"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

As FARC são invencíveis!

Escrito por Dax Toscano Segovia

Nesta entrevista, o importante jornalista colombiano analisa a atualidade e a história das FARC, o maior grupo guerrilheiro que existe na América.

À “belíssima Lucero” e ao seu companheiro de luta, Simón Trinidad

Resumo latino-americano/ ABP

– Dias antes de contatar Jorge Enrique Botero, o entrevistador começou a ler um livro de autoria do jornalista colombiano, intitulado “Simón Trinidad, um homem de ferro”. A leitura o fascinou desde o início ao tratar das passagens da vida de um dos comandantes das FARC, hoje detido injustamente num cárcere norte-americano, país para o qual foi extraditado com o aval de Uribe, mas também por explicar a história de resistência e rebeldia de um povo que vem sofrendo os embates de uma criminosa oligarquia criolla e do voraz imperialismo ianque, o que permite compreender porque a insurgência colombiana é a força revolucionária que, ao levantar as armas, se constituiu em exército e os colombianos que formam parte dessa massa são despossuídos, sem-terras e violentados por esses grupos do poder e seus criminosos aparatos militares e paramilitares.

Botero é um jornalista diferente daqueles melindrosos e cretinos que vemos nos cenários dos escritórios das indústrias midiáticas. Trajando seu uniforme de combate, Jorge Enrique percorre os lugares mais recônditos para indagar, investigar sobre os acontecimentos, sobretudo para, através de uma prática militante não apenas relacionada a sua atividade de jornalista, mas sim com a causa revolucionária, divulgar com objetividade e veracidade o que ocorre nos locais onde avança a luta pela conquista de uma Nova Colômbia.

Apesar das acusações feitas contra ele pelo narco-paramilitar presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vélez e seus auxiliares, não possui nenhum temor de expor com clareza as mentiras que se divulgam sobre as FARC-EP através de uma muito efetiva campanha propagandística, difundida pelos meios de comunicação a serviço da oligarquia colombiana e do imperialismo ianque.

Com seus conhecimentos, resultado de suas vivências e sua atividade como repórter, assim como de seu amplo saber sobre a história de seu país, pôde demonstrar que a insurgência colombiana não é uma agrupação terrorista, e sim uma formação constituída de homens e mulheres com profundas convicções e ideais revolucionários que lutam para mudar a realidade vergonhosa a que está submetida a maioria de colombianas e colombianos.

Jorge Enrique Botero representa o que os jornalistas deveriam ser: profundos conhecedores da história e realidade social dos povos, indagadores assíduos que buscam a raiz das coisas, pessoas com convicções profundas e com sólidos princípios, lutadores e revolucionários da causa dos oprimidos e explorados e não rasteiros e obedientes reprodutores dos donos das indústrias midiáticas.

Com Botero é possível compreender em sua totalidade o que é a insurgência colombiana, representada, principalmente, pelas FARC-EP.

1. A propaganda do imperialismo e da oligarquia colombiana representada, principalmente, pelas indústrias midiáticas qualificam as FARC-EP como uma organização terrorista, de narcotraficantes. Como jornalista e investigador, o que pode dizer sobre essas afirmações?

Responderia a você, Dax, o mesmo que disse a um tribunal dos EUA, quando julgavam um dos comandantes das FARC extraditados para esse país, Simón Trinidad, em virtude de um tratado que existe entre o governo da Colômbia e o dos EUA. Um magistrado perguntou o que eram as FARC para mim. Respondi que para mim as FARC são uma organização político-militar que levanta armas contra o governo colombiano há quase 50 anos, que possui uma estrutura e uma forma organizativa que permitem a existência de um exército rebelde dentro do território colombiano e que é inspirada em ideais e convicções políticas e ideológicas, estendida por todo o território colombiano e que tem uma decidida vocação de poder e que, neste momento, é um fator de poder no país.

Não é de nenhuma maneira uma organização terrorista. Me parece que esta tem sido uma criação pérfida da mídia orientada e dirigida pelas elites da Colômbia e dos EUA, que se aproveitam um pouco da conjuntura posterior ao 11 de Setembro de 2001 e sustentam em evidências inexistentes, posto que não há provas sobre isso.

São muito mencionados certos tipos de ações empreendidas pelas FARC para sustentar sua suposta condição de organização terrorista, como, por exemplo, os seqüestros. Este é um dos cavalos de batalha com que se trabalha a idéia de terrorismo das FARC.

Eu posso relatar, por já ter estado em contato e no local, sobre a condição dos prisioneiros de guerra, membros da força pública, que estão atualmente sob a custódia da insurgência. São pessoas que caíram em poder de seu adversário depois de horas e horas de combate, de enfrentar com balas seu adversário. Então, algumas pessoas duraram dez, quinze horas combatendo e caíram em poder de seu adversário. Elas não podem ser chamadas de seqüestradas. São prisioneiros de guerra. Isso não possui outra denominação.

Por outro lado, se acusa a insurgência armada de ser uma organização terrorista porque, supostamente, faz recrutamentos forçados de menores de idade. Isso é absolutamente falso! Eu podia constatar essa situação com meu próprio trabalho como repórter.

Evidentemente existem menores de idade na insurgência. Isso é uma questão inegável e tampouco é algo que diminui a insurgência. Quando as câmeras fotográficas de todo o mundo entraram na zona de Caguán, puderam registrar, aberta e livremente, a presença de menores de idade ali. Porém, a explicação da presença dos menores não tem nada a ver com um recrutamento forçado. Tem a ver com a falta de oportunidades e de futuro que possuem esses garotos, tem a ver com a ausência total do Estado, de uma perspectiva educativa e com a ausência total, em muitos casos, de condições materiais adequadas para seu desenvolvimento. E mais, eu diria que a grande maioria desses menores que militam nas fileiras insurgentes estão ali porque seus pais ou seus familiares foram assassinados, seja pelas forças paramilitares, seja pelas forças do Estado. Eu vi crianças que chegam lá fugindo de episódios brutais de violência. E o que faz a guerrilha? A guerrilha os acolhe. Não vai deixá-los à própria sorte.

Posso dar meu testemunho de que são crianças que não participam diretamente dos confrontos bélicos, que não estão submetidos aos terríveis riscos do combate e que desempenham, quando muito, funções ligadas à logística. Isso é muito irônico. A acusação de terrorismo às FARC quanto ao seu método de recrutamento de menores é uma verdadeira ironia, porque o que se vê é que esses menores são obrigados sim a aprender a ler, a escrever, alfabetizando-se no mundo insurgente.

Então, qual violação aos Direitos Humanos Internacionais está ocorrendo aqui? Ao meu modo, nenhuma.

Enfim, há uma série de acusações que necessitam de evidências, não são mais que uma construção da mídia.

2. Outra acusação que fazem às FARC como parte de uma campanha de desprestigio, que está mais evidente desde o assassinato de Raúl Reyes, de Iván Ríos, as deserções de pessoas que, supostamente, teriam uma alta patente dentro da estrutura militar das FARC como Karina ou a traição de comandantes na famosa Operação Jaque, é de que esta organização revolucionária está desmoralizada, em vias de ser derrotada e que seus combatentes nela permanecem não por princípios revolucionários, e sim para delinqüir. Você que conhece de fato as FARC-EP e que tem estado em acampamentos guerrilheiros, o que pode dizer a respeito?

Bom, é evidente que ao longo dos anos de 2007 e 2008 se desenvolveu uma gigantesca operação militar que vem custando milhares e milhares de milhões de dólares ao governo dos EUA e ao governo da Colômbia. Essa operação faz uso dos mais sofisticados aparatos de tecnologia moderna no terreno bélico. Assim, as FARC receberam uma série de golpes que, em primeiro lugar, comprovam que o Estado colombiano e seu grande aliado norte-americano investem somas monstruosas de dinheiro para poder confrontar seu adversário, desmentindo aquela idéia de que na Colômbia não há conflito armado. Dessa maneira, receberam golpes, é uma guerra e nessa guerra há momentos de desequilíbrio da balança militar.

Recordo, por exemplo, que no ano de 1998 as FARC empreenderam mais ou menos 10 golpes de grandes proporções às forças militares e chegaram a ter 500 soldados e policiais em seu poder como prisioneiros de guerra. A balança militar estava decididamente a favor da insurgência. Entre outras coisas, alguns analistas dizem que foi isso que obrigou o governo do presidente Pastrana a chegar a uma negociação política que ficou conhecida como a negociação de Caguán.

Agora, os golpes sofridos pelas FARC atualmente, indubitavelmente ressentiram a estrutura e, porque não, o ânimo da insurgência. Para uma guerrilha cujo grande mito fundacional, cujo grande emblema, cuja luz era Manuel Marullanda Vélez, já não tê-lo é um grande golpe mental nos guerrilheiros. Os episódios que você menciona, a morte em território equatoriano do Comandante Raúl Reyes, o posterior assassinato de Iván Ríos, etc, geraram também efeitos na estrutura militar porque eram chefes guerrilheiros e sobre seus homens, já que pesaram sobre eles a responsabilidade de substituir os antigos chefes.

Porém quero dizer a você, Dax, que eu, como observador atento dessa realidade, prognostiquei naqueles momentos que a guerrilha ia custar muitíssimo tempo e esforço para recompor-se dos golpes sofridos. E no desenvolvimento de meu trabalho como repórter e de cobertura do conflito colombiano voltei ao mundo insurgente em várias ocasiões depois desses episódios e eu fiquei verdadeiramente surpreso, atônito, diria eu, com a capacidade de recuperação que tem a guerrilha. Isso talvez porque, digamos, sua força interior é muito grande ou porque seus mitos fundacionais e seus propósitos são a prova de tudo ou, talvez, porque haviam previsto tudo.

Eu recordo bem que em minhas viagens para entrevistar o Comandante Raúl Reyes, eu mencionava com pesar ou prestava condolências por estar inteirado do assassinato ou da morte em combate de algum guerrilheiro que conhecíamos e que ele se surpreendia com a minha preocupação. Dizia “se nós assumimos que estamos em uma guerra, o mais normal que poder acontecer é a morte”. Eles têm assumido isso desde que tomaram as armas e enfrentaram o Estado. Também sabem que uma das possibilidades, inclusive uma das maiores possibilidades de sua vida, é a morte. Então, eu não sei na realidade quais são os significados ou a soma dos significados que existe hoje em dia. Depois de semelhantes golpes, as FARC estão novamente com grande disposição combativa, talvez até maior que a de alguns anos, e que com uma imensa capacidade de recuperação.

Eu acredito que o discurso deste oficial do alto comando militar e do próprio presidente Uribe no sentido de que as FARC estão a ponto de serem exterminadas, a poucas horas de sua dissolução total, não é mais que uma aspiração deles, um sonho.

Porém, eu digo com todas as letras, e não digo como uma frase feita, eu digo como uma realidade histórica, possível de comprovar pela ciência, pela história, pela política que as FARC são invencíveis! São invencíveis!

A outra discussão é sobre as possibilidades ou a capacidade de chegar ao poder. É uma outra discussão. Porém, não vão aniquilar as FARC. E como não a aniquilarão, isto nos leva a concluir, se somos seres humanos sensatos, pensamos num país, no futuro da sociedade colombiana e no âmbito latino-americano, que a única saída é uma negociação política, é a via do diálogo, é a assinatura de um grande pacto de paz que devolva aos colombianos algo que nos é de muito apreço e que perdemos durante cinco décadas, a paz, e que nos permita ver o futuro de outra maneira, não com esta sensação permanente de belicismo e agressividade a qual estamos acostumados no governo Uribe.

3. Muito poucas pessoas podem ter acesso a uma informação objetiva, verídica do que realmente constitui as FARC-EP. Esta situação permite que a propaganda do imperialismo e dos regimes narco-paramilitares colombianos se dissemine e convença muita gente, internalizando a qualificação das FARC como organização terrorista. Como comunicador social, que elementos você considera que caracterizam essa propaganda e como enfrentar essa propaganda para que as pessoas compreendam melhor o que são as FARC?

Importantíssima essa pergunta, Dax. Porque creio que aí está o nó que temos que desatar. Eu acredito que a sociedade colombiana está aterrorizada. O grande trabalho da mídia é conduzido pelas mais altas esferas do poder, sobretudo o poder econômico, é fazer a sociedade colombiana acreditar que existe um inimigo a postos, que estamos em meio aos piores perigos e que há que cerrar fileiras e apoiar a idéia de que a única forma de acabar com esse monstro que supostamente existe, pronto para devorar a sociedade colombiana, é com todos os fogos, com todos os ferros.

Repare que a construção da ameaça terrorista das FARC, que assim é denominada pelo presidente Uribe, está agregada a outro grande demônio que tem aterrorizado e paralisado a sociedade colombiana. Há movimentos de resistência, há gente na rua e na insurgência armada, porém, se você observa o conjunto da sociedade colombiana, verá que ela está absolutamente paralisada e isso facilita a construção de outro demônio que é ninguém menos que o presidente Chávez. Falta pouco para que nas rotinas familiares da Colômbia, aquela ameaça feitas às crianças que não querem comer, de trazer o bicho papão, se converta em se não comerem, trarão Chávez. É impressionante o nível de macartização, estigmatização e caricaturização que está sendo feito do presidente da Venezuela pelos meios de comunicação.

Então, nessa atmosfera de sociedade paralisada, que repito ser fruto de uma grande construção midiática e com isso respondo a sua primeira pergunta, eu vejo que não nos resta outro caminho que o de estimular e dar todo apoio, impulso, esforço que seja possível àquelas expressões comunicativas que saem do discurso oficial.

Conversávamos ontem, na abertura do encontro continental de jornalistas, sobre a quantidade de ferramentas que estão ao nosso alcance agora, e também falávamos da afortunada aparição da Telesur no espectro eletromagnético de nosso continente. E falamos até das paredes. Enfim, eu penso, Dax, que não nos resta outra saída se não nos engajar numa guerra midiática, às armas midiáticas, com todos os ferros, com todas as ferramentas ao nosso alcance!

Temos que contra-atacar de mil maneiras este ataque tão terrível do qual estamos sendo vítimas. Não como revolucionários, mas as sociedades como um todo, a sociedade colombiana no nosso caso, e a sociedade latino-americana que parece adormecer perante o exitoso projeto comunicacional impulsionado pelas elites.

Isso nós também temos que aprender. Eu não creio que vamos apelar para as imundices que eles apelam e para as manipulações. Porém, do ponto de vista técnico, do ponto de vista estético, da qualidade, temos que aprender a utilizar muitos desses recursos porque, repito, se algo que temos que reconhecer é que sua tarefa foi objetiva e eficaz. É uma porcaria, um atropelo, é uma coisa maquiavélica, mas eficaz. Então, temos que redobrar os esforços com grande decisão, para ver se conseguimos reverter ou nivelar um pouco a situação.

4. Parte dos ataques contra as FARC-EP constituem a criminalização de todas e todos aqueles que, de certa maneira, manifestam apoio à insurgência colombiana. Já o qualificaram de porta-voz dos “terroristas”. Isto faz, inclusive, com que as próprias organizações de esquerda e os intelectuais que vem expressando certo respaldo às FARC-EP, tenham medo de fazê-lo com maior empenho, mantendo-se em silêncio, enquanto o imperialismo e a oligarquia vociferam o que bem entendem. O que fazer para enfrentar esta campanha de amedrontamento que conduz ao silenciamento?

Eu tenho uma teoria sobre isso. O que se busca com essa tarefa de criminalizar, estigmatizar e pôr uma etiqueta, um “INRI” nas pessoas é basicamente amedrontar, para que nos escondamos, fujamos. Por exemplo, eu que estou na Colômbia fugiria para o Equador, para a Venezuela, para a Europa. Isso é o que querem e por isso colocam em perigo a vida de muitas pessoas e reproduzem estas qualificações absurdas e sem sustento que fazem sobre essas pessoas, organizações, equipes de trabalho.

O presidente Uribe disse numa entrevista coletiva que fulano, fulano e fulano, referindo-se a três jornalistas, entre eles eu, “são porta-vozes da insurgência e publicitários do terrorismo”. Na Colômbia, há mais de dez loucos que interpretam isso como uma ordem para assassinar uma a uma essas pessoas citadas pelo presidente. Então, é isso que acontece. As opções, repito, são duas; me escondo, passo para a clandestinidade e começo a fazer coisas que eu não conheço e não sei fazer e farei mal ou amplio meu cenário de ação e sigo fazendo meu trabalho e o faço com mais empenho, me coloco mais visível e com mais visibilidade, de certa maneira, me protejo.

E bom, tenho que apelar também para as organizações internacionais que velam por esses temas de direitos humanos, as organizações de jornalistas de todo o mundo, aos pronunciamentos de personalidades internacionais. Isso de alguma maneira limita a capacidade de agressão das pessoas contra as quais decidimos enfrentar.

Eu me situo ao lado dos que buscam crescer perante esses ataques e censuro, ainda que entenda e aceite em muitos casos, já que não parece ser o caminho mais adequado, o exílio, o desaparecer de cena, o calar-se.

5. Outra acusação contra as FARC-EP é a de que esta organização mantém seqüestrados um grande número de pessoas em campos de prisioneiros na selva, onde os mesmos são maltratados e até mesmo torturados. Você que teve a oportunidade de estar nestes lugares, pode contar-nos qual é a realidade sobre os cárceres das FARC-EP?

Este assunto sobre a suposta crueldade no tratamento aos prisioneiros de guerra é outra construção da mídia.

Vejamos.

Evidentemente as imagens do cativeiro, eu gravei várias delas, aliás, acredito que oitenta por cento das imagens que saem do cativeiro são minhas já que eu estive ali algumas vezes, são bastante fortes. Estamos falando de pessoas que estão num cativeiro localizado na selva fechada, em condições atmosféricas difíceis, em condições de salubridade complicadas, com dificuldades de alimentação muitas vezes, em épocas como verão aumentam as dificuldades de conseguir água, são lugares onde entra muito pouco sol, estão no meio da mata. Repito que, do ponto de vista do impacto visual, é muito fácil usar essas imagens para o fim que se deseja.

Eu me recordo, por exemplo, quando eu exibi algumas imagens no canal do Caracol onde eu trabalhava, dos 500 soldados que diziam terem estado presos pela guerrilha. Quando apresentei essas imagens, apresentei também um documentário e o canal me censurou, não deixou ir ao ar, porém ficou com as minhas imagens. Eu denunciei a censura e eles me demitiram. Porém, os filhos da mãe ficaram com as minha imagens e começaram a divulgá-las, colocando na metade da tela imagens dos campos de concentração nazifascista na Alemanha da Segunda Guerra Mundial e na outra metade da tela as minhas imagens, fazendo uma comparação, uma analogia entre os campos de concentração nazista e os lugares onde estive. Nada a ver! Era uma utilização, uma manipulação. Eu processei a Caracol por isso, porque entre outras coisas, estavam colocando minha vida em risco, aparentando que eu estivera ido a esses lugares para tal propósito.

Pois bem, vou falar um pouquinho das condições do cativeiro. A figura me causa sentimentos conflitantes. Eu entendo que a guerra é uma confrontação e que são pessoas que caem em meio a conflagração nesta situação. Porém, é uma situação extrema que é muito fácil de manipular e de converter em uma má imagem para a insurgência.

Advirto que são as mesmas condições nas quais estão os guerrilheiros. As pessoas que estão no cativeiro tomam café-da-manhã, almoçam e jantam o mesmo que os guerrilheiros. São pessoas que recebem assistência médica, inclusive odontológica. Do ponto de vista da rotina, não recebem maus tratos, não servem de exemplo para ensinamentos por parte de seus captores e até tenho percebido certas situações de familiaridade, de camaradagem e de amizade, de alguma forma, entre uns e outros.

Qual é a resposta que se dá a um preso que se insurreta num cárcere qualquer do mundo? É o castigo e castigos tenebrosos. Calabouço, isolamento, etc.

O que acontece a um preso em qualquer cárcere do mundo que tenta fugir? Existe uma ordem que é impedir a fuga ou a intenção de fuga, o que ocorrerá com graves conseqüências para sua vida.

O mesmo acontece lá, porque a insurgência trata de prisioneiros. Então, se um grupo de prisioneiros tenta fugir, no dia seguinte todos amanhecem presos com cadeados. Se um grupo de presos ou um preso faz coisas que possam colocar em perigo a segurança dos demais e também da insurgência e dos guerrilheiros que os guardam, recebem um castigo. Claro, que isso num relato, na utilização da mídia é transformado em algo absurdamente cruel e inumano.

Cabe advertir que é muito doloroso quando me encontro nessas situações. Creio que se tem explorado muito o tema com o intuito, repito, de dar uma aparência de crueldade, a qual estou seguro que não existe na insurgência. E se existe, são fatos isolados, fatos que são puníveis por estatuto e regulamentos das FARC.

6. Para desprestigiar as FARC-EP, a campanha propagandística do imperialismo e da oligarquia colombiana assinala permanentemente que nas fileiras desta organização se maltrata as mulheres. Você teve a oportunidade de conhecer a Lucero, a “belíssima Lucero”, a companheira de Simón Trinidad. Conte-nos algo sobre essa excepcional mulher.

(Jorge Enrique Botero se comove ao escutar o nome de Lucero. Seus olhos se enchem de lágrimas)

Homem, Dax. Escutar o nome de Lucero é emocionante. É uma emoção grande, íntima, interna.

Lucero é uma típica representante das jovens colombianas que chegam à insurgência por via política. Ela é uma garota que em sua época de estudante se forma politicamente, ingressa nas fileiras da Juventude Comunista, atua na legalidade e vê cair ao seu redor todos os companheiros de luta que não desfechavam tiros, mas lutavam na esfera legal da política.

Lucero é proveniente de uma pequena população da Costa Atlântica colombiana. Ingressa à União Patriótica e assiste ao assassinato a tiros de todos os seus dirigentes. Tem a sorte de encontrar com uma frente guerrilheira comandada por Simón Trinidad e ante a eventualidade de morrer ou abandonar a luta, prefere optar por seguir seus ideais.

Maus tratos? Jamais observei. É muito possível. Estamos falando de homens e mulheres que possuem sentimentos, inclusive, inveja. É possível que tenham ocorrido episódios meio dramáticos, inclusive violentos, entre paredes, assim como atitudes machistas, sem dúvida.

Porém, por exemplo, um episódio de violência sexual contra uma guerrilheira é o menos provável que eu possa imaginar. Um episódio de violência sexual contra uma guerrilheira é castigado com pena máxima ou se um guerrilheiro se sobrepõe ou atua de maneira agressiva contra mulheres da população civil, também é objeto de fortíssimos castigos.

Do ponto de vista prático, da rotina diária da guerrilha, o conceito e a prática do machismo não existe. Eu creio que um dos lugares onde as mulheres são mais realizadas e respeitadas em sua totalidade é no mundo da insurgência.

Acho muita graça quando escuto falácias sobre os maus tratos às mulheres, sobre a transformação de mulheres em objeto sexual e sobre uma espécie de prova na qual, para ingressar na organização, as mulheres têm de passar aos braços dos comandantes. O que se objetiva com essas afirmações mentirosas é desestimular o ingresso de garotas à insurgência e tenta-se criar a sensação de que lá é um verdadeiro inferno machista, no qual a mulher é apenas um objeto sexual para satisfazer os instintos dos demais. Porém, creio que as guerrilheiras e os guerrilheiros morrem de rir e de raiva ao ouvir tais absurdos, pois lá é o local onde as mulheres são mais respeitadas.

Obrigado, Jorge. Todo o meu carinho, respeito e admiração a você, por sua convicção revolucionária e sua atividade profissional como jornalista, mantendo-se ativo nos movimentos sociais e não apenas no cenário das indústrias da mídia.

Obrigado a você.

Dezembro de 2009.

http://www.resumenlatinoamericano.org

Tradução: Maria Fernanda M. Scelza

-Com apoio do PCB

Os EUA e a "pacificação presidencial" na América Latina

O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina. Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar, repetindo uma prática dos EUAbem conhecida na América Latina. O artigo é de Noam Chomsky.

Noam Chomsky

Barack Obama é o quarto presidente estadunidense a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, unindo-se a outros dentro de uma longa tradição de pacificação que desde sempre serviu aos interesses dos EUA. Os quatro presidentes deixaram sua marca em nossa “pequena região” ("nosso quintal"), que "nunca incomodou ninguém", como caracterizou o secretário de Guerra, Henry L. Stimson, em 1945. Dada a postura do governo de Obama diante das eleições em Honduras, em novembro último, vale a pena examinar esse histórico.

Theodore Roosevelt
Em seu segundo mandato como presidente, Theodore Roosevelt disse que a expansão de povos de sangue branco ou europeu durante os quatro últimos séculos viu-se ameaçada por benefícios permanentes aos povos que já existiam nas terras onde ocorreu essa expansão (apesar do que possam pensar os africanos nativos, americanos, filipinos e outros supostos beneficiados).

Portanto, era inevitável e, em grande medida, desejável para a humanidade em geral que o povo estadunidense terminasse por ser maioria sobre os mexicanos ao conquistar a metade do México, além do que estava fora de qualquer debate esperar que os (texanos) se submetessem à supremacia de uma raça inferior. Utilizar a diplomacia dos navios de artilharia para roubar o Panamá da Colômbia e construir um canal também foi um presente para a humanidade.

Woodrow Wilson
Woodrow Wilson é o mais honrado dos presidentes premiados com o Nobel e, possivelmente, o pior para a América Latina. Sua invasão do Haiti, em 1915, matou milhares de pessoas, praticamente reinstaurou a escravidão e deixou grande parte do país em ruínas.

Para demonstrar seu amor à democracia, Wilson ordenou a seus mariners que desintegrassem o Parlamento haitiano a ponta de pistola em represália pela não aprovação de uma legislação progressista que permitiria às corporações estadunidenses comprar o país caribenho. O problema foi resolvido quando os haitianos adotaram uma Constituição ditada pelos Estados Unidos e redigida sob as armas dos mariners. Tratava-se de um esforço que resultaria benéfico para o Haiti, assegurou o Departamento de Estado a seus cativos.

Wilson também invadiu a República Dominicana para garantir seu bem-estar. Esta nação e o Haiti ficaram sob o mando de violentos guardas civis. Décadas de tortura, violência e miséria em ambos países foram o legado do idealismo wilsoniano, que se converteu em um princípio da política externa dos EUA.

Jimmy Carter
Para o presidente Jimmy Carter, os direitos humanos eram a alma de nossa política externa. Robert Pastor, assessor de segurança nacional para temas da América Latina, explicou que havia importantes distinções entre direitos e política: lamentavelmente a administração teve que respaldar o regime do ditador nicaragüense Anastásio Somoza, e quando isso se tornou impossível, manteve-se no país uma Guarda Nacional treinada nos EUA, mesmo depois de terem ocorrido massacres contra a população com uma brutalidade que as nações reservam para seus inimigos, segundo assinalou o mesmo funcionário, e onde morreram cerca de 40 mil pessoas.

Para Pastor, a razão era elementar: os EUA não queriam controlar a Nicarágua nem nenhum outro país da região, mas tampouco queria que os acontecimentos saíssem do seu controle. Queria que os nicaragüenses atuassem de forma independente, exceto quando essa independência afetasse os interesses dos Estados Unidos.

Barack Obama
O presidente Barack Obama distanciou os EUA de quase toda América Latina e Europa ao aceitar o golpe militar que derrubou a democracia hondurenha em junho passado. A quartelada refletiu abismais e crescentes divisões políticas e socioeconômicas, segundo o New York Times. Para a reduzida classe social alta, o presidente hondurenho Manuel Zelaya converteu-se em uma ameaça para o que esta classe chama de democracia, que, na verdade, é o governo das forças empresariais e políticas mais fortes do país.

Selaya adotou medidas tão perigosas como o incremento do salário mínimo em um país onde 60% da população vive na pobreza. Tinha que ir embora. Praticamente sozinho, os EUA reconheceram as eleições de novembro (nas quais saiu vitorioso Pepe Lobo), realizadas sob um governo militar e que foram uma “grande celebração da democracia”, segundo o embaixador de Obama em Honduras, Hugo Llorens. O apoio ao processo eleitoral garantiu para os EUA o uso da base aérea de Palmerola, em território hondurenho, cujo valor para o exército estadunidense aumenta na medida em que está sendo expulso da maior parte da América Latina.

Depois das eleições, Lewis Anselem, representante de Obama na Organização de Estados Americanos (OEA), aconselhou aos atrasados latinoamericanos que aceitassem o golpe militar e seguissem os EUA no mundo real e não no mundo do realismo mágico.

Obama abriu a brecha ao apoiar um golpe militar. O governo estadunidense financia o Instituto Internacional Republicano (IRI, na sigla em inglês) e o Instituto Nacional Democrático (NDI) que, supostamente, promovem a democracia. O IRI apóia regularmente golpes militares para derrubar governos eleitos, como ocorreu na Veenzuela, em 2002, e no Haiti, em 2004. O NDI tem se contido. Em Honduras, pela primeira vez, esse instituto concordou em observar as eleições realizadas sob um governo militar de facto, ao contrário da OEA e da ONU, que seguiram guiando-se pelo mundo do realismo mágico.

Devido à estreita relação entre o Pentágono e o exército de Honduras e à enorme influência econômica estadunidense no país centroamericano, teria sido muito simples para Obama unir-se aos esforços latinoamericanos e europeus para defender a democracia em Honduras. Mas Barack Obama optou pela política tradicional.

Em sua história das relações hemisféricas, o acadêmico britânico Gordon Connell-Smith escreve: "Enquanto fala, da boca para fora, em defesa de uma democracia representativa para a América Latina, os Estados Unidos têm importantes interesses que vão justamente na direção contrária e que exigem um modelo de democracia meramente formal, especialmente com eleições que, com muita freqüência, resultam numa farsa".

Uma democracia funcional pode responder às preocupações do povo, enquanto os EUA estão mais preocupados em construir as condições mais favoráveis para seus investimentos privados no exterior? Requer-se uma grande dose do que às vezes se chama de ignorância intencional para não ver esses fatos. Uma cegueira assim deve ser zelosamente guardada se é que se deseja que a violência de Estado siga seu curso e cumpra sua função. Sempre em favor da humanidade, é claro, como nos lembrou Obama mais uma vez ao receber o Prêmio Nobel.

Tradução: Katarina Peixoto

Os EUA já têm 13 bases militares em tono da Venezuela

Por Ignacio Ramonet*

A chegada de Hugo Chávez ao poder, na Venezuela, em 2 de fevereiro de 1999, coincidiu com um acontecimento militar traumático para os Estados Unidos: o fechamento de sua principal instalação militar na região, a base Howard, situada no Panamá (fechada em virtude dos Tratados Torrijos-Carter, de 1977).

Em troca, o Pentágono escolheu quatro localidades para controlar a região: Manta, no Equador; Comalapa, em El Salvador, e as ilhas de Aruba e Curazao (de soberania holandesa). A suas – por assim dizer –“tradicionais” missões de espionagem, acrescentou novas atribuições oficiais a estas bases (vigiar o narcotráfico e combater a imigração clandestina para os EUA) e outras tarefas encobertas: lutar contra os insurgentes colombianos; controlar os fluxos de petróleo e minerais, os recursos de água doce e a biodiversidade. Mas, desde o início, seus principais objetivos foram vigiar a Venezuela e desestabilizar a Revolução Bolivariana.

Após os atentados de 11 de setembro de 2001, o Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, definiu uma nova doutrina militar para enfrentar o “terrorismo internacional”. Modificou a estratégia de deslocamento no exterior, fundada na existência de enormes bases dotados de numeroso pessoal. E decidiu substituir essas mega-bases por um número mais elevado de Foreing Operating Location (FOL) e de Cooperative Security Locations (CSL), com pouco pessoal militar, mas equipado com tecnologias ultramodernas de detecção.

Resultado: em pouco tempo, a quantidade de instalações militares estadunidenses no estrangeiro de multiplicou, alcançando a insólita soma de 865 bases de tipo FOL ou CSL distribuídas em 46 países. Jamais na história uma potência multiplicou de tal modo seus postos militares de controle para espalhar-se pelo planeta.

Na América Latina, a reorganização de bases permitiu que a de Manta (Equador) colaborasse com o fracassado golpe de Estado de 11 de abril de 2002 contra o presidente Chávez. A partir daí, uma campanha midiática dirigida por Washington começou a difundir falsas informações sobre a suposta presença neste país de céculas de organizações como Hamás, Hezbolá e até Al Qaeda.

Com o pretexto de vigiar tais movimentos e em represália contra o governo de Caracas que, em maio de 2004, pôs fim a meio século de presença militar estadunidense na Venezuela, o Pentágono ampliou o uso de suas bases militares nas ilhas de Aruba e Curazao, situadas muito perto das costas venezuelanas, onde ultimamente tem se incrementado a visita de navios de guerra dos EUA. Esse fato foi recentemente denunciado pelo presidente Chávez:

“É bom que a Europa saiba que o império norte-americano está armando-se até os dentes, enchendo de aviões e navios de guerra as ilhas de Aruba e Curazao. (...) Estou acusando a Holanda de estar preparando, junto com o império yanqui, uma agressão contra a Venezuela” (1).

Em 2006, começa-se a falar em Caracas do “socialismo do século XXI, nasce a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) e Hugo Chávez é reeleito presidente. Washington reage impondo um embargo sobre a venda de armas para a Venezuela, sob o pretexto de que Caracas “não colabora suficientemente na guerra contra o terrorismo”. Os aviões F-16 da Força Aérea Venezuela ficaram sem peças de reposição. Diante desta situação, as autoridades venezuelanas estabeleceram um acordo com a Rússia para dotar a sua força aérea de aviões Sukhoi. Washington denunciou um suposto “rearmamento massivo” da Venezuela, omitindo que os principais orçamentos militares na América Latina, hoje, são os do Brasil, da Colômbia e do Chile. E que, a cada ano, a Colômbia recebe uma ajuda militar estadunidense de 630 milhões de dólares.

A partir daí, os acontecimentos se aceleram. No dia 1° de março de 2008, apoiadas pela base de Manta, as forças colombianas atacam um acampamento das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (FARC), situado no interior do território do Equador. Quito, em represália, decide não renovar o acordo sobre a base de Manta, que vencia em novembro de 2009. Washington respondeu, no mês seguinte, com a reativação da IV Frota (desativada em 1948, há 60 anos...) cuja missão é vigiar a costa atlântica da América do Sul. Um mês mais tarde, os Estados sulamericanos, reunidos em Brasília, replicam criando a União de Nações Sulamericanas (UNASUL) e, em março de 2009, o Conselho de Defesa Sulamericano.

Algumas semanas depois, o embaixador do EUA em Bogotá anuncia que a base de Manta seria transferida para Palanquero, na Colômbia.

Em junho, com o apoio da base estadunidense de Soto Cano, se produz o golpe de Estado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya que havia conseguido integrar seu país na ALBA. Em agosto, o pentágono anuncia que terá sete novas bases militares na Colômbia. E, em outubro, o presidente conservador do Panamá, Ricardo Martinelli, admite que cedeu aos EUA o uso de quatro novas bases militares.

Deste modo, a Venezuela e a Revolução Bolivariana se vêem hoje rodeadas por nada menos do que 13 bases estadunidenses na Colômbia, Panamá, Aruba e Curazao, assim como pelos porta-aviões e navios de guerra da IV Frota. O presidente Obama parece ter deixado o Pentágono de mãos livres neste tema. Tudo anuncia uma agressão iminente. Os povos da América Latina consentirão que um novo crime contra a democracia seja cometido na região?

(1) Discurso no Encontro da ALBA com movimentos sociais da Dinamarca, em Copenhague, dia 17 de dezembro de 2009

* Ignacio Ramonet é jornalista, foi diretor do Le Monde Diplomatique entre 1990 e 2008.

Tradução: Katarina Peixoto

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Marx: naturalismo e história

O que pode ser preservado do marxismo hoje? Marx é realmente um filósofo? Em que sentido ele nos libertou de Hegel e nos aproximou de uma posição naturalista? Por que, para Marx, não há um sentido na história? Marcel Conche, professor emérito na Sorbonne, nos convida a entender a posição do Marx filósofo, não a do historiador nem a do economista. E o modo como Marx lê a tradição filosófica que lhe era contemporânea fortemente marcada pelo legado hegeliano, retomando nos pré-socráticos as fontes teóricas para a sua crítica da finalidade na história.


Marcel Conche - Le Nouvel Observateur

Em outubro de 2003, a revista francesa Le Nouvel Observateur dedicou um número especial à obra de Karl Marx. Cinco anos antes da hecatombe econômica mundial de 2008, a publicação perguntava: Marx pode ser o pensador do terceiro milênio? Como escapar da mercantilização do mundo? Com a eclosão da crise que abalou o sistema financeiro internacional, Marx “voltou à moda”. Um retorno positivo, pois traz de volta ao cenário intelectual um gigante do pensamento humano, mas que precisa enfrentar uma série de clichês, mitos e deformações teóricas que se construíram em torno e invariavelmente contra as idéias do autor de “O Capital”. Um dos méritos da publicação francesa é apontar algumas idéias e metodologias investigativas de Marx que podem nos ajudar a entender (e transformar) o mundo neste início de século XXI.

No artigo intitulado “Marx philosophe: matérialiste, hélas!”, Marcel Conche, professor emérito da Sorbonne, propõe-se a responder ou, ao menos, a indicar o caminho de resposta para algumas perguntas importantes sobre a obra de Marx: O que pode ser preservado do marxismo hoje? Marx é realmente um filósofo? Qual era a paixão de Marx? Em que sentido ele nos libertou de Hegel e nos aproximou de uma posição naturalista? Por que, para Marx, não há um sentido na história? Para Conche, o materialismo de Marx está preso a um inimigo do passado (o idealismo) e, neste sentido, olha para trás. Por outro lado, ao nos libertar de algumas idéias de Hegel deixa um legado para pensarmos uma filosofia da Natureza e da finitude, uma “filosofia para o amanhã”.

Mais do que defender a atualidade de Marx, ou antes de fazê-lo, Conche nos convida a entender uma posição, a de Marx filósofo, não a de historiador nem a de economista. E o modo como Marx lê a tradição filosófica que lhe era contemporânea - e fortemente marcada pelo legado hegeliano -, retomando nos clássicos pré-socráticos as fontes teóricas para a sua crítica da finalidade na história. Essa crítica é, vale dizer, uma grande desconhecida do ambiente de debate público que foi consolidado há pouco mais de 30 anos, no mundo. No período que se seguiu aos ditames financistas dominantes, a mercantilização avançou sobre a informação e a consumiu, inclusive com a carapaça de que o marxismo defendia um fim na história, com base em aberrações teóricas autoritárias datadas e obviamente na má-fé que precificou a informação, especialmente a brasileira, ao longo das últimas décadas.

O texto de Marcel Conche não traz qualquer novidade, nem uma leitura peculiarmente interessante da obra de Marx. Ele traz Marx, enquanto filósofo, inclusive da história. Só isso e tudo isso. A Carta Maior seguirá oferecendo os seus leitores outras contribuições que julgarmos válidas para esclarecer, informar e contribuir, na pequena parte que nos cabe, a formar um ambiente não-mercantil de informação no país. Segue o artigo:

Marx, filósofo: materialista, hélas! (Marcel Conche)

Publicado originalmente no Le Nouvel Observateur – Hors-Série, edição outubro/novembro de 2003

Há alguns anos, em “Viver e Filosofar” (“Vivre et Philosopher”, PUF, 1992), respondi às questões de Lucille Laveggi. Uma delas era esta: “O que hoje em dia você preserva do marxismo?”. A resposta foi esta: “Entendendo por marxismo unicamente o conjunto das idéias de Karl Marx, preservo delas alguma coisa? Parece-me que sim, mas num domínio, o da economia política, que eu ao mesmo tempo abandono como dele. Não tenho nada a dizer nesse domínio, o da economia política, mas a repartição desigual e injusta dos bens materiais é um fato que é preciso explicar, e ele o explicou. Isso quer dizer que sou marxista? Não, não mais do que sou newtoniano por admitir a lei universal da gravidade. 'Eu não sou marxista', diria o próprio Marx, querendo com isso dizer que ele não tinha a mais para se dizer marxista do que o tinha Newton para se dizer newtoniano” (p. 151). É que se trata de ciência, que é impessoal: é o espaço que é euclidiano, não o geômetra.

Deixando de lado a análise da exploração capitalista, que hoje em dia teria somente de ser atualizada – mas seria necessário para tanto um novo Marx – e, portanto, deixando de lado o Marx sábio, eu me volto ao Marx filósofo. Mas ele é realmente um filósofo? “Os filósofos dedicaram-se somente a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é transformá-lo”, diz a tese XI das “Teses sobre Feuerbach”. Que seja preciso transformar o mundo, a injustiça e a desigualdade que nele reinam, tudo bem. Mas desde quando isso é o papel do filósofo? A filosofia se define como busca da verdade – não dessa ou daquela, mas da realidade em seu conjunto: o que, dessas verdades, é o Todo da realidade? É nesse sentido que o filósofo tem a paixão da verdade. E é essa a paixão de Marx? De modo algum – pois ele não pode esquecer os homens. A paixão de Marx é a paixão moral. Observem o que Hans Jonas escreveu: “É impossível imaginar Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo sem um grau supremo de paixão – a paixão do bem que era objeto de suas visões: eles eram naturezas morais, voltadas a um fim trans-pessoal” (“O Princípio Responsabilidade”), Cerf, 1992, p. 162). Isso vale do mesmo modo para Marx. Pacifista, se eu mesmo sou uma “natureza moral” o sou antes no sentido kantiano. O pacifista “tem as mãos puras, mas não tem mãos”, dizia Péguy. Falso dilema, pois a escolha é: ter as mãos puras ou sangrentas. Eu recuso a violência, mesmo visando ao bem. Para falar como Sartre, os capitalistas são “sujos”. Que seja! Mas os filhos dos capitalistas são inocentes.

Em vista do bem é preciso “revolucionar o mundo existente.” Para tanto, é preciso primeiro conhecer esse mundo. Daí vem a ciência do “Capital” - ciência comparável, diz Marx, não à física, mas à biologia. Contudo, o método são poderia ser experimental, a la Claude Bernard. É necessário um método que permita pensar um mundo, quer dizer, uma totalidade. É exatamente isso o que o método dialético de Hegel permite. É suficiente despojá-lo de sua carapaça mística, de distinguir nele seu fundo racional. Althusser erra ao querer caracterizar a especificidade da dialética com a ajuda de conceitos emprestados à psicanálise, onde eles designam mecanismos de elaboração do sonho. Mas ele tem razão quando diz que a dialética com que Marx opera “não retém essencialmente quaisquer dos conceitos hegelianos, nem a negatividade, nem a negação, nem a cisão, nem a negação da negação, nem a alienação, nem a superação” (“Pour Marx”, Maspero, 1966, p.223, nota 52). Decerto a contradição é “a fonte de toda dialética” (“O Capital”, Editions Sociales, T. III, p. 37, nota 2); mas por contradição aqui é preciso entender simplesmente a unidade dos contrários e, no “Capital” Marx pensa em termos de unidade de contrários: não em termos hegelianos, mas heraclitianos. Marx nos libertou de Hegel: sem ele, Nietzsche, Bergson teriam sido possíveis?

O que significa passar de Hegel a Heráclito, do idealismo especulativo ao naturalismo? Significa cessar de usar a dialética para escamotear o tempo. Porque o tempo não é superável: não se o escamoteia. O movimento do pensamento não deve ser absolutizado, como em Hegel, onde ele se torna “o demiurgo da realidade”: ele não é, em sua realidade, senão a “reflexão do movimento real”. Por movimento real é preciso entender: movimento que implica o tempo – um tempo histórico. Em Hegel, o movimento real não ocorre na Enciclopédia, mas com a “História Universal”. Assim, o movimento real não é essencial à dialética. É somente na história universal que a dialética se entronca com o movimento real. Mas, não sendo a história universal senão um momento, é superada. E nisso reside a diferença radical com Marx: em Hegel, a História é justificada e superada; em Marx, não há superação da História. Isso quer dizer que não há “um sentido na história” já encerrado na Idéia eterna.

Em Hegel, o movimento é superado, pois a Causa do movimento é, como em Aristóteles, a Idéia eterna. Em Marx, não há outras causas que não as contradições inerentes às formas existentes e o movimento não é superado. Como o movimento está ligado à contradição, isso quer dizer que esta não é superável. Todas as contradições particulares são superáveis, mas a contradição como tal não o é. Como em Heráclito, onde o devir não é superável, sempre houve e haverá movimento, e nada mais: aparecimento e desaparecimento perpétuos das formas. Só resta à dialética as coisas finitas: só há finitos – e essa é a essência do materialismo, segundo Hegel.

A dialética significa, em Marx, a auto-supressão daquilo que é. Daí que não há nada de absoluto, nada que seja imune à instabilidade e que não venha a desaparecer. Em particular, o modo de produção capitalista não poderia ser considerado, a exemplo de Ricardo, como um absoluto. A lei da queda tendencial da taxa de lucro o mostra, criando seu próprio limite. Essa limitação testemunha “o caráter limitado e puramente histórico, transitório, do sistema de produção capitalista” (“O Capital”, Editions Sociales, T. VI, p.255). O modo de produção capitalista suprime a si mesmo, cria ele mesmo as condições de um modo de produção “superior” (p. 271). A substituição de um certo modo de produção por um outro, esse é o sentido aproximado da história que vivemos. E não há outro sentido senão o aproximado. A história não é finalista, ela não tem um sentido geral definido anteriormente, pois dedução alguma pode substituir a história real. A dialética vai do abstrato ao concreto, mas o concreto é “o verdadeiro ponto de partida”: ela portanto não teria nada a ver com o concreto que será mas ainda não o é. Ela nos dá a inteligência da história em sua necessidade, mas [a necessidade] da história real, efetivada, não da história que ainda não é real. Ela não permite absolutamente a antecipação. Antecipar seria ainda um modo de escamotear o tempo. Ora, a dialética só tem sentido como reflexão do movimento real, o qual supõe a absoluta realidade do tempo.

Não há disso tudo nada que não me pareça justo. Seria o caso de me chamar materialista? Não me sinto inclinado a tanto. Naturalista, sim; materialista, não. Pois eu filosofo a partir do que se mostra, do que se oferece a mim. Ora, o que se oferece a mim é a Natureza, não a matéria. A Natureza é um dado, não um conceito: a matéria é um conceito, não um dado. A Natureza está aí tanto como um Todo infinito. Isso é claro para aqueles que, a exemplo de Pascal ou de Spinoza, sabem chegar, aquém das evidências comuns, a uma evidência primeira, mais imediata. E o naturalismo espontâneo se confirma pela reflexão. Nele não pode haver senão finitos (seres finitos). O finito pressupõe o infinito... Mas eu não posso me engajar aqui na querela do infinito atual.

O que me deixa reservado e distante do nível materialista é ainda isto. O materialismo marxista é uma filosofia reativa e uma filosofia de combate. Por isso mesmo, resta numa dependência daquilo a que se opõe. Marx filósofo gasta muita energia criticando os outros – Hegel, Feuerbach, Bruno Bauer, Max Stirner, etc. Por que ele não se dedica às coisas mesmas, em vez de deixá-las nos livros? É isso o que ele faz na Economia, onde se trata, é verdade, de ciência, não de interpretação. Por sua dependência do seu passado e de seu inimigo, o idealismo, o materialismo de Marx é uma filosofia que olha para trás. Qual a filosofia para o amanhã? Porque a Natureza é unicamente o que se oferece a todos os homens, seria uma filosofia da Natureza. Marx a tornou possível ao nos libertar de Hegel (para quem a filosofia “da Natureza” só existe no título).

Marcel Conche é professor emérito da Sorbonne.

Tradução: Katarina Peixoto

Colômbia: contra a impunidade, a memória

Comitê de Solidariedade ao Povo Colombiano

Atividades no Fórum Social Mundial (São Leopoldo)

De 25 a 29 de janeiro de 2010



Exposição fotográfica permanente sobre atores sociais em resistência, crimes de estado -vitimização e impunidade- e processos de defesa e dignificação da memória: Escola Superior de Teologia. Organização Filhos e Filhas pela Memória e Contra a Impunidade na Colômbia.

1. A Memória Cresce: exposição de processos organizativos, denúncia de impunidade nos casos das vítimas de crimes de Estado, processos de resistência na Colômbia. Exposição fotográfica sobre as vítimas e de luta pela verdade, a justiça e a reparação.

2. Galeria da Memória: fotografias de múltiplos casos de pessoas desaparecidas, assassinadas e torturadas pelo Estado colombiano e os grupos paramilitares.

Terça-feira 26 de janeiro 2010

· Palestra: Memórias para a resistência: Julián Beltrán, Organização Filhos e Filhas pela Memória e Contra a Impunidade na Colômbia: 14:00 às 15:00

· Palestra: Falsos positivos e pacificação: Héctor Moncayo, Instituto Latino-americano de Serviços Sociais Alternativos (ILSA): 15:00 às 16:00

· Palestra: 25 años de impunidad, 25 años de lucha. Maria Fernanda Carrillo, Organização Filhos e Filhas pela Memória e Contra a Impunidade na Colômbia: 16:00 às 17:00

· Debate: Direitos humanos na Colômbia: exibição do filme El Baile Rojo: Comitê de Solidariedade ao Povo Colombiano: 17:30 às 19:00


Quinta-feira 28 de janeiro de 2010

Festa colombiana: inicio às 20:30. Ingressos a R$15,00 com direito a sancocho (prato típico da Colômbia) e muita música típica do caribe colombiano.


Todas as atividades serão realizadas na Escola Superior de Teologia: Rua Amadeo Rossi, 467 - Bairro: Morro do Espelho, São Leopoldo - RS


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Outra Colômbia é possível!!

Fórum Social Mundial, décima edição

O discurso autonomista, tão proeminente nas primeiras edições do Fórum Social Mundial, apresenta-se hoje como uma relíquia exótica, desprovido de vida e conexão com a realidade. O que explica a irrelevância à qual, pouco a pouco, vai sendo condenado o próprio Fórum.

Breno Altman

Os milhares de ativistas que se reunirão em Porto Alegre, no final desse mês, terão várias razões para comemorar seu feito. Mas também estarão diante do fracasso de um dos conceitos estratégicos que levou à convocação do Fórum Social Mundial no início desse século.

Quando a primeira edição ocorreu, em 2001, as forças progressistas viviam ainda um forte ciclo de dispersão e recuo, apesar das manifestações anti-globalização em Seattle, Washington e Praga durante reuniões de organismos financeiros multilaterais. Os focos de resistência, mesmo se multiplicando, ainda não eram capazes de forjar alternativa ao mundo unipolar surgido após o colapso da União Soviética.

Desse quadro tampouco escapava a América Latina, território onde a hegemonia do neoliberalismo revelava sinais mais evidentes de fadiga, com a ruína de diversas administrações alinhadas com o Consenso de Washington.

A vitória eleitoral do venezuelano Hugo Chávez, em 1998, significara um passo importante na construção de cenário mais positivo para a esquerda, ladeada pela bancarrota do governo conservador equatoriano e pela crise política que, na Argentina, acabaria por desembocar na rebelião contra o governo De La Rua. Mas esses fatos, por relevantes que fossem, ainda não indicavam uma reviravolta continental nos idos de 2001.

O Fórum Social Mundial foi, então, a primeira iniciativa planetária, em muitos anos, capaz de reunir os brotos de mobilização político-social contra a coalizão imperialista liderada pelos Estados Unidos. Sua primeira edição, e algumas das seguintes, deram rosto ao protesto contra o desenho de mundo forjado pelos monopólios e seus governos.

Um dos segredos para reunir correntes e experiências tão diversas talvez residisse, para além do formato de uma feira mundial de idéias, no argumento-força de que os protagonistas do evento deveriam ser os movimentos sociais e as organizações não-governamentais. Havia uma declarada marginalização de partidos e governos, que apenas perifericamente puderam participar das atividades programadas.

Não se tratava de um truque organizativo. Entre os principais articuladores do Fórum, com expressiva repercussão em fatias eventualmente majoritárias dos ativistas presentes, predominava o ponto de vista de que o centro dinâmico de uma estratégia progressista tinha se transferido do Estado para a sociedade, dos partidos para os movimentos, da política institucional para as redes sociais.

Essa opção permitiu construir um arco amplo de participação, além de abrir espaços na couraça midiática. Na prática, o Fórum se apresentava como a negação da forma-política que faz parte da herança genética da esquerda. Apostava na horizontalização contra a verticalização, nas pautas de reivindicação contra os programas de governo, na resistência social contra a alternativa de poder. Muita gente podia entrar nesse barco.

Tal formatação revelou-se, com o passar do tempo, a benção e a agonia do Fórum. Não há dúvidas de que permitiu um impulso inicial sem precedentes, mas se provou um fracasso estrondoso como caminho estratégico.

Afinal, a recuperação política da esquerda, ao menos onde acontece com relevância, como é o caso da América Latina, passou centralmente pelo papel dos partidos e da política, pela conquista de governos e sua defesa. Mesmo as forças acumuladas pelos movimentos sociais confluíram para esse leito, auxiliando a desgastar e a isolar os blocos conservadores.

O discurso autonomista, tão proeminente nas primeiras edições do Fórum, apresenta-se hoje como uma relíquia exótica, desprovido de vida e conexão com a realidade. O que explica a irrelevância à qual, pouco a pouco, vai sendo condenado o próprio Fórum, de onde antes partiam tantas vozes que anunciavam o ocaso da forma-partido.

Já sem o brilho e a capacidade convocatória de suas primeiras edições, o Fórum Social Mundial volta a Porto Alegre. Nada indica que terá a mesma pujança do nascedouro, quando poderia ter desempenhado um papel de maior destaque na composição entre partidos, governos, intelectualidade e movimentos sociais.

Acabou aprisionado a fórmulas que garantiram sucessos iniciais, de público e crítica, mas que acabaram por limitar seus horizontes a uma estrutura de congraçamento, debate e inação.

Breno Altman é jornalista, diretor do site Opera Mundi (www.operamundi.com.br)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Argentinos formados em Cuba inauguram consultório médico

ARGENTINOS formados na Escola Latino-Americana de Medicina (Elam), de Havana, inauguraram, em 28 de dezembro passado, a Casa Tatu, um consultório para o atendimento a habitantes dum bairro de extrema-pobreza de Buenos Aires.

A secretária-geral do Projeto Tatu, Teresa Singer, destacou em suas palavras de agradecimento aos moradores que construíram o local, que esse sonho leva por nome o pseudônimo de Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como o Che, quando lutava pela libertação da África.

Após ressaltar o gesto generoso de Cuba, ao formar médicos jovens como ela, de bairros muito humildes, disse que a Elam forma dois mil por ano, procedentes dessas comunidades de todo o mundo, partilhando tudo sem pedir nada em troca.

"Hoje dedicamos" – disse – "a abertura da casa de atendimento integral ao médico argentino-cubano Ernesto Che Guevara, ao povo cubano, a Fidel Castro Ruz e com certeza a vocês companheiros", expressou a jovem doutora, em meio dos aplausos da multidão.

A Proposta Tatu, uma iniciativa nascida em 2001, ao partirem para Cuba a estudar, foi executada em 2007 em bairros degradados bonaerenses, quando ainda não tinham validado seus títulos, por considerarem que não tinham direito a esperar, de acordo com o publicado pelo site Cubadebate.

Desde então, abriram 14 pontos de atendimento, dirigidos prioritariamente às crianças.
Um dos ativistas de mais destaque, o doutor Alejo Moreira, graduado da Elam, nasceu e foi criado num bairro-da-lata, a maioria cabanas de madeira e de chapas, agora com 20 mil habitantes, dos quais sete mil são crianças.

Na jornada, à qual assistiu Carlos Calica Ferrer, amigo da infância e companheiro de Ernesto Guevara, em sua segunda viagem pela América Latina, em 1953, se entregaram brinquedos e guloseimas às crianças, doados pela gestão de Proposta Tatu perante associações comerciais e sociais.

O mundo meio século depois

Reflexões do Companheiro Fidel

• AO se comemorar, há dois dias, o 51º aniversário do triunfo da Revolução, vieram a minha mente as lembranças daquele 1º de janeiro de 1959. Nenhum de nós nunca fez a peregrina idéia de que, depois de meio século, que passou voando, estaríamos lembrando-o como se fosse ontem.

Na reunião na usina açucareira "Oriente", em 28 de dezembro de 1958, com o comandante-em-chefe das forças inimigas, cujas unidades elites foram cercadas e ficaram sem nenhuma saída, ele reconheceu a sua derrota e fez um apelo a nossa generosidade para encontrar uma saída decorosa para o resto de suas forças. Sabia do nosso tratamento humano aos prisioneiros e feridos sem exceção alguma. Aceitou o acordo que lhe propus, embora o advertisse que as operações em andamento continuariam.

Mas viajou para a capital e, instigado pela embaixada dos Estados Unidos, promoveu um golpe de Estado.

Nós preparávamo-nos para os combates desse dia, 1º de janeiro, quando na madrugada chegou a notícia sobre a fuga do tirano. O Exército Rebelde recebeu ordens de não admitir o cessar-fogo e continuar os combates em todos os fronts. Através da Rádio Rebelde, foram convocados os trabalhadores para uma Greve Geral Revolucionária, apoiada imediatamente por toda a nação. A tentativa golpista foi derrotada e nesse mesmo dia, à tarde, as nossas tropas vitoriosas entraram em Santiago de Cuba.

O Che e Camilo receberam instruções de avançarem rapidamente pela estrada, em veículos motorizados com suas aguerridas forças, para La Cabaña e para o Acampamento Militar de Columbia. O exército adversário, atingido em todos os fronts, não podia resistir. O povo revoltado ocupou os centros de repressão e as delegacias. No dia 2, à tarde, acompanhado de uma pequena escolta, reuni-me num estádio de Bayamo com mais de dois mil soldados dos tanques, da artilharia e da infantaria motorizada, aos quais havíamos combatido até o dia anterior. Ainda portavam o seu armamento.

Tínhamos ganhado o respeito do adversário com nossos audazes, mas humanitários métodos de guerra irregular. Assim, em apenas quatro dias — depois de 25 meses de guerra, que reiniciamos com alguns fuzis — ao redor de cem mil armas de ar, mar e terra e todo o poder do Estado ficaram nas mãos da Revolução. Em apenas poucas linhas relato o acontecido naqueles dias, há 51 anos.

Começou, então, a batalha principal: preservar a independência de Cuba face ao império mais poderoso que tenha existido, e que nosso povo travou com grande dignidade. Hoje, satisfaz-me ver aqueles que, por cima de incríveis obstáculos, sacrifícios e riscos, souberam defender nossa Pátria, e nestes dias, junto aos seus filhos, pais e entes mais queridos, desfrutam da alegria e das glórias de cada ano novo.

No entanto, os dias de hoje parecem-se em nada com os de ontem. Vivemos uma época nova que não se parece com nenhuma outra da história. Antes, os povos lutavam e lutam ainda com honra em prol de um mundo melhor e mais justo, mais hoje têm que lutar, além disso, e sem nenhuma alternativa, pela própria sobrevivência da espécie. Não sabemos absolutamente nada se ignoramos isso. Sem dúvida,

Cuba é politicamente um dos países mais instruídos do planeta; partiu do mais vergonhoso analfabetismo, e o que é ainda pior: nossos amos ianques e a burguesia associada aos donos estrangeiros eram os proprietários das terras, usinas açucareiras, fábricas produtoras de bens de consumo, armazéns, comércios, eletricidade, telefones, bancos, minas, seguros, cais, bares, hotéis, escritórios, moradias, cinemas, impressoras, revistas, jornais, rádio, da nascente televisão e de tudo aquilo que tivesse um valor considerável.

Os ianques, apagadas as ardentes chamas de nossas batalhas pela liberdade, atribuíram-se o direito de pensarem por um povo que tanto lutou por ser dono de sua independência, de suas riquezas e de seu destino. Nada, nem sequer o direito de termos ideias políticas, nos pertencia. Quantos sabíamos ler e escrever? Quantos tínhamos atingido pelo menos a sexta série? Lembro-me disso especialmente um dia como hoje, porque esse era o país que supostamente pertencia aos cubanos. Não menciono outras coisas, porque teria que incluir muitas mais, entre elas, as melhores escolas, os melhores hospitais, as melhores casas, os melhores médicos, os melhores advogados. Quantos tínhamos direito a isso? Quem tinha, salvo alguns, o direito natural e divino de ser administrador e chefe?

Nenhum milionário ou pessoa rica, sem exceção, deixava de ser chefe de Partido, senador, representante ou funcionário importante. Essa era a democracia representativa e pura que imperava em nossa Pátria, a não ser que os ianques impusessem, à vontade, tiranos desumanos e cruéis quando mais convinha aos seus interesses para defenderem melhor suas propriedades perante camponeses sem terra e operários com ou sem emprego. Como já ninguém fala sequer disso, atrevo-me a lembrá-lo. Nosso país faz parte de mais de 150 que constituem o Terceiro Mundo, que serão os primeiros, porém não os únicos, a sofrerem as incríveis conseqüências, se a humanidade não toma consciência de maneira clara, certa e muito mais rápida do que imaginamos, da realidade e das conseqüências da mudança climática provocada pelo homem, se não se consegue impedi-la a tempo.

Nossos meios de comunicação social dedicaram espaços a descrever os efeitos da mudança climática.

Os furacões de crescente intensidade, as secas e outras calamidades naturais, contribuíram também para a educação de nosso povo a respeito do assunto. Um fato singular, a batalha contra o problema climático travada na Cúpula de Copenhague, contribuiu para o conhecimento do iminente perigo. Não se trata de um risco em longo prazo, para o século 22, mas para o 21, nem tampouco é para a segunda metade deste século, mas para as próximas décadas, durante as quais já começaríamos a sofrer as terríveis conseqüências.

Também não se trata de uma simples ação contra o império e seus aliados, que nisto como em tudo, tentam impor seus estúpidos e egoístas interesses, mas de uma batalha de opinião mundial que não se pode deixar à espontaneidade nem ao arbítrio da maioria dos seus meios de comunicação. É uma situação, felizmente, conhecida por milhões de pessoas honradas e corajosas no mundo, uma batalha a travar com as massas e no seio das organizações sociais e instituições científicas, culturais, humanitárias e outras de caráter internacional, muito especialmente no seio das Nações Unidas, onde o governo dos Estados Unidos, seus aliados da OTAN e os países mais ricos tentaram desferir, na Dinamarca, um golpe fraudulento e antidemocrático no resto dos países emergentes e pobres do Terceiro Mundo.

Em Copenhague, a delegação cubana, que assistiu junto a outras da ALBA e do Terceiro Mundo, viu-se obrigada a travar uma grande luta diante dos incríveis fatos que aconteceram com o discurso do presidente ianque, Barack Obama, e do grupo de Estados mais ricos do planeta, determinados a desfazerem os compromissos vinculantes de Kyoto — onde há mais de 12 anos foi discutido o espinhoso problema — e a fazerem cair o peso dos sacrifícios sobre os países emergentes e os subdesenvolvidos, que são os mais pobres e, ao mesmo tempo, os principais fornecedores de matérias-primas e de recursos não-renováveis do planeta aos mais desenvolvidos e opulentos.

Em Copenhague, Obama participou no último dia da Conferência, iniciada em 7 de dezembro. O pior de sua conduta foi que, quando já tinha decidido enviar 30 mil soldados para a chacina do Afeganistão — um país de forte tradição independentista, ao qual nem sequer os ingleses durante seus melhores e mais cruéis tempos puderam submeter — foi a Oslo para receber nada menos que o Prêmio Nobel da Paz. Ele chegou à capital norueguesa em 10 de dezembro, onde proferiu um discurso vazio, demagógico e justificativo. No dia 18, que era a data da última sessão da Cúpula, apareceu em Copenhague, onde pensava permanecer inicialmente apenas oito horas. No dia anterior, chegaram a secretária de Estado e um grupo seleto de seus melhores estrategistas.

A primeira coisa que Obama fez foi selecionar um grupo de convidados que teve a honra de acompanhá-lo para proferir um discurso na Cúpula. O primeiro-ministro dinamarquês, que presidia a Cúpula, complacente e bajulador, deu a palavra ao grupo que apenas ultrapassava 15 pessoas. O chefe imperial merecia honras especiais. O seu discurso foi uma mistura de palavras adoçantes temperadas com gestos teatrais, que já cansam quem, como eu, se propus a tarefa de escutá-lo para tentar ser objetivo na apreciação de suas características e intenções políticas. Obama impôs ao seu dócil anfitrião dinamarquês que apenas seus convidados poderiam discursar, embora ele, assim que proferiu seu discurso, "saiu do fórum" pela porta traseira, como duende que foge de um auditório que lhe fez a honra de escutá-lo com interesse.

Após terminar a lista autorizada de oradores, um indígena aimara da gema, Evo Morales, presidente da Bolívia, que acabava de ser reeleito com 65% dos votos, exigiu o seu direito de discursar, concedido perante o aplauso da maioria dos assistentes. Em apenas nove minutos, exprimiu profundos e dignos conceitos respondendo às palavras do ausente presidente dos Estados Unidos. A seguir, Hugo Chávez pôs-se em pé e pediu a palavra em nome da República Bolivariana da Venezuela; quem presidia a sessão não teve outra opção que dar-lhe também a palavra, que Chávez utilizou para improvisar um dos mais brilhantes discursos que tenha escutado. Ao concluir, uma martelada pôs fim à insólita sessão.

No entanto, o ocupadíssimo Obama e seu séquito não tinham um minuto a perder. Seu grupo tinha elaborado um projeto de Declaração, cheio de ambiguidades, que era a negação do Protocolo de Kyoto. Após sair precipitadamente do plenário, reuniu-se com outros grupos de convidados que não chegavam a 30, negociou em privado e em grupo; insistiu, mencionou cifras milionárias de notas verdes sem respaldo em ouro, que constantemente são desvalorizadas e até ameaçou de abandonar a reunião se não aceitavam suas demandas. O pior foi que se tratou de uma reunião de países muito ricos, para a qual convidaram diversas das mais importantes nações emergentes e duas o três nações pobres, às quais submeteu o documento, como quem propõe: Pega ou larga!

Essa declaração confusa, ambígua e contraditória — de cuja discussão não participou para nada a
Organização das Nações Unidas —, o primeiro-ministro dinamarquês tentou apresentá-la como Acordo da Cúpula. Já a Cúpula tinha concluído o seu período de sessões, quase todos os chefes de Estado, de Governo e ministros das Relações Exteriores haviam voltado aos seus respectivos países, e às 3h da madrugada, o distinto primeiro-ministro dinamarquês o apresentou ao plenário, onde centenas de sofridos funcionários, que fazia três dias não dormiam, receberam o embaraçoso documento, que deviam analisar em apenas uma hora e decidir sua aprovação.

Ali, a reunião tornou-se quente. Os delegados não tiveram tempo nem sequer de lê-lo. Alguns pediram a palavra. O primeiro foi o de Tuvalu, cujas ilhas teriam ficado sob as águas se tivesse sido aprovado esse documento; a seguir, falaram os delegados da Bolívia, da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua. O enfrentamento dialético às 3h da madrugada de 19 de dezembro é digno de passar à história, se a história durasse muito tempo, após a mudança climática.

Como em Cuba se sabe boa parte do acontecido, ou aparece nas páginas da web da internet, apenas me limitarei a expor em partes as duas contestações do chanceler cubano, Bruno Rodríguez, dignas de serem anotadas para conhecer os episódios finais da telenovela de Copenhague, e os elementos do último capítulo, que ainda não foram publicados em nosso país.

"Senhor presidente (primeiro-ministro da Dinamarca)... O documento que o senhor várias vezes afirmou que não existia, agora apareceu. Todos nós sabemos de versões que circulam de maneira sub-reptícia e que são discutidas em pequenas reuniões secretas, fora das salas em que a comunidade internacional, através de seus representantes, negocia de maneira transparente."

"Junto minha voz à dos representantes de Tuvalu, Venezuela e Bolívia. Cuba considera extremamente fraco e inadmissível o texto deste projeto apócrifo…"

"O documento que o senhor infelizmente apresenta não faz compromisso algum para reduzir as emissões de gases de efeito estufa."

"Conheço as versões anteriores que, através de procedimentos questionáveis e clandestinos, foram também negociadas em reuniões secretas que falavam, pelo menos, da redução de 50% para o ano 2050…"

"O documento que o senhor apresenta agora, omite, precisamente, as já magras e insuficientes frases chave que aquela versão continha. Este documento não garante, de maneira nenhuma, a adoção de medidas mínimas que permitam evitar uma gravíssima catástrofe para o planeta e para a espécie humana."

"Este documento vergonhoso que o senhor apresenta é também omisso e ambíguo quanto ao compromisso específico de redução de emissões de gases à atmosfera por parte dos países desenvolvidos, responsáveis pelo aquecimento global, devido ao nível histórico e atual de suas emissões, e aos quais cabe fazer reduções consideráveis de maneira imediata. Este documento não contém uma só palavra de compromisso por parte dos países desenvolvidos."

"… O seu texto, senhor presidente, é o atestado de óbito do Protocolo de Kyoto, que minha delegação não aceita."

"A delegação cubana deseja enfatizar a preeminência do princípio de ‘responsabilidades comuns, porém diferenciadas’, como conceito fundamental do processo futuro de negociações. O seu documento não diz uma só palavra a respeito disso."

"A delegação de Cuba reitera seu protesto pelas graves violações de procedimento ocorridas na condução antidemocrática do processo desta conferência, nomeadamente, mediante a utilização de formatos de debate e de negociação arbitrários, excludentes e discriminatórios…"

"Senhor presidente, solicito-lhe formalmente que esta declaração seja recolhida no relatório final sobre os trabalhos desta lamentável e vergonhosa 15ª Conferência das Partes."

O que ninguém pôde imaginar é que, depois de outro longo recesso e quando já todos pensavam que só faltavam os trâmites formais para concluir a Cúpula, o primeiro-ministro do país-sede, instigado pelos ianques, tentou novamente mostrar o documento como aprovado pela Cúpula, quando nem sequer ficavam chanceleres no plenário. Delegados da Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Cuba, que permaneceram vigilantes até o último instante, frustraram a última manobra em Copenhague.

Contudo, o assunto não acabou. Os poderosos não se acostumam, nem admitem resistência. Em 30 de dezembro, a Missão Permanente da Dinamarca nas Nações Unidas, em Nova Iorque, informou cortesmente à nossa Missão nessa cidade que tinha feito apontamentos do Acordo de Copenhague, em 18 de dezembro de 2009, e juntava uma cópia adiantada dessa decisão. Afirmou textualmente: "… o governo da Dinamarca, como presidente da COP15, convida as Partes da Convenção a informarem, por escrito e o antes possível, à Secretaria da UNFCCC, a decisão de se associar ao Acordo de Copenhague."
Esta comunicação inesperada motivou a resposta da Missão Permanente de Cuba nas Nações Unidas, na qual "…rejeita taxativamente a intenção de fazer aprovar, por via indireta, um texto que foi alvo de repúdio por parte de várias delegações, não só pela mornidão diante das sérias consequências da mudança climática, mas também por responder exclusivamente aos interesses de um grupo reduzido de Estados."

Por sua vez, originou uma carta do vice-primeiro-ministro de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente da República de Cuba, Doutor Fernando González Bermúdez, para o secretário-executivo da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, Sr. Yvo de Boer, alguns de cujos parágrafos transcrevemos:

"Recebemos com surpresa e preocupação a nota enviada pelo governo da Dinamarca às Missões Permanentes dos Estados-Membros das Nações Unidas em Nova Iorque, fato que o senhor certamente conhece, por meio da qual as partes da Convenção Marco das Nações Unidas foram exortadas a informarem à Secretaria Executiva, por escrito e o mais rápido possível, a decisão de se associarem ao denominado Acordo de Copenhague."

"Vemos também com preocupação que o governo da Dinamarca comunica que a Secretaria Executiva da Convenção incluirá no relatório da Conferência das Partes realizada em Copenhague uma lista das Partes que teriam manifestado sua decisão de se associarem ao referido Acordo."

"Em opinião da República de Cuba, esta forma de agir constitui uma grosseira e reprovável violação do que foi decidido em Copenhague, onde as Partes, diante da evidente falta de consenso, se limitaram a fazer apontamentos desse documento."

"Nada do que foi acertado na 15ª Conferência autoriza o governo da Dinamarca a adotar esta ação e, ainda menos, a Secretaria Executiva a incluir no relatório final uma lista das Partes, para o qual não tem mandato."

"Devo comunicar-lhe que o governo da República de Cuba rejeita firmemente esta nova tentativa de legitimar, por via indireta, um documento espúrio e reiterar-lhe que esta forma de agir compromete o resultado das futuras negociações, estabelece um perigoso precedente para os trabalhos da Convenção e prejudica, em particular, o espírito de boa fé com que as delegações deverão prosseguir o processo de negociações no ano próximo", concluiu o vice-primeiro-ministro de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Cuba.

Muitos têm certeza, particularmente os movimentos sociais e as pessoas melhor informadas das instituições humanitárias, culturais e científicas, de que o documento promovido pelos Estados Unidos constitui um retrocesso das posições alcançadas por aqueles que fazem o maior esforço para evitar uma catástrofe colossal para nossa espécie. Seria em vão repetir aqui cifras e fatos que demonstram matematicamente isso. Os dados aparecem nas páginas da web da internet e estão ao alcance de um número crescente de pessoas que interessadas no tema.

A teoria com que é defendida a adesão ao documento é fraca e representa um retrocesso. Invoca-se a ideia enganosa de que os países ricos contribuiriam com uma mísera quantia de US$30 bilhões em três anos para os países pobres a fim de financiar as despesas do enfrentamento à mudança climática, cifra que poderia aumentar para 100 mil a cada ano em 2020, o que neste gravíssimo problema, equivale a esperar para as calendas gregas. Os especialistas sabem que essas cifras são ridículas e inaceitáveis pelo volume de investimentos de que se precisa. A origem de tais somas é incerta e confusa, por conseguinte elas não comprometem ninguém.

Qual é o valor de um dólar? O que significam US$30 bilhões? Todo mundo sabe que, desde Bretton Woods, em 1944, até a ordem presidencial de Nixon em 1971 — dada para deixar cair sobre a economia mundial a despesa do genocídio contra o Vietnã —, o valor de um dólar, em ouro, foi se reduzindo até ser hoje aproximadamente 32 vezes menor que o daquela data; US$30 bilhões significam menos de um bilhão, e 100 mil divididos por 32, equivalem a 3.125, que hoje não dão nem para construir uma refinaria de petróleo de capacidade média.

Se os países industrializados cumprissem alguma vez a promessa de contribuir para os que estão em vias de desenvolvimento com 0,7% do PIB — o qual, exceto poucas vezes, nunca fizeram―, a cifra ultrapassaria US$250 bilhões a cada ano.

Para salvar os bancos, o governo dos Estados Unidos gastou US$800 bilhões. Quanto estaria disposto a gastar para salvar os 9 bilhões de pessoas que habitarão o planeta em 2050, se antes não ocorrem grandes secas e inundações provocadas pelo mar, devido ao degelo de calotas polares, e pelos grandes volumes de águas gélidas da Groenlândia e da Antártida?

Não nos deixemos enganar. O que os Estados Unidos queriam conseguir com suas manobras em Copenhague é dividir o Terceiro Mundo, afastar mais de 150 países subdesenvolvidos da China, da Índia, do Brasil, da África do Sul e de outros, com os quais devemos lutar juntos para defendermos, em Bonn, no México ou em qualquer outra conferência internacional, junto às organizações sociais, científicas e humanitárias, verdadeiros Acordos que beneficiem todos os países e preservem a humanidade de uma catástrofe que pode conduzir à extinção de nossa espécie.
O mundo possui cada vez mais informação, mas os políticos têm cada vez menos tempo para pensarem.
As nações ricas e seus líderes, incluído o Congresso dos Estados Unidos, parecem estar discutindo quem será o último a desaparecer.

Quando Obama terminar as 28 festas com que se propôs celebrar este Natal, se entre elas estiver incluída a dos Reis Magos, talvez Gaspar, Belquior e Baltazar lhe aconselhem o que deve fazer.
Gostaria pedir desculpas por me alongar. Não quis dividir em duas partes esta Reflexão. Peço desculpas aos pacientes leitores.

Fidel Castro Ruz
3 de janeiro de 2010
15h16 •

domingo, 3 de janeiro de 2010

Será possível um gelpe de Estado suave no Brasil?

Um ensaio para um golpe suave à Honduras

Pedro Ayres

Os últimos dias de 2009 foram bastante agitados aqui no Brasil em termos de mídia. De uma hora para a outra, sem nenhum tipo de aviso ou sinal, os mais tradicionais veículos de comunicação do país, sob a inequívoca liderança de "O Estado de São Paulo", divulgaram "informações"sobre uma possível crise político-militar envolvendo o ministro da defesa, Nelson Jobim, os comandantes das FF.AA e o Presidente da República. O motivo dessa "crise" tinha por base uma decisão do Programa Nacional de Direitos Humanos, que pretendia estudar diversos e vários casos de assassinatos, torturas e desaparecimentos acontecidos durante a Ditadura Militar que durou de 1964 a 1985. Segundo o trabalho de jornalistas, como Jânio de Freitas, Mario Augusto Jakobskind, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha, de blogs como o do deputado federal Brizola Neto e seus comentaristas, tudo não passou de uma trampa da mídia. Um típico balão-de-ensaio para avaliar as reais possibilidades de apoio militar para um "legal" afastamento do Presidente Lula, na versão brasileira do "golpe suave" que derrubou Manuel Zelaya do Poder em Honduras. Ontem, 31 de dezembro, o jornal "Correio do Brasil ", em longa matéria, divulga o desmentido por parte do governo brasileiro. Não houve e nem há nenhuma crise. Nem aconteceram fatos como os narrados pela grande mídia.

O fato é que a mídia tentou fazer um grande incêndio com muita fumaça. Por que? 2010 é um ano eleitoral de suma importância para os agentes políticos da direita nacional, pois, tudo indica que podem ser varridos da política nacional brasileira, restando-lhes, na melhor das hipóteses, o secundário papel de agentes regionais. Um quadro capaz de estimular qualquer aventura golpista, o que aliás nunca esteve fora de suas preocupações e desejos. Se a isso juntarmos aos claros objetivos da política externa dos Estados Unidos, teremos o alvo, os motivos e os instrumentos para uma tentativa de reviver 1964 no Brasil. Uma situação que parecia estar completamente superada, até que o Golpe de Honduras e o discurso de Obama em Oslo lembrou-nos de que o império tem razões que a própria razão desconhece.

Ainda que a vontade seja a de concordar com a tese de que são mínimos os riscos de um Golpe de Estado, é bom recordar que em 1964, mesmo depois das tentativas udenistas de Aragarças e Jacareacanga contra JK e da luta contra a posse de Jango, havia a crença de que as Forças Armadas jamais dariam um golpe. Uma crença que contrariava a própria história política e militar brasileira, rica em pronunciamentos militares, disfarçados em acordos entre as elites e eventuais reformas. Essa mesma ilusão também era conhecida no Chile de Frei e Allende, a tal ponto que quando do assassinato do general René Schneider e a despeito dos claros indícios de articulação golpista da direita, do grupo "Patria y Libertad"( Tanquetazo) e dos empresários liderados pela família Edwards, era impossível que alguém da UP admitisse que aquilo era provável.

Como a lógica essencial das doutrinas ensinadas nas Academias Militares, Escolas de Aperfeiçoamento de Oficiais, Escolas de Estado Maior, mais a Escola Superior de Guerra, formava e forma civis e militares para um mesmo conceito estratégico - a imutabilidade do sistema econômico capitalista-, ainda é mantida quase sem alterações, é alta a chance de uma aventura desse teor. O mais grave é que todos os nossos serviços militares e de segurança acreditam, por força de Doutrina de Segurança Nacional importada dos Estados Unidos, que é nosso dever lutar para que as estruturas econômicas, sociais e políticas dos Estados Unidos sejam mantidas intactas e sem mudança alguma. Ou seja, a nossa segurança nacional é a segurança nacional dos Estados Unidos.

É claro que muito se fala no avanço das concepções democráticas no seio de nossas FF.AA, a questão é que isso que conceituam como democracia, é, na melhor da hipóteses, um simples arcabouço formal de uma carta de intenções. O Brasil pode até estar livre de uma imediata tentativa golpista, porque a correlação de forças políticas não ajuda, mesmo com todo o empenho da mídia. Mas, em termos reais, o Brasil só estará livre de aventuras desse tipo quando as nossas FF.AA compreenderem que a sua função é a defesa da Soberania do país, das liberdades democráticas do nosso povo e da intransigente defesa nacional contra as ambições econômicas e políticas de potências estrangeiras. Ou seja, quando as nossas FF.AA sentirem que elas e o povo compõem uma só unidade política e física.

Uma mudança dessa natureza, por sua extrema força e importância, é algo para ser construído por toda a nação. É o mesmo que erguer um prédio de vários andares, primeiro são as fundações e as estruturas, depois é que se constroem as paredes, as salas, as janelas, as portas, etc. O caminho está na convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusivamente eleita para isso. Uma Assembléia que seja construída a partir do povo, com o povo e para o povo.

Agora, quando a gente olha o em torno do PSDB e vê que antigos militantes e dirigentes da AP, como o sociólogo Bolívar Lamounier e José Serra, têm íntimas ligações com National Endowement for Democracy (NED), um dos braços políticos e financeiros do império, além de notórias figuras e empresas que apoiaram e vicejaram com o Golpe de 1964, o impossível se torna crível e até factível. Como não é mais possível o apelo para a salvação da "civilização ocidental e cristã" ameaçada pelos ateus comunistas, embora esta pregação ainda seja contínua nas FF.AA e polícias do país, a solução é tentar um processo similar ao que aconteceu em Honduras - forjar uma crise política, com aparência institucional, e apelar para que o "discricionarismo esclarecido" de gente como o sr. Gilmar Mendes e seguidores dê a roupagem "legal" necessária para justificar o rompimento da ordem constitucional vigente.

É claro que o império está com a corda toda em termos de desespero, principalmente porque a solução plutocrática dos centros econômico-financeiros do sistema deu com os burros n'água. Os trilhões de dólares foram e estão sendo em vão, pois, a lógica salvacionista é idêntica a que originou tudo. Assim, prisioneiros da própria ilusão de domínio mundial, são incapazes de encontrar soluções para o gradual, lento e seguro avanço da crise em seus países. Uma crise que não poderá ser resolvida através das especulações e manipulações bursáteis. Logo, só lhes resta restabelecer o caminho da violência e da pilhagem dos séculos anteriores.

Nos idos de 1950 e 1960 o império contava com a UDN, os coróneis do PSD e políticos arrivistas do PSP e PTB, do Instituto Brasileiro de Ação Democrática-IBAD e Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais - IPÊS(organismos da CIA), de jornais como O Globo, Estadão, Folha de S. Paulo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e os Diários Associados como tropas de choque. Hoje ostenta gente como FHC, Bolívar Lamounier, José Serra, César Benjamim, Gilmar Mendes, Daniel Dantas, Nelson Jobim, DEM-PFL, PSDB, PPS e quase que a mesma mídia como os seus mais visíveis agentes desestabilizadores. Em termos de qualidade, embora o saudosisno tente criar certa identidade entre esses momentos históricos e personalidades, para que não se fuja da regra, a similaridade fica por conta da farsa e do caradurismo de uns.

Ora, a sociedade brasileira, educada dentro dos padrões capitalistas das "democracias" representativas é, pois, muito receptiva a esse tipo de chantagem política. Um padrão quase rompido nos primeiros anos da década de 60 do século passado, com os embriões do que hoje se conhece como democracia participativa, que foram esmagados pelo golpe. O Golpe de 1964 teve essa finalidade - evitar a ampliação da democracia e da soberania do País. Assim, quando farsantes tentam provocar uma crise institucional, estimulando a rebeldia militar, mais do que o simples repúdio, temos que adotar práticas capazes de obstar o sucesso de aventuras como a de 1964. Temos que lutar para a criação de uma Frente Democrática e Nacionalista que englobe todos os partidos e organizações políticas efetivamente comprometidas com a nossa Autodeterminação como Povo, como País, como Nação e como um Estado cuja base e poder se origina e se funda na vontade popular.

O risco de um golpe hondurenho no Paraguai

Em uma entrevista à rádio Nacional, de Buenos Aires, o senador paraguaio Alfredo Luís Jaeggli, do Partido Liberal, defende abertamente a abertura de um processo político para o afastamento do presidente Fernando Lugo. O crime de Lugo seria a oposição que ele representaria para a adoção de "reformas liberais modernizantes" no país.
Indagado sobre a possibilidade de um processo golpista semelhante ao que ocorreu em Honduras, o senador Jaeggli defende os golpistas hondurenhos e o modelo implantado no Chile durante a ditadura Pinochet e também as reformas privatizantes na Argentina (Menem) e no Brasil (FHC).


No dia 17 de dezembro deste ano, o senador liberal Alfredo Luís Jaeggli, que defende o julgamento político e o afastamento do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, concedeu uma entrevista ao programa Carbono 14, da rádio Nacional, de Buenos Aires. Na entrevista, conduzida pelos jornalistas Pedro Brieger (PB), Eduardo Anguita (EA) e Miriam Lewin (ML), o senador fala abertamente da vontade da oposição de afastar o presidente Lugo do cargo em 2010.

Indagado sobre a possibilidade de um processo golpista semelhante ao que ocorreu em Honduras, o senador Jaeggli defende os golpistas hondurenhos e diz que Lugo estaria “atrapalhando as reformas modernizantes” no país. E cita como exemplos o modelo implantado no Chile durante a ditadura de Augusto Pinochet e também as reformas privatizantes aplicadas por Menem na Argentina.

As declarações do senador paraguaio indicam que está em curso uma articulação da direita na América Latina para recuperar o terreno perdido. O primeiro movimento ocorreu em Honduras. O Paraguai, agora, é o próximo alvo, contando ainda com a possibilidade de uma vitória eleitoral da direita chilena. Reproduzimos o conteúdo da entrevista, onde o senador defende abertamente a deposição de Fernando Lugo:


PB: Comentávamos no início do programa que há uma situação complicada no Paraguai. Então para entender um pouco melhor o que está ocorrendo decidimos entrevista o senador liberal Alfredo Luís Jaeggli, presidente da Comissão de Fazenda e da comissão bicameral de Orçamento. Como vai senador, estamos saudando-o desde os estúdios da rádio Nacional, Pedro Brieger, Eduardo Anguita e Miriam Lewin.
ALJ: Boa tarde. Como estão os irmãos argentinos? Sou Alfredo Luis Jaeggli, senador liberal presidente da comissão de Fazenda e da bicameral de Orçamento.

PB: Senador, nos explique um pouco o que está ocorrendo no Paraguai. Por que está se falando muito de um possível julgamento político do presidente Lugo. Do que se trata?
ALJ: Olhe, eu não posso comprometer os votos de um coletivo, mas está se falando realmente de um possível julgamento político. Para além dos problemas que estamos tendo na parte econômica e especialmente na instabilidade criminal, está se falando realmente de um julgamento político. Todavia, isso não está sendo discutido formalmente no Partido Liberal. Digo todavia porque há um grupo de senadores, inclusive eu mesmo, que realmente estão dispostos a dar continuidade ao processo de julgamento político. Já que não estão sendo cumpridas as promessas e as mudanças que o Partido Liberal se comprometeu a fazer, então realmente está ocorrendo uma espécie de divisão em meu próprio partido sobre o julgamento político do presidente Lugo. Neste caso, assumiria o vice-presidente Federico Franco.

PB: Senador, desde o momento em que o parlamento inicia um processo de julgamento político, assume o vice-presidente? Quais são os passos jurídicos para levar isso adiante?
ALJ: Uma acusação da Câmara de Deputados; depois tem que passar pelos senadores. São necessários 30 votos, somos 45, e assim prossegue o julgamento político. Claro que é uma instabilidade, é uma comoção, mas...

EA: Na época de Stroessner se vivia melhor no Paraguai?
ALJ: Não, não, não. Sob nenhum ponto de vista.

EA: Então, por que a necessidade de forçar uma situação para impedir que um presidente termine seu mandato?
ALJ: Olhe, o Paraguai é o único país, junto com Haiti e Cuba, que não fez uma reforma modernizadora. Vocês tiveram sua modernização, vocês sabem, com o governo de Menem, sabem a que me refiro. O Brasil teve também. O Uruguai também. A Bolívia também, mas desgraçadamente teve uma involução. Já o Paraguai permanece como nos anos 50. As instituições estão totalmente obsoletas. Necessitamos de reformas modernas e este é um dos problemas que apresenta o presidente Lugo...

ML: Perdão. O que o senhor qualifica de “reformas modernas”?
ALJ: Muito bem. Vou explicar rapidamente. Você sabe muito bem que o Estado paraguaio ainda é produtor de cana? Você acha que um Estado pode produzir cana? Você sabe o que é a cana, não? Bom, o Estado ainda tem uma fábrica de cana que tem prejuízo. Isso pode ser um Estado moderno?

PB: E o presidente Lugo é um obstáculo para esta modernização?
ALJ: Sim, sim, sim, assim como estou te dizendo...

PB: Então o melhor é afastá-lo e colocar no lugar dele o vice-presidente Franco, que poderia impulsionar a modernização?
ALJ: Pelo menos é isso que eu penso e a idéia de muitos outros. Nós não podemos andar para trás, nós temos que impulsionar uma revolução. Nós tivemos 60 anos de ditadura, de castigo, de vandalismo. Nós temos que democratizar, tornar esse país atraente para investidores externos...

EA: Ah, para que cheguem os investimentos externos, afastariam Lugo de modo a garantir o que chamam de “segurança jurídica”...
ALJ: Não somente externos. Se eles vierem serão fantásticos, formidáveis, mas temos também os internos. Sabe-se que há um monte de dinheiro, mas com a insegurança jurídica e política que temos, ninguém vai investir seu dinheiro...

EA: Algo similar ao que ocorreu em Honduras: afastar Zelaya para o capital se sentir mais seguro para investir...?
ALJ: Olhe, eu também tenho minhas idéias que são diferentes das de vocês a respeito do que aconteceu em Honduras. Eu sou parte da Fundação Liberdade, e essa fundação é parte da Fundação Naumann. O presidente hondurenho assumiu a presidência com um modelo liberal e logo o traiu indo para o caminho do socialismo do século XXI. Desculpem-me, mas, para mim, o que ocorreu em Honduras foi totalmente legal.

EA: Totalmente legal?
ALJ: Totalmente legal, do meu ponto de vista.

PB: Por isso poderia ser feito algo similar no caso paraguaio, como o senhor assinala. Também seria legal um julgamento político que assumisse o vice-presidente Franco. Não estamos falando de ruptura da Constituição em nenhum momento?
ALJ: Em nenhum momento, sob nenhum ponto de vista. Aqui o julgamento político é constitucional, está totalmente regulamentado e é decidido pelos votos...

ML: Quais seriam os delitos? Qual seria o descumprimento de dever cometido pelo presidente Lugo no seu ponto de vista? Porque, até o momento, o que você apontou é que ele representa um obstáculo para aplicação das políticas neoliberais que você apóia. Mas em nenhum momento assinalou quais são as justificativas para embasar um julgamento político...
ALJ: Você sabe o que é um julgamento político? Sabe qual é a diferença entre um julgamento político e um jurídico. No jurídico, alguém tem que ser um delinqüente, um homicida, tem que ser pego em flagrante. Já um julgamento político envolve 30 senadores e 43 deputados que dizem que isso já não anda mais, que já não funciona. É assim. Desculpe-me...

ML: Mas tem que haver uma razão. Você poderia enunciar quais são as razões?
ALJ: A primeira razão é que este pobre país não tem nenhuma mudança e com este senhor possivelmente vamos andar para trás ao invés de termos uma revolução. O que este senhor quer é liquidar os partidos e dar o poder para as organizações sociais. O que ele quer é apresentar como uma panacéia o socialismo do século XXI e para a grande maioria na Câmara dos Deputados e na Câmara dos Senadores, das quais somos representantes eleitos, isso não é assim. Nós temos que fazer o contrário de tudo isso.

Nós não estamos gostando do que está ocorrendo na Bolívia, na Venezuela e tampouco na Argentina, vamos ser honestos. Um pouco menos na Nicarágua, segundo nos parece. Podemos estar equivocados, mas os índices econômicos da Bolívia e da Venezuela estão muito pior do que antes. Então o que queremos é evitar isso, porque aqui a pobreza é extrema, temos que fazer esse país avançar. Temos que conseguir que haja indústrias, investimentos, crescimento econômico, democratizar, abrir o país, e este senhor quer exatamente o contrário...

ML: Em que países da América Latina esses planos de orientação liberal diminuíram a pobreza?
ALJ: No Chile. Que lhe parece? Não está de acordo comigo? Ou você acredita que foram os socialistas no Chile que fizeram a economia crescer. Eles não mudaram sequer a legislação trabalhista chilena. Essa legislação ainda é a de Pinochet. O que acha disso?

ML: Você acha isso positivo?
ALJ: O que acha? O Chile é o exemplo de progresso. Porque há menos pobres, as pessoas trabalham, há satisfação, há democracia...

ML: Me chama a atenção, senador, que você não mencionou a conduta pessoal do presidente Lugo e sabe que eu faço essa pergunta porque sou mulher...
ALJ: Olhe, honestamente lhe digo que sou muito prático e muito sincero. Se Lugo tivesse tido a conduta moral que teve, mas tivesse feito as reformas que foram feitas no Chile, não veria problemas. Simples assim.

ML: Ah! Não tenho mais perguntas. Muito obrigado.

PB: Estivemos falando com o senador Alfredo Luis Jaeggli, senador liberal presidente da comissão da Fazenda e da comissão bicameral do Orçamento que, de alguma forma, ratifica os rumores que estão circulando sobre um processo de julgamento político contra o presidente Fernando Lugo e sua destituição em moldes similares ao que ocorreu em Honduras. Estão pensando em um golpe de Estado que não seja encabeçado pelos militares, mas sim pelos próprios parlamentares. A idéia é dar um verniz de constitucionalidade a esse processo para depois discutir se é ou não legal. Mas, no longo prazo, tomando o exemplo de Honduras, o golpe se mantém e o presidente destituído não pode voltar ao poder.

Fonte: Pátria Latina

sábado, 2 de janeiro de 2010

Feliz despertar...

Por Elaine Tavares

As celebrações de um novo começo na vida das gentes são tão antigas quanto a própria raça. Nas culturas mais remotas o “recomeço” era celebrado sempre no solstício ou equinócio de primavera (dependendo do hemisfério), quando tudo começa outra vez a florir. É que como o conceito de tempo ainda não havia sido aprisionado nos relógios a vida das comunidades se regia pelas estações. Naqueles dias, o povo se reunia em festivais, cantando, dançando e bebendo em honra da terra. As mulheres engravidavam e a vida florescia. Era a completude do ciclo da existência, sempre se repetindo.

De qualquer forma, na medida em que as culturas foram se complexificando, igualmente encontraram formas de medir o tempo. Os maias, por exemplo, lograram construir um intrincado calendário com 364 dias, e mais um outro, chamado de “dia fora do tempo”. Este, celebrado em 25 de julho, marca o início do novo ciclo. Já nas culturas do médio oriente, a festa era no equinócio de março, por conta da estação. A comunidade judaica comemora sua festa de Ano Novo, ou Rosh Hashaná, uma espécie de dia do julgamento, em meados de setembro ou no início de outubro, onde as pessoas fazem um balanço da vida. Os islâmicos celebram em maio, contando o tempo a partir do aniversário da saída do profeta Maomé de Meca para Medina, a Hégira, cujo marco corresponde ao 622 da era cristã.

Na China, o “recomeço” é celebrado em datas nem sempre fixas, mas entre final de janeiro e início de fevereiro. Lá, o calendário está relacionado ao movimento da lua e conta cada mês como o mês de um dos 12 animais que se apresentaram na frente de Buda e o ciclo da vida segue esta dinâmica, sempre começando na primavera.

O mundo ocidental também institui o seu “recomeço” a partir de um deus, que não é o cristão. Foi o imperador Julio César, no ano 46 antes de cristo, que determinou o primeiro de janeiro como o dia do início do ano, em homenagem a Jano, o cuidador dos portões. Depois, mais tarde, com a oficialização do calendário gregoriano, esta data permaneceu. Os franceses deram o toque romântico chamando-o de réveillon, que vem do verbo réveiller, cujo significado é "despertar".

E assim as gentes escolhem seus momentos de despertar, de balanço, de julgamento de suas vidas. Vemos que tudo depende da cultura onde se está inserido embora a idéia seja sempre a mesma: recomeçar, jogar fora o que foi ruim, esquecer, olvidar. Começar de novo, dar-se novas chances. E assim, vai avançando a raça, buscando aquilo que os filósofos gregos insitiram em chamar de “felicidade”. Pois eu, que reverencio a terra, os animais, as forças da natureza, que amo Jesus, Maomé e Buda, também vou comemorar. Que venha mais um ciclo, e que seja bom. Que floresça a vida, o amor e a paz. E que todos os povos possam vibrar na mesma onda cósmica. Eu te convido a dançar nesta bela noite de lua cheia, com os deuses e deusas, sob as estrelas. Para receber o ano novo, recomeçar... despertar! Ah, quanta bênção em se viver neste grande grande jardim!


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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Preparemo-nos para defender nossa soberania em 2010!

As linhas de Chavez:
27 de dezembro de 2009


Natal: tempo de alegria, tempo de esperança. Dizia o grande pensador Ludovico Silva: “Não há pior inferno que a falta de esperança (…) Perder a esperança é não ter futuro; o porvir se nutre dela.”


E agora podemos dizer na Venezuela, sem medo de exagerar, que estamos saindo do inferno em que nos tinham metido aqueles que fizeram mal uso do mandato do nosso povo durante quarenta largos anos.


Hoje, ao contrário, o porvir se nutre da esperança: esperança concreta e tangível que se encarna na via venezuelana ao socialismo.


Boas novas socialistas, nascimento do porvir, constitui a inauguração da primeira Arepera (nota: lanchonetes típicas venezuelanas) Socialista nesta semana: estamos dando vida a uma visão e a uma prática comercial que são radicalmente inéditas na Venezuela. Estamos tornando realidade um princípio socialista: os alimentos não são uma mercadoria; a satisfação das necessidades básicas – neste caso, a alimentação – não pode ser entendida como um negócio.


A Nova Corporação de Mercados Socialistas (COMERSO) é um enlace fundamental do novo sistema de produção, distribuição e consumo que estamos criando: o povo contará com um conjunto de tendas, com produtos de qualidade, a preços incomparáveis aos do mercado capitalista.


Nosso propósito é quebrar a espinha dorsal da especulação selagem que reina impunemente.


Na mesma ordem de idéias, nesta quarta-feira entregamos os primeiros automóveis da filial automotiva da COMERSO. Não somente aplicamos o princípio cristão e socialista de de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade, assim como estamos fazendo justiça a nossos compatriotas que foram vitimas de fraude, ou que tenham perdido seu veículo em acidente ou roubo.


II


Quero tomar emprestadas umas palavras do Che: “Perseguindo a quimera de realizar o socialismo graças às armas que nos legou o capitalismo (a mercadoria como célula econômica, a rentabilidade, o interesse material individual como alavanca, etc.), pode-se chegar a um beco sem saída”.


Faço um chamado a todos e todas vocês, compatriotas, para estarem vigilantes na função de salvaguardar o propósito fundamental da nossa Revolução Bolivariana: a maior soma de felicidade possível para todos os venezuelanos e venezuelanas.


Nesse sentido, temos fé que o recém criado Banco Bicentenário contribuirá sobremaneira para alcançar a mudança de espirito necessária à emancipação que aspiramos.


Erradicar o uso das armas que o capitalismo inoculou desde tempos imemoriais não é tarefa fácil, reconheço. É por isso que peço a todos e todas um esforço heroico para que comecemos a mudar a mentalidade de cada um, de cada uma. Eis aí a primeira e maior liberação: a que opera por dentro de nós mesmos.

III


Recordemos, uma vez más, como na voz da Virgem Maria sonha a mais poderosa mensagem de liberação para os pobres da terra:


Doravante todas as gerações me felicitarão,

porque o Todo-Poderoso realizou grandes obras em meu favor:

seu nome é santo,

e sua misericórdia chega a seus fiéis,

de geração em geração.

Ele realiza proezas com seu braço:

dispersa os soberbos de coração,

derruba do trono os poderosos

e eleva os humildes;

aos famintos enche de bens

e despede os ricos de mãos vazias.


Se a mãe de Deus foi capaz de pronunciar tais palavras, é porque o reino de seu filho não pode ser outro que cada bairro, cada campo, cada lugar, aonde todos os dias ela segue parindo, amamentando e carregando a esperança humana.


Maria é cada mãe venezuelana. Por todas e cada uma delas, que dão tanto amor, nasceu a Missão Menino Jesus essa semana: para defender, contra todos os perigos, o germe do novo homem e da nova mulher da Pátria Bonita.


IV


Estas são as últimas linhas do ano. Com esta última entrega, fechamos 2009 e voltaremos com tudo em 2010.


Este ano que termina abre as portas ao epicentro temporal da Era Bicentenária. Em 2010 se iniciará, como pensava o mestre Augusto Mijares, a comemoração do nosso primeiro ciclo de liberação republicana. É a torrente histórica que hoje vive na memória de nosso povo: nossa herança bolivariana. Herança que hoje, mais do que nunca, necessita uma definição: fazer-se corpo efetivo na nossa prática política. Devemos merecer esta herança, como diz Luis Britto Garcia.


Não será um ano fácil: os agentes da reação internacional preparam seus planos para reverter o processo emancipatório que vive a nossa América. Veja-se a ameaça imperial que ronda a Venezuela desde a Colômbia: a irmã Colômbia convertida no Israel da América do Sul.


A ditadura militar hondurenha continua no poder. A reação, em todos os nossos países, conta agora com um modelo de golpe de Estado para o século XXI: golpes com fachada legal que levam o selo de made in USA.


Não podemos nos enganar: acabou a ilusão Obama e o descarado intervencionismo da nova administração gringa assim o demonstra. Preparemo-nos, então, para defender nossa soberania em todos os terrenos.


Em matéria ecológica, está clara a posição dos países industrializados, toda vez que relativizam e interditam o funcionamento da ONU como organização mundial efetiva em função da defesa do princípio da igualdade entre as nações. Quem está nos colocando perto de um ecocídio inimaginável, os causadores da mudança climática, devem ser obrigados a assumir suas responsabilidades.


Internamente, 2010 será marcado pelas eleições legislativas: seu valor é transcendental para a continuidade e aprofundamento socialista da revolução bolivariana; será, em síntese, um grande momento de definição política.


O exercício das 3R deve ser nossa bandeira de luta e nosso direcionamento: se trata de alcançar o destravamento burocrático e de avançar na solução imediata e revolucionária dos problemas mais urgentes da nação.


A Assembléia Nacional está obrigada a reimpulsionar-se a cada dia. A luta aberta contra o burocratismo, a corrupção, a ineficiência, a inseguridade, exige e exigirá muito mais das deputadas e deputados revolucionários.


“O desenvolvimento moral do homem é a primeira intenção do legislador”, disse o nosso Pai Libertador em sua Mensagem ao Congresso Constituinte da Bolívia em 25 de maio de 1826. O desenvolvimento da moral revolucionária do homem e da mulher, construímos nós mesmos aqui e agora.


Em 2010, pensando junto de José Marti, iremos à raiz, aprofundaremos ao máximo a radicalização do processo revolucionário: “A raiz vai ao homem verdadeiro. Radical não é mais que isso: aquele que vai à raiz. Não se chame radical àquele que não vê as coisas profundamente. Nem chame de homem, quem não contribua para a segurança dos demais homens”.


Mulher, homem, jovem, criança, compatriota que me lê, te convido a terminar o ano com o Pai Bolivar, quando nos deixou, como um Fidel do século XIX, aquela sábia reflexão com a qual colocou o tempo ao lado de nós, revolucionários e revolucionárias:


“Espero muito do tempo. Seu imenso ventre contém mais esperanças de sucessos passados e os acontecimento futuros hão de ser muitos superiores aos do passado”.


O tempo, dizia Marx, é o sinônimo da vida.


Acaba aqui o ano de 2009. E chega o ano de 2010, último desta primeira década do século XXI...


Feliz e venturoso ano novo a toda a grande família venezuelana!


Em 2010, também venceremos!