"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Alfonso Cano saúda os bolivarianos congregados em Caracas

Fonte: Anncol

No marco do Congresso constitutivo do Movimento Continental Bolivariano, o Comandante das Farc, Alfonso Cano, une-se a todo o sentimento dos povos da América e do mundo.

Delegados internacionais – aproximadamente cem – e 1.100 do continente americano enchem o auditório da Sala Plenária do “Parque Central”, no centro de Caracas.

Uma das apresentadoras do magno acontecimento chamou a atenção sobre as tentativas de sabotagem do governo uribista. Organizações colombianas não puderam estar presentes devido às dificuldades para transpor a fronteira, tudo devido aos planos belicosos de Bogotá para com o bolivariano povo da Venezuela.

Prevê-se a participação de mais organizações e outras personalidades no decorrer do Congresso.

Eis na integra a saudação:



Movimento Continental Bolivariano: uma necessidade política de alcances estratégicos. Compatriotas latinoamericanos e caribenhos que assistem a este histórico evento. Companheiras e companheiros:

Recebam as saudações entusiásticas do Secretariado, do Estado Maior Central, do Corpo de Comando e das guerrilhas das FARC-EP, assim como de todos os integrantes das milícias bolivarianas

Constituir um movimento político continental, de essência bolivariana, justamente quando o império estadunidense lança sua força militar na Colômbia e coloca, ameaçadoramente, seus aparelhos de guerra e terror contra os povos latinoamericanos e caribenhos, não é somente uma necessidade histórica, mas um dever inadiável, que sinaliza o horizonte da unidade combativa de nossos povos na defesa de sua dignidade, independência, história, valores, cultura, território, recursos humanos, riquezas naturais e do inalienável direito a forjar, soberanamente, o seu futuro.

O propósito do Libertador foi conformar uma grande pátria latinoamericana estruturada como um só corpo de nações livres, integradora dos nossos povos, garantia da derrota do colonialismo daquela época e da independência definitiva de nossos povos do jugo de qualquer potência, continua vigente; conserva plenamente o seu vigor como estratégia nascida do gênio e do exemplar e inesgotável compromisso revolucionário de Simón Bolívar, que concebeu uma grande nação como patrimônio coletivo de todo o povo e não como a somatória de enormes latifúndios reservados às minorias privilegiadas, ajoelhadas e submissas diante das ordens do império da vez.

A exatidão de tão portentosa proposta bolivariana transcende, 200 anos depois, da mesma forma que a totalidade do seu ideário de igualdade, liberdade, justiça social, soberania e independência, resumo e essência das lutas atuais de grande parte dos povos latinoamericanos e caribenhos que combatemos contra regimes oligárquicos entregues incondicionalmente aos amos estrangeiros e, como vitimas que somos da expansão capitalista chamada de globalização, levantamos hoje com mais urgência e legitimidade que nunca, a bandeira da Pátria Grande, diante da inocultável intenção ianque de tomar os territórios desde o sul do rio Grande até a Patagônia, para realizar sua estratégia do “destino manifesto” sob seu imperial e repudiável lema de “América para os americanos”.

Está claro que um tratado militar como o assinado recentemente entre Washington e Bogotá, que permite a constituição de sete bases norteamericanas na Colômbia, com a prerrogativa de utilizar a totalidade do sistema aeroportuário, o espaço aéreo, os mares territoriais sem limites com a quantidade de soldados que seus navios de guerra transportem e a presença maciça de paramilitares norteamericanos denominados empreiteiros, não se limita ao combate ao narcotráfico e ao chamado terrorismo, mas que busca desestabilizar os processos democratizantes e independentistas que se desenvolvam na América Latina.

A guerra contra o narcotráfico é uma estratégia fracassada que os EUA utilizam hoje como pretexto para intervir e agredir em diferentes lugares do mundo.

A guerra contra o terrorismo – qualificativo político em que se encaixam todos seus contraditores – decretada pela Casa Branca, a mesma que ordenou o bombardeio atômico contra Hiroshima e Nagasaki, que arrasou o Vietnã com armas químicas e napalm, que agride os povos do Iraque e Afeganistão e respalda o terror do estado israelense, é outra máscara do império e das multinacionais para justificar suas infâmias.

A América Latina, na estratégica esquina da América do Sul que a Colômbia ocupa e como consequência de um plano de longa duração que está em andamento, já começou a ser invadida novamente, desta vez com a permissão de um presidente como Álvaro Uribe, que saiu das entranhas do paramilitarismo criminoso e que carrega um obscuro passado como narcotraficante – fato bem conhecido por Washington – apátrida e cabeça do governo mais corrupto da história colombiana e quem, justamente por isso, é utilizado pelos EUA para levar adiante esta aventura que pretende recuperar a influência perdida no seu outrora “pátio dos fundos”.

O frustrado golpe contra o presidente Chávez, em 11 de abril de 2002; o golpe contra o presidente Zelaya que pretendem encobrir reconhecendo as espúrias eleições que deram a vitória a Lobo; as tentativas sistemáticas para desestabilizar a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela; os evidentes e ininterruptos esforços desestabilizadores em vários dos nossos países, fazem parte dessa nova ofensiva do Estado ianque e a reação continental contra os irreversíveis avanços integracionistas e o crescente sentimento anti-imperialista do nosso continente, enquadrado na concepção bolivariana da independência, quer dizer, no combate frontal das maiorias oprimidas contra o poder colonial e as oligarquias nacionais, ou em outras palavras, na luta de classes pela libertação dos oprimidos, da confrontação social e política pela democracia para desenvolver-la a fundo incessante e ininterruptamente, enraizada no melhor e mais avançado das nossas tradições, marcada por nossas particularidades e idiossincrasia como parte de um processo autenticamente latinoamericano rumo ao socialismo.

Nosso compromisso com este processo pela soberania nacional e popular, pela Pátria Grande e o socialismo é total e incondicional. São nossas diretrizes e a razão da existência das FARC-EP como nos ensinaram nossos chefes e fundadores Manuel e Jacobo, e como o reafirmamos cotidianamente, com plena e absoluta confiança na vitória final.

Diante deste excepcional evento, ratificamos nossa confiança no avanço que significará a constituição do Movimento Continental para as lutas do povo latinoamericano, nutrido do ideário bolivariano e inspirado, como todos nós, na existência exemplar do Libertador, incomensurável referência ética que, permanentemente, dá-nós força na dureza da luta para alcançar os objetivos que delineamos.

Reiteramos nossos votos pelo mais enriquecedor intercâmbio, conclusões e propostas sábias e convocatórias que gerem movimento de massas, organização, luta contra o invasor e pela construção da Pátria Grande!

Pela unidade latinoamericana e caribenha contra a invasão imperial dos EUA: Avante!
Muito obrigado,


Alfonso Cano
Chefe do EMC das FARC - EP
Montanhas da Colômbia, dezembro de 2009

Lula, o mundo e a mídia

Quando Lula não apenas discordou da mandatária alemã Ângela Merkel e também disse que as potências atômicas não têm moral para exigir que o Irã não tenha direito ao seu programa nuclear, percebemos novamente como opera a linha editorial subproduto do princípio ideológico do “Eixo do Mal”. Há uma ausência sistemática de sintonia entre o eco internacional positivo das falas presidenciais e o tratamento editorial negativo que a mídia nacional lhe atribui, quase por unanimidade.

O artigo é de Beto Almeida.
Fonte: Agência Carta Maior

"O mundo me condena
e ninguém tem pena
falando sempre mal do meu nome
deixando de saber,
se eu vou morrer de sede
ou se eu vou morrer de fome!"

"Filosofia", Noel Rosa

Fortes e originais declarações de Lula sobre questões espinhosas e complexas do cenário internacional provocam boa oportunidade para nova avaliação sobre a ausência de sintonia entre o eco internacional positivo das falas presidenciais e o tratamento editorial negativo que a mídia nacional lhe atribui, quase por unanimidade.

Primeiro, há que reconhecer: Lula tem tido a audácia de tocar em temas considerados intocáveis como, por exemplo, ao questionar e criticar a reserva de mercado de fato de um clube restrito de países atômicos que pretende impor o desarmamento aos demais países. E, quando algum destes países periféricos reivindica o direito natural e histórico à isonomia de também possuir tecnologia nuclear é logo condenado como se seus objetivos fossem inquestionavelmente terroristas. E são logo colocados no “Eixo do Mal” criado pelo belicoso George Bush.

Já sabemos que os atentados de 11 de setembro de 2001 foram usados como um pretexto pelo mais intervencionista dos países para interferir ainda mais truculenta em cada canto do planeta onde conseguisse. Aliás, recomenda-se a leitura do site “Cientistas pela Verdade”, no qual a versão oficial é questionada com consistência. Após surgir a categoria do “Eixo do Mal”, vem o golpe midiático fracassado contra Chávez com apoio dos EUA, as prisões clandestinas de “suspeitos” em vários países seqüestrados em vôos clandestinos que usaram bases militares de países europeus que se autodenominam democráticos. Surgiu também a campanha contra as “armas químicas de destruição em massa no Iraque” que , com o apoio midiático internacional dos que controlam o fluxo da informação planetária, resultou na invasão sanguinária àquele país do Oriente Médio. As tropas de ocupação ainda lá estão sem que o Obama, agora Prêmio Nobel da Paz, tenha conseguido fazer com que seu discurso de mudanças tenha tradução verdadeira em atos de sua política externa, que é quase sempre militar, sendo sempre intervencionista.

Eixo do Mal: dirigismo ideológico

Na cabeça de Bush - não mencionamos cérebro - o Eixo do Mal era composto por Iraque, Coréia do Norte, Irã, Cuba e provavelmente a Venezuela. Cuba continua bloqueada, mas, mesmo assim, exporta médicos, professores, vacinas, remédios, livros, desportistas, para mais de 70 países. Os EUA, e os “democráticos” países europeus da OTAN, vão exportando militares, armas, inclusive, obviamente as de destruição em massa. O presidente do Timor Leste, jornalista e poeta Ramos-Horta, me informou que os EUA pressionaram-no para que não recebesse os 350 médicos cubanos que lá estão reconstruindo a nação timorense do mais cruel genocídio da era moderna, proporcionalmente falando. Ramos apenas perguntou ao embaixador norte-americano: “quantos médicos os EUA têm aqui em Timor?” Nenhum! Pois estão lá os 350 médicos cubanos e 600 jovens timorenses estudando medicina em Cuba, gratuitamente!

Ao defender Cuba, ampliando as relações Brasil-Cuba, condenando o bloqueio imposto à Ilha e ao quebrá-lo na prática quando instala empresas estatais brasileiras na Ilha, como a Embrapa, a Petrobrás, etc, Lula vai fazendo sua política na contracorrente da política intervencionista do Eixo do Mal. Como complemento, quando os jovens timorenses se formarem em medicina, antes de voltarem à Ásia, farão estágio na Fiocruz no Brasil, como reza o acordo que Lula firmou com Ramos-Horta.

Coréia do Norte está lá de pé porque tem armas atômicas, senão seu destino poderia ter sido o do Iraque. E isto tem que ficar muito claro e ser lembrado todos os dias por todos os brasileiros, dos seringueiros aos militares, dos cientistas aos cineastas, dos religiosos aos carnavalescos. Basta mencionar que um suposto relatório da CIA, divulgado pelo extinto jornal Tribuna da Imprensa, dava conta da vulnerabilidade das torres petroleiras da Petrobrás a ataques terroristas. Lula mandou embaixador para a Coréia do Norte, Arnaldo Carilho, que é também grande pensador do cinema, da brasilidade e da soberania informativo-cultural brasileiras. Lula, outra vez, atuou com independência na contracorrente da linha Eixo do Mal, que tem sua vertente midiática.

Hipocrisia editorial

Recentemente, registrou-se a campanha midiática para que Lula não recebesse o presidente iraniano Mahmud Ahjmadinejad. Para este jornalismo, é como se o Brasil não tivesse direito de ter posições independentes e soberanas em política externa. Este mesmo jornalismo calou-se quando o então chanceler brasileiro da era da privataria obedeceu um guardinha de alfândega nos EUA que lhe obrigou a tirar os sapatos para entrar naquele país. O chanceler assumiu ali sua vocação para vassalagem.... Esta política externa de pés descalços foi arquivada por Lula. Junto com ela o projeto da ALCA, a terceirização/alienação da Base de Alcântara e outras.

Quando Lula não apenas discordou da mandatária alemã Ângela Merkel e também disse que as potências atômicas não têm moral para exigir que o Irã não tenha direito ao seu programa nuclear, percebemos novamente como opera a linha editorial subproduto do princípio ideológico do “Eixo do Mal”. Lula estaria, segundo ela, defendendo um país que apoiaria o terrorismo do Hamas e do Hezbolah. Não há o menor esforço para informar, nem internacionalmente, nem aqui, que o Hamas é um partido político eleito pelo voto direto da população palestina que habita a Faixa de Gaza para o exercício do governo. E como todo governo, tem o direito de ter armas, política de defesa. Israel não tem suas armas atômicas?

Sem informação, como julgar?

Não há também a menor vontade de informar que o Hezbolah é um movimento político, que tem praticamente a metade do Parlamento do Líbano, que tem cargos no governo libanês, administrando boa parte da política de saúde e de educação daquele país de preciosa presença na formação do nosso povo. É apenas por ser parte do estado no Líbano que se pode entender como o Hezbolah resistiu e impôs uma verdadeira derrota às agressões de Israel há alguns anos, após o que, pelo voto direto, ampliou sua participação na administração pública libanesa. Vale registrar que a TV do Hezbolah resistiu por várias semanas a terríveis bombardeios israelenses sem sequer sair do ar. Segundo escassas informações, a emissora teve seus transmissores instalados em vários lugares, subterrâneos, exatamente para resistir aos bombardeios. Trata-se de emissora de TV que pode ser sintonizada em todo o mundo árabe e também na Europa. Talvez isto sirva de estímulo para a TV Brasil vencer todos os obstáculos que ainda a impedem ter visibilidade em todo o território nacional, e também internacionalmente, já que o Brasil pretende, legitimamente, ser protagonista de primeira linha no complexo cenário internacional. Para isto já aposentou corretamente a vassalagem da política de externa de “pés descalços” e , com a criação da TV Brasil, pode construir também uma política de comunicação internacional, aliás como já anunciado. Só lembrando, na Era Vargas, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro era a quarta mais potente emissora do planeta, captada em todos os continentes, transmitindo em 4 idiomas......

Seria muito útil que a TV Brasil informasse ampla e profundamente sobre o que ocorre na Palestina, sob todos os ângulos, e também sobre o que é o Hamas, o que é o Hezbolah, como é o Líbano hoje em cuja configuração de poder político tem a presença, pelo voto direto popular, do Hezbolah. Da outra mídia, que tenta desqualificar a política externa praticada por Lula, e que tenta insinuar que Brasil está estabelecendo cooperação mais ampla com um país (Irã) que “apoiaria o terrorismo”, não podemos esperar informações objetivas e verazes sobre estes processos. Afinal, trata-se de uma mídia que segue o manual de jornalismo do “Eixo do Mal” e condena tudo o que questione esta linha, como agora critica Lula por sua audaciosa posição contra os privilégios dos países atômicos que querem manter os outros desarmados.....Tudo isto tem tradução no jornalismo. Ou seja, Lula tem sido singular construtor de pautas para um jornalismo independente. É preciso aproveitá-las com criatividade e originalidade. Ter a audácia, como Lula o faz em política internacional, de discordar da linha editorial convencional sobre temas tão complexos.

Honduras: a isca ideológica do golpismo

No golpe de Honduras a posição valente da política externa brasileira confrontou-se com a linha editorial praticante do “dirigismo de mercado” que, por não admitir em nenhuma hipótese que aquele país centro-americano desenvolvesse cooperação nas áreas de saúde e educação com Cuba, nas áreas agrícola e energética com a Venezuela, optou pela defesa do golpe. Esta mídia engoliu com prazer a isca ideológica do golpismo, segundo a qual, Zelaya é que era o golpista porque queria sua própria reeleição. Mas, este item sequer constava da consulta popular que seria submetida ao povo hondurenho quando o golpe foi dado. Mas, constava da consulta a destinação da base militar norte-americana no país.......

Tal como na invasão do Iraque, quando a isca ideológica era “as armas de destruição em massa”, no caso de Honduras, o Zelaya é que foi transformado em golpista. O New York Times já pediu desculpas seus leitores por ter difundido a mentira das “armas de destruição em massa”, afinal, jamais encontradas. A não ser nas mãos das tropas da OTAN que contaminaram a Yugoslávia e o Iraque com bombas de urânio empobrecido.

Uma vez mais, Lula foi por um lado, “não converso com golpista” , declarou, e a linha editorial da mídia nacional foi na conversa do Partido Pentágono Republicano que impõe seu dirigismo em nome das encomendas da indústria bélica. A solução para estes desencontros é mais informação, mais pluralidade. Por exemplo: com a ajuda da PDVSA, petroleira estatal Venezuela, Zelaya trocou todas as lâmpadas de todas as residências de Honduras por lâmpadas chinesas, que gastam 70 por cento menos de energia. E Honduras tem escassez energética, depende de termoelétricas, celebrou acordo sobre biocombustíveis com o Brasil. Não fica mais claro compreender o porquê do golpe contra Zelaya? E quando será informado que houve descoberta de petróleo na costa hondurenha?

Venezuela: excesso de democracia


No caso venezuelano há fartos exemplos de desinformação e manipulação por parte desta mídia. Chega até a por em dúvida se houve de fato golpe de estado. Aqui no Brasil, a mídia que apoiou o golpe de 1964 também disse que houve “revolução” porque havia vacância de poder. Na Venezuela o presidente da república foi seqüestrado e a mídia mentiu dizendo que ele havia renunciado.

Mas, concentremo-nos no total desencontro das posições de Lula contra esta mídia que segue editorialmente o Partido Republicano-Pentágono, ou os princípios filosóficos editoriais do Eixo do Mal.

Enquanto toda esta mídia afirma que há ditadura na Venezuela, Lula afirma que “na Venezuela há democracia em excesso”. Em 10 anos, foram realizadas 15 eleições, referendos, constituinte, plebiscitos, dois quais Chávez venceu 14 e respeitou o resultado quando foi derrotado. Este desencontro total alcança até mesmo a linha editorial do Observatório da Imprensa na TV, que nos dois programas especiais sobre a Pátria de Bolívar afirmou que lá há ataque à mídia independente. Registre-se que foram considerados “mídia independente” veículos que compõem o Grupo de Diários da América, jornalões vinculados à SIP – Sociedade Interamericana de Prensa , entidade fundada pela Cia no pós-guerra e que sustentou todos os golpes militares na América Latina, seja o golpe contra Perón, contra Jango, contra Allende, tendo apoiado as mais sanguinárias ditaduras da região. Esta mídia atua livremente na Venezuela, ofende e insulta o presidente Hugo Chávez seja por ser negro ou por ser descendente de índio. Assim como esta mesma mídia chama o presidente Evo Moralez de “narcotraficante”, chama a Chávez de “negro doido”, “selvagem”,”psicopata”, “bêbado”.

Detalhe interessante, não ressaltado no programa televisivo citado: não há jornalistas presos na Venezuela, nenhum jornalista foi assassinado, nem torturado, como ocorre agora mesmo na Colômbia, no México, no Peru, em Honduras de Michelleti. Outra informação interessante: o maior jornal da Venezuela, o Nacional, vendia 400 mil exemplares quando Chávez foi eleito, em 1998. Hoje, após dez anos depois de oposicionismo anti-chavista, vende apenas 40 mil exemplares. A Folha de São Paulo, que já imprimiu 1 milhão e hoje caiu para uma tiragem 3 vezes menor, e com uma vendagem de bancas em torno de 30 mil exemplares apenas, deve estar fazendo suas contas. Mas, mesmo assim, tem a petulância de defender o fechamento da TV Brasil, a única emissora que cumpre integralmente o capítulo da Comunicação Social da Constituição, com uma programação cidadã, plural, diversificada, regionalizada, educativa e humanizadora para o público infantil, respeitosa para com a cultura nacional, do samba ao cinema. Falta o futebol , né?

Independente de quem?

Sobre o grupo empresarial que perdeu a concessão da Rádio e TV Caracas, é preciso informar que a concessão, como ocorre em qualquer país, tem prazo limitado por lei e este prazo terminou. Aqui no Brasil as concessões de rádio e TV de grupos poderosos são renovadas automaticamente. Na prática, adquirem caráter de vitaliciedade. Chávez quebrou um tabu ao não renovar a concessão para o mesmo grupo empresarial, exercendo sua prerrogativa presidencial, prevista em lei, como na maioria dos países do mundo. Mas aquela TV continua operando no cabo, não foi fechada. Isto não foi informado. Não teve a concessão renovada porque o espectro radioelétrico é propriedade do povo venezuelano, não é propriedade privada. Nos EUA centenas de concessões foram revogadas desde meados do século passado. Na França, o presidente Chirac também não renovou concessões. Na Inglaterra de Tatcher, idem. Por que será que contra estes países não houve a escandalosa campanha midiática mundial que se fez contra Chávez?

Estes desencontros entre as posições fortes, destemidas e originais de Lula em política internacional e a linha editorial conservadora, submissa e de ideologia dependente da mídia nacional deveriam merecer um bom debate. Mas, era importante que este debate fosse para as telas da TV e para as ondas do Rádio já que nossa mídia impressa além de ser fechada ao tema, registra taxas indigentes de leitura de jornal e revista. Assim, só mesmo as emissoras do campo público da comunicação, a começar pelos veículos da EBC, as TVs educativas, as legislativas, as universitárias e as comunitárias podem de fato abrir-se democraticamente a este debate e dar-lhe caráter amplo e plural que merece. E é exatamente por isso que são tão justas e tão necessárias as propostas de fortalecimento, expansão e qualificação de todas as modalidades da comunicação pública. É por isso mesmo que elas precisam ser aprovadas nesta primeira Conferência Nacional de Comunicação, a ter início no dia 14 de dezembro. Sendo emblemático que ela tenha a presença de Lula na abertura.

Beto Almeida é Presidente da TV Cidade Livre de Brasília

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mais uma vitória das forças antiimperialistas

Socialismo e poder comunitário na Bolívia:

Fernando Viana *

No dia 6 de dezembro de 2009 ocorreram as eleições gerais na Bolívia. Com mais de 60% dos votos, as forças socialistas e antiimperialistas confirmaram o aprofundamento das mudanças que vive a "grande pátria", como costumam dizer os bolivianos. Em discurso, na grande festa da vitória, na praça "Murillo", em La Paz, Evo disse ter a obrigação de acelerar o processo de mudança, já que agora contará com dois terços do parlamento. Morales conta com apoio da COB (Central Obrera Boliviana), dos campesinos e dos povos indígenas que se colocam como protagonistas da construção de um poder comunitário.

Com pouco mais de 20% dos votos, o principal opositor de Evo Morales, Manfred Reyes, ex-governador de Cochabamba, com formação militar, saiu desmoralizado destas eleições. Não era para menos, o vice de Reyes, ex-prefeito de Pando, encontra-se preso por sua responsabilidade no massacre contra campesinos em Porvenir, em Setembro de 2008. A vitória de Evo Morales representa, portanto, a vitória dos movimentos sociais contra a elite mais violenta da Bolívia.

Para o cenário internacional, particularmente o latino americano, a vitória da esquerda na Bolívia significa mais um passo na luta antiimperialista, contra as intervenções bélicas dos EUA, em defesa da soberania dos povos. No momento em que foi depositar o seu voto, no colégio Aspiazu, o Ministro da presidência, Juan Ramón Quintana, afirmou que o governo e as forças democráticas estarão prontos a reagir contra a direita golpista e que a Bolívia lutará por sua soberania e de todos os povos da América Latina frente aos estadunidenses e imperialistas.

O Partido Comunista Boliviano, que elegeu dois suplentes ao Senado e ajudou a eleger alguns deputados aliados, avalia que o momento é de muita unidade e organização das forças democráticas. Marcos Domich, membro do Comitê Central dos comunistas bolivianos, afirmou que a direita saiu derrotada do processo eleitoral, mas não aceitará passivamente tal resultado e que se faz necessário impulsionar o processo de mudanças, garantindo a coerência das forças socialistas.

* Fernando Viana é Secretário Político do CR de Goiás e membro do Comitê Central do PCB. Encontra-se na Bolívia, onde foi observador internacional nas eleições deste domingo e representa o PCB em outras atividades, em especial em articulação com o Partido Comunista Boliviano.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Joseph Stiglitz e uma nova política econômica

Por Aurélio Suárez Montoya

A mensagem de Joseph Stiglitz em sua recente visita à Colômbia permaneceu mais ou menos oculta. O pior, no entanto, é que seus contraditores, num exercício de malabarismo inescrupuloso, também se tornaram seus “exegetas” (manipuladores), com o objetivo de transmitir apenas o que lhes convém, tergiversando-o.

Convidado pela fundação Carlos Lieras Restrepo, expôs – pela enésima vez e ante um público numeroso e qualificado – os prejuízos causados pela política econômica neoliberal, que é essa mesma camuflada agora sob o jargão de “investimentos de confiança”.

Destacou como o desemprego, em todas as latitudes, é a expressão mais destacada da crise econômica e ainda como pouco ou nada se fez para preveni-lo quando a onda ascendente da economia se deslocava com o vento que soprava a favor. Disse que, mesmo com o crescimento econômico subindo 40% em sete anos, o emprego cresceu apenas 5%. Sem parar por aí, relacionou esse fenômeno da desocupação, que não atribui um incremento nas folhas de pagamento, como fator de violência e insegurança.

Advertiu sobre os riscos peremptórios da “enfermidade holandesa”, destruidora de empregos e de exportações com valor agregado, causada pela revalorização recorrente da moeda devido ao ingresso massivo de dólares por/para a exploração de recursos naturais e, o que é pior, não sendo reinvestidos em atividades produtivas, tecnologia, infraestrutura e educação. Questionou a forma de medição do PIB dos países que se especializam em mineração e hidrocarbonetos, que por sua vez se “reprimarizam”. Ainda por cima, recomendou desconfiar do falso progresso baseado exclusivamente nos investimentos estrangeiros, que causam permanentes déficits, tanto fiscal como de contas externas. Descartou o TLC com os Estados Unidos explicando que, na verdade, não houveram “negociações” senão um contrato de obrigações que afetarão o país tanto pelo comércio ilegitimo de bens agrícolas subsidiados, como por capítulos como os de propriedade intelectual e investimentos, entre outros, que imputarão à Colômbia mais prejuízos que benefícios.

Com grande afinidade à esta tese, apareceu recentemente um texto publicado com o apoio da fundação FESCOL sobre “Política econômica para a produtividade, emprego e distribuição de renda”, de um grupo de economistas que, com olhares distintos da cartilha oficial, coincidem em grande parte com as propostas de Stiglitz para esse período pós-crise. Se propõe que o pleno emprego seja o objetivo principal e a esse deve se subordinar a política monetária, conceber o mercado exterior como complemento ao mercado interno e com visão geoestratégica enfatizar o entrelaçamento regional, precisamente esse que está sendo descartado hoje, resultando em graves sequelas e irrecuperáveis perdas. Propõe o texto, como Stiglitz, políticas industriais ativas em setores que poderiam ter um impacto multiplicador, acompanhadas de sistemas de gestão tecnológica que incorporem a educação e a investigação inovadora. Argumentam que não é possível desenvolver o setor agrário se não houver uma distribuição equitativa da terra e demais fatores produtivos, uma asserção com a qual Stiglitz refutou aqueles que atribuem o atraso do campo à falta de “abertura comercial”, desconhecendo que os verdadeiros impeditivos têm origens estruturais. E ainda coloca que é imprescindível uma adequada proteção do mercado interno que se construa com base em um novo arranjo institucional.

Essa proposta, elaborada pelos economistas Álvaro Moreno, Germán Umaña, Carlos Martínez, Álvaro Zerda, Ricardo Bonilla e Iván Cardona, vem acompanhada de um modelo de seguridade social, desenhado por Mario Hernández, César Giraldo e Darío Restrepo, com base nos critérios universais de solidariedade entre trabalhadores e entre gerações que pode tornar-se realidade mediante o emprego digno e o controle social, direitos fundamentais dos cidadãos.

O problema econômico da Colômbia, sua maior tribulação, não se resolverá com paliativos nem com panos quentes. Enfrenta-se um colapso silencioso de setores completos da produção nacional, começando por seu principal produto agrícola, o café. Aumenta a desigualdade, a pobreza, a indigência e, tendo isso em vista, reorientar a política econômica é indispensável. Tomara que os esforços daqueles que se debruçam sobre esse problema não sejam em vão e que tampouco se descartem as acertadas observações de Stiglitz, frequentemente escamoteadas pelos “gênios” gestores da tragédia nacional.

Novo triunfo do presidente Evo Morales, clara mensagem popular e anti-imperialista

Comunicado

Os comícios do 6 de dezembro de 2009 em Bolívia marcaram não só o triunfo incontestável do presidente Evo Morales e de seu Partido, o Movimento ao Socialismo, senão que definiram com meridiana claridade o rumo que a Nação irmã tomará com novos brios e com grande respaldo popular a aprofundamento do processo democrático que ali se tem iniciado, com base em uma orientação que postula como sua grande meta e propósito o avanço dos indígenas, dos camponeses e em geral do proletariado boliviano, rumo a um cenário de plenas garantias no exercício de seus direitos sociais, econômicos, políticos e culturais, em meio de uma verdadeira democracia auspiciada por uma Constituição Política avançada e com altos conteúdos sociais.

Vale destacar o importante crescimento da votação pelo Programa do MAS, o qual traduze a decisão e confiança do povo boliviano no Proyeto que o Presidente Evo Morales colocou à sua consideração. Com seu mandato, os bolivianos e bolivianas maioritariamente pedem acelerar o processo democratizador e as transformações que em todas as facetas da vida boliviana contempla tanto a nova carta política, como o próprio processo político vitorioso.

Como latinoamericanos e veementes opositores ao intervencionismo norteamericano que pretende instaurar em nosso país através da ofensiva ampliação de sua presença militar, saudamos o Presidente Evo Morales e seu povo porque têm feito suas as bandeiras do anti imperialismo, a autonomia e a autodeterminação latinoamericanas. Começa, renovado, outro período de esperança que abraça a unidade através de realidades como a ALBA e que expressa o digno lugar de Bolívia no contexto mundial.

JAIME CAYCEDO
Secretário geral do Partido Comunista Colombiano
Bogotá, Dezembro 9 de 2009

Por que Evo ganhou?

Artigo de Atilio A. Boron

Uma semana atrás, celebrávamos o triunfo de Pepe Mujica no Uruguai. Hoje, temos renovadas – e também profundas – razões para festejar a notável vitória de Evo Morales. Tal como indicou o analista político boliviano Hugo Moldiz Mercado, o categórico veredito das urnas marca pelo menos três marcos importantíssimos na história da Bolívia:

1. É o primeiro presidente democraticamente reeleito em dois períodos sucessivos;

2. É o primeiro, além disso, que melhorou a porcentagem de votos com a qual foi eleito da primeira vez (53,7%); e

3. É o primeiro a obter uma esmagadora representação na Assembleia Legislativa Plurinacional.

Além disso, quando sair a contagem definitiva – não disponível no momento de escrever estas linhas – talvez ele tenha concretizado a obtenção de dois terços no Senado, o que lhe permitiria nomear autoridades judiciais e aplicar a nova Constituição sem oposição Tudo isso converte Evo Morales, do ponto de vista institucional, no presidente mais poderoso na convulsionada história da Bolívia.

Obviamente, isso não vai impedir que o Departamento de Estado reitere suas conhecidas críticas acerca da "defeituosa qualidade institucional" da democracia boliviana, o "populismo" de Evo e a necessidade de melhorar o funcionamento político do país para garantir a vontade popular, como por exemplo se faz na Colômbia, onde cerca de 70 parlamentares do uribismo foram investigados pela Suprema Corte de Justiça e pela promotoria por seus supostos vínculos com os paramilitares, e 30 deles foram mandados à prisão com sentença firme por esse motivo.

O desempenho eleitoral do líder boliviano é impressionante: triunfo arrasador na convocatória da Assembleia Constituinte, em julho de 2006, que sentaria as bases institucionais do futuro Estado Plurinacional; outra esmagadora vitória em agosto de 2008 (67%) no Referendo Revocatório forçado pelo Senado, controlado pela oposição, com o aberto propósito de derrubá-lo; em janeiro de 2009, 62% dos votantes aprovou a nova Constituição Política do Estado.

O que há por trás dessa impressionante máquina de ganhar eleições, indestrutível apesar do desgaste de quatro anos de gestão, dos obstáculos interpostos pela Corte Nacional Eleitoral, da hostilidade dos Estados Unidos, das campanhas de desabastecimento, tentativas de golpes de Estado, ameaças separatistas e plano de magnicídio?

O que há é um governo que cumpriu suas promessas eleitorais e que, por isso mesmo, desenvolveu uma ativa política social: Bolsa Juancito Pinto, que chega a mais de um milhão de crianças; Renda Dignidade, um programa universal para todos os bolivianos maiores de 60 anos que carecem de outra fonte de renda; Bolsa Juana Azurduy, para as mulheres mulheres grávidas; que erradicou o analfabetismo aplicando a metodologia cubana do programa Yo Sí Puedo, que permitiu que se alfabetizasse mais de um milhão e meio de pessoas, razão pela qual, no dia 20 de dezembro de 2008,a Unesco (não os partidários de Evo) declarou esse país território livre de analfabetismo.

O solidário internacionalismo de Cuba e da Venezuela também permitiu a construção de numerosos hospitais e centros médicos, ao mesmo tempo em que milhares de pessoas recuperaram a visão graças à Operação Milagre. Importantes avanços foram registrados também em matéria de reforma agrária, na recuperação das riquezas básicas (hidrocarbonetos) e na administração da economia, o que permitiu que a Bolívia, pela primeira vez na história, conte com importantes reservas estimadas em 10 bilhões de dólares e com uma situação de bonança fiscal que, unida à colaboração da Venezuela no marco da Alba, permitiu que Morales realizasse numerosas obras de infraestrutura nos municípios e financiasse sua ambiciosa agenda social.

Obviamente, restam muitas matérias pendentes. Mas tudo o que foi dito somado à permanente preocupação de Evo em conscientizar, mobilizar, organizar sua base social – deixando de lado os desprestigiados aparatos burocráticos que, da mesma forma que na Argentina, não mobilizam ninguém – tornou possível o seu triunfo categórico. Seria bom tomar nota dessa lição.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Uruguai e Honduras: o contraste entre duas eleições

Fonte: www.cartamaior.com.br

No Uruguai, a jornada eleitoral foi uma festa cívica exemplar na qual o candidato apresentado pela Frente Ampla, José Mujica, venceu o segundo turno sem qualquer dúvida ou impugnação, derrotando o ex-presidente direitista Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional (Branco). No país centroamericano, em troca, ocorreu uma farsa, desprovida de credibilidade e de legitimidade, onde as vontades determinantes não foram as dos cidadãos hondurenhos, mas sim as da reduzida oligarquia local e a do governo dos Estados Unidos. O editorial é do jornal La Jornada, do México.

Editorial - La Jornada

Neste domingo ocorreram eleições presidenciais no Uruguai e em Honduras, em contextos radicalmente diferentes. No primeiro caso, a jornada eleitoral foi uma festa cívica exemplar na qual o candidato progressista apresentado pela Frente Ampla, no governo, José Mujica, venceu o segundo turno sem qualquer dúvida ou impugnação, derrotando o ex-presidente direitista Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional (Branco). No país centroamericano, em troca, ocorreu uma farsa, desprovida de credibilidade e de legitimidade, onde as vontades determinantes não foram as dos cidadãos hondurenhos, mas sim as da reduzida oligarquia local e a do governo dos Estados Unidos.

No país sulamericano, a eleição presidencial de domingo colocava em jogo a continuidade ou interrupção do programa social e econômica aplicado pela Frente Ampla desde 2005, quando a esquerda estreou seu primeiro governo nacional, encabeçado por Tabaré Vázquez. Programa este que, no passado, conseguiu reduzir a pobreza em 5,5 pontos percentuais (a 20,5% da população) e que, em 2009, evitou a queda do país na recessão, obtendo inclusive um moderado crescimento – em meio à crise econômica mundial – de 1,2%.

Já nas eleições em Honduras, realizadas por um poder golpista e usurpador, respaldado solitariamente por Washington e desdenhado pela maior parte da cidadania, podem ser vistas como uma tentativa do poder oligárquico de legitimar sua tomada de assalto das instituições, no final de junho deste ano, a expulsão ilegal do país do presidente constitucional, Manuel Zelaya, e a posterior conformação de uma presidência usurpada, repressiva e antipopular, em torno de Roberto Micheletti. Em tais circunstâncias, a vitória do candidato Porfírio Lobo (Partido Nacional) sobre Elvin Santos (Partido Liberal) carece de relevância. De fato, a principal inquietude internacional não era a conseqüência formal da eleição, mas sim a materialização do perigo de confrontações massivas entre o difuso, mas perseverante, movimento de resistência contra o golpe de Estado de junho, e as forças políticas e militares.

Assim como cabe felicitar o desenrolar e os resultados do segundo turno das eleições presidenciais celebradas ontem no Uruguai, é inevitável duvidar da perspectiva que a farsa ocorrida em Honduras conduza a uma normalização democrática e constitua uma saída da crise política que persiste neste país, como esboçaram os golpistas hondurenhos e a presidência de Barack Obama.

Em contraste com Washington e com o presidente da Costa Rica, Oscar Arias, cuja subserviência aos gorilas hondurenhos chegou a graus deploráveis, a maior parte dos governos latinoamericanos, encabeçados pelo Brasil, anunciaram sua determinação, correta e ética, de não reconhecer como autoridade legítima de Honduras a quem quer que fosse declarado ganhador da farsa efetuada ontem. Devemos pedir ao governo do México para que se some sem reservas a essa postura continental majoritária e se abstenha de conceder o menor gesto de reconhecimento diplomático a quem, em Tegucigalpa, dê continuidade e consumação ao golpismo. Para finalizar, os setores mais lúcidos e conscientes da sociedade hondurenha tenham diante de si a perspectiva amarga de uma luta prolongada para restituir a ordem constitucional atingida pelo golpe de junho. Essa tarefa será tanto menos árdua e dolorosa quando menor for a margem de manobra internacional que se outorgue ao governante que substitua Micheletti no cargo.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Movimento Continental Bolivariano: uma necessidade política de alcances estratégicos


Compatriotas latinoamericanos e caribenhos assistentes a esse histórico evento,
Companheiras e companheiros:

Recebam o saúdo entusiasmado do Secretariado, do Estado Maior Central, do corpo de mando e das guerrilheiras e guerrilheiros das FARC - EP, assim como de todos os integrantes das milícias bolivarianas.

Constituir um movimento político continental, de essência bolivariana, justo quando o império estadunidense espalha sua força militar na Colômbia e dispõe, ameaçante, seus aparatos de guerra e terror contra os povos latinoamericanos e caribenhos, é não só uma necessidade histórica, mas um dever improrrogável, que assinala o horizonte da unidade combativa de nossos povos em defesa de sua dignidade, independência, historia, valores, cultura, território, recursos humanos, riquezas naturais e do inalienável direito a forjar soberanamente seu futuro.

O propósito de El Libertador de conformar una grande pátria latinoamericana estruturada como um só corpo de nações livres, integradora de nossos povos, garante da derrota do colonialismo de aquelas épocas e da independência definitiva de nossos povos do jugo de qualquer potência, continua vigente; conserva plenamente seu vigor como estratégia nascida do gênio e do exemplar e inesgotável compromisso revolucionário de Simón Bolívar, que concebeu, uma grande nação como patrimônio coletivo de todo o povo e não como somatória de enormes latifúndios reservados a minorias privilegiadas, ajoelhadas e submissas ante as ordens do império de turno.

O caráter de justiça que tem tão portentosa proposta bolivariana tascende 200 anos depois, da mesma forma que a totalidade de seu ideário de igualdade, liberdade, justiça social, soberania e independência, resumo e essência das lutas atuais de boa parte dos povos latinoamericanos e caribenhos que combatemos contra regimes oligárquicos entregados incondicionalmente aos amos estrangeiros e como vítimas que somos da expansão capitalista chamada de "globalização", levantamos hoje, com mais urgência e legitimidade que nunca, a bandeira da Pátria Grande, ante a visível intenção ianque de copar os territórios desde o Sul do Rio Grande até a Patagônia, para fazer realidade sua estratégia do "destino manifesto" sob sua imperial e repudiável consigna de "América para os americanos".

Está claro que o tratado militar firmado recentemente entre Washington e Bogotá, que permite a instalação de 7 bases estadunidenses na Colômbia, com a prerrogativa de utilizar a totalidade do sistema aeroportuário, o espaço aéreo, os mares territoriais sim limites na quantidade de efetivos que transportem seus barcos de guerra e a presença massiva de paramilitares norteamericanos denominados contratistas, não se circunscreve ao combate contra o narcotráfico e o chamado terrorismo, mas busca desestabilizar os processos democratizadores e independentistas que se apresentam na América Latina.

A guerra contra o narcotráfico é uma estratégia fracassada que os Estados Unidos utilizam hoje como pretexto para intervir e agredir em diferentes lugares do mundo.

A guerra contra o terrorismo -amplo qualificativo político onde cabem todos seus contraditores-, decretada pela Casa Branca, a mesma que ordenou o bombardeio atômico a Hiroshima e Nagasaki, que arrasou o Vietnã com armas químicas napalm, que agredi os povos de Iraque e Afeganistão e apóia o terror do Estado de Israel, é outra máscara do império e das transnacionais, para justificar suas infâmias.

Latinoamérica, na estratégica esquina de Suramérica que ocupa Colômbia e como consequência de um plano de largo alento que já está em andamento, já começaram a invadir-la de novo, esta vez com a aquiescência de um presidente como Álvaro Uribe, da entranha do paramilitarismo criminal, que tem um túrbio passado como narcotraficante -feito bem conhecido por Washington-, apátrida e cabeça do governo mais corrupto da historia colombiana e a quem precisamente por isso, utilizam os Estados Unidos para adiantar essa aventura com a qual pretende recuperar a influência perdida em seu outrora "pátio traseiro".

O falido golpe de estado contra o Presidente Chávez em 11 de abril de 2002, o golpe de estado contra o Presidente Zelaya que pretendem encobrir reconhecendo as espúrias eleições 'ganhadas' por Lobo, as provocações sistemáticas para desestabilizar a fronteira colombo - venezuelana, os evidentes e ininterruptos esforços desestabilizadores em vários de nossos países fazem parte dessa nova ofensiva do Estado ianque e da reação (as elites) continental contra os avanços integracionistas e o crescente sentimento antiimperialista de nosso Continente, enmarcado na concepção bolivariana da independência, é dizer, no combate frontal das maiorias oprimidas contra o poder colonial e as oligarquias criolas, ou em outras palavras, na luta de classes pela liberação dos oprimidos, da confrontação social e política pela democracia para desenvolver-la de forma continua, ascendente e afundada no melhor e mais avançado de nossas tradições, caracterizada por nossas particularidades e idiossincrasia como parte de um processo autenticamente latinoamericano em marcha rumo ao Socialismo.

Nosso compromisso com esse processo pela soberania nacional e popular, pela Pátria Grande e o Socialismo é total e incondicional. São nossos inamovíveis e a razão da existência das FARC - EP como nos o inculcaram nossos chefes e fundadores Manoel e Jacobo, e como o ratificamos todos os dias, com plena e absoluta confiança na vitória final.

Ante esse excepcional evento, ratificamos nossa confiança no reforço que significará para as lutas do povo latinoamericano o surgimento do Movimento Continental nutrido do ideário bolivariano e inspirado como todos nós, na existência exemplar do Libertador, referente ético excepcional que nos anima permanentemente na dureza da luta por alcançar os objetivos já traçados.
Reiteramos nossos votos pelo mais enriquecedor intercâmbio, conclusões e propostas sabias e convocantes que gerem movimento de massas, organização, luta contra o invasor e pela construção da Pátria Grande!

Pela unidade latinoamericana e caribenha contra a invasão imperial dos Estados Unidos: Adelante!

Muito obrigado,

Alfonso Cano
Chefe do Estado Maior Central das FARC - EP
Montanhas de Colômbia, dezembro de 2009

Morales: O apoio de 63 por cento foi o melhor presente que já me deram!


Fonte: teleSUR

Morales disse que seu governo vai manter o foco na manutenção de um processo revolucionário e de mudança, onde se assentem as transformações necessárias com base nas consultas dos setores mais necessitados do seu país.


O presidente reeleito da Bolívia, Evo Morales, mostrou-se agradecido com o povo de seu país pelos resultados das eleições gerais deste domingo, em que venceu com mais de 60 por cento dos votos para conduzir um novo período no cargo até 2015.

"Fui recompensado com o melhor presente para mim e para Álvaro", disse nesta segunda-feira o mandatário numa coletiva de imprensa no Palácio do Governo.

"O resultado desta eleição é muito encorajador, quero agradecer aos diversos movimentos sociais e todo o povo da Bolívia", disse ele.

Disse também que se sentia “muito animado, muito contente, nos dá força, o povo nos dá a oportunidade de continuar o processo de mudança", e reiterou que se trata de um reconhecimento do trabalho do povo.

"O povo nos deu uma tremenda oportunidade para refletir", disse o presidente boliviano enquanto elogiava o histórico processo eleitoral deste domingo pelos eleitores no seu país e em outras quatro nações pela primeira vez.

Na coletiva de imprensa, o chefe de Estado lembrou que esta eleição foi protagonizada por três frentes: "a oposição, os nossos constituintes e os movimentos sociais”.

Um dos projetos previstos para iniciar em seu segundo mandato, é o de uma lei que está no Senado para investigar algumas pessoas, disse que "os bens serão investigados para garantir o sistema democrático livre de corrupção na Bolívia ".

Ele lembrou que um dos inimigos dos bolivianos é o neoliberalismo, e insistiu que o outro é a corrupção, "por isso levantaremos o manto do sistema bancário, pois aquele que não vive para servir, não serve para viver".

"A segunda questão é o seguro de saúde universal para os bolivianos”, disse Morales ao mesmo tempo em que assegurava que sua política continuara baseada no diálogo, pois “nunca impomos políticas, sempre consultamos" as necessidades do povo.

"No ano passado, depois de muita dificuldade, aprovou-se o projeto de Constituição e tivemos que melhorar e revisar muitos artigos sob a observação ou o controle da comunidade internacional", por isso "não têm nenhum argumento para questionar a política do Estado Boliviano sob qualquer pretexto".

Ele também disse que os recursos naturais nunca mais serão privatizados ou entregues às transnacionais, pois as estratégias estão contempladas com acordos de políticas sociais e econômicas para esta matéria.

Ele acrescentou que alguns dos problemas que enfrenta o continente sulamericano é o tema da propriedade intelectual, o Tratado Livre Comércio e as bases militares dos EUA instaladas na região.

Indicou que os partidos de direita sempre pensam em seus próprios interesses e nunca nos do povo. "Uma das vantagens que tivemos nas primeiras eleições, em 2005, foi que a direita não sabia escolher seus candidatos".

Assinalou que seus adversários usam a campanha como uma grande palestra para não ir para a prisão, em relação ao seu principal adversário, Mafred Villa, que é o resultado das últimas ditaduras militares e de suas políticas privatizantes.

A nova Constituição Política do Estado boliviano estima uma eleição e reeleição para presidente, entretanto Morales assegurou não ter interesse em um novo mandato ao finalizar o próximo de 2010-2015.

Informou também que nesta terça-feira se reunirá com movimentos sociais para estabelecer os mecanismos para a eleição de governadores e prefeitos em todo o país.

No próximo sábado vai a Cuba para discutir com os países membros da ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas), as novas políticas do socialismo do século XXI e assegurou sua participação no Encontro de Copenhague sobre Alterações Climáticas.

Morales pediu para manter o diálogo transparente, sincero e resolver de maneira conjunta as demandas dos outros países, cada um defendendo sua nação mas também a necessidade de agir de forma solidária.

"Temos a responsabilidade de cuidar, defender o nosso povo e nosso país sem competitividade. A decisão democrática dos países do continente será sempre respeitada", disse Morales sobre a sua opinião pela vantagem do candidato da direita à presidência do Chile, Sebastian Piñera, que ocorrerá no próximo domingo.

"O Governo da Bolívia vai sempre manter relações com todos os governos do mundo, porque nos baseamos no diálogo", disse o Presidente eleito.

Um dos primeiros compromissos do novo governo de Morales enfocar-se-á no ataque à pobreza e “neste assunto temos resultados importantes reconhecidos pela comunidade internacional”.

"Antes, a Bolívia produzia apenas 20 por cento do seu produto interno bruto, agora estamos acima de 40 por cento desta produção" e frisou que "vamos continuar a trabalhar dentro de uma complementação”.

Ele concluiu dizendo que o triunfo da Bolívia "é uma dedicatória aos povos do mundo que permanecem na luta contra o capitalismo".

teleSUR / dg - PR

domingo, 6 de dezembro de 2009

Estratégia de Obama instaura a barbárie na Ásia Central

Por Miguel Urbano Rodrigues

Transcorridos oito anos dos atentados que destruíram o World Trade Center e atingiram o Pentágono, o terrorismo assume proporções cada vez maiores nas áreas do planeta onde George W Bush pretendia enfrentá-lo e erradicá-lo.

O presidente Barack Obama, cuja eleição suscitou a nível planetário uma grande esperança, foi distinguido com o Premio Nobel da Paz, mas a sua intervenção na Historia, contrariando um discurso humanista, não tem contribuído para combater e superar a crise de civilização existente.

Ocorre o contrário. A sua estratégia no Médio Oriente e na Ásia Central instaura a barbárie e agrava o terrorismo.

O esforço desenvolvido por uma gigantesca e perversa engrenagem mediática que desinforma os povos não tem o poder de inverter o rumo dos acontecimentos.

Os Estados Unidos estão presentemente envolvidos na Ásia em duas guerras perdidas e atolados na pantanosa situação criada na Palestina pelo sionismo neonazi.

O primeiro grande erro de Obama foi, ao entrar na Casa Branca, definir o Afeganistão como a primeira prioridade da sua política internacional.

Na sua opinião o Iraque estava quase “pacificado” e tomou a decisão de transferir alguns milhares de soldados para o Afeganistão onde a insurreição alastrava numa guerra que, assim o afirmou então, se comprometia a vencer porque dela dependia “a segurança dos EUA”.

O otimismo sobre a situação no Iraque foi sem tardança desmentido pelo aumento da violência no país. No centro de Bagdad e nas principais cidades explodem todas as semanas carros armadilhados e bombas que matam centenas de pessoas. A resistência contra a ocupação militar norte-americana cresce e o governo fantoche tutelado por Washington está totalmente desprestigiado. O Pentágono já reconheceu que será quase impossível respeitar o compromisso de retirar do pais as tropas estadunidenses na data prevista, ou seja dentro de dois anos.

A nomeação do general Stanley McChrystal para comandante supremo na área Afeganistão-Paquistão foi muito bem recebida pelo Congresso e suscitou inicialmente grandes esperanças no establishment.

Mas a atmosfera de euforia durou pouco. A estratégia inovadora concebida pelo general, apresentado como um intelectual brilhante, com diplomas de história e ciências políticas, não parece entusiasmar os analistas militares dos grandes media.

McChrystal pediu a Obama o envio de 30 a 40.000 homens, advertindo num dos seus dois relatórios que sem esse reforço a guerra será perdida. Entretanto, em pleno Verão, desencadeou na Província do Helmand uma ofensiva em que participaram aproximadamente 15.000 soldados americanos e britânicos. Não obstante a escolha ter recaído sobre tropas de elite, o resultado foi decepcionante. A força empenhada sofreu grandes baixas e nos combates travados os guerrilheiros afegãos evitaram o choque em campo aberto, permanecendo quase sempre invisíveis.

No começo do Outono a guerra entrou pelo Paquistão, na chamada Fronteira do Noroeste, um território que durante séculos pertenceu ao Afeganistão, habitado por tribos pachtun que ignoram a fronteira artificial que os ingleses impuseram em 1880 após a segunda guerra anglo-afegã. Sob pressão de Washington, o Paquistão mobilizou milhares de soldados para os lançar contra os “terroristas” do Waziristao. Simultaneamente, aviões não tripulados da Força Aérea dos EUA começaram a bombardear indiscriminadamente aldeias da região, alegando que eram redutos dos talibãs paquistaneses.

Essas operações conjugadas não atingiram os objetivos fixados. As baixas no exercito são elevadas. Os combates desenrolam-se num terreno montanhoso onde os moradores, waziris, shinwars, momands e de outras tribos da região, opõem uma forte resistência. O balanço do apoio aéreo americano é também negativo. Os aviões não tripulados voando a grande altitude lançam as bombas sem um mínimo de precisão. As principais vitimas são camponeses das aldeias, o que contribui para aumentar o ódio das populações locais aos EUA.

A primeira conseqüência da intensificação das ações militares americano-paquistanesas foi a multiplicação de atentados terroristas nas grandes cidades do país.

No próprio dia em que Hillary Clinton pronunciava em Islamabad um discurso palavroso e ridículo em que apresentou a solidariedade dos EUA com o Paquistão como contribuição decisiva para “a paz, o progresso e a democracia” no país, um atentado em Peshawar matava quase duas centenas de pessoas.

A visita e as palavras da secretária de Estado suscitaram protestos. O alinhamento do atual governo de Islamabad com os EUA é mal recebido pela grande maioria da população. Tudo indica que a vaga de terrorismo vai prosseguir.

O desfecho das eleições presidenciais no Afeganistão criou mais um problema aos EUA porque não correspondeu ao objectivo de Washington ao promovê-las. As insistentes criticas dos generais Petraeus e Mc Chrystal a Hamid Karzai, responsabilizando-o pela corrupção generalizada e pela nomeação para altos cargos de destacados criminosos de guerra, persuadiram Obama de que o afastamento do presidente através de eleições era uma necessidade. Mas Karzai e a sua gente montaram uma gigantesca fraude com a cumplicidade da Comissão Eleitoral. O escândalo da proclamação de Karzai como vencedor por maioria absoluta foi tamanho a nível internacional que a ONU declarou a nulidade das eleições e exigiu a realização de uma segunda volta. O tiro saiu, entretanto, pela culatra. Perante a iminência de uma nova fraude, Abdullah Abdullah - o candidato de Washington - renunciou a disputar o segundo turno quando as exigências mínimas que apresentou foram recusadas pelo governo. Logo Karzai, sem adversário, se auto-proclamou presidente reeleito.

A Casa Branca teve de engolir o sapo e Obama, numa mensagem confusa, concluiu que, apesar de tudo, o processo eleitoral fora positivo. Mentiu.


O SONHO DO GENERAL MCCHRYSTAL

RESSUSCITA O FANTASMA DO VIETNAM

Obama tinha adiado para depois das eleições a decisão sobre a nova estratégia proposta pelo general Mc Chrystal .

Num contexto desfavorável, consciente de que o povo afegão atribui a Karzai pesadas responsabilidades pelo caos instalado no pais, o presidente norte-americano terá agora de aprovar ou recusar o pedido do general McChrystal , isto é o envio de cerca de 40.000 soldados para o Afeganistão, onde o total das forças de ocupação ronda já os 100.000 entre norte-americanos e tropas da NATO.

As cadeias de televisão e os grandes jornais especulam sobre o tema e a reação do Congresso, prevendo uma solução salomônica, isto é, o envio de metade dos efetivos solicitados.

Uma extensa entrevista concedida em Kabul pelo general McChrystal ao diário francês Le Figaro (29 .09.2009) veio criar novos problemas à Casa Branca porque as suas declarações tiveram repercussão internacional, ampliando a polêmica nos EUA.

O general começa por afirmar que será o povo afegão “a decidir quem ganhará a guerra. O Estado afegão e o exercito afegão são - assim se expressa - quem no fim de contas tomará a decisão. Nós, os Ocidentais devemos ser os seus leais aliados”.

A esse começo pouco sensato seguem-se criticas à estratégia da União Soviética que, na sua opinião, criou nos anos 80 um exercito afegão visto como “ilegítimo”pela população.

Instado a pelo entrevistador, Renaud Girard, a comentar as reações do Pentágono e do Presidente Obama aos dois relatórios que lhes enviou, o general considerou-as positivas.

Sublinhando que o seu primeiro dever é a “humildade”, McChrystal chamou a atenção para uma faceta mais do que polêmica do seu ambicioso plano de pacificação do país. Lembrando que os militares estadunidenses têm ainda muito a aprender, o general declarou: “os nossos oficiais devem progredir no conhecimento das línguas e dos costumes deste país. Devemos aproximar-nos da população, desembaraçados de todas as blindagens e outros coletes anti-estilhaços. Os nossos homens devem conhecer melhor a história e a cultura afegãs, a fim de atuar em cooperação com os seus camaradas afegãos”.

Não é surpreendente que essas sugestões tenham embaraçado historiadores e sociólogos convidados a pronunciar-se sobre elas.


Visitei varias vezes o Afeganistao e julgo útil esclarecer que o pais tem duas línguas oficiais – o dari (variedade do persa) e o pachto, e que alguns milhões usam como idioma materno o turco usbeque e o turcumano. Mesmo libertando a imaginação, admito que seria uma tarefa homérica para a soldadesco americana a aprendizagem dessas línguas para ela impenetráveis. Não concebo também que a oficialidade, cujo conhecimento da própria historia dos EUA é na generalidade muito deficiente, possa dedicar-se com proveito à historia dos povos que ao longo de 25 séculos desde os Aquemenidas persas e Alexandre da Macedônia criaram no espaço afegão civilizações brilhantes que deixaram marcas inapagáveis no rumo da humanidade.

Interrogado sobre a insurreição, o general lançou-se numa dissertação algo confusa. Na sua opinião o que existe é “uma confederação de insurreições, com fins políticos diferentes”. Mencionou especificamente três, “os talibãs históricos, o grupo Haqqani, e a Hesbe Islami de Gulbudin Hekmatiar, além de outros grupúsculos dispersos. O seu único cimento é o ódio ao governo instalado”.

Do intenso ódio aos invasores americanos não fala.


Independentemente do juízo que se faça dessa reflexão do estratega sobre a insurreição, a continuidade de Hamid Karzai como presidente não vai contribuir para a conquista das populações mediante o dialogo e o estudo das línguas afegãs.

O general, que é um estudioso das guerras coloniais do seu país e da França, esclarece que as lições dos generais franceses Lyautey e Galieni no tocante à contra-insurreição não foram por ele esquecidas. Porque não se trata de matar “um máximo de talibãs”, mas sim de “proteger as populações”. Omite, porem, um pormenor importante. Os nomes de Lyautey e Galieni, o primeiro em Marrocos, o segundo em Madagascar, ficaram ligados a ações repressivas maciças do exército francês. McCarthy vai mais longe. “Sou – confessa - um grande admirador do exército francês e estudei o seu trabalho contra-inssurrecional na Indochina e na Argélia”.

São conhecidos os resultados desse “trabalho”, mas o general norte-americano não os menciona. É também omisso no tocante à política de “proteção” às populações do Vietname aplicada no terreno pelo seu compatriota general Westmoreland. O seu discurso apresenta, contudo, muitas afinidades com o daquele derrotado cabo-de-guerra norte-americano.

Somente com o rodar do tempo saberemos se o desfecho será similar ao do Vietnã. Cabe, porém, lembrar que o responsável pelo ambicioso plano de “pacificação” do Afeganistão e a estratégia global de McChrystal é um general paraquedista francês.

O general Stanley McChrystal comandou durante cinco anos, de 2003 a 2008, as forças especiais dos EUA. Segundo os especialistas militares é um “duro”. Do seu currículo não consta políticas de diálogo com os povos, mas ações de genocídio que levaram alguns analistas a qualificá-lo de “criminoso de guerra”.

Foi a esse soldado, com pretensões acadêmicas, que o Presidente dos EUA confiou a tarefa de ganhar a guerra do Afeganistão, primeira prioridade da política externa da Casa Branca.

Enquanto medita sobre a nova estratégia para a Ásia Central, o presidente Obama, Premio Nobel da Paz, propõe ao Congresso o maior orçamento militar da História dos EUA. Se for aprovado, excederá os orçamentos militares somados de todos os demais países do planeta.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Evo Morales: Um líder indígena que abriu a nova era do poder na Bolivia


Por Adalid Cabrera Lemuz

Fonte: TeleSur


La Paz, 4 de dezembro (ABI). Evo Morales Ayma, um líder indígena, que recuperou a essência do povo boliviano, hoje está a caminho de sua quinta vitória eleitoral em menos de quatro anos diante de uma direita de lutar por sua sobrevivência, inaugurou em janeiro de 2006 uma nova era de poder na Bolívia.

Desde que Morales entrou para a política na década de 90, depois de ter vencido mil obstáculos colocados por seus detratores que não admitiam que um indígena lhes tomasse os espaços de poder, Morales tornou-se um ícone não só para o povo boliviano, mas para a América Latina e do mundo.

Quando ele ganhou as eleições gerais de 18 de dezembro de 2005, poucos lhe deram a oportunidade para permanecer no poder e que sua imagem crescesse na comunidade internacional.

O próprio Morales, hoje com 50 anos, costuma dizer em suas declarações públicas que "ninguém acreditava que o indiozinho se manteria no poder por muito tempo; os grupos neoliberais e de direita diziam que em seis meses voltariam a ocupar os cargos que mantinham desde 1985".

Após permanecer um ano na vanguarda da administração governamental, os grupos econômicos e a oligarquia começaram a se preocupar porque Morales, longe do desgaste e sem perder o apoio, foi conquistando-o, por isso colocaram em andamento uma série de medidas para desestabilizar o governo.

Em 1986, eles criaram um esquema de desgaste em Sucre, a capital constitucional da Bolívia, para promover o fracasso de uma Assembléia Constituinte que era uma das reivindicações do povo para a refundação da Bolívia.

O órgão deliberativo tinha como principal missão elaborar uma nova Constituição Política do Estado que respondesse à realidade da Bolívia e que fosse o fruto das aspirações de todo o país.

Morales disse então que o objetivo é que a nova Carta Magna seja o resultado da deliberação dos representantes de todos os bolivianos e que não fosse forjada, como no passado, nas mesas da burocracia que redigia os instrumentos jurídicos à sua medida.

Apesar da pressão de organizações, como o Comitê Interinstitucional, que desnudou um racismo impiedoso que mostrou os verdadeiros interesses da oligarquia para eliminar qualquer vislumbre reivindicatório das maiorias, a Carta Magna foi aprovada pelo Congresso em Janeiro de 2009 e promulgada um mês depois pelo seu principal ativista, Evo Morales.

Desde que assumiu a Presidência, a oposição não descansou para desestabilizar o seu governo, com ações que chegaram a promover movimentos de desobediência civil em alguns departamentos.

A imagem e presença política de Evo Morales, primeiro dirigente indígena a assumir a Presidência em toda a história republicana da Bolívia, começou a tomar forma em 1993, sobre a base dos sindicatos de produtores de coca de El Chapare, onde Morales haviam emigrado desde Orinoca, sua terra natal, em busca de melhores meios de sobrevivência contra a pobreza.

O atual Presidente começou naquela época a dar forma a um grupo político denominado Movimento ao Socialismo (MAS) como Instrumento Político pela Soberania dos Povos (IPSP).

Ao explicar essa fase de sua vida, Morales confessava que os povos “mais oprimidos, discriminadas e maltratadas da Bolívia, decidiram lutar pelo poder para que, desde o governo, possam buscar e adotar soluções para suas reivindicações sociais e econômicas”.

Já na eleição de 2002, Morales concorreu como candidato à Presidência da República, numa corrida em que os especialistas o colocaram em quarto lugar, atrás dos candidatos de grupos da direita tradicional que se alternavam no poder ou que o compartiam por meio de alianças por atrás dos panos e da decisão do soberano.

Apesar das poucas chances que lhe deram, nos comícios Morales chegou ao segundo lugar, apenas um par de pontos percentuais do primeiro, o empresário da mineração Gonzalo Sánchez de Lozada.

Segundo os analistas, esse foi o primeiro toque de alerta para os grupos tradicionais de poder que começaram uma campanha para desmoronar a sua presença com acusações que o ligavam ao tráfico de droga que jamais puderam provar, apesar de terem o apoio de os EUA.

Além disso, algumas autoridades da própria administração de Washington, sem querer, converteram-se nos principais líderes da campanha de Evo Morales, ao convocar o povo para não votar nessa opção nas eleições de 2002, o que se transformou em efeito bumerangue. Basta perguntar ao embaixador dos EUA dessa época, Manuel Rocha, o que ele pensava.

Morales está convencido de que ele chegou ao poder para servir ao povo, rompendo com a prática tradicional de seus antecessores que consideravam a política como a porta para arrecadar milionárias fortunas a custas das riquezas do Estado.

As afirmações do “indiozinho” de se declarar de esquerda e amigo dos presidentes Fidel Castro, de Cuba, Hugo Chávez, da Venezuela e Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, causaram espanto na oligarquia nacional, nos EUA e seus aliados que incentivaram ânimos contrários na população.

Tudo isso foi inútil, visto que a medida que o tempo passa Morales e seu projeto político apoiado na revolução democrática e cultural atinge cada vez mais adeptos, não só de grupos indígenas e sindicais, mas também profissionais, intelectuais e universitários, e até mesmo seus próprios detratores nos departamentos de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija. Uma demonstração são as grandes manifestações populares que o proclamam nessas regiões como seu candidato.

O que foi que aconteceu? O próprio presidente considera que todos os argumentos contra a sua proposta de política começou a desmoronar pela força dos resultados de sua administração.

A nacionalização dos hidrocarbonetos, em 1º de maio de 2006, alcançou dois de seus objetivos, o primeiro foi o inicio da recuperação do patrimônio estatal que foram privatizados em 1997 por um programa de capitalização imposto pelo governo neoliberal de Gonzalo Sánchez de Lozada.

O segundo objetivo alcançado com êxito é a recuperação do manejo do setor de hidrocarbonetos que transformou uma economia deficitária em uma estável que conseguiu, depois de cinco anos, alcançar um superávit comercial e o aumento das reservas internacionais de 1,8 milhões de dólares para 8,5 milhões de dólares.

Nestes últimos quase quatro anos tem utilizado recursos do Estado em beneficio do povo ao criar bônus para cidadãos da terceira idade, para estudantes do ensino básico e para gestantes e seus filhos de até dois anos de idade sob o conceito de que "o dinheiro que é do povo deve retornar para o povo".

Outros programas de desenvolvimento social referem-se à campanha de alfabetização que chegou a quase 850.000 analfabetos para declarar a Bolívia livre desse problema, junto com Cuba e Venezuela.

Cuba colocou ao serviço da Bolívia o programa chamado “Sim, eu posso” de alfabetização. Agora, os novos alfabetizados ingressaram ao programa “Sim, eu posso continuar” para conseguir maior capacitação que, a médio prazo, lhes permitirá ingressar no ensino superior.

Outro avanço é a "Operação Milagre", que restaurou a visão a cerca de meio milhão de cidadãos bolivianos e de países vizinhos, que foram operados em clínicas oftalmológicas da Bolívia por médicos cubanos do programa.

Atualmente, outro programa social funciona através da chamada Missão de Solidariedade Moto Méndez, para ajudar as pessoas com necessidades especiais, um setor negligenciado no passado e que agora merece atenção do Estado.

Apesar da oposição dos latifundiários, que se apropriaram de dezenas de milhares de hectares de terra com o auspício das ditaduras e dos governos neoliberais, Morales estimulou a recuperação de terras para proceder à sua distribuição equitativa.

Essas ações fizeram com que o Presidente e o Governo sofressem ataques histéricos de opositores e grupos econômicos, ao ponto de promover, em agosto de 2008, um referendo para deslegitimar seu mandato. O resultado foi pior que a doença para os adversários porque Morales saiu fortalecido com o apoio de cerca de 67 por cento dos votos.

Nestes quatro anos o Governo de Morales, para se consolidar no poder, sofreu os ataques vindos de diversos flancos, desde o Senado com uma oposição empenhada em obstaculizar os programas do Governo, até a geração de fatos violentos em alguns departamentos.

A violência chegou a tal ponto que, em abril de 2009, as agências de segurança do Estado desarticularam um bando de mercenários estrangeiros contratados para formar milícias para se opor ao Governo e que iniciariam uma guerra civil. O Ministério Público investiga a rede de terrorismo e seu financiamento local.

Enquanto na Bolívia a gestão de Morales se fortalece, no exterior sua popularidade aumentou devido à posição assumida "em defesa da soberania e da dignidade nacional e da América Latina" para se tornar um dos ícones da voz do continente.

Morales fez o que nenhum outro governo se atreveu quando expulsou o embaixador dos EUA na Bolívia, Philip Goldberg, e os agentes da Central antidrogas (DEA) do país do norte, acusando-os de ter cooperado com os planos para desestabilizar a democracia.

Apesar das represálias dos EUA, Morales igualmente convocou os EUA para cumprir a sua responsabilidade compartida não só na luta contra as drogas, mas também em defesa do meio ambiente e da terra.

A Prêmio Nobel da Paz, Rigoberta Menchú, resumiu o conceito internacional sobre Evo Morales ao qualificá-lo como um "lutador permanente pela dignidade dos povos latinoamericanos, não somente da Bolívia".

Menchú, que é também recebeu o Prêmio Príncipe das Astúrias de Cooperação Internacional, observou que desde a chegada de Morales ao poder, a Bolívia tornou-se numa referência latinoamericana e dos povos indígenas.

No campo da economia internacional, também a presença de Evo Morales foi importante ao levantar uma batalha contra os programas conduzidos pelos países industrializados, entre eles a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que se destinava a debilitar as economias dos países em desenvolvimento.

Morales aderiu à Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), criada por Cuba e Venezuela e que promove a complementaridade e a solidariedade entre os povos, em vez da competitividade.

Todas essas medidas do Governo em quase quatro anos, causaram o colapso das ações da oposição, órfã de apoio e com seus seguidores cada vez mais propensos a aderir ao processo de mudança.

Para as eleições de amanhã, 06 de dezembro, os adversários não conseguiram sequer formar alianças para enfrentar um processo eleitoral e se conformaram em apresentar opções que subtraem votos de si mesmas, com o único objetivo de conseguir alguns lugares na Assembléia Legislativa Plurinacional para poder defender seus interesses ou converter a esse inédito ente da representação nacional em uma "Arca de Noé", que garanta sua impunidade.

Por esses e outros fatos mais, o líder indígena consolida-se no poder na Bolívia e não se vislumbra o surgimento de outras opções.

Os partidos opositores tradicionalistas fracassaram repetidas vezes nas suas tentativas de derrubar a Morales, ao de ponto de querer apoiar até candidaturas indígenas que promovam uma disputa interna, mas não deu em nada.

Por isso, quando surge a pergunta de por quê Evo Morales continua no poder, a resposta está no texto acima.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Carta a meus pais: Miguel Antonio Beltrán e Alba Ruth Villegas

Pelo preso político Miguel Ángel Beltrán, 14/11/2009


Queridos pais

Imagino suas caras de surpresa quando na sexta-feira passada (22 de maio) escutaram o comandante de polícia, General Oscar Naranjo, dizer que o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) havia capturado “o terrorista mais perigoso das FARCs” e que se tratava de um professor universitário que respondia - igual ao vosso filho - pelo nome de Miguel Angel Beltrán Villegas.

Suponho que, a não ser pelas inquietantes imagens da televisão que corroboraram a notícia, onde me apresentava algemado com jaleco antibalas de cor preta, uma mordaça e um impressionante dispositivo de segurança, papai teria dado uma descomunal gargalhada, comentando a notícia com seu costumeiro humor negro: “se meu filho é terrorista, Uribe é a Virgem Santíssima”.

Mas neste país do Sagrado Coração de Jesus, onde os mal chamados “falsos positivos” (em realidade verdadeiros crimes de Estado) executados a “sangue frio” são o pão de cada dia, tudo é possível. Inclusive que os noticiários citem ao presidente Álvaro Uribe como o mandatário mais popular da América Latina e a mim como um perigoso terrorista internacional.

No dia seguinte, nos calabouços da SIJIN[1] de Bogotá, um guarda compartilhou comigo um artigo publicado pelo diário “El Tiempo” e que parecia um panfleto escrito nos tempos da Guerra Fria quando se dizia que “os comunistas comiam criancinhas”. Na sua coluna, o jornalista afirmava que vocês dois eram guerrilheiros e que eu havia realizado meus estudos na extinta União Soviética. Desta vez - lhes confesso – quem não pode segurar o riso fui eu: “meus pais “chusmeros”[2], vejam que piada divertida”, imaginava em meio à hilaridade que me produzia a notícia que, se eu era acusado de ter o codinome Cienfuegos, seguramente papai foi conhecido como faísca e mamãe como pólvora ou outro explosivo nome de guerra.

Mais do que irresponsável a afirmação do jornalista, colocou em grave risco a integridade física de vocês dado que neste país os ex-guerrilheiros tem sido impunemente assassinados, como pode ilustrar a morte de Guadalupe Salcedo, “Charro Negro”, Carlos Toledo Plata, Carlos Pizarro e muitos mais. Quisera dizer-lhes que secretamente pensei que era um orgulho que no citado artigo de imprensa os chamavam de guerrilheiros. Acaso não foram os exércitos irregulares patriotas os que derrotaram mais de três séculos de colonialismo espanhol? Não foram os guerrilheiros liberais os que enfrentaram as ditaduras civis conservadoras nos anos quarenta e cinqüenta? Não é a ação guerrilheira que tem preservado os escassos resquícios de democracia que hoje subsistem neste país?

Na Colômbia a história tem demonstrado que guerrilheiro é sinônimo de altruísmo, resistência e dignidade; Os LLanos (as Planícies), Chaparral, Villarrica, Marquetalia, Sumapaz e o Guayabero podem dar fé disso. Insultante teria sido se os chamassem “congressistas” ou “assessores presidenciais”, ocupação associada hoje à corrupção, ao Narcotráfico e ao paramilitarismo.

Mas a vida lhes reservou outros caminhos: papai se converteu em um ex-sargento vice- primeiro da policia e minha progenitora em uma abnegada mãe dedicada aos cuidados do lar. Com a generosidade e a entrega de vocês dois, sobrevivendo de uma precária pensão de policia habitando uma casa em “obra negra”, que lhes subsidiou o programa da “Aliança para o Progresso” (e que terminaram de levantar ladrilho a ladrilho), conseguiram criar, educar e alimentar sete filhos: cinco mulheres e dois homens. De modo que se alguma profissão exerceram vocês – há que aclarar ao jornalista – não foi a de guerrilheiro, mas a de magos e ilusionistas.

Hoje confinado neste presídio de alta segurança onde as horas transcorrem lenta e monotonamente, é inevitável recriar em minha mente essas histórias familiares que agora se acumulam em minha garganta como um grito de rebeldia contra toda a injustiça que pesa sobre mim este regime corrupto e narcoparamilitar. Ainda tenho fresco em minha memória aquele longínquo dia, quando a avó Sofia me relatou, sem derramar sequer uma lágrima, porque seus olhos estavam secos de sofrimento, a morte de Victor Villegas, meu avô materno, que era dono de uma extensa fazenda cafeteira no velho Caldas. Uma tarde qualquer – me contou vovó – sua vida foi ceifada a machadadas, pelo delito de ser “cachiporro”.[3].

Seu corpo inerte permaneceu estendido por várias horas na praça do povo. Ninguém se atrevia a recolher-lo por medo de represálias, mas minha avó que sempre se distinguiu por ter um caráter forte, fazendo pouco caso dos apelos de amigos e vizinhos dirigiu-se à praça do povo, recolheu o cadáver, o carregou vários quilômetros e, em cerimônia quase privada, lhe deu sepultura cristã.

Antes que concluísse o relato meus olhos estavam marejados de lágrimas, por isso talvez a avó que conhecia minha sensibilidade nunca me contou que, no momento de enterrar seu defunto esposo, em seu ventre uma pequena de apenas oito meses de existência agitava sua cabecinha, como perguntando por que lhe privavam de ter um pai que lhe arrulhasse no pescoço, lhe beijasse na testa antes de dormir e a levasse ao parque.

Minha tia Yormen – como depois batizaram esta menina – cresceu assim como tem crescido milhares de colombianos, isto é, como filhos do conflito armado e social que tem castigado o país por décadas.

Foi assim como minha imaginação infantil começou a povoar-se com as histórias “da violência” que saiam a reluzir, cada vez que chegava uma visita familiar. Recordo que - como éramos crianças - nos mandavam dormir porque se tratava de “conversa para adultos”.

Mas minha curiosidade era maior e, contrariando as ordens paternas, escutei atrás das escadas que conduziam ao segundo piso de nossa casa, algumas palavras que muito depois fariam sentido para mim: “godos”[4], “cachiporros”, “pajaros”[5], “chusmeros”, “chulavitas”[6], “Gaitán”[7], “sangrenegra”[8], “vingança”, “laureanistas”[9] e outros mais.

Muito cedo os relatos de fadas encantadas e de príncipes valentes, que com seus beijos desfaziam os malefícios da bruxa malvada, foram substituídos pelos terroríficos contos da polícia “chuvalita” que incursionava pelos povos liberais e cortava o pênis dos homens e o colocavam na boca de suas vítimas, pelos relatos fantásticos de homens de filiação liberal que eram obrigados a caminhar descalços sobre brasas ardentes e, ainda, extraíam os fetos das mulheres grávidas e os enfiavam em suas baionetas, exibindo com orgulho o apreciado troféu.

Escutava estas histórias com uma mescla de terror e fascinação e, como era de se esperar, ao longo da noite era impossível conciliar o sono. Então corria para minha irmã mais velha, que me aninhava em seus braços e, acariciando-me a cabeça, me dizia com sua voz doce para dormir, que essas histórias haviam acontecido há muito tempo na época da violência, mas que agora era tudo diferente; “godos” e “cachiporros” conviviam juntos e já não se matavam.

Ao escutar estas palavras uma sensação de segurança invadia todo meu corpo e fechava os olhos agradecido com a vida por não ter padecido o horror daqueles anos. E assim como minhas leituras infantis minhas simpatias se alinhavam com os mais débeis (chapeuzinho vermelho, Branca de neve, e Cinderela) e meus ódios com os mais cruéis (o lobo, a bruxa e a madrasta) nos relatos que escutava de vocês não me foi difícil tomar partido a favor dos “cachiporros”.

É certo que com meus escassos cinco anos não entendia o que significava esta palavra, mas no mais profundo de meu coração algo me indicava que eles eram bons e os “godos” maus. Na minha lógica infantil teve, no entanto, algo que começou a inquietar-me constantemente: os “chuvalitas” eram policiais e estes por sua vez eram “godos”, mas – veja que horror! – meu pai era policia.

A preocupação rondava tanto minha cabeça que um dia me enchi de coragem e cerrando os olhos me atrevi a perguntar: “papai, quantos cachiporros você matou?” Eu esperava um severo castigo por meu atrevimento, mas como resposta obtive uma sonora gargalhada. Em minha mente infantil essa risada significava que havia assassinado e esquartejado milhares de liberais. Então minha cara ficou séria e um calafrio percorreu o meu corpo. Ante a certeza de algo que já suspeitava, a imagem de um pai exemplar, do pai carinhoso, do pai bom desfazia-se em mil pedaços, como um cristal ao espatifar-se no piso.

Quando estava a ponto de desatar um soluço papai respondeu que em toda a sua vida não havia matado ninguém. E em seguida me esclareceu já com gesto sério – enquanto meu coração voltava ao corpo – em que pese ser um policial nunca deixou de ser um liberal gaitanista. E que sempre ocultou essa filiação política não só para proteger sua vida como também a de dezenas de famílias perseguidas pela violência conservadora; também para burlar ordens que não considerava corretas e procurar justiça onde a situação o requere.

A partir desse dia, tudo parecia mais compreensível e o enredo de idéias que tinha em minha cabeça começou a clarear-se. Por exemplo, compreendi porque mamãe sendo liberal se havia casado com um policial. Assim mesmo entendi a diferença entre um “pássaro” e um “guerrilheiro”. Soube também desde aquela vez que nas fileiras da polícia havia gente boa. E anos depois convertido em ativista estudantil rechacei aquela consigna dogmática tão em voga entre os universitários, que considerava que todos os militares eram assassinos.

Não obstante, a melhor lição que me trouxeram estas conversações com vocês e que se fizeram cada vez mais freqüentes foi que, independentemente de onde estivesse, devia sempre tomar partido a favor dos fracos e manifestar minha indignação contra toda injustiça.

Foi nesses primeiros anos de minha vida que comecei a interessar-me pela história política do País e aquela velha biblioteca de madeira, que ainda sobrevive na casa abriu-se para mim como se fosse um tesouro escondido: ”Viento seco” de Daniel Caicedo; “O que o céu não perdoa” de Fidel Blandón; “Um aspecto da Violência” cujo autor já não recordo, forma obras que devorei em questão de dias.

No entanto, o livro que mais me impactou foi o “Las guerrillas Del Llano”[10]. Seu autor, Franco Isaza, havia participado na contenda. Recordo-me que na biblioteca papai tinha a primeira edição impressa em Caracas, Venezuela, e que circulou clandestinamente sob a ditadura do general Rojas Pinilla, com um prólogo de Plínio Apuleyo Mendonza onde exaltava “a heróica resistência guerrilheira do partido liberal”.

Tinha sete ou oito anos quando li avidamente em uma dessas férias escolares. Com grande crueza Isaza retratava ali sangrentos massacres cometidos pelos chuvalitas nos povoados de El Llano, mas ao mesmo tempo explicava como os leões llaneiros foram se armando para defender suas vidas e propriedades, primeiro em aliança com os fazendeiros liberais e depois contra eles, que se puseram ao lado dos conservadores.

Nas diferentes conversas com meu companheiro de cela Heli Mejia, mais conhecido como “Martin Sombra” recriei estas histórias. Sombra me conta como sua mãe e suas tias foram violadas e assassinadas pela polícia chuvalita; e como seu pai, pouco depois teve a mesma sorte:

“Ante o corpo agonizante de meu pai, jurei que morreria como um guerrilheiro, por isso jamais me esqueci e em 1966 me vinculei aos núcleos iniciais das FARCs”.

Sombra é um vivo exemplo da continuidade – e por sua vez a descontinuidade – da luta guerrilheira na Colômbia. Um conflito que começou como um enfrentamento entre liberais e conservadores, mas que nos anos sessenta adquiriu claro conteúdo de classe, como ficou consignado no “programa agrário dos guerrilheiros” (FARC) e o Manifesto de Simacota (ELN).

Faz mais de um quarto de século que em minha teses de licenciatura em Ciências sociais comecei a investiga este passado histórico, porque acreditei ver nele algumas chaves para compreender a atualidade do conflito armado na Colômbia. Foi assim que me interessei por estudar as guerrilhas liberais do Llano.

Eram os tempos do processo de paz do presidente Belisário Betancur e, de diferentes setores do estado se pressionava para que os combatentes se desmobilizassem e entregassem suas armas. A investigação que realizamos em co-autoria com um companheiro de estúdio, filho de um exguerrilheiro liberal; levou-nos a concluir que os guerrilheiros do Llano haviam sido traídos pelo general Rojas Pinilla que solicitou aos rebeldes que entregassem suas armas em troca de promessas de paz que nunca cumpriu, ao contrário muitos foram presos e assassinados.

Por isso na introdução do nosso trabalho investigativo assinalamos que a derrota do movimento guerrilheiro convertia-se em vitória, porque jamais se voltaria a ver fileiras de insurgentes entregando suas armas a seus verdugos.

A história, no entanto, se encarregaria de desmentir parcialmente aquela afirmação. Anos depois, os guerrilheiros do M-19 desconsiderando esta lição histórica, entregaram suas armas e muitos deles forma assassinados começando pelo seu chefe máximo, o comandante Carlos Pizarro Leon Gomez mesmo contando com uma escolta de mais de 20 homens.

Diferente foi a sorte dos combatentes das FARCs que se esquivaram do processo de “cessar fogo trégua e paz” e se negaram a entregar as armas e anunciaram ao país a formação de um novo movimento político, a União Patriótica (UP). Me vinculei às fileiras da União Patriótica desde o início, porque vi nesse movimento amplo a possibilidade de uma mudança democrática pela via pacífica. Suas propostas de reforma política, agrária e social chamaram minha atenção, assim como seu compromisso com a busca de uma saída política ao conflito colombiano.

A candidatura do magistrado Jaime Pardo Leal satisfez todas as minhas expectativas: seu discurso inflamado, sua tradição de luta, sua capacidade intelectual e sua formação acadêmica me convenceram de participar, pela primeira vez, em uma contenda eleitoral. Mas a oligarquia deste país ao ver ameaçados seus mesquinhos interesses, exterminou a sangue e fogo este experimento político.

De pronto comecei a sentir com horror que essas histórias da violência que vocês relatavam em meus anos de infância não eram coisas do passado, sim do presente: corpos cortados com motosserra ou lançados como alimento a crocodilos, assassinos que jogavam futebol com a cabeça de suas vítimas, homens, mulheres e crianças esquartejados, populações inteiras arrasadas, marchas campesinas esmagadas indiscriminadamente;

Sindicalistas, estudantes e líderes populares desaparecidos, guerrilheiros desarmados assassinados impunemente e centenas de fossas comuns distribuídas por todo o território colombiano. Assim vi desvanecer-se o Partido da “vida e da esperança” para converter-se no “Partido da Morte”: senadores e candidatos à câmara, conselhos, prefeituras populares e militantes de base da UP foram exterminados barbaramente.

Tenho em minha mente gravados os nomes de Leonardo Posada, Pedro Nel Jimenez, Teófilo Forero, José Antequera, Pedro Luis Valencia, Bernardo Jaramillo, Miller Chacón, Manuel Cepeda e milhares de companheiros mais que despareceram sob este furacão de mortes pelas altas esferas do poder.

No entanto, ninguém como a família Canón Trujillo encarnou tão tragicamente o drama da guerra suja, o desaparecimento forçado, a tortura e o isolamento que padecemos os militantes da União Patriótica naqueles anos: o pai, Julio Canón, prefeito popular desta coletividade política no município de Vistahermosa, foi assassinado; dois de seus filhos trucidados (um deles apresentado como guerrilheiro morto em combate); o terceiro irmão desaparecido e outro mais torturado; enquanto os sobreviventes – entre eles Carmen Trujillo, a mãe cabeça da família – se viram forçados a abandonar a região.

O ciclo de extermínio contra a União Patriótica alcançou para mim seu ponto máximo, quando um domingo 11 de outubro, perto de 4h da tarde, faz já 22 anos, escutei pelo rádio a terrível notícia do assassinato de meu mestre, amigo e companheiro de luta Jaime Pardo Leal, então candidato presidencial desta organização política. Aquele dia não pude conter minha indignação e, como milhares de compatriotas, saí às ruas de Bogotá a manifestar meu espontâneo protesto pelo traiçoeiro assassinato do nosso líder popular que um mês antes havia denunciado com nomes próprios aos altos escalões militares comprometidos com os crimes da União Patriótica.

As barricadas nas ruas centrais da capital, o apedrejamento das entidades financeiras, a queima de ônibus e o saque de armazéns me lembraram, inevitavelmente as cenas de 9 de abril de 1948, que vocês haviam vivido e que tantas vezes repassei em minhas leituras universitárias. Para minha desgraça, essa noite terminei encerrado em um frio e escuro porão da estação de polícia do Ricaurte, onde fui torturado – e estive a ponto de ser desaparecido – por conta de um corpulento homem a quem, soube depois, seus companheiros chamavam de “Rambo”, aludindo à rudeza do protagonista desta fita gringa.

Por um feliz equívoco do sentinela de turno, que me confundiu com outro dos detidos, obtive milagrosamente minha liberdade pela manhã do dia seguinte. Consciente da distração do guarda que seguramente iria ser castigado saí temeroso, com o temor de que dessem pelo erro antes de cruzar a porta que dava para a rua; minhas pernas apenas me respondiam e meu coração parecia explodir.

Nessas condições, ainda não entendo como cheguei até em casa, que se encontrava a uma hora do local onde estava preso. Lembro-me que vocês, junto com meus irmãos e irmãs, estavam reunidos na sala. Papai se achava com as orelhas pregadas no rádio, como que esperando algum boletim informativo que desse conta de meu paradeiro; enquanto minha mãe e minhas irmãs oravam em frente a um quadro do Coração de Jesus que sempre nos acompanhou.

Minha aparição na sala da casa foi como uma imagem de um Cristo recém ressuscitado entre os mortos, só que em lugar da túnica branca, vestia uma camisa e uma calça totalmente esfarrapados. Meu corpo estava machucado por toda parte, minha cabeça com hematomas, meus braços com profundas escoriações e meu olho esquerdo convertido em um gelatinoso coágulo de sangue. Dos abraços, as lágrimas e a alegria do reencontro, logo passou a raiva e a indignação pelo maltrato recebido. Nesse mesmo dia papai redigiu um memorial escrito à máquina e dirigido ao comandante da estação Ricaurte. Depois de identificar-se como suboficial das Forças Militares “em uso de licença” entregou o memorial a um major que tinha a cargo o Comando, não sem antes pronunciar-se em longo discurso, onde recordava que a função da polícia era defender a integridade da população civil e não atropelar-lhe; que em seus mais de vinte anos de serviço militar jamais havia atuado contra ela, em que pese haver vivido os duros anos da violência para concluir suas alegações dizendo: “agora sim entendo por que a guerrilha os mata!!”

Com meus irmãos e minha mãe pensamos que iam deixar papai ali e que terminaria tomando o meu lugar no calabouço, mas pelo contrário, o oficial de policia o escutou atentamente e, com seu silencio, pareceu dar-lhe toda razão. Quando papai regressou para casa – feliz pela catarse feita – todos soltamos a respiração que até então estava contida. Depois desse bárbaro episódio, estive vários dias morto de pânico, esperando que em uma esquina qualquer aparecesse “Rambo”, montado em sua moto e disposto a concluir sua bestial tarefa.

Por sorte, isto nunca aconteceu e, vencendo meus medos interiores, assisti ao enterro de Jaime Pardo Leal e de muitos companheiros mais. Sentíamos ali – como o famoso tango de Gardel – que “a vida era um sopro”. Assim, talvez sem darmos conta, aconteceu algo terrível, que jamais deveria acontecer: ante o efêmero da vida nos enamoramos da certeza da morte.

Ríamos, bailávamos, sonhávamos e nos acostumávamos com ela. Cada dia, cada minuto e cada segundo que vivíamos intensamente era um instante que furtávamos da morte. Não fazíamos juramentos de amor, não prometíamos estrelas azuis, mas estávamos dispostos a dar tudo, porque a vida não nos pertencia e em qualquer momento chegaria a morte assassina.

Começamos então a render um culto religioso a Thanathos. Nossos sonhos, nossas palavras, nossos silêncios, nossos versos e até nossas consignas estavam impregnadas de um hálito de morte: “os mortos não choram – costumávamos gritar nas marchas – levantam suas bandeiras e a luta continua”.

Entretanto, em segredo chorávamos suas ausências e lamentávamos a escura desgraça de estar sem eles. Um de nossos jogos prediletos era relatar qual seria nossa última vontade: “Eu desejo que meu cadáver seja incinerado e as cinzas sejam lançadas no rio Magdalena” – dizia alguém; “Eu prefiro que meu corpo seja sepultado embaixo da terra e sobre ele plantem uma árvore que cresça até o infinito” – intervinha outra voz; “meu desejo póstumo é que durante minhas honras fúnebres cantem a canção do eleito”, que iniciava assim:

“sempre que se faz uma história, se fala de um velho, de uma criança ou de si; mas minha história é diferente, não vou falar-lhes de um homem comum, farei a história de um ser de outro mundo, de um animal de galáxia;

É uma história que tem a ver com o curso da Via Láctea. É uma história enterrada, é sobre um ser do nada.(...)”

Sua letra me recordava uma de minhas leituras preferidas quando era pequeno:”El Principito”.

O culto à morte era acompanhado de um total cinismo para encarar a mesma:

“E o companheiro que medidas tomou para encarar a morte? – perguntava alguém ingenuamente – “A do ataúde, claro”, respondia o aludido, sarcasticamente.

Em outras ocasiões quando alguém comentava que um amigo nosso havia se convertido em um quadro nacional, não faltava quem dissesse com ironia: “Está certo, mas se descuidar-se, em pouco tempo se converterá em um quadro na parede”.

Não faltava razão porque as sedes da UP estavam cheias de quadros de dirigentes da UP que foram assassinados. Com o tempo estes quadros foram se multiplicando com a imagem horrorosa de centenas de amigos e amigas que nos deixaram e dos quais só ficou a lembrança na mente daqueles que compartimos seus ideais, suas lutas e batalhas, e que, apesar disso, sobrevivemos a essa barbárie.

Sim, eu fui um dos sobreviventes. Não explico como nem por que. “As almas penadas”, diria minha avó Sofia, as mesmas que a guardaram dos “godos” quando com oito meses de gravidez, carregou o corpo ensangüentado do esposo; as mesmas que em meio da “chulavitada” protegeram a vida de vocês, uns autênticos liberais; as mesmas que a escoltaram quando tiveram que abandonar a fazenda cafeteira e radicar-se em Bogotá para escapar do terror dos “pássaros”

Claro, também paguei meu preço, no entanto, nada comparável com a entrega da vida. Em várias ocasiões fui golpeado e torturado pela polícia e a última dessas vezes – faz mais de 20 anos – permaneci preso nesta mesma prisão durante dois longos meses, mas a verdade se impôs e o juiz declarou minha inocência.

Recordo que nessa oportunidade vários universitários forma golpeados e detidos comigo, e mamãe com lágrimas os olhos, ainda que com um pouco de alívio, me disse: “filho, graças a Deus que não fizeram a você como a esse pobre rapaz que arrastaram pelo solo, arrancando-lhe a pele, o subiram a uma camionete e lhe quebraram a cabeça.com um cano.

Como haverá sofrido sua angustiada mãe! Eu apenas concordei balançando a cabeça machucada, mas jamais me atrevi a contar que “esse pobre rapaz era eu”. Porém toda experiência por mais difícil que seja sempre trás lições positivas e, para vocês, este doloroso episódio lhes deixou claro que já nesses anos, liberais e conservadores atuavam com a mesma intensidade contra a oposição. Ou acaso este genocídio e perseguição contra a União Patriótica não estava ocorrendo sob o regime “liberal” de Virgílio Barco que vocês haviam respaldado nas urnas? Com certa resignação tiveram que admitir que a polícia já não era, como no passado, um assunto entre “godos” e “cachiporros” – aliados pelo pacto da Frente Nacional – senão como certa vez assinalou Gaitán: “um enfrentamento do país Nacional contra as oligarquias plutocráticas incrustadas nos partidos tradicionais, porque a fome não liberal nem conservadora”.

Desde então, optaram por apoiar candidatos de esquerda. E dramaticamente a história parecia repetir-se. Assim como os gaitanistas que sobreviveram à violência dos anos 40, organizaram os primeiros núcleos de resistência armada para defender sua vida e a de seus familiares, muitos sobreviventes da União Patriótica não tiveram outra alternativa além de remontar-la.

Ricardo Palmera, hoje conhecido como Simón Trinidad , ilustra claramente esta parábola de vida, como registra o jornalista Jorge Enrique Botero em seu livro “Simón Trinidad, o Homem de Ferro”.

Apesar de nesse momento entender que a guerrilha constituía o único caminho que o sistema deixava para aqueles que mantinham seus ideais de luta por uma sociedade mais justa, nunca me atrevi a dar semelhante passo, ainda que sempre tenha visto com respeito e admiração aqueles que o fizeram.

Tres motivos tive para não fazê-lo: Em primeiro lugar, papai que toda vida portou uma pistola com salvo conduto, até que teve que empenhá-la para resolver uma crise econômica familiar, nos inculcou o respeito pelas armas – “oxalá nunca tenham que utilizar-las”, nos dizia frequentemente.

Coerente com este pensamento, uma noite em que surpreendeu dois homens roubando na sala de casa, papai fez um disparo para o alto, para dar-lhes tempo de escapar. Nós perguntamos por que não os havia ferido, se a lei o amparava. “Porque não era necessário, disseste, é possível que tenham sido vizinhos e seguramente tem filhos sob seus cuidados. Que não merecem ficar órfãos”.

Captei a mensagem imediatamente, a pesar de durante anos ter lamentado que tenham levado um volume de meu Manual de História da Colômbia.

Em segundo lugar, não tomei o caminho da luta armada, porque minha constituição física sempre foi frágil. Meus amigos diziam brincando que só me dava duas gripes por ano e que cada uma durava seis meses.

Por isso entendo sua preocupação quando nas imagens de minha prisão me apresentaram algemado e com um tapa-boca. Vocês como muitos devem ter pensado que como vinha do México portava o vírus AH1N1.

Se tivesse, teria morrido irremediavelmente porque as autoridades colombianas em seu afã de “legalizar minha captura” se negaram a fazer-me exame de laboratório (neste país é necessário ser Presidente ou Ministro para receber atenção médica imediata).

Em terceiro lugar, nunca pensei ser guerrilheiro porque desde menino minha paixão eram livros, não as armas. O dinheiro que recebia para o lanche e de meus tios eu juntava para investir tudo em livros.

Papai dizia que quando eu crescesse iria ser catedrático. Eu não sabia o que era isso, mas me entusiasmava a idéia de ganhar a vida sendo uma enciclopédia ambulante, como os “catedráticos” Abelardo Forero Benavides e Ramón de Zubiría; mãe em troca me olhava com admiração e estranheza: lhe preocupava que não saísse à rua para brincar com os outros meninos e que preferisse ficar no terraço lendo o dia todo.

Com o tempo as viagens, a experiência em outras cidades dentro e fora do país, e a condição de ser padre enriqueceram minhas leituras. Mas em meio a todas estas experiências, a caneta e o pensamento foram as únicas armas que aprendi a manejar.

Convertido em cientista social, e comprometido com a verdade, não deixei de utilizar estas armas para pensar a realidade deste país; para denunciar os crimes de Estado; para desnudar as alianças das elites governantes com o narcotráfico; para revelar a natureza “terrorista” do Estado que exterminou mais de cinco mil militantes da União Patriótica e a milhares de líderes da oposição.

Em uma palavra, para denunciar os horrores deste conflito armado e social que o presidente Uribe quer negar, através de sua mal chamada “Seguridade Democrática” qualificando de terrorista a resistência política e social do povo colombiano e a atividade de acadêmicos que queremos investigar esta realidade.

De José Martí aprendi que “trincheiras de idéias valem mais que trincheiras de pedras”, por isso meus únicos campos de batalha tem sido as aulas universitárias nas quais transcorreram dois terços de minha vida. Na Universidade Distrital e Nacional e não na União Soviética cursei simultaneamente meus estudos de graduação . Vocês sabem melhor que ninguém, pelo grande esforço econômico que realizaram para que eu pudesse manter esse privilégio.

Reunir o dinheiro para as passagens de ônibus; comprar as fotocópias (porque os livros era impossível) constituía uma luta do dia a dia, que pudemos driblar com êxito graças, também, à ajuda de minhas irmãs mais velhas, que diferentemente de mim, tiveram que trabalhar para pagar seus estudos profissionais.

Jamais estive na União Soviética nem como estudante nem como visitante e desafortunadamente já não poderei fazê-lo, porque a URSS desapareceu faz quase duas décadas. No entanto sempre mantive uma admiração profunda pela Revolução de Outubro, antes que as práticas estalinistas e burocráticas a pervertessem.

Mas minhas preocupações pela América latina me levaram ao México, onde pude cursar um mestrado graças a uma bolsa que me outorgou a Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (Flacso) depois de uma rigorosa seleção entre profissionais egressos das mais reconhecidas universidades do país.

Ao concluir estes estudos optei por seguir com um doutorado na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM); nunca paguei um peso pelas taxas de inscrição, porque no México a educação pública é gratuita. Esse foi uma das grandes vitórias da revolução mexicana que no próximo ano comemora seu primeiro centenário.

Apesar destes benefícios foram tempos difíceis. Meu filho, Ernesto, era de colo, mas com sua mãe sobrevivíamos a peso de tortillas (comida popular centro-americana feita de miho verde) e dos escassos subsídios que o Estado mexicano ainda mantinha. Por isso, ainda que hoje o governo de Felipe Calderón (cuja eleição foi marcada pela fraude eleitoral) tenha traído, com minha deportação, uma longa tradição diplomática de independência e solidariedade com a luta dos povos latino americanos, mantenho o sentimento de gratidão para com meus irmãos mexicanos. Deles sempre recebi solidariedade e hospitalidade.

Na UNAM tive oportunidade não só de obter um doutorado – cuja tese recebeu menção honrosa – mas também de conhecer centenas de pesquisadores comprometidos com um projeto de sociedade mais justa e equitativa, e que enriqueceram minha perspectiva latino americana.

Alguns como René Zavaleta Mercado, Ruy Mauro Marini, Sergio Bagu e Augustin Cueva, já não estão conosco; outros seguem ativos e tem sido para mim um exemplo de militância com a verdade e o pensamento crítico.

Assim, quando o Centro de Estudos Latino Americanos (CELA), espaço de excelência de produção acadêmica crítica, me brindou a possibilidade de realizar um período posdoutoral, não duvidei em aceitar o convite e através da Universidade formei uma comissão de estudos.

Claro, também houve outros fatores que precipitaram minha decisão: há vários meses estava sendo vítima de perseguição e assédio por parte dos órgãos de segurança do Estado. De modo algum queria que vocês se interassem desta situação. Não queria gerar mais preocupações.

Tão pouco disse a meus alunos e só conversei sobre minha situação com um par de colegas que me brindaram com seu total apoio. Por isso minha viagem foi repentina e discreta ao mesmo tempo.

No momento em que fui arbitrariamente privado da liberdade por autoridades migratórias mexicanas, me encontrava concluindo o pós-doutorado. Não estava recrutando militantes nem organizando células terroristas.

É possível que os governos de Felipe Calderón e Álvaro Uribe considerem que formar consciência crítica e orientar pesquisas sobre a história política de México e Colômbia seja uma “atividade terrorista”. Desde o 11 de setembro os setores de ultra direita tem recorrido ao pretexto do “terrorismo” para perseguir não só aos movimentos de oposição mas também os intelectuais críticos.

Minha vida tem estado estreitamente ligada à atividade acadêmica na universidade pública, há décadas, quando me vinculei a ela, primeiro como estudante e posteriormente como docente: a Universidade Distrital, a Universidade de Cundinamarca, a Universidade de Cauca, a Universidade de Antioquia e a Universidade Nacional podem atestar isto. Desta forma posso dizer que a perseguição da qual sou vítima hoje não é só uma perseguição contra mim, mas contra a universidade pública em seu conjunto.

Queridos pais, trairia vosso legado e a de meus Mestres – entre eles o de Jaime Pardo Leal, Orlando Fals Borda e Eduardo Umaña Luna – se ante as ameaças de um procurador, que promete confinar-me mais de 40 anos neste cárcere, pelos delitos de “conspiração para delinquir com fins terroristas”, “rebelião” e “financiamento de grupos terroristas”, me retratasse das idéias de justiça que tenho defendido em minhas palestras, nos diferentes foros públicos e em meus escritos.

Trairia também a meus alunos, a meus amigos e ao povo colombiano, se me rendo às pressões de um governo narcoparamilitar. Sei que milhares de mãos se uniram para defender a liberdade de pensamento, sei que milhares de vocês se juntaram para lançar um grito de justiça; sei que mais cedo que tarde, as mudanças que reclama este país abrirão caminho e os opressores de hoje estarão amanhã ajoelhados implorando clemência ante o tribunal da História.

Queridos pais, só queria que a vida me presenteasse com mais uns anos de existência para ver florescer em nosso território uma nova Colômbia, onde as crianças não tenham que chorar a ausência de seus pais mortos na guerra; onde o campesino tenha garantido o seu pedaço de terra e ajuda técnica para cultivá-la; onde a educação, a saúde e a habitação sejam um direito prioritário e não privilégio de uns poucos; onde os que exercemos o pensamento crítico não sejamos tratados como terroristas.

Meus queridos velhos, podem sentir-se felizes de que seu filho esteja hoje sentado no banco dos réus não como assassino ou corrupto, mas por defender os ideais de justiça e liberdade que vocês me ensinaram desde criança e que levo no coração como o mais precioso tesouro que a vida me deu.

Por isso, se este tribunal que hoje me julga chegar a condenar-me, assumirei com firmeza e dignidade a pena, porque me estimula a convicção de milhares de homens e mulheres que sonhamos com “outra Colômbia possível”.

Abraços fraternais,

Seu filho

Miguel Ángel Beltrán Villegas


Cárcere Nacional "Modelo"

Pavilhão de “Alta Segurança”

http://www.kaosenlared.net/noticia/107534/carta-mis-padres-miguel-antonio-beltran-alba-ruth-villegas

http://www.prensarural.org/spip/spip.php?article3256


[1] Sijin: Polícia Judicial e Investigativa

[2] chusmeros: termo pejorativo para chamar os guerrilheiros dando a entender que eram assaltantes armados

[3] cachiporro: é a forma pejorativa como eram chamados os militantes do Partido Liberal Colombiano

[4] Godo: termo pejorativo pra chamar um cidadão do Partido Conservador, dando a indicar que era retrógrado, atrasado... (dando com isso a idéia que os liberais eram progessitas)

[5] pássaros: assim foram chamadas as primeiras bandas de paramilitares organizadas pela oligarquia na década de 1950, querendo indicar que chegavam às casas, assassinavam as pessoas e rapidinho fugiam.

[6] chulavita: Resulta que a Polícia Política montada pelo Partido Conservador para assassinar liberais, comunista e conservadores que desertavam do Partido, teve sua origem num município chamado Chulavita. Então a esse corpo policial o povo deu o nome de 'chulavita'.

[7] Gaitán: Jorge Eliécer Gaitán, dirigente liberal y seguro candidato a ganar las elecciones en 1.948, assassinado pela CIA junto com a oligarquia mais reacionária da Colômbia.

[8] sangrenegra: pseudônimo de um mitológico guerrilheiro liberal.

[9] laureanistas: seguidores de um político nefasto para a Pátria, chamado Laureano Gómez, pró-imperialista até a morte.

[10] Las guerrillas del Llano: As Guerrilhas das planícies orientais da Colômbia.