ou seja, impedir que voltasse a controlar partes chaves do país.

"Hillary perguntou se era possível levar a cabo a missão de degradação com um menor número de tropas, e o general lhe respondeu que não, que ele defendia os 40 mil efetivos.

"No dia seguinte Obama despertou com a notícia de que lhe tinham outorgado o Prêmio Nobel da Paz.

"Nessa mesma tarde às 2 h 30 o Conselho de Segurança Nacional pleno teria uma reunião de trabalho com o presidente. Este começou a reunião pedindo a todos que lhe dissessem o que deveria ser feito com a guerra.

"Lavoy começou falando sobre o Paquistão e sua obsessão com a Índia, e que os paquistaneses tinham reservas acerca do compromisso dos estadunidenses.

"McChrystal disse que a menos que a missão mudasse, ele apresentava as mesmas opções.

"Eikenberry resumiu em 10 minutos suas opiniões, que eram bastante pessimistas. Coincidia com o fato de que a situação estava se deteriorando e que era necessário enviar mais recursos, mas pensava que a ofensiva contra-insurgente era muito ambiciosa.

"Gates recordou que todos tinham se abraçado a apenas três opções:

"1. Contra-insurgência, ou seja, construção da nação.

"2. Anti-terrorismo, que muitas pessoas pensam que se trata de mísseis lançados
a partir de um navio no oceano.

"3. Anti-terrorismo plus, a estratégia proposta pelo vice-presidente.

"Mas evidentemente havia mais opções e não só estas três. Gates agregou que era necessário redefinir o objetivo e que provavelmente os Estados Unidos estavam tratando de conseguir mais do que se podia alcançar.

"Petraeus concluiu: ‘Nós não vamos destruir o Talibã, mas necessitamos negar-lhe o acesso a zonas povoadas e linhas de comunicação chaves para contê-los’.

"Biden perguntou: ‘Qual seria a melhor estimativa de tempo para que as coisas marchem na direção correta? Se dentro de um ano não houver um progresso palpável, o que faremos?’

"Não houve resposta.

"Biden insistiu: ‘Se o governo melhorar e vocês receberem as tropas, Qual seria o impacto?’

"Eikenberry respondeu que embora os últimos cinco anos não tinham sido muito esperançosos, tinha havido pequenos progressos, e que se podia capitalizá-los, mas que não se deviam esperar avanços significativos nos próximos seis a doze meses.

"Capítulo 19

"Foi a vez de Hillary, na reunião de 09 de outubro. Hillary disse que o dilema era decidir o que era o fundamental, se mais tropas ou um melhor governo; que, para evitar o colapso, eram necessárias mais tropas, mas que isto não garantiria o progresso.

"Perguntou se era possível alcançar os objetivos no Afeganistão e Paquistão, sem o comprometimento de mais tropas. Ela mesma respondeu que a única maneira de conseguir que o governo mudasse era enviando mais tropas, mas que, ainda assim, não havia nenhuma garantia de que isso iria funcionar.

Acrescentou que todas as opções eram difíceis e insatisfatórias, e agregou: "Nós temos sim um interesse de segurança nacional em garantir que o Talibã não nos derrote. O mesmo ocorre com a destruição da Al Qaeda, o que seria difícil sem o Afeganistão. É uma escolha extremamente difícil, mas as opções são limitadas, a menos que nos comprometamos e obtenhamos uma vantagem psicológica ".

"Mullen fez eco de outros comentários linha-dura. Dennis Blair sugeriu que a política interna podia ser um problema pelo número de baixas, pois no mês anterior a cifra havia subido para 40, duas vezes a do ano anterior. Ele se perguntava se valeria a pena. A resposta era que o povo iria apoiá-lo o tanto quanto acreditasse que havia conquistas.

"Pela primeira vez, o presidente teria uma estratégia elaborada pelo gabinete de guerra na íntegra, e nós poderemos dizer ao povo dos Estados Unidos o que estamos fazendo ", disse ele.

"Panetta opinava o seguinte:"Você não pode ir. Não pode derrotar o Talibã. Eles não estavam falando sobre a possibilidade de estabelecer uma democracia no estilo de Jefferson no Afeganistão ", dizia Panetta, que achava que esta era a base para reduzir a missão dos EUA e aceitar Karzai, apesar de seus defeitos. Segundo Panetta, a missão era lutar contra a Al Qaeda e garantir que não existissem santuários. Era necessário trabalhar com Karzai.

"Susan Rice disse não ter tomado uma decisão ainda, mas que pensava ser necessário reforçar a segurança no Afeganistão para derrotar Al-Qaeda.

"Holbrooke disse que precisava de mais tropas, a questão era saber quantas e como utilizá-las.

"John Brennan perguntava o que se estava tentando conseguir, uma vez que as decisões em matéria de segurança que se adotaram aqui seriam aplicadas em outras regiões. Se era um governo não corrupto, que presta serviços a toda a população, isso não ia ser conquistado, enquanto ele estivesse vivo. "É por isso", disse ele, "que as palavras êxito, vitória e ganhar complicam a nossa tarefa."

"Havia transcorrido já duas horas e meia. O presidente disse que essas reuniões haviam tido como resultado uma definição útil do problema, que estava emergindo uma nova definição.

"Isto não vamos resolver hoje", disse Obama. "Já reconhecemos que nós não podemos derrotar completamente o Talibã."

"Obama disse que, se aprovasse o envio de 40 000 soldados, isso não bastaria para uma estratégia de contra-insurgência que cobrisse todo o país.

"Obama perguntava se era possível levar os afegãos, ao ponto de que eles permitam aos Estados Unidos retirar-se em um período de dois, três, quatro anos.

"Não podemos manter um compromisso por tempo indefinido nos Estados Unidos", disse Obama. "Não podemos manter apoio interno e de nossos aliados, sem dar qualquer explicação, incluindo os limites de tempo."

"Holbrooke retornou a seu escritório no Departamento de Estado, onde os funcionários se queixaram de serem mantidos acordados toda a noite escrevendo análises que ninguém lia.

"Holbrooke respondeu que a pessoa a quem estavam dirigidos, sim, os lia. Que as noites sem sono que não tinha sido em vão e que eles deviam preparar um novo pacote de relatórios para o presidente." Assim, termina o resumo dos capítulos 15 a 19, dos 33 que contém "As Guerras de Obama. "

Ontem foi anunciada a publicação, quase simultaneamente, de um outro livro, "Conversando comigo mesmo", com prefácio de Barack Obama. Mas, desta vez, a edição será lançada em 20 idiomas. Segundo se afirma, contém cartas e documentos importantes da vida de seu autor: o nosso conhecido e querido amigo Nelson Mandela.

Nos anos finais de sua prisão cruel, os Estados Unidos converteu o sinistro regime do apartheid em potência nuclear, fornecendo-lhe mais de meia dúzia de bombas nucleares, destinadas a golpear as forças internacionalistas cubanas, para impedir o seu progresso no território ocupado pela África do Sul na Namíbia . A derrota do exército do apartheid no sul de Angola acabou com o famoso sistema.

Nossos representantes na Espanha prometeram adquirir e enviar de imediato cópias do livro, cujo lançamento foi anunciado para hoje (ontem), 12 de outubro. Mas quase às seis da tarde nada se sabia ainda, porque era feriado na Espanha e as livrarias não vendiam. Era o 518º aniversário do dia em que nos descobriram e a Espanha se converteu em império.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Manifesto de Cristãos e cristãs evangélicos/as e católicos/as em favor da vida e da vida em Abundância!

“Se nos calarmos, até as pedras gritarão!”(Lc 19, 40)

Somos homens e mulheres, ministros, ministras, agentes de pastoral, teólogos/as, padres, pastores e pastoras, intelectuais e militantes sociais, membros de diferentes Igrejas cristãs, movidos/as pela fidelidade à verdade, vimos a público declarar:

1. Nestes dias, circulam pela internet, pela imprensa e dentro de algumas de nossas igrejas, manifestações de líderes cristãos que, em nome da fé, pedem ao povo que não vote em Dilma Rousseff sob o pretexto de que ela seria favorável ao aborto, ao casamento gay e a outras medidas tidas como “contrárias à moral”.

A própria candidata negou a veracidade destas afirmações e, ao contrário, se reuniu com lideranças das Igrejas em um diálogo positivo e aberto. Apesar disso, estes boatos e mentiras continuam sendo espalhados. Diante destas posturas autoritárias e mentirosas, disfarçadas sob o uso da boa moral e da fé, nos sentimos obrigados a atualizar a palavra de Jesus, afirmando, agora, diante de todo o Brasil: “se nos calarmos, até as pedras gritarão!” (Lc 19, 40).

2. Não aceitamos que se use da fé para condenar alguma candidatura. Por isso, fazemos esta declaração como cristãos, ligando nossa fé à vida concreta, a partir de uma análise social e política da realidade e não apenas por motivos religiosos ou doutrinais. Em nome do nosso compromisso com o povo brasileiro, declaramos publicamente o nosso voto em Dilma Rousseff e as razões que nos levam a tomar esta atitude:

3. Consideramos que, para o projeto de um Brasil justo e igualitário, a eleição de Dilma para presidente da República representará um passo maior do que a eventualidade de uma vitória do Serra, que, segundo nossa análise, nos levaria a recuar em várias conquistas populares e efetivos ganhos sócio-culturais e econômicos que se destacam na melhoria de vida da população brasileira.

4. Consideramos que o direito à Vida seja a mais profunda e bela das manifestações das pessoas que acreditam em Deus, pois somos à sua Imagem e Semelhança. Portanto, defender a vida é oferecer condições de saúde, educação, moradia, terra, trabalho, lazer, cultura e dignidade para todas as pessoas, particularmente as que mais precisam. Por isso, um governo justo oferece sua opção preferencial às pessoas empobrecidas, injustiçadas, perseguidas e caluniadas, conforme a proclamação de Jesus na montanha (Cf. Mt 5, 1- 12).

5. Acreditamos que o projeto divino para este mundo foi anunciado através das palavras e ações de Jesus Cristo. Este projeto não se esgota em nenhum regime de governo e não se reduz apenas a uma melhor organização social e política da sociedade. Entretanto, quando oramos “venha o teu reino”, cremos que ele virá, não apenas de forma espiritualista e restrito aos corações, mas, principalmente na transformação das estruturas sociais e políticas deste mundo.

6. Sabemos que as grandes transformações da sociedade se darão principalmente através das conquistas sociais, políticas e ecológicas, feitas pelo povo organizado e não apenas pelo beneplácito de um governante mais aberto/a ou mais sensível ao povo. Temos críticas a alguns aspectos e algumas políticas do governo atual que Dilma promete continuar. Motivo do voto alternativo de muitos companheiros e companheiras Entretanto, por experiência, constatamos: não é a mesma coisa ter no governo uma pessoa que respeite os movimentos populares e dialogue com os segmentos mais pobres da sociedade, ou ter alguém que, diante de uma manifestação popular, mande a polícia reprimir. Neste sentido, tanto no governo federal, como nos estados, as gestões tucanas têm se caracterizado sempre pela arrogância do seu apego às políticas neoliberais e pela insensibilidade para com as grandes questões sociais do povo mais empobrecido.

7. Sabemos de pessoas que se dizem religiosas, e que cometem atrocidades contra crianças, por isso, ter um candidato religioso não é necessariamente parâmetro para se ter um governante justo, por isso, não nos interessa se tal candidato/a é religioso ou não. Como Jesus, cremos que o importante não é tanto dizer “Senhor, Senhor”, mas realizar a vontade de Deus, ou seja, o projeto divino. Esperamos que Dilma continue a feliz política externa do presidente Lula, principalmente no projeto da nossa fundamental integração com os países irmãos da América Latina e na solidariedade aos países africanos, com os quais o Brasil tem uma grande dívida moral e uma longa história em comum. A integração com os movimentos populares emergentes em vários países do continente nos levará a caminharmos para novos e decisivos passos de justiça, igualdade social e cuidado com a natureza, em todas as suas dimensões. Entendemos que um país com sustentabilidade e desenvolvimento humano – como Marina Silva defende – só pode ser construído resgatando já a enorme dívida social com o seu povo mais empobrecido. No momento atual, Dilma Rousseff representa este projeto que, mesmo com obstáculos, foi iniciado nos oito anos de mandato do presidente Lula. É isto que está em jogo neste segundo turno das eleições de 2010.

Com esta esperança e a decisão de lutarmos por isso, nos subscrevemos:

Dom Thomas Balduino, bispo emérito de Goiás velho, e presidente honorário da CPT nacional.
Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Feliz do Araguaia-MT.
Dom Demetrio Valentini, bispo de Jales-SP e presidente da Cáritas nacional.
Dom Luiz Eccel – Bispo de Caçador-SC
Dom Antonio Possamai, bispo emérito da Rondônia.
Dom Sebastião Lima Duarte, bispo de Viana- Maranhão.
Dom Xavier Gilles, bispo emérito de Viana- Maranhão.
Padre Paulo Gabriel, agente de pastoral da Prelazia de São Feliz do Araguaia /MT
Jether Ramalho, líder ecumênico, Rio de Janeiro.
Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo
Professor Candido Mendes, cientista político e reitor
Luiz Alberto Gómez de Souza, cientista político, professor
Zé Vicente, cantador popular. Ceará
Chico César. Cantador popular. Paraíba/são paulo
Revdo Roberto Zwetch, Igreja IELCB e professor de teologia em São Leopoldo.
Pastora Nancy Cardoso, metodista, Vassouras / RJ
Antonio Marcos Santos, Igreja Evangélica Assembléia de Deus – Juazeiro – Bahia
Maria Victoria Benevides, professora, da USP
Monge Joshin, Comunidade Zen Budista do Brasil, São Paulo
Antonio Cecchin, irmão marista, Porto Alegre.
Ivone Gebara, religiosa católica, teóloga e assessora de movimentos populares.
Fr. Luiz Carlos Susin – Secretário Geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação
Frei Betto, escritor, dominicano.
Luiza E. Tomita – Sec. Executiva EATWOT(Ecumenical Association of Third World Theologians)
Ir. Irio Luiz Conti, MSF. Presidente da Fian Internacional
Pe. João Pedro Baresi, pres. da Comissão Justiça e Paz da CRB (Conferência dos religiosos do Brasil) SP
Frei José Fernandes Alves, OP. – Coord. da Comissão Dominicana de Justiça e Paz
Pe. Oscar Beozzo, diocese de Lins.
Pe. Inácio Neutzling – jesuíta, diretor do Instituto Humanitas Unisinos
Pe. Ivo Pedro Oro, diocese de Chapecó / SC
Pe. Igor Damo, diocese de Chapecó-SC.
Irmã Pompeia Bernasconi, cônegas de Santo Agostinho
Cibele Maria Lima Rodrigues, Pesquisadora.
Pe. John Caruana, Rondônia.
Pe. Julio Gotardo, São Paulo.
Toninho Kalunga, São Paulo,
Washingtonn Luiz Viana da Cruz, Campo Largo, PR e membro do EPJ (Evangélicos Pela Justiça)
Ricardo Matense, Igreja Assembléia de Deus, Mata de São João/Bahia
Silvania Costa
Mercedez Lopes,
André Marmilicz
Raimundo Cesar Barreto Jr, Pastor Batista, Doutor em ética social
Pe. Arnildo Fritzen, Carazinho. RS.
Darciolei Volpato, RS
Frei Ildo Perondi – Londrina PR
Ir. Inês Weber, irmãs de Notre Dame.
Pe. Domingos Luiz Costa Curta, Coord. Dioc de Pastoral da Diocese de Chapecó/SC.
Pe. Luis Sartorel,
Itacir Gasparin
Célio Piovesan, Canoas.RS
Toninho Evangelista – Hortolândia/SP
Geter Borges de Sousa, Evangélicos Pela Justiça (EPJ), Brasília.
Caio César Sousa Marçal – Missionário da Igreja de Cristo – Frecheirinha/CE
Rodinei Balbinot, Rede Santa Paulina
Pe. Cleto João Stulp, diocese de Chapecó.
Odja Barros Santos – Pastora batista
Ricardo Aléssio, cristão de tradição presbiteriana, professor universitário.
Maria Luíza Aléssio, professora universitária, ex-secretária de educação do Recife
Rosa Maria Gomes
Roberto Cartaxo Machado Rios
Rute Maria Monteiro Machado Rios
Antonio Souto, Caucaia, CE
Olidio Mangolim – PR
Joselita Alves Sampaio – PR
Kleber Jorge e silva, teologia – Passo Fundo – RS
Terezinha Albuquerque
PR. Marco Aurélio Alves Vicente – EPJ – Evangélicos pela Justiça, pastor-auxiliar da Igreja Catedral da Família/Goiânia-GO
Padre Ferraro, Campinas.
Ir, Carmem Vedovatto
Ir. Letícia Pontini, discípulas, Manaus.
Padre Manoel, PR
Magali Nascimento Cunha, metodista
Stela Maris da Silva
Ir. Neusa Luiz, Abelardo Luz- SC
Lucia Ribeiro, socióloga
Marcelo Timotheo da Costa, historiador
Maria Helena Silva Timotheo da Costa
Ianete Sampaio
Ney Paiva Chavez, professora educação visual, Rio de janeiro
Antonio Carlos Fester
Ana Lucia Alves, Brasília
Ivo Forotti, Cebs – Canoas – RS
Agnaldo da Silva Vieira – Pastor Batista. Igreja Batista da Esperança – Rio de Janeiro
Irmã Claudia Paixão, Rio de Janeiro
Marlene Ossami de Moura, antropóloga / Goiânia.
Ir. Maria Celina Correia Leite, Recife
Pedro Henriques de Moraes Melo – UFC/ACEG
Fernanda Seibel, Caxias do Sul.
Benedito Cunha, pesquisador popular, membro do Centro Mandacaru – Fortaleza
Pe. Lino Allegri – Pastoral do Povo da Rua de Fortaleza, CE.
Juciano de Sousa Lacerda, Prof. Doutor de Comunicação Social da UFRN
Pasqualino Toscan – Guaraciaba SC
Francisco das Chagas de Morais, Natal – RN.
Elida Araújo
Maria do Socorro Furtado Veloso – Natal, RN
Maria Letícia Ligneul Cotrim, educadora
Maria das Graças Pinto Coelho/ professora universitária/UFRN
Ismael de Souza Maciel membro do CEBI – Centro de Estudos Bíbicos Recife
Xavier Uytdenbroek, prof. aposentado da UFPE e membro da coordenação pastoral da UNICAP
Maria Mércia do Egito Souza, agente da Pastoral da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife
Leonardo Fernando de Barros Autran Gonçalves Advogado e Analista do INSS
Karla Juliana Souza Uytdenbroek Bacharel em Direito
Targelia de Souza Albuquerque
Maria Lúcia F de Barbosa, Professora UFPE
Débora Costa-Maciel, Profª. UPE
Maria Theresia Seewer
107. Ida Vicenzia Dias Maciel
108. Marcelo Tibaes
109. Sergio Bernardoni, diretor da CARAVIDEO- Goiânia – Goiás
110. Claudio de Oliveira Ribeiro. Pastor da Igreja Metodista em Santo André, SP.
104 . Pe. Paulo Sérgio Vaillant – Presbítero da Arquidiocese de Vitória – ES
106. Roberto Fernandes de Souza. RG 08539697-6 IFP RJ – Secretario do CEBI RJ
107. Sílvia Pompéia.
108. Pe. Maro Passerini – coordenador Past. Carcerária – CE
109. Dora Seibel – Pedagoga, caxias do sul.
110. Mosara Barbosa de Melo
111. Maria de Fátima Pimentel Lins
112. Prof. Renato Thiel, UCB-DF
114 . Alexandre Brasil Fonseca , Sociólogo, prof. da UFRJ, Ig. Presbiteriana e coordenador da Rede FALE)
115 Daniela Sanches Frozi, (Nutricionista, profa. da UERJ, Ig. Presbiteriana, conselheira do CONSEA Nacional e vice-presidente da ABUB)
116. Marcelo Ayres Camurça – Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião – Universidade Federal de Juiz de Fora
117. Revd. Cônego Francisco de Assis da Silva,Secretário Geral da IEAB e membro da Coordenação do Fórum Ecumênico Brasil
118. Irene Maria G.F. da Silva Telles
119. Manfredo Araújo de Oliveira
120. Agnaldo da Silva Vieira – Pedagogo e Pastor Auxiliar da Igreja Batista da Esperança-Centro do Rio de Janeiro
121. Pr. Marcos Dornel – Pastor Evangélico – Igreja Batista Nova Curuçá – SP
122. Adriano Carvalho.
123. Pe. Sérgio Campos, Fundação Redentorista de Comunicações Sociais – Paranaguá/Pr.
124. Eduardo Dutra Machado, pastor presbiteriano
125. Maria Gabriela Curubeto Godoy – médica psiquiatra – RS
126. Genoveva Prima de Freitas- Professora – Goiânia
127. M. Candida R. Diaz Bordenave
128. Ismael de Souza Maciel membro do CEBI – Centro de Estudos Bíbicos Recife
129. Xavier Uytdenbroek prof. aposentado da UFPE e membro da coordenação pastoral da UNICAP
130. Maria Mércia do Egito Souza agente da Pastoral da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife
131. Leonardo Fernando de Barros Autran Gonçalves Advogado e Analista do INSS
132. Karla Juliana Souza Uytdenbroek Bacharel em Direito
133. Targelia de Souza Albuquerque
134. Maria Lúcia F de Barbosa (Professora – UFPE)
135. Paulo Teixeira, parlamentar, São Paulo.
136. Alessandro Molon, parlamentar, Rio de janeiro.
137. Adjair Alves (Professor – UPE)
138. Luziano Pereira Mendes de Lima – UNEAL
139. Cláudia Maria Afonso de Castro-psicóloga- trabalhadora da Saúde-SMS Suzano-SP
140. Fátima Tavares, Coordenadora do Programa de Pos-Graduação em Antropologia FFCH/UFBA
141. Carlos Cardoso, Professor Associado do Departamento de Antropologia e Etnologia da UFBA.
142. Isabel Tooda
143. Joanildo Burity (Anglicano, cientista político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco,
144. Paulo Fernando Carneiro de Andrade, Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Professor de Teologia PUC- Rio
145. Aristóteles Rodrigues – Psicólogo, Mestre em Ciência da Religião
146. Zwinglio Mota Dias – Professor Associado III – Universidade Federal de Juiz de Fora
147. Antonio Francisco Braga dos Santos- IFCE
148. Paulo Couto Teixeira, Mestrando em Teologia na EST/IECLB
149. Rev. Luis Omar Dominguez Espinoza
150. Anivaldo Padilha – Metodista, KOINONIA, líder ecumênico
151. Nercina Gonçalves
152. Hélio Rios, pastor presbiteriano
153. João José Silva Bordalo Coelho, Professor- RJ
154. Lucilia Ramalho. Rio de janeiro.
155. Maria Tereza Sartorio, educadora, ES
156. Maria José Sartorio, saúde, ES
157. Nilda Lucia Sartorio, secretaria de ação social, Espírito santo
158. Ângela Maria Fernandes -Curitiba 159. Lúcia Adélia Fernandes
160. Jeanne Nascimento – Advogada em São Paulo/SP
161. Frei José Alamiro, franciscano, São Paulo, SP
162. Otávio Velho, antropólogo
163. Iraci Poleti,educadora
164.Antonio Canuto
165. Maria Luisa de Carvalho Armando
166. Susana Albornoz
167. Maria Helena Arrochellas
168. Francisco Guimarães
169. Eleny Guimarães

(mandar mais adesõoes para gomezdesouza@uol.com.br )

O império por dentro (Segunda parte)

Por Fidel Castro

Na Reflexão de ontem aparece um parágrafo chave extraído do livro de Woodward: "Um segredo importante que nunca tinha sido reportado nos meios de comunicação nem em nenhuma outra parte era a existência de um exército clandestino de 3 mil homens no Afeganistão, cujo objetivo era matar ou capturar os talibãs e ocasionalmente entrar nas zonas tribais para pacificá-las e obter apoio."

Tal exército, criado e dirigido pela Agência Central de Inteligência (CIA), treinado e organizado como "força especial", foi integrado sobre bases tribais, sociais, antirreligiosas e antipatrióticas; sua missão é a perseguição e a eliminação física de guerrilheiros talibãs e outros afegãos, qualificados como extremistas muçulmanos. Nada têm a ver com a Al Qaeda e Bin Laden, um saudita recrutado e financiado pela CIA para lutar contra os soviéticos quando suas tropas ocuparam o Afeganistão. Quando o vice-presidente Biden viajou a Cabul, no começo de 2009, David Mckiernan, chefe das tropas dos Estados Unidos no Afeganistão, disse-lhe, ao ser por este perguntado sobre a Al Qaeda: "que não tinha visto nem um só árabe em dois anos ali".

Apesar da relativamente breve e efêmera importância que os principais meios internacionais de imprensa deram às “guerras de Obama", estes, não deixaram de dar esta reveladora noticia.

O governo dos Estados Unidos estava diante de um problema insolúvel. Em uma das últimas reuniões do Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de Bush, foi aprovado um informe em que se afirmava: "que os Estados Unidos não poderiam manter-se no Afeganistão a menos que fossem resolvidos três grandes problemas: melhorar a governabilidade, diminuir a corrupção e eliminar os santuários dos talibãs..."

Poderia acrescentar-se que o problema é mais grave se se tomam em conta os compromissos políticos e militares dos Estados Unidos com o Paquistão, um país dotado de armas nucleares, cuja estabilidade em meio de tensos equilíbrios de caráter étnico, tinha sido afetada pela aventureira guerra de Bush no Afeganistão. Centenas de quilômetros de fronteira montanhosa, com populações da mesma origem que estão sendo atacadas e massacradas por aviões sem piloto, são compartilhados pelo Paquistão e o Afeganistão. As tropas da Otan, cuja moral decresce dia a dia, não poderão ganhar esta guerra.

Sem enormes quantidades de combustível, alimentos e munições, nenhum exército pode movimentar-se. A própria luta dos afegãos e paquistaneses, de um e outro lado da fronteira, descobriu o ponto débil das sofisticadas tropas dos Estados Unidos e da Europa. As longas rotas de abastecimento estão sendo convertidas em cemitério dos enormes caminhões e cisternas destinados a essa tarefa. Os aviões sem piloto, as comunicações mais modernas, as sofisticadas armas convencionais, radio-elétricas e até as nucleares, sobram.

Mas o problema é muito mais grave que o que estas linhas expressam.

Sigamos, porém, adiante, com a síntese do espetacular livro de Woodward.

"Capítulo 8

"Jack Keane, general aposentado muito próximo a Hillary Clinton, chamou-lhe a atenção para o fato de que a estratégia seguida no Afeganistão era incorreta, que o elevado número de vítimas no ia pôr fim à insurgência, que isto tinha o efeito contrário, que a única saída era uma ofensiva contra-insurgente intensiva para proteger os afegãos. McKiernan não estava interagindo com os governadores das províncias. Keane lhe disse que se recorria muito à luta antiterrorista e a estratégia contra-insurgente não marchava paralelamente.

"Keane lhe propôs substituir McKiernan pelo tenente-general Lloyd Austin III, segundo no comando no Iraque; e também propôs McChrystal, agregando que este era, sem dúvidas, o melhor candidato.

"McChrystal tinha organizado boas campanhas antiterroristas no Iraque, mas os êxitos táticos não se traduziam em vitórias estratégicas. É por isso que a contra-insurgência era necessária.

"Capítulo 9

"Na audiência de confirmação de Leon Panetta como diretor da CIA diante do Comitê de Inteligência do Senado, este afirmou que a Agência já não enviaria os supostos terroristas a outro país para que fossem torturados, porque isto estava proibido segundo as ordens executivas do novo presidente. Ele declarou que tinha a suspeita de que a CIA enviava pessoas a outros países para que fossem interrogadas utilizando técnicas que ‘violavam nossas normas’.

"Hayden o estava observando pela televisão e se perguntava, chateado, se Panetta tinha ignorado a conversação que ambos tinham feito no mês anterior. Hayden contactou Jeff Smith, ex-assessor geral da CIA, que estava ajudando na transição entre Hayden e Panetta e o ameaçou dizendo: ‘Ou bem ele retira o que foi dito em seu testemunho público amanhã, ou teremos o espetáculo em que o atual director da CIA dirá ao futuro diretor da CIA que não sabe do que está falando’. Hayden disse que o expressaria publicamente e que isso não ia beneficiar ninguém. No dia seguinte foi o senador Kit Bond, de Missouri, o chefe republicano do Comitê de Inteligência, quem perguntou a Panetta se ele se retratava do que havia dito no dia anterior e Panetta disse que sim.

"Posteriormente Hayden se reuniu com Panetta e lhe disse que tinha leído sus escritos, onde dizia que o governo de Bush havia selecionado a melhor informação de inteligência para alegar a existência de armas de destruição em massa no Iraque. Panetta tinha culpado disso uma unidade especial do Pentágono criada por Rumsfeld. Panetta respondeu que não era certo, que tinha sido um erro deles, e aceitou que havia ocorrido nesse caso um catastrófico erro de inteligência na agência da qual ia ser diretor.

"Em 13 de fevereiro o presidente se reuniu novamente com o Conselho de Segurança Nacional para discutir quatro opções para o deslocamento de tropas para o Afeganistão.

"1. Decidir somente depois de definir uma estratégia.

"2. Enviar de imediato 17 mil efetivos.

"3. Enviar os 17 mil mas em duas partes.

"4. Enviar 27 mil, com o que se daría cumprimento à solicitação do general McKiernan.

"Clinton, Gates, Mullen e Petraeus apoiaram o envio dos 17 mil de imediato. Esta também foi a recomendação de Jones. Richard Holbrooke, em um video de segurança, advertiu que 44 anos atrás o presidente Johnson debatia o mesmo com seus assessores para o caso do Vietnã. ‘Não se pode esquecer a história’, agregou. O Vietnã nos tinha ensinado que as guerrilhas ganham em uma situação de impasse, e que portanto ele apoiava o envio dos 17 mil. Obama finalmente notificou ao Pentágono que tinha decidido enviar 17 mil.

"Capítulo 10

"O objetivo para o governo de Obama estava claro: desmantelar e finalmente derrotar a Al Qaeda e seus aliados extremistas, suas estruturas de apoio e seus santuários no Paquistão e evitar seu regresso ao Paquistão ou Afeganistão. Jones, Gates e Mullen se perguntavam se podiam confiar nos paquistaneses. Biden propunha reforçar as operações anti-terroristas e concentrar-se na Al Qaeda e no Paquistão. Obama perguntou se o envio de 17 mil efetivos e posteriormente mais 4 mil fariam a diferença e a resposta foi que sim. Obama perguntou quanto custaria esta operação e a resposta foi que não se sabia, que isto era só um estudo e que não tinha sido feito um cálculo do orçamento, mas que o custo de colocar um soldado estadunidense no Afeganistão, incluídos os pagamentos como veterano de guerra, o seguro de saúde, o custo da atenção a seus familiares, a alimentação e o armamento, ascendia a aproximadamente 25 mil dólares ao ano. O custo de um soldado afegão no terreno ascendia a uns 12 mil dólares. Mais tarde Obama confirmou que o Paquistão seria o centro de qualquer nova estratégia.

"Em uma reunião com o Conselho de Segurança Nacional, Obama disse que esperava contar durante ao menos dois anos com o apoio popular para sua estratégia. Biden expressou que a sorte estava lançada, ainda que fazendo notar que divergia, mas assegurou que apoiaria a estrategia do presidente.

"Capítulo 11

"Petraeus se mostrava preocupado. Preocupava-o tornar-se a vítima de seus êxitos anteriores no Iraque. Provavelmente uma contra-insurgência não era a estratégia correta no Afeganistão, mas Petraeus havia atribuído a um grupo de experts em operações e atividades de inteligêncioa que tinham uma opinião contrária a tarefa de estudar o tema. Parecia que o presidente não tinha aceitado seus argumentos a favor de uma operação contra-insurgente. O presidente anunciou em um discurso sua estratégia de desmantelar e derrotar a Al Qaeda. Um editorial do diário The Washington Post elogiou o plano com o seguinte título: ‘O preço do Realismo’. O discurso surpreendeu alguns. O presidente tinha feito pessoalmente mudanças no texto. Obama não tinha se comprometido totalmente com o envio de todas as tropas solicitadas pelo exército. Obama disse que analisaria a questão novamente depois das eleições no Afeganistão.

"O secretário da Defesa Gates parecia estar à vontade com a decisão: Dois dias depois declarou que não via a necessidade de pedir mais tropas ou pedir ao presidente que as aprovasse enquanto não se visse o desempenho das mesmas.

"O presidente do Paquistão se reuniu com Obama em seu escritório. Obama lhe disse que não queria armar o Paquistão contra a Índia. Reconheceu que tinham avançado em Swat mas que o cessar-fogo tinha provocado que os extremistas subvertessem a legitimidade do governo paquistanês e que o governo estivesse dando a impressão de que ninguém estava a cargo do país. Obama reconheceu que o Paquistão atuava agora com mais decisão, o que tinha se tornado evidente por sua atuação em Swat e por ter permitido que a CIA lançasse em média um ataque com aviões não tripulados a cada três dias durante o mês anterior. Os paquistaneses tinham lançado uma operação com 15 mil efetivos, uma das maiores até o momento, contra os talibãs.

"O chefe do Estado Maior Conjunto se dava conta de que a solução do problema afegão estava justamente à vista, peprcorrendo os corredores do Pentágono. McChrystal já era uma lenda. Tinha trabalhado mais do que ninguém, solucionando problemas sem protestar. Cumpria plenamente todas as ordens. Gates finalmente anunciou que McChrystal seria o novo comandante das tropas no Afeganistão. ‘Nossa missão ali’, disse, ‘requer novas ideias e novos enfoques por parte de nossos chefes militares’. Posteriormente Obama expressou que ele tinha estado de acordo com esta decisão porque confiava nas opiniões de Gates e Mullen, mas que não havia tido a oportunidade de conversar pessoalmente com ele.

"Em 26 de maio de 2009 apareceu no informe ao presidente um dos mais sensíveis relatórios de inteligência profunda. Seu título era: Os recrutas da Al Qaeda na América do Norte podiam fazer mudar os objetivos e as táticas nos Estados Unidos e no Canadá. Segundo o informe, cerca de 20 partidários da Al Qaeda com passaportes estadunidenses, canadenses ou europeus estavam sendo treinados nos santuários do Paquistão para regressar a seus países de origem e perpetrar atos terroristas de alto perfil. Entre eles se incluíam meia dúzia do Reino Unido, vários canadenses, alguns alemães e três estadunidenses. Seus nomes não eram conhecidos. Dennis Blair pensava que os informes eram suficientemente alarmantes e críveis para que o presidente fosse informado. Mas Rahm Emmanuel não estava de acordo. Blair respondeu, como assessor de inteligência do presidente, que se sentia realmente preocupado e Emmanuel o acusou de estar tratando de responsabilizá-lo e também ao presidente.

"Ao sair da Casa Branca Blair estava convencido de que ambos viviam em planetas diferentes com respeito a este tema. Cada vez mais via una falha no governo.

"Capítulo 12

"O general Jones estava acostumado a viajar ao Afeganistão para fazer suas próprias avaliações. Ele era da opinião que os Estados Unidos não podiam perder essa guerra, porque as pessoas iam dizer que os terroristas tinham ganhado e esse tipo de ações iam ser vistas na África, na América do Sul e outros lugares. As organizações como a Otan, a União Europeia e as Nações Unidas poderiam ficar relegadas a lixo da história.

"Jones visita os soldados feridos, se reúne com os coronéis e se entrevista com McChrystal. McChrystal lhe confessa que o Afeganistão estava muito pior do que ele esperava. Advertiu que havia sobejas razões para preocupar-se e que se a situação não se revertesse logo se tornaria irreversível. Jones pediu que ele enumerasse os problemas e McChrystal começou a citar toda uma litania deles: o número de talibãs no país era muito superior ao que se pensava (25 mil). Jones comentou que isso era o resultado do tratado firmado entre o Paquistão e suas tribos, pois ali os novos talibãs podiam ser treinados sem interferências. O número de ataques dos talibãs se aproximava de 550 por semana e nos últimos meses esse número tinha quase duplicado. As bombas nas margens das estradas estavam matando aproximadamente 50 efetivos das tropas da coalizão a cada mês, contra oito no ano anterior.

"Jones insistia em que a nova estratégia tinha três etapas:

"1.- A segurança.

"2.- O desenvolvimento econômico e a reconstrução.

"3.- A governabilidade por parte dos afegãos sob o império da lei.

"Jones insistia em que a guerra não ia ser ganha apenas pelo exército, que durante o próximo ano a parte da estratégia que devia começar a funcionar era o desenvolvimento econômico, e que se isso não fosse bem feito, não ia haver suficientes tropas no mundo para conquistar a vitória. Jones esclareceu que esta era uma nova época e que Obama não ia dar aos comandantes do exército todas as forças que eles pediam, como Bush era acostumado a fazer durante a guerra no Iraque. Jones acrescentou que o presidente sabia que estava caminhando pelo fio de uma navalha, o que queria dizer que não só eram tempos difíceis e perigosos, mas que a situação podia avançar em uma ou outra direção.

"Na província de Helmand, Jones esclareceu que a estratégia de Obama estava destinada a reduzir a participação e o compromisso dos Estados Unidos, que ele não pensava que o Afeganistão devia ser a guerra somente dos Estados Unidos, mas que não tinha havido uma tendência a americanizá-la.

"Ao regressar Jones informa a Obama que a situação era desconcertante; que não havia relação alguma entre o que lhe tinham dito durante os últimos meses e o que o general McChrystal estava enfrentando. Obama lhe pergunta finalmente quantos soldados eram necessários e Jones informa que ainda não havia um número definido. Ele pensava que era necessário completar as duas primeiras etapas da estratégia - desenvolvimento econômico e governabilidade -, ou do contrário o Afeganistão simplesmente ia engolir qualquer cifra adicional de tropas.

"No Pentágono a reação era muito diferente. Jones foi acusado de querer pôr limites à cifra de tropas. Este alegava que não era justo que o presidente tomasse a decisão que tinha tido que tomar em março, e antes de completar os 21 mil efetivos ali, decidir que como a situação era tão má eram necessários de 40 mil a 80 mil efetivos adicionais.

"Entre a Casa Branca e o Pentágono existia um abismo cada vez maior, isto ocorria somente quatro meses depois de que o presidente desse a conhecer sua nova estratégia.

"Capítulo 13

"Alguns funcionários do governo estadunidense descreviam o governo de Obama utilizando a terminologia afegã, e diziam que a presidência estava povoada por ‘tribos’, o que refletia suas divisões. A tribo de Hillary vivia no Departamento de Estado; a tribo de Chicago ocupava oss escritórios de Axelrod e Emmanuel; a tribo da campanha presidencial ocupava o Conselho de Segurança Nacional, que era dirigido pelo chefe de gabinete Mark Lippert e o diretor de comunicações estratégicas Denis McDonough. Este grupo era chamado ‘a insurgência’.

"A derrota do Talibã requeria mais tropas, dinheiro e tempo do que seu desmantelamento. A derrota significava uma rendição incondicional, uma capitulação total; a vitória, ganhar no mais amplo sentido da palavra, destruir completamente ol Talibã.

"Richard Holbrooke se mostrava pessimista perto das eleições de 20 de agosto no Afeganistão e expressou: ‘Se houvesse 10 resultados possíveis no Afeganistão, 9 deles são maus. Todos eles flutuam entre a guerra civil e as irregularidades’.

"Tão logo fecharam os colégios de votação em 20 de agosto houve informes sobre fraude nas urnas. Muitos funcionários das Nações Unidas e do Departamento de Estado não abandonaram suas residências para visitar os centros de votação por razões de segurança.

"No dia posterior às eleições Hoolbroke e o embaixador estadunidense se reuniram com Karzai, a quem perguntaram o que faria se houvesse segundo turno. Karzai disse que ele tinha sido reeleito e que não haveria segundo turno.

"Depois da reunião Karzai telefonou ao centro de operações do Departamento de Estado e pediu para falar com Obama ou com Hillary. O embaixador estadunidense lhe recomendou ao presidente que não atendesse, pois Karzai tinha se colocado na defensiva dizendo que um segundo turno era impossível. Obama concordou em não falar com ele.

"Os informes de inteligência descreviam Karzai como uma pessoa cada vez mais delirante e paranóica. Karzai lhes disse: ‘Vocês estão contra mim. É um complô entre os estadunidenses e os britânicos’.

"No mês de agosto foi criado um grupo a fim de que entrevistasse os membros do grupo estratégico do general McChrystal que recém acabavam de regressar do Afeganistão, com o objetivo de saber o que estava ocorrendo no terreno, como ia a guerra, o que funcionava ou não. McChrystal deu ao grupo três perguntas a título de guia para seu estudo: é possível cumprir a missão?; e sendo assim, o que é necessário mudar para que a missão seja cumprida?; são requeridos mais recursos para cumprir a missão?

"McChrystal pediu ao grupo que fosse pragmático e se concentrasse nas coisas que realmente funcionavam.

"O grupo chegou à conclusão de que o exército entendia relativamente pouco a população afegã. Não conseguia compreender como as campanhas de intimidação lançadas pelos talibãs afetavam a população. O armazenamento de informação de inteligência era um desastre. O grupo descobriu que 70 por cento dos requisitos de inteligência se centravam no inimigo. Alguns membros do grupo pensavam que dentro de um ou dois anos a guerra estaria totalmente americanizada. Os estadunidenses preferiam que os aliados da Otan aportassem dinheiro e assessores para as forças de segurança afegãs, em vez de vagar por todo o país pedindo apoio aéreo para atacar os afegãos de aparência suspeita.

"O grupo só tinha más noticias para McChrystal. Podia-se levar a cabo a melhor campanha de contra-insurgência na história do mundo e ainda assim esta fracassaria pela debilidade e a corrupção que existiam no governo afegão. McChrystal ficou como se tivesse sido atropelado por um trem. De todo modo, agradeceu ao grupo.

"McChrystal fez saber a Gates que necessitaria de mais 40 mil efetivos. Depois de longas discussões, Gates lhe prometeu que daria tantos efetivos quantos pudesse e quando pudesse. ‘Você tem um campo de batalha lá e eu tenho um campo de batalha aqui’, disse.

"Capítulo 14

"Biden tinha passado cinco horas tratando de desenhar uma alternativa para McChrystal, que chamou de ‘antiterrorismo plus’. Em vez de uma quantidade intensiva de efetivos, o plano se concentrava no que ele acreditava que era a ameaça real: a Al Qaeda. Esta estratégia punha ênfase na destruição dos grupos terroristas mediante o assassinato ou a captura de seus líderes. Biden pensava que era possível dissuadir a Al Qaeda de regressar ao Afeganistão, e assim evitar meter-se na custosa missão de proteger o povo afegão.

"Biden pensava que a Al Qaeda seguiria o caminho em que encontrasse menor resistência e que não regressaria a seus antigos lugares de origem se:

"1. Os Estados Unidos mantivessem ao menos duas bases (Baram e Khandahar) para que as Forças Especiais pudessem operar em qualquer lugar do país.

"2. Os Estados Unidos contassem com forças suficientes para controlar o espaço aéreo afegão.

"3. As redes de inteligência humana dentro de Afeganistão lhe proporcionassem informação acerca dos objetivos que seriam direcionados às Forças Especiais.

"4. A elite da CIA, uma força composta por 3 mil afegãos para operações antiterroristas pudessem movimentar-se livremente.

"O Afeganistão devia converter-se em um ambiente ligeiramente mais hostil para a Al Qaeda que o Paquistão para que eles decidissem não regressar.

"Obama precisava de alguém que o guiasse. Tinha estado no Senado apenas quatro anos e Biden 35. O presidente pensava que os militares não podiam pressioná-lo, mas eles podiam esmagar um presidente inexperiente. Biden acudiu a Obama, e este lhe disse: ‘Tu és quem conheces essa gente. Adiante. Pressiona’.

"Obama confessou depois que ele queria que seu vice-presidente fosse um detrator agressivo e que dissesse exatamente o que pensava, que fizesse as perguntas mais difíceis, porque estava convencido de que essa era a melhor maneira de servir o povo e as tropas, estabelecendo um forte debate sobre estas questões de vida ou moerte.

"Obama convocou um pequeno grupo dos mais experimentados membros de sua equipe de segurança nacional para analisar o informe de 66 páginas elaborado por McChrystal, que em resumo dizia que se não se enviassem mais efetivos era provável que a guerra terminasse em um fracasso nos próximos 12 meses. O presidente agregou que as opções neste caso não eram boas e esclareceu que não aceitaria automaticamente a solução proposta pelo general nem por ninguém. ‘Temos que abordar isto com o espírito de desafiar nossas próprias presunções’.

"Peter Lavoy, vice-chefe de análises do gabinete do diretor da DIN, considerava que depois dos ataques com aviões não tripulados, Bin Laden e sua organização tinham sido golpeados, assediados, mas não acabados, que a Al Qaeda tinha se convertido na sanguessuga do Talibã.

"Obama queria saber se era possível ou não derrotar a Al Qaeda e como; se era necessário destruir o Talibã para destruir a Al Qaeda; se podia conseguir isso nos próximos anos; que tipo de presença era necessário ter no Afeganistão para poder contar com uma plataforma antiterrorista eficaz.

"O que não se disse e todos sabiam era que um presidente não podia perder uma guerra nem fazer ver que a estava perdendo. Obama disse que ia ser necessário trabalhar durante cinco anos e propunha considerar outras prioridades nacionais."