"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Carta de Iván Márquez a María Jimena Duzán


O integrante do Secretariado das Farc respondeu à colunista de SEMANA uma carta pública na qual perguntava como esta guerrilha iria responder as vítimas do sequestro.
María Jimena

Respondo sua carta de março em meio ao clamor de paz que incessante se eleva desde abaixo, grito rouco do [cidadão] comum, sentimento orgulhosamente plebeu, estilhaçando contra o muro da surdez do poder, contra a violência e o terrorismo de um Estado que hoje ostenta sem vergonha a indignante joia
de nos ter convertido no terceiro país mais desigual do mundo. Somos um sonho de paz em construção, desde Marquetalia em 64 e desde muito antes. A busca da paz com justiça social é um princípio reitor, fundamental, o norte verdadeiro de uma estratégia. Não enfrenta nem divide as FARC. Quando algum analista assalariado golpeia o bumbo midiático da existência de uma linha pacifista e outra guerreirista, não deixa de arrancar-nos um leve sorriso. A histórica coesão do Estado-Maior Central das FARC, que é o grande legado de Manuel, não se deixa impressionar por divagações taciturnas.
Na década dos 80 vi o velho Jacobo Arenas abraçando como uma criança a fantasia de ver-se nas praças públicas como tribuno, comandando a alternativa política para Colômbia e a marcha irreprimível pela paz. Não foi possível, María Jimena, você sabe. Mataram a esperança da União Patriótica.
Com certa tristeza já distante, devemos admitir que Caracas e Tlaxcala foram uma oportunidade perdida. Gaviria e Hommes, possuídos já pelo Mefistófeles neoliberal, não admitiam outra discussão que não fosse a entrega das armas e a desmobilização da guerrilha. Aborreciam como seus sucessores seguem aborrecendo a mudança das injustas estruturas, o sentimento de soberania e o fim dos privilégios, alicerces da verdadeira paz. Nem eles mesmos podem orgulhar-se hoje de ter aberto as portas à desnacionalização de nossa economia nem de sua infame declaração de guerra integral contra o povo.
Porém, devo confessar-lhe, María Jimena, que nós, leitores assíduos de sua coluna e seguidores de seus debates radiofônicos, quase não a reconhecemos em sua leitura um pouco precária dos motivos que determinaram o fracasso dos diálogos do Caguán.
Por que não acreditar no ex presidente Pastrana e no ex comissionado de paz Victor G. Ricardo? Eles afirmaram em todos os tons que buscaram o diálogo como uma manobra para ganhar tempo frente a problemas claramente identificados como a seca de recursos para a guerra e a urgência de uma reengenharia do exército e da estratégia contra insurgente. Não importava desalojar cinco municípios se o que se buscava era salvar um regime cambaleante.
E, de fato, quando consideraram alcançado este propósito, já desenhado no Plano Colômbia pelos estrategistas do Comando Sul do exército dos Estados Unidos, declararam rompidas as conversações. E nem sequer atenderam o protocolo de respeitar o tempo de espera combinado para o reinício das ações bélicas. Tendo em conta estas circunstâncias, podemos afirmar que os diálogos do Caguán nasceram mortos. Quem burlou, então, ao país?
Pretender, hoje em dia, a entrega das armas e a desmobilização da guerrilha, com a submissão a uma justiça, que precisamente queremos destronar, é tão somente uma ilusão seráfica. Diríamos que um desrespeito mais a um país que está sendo esbulhado pelas transnacionais e traído por leis de prestidigitadores.
Devemos parar essa “locomotiva do desenvolvimento” que todos os dias leva o petróleo, o carvão, o ouro e o ferroníquel, recursos que deveriam ser empregados na solução dos graves problemas sociais do país. O impacto ambiental é um desastre. Na hora de falar de paz, estes temas não devem desaparecer da agenda, não se pode eliminar a superação das causas geradoras do conflito, a reversão da política neoliberal..., e o povo não pode ficar por fora da mesa.
Respeitamos, María Jimena, sua convicção contra a luta armada, porém, ao mesmo tempo, abrigamos a esperança de que a inteligência entenda que estamos fazendo uso de um direito universal. Bolívar nos diz que, “ainda quando sejam alarmantes as consequências da resistência ao poder, não é menos certo que existe na natureza do homem social um direito inalienável que legitima a insurreição”. No entanto, estamos dispostos a assinatura de um tratado de regularização da guerra, que recolha as especificidades do conflito colombiano para tornar menos dolorosas suas consequências, ao tempo em que propendemos por um acordo de paz, um novo contrato social que ponha fim à confrontação bélica, removendo as causas que a geram.
Lamentavelmente, na Colômbia o ato da rebelião tem sido desfigurado em seu caráter ao privar-se a conexão com condutas que lhe são inerentes, tudo em desenvolvimento de uma estratégia para dissuadir com penas severas a resistência, que nem sequer prevê que a oposição de hoje pode amanhã ascender ao poder, e que sempre será necessário invocar um tratamento mais benévolo para o opositor.
Alguns se escandalizam porque um prisioneiro de guerra passe 14 anos confinado na selva, porém se tornam cegos e mudos quando há guerrilheiros como Simón Trinidad condenados a 60 anos de prisão no desterro, e com correntes físicas. Nenhum dos casos deveria ser.
Diz você que acredita em nós quando anunciamos o fim das retenções econômicas, e em troca nos exige mais e mais gestos de paz, e nem um só ao governo. Talvez se tenha desvanecido em sua memória que libertamos unilateralmente a uns 500 prisioneiros de guerra capturados em combate, recebendo do Estado reciprocidade zero.
O estabelecimento nem sequer permitiu ao grupo de mulheres gestoras de paz – que intercederam para a libertação de seus prisioneiros de guerra – a visita aos cárceres para verificar as condições de reclusão dos guerrilheiros e dos milhares de prisioneiros políticos.
Não deveria, María Jimena, colocar-se essa venda subjetiva sobre seus olhos. Previamente ao anúncio, Timoleón Jiménez, nosso comandante, fez uma consulta a todos os Blocos, e a verdade é que nenhum deles tem pessoas retidas com esse propósito. País livre é uma organização paragovernamental de mentirosos que necessita justificar as ajudas internacionais e institucionais que recebe.
Já que recorda nebulosamente minha passagem fugaz pelo Congresso da República, considero pertinente precisar-lhe que, com Alfonso Cano e Raúl Reyes, e muitos outros combatentes, fomos obrigados pelo Estatuto de Segurança de Turbay Ayala e o Estado de Sítio permanente, a abraçar a luta armada. E que muitos dos dirigentes das mobilizações populares de hoje são os filhos e herdeiros de uma geração de revolucionários, decapitada pela intransigência do Estado e pelo genocídio da União Patriótica.
Essa intransigência das elites está entrincheirada por trás da máquina de guerra do Estado e por trás dessa arrogância violenta que lhes vem do apoio de Washington, porém não há que depreciar que os negócios dessas elites estão imersos na crise sistêmica do capital e que a entrega dolorosa da soberania é gasolina e carvão que pode acender a indignação.
Causa certa perplexidade seu desconhecimento das motivações políticas e ideológicas que estimulam as FARC, que a levam docilmente, sem muita reflexão, a equiparar-nos com as Bacrim. Você sabe que essa sigla foi inventada pelo governo para tentar inutilmente deslindar-se dos crimes de lesa-humanidade do paramilitarismo de Estado.
Na Plataforma Bolivariana pela Nova Colômbia está retratado um projeto político de nova sociedade. Duvido que alguma vez possa ver a um comandante das FARC descansando numa rede, tomando os licores que você imagina, desconectado da paixão que o impulsiona sem cessar à tarefa da construção da Nova Colômbia, soberana, em democracia, justiça social e paz.
É óbvio que não estamos na margem dos que pilham nossos recursos e causam a pobreza de 30 milhões de compatriotas. Mirar as possibilidades de paz desde a margem do empresário Luis Carlos Sarmiento Angulo, por exemplo, que diariamente desloca a umas 10 famílias de suas casas, alegando não pagamento, quando as pessoas já pagaram três vezes e mais o valor das mesmas, é correr o risco de ficarmos presos eternamente na noite da guerra. A estes tipos devemos render-lhes homenagens?
Depois de andar todos estes anos com um fuzil nas mãos e a chama da paz no coração, relembrando os caídos, pensando nos humildes, creio ter mais razões que nunca para lutar pelo ideal de dignidade de um povo até as últimas consequências. Se a paz há de vir pela via da solução política, bem-vinda seja. É o que desejamos todos. Temos fé cega na força da mobilização e marcha do povo pela paz.

Iván Márquez

Integrante do Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP

Montanhas de Colômbia, 20 de abril de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

"A força pode esconder a verdade, mas o tempo traz a luz"

Com aplausos e entoando estrofes do hino nacional, políticos, militantes dos direitos humanos, vítimas da ditadura e familiares dos mortos e desaparecidos do regime saudaram a instalação da Comissão Verdade, em cerimônia realizada no Palácio do Planalto. Foram poucos os que conseguiram não se emocionar. A própria presidenta Dilma Rousseff, durante seu discurso, embargou a voz e chorou. “A força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo pode adiá-la, mas o tempo acaba por trazer a luz. Hoje, esse tempo chegou”, afirmou.


Brasília - Com aplausos calorosos e entoando estrofes do hino nacional, políticos, militantes dos direitos humanos, vítimas da ditadura e familiares dos mortos e desaparecidos do regime saudaram a instalação da Comissão Verdade, em cerimônia realizada nesta quarta (16), no Palácio do Planalto. Foram poucos os que conseguiram não se emocionar. A própria presidenta Dilma Rousseff, durante seu discurso, embargou a voz e chorou ao falar sobre a importância histórica do momento. “A força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo pode adiá-la, mas o tempo acaba por trazer a luz. Hoje, esse tempo chegou”, afirmou.

Dilma chegou à cerimônia acompanhada de todos os ex-presidentes civis que a antecederam, à exceção de Tancredo Neves e Itamar Franco, já falecidos. Fez questão de pontuar a contribuição de cada um deles à democracia brasileira, dividindo a responsabilidade pela criação do ambiente democrático que resultou na instalação da Comissão da Verdade com Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor de Mello e José Sarney. Mas não escondeu o orgulho de ter sido ela, uma ex-presa política torturada nos porões da ditadura militar, a responsável pela instituição da Comissão, tão reivindicada e ansiosamente esperada pela sociedade brasileira.

“Cada um de nós deu a sua contribuição para esse marco civilizatório, a Comissão da Verdade. Esse é o ponto culminante de um processo iniciado nas lutas do povo brasileiro, pelas liberdades democráticas, pela anistia, pelas eleições diretas, pela Constituinte, pela estabilidade econômica, pelo crescimento com inclusão social. Um processo construído passo a passo, durante cada um dos governos eleitos, depois da ditadura”, justificou.

Perfil polêmico
Os sete membros empossados pela presidenta comemoraram o momento histórico e se declararam prontos e capacitados a contribuírem com o processo de reconciliação nacional, “sem revanchismos e sem apedrejamentos”, como deixou claro o porta-voz do grupo no evento, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias. “A história vale pelo que ela conta e pelo que dela se espera”, afirmou, ressaltando a importância da busca pela verdade e memória sobre o período.

Dias também tentou arrefecer os ânimos de vítimas da ditadura e familiares que, desde o dia anterior, mobilizaram-se em desagravo à Comissão, devido às declarações de alguns membros, como o jurista pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, de que a comissão investigará não só os agentes de Estado responsáveis por crimes como tortura, morte, desaparecimento e ocultação de cadáveres, mas também os militantes de esquerda. Segundo Dias, “possíveis abusos cometidos na luta não justificam os atos de agentes e mandatários do Estado”.

O próprio Cavalcanti Filho adotou um tom mais ameno e, em entrevista à imprensa após a cerimônia, disse que, antes de decidir se irá ou não investigar militantes, a Comissão precisa definir seu plano de trabalho, ancorando-o sobre os consensos do grupo. “Ainda temos que conversar sobre isso. Eu recebi, pela internet e de várias fontes, a solicitação para investigar uma lista com 119 militantes. Mas vamos aguardar a decisão da comissão”, justificou.

Outro dos empossados, o ex-procurador geral da República, Cláudio Fonteles, defendeu a não apuração dos crimes praticados por militantes políticos. Segundo ele, nenhuma das comissões da verdade criada nos outros 40 países que já passaram pela experiência, tiveram este perfil.

A presidenta Dilma, no seu discurso, já havia delimitado a função conciliatória do colegiado, cujos membros foram escolhidos diretamente por ela. “Quando cumpri minha atribuição de nomear a Comissão da Verdade, convidei mulheres e homens com uma biografia de identificação com a democracia e aversão aos abusos do Estado. Convidei, sobretudo, mulheres e homens inteligentes, maduros e com capacidade de liderar o esforço da sociedade brasileira em busca da verdade histórica, da pacificação e da conciliação nacionais. O país reconhecerá nesse grupo, não tenho dúvidas, brasileiros que se notabilizaram pelo espírito democrático e pela rejeição a confrontos inúteis ou gestos de revanchismo”, pontuou.

Dilma também não se furtou a mandar um recado aos remanescentes das casernas e àqueles que entendem a instalação da comissão como uma ameaça. “A ignorância sobre a história não pacifica, pelo contrário, mantêm latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda apaziguar, apenas facilita o trânsito da intolerância. A sombra e a mentira não são capazes de promover a concórdia. O Brasil merece a verdade. As novas gerações merecem a verdade, e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia. É como se disséssemos que, se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo, pode existir uma história sem voz. E quem dá voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la”, disse, muito emocionada, a presidenta.

Ausências e desagravos
A ciência do valor histórico de ver o país instaurar sua Comissão da Verdade, entretanto, não foi suficiente para acalentar os ânimos de ex-perseguidos políticos e familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura militar. Muitos deles, descontentes com o perfil de parte dos membros escolhidos pela presidenta, nem apareceram à cerimônia. Caso da militante histórica pelos direitos das vítimas e seus familiares, a ex-exilada Iara Xavier Pereira, que perdeu o marido e dois irmãos durante o regime.

Outros registraram presença, mas apenas com o propósito de pressionar a Comissão a adotar uma postura suficientemente progressista para abrir espaço para que os agentes do estado responsáveis por crimes de tortura, assassinato, estupro, desaparecimento forçado e ocultação de cadáveres possam vir a ser punidos.

A anistiada política Rosa dos Santos, filha do militante comunista e ferroviário Artur Pereira dos Silva, morto durante a Ditadura, disse reconhecer o esforço do governo em tentar curar as feridas abertas, mas se disse muito receosa com o perfil da comissão. “Pessoas que pensam que militantes têm que ser investigados não deveriam estar aí. Tanto os militantes quanto seus familiares já sofreram a vida toda, toda a sorte de violências, privações e perseguições. Uma afirmação dessas é demonstração de desconhecimento da história e do contesto político em que vivemos”, criticou.

Ela defendeu que as vítimas e familiares adotem uma postura proativa de acompanhar de perto o trabalho da Comissão, pressionando sempre. “Eu quero participar das reuniões para ter acesso ao que está sendo discutido, nem que para isso eu precise providenciar um mandato de segurança”, afirmou.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Insurgência colombiana disposta a entregar jornalista francês


Fonte:Rebelion.org


As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP), anunciaram hoje a sua disposição de entregar o jornalista francês Romeo Langlois.

Em declaração pública divulgada pelo Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP sublinha que em prol de garantir ainda mais sua vida e integridade, propõem entregá-lo em lugar seguro para uma comissão formada pela Cruz Vermelha Internacional, a Senadora Piedad Córdoba e um delegado pessoal do novo presidente da França, François Hollande.

“Aprisionar, em meio a um combate, a quem em uma operação militar veste uniforme do inimigo e o acompanha, em nada macula nosso compromisso. Somente uma visão francamente tendenciosa pode considerá-lo um seqüestro”, enfatiza o texto.

A nota relembra que, no passado dia 27 de fevereiro, as FARC-EP comunicaram oficialmente que nunca voltariam a realizar detenções de pessoas com fins financeiros.

“É cada vez maior o número de pessoal militar e paramilitar norteamericano, ou ao seu serviço, que intervém na guerra civil colombiana, e os superiores militares se vangloriam de usar infiltrados e espiões para aplicar-nós severos golpes”, informa o texto.

É evidente – acrescenta o documento – que em casos como este, as FARC-EP tem total direito a deter e investigar, se tratando de um conterrâneo ou de estrangeiro.

O caso Langlois é ideal para revelar o papel que desempenham os grandes meios de comunicação na ordem social imposta pelo grande capital, que antes de informar e promover o pensamento livre, a grande imprensa tergiversa a realidade para converter em única verdade a versão dos seus patrocinadores, indica o texto.

Há apenas dois anos, os jornalistas Hollman Morris, Leonardo Acevedo e Camilo Raigoza foram arbitrariamente detidos pelo Exército no departamento de Caquetá, quando, de modo independente, cobriam a entrega de dois prisioneiros de guerra. Vestiam trajes civis e até o presidente da República os acusou de propagandistas das FARC – EP. A grande mídia mostrou-se totalmente indiferente com eles, pontua a nota.

Quando estiver em liberdade, Langlois poderá terminar de cumprir com o papel esperado pelo governo da Colômbia, suas forças militares e a grande mídia, expressa o texto.

Caso contrário, poderá permanecer fiel à sua consciência e referir a verdade; se fosse este o caso, poderia ser que os mesmos que hoje exigem a sua imediata liberdade se enfureçam com ele até destruí-lo por completo, conclui o comunicado.


Prensa Latina

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Actualidade de Marx num mundo caótico à beira da barbárie (*)

Por Miguel Urbano Rodrigues

No cerne do grande debate ideológico travado no âmbito do movimento comunista internacional uma questão continua a suscitar um interesse absorvente: a transição do capitalismo para o socialismo. Já Lenine dizia que ela seria infinitamente mais difícil do que a tomada do poder em Outubro de 17. E até hoje não encontramos respostas satisfatórias.

Uma campanha de âmbito mundial desencadeada por intelectuais de grandes universidades dos Estados Unidos e da Europa, amplamente divulgada pelo sistema mediático controlado pelo imperialismo, proclamou desde a desagregação da URSS o fim do marxismo. Para esses epígonos do capitalismo, o neoliberalismo como ideologia definitiva assinalaria o fim da História; no marxismo identificavam um arcaísmo obsoleto.

Essas profecias não tardaram a ser desmentidas pelo caminhar da História. Em lugar da era de progresso, abundância e democracia, anunciada por George Bush (pai) após o desaparecimento da URSS, uma crise de civilização abateu-se sobre a humanidade. A concentração de riqueza foi acompanhada por um alastramento da pobreza. Fomes cíclicas assolaram e assolam países da África e da Ásia. No início do milénio o capitalismo entrou numa crise estrutural de proporções globais.

Pela primeira vez na História, o capitalismo está sendo abalado até aos alicerces - como sublinha István Meszaros - como sistema mundial «e a transcendência da autoalienação do trabalho» configura um desafio dramático. Sem soluções, porque a Acumulação não funciona mais de acordo com a lógica do capital, os EUA, apresentando-se como pólo da democracia e da liberdade, desencadearam agressões monstruosas contra povos do ex-Terceiro Mundo, alegando que defendem a humanidade contra o terrorismo.

UM DEBATE SEMPRE ACTUAL

O debate sobre o combate ao imperialismo como tarefa revolucionária prioritária deve ser acompanhado de outro complementar sobre as causas e consequências da derrota temporária do socialismo.

Os comunistas (quase todos) coincidem hoje na conclusão de que a transformação da Rússia num país capitalista foi uma tragédia para a humanidade.

Mas persistem no movimento comunista profundas divergências quando a discussão incide sobre o processo cujo desfecho foi o desaparecimento da União Soviética.

Segundo alguns partidos, a ofensiva imperialista foi determinante para contaminar a sociedade soviética, minar o PCUS, e provocar a implosão do regime. Para outros, uma minoria, as raízes da contra-revolução são fundamentalmente internas. A perestroika teria sido apenas a espoleta e o instrumento de um complexo processo contra revolucionário cuja evolução acompanhou a luta de classes na Rússia revolucionária.

No primeiro tomo da sua obra «A luta de classes da União Soviética», Charles Bethelheim chama a atenção para uma evidência ao lembrar que dentro do próprio partido comunista a luta interna foi permanente numa sucessão de «guerras civis» atípicas. Por outras palavras, a contra revolução principiou por cima, no coração do PCUS.

Mas três décadas transcorreram até que a relação de forças na direcção do PCUS se alterasse, permitindo que o XX Congresso assinalasse a viragem que criaria condições para a destruição gradual do chamado «socialismo real».
A vitória sobre as hordas hitlerianas, que salvou a humanidade do fascismo e os grandes êxitos económicos, científicos e sociais que catapultaram o país de Lenine para segunda potência mundial, e também a solidariedade internacionalista com povos em luta contra o imperialismo, tornaram quase invisível até à perestroika o fermentar da contra revolução.

Não cabe nesta intervenção a análise dos erros e desvios da construção do socialismo na URSS, o afastamento do PCUS da democracia leninista e as consequências negativas do voluntarismo e do dogmatismo subjectivista.
Mas a ausência de êxito no desafio da transição do capitalismo para o socialismo tal como Marx concebia este não impediu o surgimento na União Soviética de uma sociedade muito menos marcada pela desigualdade e pela injustiça social do que a de qualquer das falsas democracias representativas do Ocidente, que são, na realidade, ditaduras da burguesia de fachada democrática.

O IMPERIALISMO COLECTIVO

Não obstante a contradição de interesses entre os EUA e os outros países do ex-G7 persistirem, essas contradições não são como antes antagónicas pelo que é hoje mínima a probabilidade de guerras inter-imperialistas como aquelas que provocaram dezenas de milhões de mortos na primeira metade do século XX. Ao imperialismo clássico sucedeu aquilo a que o economista argentino Cláudio Kats chama o imperialismo colectivo.

Sob a hegemonia dos EUA, cuja superioridade militar é esmagadora, países como o Reino Unido, a França, a Alemanha, o Japão e outros aliados menores (Itália, Espanha, Canadá, Austrália, etc.) tornaram-se cúmplices de uma estratégia de dominação planetária. Invocando pretextos falsos como a existência de armas de extermínio massivo ou a luta contra a fantasmática Al Qaeda, os EUA invadiram, vandalizaram e ocuparam o Iraque e o Afeganistão e as suas forças armadas praticaram ali crimes contra humanidade que somente encontram precedente no Reich nazi.

Goebels dizia que uma mentira muito repetida aparece como verdade. Não podia imaginar que a perversa propaganda hitleriana surge hoje como jogo quase inofensivo comparada com a sinistra engrenagem de desinformação montada pelo imperialismo para servir a sua estratégia. Nesta era da informação instantânea, uma gigantesca máquina, cientificamente montada e controlada pelos laboratórios ideológicos do imperialismo, bombardeia os povos com um discurso e imagens que distorcem a realidade.

Promover a alienação das massas e manipular a consciência social é um objectivo permanente do imperialismo. Essa ofensiva mediática visa anular a combatividade dos povos mediante a robotização progressiva do homem, meta facilitada pela contracultura alienante exportada pelos EUA.

Nesse contexto, as actuais guerras coloniais são precedidas de um massacre das consciências concebido para neutralizar eventuais reacções às agressões militares, apresentadas como iniciativas imprescindíveis à defesa da democracia e da paz.

As modernas guerras imperiais não seriam entretanto possíveis sem a cumplicidade do Conselho de Segurança da ONU, transformado em instrumento dessa estratégia.

A satanização de líderes transformados em verdugos dos seus povos tornou-se rotina nessas campanhas. Aconteceu isso com Khadaffi. O dirigente líbio, que há dois anos era recebido com abraços por Sarkozy, Cameron, Berlusconi e Obama passou, de repente, a ser qualificado de monstro e acusado de crimes contra a humanidade. Para se apoderarem do petróleo e do gás do país os novos cruzados do Ocidente fabricaram uma rebelião em Benghasi e fizeram aprovar pelo Conselho de Segurança da ONU uma Resolução sobre a «exclusão aérea» - com a cumplicidade, após vacilações, da Rússia e da China – resolução aliás logo desrespeitada quando começaram a explodir bombas e mísseis em Tripoli.
Seguiram-se seis meses de uma guerra repugnante, na qual a NATO funcionou como instrumento de uma agressão definida pela ONU como «intervenção humanitária».

Expulsar a China da África foi um dos objectivos dessa agressão, concluída com o assassínio de Muamar Khadaffi. Mais de 35 000 chineses, técnicos e trabalhadores, foram retirados da Líbia, onde trabalhavam. A China tinha ali, como noutros países do Continente, importantes investimentos. Cabe lembrar que Angola é actualmente o segundo fornecedor de petróleo africano à China.
A criação de um exército permanente dos EUA na África foi preparada com anos de antecedência. A recente intervenção militar no Uganda, anunciada por Obama com o pretexto de combater uma minúscula seita religiosa subitamente qualificada de «terrorista», foi uma etapa desse ambicioso projecto. O presidente norte-americano já informou, entretanto, que os EUA enviarão tropas para «combater o terrorismo» no Congo, Sudão do Sul e República Centro Africana, se os governos desses países pedirem «ajuda».

No âmbito dessa escalada, ignorada pelos media internacionais, aviões da USAF, a partir da sofisticada base instalada em Djibuti, bombardeiam periodicamente a Somália e o Iémen, para - segundo afirma Washington - «combater movimentos tribais aliados da Al Qaeda».

IRÃO E CHINA

Qual será a próxima vitima do sistema de poder hegemonizado pelos EUA?
O comportamento dos EUA traz à memória o do Reich nazi. Primeiro foi a anexação da Áustria; depois Munique e a posterior destruição da Checoeslováquia; finalmente a exigência da entrega de Dantzig, a invasão da Polónia, a guerra mundial.

Não pretendo estabelecer analogias. Mas o desprezo pelos povos e pelo seu direito à independência é o mesmo, tal como o cinismo e a hipocrisia do discurso.
Primeiro foi o Afeganistão, depois o Iraque, em seguida a Líbia, agora foi o Uganda. Nos intervalos, Israel, com o apoio de Washington, invadiu o Líbano e promoveu o massacre de Gaza.

A Síria está na linha de mira. O Irão é, na aparência, o grande «inimigo da democracia ocidental» a derrotar. Mas o inimigo real é a China. No seu discurso sobre o Estado da União, Obama não escondeu que na estratégia americana as prioridades se deslocaram do Médio Oriente para a Ásia Oriental. Hillary Clinton foi mais longe no final de Fevereiro. Ao qualificar o governo da China como «ilegítimo» (sic) assumiu uma posição desafiadora. James Petras viu nela uma «declaração de guerra» a prazo.

A gula imperial é insaciável. Nestes dias, é imprevisível o rumo dos acontecimentos no Golfo.

A decisão de atacar o Irão tem esbarrado com forte resistência no Pentágono. Os estrategos do sistema não têm a certeza de que as mais potentes bombas convencionais possam destruir em Natanz as instalações nucleares subterrâneas do país. Israel não pode intervir sem o aval de Washington e teme o poder de retaliação iraniano. A hipótese do recurso a armas nucleares tácticas tem sido tema de especulação. Mas os custos de uma tal opção seriam devastadores no plano político.

A situação caótica criada no Afeganistão após a queima do Corão numa base norte-americana veio alias confirmar o fracasso da estratégia americana na Ásia Central. Que credibilidade merecem as forças de segurança» do Afeganistão criadas pelos EUA e a NATO se os soldados afegãos matam com frequência os oficiais americanos e europeus que os treinam.

A escalada de leis reaccionárias nos EUA assinala o fim do regime «democrático» na República. A chamada Lei da Autorização da Segurança Nacional, promulgada por Obama, revogou na prática a Constituição bicentenária do país. A partir de agora, qualquer cidadão suspeito de ligações com supostos terroristas pode ser preso por tempo indeterminado e eventualmente submetido a tortura no âmbito de outra lei aprovada pelo Congresso.

A fascistização das Forças Armadas nas guerras asiáticas é já inocultável. No Afeganistao, elementos do corpo de Marines exibiram publicamente a bandeira das SS nazis e não foram punidos.

Comentando a promulgação por Obama da lei de Autorização da Segurança Nacional, Michel Chossudovsky, definiu os EUA como «um Estado totalitário com traje civil».

Não exagera. Os EUA estão a assumir o perfil de um IV Reich.

QUE FAZER?

Perante a estratégia imperial que ameaça a humanidade, a pergunta de Lenine QUE FAZER? adquire uma dramática actualidade.
A recusa da «nova ordem mundial» que o imperialismo pretende impor assumiu nos últimos anos proporções planetárias.

Seattle foi um marco na rejeição do sistema de dominação que utiliza o FMI, o Banco Mundial e a OMC como instrumentos da política do grande capital. De repente, milhões de homens e mulheres começaram a sair às ruas em gigantescos protestos contra a religião do dinheiro e as guerras imperiais.
O lema do primeiro Foro Social Mundial - «outro mundo é possível» - traduziu esse descontentamento e a esperança de uma mudança radical. Mas, transcorrida mais de uma década, o próprio Foro transformou-se numa caixa-de-ressonância de discursos inofensivos.

No ano passado, o Movimento dos Indignados, em Espanha, e o Ocupem Wall Street, nos EUA, mobilizaram multidões, expressando o desespero das massas oprimidas. Mas esses protestos, positivos, e outros, promovidos por diferentes movimentos sociais, não ameaçam seriamente o poder do capital. Os jovens sabem o que rejeitam, mas esbarram com um muro intransponível na formulação de uma alternativa. Que querem, afinal?

O espontaneísmo é como a maré oceânica; assim como sobe, desce.
O capitalismo está condenado a desaparecer. Mas o seu fim não tem data e a agonia pode ser muito prolongada.

Que fazer então?-repito

Não serei eu, nem outros comunistas a tirar do bolso a receita mágica.
É minha convicção que Lenine enunciou uma evidência ao lembrar que não há revolução durável sem um partido revolucionário que a promova e lidere as massas. Para mal da humanidade, a destruição da URSS e a implantação na Rússia do capitalismo permitiu ao imperialismo desencadear uma tempestade contra revolucionária que atingiu os partidos comunistas, semeando a confusão ideológica. Alguns com grandes tradições, como o italiano, desapareceram após várias metamorfoses; outros, como o francês e o espanhol, social democratizaram-se, assumindo linhas reformistas.

A criação do Partido da Esquerda Europeia contribuiu para aumentar a confusão. Não obstante a maioria dos partidos que a ele aderiram serem nominalmente comunistas, defendem estratégias reformistas. Actuam sobretudo dentro do sistema parlamentar, concentrando a sua luta em reivindicações sobre problemas imediatos, sem dúvida importantes, mas secundarizam a luta pelo socialismo como objectivo principal. Neutralizar a combatividade das massas, orientando as lutas no quadro institucional, é o objectivo inconfessado do Partido da Esquerda Europeia. Batem-se, na prática, pelo «aperfeiçoamento» do sistema.

No panorama europeu, o Partido Comunista da Grécia, o KKE, surge hoje como a grande excepção à tendência maioritária que privilegia a linha reformista. A sua contribuição - mais de uma dezena de greves gerais num ano - para a luta dos trabalhadores gregos contra as políticas impostas pelos governantes dos grandes países da zona euro, a Alemanha e a França, tem sido decisiva.
Julgo útil afirmar neste Congresso marxista que acompanhar os acontecimentos da Grécia, reflectir sobre eles e apoiar o combate dos comunistas gregos se tornou hoje um dever revolucionário.

O KKE defende a criação e o fortalecimento de uma Frente democrática anti-imperialista e anti-monopolista, uma aliança entre trabalhadores e pequenos e médios agricultores.

Permitam-me que cite um parágrafo do artigo da secretária geral do KKE, a camarada Aleka Papariga, publicado no número 2 da Revista Comunista Internacional:
 
Desenvolvimento desigual quer dizer desenvolvimento político e social desigual, o que significa que as condições prévias para o início da situação revolucionária podem surgir mais cedo num pais ou num grupo de países que, sob condições especificas, pode constituir «o elo mais fraco» do sistema imperialista. Isto é particularmente importante hoje, quando o desenvolvimento e as remodelações ocorrem no sistema imperialista e se intensificam as contradições tanto no âmbito dos países como no sistema imperialista. Entendemos, portanto, que cada partido comunista, tal como os trabalhadores de cada país, tem o dever internacionalista de contribuir para a luta de classes ao nível internacional, mobilizando e organizando a luta contra as consequências das crises nacionais, com vista ao derrubamento do poder burguês, à conquista do poder pelos trabalhadores e à construção do socialismo.

Insistindo na denúncia do oportunismo, a camarada Aleka Papariga lembra também que as reformas, por mais importantes que sejam, não podem conduzir ao socialismo sem uma confrontação final com a burguesia cujo desfecho seria a destruição das instituições do Estado capitalista.

A questão é fundamental. A chamada via pacífica para o socialismo foi ensaiada no Chile com o desfecho que conhecemos. Hoje a tese é retomada na América Latina pelos teóricos do Socialismo do Século XXI, nomeadamente na Venezuela Bolivariana e na Bolívia.

Em textos que publiquei no ano passado após participar no Foro Internacional de Maracaibo, critiquei essas posições, reafirmando a convicção de que a destruição do estado capitalista, em choque com o poder burguês, terá de preceder a construção de um poder popular estável.
Trata-se, insisto, de uma questão fundamental para o movimento comunista internacional.

Obviamente que a Europa não é a América Latina. E devemos sempre ter presente que a Europa é uma diversidade.

Mas no cerne do grande debate ideológico travado no âmbito do movimento comunista internacional uma questão continua a suscitar um interesse absorvente: a transição do capitalismo para o socialismo. Já Lenine dizia que ela seria infinitamente mais difícil do que a tomada do poder em Outubro de 17. E até hoje não encontrámos respostas satisfatórias. (**)

O que é valido para a Grécia não é obviamente transponível para outros países da zona euro. Às condições objectivas peculiares somam-se ali condições subjectivas inexistentes noutros países. A disponibilidade para a luta dos trabalhadores gregos é inseparável de uma herança histórica de sofrimento acumulado desde as lutas contra a ocupação turca no século XIX. Em 1945 a insurreição grega, após a expulsão dos alemães, quase levou ao poder os trabalhadores. Foi a bárbara repressão do exército britânico que restabeleceu a monarquia e impediu há mais de sessenta anos a construção na Grécia de um Poder .

PORTUGAL 

País periférico, subdesenvolvido, semi-colonizado, Portugal está há muito desgovernado por forças políticas que se submetem docilmente às imposições do imperialismo e as aplaudem.

As sanguessugas do capital, actuando nem nome da Comissão Europeia e do FMI, proclamam que os trabalhadores devem sacrificar-se, ser compreensivos, apertar o cinto e cumprir todas as exigências da troika para recuperar a confiança dos «mercados». Um sistema mediático perverso e corrupto participa no jogo da mentira. Emite críticas irrelevantes ao funcionamento da engrenagem, mas não contesta o diktat do capital.

O coro dos epígonos, perante o avolumar da indignação popular, teme que ela assuma proporções torrenciais e repete que somos um povo de «brandos costumes», diferente do grego, um povo que compreende a necessidade da «austeridade», consciente de que a superação da crise depende dela.
Incutir nas massas um sentimento de fatalismo é objectivo permanente no massacre mediático. Arrogantes, os sacerdotes do capital bradam que não há alternativa à sua política.

Só pelos caminhos da luta pode ser encontrada a solução para os problemas do nosso povo.

É necessário combater com firmeza a alienação que atinge grande parte da população. É indispensável combater a falsa ideia de que vivemos numa sociedade democrática, porque o regime parlamentar foi legitimado pelo voto popular. É necessário desmontar as campanhas que condenam as greves como anti-patrióticas e as manifestações de protesto como iniciativas românticas, inúteis.

É importante ajudar milhões de portugueses a compreender como foi possível que 38 anos após uma Revolução tão bela como a nossa, o país tenha voltado a ser dominado pela classe que o oprimia na época do fascismo.

Como foi possível o refluxo? A correlação de forças que permitiu as grandes conquistas revolucionárias durante os governos do general Vasco Gonçalves não se alterou de um dia para o outro.

A base social do PS não é mesma do PSD. Mas a direcção do PS tem actuado colectivamente ao serviço do grande capital. Na quase glorificação de Sócrates no Congresso daquele partido, o PS projectou bem a sua imagem. O secretário-geral tinha conduzido o país à beira do abismo com a sua politica neoliberal, mas foi ali aclamado com o herói e salvador. Renovaram-lhe a confiança e ele afundou mais Portugal. Depois ocorreu o esperado. O funcionamento dos mecanismos da ditadura da burguesia de fachada democrática colocou a aliança PSD-CDS de novo no governo. Uma parcela ponderável do eleitorado acreditou que votava por uma mudança. Na realidade limitou-se a accionar o rodízio da alternância no governo de partidos que competem na tarefa de servir os interesses do capital.

Hoje, cabe perguntar: como pode ter chegado a Primeiro-ministro uma criatura como Passos Coelho? O homem é um ser de indigência mental tão transparente que até intelectuais de direita como Pacheco Pereira reconhecem o óbvio.
A maioria do povo acompanha com angústia as cenas da farsa dramática. A contestação á política que está a destruir o país não pára de crescer. Mas é ainda muito insuficiente. As grandes manifestações de protesto e as greves nacionais e sectoriais somente podem abalar o sistema se a luta de massas adquirir um carácter permanente, intenso e diversificado. Nas fábricas, nos transportes, nos portos, nas escolas, na Administração, em múltiplos locais de trabalho, nas ruas.

É evidente que as condições subjectivas não são em Portugal as da Grécia, cujos trabalhadores, caluniados se batem hoje pela humanidade.
O esforço do PCP na luta contra o imobilismo e a alienação tem sido importante como contributo para o aprofundamento da consciência de classe e do nível ideológico da classe trabalhadora. Essa é uma tarefa revolucionária.

Não se deve ceder ao pessimismo. Não se combate a pobreza, o desemprego, a supressão de conquistas sociais baixando os braços.
 
A luta do povo português é inseparável da luta de outros povos, vítimas de políticas ainda mais cruéis.

É tarefa prioritária desmascarar a monstruosidade das agressões imperiais a países da Ásia e de África, lembrar que nas condições mais adversas, os povos do Iraque, do Afeganistão, da Palestina, da Líbia, entre outros, resistem e se batem contra a barbárie imperialista. A luta dos povos é hoje planetária.

É útil lembrar que o povo cubano, hostilizado pela mais poderosa potência do mundo, defende há mais de meio século a sua revolução com coragem espartana.

É útil lembrar que na América Latina os trabalhadores da Venezuela bolivariana, da Bolívia e do Equador apontam àquele Continente o caminho da luta contra o imperialismo predador.

É oportuno recordar que foram as grandes revoluções que contribuíram decisivamente para o progresso da humanidade. A burguesia francesa apunhalou em 1792 a Revolução por ela concebida e dirigida. Uma lenda negra foi forjada para a satanizar e lhe colar a imagem de um tempo de horrores. Mas, transcorridos mais de dois séculos, é impossível negar que a Revolução Francesa ficou a assinalar uma viragem maravilhosa na caminhada da Humanidade para o futuro.

É também oportuno lembrar que o mesmo ocorreu com a Revolução Russa de Outubro de 1917.O imperialismo festejou como vitória memorável a reimplantação do capitalismo na pátria de Lenine. Falsifica a História. Não há calúnia que possa inverter a realidade; as grandes conquistas dos trabalhadores europeus no século XX surgiram como herança indirecta da Revolução Socialista Russa, a mais progressista da história da Humanidade. Foi o medo do socialismo e do comunismo que forçou as burguesias europeias a conformar-se com conquistas como a jornada das oito horas, as férias pagas, o 13º salário.
Em Portugal é preciso reassumir a esperança que empurra para o combate e a vitória.

Em 1383 e 1640, quando o país estava de rastos e tudo parecia afundar-se, o 
povo português desafiou o impossível aparente e venceu.
 
É oportuno não esquecer que, após quase meio século de fascismo, o povo português foi sujeito de uma grande revolução que na Europa Ocidental realizou conquistas mais profundas do que qualquer outra desde a Comuna de Paris.
Vivemos um tempo de pesadelo, com os inimigos do povo novamente encastelados no poder. Mas as sementes de Abril sobreviveram à contra-revolução e depende da nossa gente que elas voltem a germinar nos campos e cidades de Portugal.

O horizonte apresenta-se sombrio. Mas sou optimista. As condições subjectivas para a luta estão a amadurecer embora lentamente.
Karl Marx é, a cada dia, mais actual para a compreensão do choque com a engrenagem trituradora do capital. A alternativa é entre Socialismo ou Barbárie. 

E o socialismo vencerá!

Obrigado por me ouvirem.
__
(*) Comunicação apresentada no Congresso “Marx em Maio”.
(**) A minha concordância com as posições do KKK perante a crise estrutural do capitalismo e concretamente com a estratégia adoptada na luta em curso na Grécia contra a submissão dos governos da burguesia helénica às políticas neoliberais impostas pelo imperialismo não significa que me identifique com algumas das análises e conclusões da Resolução Politica aprovada em 2008 pelo XVIII Congresso daquele Partido.


domingo, 13 de maio de 2012

Consulta Popular pela Paz


Fonte: adital.org

Inúmeras organizações indígenas e camponesas do sul do Departamento de Cauca lançarão, no dia 11 de maio, uma nova proposta para a resolução do conflito: a Consulta Popular pela Paz. Essa iniciativa busca tornar realidade o direito constitucional à paz. E que a paz e a forma de construí-la sejam considerados assuntos que dizem respeito a todas/os as/os colombianas/os, conforme explicam alguns promotores.

Os promotores da Consulta Popular exigem que se reconheça o direito a realizar "diálogos regionais de paz” que envolvam os atores armados e a população civil, como meio de avançar em iniciativas humanitárias que permitam resolver certos problemas cotidianos que são muito graves em diferentes zonas.

A voz dos povos indígenas e camponeses

"Porque a vida é sagrada, a paz é construída pelos povos”, é a consigna que convoca a mobilização cidadã de 8 a 11 de maio, no Departamento de Cauca.

Entre os convocantes, encontram-se a Asociación de Cabildos Indígenas del Norte del Cauca (Acin), o CRIC (Consejo Regional Indígena), o Plan de Vida Integral de Caloto, a Cococauca, as organizações camponesas Cima (do Macizo), Acit (de Inzá) e do Cajibío, a Red de Alcaldes por la Paz (Prefeitos pela Paz), a Ruta Pacífica de Mujeres e a Red de Iniciativas de Paz desde la Base.
Em um documento de convocação, assinalam que "a paz não é assunto exclusivo dos que fazem a guerra. Portanto, a paz é propriedade de todas/os. A paz nasce da palavra dos povos; está no poder das pessoas”.

Os que assinam a convocação, fazem uma análise da difícil situação econômico-social que padece a maioria da população caucana. Reconhecem que a luta em defesa de seus territórios e de seus recursos provoca contradições com a prática/presença de multinacionais que exploram ditos recursos. E sublinham a necessidade de rediscutir o modelo atual hegemônico de desenvolvimento nacional e mundial que não oferece opções aos povos.

E antecipam um caminho para sair do conflito: "Queremos consolidar a construção de nossos sistemas autônomos, governos e planos de vida (programa de sociedade) para colocá-los como colaboração para o restante da sociedade colombiana em termos de construir uma grande agenda nacional de paz”.

Quanto ao objetivo da atual mobilização, consiste em: "visibilizar a agressão sistemática da guerra nas áreas rural e urbana. Ambientar iniciativas e fatos de paz. Semear no coração da população a importância de construir a paz...

Com a visão de "apresentar ante a opinião pública uma proposta de Consulta Popular que nos permita aos colombianos e colombianas decidir e mandatar o direito e o dever da paz.

Mobilização para lançar a consulta

A atividade central e culminante promovida por organizações indígenas, camponesas, afrodescendentes, de mulheres e de direitos humanos para lançar a Consulta Popular pela Paz se realizará no dia 11 de maio, na localidade de Villa Rica, a 36 quilômetros de Cali. Os organizadores esperam a chegada de milhares de participantes.

O programa de mobilização inclui a Marcha pelo Direito à Vida, ao Território e à Paz, que se iniciou na cidade de Caloto, prossegue por Santander de Quilichao e culminará em Villa Rica.

A iniciativa "é impulsionada em uma das zonas mais atingidas pelo conflito no Departamento de Cauca”, explica Nubia Fernanda Espinosa Moreno, da Minga, uma das associações nacionais mais ativas no país.

"A barbarie do conflito golpeia diretamente a 16 dos 42 municípios”, analisa Espinosa. E a mais atingida pelo mesmo é a população civil, em particular os indígenas, afrodescendentes e camponeses, analisa a historiadora de Minga.

Somente no norte de Cauca, que é a zona onde trabalha Acin (Asociación de Cabildos Indígenas do Norte), em 2011, devido aos enfrentamentos armados, foram assassinados 37 líderes indígenas; 617 famílias foram desalojadas; 30 menores de idade foram feridos; 825 habitações destruídas. "Situação dramática se se agrega o impacto psicológico de tudo isso nas comunidades da região”, enfatiza Espinosa, que insiste no tema de fundo em torno ao fim do conflito e da construção da paz no país sul-americano. "O governo expressou em diferentes ocasiões que é o único que tem a chave para a paz. Nós, desde a sociedade civil, pensamos que todas/os as/os colombianas/os temos essa chave para a paz”.

Ressaltando também a importância de que vários prefeitos e outras autoridades de primeiro escalão do Departamento de Cauca adiram à proposta de uma Consulta Popular pela Paz, o que dá maior peso à mobilização.

E conclui com uma visão integral da paz "que não significa somente calar os fuzis”, mas implica em uma aposta estratégica com a participação ativa da sociedade civil. Construindo-a desde a base, cotidianamente. Mudando as culturas políticas atuais.


Resolvendo as causas estruturais que motivaram o início do conflito, dando respostas claras às reivindicações sociais e abrindo uma nova era de respeito absoluto aos direitos humanos”, conclui a jovem historiadora.

O valor de uma iniciativa constitucional

"É uma proposta transcendente e seu impacto dependerá da cobertura que consiga junto aos meios de comunicação”, explica a psicóloga suíça Dominique Rothen, que trabalha na região de Cauca há quase três anos.

 
O mais importante da iniciativa, analisa a jovem profissional, é o esforço jurídico que contém. Utilizando um instrumento constitucional existente –a Consulta popular- para conseguir que a "paz e a forma de construí-la seja um assunto de todas/os as/os colombianas/os e não um monopólio do governo e menos ainda uma agenda exclusiva dos atores armados”, analisa.

Rothen é cooperante de E-Changer, organização suíça de cooperação presente na Colômbia, ressalta também a enorme oportunidade dessa tentativa no atual marco constitucional. No entanto, "em minha concepção de democracia participativa, penso que essas tentativas jurídicas tendentes a que a paz seja realmente considerada, na prática, um direito constitucional, têm uma importância significativa para a cultua institucional colombiana”, conclui.

[Sergio Ferrari, da Colômbia, colaboração de E-CHANGER, ONG suíça de cooperação solidária presente na Colômbia].

União Europeia perto dos 25 milhões de desempregados

A Zona do Euro está à beira dos 11 por cento de desemprego (10,9 por cento) e a União Europeia aproxima-se dos 25 milhões de desempregados, segundo os dados oficiais da UE divulgados na última quarta-feira pelo Eurostat. Portugal é agora o terceiro país com a mais elevada taxa de desemprego na União e na Zona do Euro – 15,3 por cento. A Grécia está com 21,7 e a Espanha com 24,1, números relativos a janeiro deste ano.

Em termos absolutos, o número de pessoas desempregadas na União Europeia aumentou 2,1 milhões entre março do ano passado e deste ano, 1,7 milhões das quais na Zona do Euro. Estes são os efeitos da austeridade enquanto as instituições europeias e os governos continuam a considerar que tal política é compatível com a criação de emprego.


A Espanha e a Grécia são os países mais afetados pelo flagelo do desemprego. A taxa subiu na Espanha de 20,8 para 24,1 entre março de 2011 e janeiro de 2012, calculando-se que se situe atualmente nos 24,4 e ultrapasse os 25 por cento no final do ano. Na Grécia cresceu de 14,7 para 21,1 entre março de 2011 e janeiro de 2012 – a elevação mais rápida em termos absolutos no país onde as políticas de austeridade correspondem a dois processos de resgate em condições impostas pela troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu, FMI).

O desemprego em Portugal, de acordo com os dados do Eurostat, está atualmente em 15,3 por cento, o terceiro mais elevado na União e na Zona do Euro, contra 12,4 por cento há um ano. Em apenas um mês, de fevereiro para março deste ano, subiu 0,3 pontos – ritmo idêntico ao dos países com taxas mais elevadas.

Mais da metade dos jovens com menos de 25 anos estão desempregados na Grécia (51,2 por cento) e na Espanha (51,1 por cento), mas em Portugal a taxa já atingiu os 35,4 por cento, uma elevação de 7,8 pontos percentuais em apenas um ano. O desemprego feminino em Portugal cresceu de 12,9 para 15,1 num ano e o masculino aumentou de 12 para 15,5 por cento.

Ao nível da União Europeia a taxa de desemprego entre os jovens atingiu os 22,6 por cento, com 22,1 por cento na Zona Euro. Há 5,5 milhões de jovens com menos de 25 anos desempregados na União Europeia, 3,35 milhões dos quais na Zona do Euro.

O desemprego na União Europeia está em progressão constante desde o segundo trimestre de 2008, coincidindo com o período de lançamento das políticas de austeridade e de reformas das leis trabalhistas em vários países, registrando-se apenas uma ligeira inflexão conjuntural no primeiro trimestre de 2011.

Fonte: BE Internacional

sábado, 5 de maio de 2012

Todo um povo em Marcha!
A experiência da União da Juventude Comunista
na Marcha Patriótica Colombiana.

 Luis Fernandes *

Entre os dias 21 e 23 de abril de 2012, a União da Juventude Comunista (UJC) esteve presente no lançamento do Movimento Político e Social Marcha Patriótica, em Bogotá, na Colômbia, e na constituição de seu Conselho Patriótico Nacional. Tivemos a honra de acompanhar e participar da aglutinação de diversos grupos, setores, movimentos e organizações que sofrem com a guerra e o terror impulsionados pelo próprio Estado colombiano, em articulação com as demandas do imperialismo. Camponeses, trabalhadores urbanos, afrodescendentes, mulheres, intelectuais, artistas e estudantes foram os perfis dos mais de 4 mil delegados que discutiram a mobilização e a organização do povo colombiano no intuito da solução política para o conflito armado e as necessárias mudanças estruturais na Colômbia.
As diversas organizações, movimentos e entidades que compõem a Marcha Patriótica identificam as perversas contradições ora em curso no contexto político e social colombiano, que apresenta estruturas regidas pela intensa acumulação de riquezas no país – com grande abundância em recursos naturais, petróleo e indústria, além dos vultosos volumes de dinheiro movimentados pelo narcotráfico – em contraste com a extrema desigualdade social, desemprego, altos índices de miséria nas cidades e pauperismo no campo, além da violência contra milhares de camponeses, indígenas e afrodescendentes.
Para manter esta intensa acumulação a serviço dos altos lucros das transnacionais e para garantir a “segurança” para os investimentos internacionais, o Estado Colombiano apresenta a face mais perversa possível, a face do terrorismo e da guerra declarada contra todas as formas de resistência do povo. Segundo o jornal VOZ, vinculado ao Partido Comunista Colombiano, cerca de pouco mais de 80% dos funcionários públicos são militares e aproximadamente 6,5% do PIB é destinado a gastos com a guerra. Em 40 anos de conflito armado somam-se mais de 61 mil desaparecidos políticos na Colômbia, números alarmantes mesmo na história de um continente como a América Latina, onde a forma política do Estado burguês assumiu inúmeras faces autocráticas, isso sem contar com a existência de mais de 8 mil presos políticos atualmente no país.
Neste cenário, como narra sua canção oficial, a Marcha Patriótica segue marchando no sentido de enfatizar a necessidade da solução política na Colômbia em busca da paz com amplas modificações estruturais na sociedade. Esta pauta unifica os diversos movimentos, como, por exemplo, a MANE (Mesa Ampla Nacional Estudantil), entidade que identifica que a reforma privatista proposta pelo governo Santos está atrelada à própria manutenção da guerra em sintonia com os interesses oligárquicos e do imperialismo. Do mesmo modo, os movimentos campesinos – uma das maiores vítimas sociais e políticas da guerra que assola o país – compreendem que a existência de milhares de despossuídos (ou “desplazados”, como são conhecidos na Colômbia) só é possível a partir da necessidade de acumulação e expansão de capital pelas multinacionais instaladas no país.
Assim, além de unificar as diversas pautas de luta dos diferentes movimentos que a compõem, a Marcha Patriótica se propõe a organizar através da constituição do poder popular, e é por isso que em cada região, posto de trabalho e produção, associações culturais, escolas e universidades se estabelecem os Conselhos Patrióticos, com o objetivo de debater e preparar cada vez mais a população para a segunda e definitiva independência da Colômbia.
            Apesar de recente este movimento político e social já sofre forte repressão e estigmatização por parte do Estado Colombiano e dos grandes monopólios midiáticos: desaparecimentos de militantes, ameaças de grupos paramilitares, além de notícias e coberturas da mídia que beiram o ridículo na tentativa de criminalizar o movimento ao reduzi-lo como uma mera intervenção das FARC nas cidades [1]. Neste momento que escrevo, inclusive, recebemos a triste notícia do assassinato do chefe da segurança do camarada editor do Jornal VOZ, Carlos Lozano.
            No que tange ao programa e aos anseios dos movimentos e organizações populares reunidos na Marcha Patriótica, observamos que hoje estes convergem com a própria proposta de busca pela solução político-social do conflito elaborada pelas FARC [2]. Para ilustrar esta importante convergência estratégica, selecionamos um pequeno fragmento de um dos comunicados políticos das FARC:

“Cada vez que as FARC-EP falam de paz, de soluções políticas para o confronto, da necessidade de conversar para obter uma saída civilizada para os graves problemas sociais e políticos que originam o conflito armado na Colômbia, o coro dos apaixonados pela guerra se levanta inflamado, desqualificando os nossos propósitos de reconciliação. De imediato, recaem sobre nós as mais perversas intenções, apenas com o intuito de insistir que a única coisa que nos cabe é o extermínio. Em geral, esses apaixonados nunca vão à guerra e nem permitem a ida de seus filhos.” [3]

Deixando de lado os preconceitos, compreendemos a insurgência armada enquanto um produto do complexo processo social violento, desigual e exploratório que assola todo o campo colombiano. Ou seja, as insurgências armadas como as FARC, além de organizações políticas, são fruto das próprias contradições e demandas das lutas sociais colombianas. Por isso, constatamos que a convergência estratégica entre os diversos movimentos e organizações populares colombianas, em suas distintas formas de luta, se centra na tentativa de construção da paz a partir das lutas sociais, ou seja, a busca por uma paz com justiça social. Não é à toa que tais movimentações têm o potencial de universalizarem o verdadeiro inimigo da maioria da população colombiana: a guerra a serviço das classes dominantes colombianas em aliança com o imperialismo.
A organização unitária das diversas expressões dos trabalhadores e trabalhadoras colombianas faz ressurgir a esperança na intensificação das lutas anticapitalistas e conseqüentemente antiimperialistas em nosso continente. No atual quadro de hegemonia do capitalismo, mesmo em sua crise, apenas a articulação e a organização das lutas dos trabalhadores e as suas distintas expressões políticas e revolucionárias podem transformar qualitativamente a correlação de forças na América Latina e no mundo. Neste quesito, a Marcha Patriótica se configura como um importante exemplo de articulação massiva e construção de poder popular. Contudo, só poderá avançar com segurança se também contar com outras “marchas” de solidariedade internacional pelo mundo – e é neste sentido que a UJC se faz presente na construção da Agenda Colômbia-Brasil, movimento que busca ampliar a divulgação sobre a situação política em que se encontra o povo colombiano em suas múltiplas formas de resistência e a violência que vem sofrendo neste processo.
Como bem formula e sintetiza uma querida companheira, é nosso dever construir “Toda solidariedade ao povo que luta e resiste! Que avança na transformação radical das bases sociais, econômicas e políticas que possibilitam a violência! Que deseja a paz, a justiça social, a emancipação humana, com força, ternura, dureza e afeto!”. E é com estas belas palavras e princípios que a UJC continuará divulgando, lutando e ampliando ao máximo a Marcha de solidariedade ao povo colombiano!

* Luis Fernandes é da Coordenação Nacional da UJC (União da Juventude Comunista)



[1] É impossível não compararmos o nascimento da Marcha Patriótica e as estigmatizações que esta vem sofrendo com o ocorrido à União Patriótica (UP) nos anos 90, movimento que sofreu forte extermínio dos grupos paramilitares ligados ao narcotráfico. Calcula-se  mais de 5.000 assassinatos neste período.

[2] É importante ressaltar que, apesar da visível convergência, as FARC não tem condições concretas de participarem da Marcha Patriótica,segundo os próprios organizadores da Marcha em inúmeras entrevistas.
[3] Anúncio das FARC sobre a libertação de todos os prisioneiros de guerra. Secretariado das FARC, Montanhas da Colômbia, 26 de Fevereiro de 2012.

Com apoio do PCB



sexta-feira, 4 de maio de 2012

O REGIME TERRORISTA COLOMBIANO COMEÇOU O GENOCÍDIO CONTRA O NOVO MOVIMENTO POLÍTICO MARCHA PATRIÓTICA, ORGANIZADO PELOS MOVIMENTOS SOCIAIS E PARTIDOS DA ESQUERDA

Por Camilo Raigozo

Os sócios do crime organizado são os habituais: Governo, militares, polícia nacional, meios de comunicação, narcotraficantes, empresários nacionais e estrangeiros, pecuaristas, políticos e latifundiários, entre outros.

O método de terror e extermínio utiliza matadores de aluguel de diferentes denominações tais como: Auto Defesas Unidas da Colômbia, paramilitares, banda criminais conhecidas como Bacrim, Águias Negras e um sem número de denominações.Também são utilizados comandos ou esquadrões secretos especializados, integrados por membros das forças de segurança do Estado.

A primeira vítima conhecida dessa desta nova fase do crime organizado, desse empreendimento criminoso é Hernán Henry Diaz, dirigente camponês de Putumayo, desaparecido perto de Puerto Asis na quarta-feira 18 de abril, quando organizava a assistência dos camponeses desta área para a participação na Marcha Patriótica marcada para 21,22 e 23 de abril em Bogotá

A segunda vítima é Martha Cecilia Guevara Oyola, uma líder comunitária de San Vicente del Caguán, em Caquetá, desaparecida na sexta-feira, dia 20 de abril de 2012, na área urbana do município, quando se dirigia ao lançamento do movimento político Marcha Patriótica, em Bogotá.

A terceira vítima foi Mao Enrique Rodriguez, baleado por "desconhecidos" na noite de sexta-feira, dia 27 de abril em Bogotá. Mao Henrique era um membro da equipe de segurança do Partido Comunista Colombiano, o PCC, registrado na Unidade Nacional de Proteção no Ministério do Interior. Atuou na segurança do diretor de Voz da Unidade, Carlos Lozano, que denunciou o crime com profunda tristeza em sua conta no Twitter.

Os três crimes citados não são casos isolados, nem se trata de uma simples coincidência. Esses crimes são o resultado de uma planejada estratégia criminosa de extermínio feita a partir do Estado. O regime criminoso que padece na Colômbia quer exterminar o novo movimento político Marcha Patriótica, como foi feito com a União Patriótica, nas décadas de 80 e 90.

As estigmatizações, as acusações e os sinais do Presidente Santos, dos altos comandos militares e da Polícia, de colunistas e de alguns periodistas sênior, colunistas e jornalistas contra o movimento Marcha Patriótica têm três finalidades: São ordens veladas de extermínio, que os exércitos de assassinos pagos sabem entender, são justificativas para o genocídio, ou são as duas coisas ao mesmo tempo.

Postado do : www.pacocol.org

terça-feira, 1 de maio de 2012

O que Obama conhece



Fidel Castro Ruz
Fonte: La Jornada



O artigo mais demolidor que já vi neste momento sobre a América Latina, foi escrito por Renan Veja Cantor, professor titular da Universidade Pedagógica Nacional de Bogotá e publicado há três dias no site rebelion.org com o titulo de “Ecos da Cúpula das Américas”.

O artigo é breve e não devo fazer versões, os estudiosos do assunto podem procurá-lo no site indicado.

Em mais de uma ocasião mencionei o infame acordo que os EUA impôs aos países da América Latina e Caribe ao criar a OEA. Naquela reunião de chanceleres, que ocorreu em Bogotá no mês de abril de 1948 e que como o destino quis, encontrava-me lá promovendo um congresso latinoamericano de estudantes, cujos objetivos fundamentais eram a luta contra as colônias européias e as sangrentas tiranias impostas pelos EUA neste hemisfério.

Um dos mais brilhantes lideres políticos da Colômbia, Jorge Eliécer Gaitán, que com crescente força havia unido os setores mais progressistas da Colômbia que se opunham ao engendro ianque e cuja próxima vitória eleitoral ninguém duvidava, ofereceu seu apoio ao congresso de estudantes. Foi assassinado traiçoeiramente. Sua morte provocou a rebelião que tem prosseguido por mais de meio século.

As lutas sociais têm se prolongado ao longo de milênios, quando os seres humanos, mediante a guerra, dispuseram de um excedente de produção para satisfazer as necessidades essenciais da vida.

Como se sabe, os anos de escravidão física, a forma mais brutal de exploração, se estenderam em alguns países até mais de um século, como ocorreu na nossa Pátria na etapa final do poder colonial espanhol.

Nos EUA a escravidão dos descendentes de africanos prolongou-se até a presidência de Abraham Lincoln. A abolição dessa forma brutal de exploração ocorreu apenas 30 anos antes do que em Cuba.

Martin Luther King sonhava com a igualdade dos negros nos EUA até há apenas 44 anos, quando foi vilmente assassinado, em abril de 1968.

Nossa época se caracteriza pelo avanço acelerado da ciência e da tecnologia. Estejamos ou não conscientes disso, é o que determina o futuro da humanidade, trata-se de um etapa inteiramente nova. A luta real da nossa espécie por sua própria sobrevivência é o que prevalece em todos os cantos do mundo globalizado.

De imediato, todos os latinoamericanos e de modo especial o nosso país, serão afetados pelo processo que ocorre na Venezuela, berço do Libertador da América.

Apenas necessito repetir o que vocês conhecem: os vínculos estreitos do nosso povo com o povo venezuelano, com Hugo Chávez, promotor da Revolução Bolivariana, e com o Partido Socialista Unido criado por ele.

Uma das primeiras atividades promovidas pela Revolução Bolivariana foi a Cooperação Médica de Cuba, um campo em que o nosso país atingiu prestigio especial, reconhecido hoje pela opinião pública internacional. Milhares de centros dotados com equipamentos de alta tecnologia que a indústria mundial especializada fornece, foram criados pelo Governo bolivariano para atender o seu povo. Por sua vez, Chávez não optou por custosas clinicas privadas para atender sua própria saúde: a colocou em mãos dos mesmos serviços médicos que oferecia ao seu povo.

Nossos médicos, além disso, dedicaram uma parte do seu tempo à formação de médicos venezuelanos em aulas devidamente equipadas pelo governo para essa tarefa. O povo venezuelano, com independência da sua renda pessoal, começou a receber os serviços especializados dos nossos médicos, colocando-o entre os mais bem atendidos do mundo e seus índices de saúde começaram a melhorar visivelmente.

O Presidente Obama conhece isto perfeitamente bem e o tem comentado com alguns de seus visitantes. Para um deles expressou com franqueza: “o problema é que os EUA envia soldados e Cuba, em troca, envia médicos”.

Chávez, um líder que em doze anos não conheceu um minuto de descanso e com uma saúde de ferro, entretanto, se viu afetado por uma inesperada doença, descoberta e tratada pelo próprio pessoal especializado que o atendia, não foi fácil persuadi-lo da necessidade de prestar atenção máxima à sua própria saúde. Desde então, com conduta exemplar, tem cumprido estritamente com as medidas pertinentes sem deixar de atender seus deveres como Chefe de Estado e líder do país.

Atrevo-me a qualificar sua atitude como heróica e disciplinada. Da sua mente não se afastam, nem um só minuto, suas obrigações, às vezes até o esgotamento. Posso dar fé disso porque não deixei de ter contato e intercambiar com ele. Sua fecunda inteligência não tem cessado de se consagrar ao estudo e analise dos problemas do país. Diverte-se com a baixaria e as calunias dos porta-vozes da oligarquia e do império. Jamais ouvi dele insultos nem baixarias ao falar dos seus inimigos. Não é sua linguagem.

O inimigo conhece arestas do seu caráter e multiplica seus esforços destinados a caluniar e golpear o Presidente Chávez. Da minha parte, não vacilo em afirmar a minha modesta opinião, emanada de mais de meio século de luta, de que a oligarquia jamais poderia governar de novo esse país. Por isso é preocupante que o governo dos EUA tenha decidido em tais circunstancias promover a derrocada do governo bolivariano.

Por outro lado, insistir na caluniosa campanha de que na alta direção do governo bolivariano existe uma desesperada luta pela tomada do comando do governo revolucionário se o Presidente não conseguir superar sua doença, é uma mentira grosseira.

Pelo contrario, tenho podido observar a mais estreita unidade da direção da Revolução Bolivariana.

Um erro de Obama, nessas circunstancias, pode ocasionar um rio de sangue na Venezuela. O sangue venezuelano é sangue equatoriano, brasileiro, argentino, boliviano, chileno, uruguaio, centroamericano, dominicano, cubano...

Deve-se partir desta realidade, ao analisar a situação política da Venezuela.

Compreende-se por que o hino dos trabalhadores conclama a mudar o mundo afundando o império burguês?

http://www.jornada.unam.mx/cobertura/reflexiones/index.php?section=reflexiones&sub=historico&article=20120428_020a1mun