"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

61 MIL QUESTIONAMENTOS À DEMOCRACIA COLOMBIANA

61 mil desaparecidos “oficiais” na Colômbia

Recentemente a Defensoria del Pueblo, uma entidade de controle do Ministério Público que tem por função defender os direitos das pessoas na Colômbia, reconheceu no informe da Comissão de Busca de Pessoas Desaparecidas que na Colômbia há 61.604 pessoas desaparecidas: 14.427 são mulheres e 47.177 homens. O mesmo informe indica que no sistema de Registro Nacional de Desaparecidos, coordenado pelo Instituto de Medicina Legal se registram aproximadamente 16.655 pessoas colombianas supostamente foram desaparecidas, mas que ainda não são reconhecidas com o status de desaparecidas forçadas oficialmente pelo pouco tempo transcorrido. Destas, somente 249 apareceram vivas e das restantes somente foram encontrados 557 corpos[1].

O Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos na Colômbia, Christrian Salazar, afirmou no mês de maio de 2011 que nos últimos 30 anos mais de 57.200 pessoas desapareceram. Número que alarmou muitas organizações de direitos humanos na América Latina e do mundo. Mas para as organizações de direitos humanos da Colômbia foi, por fim, um triste reconhecimento incompleto, já que sistemas de dados não oficiais estimam que possam haver mais de 250 mil pessoas desaparecidas nos últimos 20 anos, tomando como base que somente em três anos foram desaparecidas mais de 38 mil pessoas[2].

A desaparição forçada de pessoas é considerada como crime de Estado quando acontece de forma sistemática, permanente e generalizada. É um processo de repressão que precisa uma estrutura de Estado para poder ser realizada ou, pelo menos, a sua omissão para que outro agente o faça. Por razão da gravidade e pelas múltiplas violações de direitos e conseqüências se considera a desaparição forçada como um delito contra a humanidade, que responsabiliza aos Estados para que sejam estabelecidos os direitos e reparados, para que seja feita justiça e se estabeleçam penas aos algozes[3].

A Colômbia que não é uma ditadura e tem um Estado no qual seus governantes se ufanam de ser a democracia mais antiga da América Latina, tem mais pessoas desaparecidas que qualquer ditadura do passado recente americano. Segundo um dos fundadores do Centro de Investigaciones y Educación Popular – CINEP, que conta com um banco de dados sobre violência política “Noche y Niebla”:

Desde 1988 um boletim trimestral começou a difundir a dimensão da violência política assim sistematizada. As cifras foram e continuam sendo aterradoras. Uma leitura comparativa nos fez estremecer em alguma ocasião: a Comissão Verdade e Reconciliação de Chile, registrou 2.700 casos de assassinato e desaparição política nos 17 anos de ditadura militar. Essa cifra total, com o horror que produz é muito inferior ao que registramos em um só ano na Colômbia desde que começou nosso banco de dados[4].

Na Colômbia os crimes de desaparição forçada envolvem agentes do Estado e seus mercenários paramilitares, como o tem afirmado o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos na Colômbia[5] e como o documenta o livro Deuda con la humanidad[6]. Até as próprias estruturas de mercenários paramilitares reconhecem esta situação[7].

A situação complexa da desaparição forçada na Colômbia questiona o processo democrático colombiano e a justiça do Estado. A legitimidade e autoridade do Estado colombiano é questionada em cada pessoa desaparecida. Não há ditadura na América que tenha desaparecido mais pessoas que a Colômbia. De forma sistemática e permanente se cometem esses crimes por agentes do Estado e seus mercenários paramilitares com total impunidade. Só é possível construir verdadeiros processos democráticos quando um Estado for capaz de garantir os direitos a seu povo. Há a necessidade de exigir justiça, que cessem essas graves violações.
Os povos querem saber: onde estão os desaparecidos? O que acontece com a democracia colombiana?


Agenda Colômbia
A Solidariedade é dos povos!

[1] El Defensor del Pueblo insta a las autoridades a dar cumplimiento a la ley 1408 de 2010 y hacer memoria histórica de las víctimas del delito de desaparición forzada. In: , Aceso 8 Set. 2011
[2] Colômbia registra mais de 38 mil pessoas desaparecidas em três anos: “as estimações de desaparição forçada se minimizam desde o Estado (o Algoz), porem há tido que recononhecer pelo menos 50.000 desaparecidos.” In: < http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/71765-NN/colombia-registra-mas-de-38-mil-personas-desaparecidas-en-tres-anos/>, Acesso 8 Set. 2011
[3] Resolução AG/RES. 666 (XIII-O/83) da Assembleia Geral da Organização de Estados Americanos; e o Estatuto de Roma da Corte Penal Internacional, aprovado o 17 de julho de 1998 pela Conferencia Diplomática de Plenipotenciários das Nações Unidas sobre o estabelecimento de uma Corte Penal Internacional, A/CONF.183/9.
[4] GIRALDO,Javier S.J. Colombia esta democracia genocida. Bogotá: Secretaria General de Justicia y Paz, de la Conferencia de Religiosos de Colombia, sem data, p. 5.
[5] ROBINSON, Mary. Informe do Alta Comissariado da Organização das Nações Unidas para os direitos Humanos sobre o escritório na Colômbia. Genebra: ONU, 55º seção da Comissão de Direitos Humanos, 1999.
[6] Deuda con la Humanidad. In: , Acesso 7 Set. 2011
[7] Peridismo humano sobre o paramilitarismo. In: < http://desentranando-colombia.periodismohumano.com/2010/06/10/descuartizamientos-y-hornos-crematorios/>, Acesso 7 Set. 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A LUTA ARMADA DO POVO COLOMBIANO É TAMBÉM NOSSA LUTA

O caráter internacionalista do conflito armado colombiano

Anncol
 
Durante os oito anos do governo narco-paramilitar de Álvaro Uribe Vélez (o 82º capo das drogas na lista da Defense Intelligence Agency (DIA), do próprio Pentágono), este dedicou todas as suas energias em tentar acabar com a insurreição guerrilheira comunista das FARC-Exército do Povo e “domesticar” (como um simples problema interno) o conflito social, político e armado, tratado-o com uma ótica reducionista, como se se tratasse de uma expressão delinquencial e ligado à suposta “luta contra o terrorismo”.
 
Em outras palavras, o “bom regime”, com seu “pobre Estado” sendo atacado por “forças terroristas”, devia se defender do “inimigo interno”, inclusive cometendo crimes.
 
Enquanto esse discurso era “assumido” pela opinião pública, graças a “jornalistas” a serviço do narco-paramilitarismo, como José Obdulio Gaviria (primo-irmão do capo Pablo Escobar Gaviria) e Ernesto Yamhure, o governo, com um aparato policial de inteligência bem “ajustado” interceptou ilegalmente os telefones de muitos organismos internacionais, que eram os olhos do que é conhecido como “comunidade internacional”, olhos esses que observavam “de perto” o conflito armado colombiano.
 
Nem o representante da ONU se salvou dos “grampos” (chuzadas). Outros organismos internacionais sofreram a mesma experiência, incluindo outro tipo de guerra suja, mais sutil, mas efetiva, como a coação, intimidações ou ameaças veladas, impedindo-lhes de entrar em certas regiões da Colômbia e asfixiando-os até tornar a situação inviável para eles para, em seguida, “convidá-los a partir” por falta de condições de segurança para realizar seu trabalho investigativo.
 
Lembremos que a Colômbia é um dos países mais observados pela ONU, que mantém cinco relatores especiais. E, quando estes chegam ao país, o governo procura fazer com que não tenham acesso à informação sobre o verdadeiro terrorismo: o Terrorismo de Estado. São impedidos de visitarem as regiões onde ocorreram os massacres, fazendo com que não tenham acesso a testemunhas, enfim, que não possam documentar as práticas de Terrorismo de Estado.
 
Estes relatores ficam em Bogotá e só vêem imagens Power Point oficiais com os dados enganosos da versão oficial do conflito. Isso também acontece com algumas ONGs internacionais e com alguns jornalistas, que armam novelões a partir de seu hotel em Bogotá.
 
Uribe botou para correr todo mundo, inclusive os mediadores internacionais de países amigos da Colômbia, que foram taxados, segundo a cartilha oficial, como colaboradores do terrorismo. Liquidada toda possibilidade de mediação, isolado o conflito do mundo, Uribe se dedicou a isolar a própria Colômbia do mundo, ficando com seu único aliado, seu amo e patrão norte-americano. Brigou com a Venezuela e inclusive muitas vezes tentou iniciar uma agressão armada contra a república irmã. Não duvidou um instante em ordenar o ataque ao Equador, pisoteando todo o direito internacional e todos os tratados internacionais que o próprio Estado colombiano assinou.
 
Com o atual presidente Santos (ex ministro da defesa de Uribe responsável pelo ataque ilegal ao Equador, que matou o Secretário de Relações Internacionais das FARC-Exército do Povo, cmte Raúl Reyes) as coisas continuam com o mesmo conteúdo, embora suas manifestações públicas tenham mudando. Passamos de uma linguagem mordaz de “coronel fazendeiro” à etiqueta do country club e dos alfaiates ingleses. Mas ambos são os mesmos “encarnados e esculpidos”. Com roupagens diferentes.
 
Santos continua procurando esconder o conflito colombiano, indo mais além: acabou conseguindo neutralizar o próprio presidente Chávez (que havia reconhecido oficialmente o caráter legítimo e beligerante das FARC-Exército do Povo em 2008), neutralização essa que havia iniciado com Uribe com a chantagem das “provas” obtidas dos famosos “computadores atômicos” (confiscados ilegalmente no ataque ao Equador, “provas” julgadas ilegais e sem validez alguma pela própria Corte Suprema da Colômbia).
 
Tão mafioso e chantagista o Estado colombiano que o atual inquilino da Casa de Nariño (sede da Presidência da República), Juan Manuel “Chuck” Santos, conseguiu infiltrar (sem uma reação do Brasil e demais países? Por quê?) a própria UNASUL com a senhora María Emma, neutralizando a “liderança” da Venezuela, intimidando-a e obrigando-a a mudar alguns discursos anteriores.
 
Com essa política internacional bem tramada pelo regime colombiano, contando com as inconsistências e vacilações ideológicas de Chávez (pressionado por quem?), “Chucky” Santos acabou legitimando o golpe de Estado em Honduras, levando esse país de volta ao seio da OEA (esse obsoleto ministério das neo-colônias ianques), de onde tinha sido expulso depois do golpe de 2009 contra o Presidente Constitucional Manuel Zelaya, ressuscitando um cadáver e colocando-o de novo nas mãos de Obama e, de passagem, legitimando um presidente golpista. “Três coelhos com uma única cajadada!”
 
Enquanto isso ocorre, Santos instrumentaliza a suposta boa amizade com Chávez para continuar expandindo sua “operação condor” nativa, estendendo a repressão e o terrorismo de Estado além fronteiras colombianas.
 
Foi nesse contexto e dinâmica que o nosso diretor, Joaquín Pérez Becerra, foi seqüestrado na Venezuela e entregue aos aparatos terroristas do Estado colombiano.
 
Santos se jacta dissimuladamente com muita ironia e em privado por ter conseguido “dobrar a munheca” do ingênuo Chávez. E, para completar, sua ministra de relações exteriores, Holguín, está “encantada” com o da Venezuela, Nicolás Maduro, que está se curvando aos encantos da beleza colombiana, deixando de lado o que se joga no xadrez político com uma oligarquia criminosa e mafiosa como a colombiana.
 
A neutralização de Chávez implica em vários perigos para o processo político venezuelano, especialmente quando Chávez se deixa rodear de tantos incompetentes e ineptos como Maduro e como Andrés Izarra, ministro das comunicações, embora este não seja propriamente o tema destas reflexões.
 
Continuemos: escondido e isolado o conflito armado colombiano, a oligarquia do país se sente desobrigada de certos compromissos assumidos internacionalmente e projeta para o mundo a imagem de democracia madura, apta para o investimento estrangeiro (inclusive brasileiro). E essa “confiança investidora” se traduz em uma entrega total de nosso patrimônio ao capital monopolista internacional. A elite econômica oligárquica procura isolar (esconder) o conflito armado interno ao mesmo tempo em que amplia seus contatos e relações econômicas e políticas para legitimar seu projeto hegemônico de economia de mercado dependente.
 
Diante disso tudo, a tarefa dos colombianos que estamos comprometidos com a saída política para o conflito, é ler o mapa mundi e não perder de vista a perspectiva e a contextualização internacional em torno da solução política para o conflito colombiano.
 
Continuar com essa visão simplista e provinciana do conflito não ajuda em nada, ao contrário, facilita o trabalho do regime oligárquico.
 
É necessário contextualizar internacionalmente o conflito armado colombiano por várias e simples razões:
 
1.     As potências capitalistas mundial mantêm uma luta sangrenta pelo controle das matérias primas do terceiro mundo, particularmente da América Latina.
2.     Na divisão internacional do trabalho pelo capital monopolista, países de “capitalismo tardio” e periférico como a Colômbia, Brasil e outros, foram designados para cumprir o papel de provedores de matérias primas (petróleo, esmeraldas, aço, minério de ferro, aço, alumínio, cobre, ouro, banana, café, soja, carne, flores, madeiras de lei, etc.;) sem valor agregado, dada a dependência tecnológica de nossos países.
3.     Os monopólios multinacionais (que não transferem suas tecnologias), além de não estarem criando empregos nos países em vias de desenvolvimento onde atuam, ainda nos poluem com seus agrotóxicos e emissões de gases contaminantes, deixando-nos o custo ecológico que isso implica para as atuais e futuras gerações.
4.     O problema internacional da produção, tráfico, comércio e consumo de drogas.
5.     O grau de intromissão e ingerência política, ideológica, diplomática e militar que assumem os países capitalistas centrais que investem em nossos recursos estratégicos e na economia em geral.
6.     A doutrina da OTAN (“direito de proteger-R2P”) e a instrumentalização da ONU para promover guerras sob pretextos de “proteção de civis”, não passa de uma reciclagem atualizada do velho sistema de mandatos da outrora Sociedade de Nações, no qual os países capitalistas ocidentais se arvoram no direito de tutelar povos e países e impor-lhes seus modelos de “democracia ocidental”.
 
 
Mas poderíamos continuar enumerando “N” aspectos que nos demonstram que o conflito social, político e armado colombiano se inscreve sim em uma LUTA INTERNACIONAL DOS POVOS POR SUA EMANCIPAÇÃO. E não estamos sós nessa luta.
 
O conflito colombiano está mesmo vinculado umbilicalmente ao que ocorre atualmente no mundo inteiro. Portanto, cabe a todos os povos e movimentos sociais e revolucionários latino-americanos construirmos laços de solidariedade entre nós para, em seguida, consolidá-los organicamente com os setores sociais populares europeus, norte-americanos e mundiais, claro.
 
Os sindicatos (para ficar em um só exemplo) devem internacionalizar seu trabalho. Uma multinacional alemã que não respeita os direitos de seus trabalhadores em território alemão não vai respeitar também na Colômbia, no Brasil ou em Singapura. Portanto, os trabalhadores alemães, colombianos, brasileiros ou singapurenses têm sim uma luta e interesses comuns únicos, internacionalista.
 
Cabe-nos lutar para fazer com que os trabalhadores de outros países, principalmente os brasileiros, tomem conhecimento e consciência da situação dos trabalhares e do movimento sindical colombiano e, nesse sentido, que também outros povos e trabalhadores de outros países conheçam a realidade vivida diariamente pelo povo irmão colombiano.
 
Torna-se necessário que muitos militantes internacionalistas, parlamentares, partidos de esquerda, sindicatos, organizações e movimentos sociais e populares visitem as regiões colombianas onde atuam os esquadrões da morte paramilitares (braço armado do narcotráfico) a serviço do Terrorismo de Estado oficial e vejam com seus próprios olhos como continuam intactos e mobilizados (foram oficialmente “desmobilizados” a partir de 2003 no regime uribista), agora reativados para massacrarem opositores em época pré-eleitoral.
 
O mundo precisa tomar consciência do que realmente acontece aqui na Colômbia. Urge que trabalhemos todos juntos para nos contrapor e neutralizar o marketing (terrorismo midiático) global e o lobby que o regime mafioso faz junto a governos (embaixadas), Unasul, Celac, parlamentos e justiça, além de enviar agentes encobertos e adidos militares de suas embaixadas para dar palestras e conferências a empresários e polícias, além de oferecer treinamento e doutrinação policial na Colômbia. Uma intromissão verdadeiramente vergonhosa de um regime títere do imperialismo ianque.
 
É necessário que pensemos em organizar uma Comissão Internacional que vá visitar os prisioneiros políticos do regime e comprovem a ignomínia e podridão do sistema carcerário colombiano atual.
 
Nesta urgente tarefa, os exilados e a emigração colombiana no exterior têm um papel importante a desempenhar todos os dias, unidos pela solidariedade internacional à luta do povo colombiano, que é também nossa luta.
 
Esta é uma tarefa de todos nós.

domingo, 11 de setembro de 2011

Defensores de direitos humanos são ameaçados de morte ante passividade da justiça

Recentemente, a Fundação Internacional para a Proteção de Defensores/as dos Direitos Humanos (Front Line) da Colômbia tem recebido informações sobre a realização de uma campanha de intimidação, perseguição e ameaças de morte, por parte do Estado e grupos paramilitares denominados Águilas Negras, contra defensores dos direitos humanos na região de Valle del Cauca, Colômbia.

Desde 2010, a Front Line tem registrado em formulário inúmeras denúncias de ameaças de morte de grupos guerrilheiros contra a vida dos defensores/as de direitos humanos, e demonstra preocupação com relação às autoridades colombianas que não estão investigando adequadamente os casos. Muitos dos crimes estão impunes, gerando a sensação de conivência por parte da justiça.

Outra situação que causa preocupação é o fato de altos funcionários do governo, incluindo o presidente, declarar publicamente que os defensores e defensoras dos humanos no país têm vínculos com grupos guerrilheiros ilegais. Para a Fundação, essa é uma prova de que o governo do presidente Juan Manuel Santos quer desacreditar o trabalho legítimo e pacífico dos ativistas, que lutam contra os falsos positivos, as violações de mulheres e meninas e o recrutamento de crianças para os grupos paramilitares, entre outras problemáticas enfrentadas no país dentro do contexto de conflito interno.

“Esse tipo de declarações incrementa o risco enfrentado pelos defensores/as de direitos humanos”, declara a Fundação.

Casos como de PríncipeGabriel González Arango, um ativista estudantil, condenado a sete anos de prisão, acusado de rebelião e associação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc); do jornalista Nelson Orrego, que recebeu ameaça de morte por correio eletrônico por ter publicado artigos sobre vítimas de crimes dos paramilitares e grupos narcotraficantes; e do editor e redator Clodomiro Castilla Ospina, assassinado a tiros em Montería, Norte de Colômbia, são alguns dos casos denunciados pela Front Line que ainda se encontram sem solução.

Outro caso ocorreu com um preso da Cadeia de Tramacúa, Valledupar, Departamento de Cesar, que recebeu por parte dos guardas prisionais um punhal para assassinar Iván Cepeda Castro, deputado e membro do Movimento de Vítimas de Crimes Estado (Movice). O prisioneiro se recusou a praticar o ato e escreveu uma carta que foi entregue ao diretor da prisão, ao Ministro do Interior, Aníbal Florencio Randazzo e à Procuradoria Geral explicando os motivos do ataque.

Os casos já foram encaminhados para a Polícia Nacional, a Seção de Polícia Judiciária e Investigação (Sijin), o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) e a Procuradoria Geral, no entanto, até o momento, não houve qualquer atribuição para as violações cometidas contra os ativistas.

Desde 2010, a Fundação Front Line publica chamados urgentes e denuncia violações cometidas contra defensores/as dos direitos humanos, contudo, até a data, a maioria dos responsáveis por atos bárbaros contra os ativistas continuam impunes e não foram levados a juízo.

Os membros da Fundação acreditam que os (as) defensores (as) são vitimados (as) unicamente como consequência de seu legítimo trabalho em defesa dos direitos humanos.

“Front Line manifesta sua profunda preocupação ante o alto nível de impunidade existente na Colômbia, particularmente em relação a crimes cometidos contra defensores (as) dos direitos humanos. Estes últimos são constantemente duplamente vítimas, por atores estatais e não estatais, e em consequência operam sob circunstâncias de alto risco”, afirma a Fundação.

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Com apoio do Comité de Solidariedade ao Povo Colombiano

sábado, 10 de setembro de 2011

O 11 de Setembro não foi o maior atentado terrorista da humanidade

Embora a Rede Globo, a Globo News, a Record, a Bandeirantes, O SBT, a maioria dos jornais e rádios do nosso país – e do mundo ocidental – afirmem que o maior atentado terrorista da humanidade seja o 11 de Setembro, a afirmação não passa de uma mentira ridícula e hipócrita. Está dentro dos conformes da relação promíscua entre a mídia comercial e o governo norte-americano, que libera verbas milionárias para corromper a imprensa através de sua embaixada no Brasil, e de institutos e organizações norte-americanas.O maior atentado terrorista da humanidade aconteceu no dia 6 de agosto de 1945, foi a explosão da bomba atômica norte-americana em Hiroshima, no Japão. O segundo atentado terrorista aconteceu três dias depois, no dia 9 de agosto do mesmo ano,na cidade de Nagasaki, assassinando mais de 220 mil japoneses – na maioria civis indefesos. Milhares morreram depois de câncer causado pela radiação das bombas.

A Segunda Guerra Mundial já estava vencida pelos Aliados. O Alto Comando Militar Japão já negociava a rendição com os norte-americanos, mas ainda assim as bombas atômicas foram detonadas para – conforme relatos de oficiais norte-americanos – obter melhor negociação junto às nações vencidas, isto é, chantagear e submeter a Alemanha, Itália e Japão. Por este motivo esses países foram sangrados ao longo das últimas décadas pagando indenizações de guerra injustificáveis, uma indústria de vitimização hipócrita e criminosa que beneficiou os chacais da guerra e a mídia corrupta.

Alemanha, Japão e Itália são países militarmente ocupados pelos Estados Unidos da América até os dias de hoje. Na Alemanha existe, em operação, 25 bases militares norte-americanas e 86.500 militares. No Japão e na Itália são dezenas de bases estocando mísseis e bombas atômicas capazes de destruir o nosso planeta diversas vezes. Na semana passada o Pentágono comemorou a inauguração de sua milésima base militar, sem contar a presença militar em 156 países, bases militares em 75 países, 38.310 edifícios espalhados por diversas nações que empregam mais de um milhão de pessoas, dos quais 862.000 militares.

No atentado de 11 de Setembro às Torres Gêmeas morreram 2.996 pessoas. Esse atentado é contestado por diversos jornalistas e pesquisadores, a ponto de uma equipe de jornalistas e radialistas norte-americanos lançarem um documentário (à venda ou locação em locadoras) pela Power Hour Production, o "911 In Plane Site", com fotos ampliadas mostrando que os aviões que se chocaram contra as torres não tinham civis; eram aviões militares tele-guiados, com mísseis. Quem não acreditar pode assistir o documentário e tirar dúvidas, e conhecer os motivos pelos quais o 11 de Setembro foi criado pelo próprio governo norte-americano.

Desde que a "liberdade e democracia" norte-americana venceram a Segunda Guerra Mundial, dezenas de povos foram massacrados (Coreia, Vietnã), países foram invadidos e ocupados (Afeganistão, Iraque, Líbia).

Os verdadeiros terroristas da humanidade não estão em Guantânamo, muito menos nas areias dos desertos árabes ou nas montanhas do Afeganistão. Os verdadeiros terroristas da humanidade, aqueles que fabricam as guerras para roubas as riquezas naturais dos pequenos povos com desculpas políticas, estão na Casa Branca, no Pentágono, na Otan, no Palácio de Versalhes, no parlamento britânico, no Knesset, no sistema financeiro internacional.

A cobertura que a mídia ocidental está fazendo sobre o 11 de Setembro é uma cortina de fumaça para enganar e iludir a opinião pública mundial, desviando a atenção sobre os verdadeiros criminosos e terroristas da humanidade: os governos dos Estados Unidos da América, França, Israel, Inglaterra e seus aliados.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A ARTE É AMEAÇADA NA COLÔMBIA

“Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?”


Antologia Poética - Bertolt Brecht


Doze organizações de Teatro da cidade de Bogotá, capital da Colômbia, foram ameaçadas pelas “Águilas Negras” que é um dos novos nomes que tomaram em 2006 as estruturas paramilitares (mercenários criados pelo Estado colombiano e financiados pelo narcotráfico), após a suposta desmobilização que fizeram em troca de penas baixas de prisão (menos de 5 anos) por delitos contra a humanidade.

As ameaças foram feitas no dia 23 de agosto contra as organizações de teatro que trabalham com a prefeitura de Bogotá (Polo Democrático Alternativo), realizando atividades de promoção cultural e capacitação artísticas com crianças e jovens nas favelas de Bosa, Kennedy, Tunjuelito e Ciudad Bolivar.

Nas ameaças feitas por meio de panfletos assinados pelo “Bloque Capital de las Águilas Negras” afirmam que as organizações artísticas são objetivo militar pois: “desenvolvem atividades a favor dos direitos humanos”. E deram oito dias, até 31 de agosto de 2011, para as pessoas que integram as organizações artísticas abandonarem a cidade.

No mesmo documento afirmam “hoje iniciamos à limpeza de todas as sujas organizações que se interpõem em nossos passos, (...) às organizações que querem se mostrar defensoras de direitos humanos por meio de expressões artísticas e que se opõem às políticas de nosso governo”. Fazendo alusão ao governo do presidente Juan Manuel Santos.

Num comunicado público a Defensoria del Pueblo, que é uma entidade do governo, rechaça as ameaças contra as organizações artísticas e reconhece que na cidade de Bogotá estão acontecendo ameaças de forma sistemática contra as organizações sociais, contra ONGs e organizações de direitos humanos[1]. Já no mês de junho as organizações de direitos humanos, indígenas e afro-descendentes que negociavam garantias para o desenvolvimento de suas atividades denunciaram essa grave situação quando romperam as negociações que adiantavam com o governo de Juan Manuel Santos pela falta de garantias[2]. Até o mês de junho havia mais de 100 ameaças contra pessoas defensoras de direitos humanos e já se contavam mais de 20 assassinatos.

As doze organizações de teatro ameaçadas são: Teatrama, Teatro del Sur, Disidencia Teatro, Reciclarte, Teatropical, Piedra Papel y Tijera, Bogotá Dual, Fundación el Contrabajo, Teatrazos, Ciclo Vital, Summum Draco, e Odeón. Elas rechaçaram as ameaças em um escrito elaborado em conjunto:

“Perante agressão infame, desmemoriada e cega dos perseguidores, abrimos humanamente o expediente da vida que se olha somente com olhos de nosso coração e propomos reorientar através dos vôos da imaginação criadora e da prática do amor pela vida o vôo das desorientadas 'Águilas Negras'.”
(...)
“Enquanto a lógica da violência que anda pelo campo e a cidade, e que se veste de todas as vestimentas, que declara objetivo militar até as estrelas do firmamento nós seguiremos caminhando no ventre da esperança e tecendo nossa busca de ser e sentido por meio da Arte. (...) Feliz e agridoce vida...Com mais sonhos que sonho...[3]

Agenda Colômbia
A solidariedade é dos povos!


Se você quer exigir que se respeitem os direitos humanos e o trabalho destas organizações artísticas pode comunicar-se com:

* Sr. Juan Manuel Santos, Presidente da República, Carrera 8 # 7-26, Palácio de Nariño, Santa Fe de Bogotá. Fax: + 57 1 566 20 71;
* Sr. Angelino Garzón, Vice-presidente da República, Tels.: +57 1 334 45 07, +573772 01 30.
* Sr. Germán Vargas Lleras, Ministério do Interior y de Justiça, Carrera 8 No. 13-31 piso 4to. Tels.: 57.1.4443100 Ext. 2410 Fax: +57 1 2827440
* Sr. Wolmar Antonio Pérez Ortiz, Defensor del Pueblo, Calle 55 # 10-32, Bogotá. Fax: + 571 640 0491
* Dr. Alejandro Ordóñez Maldonado, Procurador General da Nação, Cra. 5 #. 15-80, Bogotá. Fax: +57 1 342 97 23; + 571 284 79 49 Fax: +571 342 9723;

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Leonardo Boff: Crise terminal do capitalismo


Fonte: Adital


Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários países europeus e árabes, os "indignados" que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: "não é crise, é ladroagem". Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

[Leonardo Boff - Teólogo, filósofo e escritor. Autor de “Proteger a Terra - cuidar da vida: como evitar o fim do mundo”, Record 2010]

domingo, 4 de setembro de 2011

A paz com justiça social é possível, lutemos por ela. No 27

Depois de oito anos do governo Uribe, o tema da paz voltou, mais uma vez, aos meios de comunicação, é matéria de discussão dos intelectuais e das organizações sociais. O Império e o estabelecimento fizeram todo o possível por ganhar a guerra e someter a insurgência para poder fazer da Colômbia o paraíso das multinacionais.

O fracasso foi total, pois aconteceu todo o contrario. O DAS (Departamento Administrativo de Segurança) virou um ninho de delinquentes; o exercito e a policia ficaram por conta da corrupção, ao ponto de haver mais de um milhar de praças presos, entre eles vários oficiais e sob-oficiais; os paramilitares são bandas de delinquentes ao serviço da politica do governo e continuam assassinando.

O anterior indica que o caminho não é a guerra, mas a solução politica do conflito, a democratização do país, as transformações sociais e econômicas que eliminem as causas que geraram o conflito.

Mas, o Império e o estabelecimento continuam a manter a guerra, desnecessária desde todo ponto de vista. Eles não se importam pela quantidade de mortos que deixa o conflito. Quantos mortos a mais necessita o país para que a dirigencia politica e econômica reconheça que a saída é a solução politica?

A seguir, os resultados dos combates entre as FARC e as forcas militares da Colômbia, segundo a imprensa do pais do 17 ao 27 de agosto de 2011

17/08: Guerrilheiros das FARC queimam um ônibus e uma caçamba no sitio Os Laranjais, município de Toledo, Antioquia.
http://www.elcolombiano.com/BancoConocimiento/L/las_farc_asesinan_4_policias_en_narino/las_farc_asesinan_4_policias_en_narino.asp

18/08: Emboscada das FARC perto de Tumaco, Nariño: 5 policiais mortos e 2 feridos.
http://www.larepublica.pe/archive/all/larepublica/20110818/17/node/377353/todos/10

18/08: Guerrilheiros das FARC atacam patrulha do Exército perto de Argelia, Cauca: 1 suboficial e 2 soldados feridos gravemente.
http://www.rcnradio.com/noticias/tres-militares-heridos-por-ataque-de-las-farc-en-el-cauca-103338

18/08: FARC atacam carrotanque da petroleira Emerald Energy em El Caquetá.
http://www.rcnradio.com/noticias/las-farc-atacan-otra-empresa-transportadora-de-petroleo-en-caqueta-103327

21/08: Novo ataque das FARC contra a Policia em Argelia, Cauca: 2 uniformizados feridos.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/dos-policias-heridos-por-explosivos-en-argelia

22/08: Sabotagem das FARC deixa todo o departamento (estado) de Arauca sem energia eléctrica.
http://www.rcnradio.com/noticias/por-lo-menos-100-mil-habitantes-de-arauca-siguen-sin-servicio-de-energia-tras-at-103711

23/08: Guerrilheiros das FARC bloqueiam a via Buenaventura-Cali com 4 carretas perto da localidade Los Tubos.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/hostigan-tropas-combaten-robo-hidrocarburos

23/08: FARC ataca uma patrulha do Exército no povoado de Bendiciones, estado do Vale do Cauca.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/hostigan-tropas-combaten-robo-hidrocarburos

23/08: Em combates entre insurgentes da Frente 30 das FARC e tropas da Brigada 29 do Exército em Argelia, Cauca, ficaram 4 soldados feridos.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/hostigan-tropas-combaten-robo-hidrocarburos

25/08: Morrem 4 militares em dois ataques das FARC em Antioquia e no Cauca.
http://lci.tf1.fr/filnews/monde/colombie-4-militaires-tues-dans-deux-attaques-attribuees-aux-6638571.html

26/08: Emboscada das FARC em zona rural do município de Miranda, Cauca: 4 militares feridos.
http://www.rcnradio.com/node/104785

26/08: FARC lancam granadas contra patrulha militar no município de Magüí Payán, Nariño: 3 uniformizados feridos.
http://www.rcnradio.com/noticias/6-subio-numero-de-heridos-por-ataque-de--104797

27/08: Guerrilheiros das FARC atacam patrulha da Policia no sul do Cesar: 5 uniformizados mortos e 2 desaparecidos.
http://www.radiosantafe.com/2011/08/27/cinco-policias-muertos-dejo-atentado-atribuido-a-las-farc-en-el-cesar/

Lutemos pela liberdade dos 7.500 presos políticos que há na Colômbia, assim como pela Comandante Sonia e os Comandantes Simón Trinidad e Ivan Vargas, extraditados aos Estados Unidos para que sejam trazidos de volta para Colômbia.


sábado, 3 de setembro de 2011

Alfonso Cano, Comandante das FARC responde a jornalista espanhol

- São a guerrilha mais antiga do mundo. Continuam actuais os motivos pelos quais começou a luta armada ou eles mudaram com o tempo?

AC: Nestes 47 anos, desencadeou-se uma vertiginosa transformação na ciência e na tecnologia, aumentaram as taxas de crescimento económico em muitos países, entrou em colapso o modelo soviético de construção socialista e a explosão incontida da República da China, no entanto, apesar de tudo isto e muitos outras novidades transcendentes, a fome cresceu no mundo, a injustiça, a desigualdade social e os conflitos persistiram e cresceram, enquanto cerca de 10 mil indivíduos, terrivelmente ricos, decidem o destino de milhares de milhões de pessoas. As FARC nasceram resistindo à violência oligárquica que rotineiramente utiliza o crime político para liquidar a oposição democrática e revolucionária; também como resposta popular à agressão dos latifundiários e proprietários, que inundou de sangue o campo colombiano ao invadir terras de camponeses e colonos, e nascemos também como rejeição, digna e beligerante à intervenção do governo dos Estados Unidos no confronto militar e na política interna do nosso país. Três razões principais que desenvolveram as FARC, conforme descrito no Programa Agrário de Marquetalia elaborado e divulgado em 1964. Um olhar superficial sobre a situação na Colômbia, em Maio de 2011, mostra que, apesar do contexto internacional descrito acima, esses três factores germinais persistem e aumentam até hoje.

- Acha que é possível abrir um processo de negociação com o presidente Juan Manuel Santos?

AC: Com os esforços conjuntos de muitos sectores progressistas e democráticos interessados numa solução sem sangue para o conflito, é sempre possível construir cenários e iniciar conversações directas com qualquer governo, incluindo o presente, apesar de que este, no começo do seu mandato, reduziu as possibilidades ao impor uma lei que fecha as portas ao diálogo dentro do país. Mas estamos optimistas sobre a possibilidade de fazê-lo.

- Na recusa do Governo em aceitar trocas de reféns por guerrilheiros presos, quais são seus planos para os reféns ainda mantidos pelas FARC?

AC: Penso que você se está referindo aos prisioneiros de guerra em nosso poder, porque uma abordagem imparcial, rigorosa e objectiva do assunto num confronto político, social e militar de 47 anos, em que se enfrentam dois adversários, deve referir-se aos prisioneiros de guerra capturados pelas partes no confronto, certo? A recusa do governo actual para a troca não tem de fazer recuar o desejo de ter connosco, livres os camaradas actualmente prisioneiros, e fazer voltar para suas casas os soldados e policias capturados em combate, que temos em nosso poder, cujas famílias também esperam tê-los de volta. Acima da indiferença do Estado sobre os seus próprios soldados, vamos perseverar. Sabe-se que enquanto um confronto perdurar haverá prisioneiros mantidos pelas partes.

- O Comité Internacional da Cruz Vermelha é uma entidade neutra responsável por assegurar o cumprimento do direito internacional humanitário. No seu último relatório indica que "enquanto as partes em conflito actuam em frentes de combate em áreas rurais, a população que vive nestas áreas vive em constante perigo e exposta a violações dos Direitos Humanos, como assassinatos e / ou ataques a pessoas protegidas pelo DIH, desaparecimentos forçados, violência sexual, sequestros, recrutamento forçado, maus tratos físicos e/ou psicológicos, e deslocamento forçado. A falta de respeito pelo princípio da distinção entre combatentes e civis, as pressões para colaborar gerando represálias directas contra civis, a ocupação de bens públicos ou privados e a contaminação por armas são outros factores agravantes que afectam a vida das comunidades". Quais dessas violações são cometidas pelas FARC?

AC: Para ser objectivo teria de referir um por um os casos relatados pelo CICV e como este não é o espaço certo, posso comentar que, para nós, o mais importante da nossa luta é a população, não só por razões de princípios políticos e ideológicos, mas práticos, da guerra. Apenas na medida em como respondemos às necessidades objectivas da população em cada área, nós podemos resistir, crescer e avançar. Caso contrário é impossível.

Anos atrás, e dada a intensidade dos combates, difundimos normas de comportamento para que os civis não permitissem o seu uso como escudo pelas forças de segurança que construíram quartéis no meio de aldeias, usam o transporte público para os seus movimentos, intercalam comboios militares no meio de transporte civil para viagens por estrada, pernoitam em escolas e colégios, e assim por diante, práticas que a força pública utiliza, criando riscos para a população.

Eventualmente, as nossas unidades podem violar regras, mas como somos governados por leis, normas e regulamentos de um rigoroso regime disciplinar, fundamentados numa concepção revolucionária da vida, que harmonizam as relações entre combatentes e também das nossas com a população civil garantindo um profundo relacionamento sincero, harmonioso e forte, nós tomamos as medidas correctivas que indicam os nossos documentos.

Com respeito aos direitos individuais, DIH e seus protocolos adicionais, mantemos algumas reservas porque, às vezes em certas situações dificultam a aproximação, dado que foi concebido e projectada para conflitos entre nações e, apesar de os protocolos adicionais, nem sempre proporciona o justo equilíbrio. Por exemplo, qualificar como "execuções extrajudiciais" a assassina, criminosa e sistemática prática das Forças Armadas oficiais da Colômbia nos últimos 63 anos, matando civis, vestidos com roupas militares e colocar armas nos seus cadáveres para fazer passá-los por guerrilheiros, “baixas em combate”, num país que se ufana de ser um Estado de direito e cuja legislação não contempla a pena de morte, permitiu um tratamento benigno aos criminosos, que tem escamoteado uma condenação drástica, vertical, clara e oportuna do terror desenvolvido pelo Estado colombiano há mais de 47 anos.

A regra sobre o uso de armas não convencionais, é uma regulamentação para a guerra entre as nações que não pode abarcar a movimentos populares como o nosso, que foi montada desde o início com paus e facões para se defender contra a agressão urdida e executado pelo Estado com a contribuição militar, financeira e tecnológica da Casa Branca. Equivale a repreender o David bíblico porque usou pedras para se defender contra a agressão do gigante Golias.

Seria útil trabalhar um cenário internacional para analisar, a partir de perspectivas diferentes, estas situações e outras do mesmo teor e trocar ideias sobre a "neutralidade" que, acima de qualquer consideração, devem manter aqueles que se afirmam os seus garantes.

- As FARC fazem uso de minas anti-pessoal, entre outras coisas contra as operações de erradicação manual de cultivos de coca. Por que continuar a usar uma arma proibida pelo direito humanitário e todos concordaram em 1998 em erradicar através do Tratado de Ottawa ou da Convenção sobre a proibição de minas terrestres?

AC: Reitero que no armamento utilizado pela guerrilha na sua luta de resistência, na irregularidade da sua táctica e, como consequência da assimetria que caracteriza um confronto como o colombiano, será necessário que num cenário internacional amplamente representativo, é claro que com a presença de guerrilha revolucionária, nos preocupemos em resolver esta questão objectivamente, sem mentiras, procurando conclusões realistas que todos possamos acatar rigorosamente, incluindo os governos. É ridículo, para o qualificar de alguma maneira, que quando o governo colombiano lança operacionais contra insurgentes numa proporção de 100 soldados para cada guerrilheiro, com bombardeamentos da guerrilha com milhares de toneladas de pentolite, realizados por uma aviação equipada com foguetes de todos os tipos, metralhados por centenas de helicópteros gringos e russos da ultima tecnologia, bombardeados com morteiros de 120 mm, em seguida, venham logo os comandos militares queixar-se e denunciar, que muitas de suas unidades caíram em campos minados num teatro de operações tão desigual. Ou, como acontece, é criminoso forçar civis a servir como guias com consequências muitas vezes infelizes para aqueles que são forçados. Ou, como em outras ocasiões, é perversamente fariseu dar dinheiro a civis para actuar como informadores, que à procura de informações, são muitas vezes vítimas do confronto.

Certamente ninguém pode poupar esforços para separar a população civil do conflito. Este deve privilegiar cada um dos eventos cometidos como parte do conflito, mas como entender isso no caso da Colômbia, onde o governo nacional desencadeou uma intensa campanha para recrutar civis como informadores, em troca de dinheiro, integrando-os num dispositivo chamado Rede de Cooperantes? Estarão aderindo às regras do direito internacional humanitário? Ou há uma contradição entre seu discurso maniqueísta em relação aos padrões internacionais e as políticas que desenvolve? São muitas as questões a serem actualizadas numa reunião de actualização do DIH, na qual seria vital a participação dos Estados Unidos da América para também analisar a síntese entre as exigências que faz ao resto do mundo com respeito aos direitos humanos e a sua prática diária e universal.

- As FARC têm futuro, se se mantiverem à margem do comércio de drogas? Que relações têm agora com o cultivo e tráfico de drogas? É hoje a sua principal fonte de financiamento? Qual a receita anual?

AC: A nossa luta para ficar fora do tráfico de drogas não tem sido fácil, porque nos últimos 30 anos, a Colômbia tem sido permeada e contaminada, dos pés à cabeça, pelos dinheiros da droga: as instituições do Estado, sem excepção, a indústria, a bancária, o comércio, a política, o desporto, a agricultura, o entretenimento, as forças militares e policiais, a Igreja e, em geral, o conjunto do tecido social.

A guerra contra as drogas ordenada pela Casa Branca tem sido um fracasso, especialmente na Colômbia, pois deixou um rastro de sangue enorme, desintegração social e perda de valores substantivos da ética e da moralidade, enquanto a área plantada com coca oscila pendularmente entre os 90 mil e 180 mil hectares e o país continua a liderar o tráfego mundial, de acordo com relatórios de várias organizações internacionais.

Desde há muito tempo que temos manifestado a nossa concordância com a legalização ou despenalização que desde os tempos do Nobel americano laureado Milton Friedman, até à data, incluindo quatro ex-presidentes latino-americanos e muitos indivíduos e organizações em todo o mundo, é promovida como uma saída realista para liquidar os enormes lucros deste tráfego, gerir o seu uso crescente como um problema de saúde pública e desenvolver estratégias de prevenção com a certeza da sua superação definitiva.

Na época do Caguán, em sessão especial para embaixadores e representantes de vários países e organizações multilaterais, apresentamos um plano detalhado para experimentar numa área delimitada uma estratégia de substituição de cultivos para desencorajar os produtores de coca e isso iria contribuir para a criação de certas alternativas económicas. Muitos traficantes de drogas e líderes políticos dos partidos do governo chumbaram a proposta e frustraram-na.

O tráfico de drogas não é um problema das FARC. É um fenómeno nacional, da América Latina e do mundo, o qual se tem que enfrentar com uma estratégia racional e convergente liderada pelos primeiros responsáveis e também as principais vítimas deste tipo de câncer: os países desenvolvidos.

Eu queria ser taxativo nisto: nenhuma unidade fariana, de acordo com os documentos e decisões que nos regem pode plantar, processar, trocar, vender ou consumir substâncias alucinogeneas ou psicotrópicas.
Tudo o resto que se diga é propaganda.

- Fora do tráfico de drogas, como são financiadas as FARC?

AC: As FARC-EP têm três fontes básicas de financiamento: as contribuições de amigos e apoiantes que acreditam sinceramente no compromisso revolucionário das FARC e na causa pela qual lutamos; impostos que cobramos aos ricos através da Lei 002 e as rendas geradas por investimentos que mantemos.

- As FARC sofreram os seus mais duros golpes durante o governo Uribe, como a Operação Jaque, a Operação Fénix, a Operação Camaleão. Em que situação se encontra a guerrilha? Quais são os seus efectivos e que território controla?

AC: Para ser honesto o golpe mais sério e mais substancial que recebemos foi após a segunda conferência da guerrilha realizada em 1966, no departamento de Quindío, onde perdemos uma grande quantidade de combatentes e 70% das armas. Só após a quinta conferência, muitos anos depois, o comandante Marulanda poderia dizer: "Finalmente recuperámos do mal que quase nos liquidou."

Operativos como Jaque, desenvolvido a partir da traição do chefe da unidade de guerrilha que vendeu os prisioneiros de guerra sob sua custódia, não possuem as conotações propagandeadas pelo governo. Temos resgatado inúmeras vezes os nossos prisioneiros das prisões do Estado. São acções de guerra que obrigam as partes a tomarem novas medidas de segurança. Não modificam a concepção nem os desenhos operacionais, e muito menos a estratégia operacional de nossas forças.

Nos últimos nove anos, e, como resultado da maior ingerência militares dos EUA nos assuntos internos da Colômbia, a guerra intensificou-se. Temos sofrido golpes. As mortes de Raúl, de Jorge, de Ivan Ríos e de muitos camaradas, doem-nos e geram a dor revolucionária que desencadeia, imparável, maior compromisso com os nossos ideais do socialismo. Já a assimilamos. Com o legado e o exemplo de nossos heróis e mártires, as novas gerações tomam o seu lugar na trincheira, novas gerações de revolucionários dispostos, como os mais velhos, a dar tudo, até a vida, pelos objectivos da Nova Colômbia.

Mas sabemos que em toda a guerra existem mortes, em ambos os lados, e a Colômbia não é excepção.

Também estes nove anos, têm mostrado a dimensão e a qualidade do compromisso das FARC com os nossos ideais de mudança e transformação revolucionária. Como é evidente também temos atingido as forças militares e paramilitares do Estado, as institucionais e as para-institucionais, todas, incluindo aquelas que atiram a pedra e escondem a mão, que cinicamente dizem desconhecer a estratégia dos "falsos positivos", que negam nos media a sua conivência com o narcoparamilitarismo, mas lhe abrem na escuridão da noite as portas secretas de seus palácios, mansões e fazendas para conspirar contra a convivência, a democracia e contra o povo.

As FARC mantêm a sua influência, sólida influência, nas áreas onde existem, em todos os cantos do território nacional, nascida e enraizada na correcção da nossa abordagem política, no nosso trabalho e apoio permanente às comunidades, no respeito por todas e pela nossa autoridade, decorrente do compromisso sincero de quem não pretende nada em troca do seu esforço, excepto a satisfação de trazer a esperança ao povo na sua própria capacidade de mobilização, organização, luta e seu futuro bem-estar.

Não posso comentar sobre quantas unidades compõem as FARC-EP, porque somos uma organização irregular. Mas, temos acções, trabalhamos e lutamos em todo o país.

- O que há de verdade sobre o suposto conteúdo do computador de Raúl Reyes?

AC: Os elementos que poderiam ter continuado a trabalhar após o bombardeamento do camarada Raul e sua guarda, foram manipulados pelo governo. Nem a própria INTERPOL quis comprometer-se com a truculência de Alvaro Uribe e declarou publicamente após uma análise detalhada, que havia sido quebrada a cadeia de segurança, o que significa, em linguagem simples, que depois da morte de Raul o conteúdo do disco rígido "sobrevivente" foi manipulado, se é que existia ainda depois de tal inferno de explosivos. Tratava-se de inventar e torcer eventos para chantagear as FARC e muitos amigos da paz na Colômbia com esse estilo particular que caracteriza o Sr. Alvaro Uribe e que impôs ao seu governo. Esta semana, a Suprema Corte declarou ilegal qualquer prova levantada sobre os computadores de Raul Reyes precisamente porque eles manipularam os materiais supostamente encontrados e desvirtuaram-se os procedimentos judiciários.

Curiosamente, não foi divulgado nenhum relatório, que o comandante devia conservar, por exemplo, sobre pagamentos a oficiais superiores da polícia, os generais de hoje, que fez o traficante Wilber Varela e que comentou pessoalmente e com detalhes a um dos nossos comandantes no Valle del Cauca coronel Danilo Gonzalez, o qual ainda na actividade, procurou as FARC pretendendo a libertação de alguns suspeitos, que tínhamos retido; nem se mencionaram relatórios precisos sobre o uso pleno da DAS pelos paramilitares, com pleno consentimento do então Presidente, ou de reuniões, de uísque na mão, em Bogotá, de chefes paramilitares com altas personalidades para planejar ataques à esquerda, nem outras que tornariam muito extensa esta entrevista e que, certamente, não incluíram nas cópias que foram dando a alguns de seus governos amigos, à CIA, ao MI5 e ao MI6 britânicos, à Mossad israelense e outras histórias improváveis que continuam publicitando através das suas organizações de bolso.

- Você acha que o processo de desmobilização paramilitar impulsionado pela lei de Justiça e Paz tem sido bem sucedido? Qual é a sua opinião sobre este processo?

AC: Esse processo foi planeado e executado como uma farsa para branquear os verdadeiros líderes do paramilitarismo logo que Alvaro Uribe, um deles, ganhou as eleições presidenciais em 2002.

Como cobertura, eles usaram narcotraficantes e pistoleiros como líderes da contra-insurgência, a quem prometeram estatuto político e respeito por suas incalculáveis fortunas. Logo os descartaram numa história que se repete, onde a aristocracia e alguns infractores procuram o poder e riqueza utilizando criminosos e bandidos, que são posteriormente condenados, presos ou enviados para assassinar, num repetido espectáculo de escárnio público.

O país sabe que o paramilitarismo é uma estratégia do estado para assassinar sistematicamente adversários, procurando esconder o sangue que mancha as principais instituições públicas, por trás de bandos de sicários e criminosos da aparência civil.

A oligarquia colombiana, impotente na luta contra o progresso da acção revolucionária, entregou-se à prática paramilitar, à qual, no final da década de 70, articulou com o nascente narcotráfico, dando origem ao narcoparamilitarismo, elogiado e consentido socialmente pelos poderosos durante largos anos, que agora estão lutando para escapar do estigma e lavar as suas próprias porcarias.

Traficantes que acreditaram em suas palavras foram exibidos e promovidos como grandes líderes contra revolucionários e logo de seguida extraditados para os Estados Unidos, a fim de silenciá-los. Mais tarde, quando desde lá e sob a pressão das vítimas chegaram a confessar a sua vilania, a mencionar os seus amigos, parceiros, contactos, padrinhos políticos e militares, a oligarquia usou os seus meios de comunicação para semear a dúvida: como acreditar num criminoso e não num aristocrata, num político tradicional ou num prestigioso general das Forças Armadas?

A lei de justiça e paz, tem sido uma grande farsa, que passou pela venda de títulos como "comandantes paramilitares" para assassinos narcotraficantes, também passou pelas fotos de "desmobilizações" de desempregados e bandidos contratados para a ocasião, com espingardas e armas compradas para a fotografia, e terminará com a absolvição de Alvaro Uribe, na comissão de acusações da Câmara dos representantes do Parlamento colombiano, excepto se os milhões de afectados por esta estratégia criminosa imprimirem uma maior dinâmica aos seus esforços e lutas e receberem uma maior solidariedade global. Somente desta forma, na Colômbia, como sucedeu na Argentina e outros países também se poderão condenar os autores e mandantes da noite negra e sangrenta em que mergulhou o país.

- Por que faz sentido a luta armada das FARC e não a defesa através de meios democráticos dos ideais políticos e das transformações económicas que consideram necessárias?

AC: Porque na Colômbia a oposição democrática e revolucionária é assassinada pela oligarquia. O massacre da União Patriótica é a nossa demonstração.

Qualquer líder ou qualquer organização não oligárquica que ameace os poderes oligárquicos é assassinado ou massacrada, como parte de uma estratégia oficial de Segurança Interna. Os poderosos instituíram-na como característica da sua cultura política e agora incorporaram-na na concepção do Estado.

Longas passagens da história nacional que remontam a Setembro de 1828 quando facções pró-gringas colombianas de então atentaram contra o Libertador Simon Bolívar, até anos recentes, passando pelo assassinato do Grande Marechal de Ayacucho António José de Sucre, o líder liberal Rafael Uribe Uribe, de Jorge Eliecer Gaitán, de Jaime Pardo Leal, de Luis Carlos Galan, e Bernardo Jaramillo Ossa, de Manuel Cepeda Vargas e centenas de outros líderes, parecem ratificar uma afirmação popular: a oligarquia colombiana não entende senão a linguagem dos tiros.

Aqui nas FARC pensamos que, apesar da histórica agressão contra o povo que caracteriza o futuro da nação, é realista e urgente trabalhar na construção de espaços de convergência, onde, entre todos os colombianos construamos os acordos que sustentem a vida democrática. O comandante Jacobo Arenas insistiu em que o destino da Colômbia não poderia ser a guerra civil, portanto, nós temos lutado e lutamos de novo, para encontrar a solução com diferentes governos, a saída política para o conflito colombiano. Não foi alcançado porque a oligarquia pensa em rendições e nós em mudanças de fundo, democráticas da vida institucional e das regras de convivência, mas nem por isso deixaremos de combater por uma solução sem derramamento de sangue como essência da nossa concepção de apoio revolucionária e sustentada de uma Nova Colômbia.

- Que lições tiraram da criação do partido União Patriótica?

AC: Foi uma experiência tanto cheia de riqueza como dolorosa, que devemos analisar e referir constantemente. De entre as suas muitas lições poderia citar algumas como o difícil que é avançar num processo de resolução política, quando a oligarquia colombiana mantém sua estratégia de paz dos cemitérios e Pax Romana, pois contra este projecto mostrou a sua mesquinhez e foi essencialmente sanguinária e cruel. Preferiu o assassinato de cerca de 5.000 dirigentes democráticos e revolucionários numa razia de recorte hitleriano, do que abrir espaços para todas as vertentes da esquerda, o que, se tivesse acontecido, teria gerado uma nova dinâmica no confronto político e tornado possível a realização integral dos Acordos de La Uribe há 25 anos.

Com o extermínio da UP não só se perdeu uma geração quase completa de líderes revolucionários, a maioria deles de grande dimensão política e ética, cuja ausência, hoje, é evidente na cena pública, tanto da nação como do continente, como também frustrou por muitos anos, a possibilidade de assinar um acordo de convivência.

A experiência da UP ensinou-nos que qualquer progresso em direcção da paz que surja de acordos exige transparência, que cada dificuldade deve ser esclarecida antes de empreender uma nova etapa. Os Acordos de La Uribe, a origem da UP, foram sabotados pelo Comando militares desde o primeiro momento, apesar do que, lutámos como Quixotes, para fazer avançar todos estes acordos,.

Mas alcançar a assinatura dos acordos de paz em La Uribe em 1984 e assegurar o seu cumprimento integral até ao fim foi impossível. Os colombianos empreenderam com grande optimismo e maior entusiasmo uma histórica jornada para a convivência, mas perderam essa batalha civilizada contra a "inimigos agachados da paz ", que hoje já não se escondem tanto.

Um processo de paz bem sucedido, tem como premissa inevitável o apoio, completo, determinado, claro e activo, da maioria da população.

Não tenho a menos dúvida de que as novas gerações de colombianos, num futuro próximo, irão homenagear e reconhecer os mártires da União Patriótica que "de peito descoberto" lutaram por um país melhor para seus filhos, pela democracia e a convivência, com uma generosidade, um desprendimento e uma valentia exemplares.

- Destacados líderes da esquerda colombiana disseram ao Público que acreditam que a existência como guerrilha das FARC é responsável pela "direitização extrema" da sociedade colombiana, já que "esquerda" se associa a guerrilha. Você concorda?

AC: Digamos genericamente, que se está à esquerda, se for dada prioridade ao social, à democracia popular e às mudanças revolucionárias, em oposição aqueles que privilegiam o lucro económico, a hegemonia burguesa e a defesa do status quo. Não se trata apenas de estar do lado esquerdo da direita, mas de defender integralmente os interesses de classe, populares. Plenamente.

Faço um parêntesis para lhe dizer que não ouvi nenhum líder proeminente, de esquerda, dizer o que você menciona na sua pergunta.

Na Colômbia há muitos, muito importantes e muito consequentes, que com enorme responsabilidade discordam da luta armada revolucionária, se afastam dela, mas compreendendo as suas circunstâncias históricas, trabalhando para encontrar os caminhos de uma solução política, respeitando o compromisso dos que lutam na guerrilha e priorizando os seus debates contra a oligarquia e contra o neo-colonialismo imperial, verdadeiros geradores da violência na Colômbia.

Por certo há aqueles que fizeram campanha do lado da esquerda e já não defendem suas posições originais, mas as do regime, como em muitas partes do mundo. Há que respeitar as suas novas posições, mas sem os registar como defensores dos interesses do povo ou colocá-los à esquerda no xadrez político.

Também pode dar-se o caso dos que procuram esconder os seus próprios fracassos, atrás dos esforços dos outros.

A nossa luta desde Marquetalia é pela democracia, pela possibilidade de desenvolver uma acção de massas, aberta, pelas mudanças revolucionárias e pelo socialismo. E esta opção, é a que tem sido sabotada a tiro pela oligarquia colombiana.

Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, legislaram com o anti-comunismo como suporte durante a ditadura militar, criaram a Frente Nacional bipartidária para excluir e perseguir os revolucionários, e aprovaram uma constituição em 1991, com elementos positivos na sua concepção e texto, mas deixando intacto o conceito de segurança nacional do inimigo interno que se mantém desde há pouco mais de 47 anos no nosso país, a mesma dos paramilitares e dos falsos positivos.

A direita na Colômbia e no mundo, faz propaganda e espalha os seus pretextos, reais ou fictícios, para confundir, atacar e desvirtuar as lutas dos povos pelo bem-estar e o progresso social. E usa uma variedade de formas, incluindo muitos que foram militantes da esquerda.

Nos tempos que correm, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, não há confusão possível. Aqueles que defendem a ordem existente, não o podem esconder.

O confronto na Colômbia prolongou-se muito. Lutar e clamar pela paz é uma expressão de um sentimento profundamente popular e revolucionário.

- As FARC assinaram um pacto de não agressão com a guerrilha do ELN, em Dezembro de 2009. Que obstáculos têm havido na sua implementação?

AC: Tanto o Comando Central do ELN como o Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP, temos reconhecido com sentido de autocrítica, o erro que significou não parar drástica, nítida e oportunamente as fricções que estavam ocorrendo em várias áreas do país entre combatentes das duas forças.

Agora trabalhamos com grande convicção revolucionária em todas estas áreas para superar definitivamente as asperezas, os mal-entendidos, as emulações mal feitas e os confrontos. É um processo complexo, dada a conjuntura actual, de intenso clima de confronto político e militar com o Estado. Mas vamos avançando com solidez.

A auto-crítica é profunda e nós estamos a fazê-la. Leva tempo, há muito terreno a percorrer, mas avançamos com firmeza, com consciência, em todos os níveis das nossas organizações, de que somos parte do mesmo contingente de luta popular, revolucionária, bolivariano, anti-imperialista e socialista. E este é o fundamento da maneira como nos relacionamos, as convergências que devemos trabalhar e lutar para elevar a novos níveis a necessária estratégia unificada dos revolucionários colombianos.

Tomámos o legado de um grande revolucionário, o sacerdote Camilo Torres Restrepo para enfatizar o que nos une. As diferenças devem ser arejadas com mecanismos que estamos criando para isso.

Estamos obrigados a ser um exemplo de unidade. E maturidade. Assim também contribuiremos para a unidade do povo colombiano, projectando na realidade a prioridade "do bem comum" acima de qualquer interesse particular.

Ainda temos um longo caminho, mas já o começámos. E isso é o estratégico.

- De acordo com uma ordem do Supremo Tribunal dois testemunhos de ex-membros das FARC envolvem o exército de Hugo Chávez nos cursos de formação que a ETA deu aos guerrilheiros colombianos em território venezuelano. Os relatos dos arrependidos fazem parte de um relatório do Comissariado Geral de Informação da Polícia. Na secção dedicada aos "factos" descreve-se como em Agosto de 2007, dois supostos membros da ETA ministraram na selva venezuelana dois cursos sobre manipulação de explosivos à guerrilha das FARC. As FARC tiveram no passado relações com a ETA? Mantêm relacionamento no presente e, em caso afirmativo, em que consiste?

AC: A experiência das FARC em explosivos, tanto no seu fabrico, como no seu armazenamento e utilização é longa e abundante, o que, desde há muito tempo nos permite sustentar-nos sem recurso a qualquer tipo de ajuda, simplesmente porque não temos necessidade. Temos os nossos próprios instrutores. É simples. Isto para rejeitar as afirmações sobre tais cursinhos com pessoal estrangeiro que só visa prejudicar o governo bolivariano da Venezuela.

Na Colômbia, a partir do oferecimento de dinheiro, viagens para a Europa e de considerável redução de sentenças, alguns desertores, prestaram-se a testemunhar contra nós e a promover as políticas nacionais e internacionais do governo de Alvaro Uribe. Mas como a mentira não dura, as montagens que fabricaram a partir de milhares de falsos testemunhos estão-se desmoronando. Todas caem como um castelo de cartas.

Por exemplo: actualmente decorrem investigações criminais e administrativas, do Procurador e da Procuradoria Geral da República contra funcionários do governo Uribe e altos oficiais militares da época, pelas comédias que montaram, farsas, falsas deserções cheias de infames afirmações, como parte da sua ofensiva contra as FARC.

O mundo está-se inteirando de como em Tolima foram recrutados bandidos e desempregados, com quem "formaram" uma coluna de guerrilheiros, vestidos com uniformes militares, alguns com velhas espingardas e outros com armas de madeira. Chamados os jornalistas foram tiradas fotos, peroraram uma diatribe, deram algum dinheiro aos farsantes, vilipendiaram muitos cidadãos, que foram presos, e depois, felizes, incluindo o então presidente, certificaram que o final do fim estava próximo.

Dissemos que esta era uma tendência geral do anterior governo colombiano: tentando impor as suas políticas fascistas, levantou todo o tipo de barreiras morais, legais, éticas para se conceder a licença para difamar, caluniar, mentir e inventar. Valeria a pena a justiça espanhola verificar e confrontar exaustivamente a informação que foi fornecida no momento.

As nossas relações, neste momento, têm carácter clandestino, com muitas organizações democráticas e revolucionárias do mundo, civis e armadas, são regidas pelas conclusões das Conferências da Guerrilha que, como eu disse, orientam sobre o não desenvolvimento de acções militares em outros países, respeitando a soberania de cada país e as lutas de cada povo.

- É verdade que as FARC pediram apoio à ETA para atentar contra várias pessoas, incluindo o presidente Alvaro Uribe, quando ele visitou a Espanha ou a UE?

AC: Essa é a propaganda que fez o mesmo Uribe, na Colômbia e no exterior, para projectar uma imagem de vítima.

- As forças de segurança espanholas prenderam Remedios Garcia Albert, que consideram ligada às FARC. Têm as FARC ligações com Remedios Garcia Albert? Se sim em que consistem?

AC: Não conheço vínculos de Remedios Garcia com as FARC. A única referência é uma menção das autoridades colombianas num jornal, durante o período de incontinência propagandística que atacou o governo em volta do suposto computador do comandante Raul Reyes. Nunca, nem antes nem depois ouvi o nome dela. Eu diria, se para alguma coisa serve, que nos tempos de negociações de paz em Caguán, grande quantidade de pessoas de todo o mundo, individualmente ou como representantes de muitas organizações diversas ou governos, estiveram presentes e compartilharam pontos de vista com os nossos representantes sobre o processo que decorria. Eu não poderia acrescentar mais nada sobre isso.

- Qual é a relação com os governos de Cuba, Venezuela e Equador?

AC: Se me permite, preferia abster-me de responder acerca das nossas relações com qualquer governo no mundo.

- Acham que a Espanha pode desempenhar um papel na resolução do conflito colombiano? Qual?

AC: Nós sempre encaramos de forma positiva a participação da comunidade internacional na resolução política do conflito. Mas dadas as suas características actuais e as permanentes e agressivas declarações oficiais, é necessário dar tempo ao tempo.

- O que sabe dos falsos positivos? Por que as FARC não fizeram mais revelações sobre este assunto?

AC: A matança sistemática de civis indefesos pelos militares e policiais, e sua posterior apresentação como "guerrilheiros mortos em combate" é uma prática institucional na Colômbia desde 1948.

Não é nova. É parte de uma guerra suja feita pelo governo colombiano contra o "inimigo interno", que também concebe e implementa o assassinato selectivo de líderes políticos da oposição, dirigentes sindicais comprometidos com os trabalhadores, o desaparecimento de militantes revolucionários, a tortura, o terror e massacres para intimidar e criar o medo, a paralisia, o pânico e o deslocamento.

Tudo isto tem sido denunciado e continua a ser. Existem centenas de livros, milhares de denúncias, milhares de evidências e de provas que mostram a responsabilidade do estado da Colômbia no desenvolvimento desta estratégia, só que até agora, a comunidade internacional aceita a versão oficial que aponta como factos isolados sob a responsabilidade de algumas maçãs podres, esta criminosa prática institucional.

Há centenas de milhares de vítimas civis da guerra suja que o regime levou a cabo, segundo afirma, "em defesa das instituições e do Estado de Direito". Em meados dos anos setenta, a estratégia de oligárquica de terror fundiu as suas práticas paramilitares com o tráfico de drogas, sob a direcção e liderança de empresários poderosos, figuras proeminentes na política tradicional e os altos comandantes militares, com o objectivo de reforçar os seus crimes e acumular dinheiro proveniente do tráfico de drogas, mas escondendo seus verdadeiros chefes e orientadores.

Hoje, muitas evidências começaram a surgir, a partir das farsas das prisões atribuídas aos militares e políticos responsáveis por crimes hediondos, passando por usurpações maciça de terras por proprietários, militares, industriais e os líderes de partidos tradicionais, acordos políticos encharcados de sangue entre chefes e traficantes, o enriquecimento desmesurado e inusitadamente rápido de um pequeno sector social ligado aos vários governos destes anos, infiltrado quase sem excepção por dinheiro mafioso e ao seu serviço. até ás ligações do governo com esta estratégia, por enquanto visualizada em duas das suas "eminentes" cabeças, o Sr. Narvaez e Alvaro Uribe Velez.

E ainda que até hoje não haja militares condenados pelos chamados "falsos positivos", a sociedade avança na luta para chegar ao fundo do problema, avaliar cada situação com precisão, para punir os autores materiais e os autores intelectuais e mandantes, o que inevitavelmente, chegará aos regulamentos militares existentes, inspirados, concebidos e desenhados a partir da perspectiva de Segurança Interna apresentado por Washington desde os tempos da Guerra Fria, que foi um dos assuntos tabu na Assembleia Constituinte de 1991 e causa subjacente dos milhares e milhares de mortos todos estes anos. A Colômbia perdeu muito tempo por esse veto imposto pela oligarquia nas discussões daqueles anos.

Tamanho erro não se pode repetir. As soluções que requer o nosso país são estruturais, se queremos a reconciliação na base certa e não cerzindo outro remendo como o de 1991. Por isso, também é importante que, se construirmos um novo cenário baseado na solução sem derramamento de sangue em algum ponto se podem incluir representantes da força publica, onde certamente muitos de seus membros, sem responsabilidade na baixeza da guerra suja, também estarão clamando pela reconciliação e reconstrução nacional.

- Depois da morte de Jorge Briceño num atentado em 22 de Setembro [2010], o presidente Santos reiterou que agora estava à vista o fim das FARC. O que acha disso?

AC: Desde 1964 que temos conhecimento de tal declaração oficial da boca de vários presidentes e ministros de guerra, às vezes ameaçadores, outras vezes na forma de promessas e outras como ameaça, sempre com a intenção de esconder as raízes do conflito que tornou necessária a existência das FARC.

Assim têm justificado a violência terrorista do Estado.

Assim, ano após ano, têm aumentado o orçamento militar e da polícia, para deleite dos generais e senhores da guerra.

Assim, eles têm escondido durante muito tempo a sua própria incompetência, intransigência e corrupção profunda que corrói as instituições oficiais.

Assim pretendem cobrir a sua vergonhosa e humilhante postura de joelhos perante o Pentágono e a Casa Branca.

Apesar de não nos dedicarmos seriamente, entre todos, à procura das soluções para os problemas estruturais do país, a confrontação será inevitável. Umas vezes mais intensa, outros menos. Às vezes, com a iniciativa militar do Estado, outras, com a iniciativa popular, numa trágica ciclotimia que devemos superar, inteligentemente, com grandeza histórica.

Como o confronto continua, haverá mais mortes. Em ambos os lados. Mais tragédias para o povo. E não haverá paz nem convivência na Colômbia.

Não se trata da morte de um ou outro comandante guerrilheiro. O conflito não é tão fácil ou simples. As circunstâncias históricas do país são particulares. A existência de guerra de guerrilha revolucionária na Colômbia não é um resultado do voluntarismo de um punhado de valentes ou de aventureiros, de "terroristas", ou "narco-terroristas". Tais adjectivos podemos deixá-los para a propaganda oficial. A insurgência colombiana reflecte a súmula de uma série de diferentes factores estruturais que os governos não podem teimosamente e criminosamente, continuar a ignorar.

A oligarquia colombiana formou umas forças armadas de mais de 500 mil homens num país de cerca de 45 milhões de pessoas com enormes necessidades e carências. Inaudito! Quase um quinto do orçamento nacional do próximo ano é para gastos militares. Investiu-se cerca de 10 mil milhões de dólares de ajuda dos EUA ao abrigo do Plano Colômbia, para uma guerra fracassada. No entanto, o confronto continua.

Quando eles bombardearam o acampamento do comandante Jorge Briceño, com quase uma centena de aeronaves que deixaram cair milhares e milhares de toneladas de explosivos durante muitos dias, num inferno dantesco, instalaram na periferia do local tendas com espelhos e presentes, alimentos e roupas novas, sapatos, Reebok e Nike convidando os guerrilheiros por meio de alto-falantes durante semanas, à traição e deserção.

Tudo o que obtiveram foi uma resposta militar da guerrilha heróica, cheia de consciência moral e revolucionária, que produziu centenas de baixas na força de ocupação e o afluxo maciço de novos guerrilheiros à região e muitas outras zonas do país.

A aproximação à paz democrática, a convivência e a justiça social não pode ser medida em litros de sangue. Sabe-o o país e, claro, o presidente Santos.

- No seu último relatório, a ONG colombiana Nuevo Arco Iris, que acompanha o desenvolvimento do conflito militar cruzando informação oficial e de analistas, embora reconhecendo a supremacia aérea do governo, disse que o combate em terra lhe é reconhecidamente adverso. Quais são os resultados reais desse confronto?

AC: Gostaria de observar que todos os dias há combates e actos de guerra entre a guerrilha e a força publica institucional na maior parte dos 32 departamentos do país, onde se obtêm vitórias e às vezes se recebem golpes, num confronto que se prolongou no tempo e em que a iniciativa militar se altera ao longo do tempo em diferentes áreas, mas não de forma estratégica. Os relatórios militares que trazemos a público, quantificam os efeitos da guerra no nosso adversário e nas nossas próprias fileiras com números irrefutáveis.

Gostaria de destacar que a ofensiva oficial lançada há mais de 11 anos a partir do chamado Plano Colômbia, projectado no Pentágono, dirigido e financiado por eles e alimentado incansavelmente por armamento da última geração a partir de Washington, fracassou. É a operação de contra-revolução maior e mais avançada e longa no continente e é também a maior demonstração de que a solução do conflito na Colômbia não passa pela Pax Romana.

- Quais as condições que exigem hoje para desmobilizar?

AC: Desmobilização é sinonimo de inércia, é entrega covarde, é rendição e traição à causa popular e às ideias revolucionárias que cultivamos e lutamos pela transformação social, é uma indignidade que tem implícita uma mensagem de desesperança para o povo que confia no nosso compromisso e proposta bolivariana.

Não temos nenhuma hesitação, nenhuma dúvida sobre o nosso dever de lutar constantemente e sem descanso, com convicção e optimismo, pela solução política do conflito, sem derramamento de sangue. Nós os colombianos, com a contribuição de países amigos, devemos construir um cenário de diálogo, onde haja adesão e trabalho em conjunto num processo para celebrar acordos, cuja materialização incida fortemente e de forma irreversível na liquidação das causas que deram origem ao conflito armado e hoje o alimentam.

Uma vez erguido o cenário, num processo que também deve actuar na reconstrução da confiança entre as partes, teremos de falar sobre os prisioneiros de guerra, militares, policias e guerrilheiros detidos pelas partes como um aspecto político e humanitário prioritário. E em função de objectivos a longo prazo, contamos como ponto de partida com uma ferramenta excepcional que é a Agenda Comum para a Mudança para uma Nova Colômbia, assinado como acordo entre o Estado colombiano e as FARC-EP, em El Caguán.

Claro que o importante é construir o cenário, com vontade e decisão política, pensando no país e seu futuro, abstraindo das mentiras inventadas pela propaganda oficial que afastam a solução final, porque fazem pensar no estabelecimento com os seus próprios desejos. E nestes processos é essencial manter os pés no chão.

As tentativas dolorosamente frustrantes que tivemos desde La Uribe em 1984, para encontrar maneiras civilizadas, são evidências das enormes dificuldades envolvidas em encontrar o caminho certo, sem que isso implique renúncia.

A Colômbia está passando por um momento crítico porque acabou de terminar o período do governo mais violento e corrupto da história nacional, aquele liderado por Álvaro Uribe. Dezenas de congressistas e líderes políticos que participaram na sua campanha presidencial e na sua gestão estão na cadeia condenados como mandantes do narcoparamilitarismo, muitos outros enfrentam investigação preliminar pelo Ministério Público e do Supremo Tribunal, vários dos seus ministros também são indiciados e são investigados, enquanto dezenas de quadros médios dessa administração já estão presos, todos por corrupção e/ou paramilitarismo.

O véu está prestes a cair. A capa de teflon construída pelos amigos de Uribe permitindo o enriquecimento desmesurado desse círculo mafioso, como resultado de uma incomensurável corrupção administrativa, a contemporização complacente de muitos com a estratégia e prática paramilitares que era conhecida e a sua fascistóide rejeição visceral de uma solução política do conflito, todos esse vergonhoso véu, está prestes a cair, o que abrirá novas perspectivas para uma verdadeira democracia.

Quando, para além da violência e da corrupção, a natureza açoita o país com a chuva inclemente, está pedindo aos seus dirigentes grandeza e estatura histórica para enfrentar a difícil conjuntura e projectá-lo com força para o futuro.

Os ódios doentios espalhados pelo governo anterior, que polarizaram a Colômbia, estão acabando o seu prazo. As licenças que se arrogou para burlar a lei como rotina estão terminando através da Procuradoria, dos Juízes e dos Tribunais. Ter recuado o DAS aos tempos da tenebrosa POPOL, polícia política do regime nos anos 50, não será um crime impune.

A insana insistência uribista em apontar as FARC como terrorista, não ofusca a verdade nua e crua sobre a existência do conflito armado na Colômbia contida no projecto da chamada Lei de vítimas, se considerarmos que foi sobre a tese mentirosa da inexistência de conflito, que Uribe edificou o seu palanque fascista.

Como revolucionários que temos dado tudo pelos nossos ideais e o bem-estar do povo, persistimos na resolução política do conflito.

Montanhas da Colômbia, 21 de Maio 2011

16/Junho/2011

O original encontra-se em http://frentean.blogspot.com . Tradução de Guilherme Coelho.

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
01/Set/11