"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


terça-feira, 17 de abril de 2012

“As FARC não serão e não podem ser derrotadas”

Em entrevista exclusiva ao jornal A Verdade, James J. Brittain, sociólogo, ph.D. em sociologia com ênfase em economia política e professor assistente do Departamento de Sociologia da Acadia University, no Canadá, fala sobre as FARC-EP (sigla das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo), contando um pouco de sua história e esclarecendo vários mitos difundidos sobre a guerrilha. Brittain passou mais de cinco anos vivendo em meio às FARC-EP, participando de várias de suas atividades, conhecendo suas estruturas e entrevistando combatentes e camponeses residentes nas regiões sob domínio da insurgência. Parte dessa pesquisa, juntamente com uma extensa bibliografia, resultou em seu livro Revolutionary social change in Colombia – the origins and direction of the FARC-EP, lançado em 2010, e que já é considerado referência básica no assunto.

A Verdade – Há quanto tempo você vem pesquisando sobre as FARC-EP? Conte-nos um pouco da sua experiência na Colômbia junto à guerrilha.

James Brittain - Desde o fim da década de 1990 eu tenho me interessado e tentado compreender as complexidades da guerra civil colombiana, particularmente do ponto de vista dos mais marginalizados. Isso me levou à realidade daqueles em luta direta com a classe dominante na Colômbia – isto é, me levou a um encontro pessoal com as FARC-EP. Quando comparada com muitas outras partes da América Latina – onde algum tipo de mudança social é vista ou percebida como aparentemente funcional dentro dos limites do modelo eleitoral liberal democrático – a Colômbia demonstra uma realidade bem diferente, e com isso, a necessidade do conflito direto de classe. Isso me levou a começar a me comunicar com a guerrilha e mais tarde, a conduzir pesquisa de primeira mão em áreas sob seu controle/operação durante grande parte da última década.

Que circunstâncias objetivas levaram à formação das FARC-EP?

A resposta é bem complexa mas vou tentar responder. De forma resumida, muitos daqueles oprimidos por uma grave exclusão social, pela repressão estatal, por um governo apático e pelo agravamento das condições econômicas perceberam que romper relações de classe limitadas e desiguais por meios convencionais era, literalmente, impossível. Em resposta à expansão de interesses capitalistas e a um estado engajado em atividades coercitivas extremas contra uma população rural, e sendo este estado, ao mesmo tempo, inativo na promoção de serviços de saúde, seguro social agrário e uma enorme lista de serviços sociais como educação, as FARC-EP se estabeleceram durante os anos 1960 como um coletivo de autodefesa camponês que criticava a interferência imperialista na Colômbia, enquanto colocava em prática estratégias de reforma agrária e modelos alternativos de desenvolvimento via aliança operário-camponesa. Isso, no entanto, ocorreu apenas depois de décadas de tentativas de alcançar alguma forma de mudança social através de desenvolvimento alternativo e meios pacíficos. Sem nenhuma outra possibilidade, as FARC-EP foram constituídas, então, em maio de 1964.

As FARC-EP são uma organização marxista? A guerrilha perdeu hoje sua motivação ou orientação ideológica inicial, como é divulgado pela imprensa burguesa?

Nos últimos 47 anos as FARC-EP se desenvolveram num movimento sociopolítico complexo e organizado, com membros de todos os setores da sociedade colombiana; populações indígenas, afrocolombianos, trabalhadores rurais sem terra, intelectuais, sindicalistas, professores, setores do proletariado urbano e por aí vai – todos esses lutando por desenvolvimento social através da realização de uma sociedade socialista – e é, com certeza, um movimento baseado na tradição marxista. Como foi notado por Bernard-Henri Lévy após entrevistar membros da guerrilha, o marxismo-leninismo das FARC-EP “não me lembra nada que já tenha ouvido ou visto em qualquer outro lugar… isso é um impecável comunismo; juntamente com Cuba, este é o último comunismo na América Latina e, certamente, o mais forte”. Uma das razões pelas quais muitos ingenuamente pensam que a guerrilha “perdeu sua direção ideológica” pode ser baseada na estratégia de longo prazo das FARC-EP de compreensão e aplicação do marxismo no contexto de uma realidade colombiana. Desde sua formação as FARC-EP permanecem comprometidas à práxis da transformação revolucionária das relações sociais na Colômbia. Para que isso ocorra é necessário que a revolução seja das, com e para as populações marginalizadas dentro do país, o que levou as FARC-EP a confiar na consciência interna e no suporte das classes trabalhadoras rural e urbana. Já foi bem documentado que a guerrilha foi pouquíssimas vezes apoiada – se é que foi mesmo apoiada – por auxílio estrangeiro, e tem, ao contrário, sustentado sua luta pela base. Mesmo em grande solidariedade, a guerrilha se dissociou, tanto material quanto imaterialmente, da União Soviética antes do seu colapso, o que é uma forte indicação de por que a guerrilha não sofreu perdas materiais quando o regime soviético implodiu. De fato, esta estratégia orgânica fez que as FARC-EP se fortalecessem sociopoliticamente e aumentassem por todo o país durante um período em que outras guerrilhas latino-americanas, que eram em parte dependentes de apoio soviético ou cubano, se enfraquecessem ou que passassem de seu radicalismo para uma retórica mais liberal de aspirações políticas.

As FARC-EP têm alguma ligação com o plantio de coca ou com o tráfico de drogas?

Uma tremenda desinformação tem sido apresentada neste assunto. Contrariamente à crença popular, as FARC-EP foram, por muitos anos, severamente contra o cultivo de plantações relacionados à indústria da droga. No entanto, à medida que a economia rural e as colheitas diminuíram ao passar dos anos, como resultado de políticas neoliberais – e não havia mais retorno em plantações tradicionais – muitos camponeses não tinham muitas opções a não ser subsidiar suas rendas com o cultivo de marijuana e, posteriormente, coca. Pelo fato de as FARC-EP serem um movimento do, com e para o povo, seria hipócrita por parte da guerrilha exigir dos camponeses, pela força, que abandonassem uma plantação que lhes fornecia alguma forma de renda no ambiente político-econômico em que se encontravam. No entanto, pensar que isso faz das FARC-EP traficantes de drogas ou “narco-guerrilhas” é, no mínimo, absurdo e revelador de quão pouco aqueles que fazem tais afirmações conhecem ou compreendem da economia política rural da Colômbia.

O ex-conselheiro militar da presidência de Álvaro Uribe Vélez, Alfredo Rangel Suárez, afirmou que “é um erro tratar as FARC como um cartel de drogas porque isso ignora o fato de que o objetivo principal das FARC não é fazer dinheiro com o tráfico de drogas, mas tomar o poder.” Pintar as FARC-EP como uma guerrilha associada ao tráfico tem sido uma tentativa estratégica para desmoralizar a práxis das FARC-EP, deslegitimizar as intenções sociopolíticas e econômicas da organização e, finalmente, evitar uma solução negociada para a guerra civil.

Já foi amplamente comprovado que não existe nenhuma prova para sustentar a afirmação de que as FARC-EP estejam diretamente envolvidas com a indústria da coca. Até mesmo representantes dos governos da Colômbia e dos EUA já insistiram nessa posição. Por anos, oficiais do exército estadunidense, da Drug Enforcement Agency e de sua embaixada na Colômbia já citaram que o estado nunca obteve nenhuma evidência de que as FARC-EP estejam envolvidas no transporte, distribuição ou comércio de drogas ilícitas na América do Norte ou na Europa. Além do mais, o ex-presidente colombiano [1998-2002] e ex-embaixador nos EUA [2005-2006] Andrés Pastrana Arango também manteve a mesma posição de que as FARC-EP não estavam de maneira alguma ligadas ao tráfico de drogas. Pastrana revelou que o estado colombiano não conseguiu encontrar “nenhuma evidência de que eles estão diretamente envolvidos com o tráfico de drogas”.

E indo um pouco além da questão do envolvimento com as drogas, há também a (silenciada) questão do trabalho feito pela guerrilha em limitar a indústria da coca para que não se espalhe completamente pelos setores rurais do país. Após a recusa das FARC-EP em dar apoio ao cultivo de coca durante os anos 1970 e início dos anos 1980, a insurgência mudou sua posição no final dos anos 1980 e durante os anos 1990. Permanecendo em oposição à coca, as FARC-EP começaram a trabalhar com a ONU durante os anos 1980 por inúmeros projetos relacionados à substituição de plantio em regiões sob controle da insurgência. Trabalhando independentemente do governo, a ONU adotou as FARC-EP como parceira em programas relacionados ao desenvolvimento social à substituição de plantios. Muitos oficiais então louvavam as FARC-EP como qualquer coisa exceto como narco-guerrilha (por exemplo, Klaus Nyholm, ex-diretor do Programa de Controle de Drogas da ONU na Colômbia, e James LeMoyne, ex-conselheiro especial da ONU na Colômbia). As FARC-EP nunca promoveram a produção de coca. A insurgência tem por muito tempo encorajado e auxiliado projetos de substituição de plantios em diversos municípios. Mais do que resistir à economia das drogas, as FARC-EP tem deliberadamente buscado programas de substituição de desenvolvimento alternativo.

Durante os anos 1990 e 2000 as FARC-EP apoiaram com sucesso uma mudança de plantações de coca para plantações legais na gestão de Micoahumado no município de Morales no departamento (estado) de Bolívar. Projetos similares foram implementados em regiões do departamento (estado) de Casanare no centro-nordeste.

O trabalho da insurgência relacionado ao desenvolvimento alternativo em relação ao cultivo de coca vem desde a época da administração de Belisario Betancur Cuartas [1982-1986]. Este é um ponto importante pois demonstra que as FARC-EP foram, de fato, a primeira organização na Colômbia a incentivar a substituição de plantio – muito tempo antes do problema da coca ficar fora de controle. Infelizmente, todas as chances de tais medidas (e trabalho em conjunto com a ONU) tiveram um abrupto rompimento em 2002, quando os estados da Colômbia e dos EUA apoiaram uma invasão militar na zona desmilitarizada de San Vicente del Caguán, interrompendo assim qualquer possibilidade da insurgência de devotar tempo, energia e segurança a tais projetos. A despeito de tudo isso, as FARC-EP permanecem engajadas em projetos autônomos para encorajar os camponeses a cultivar plantações de subsistência.

As FARC-EP estão diminuindo e perdendo apoio popular? Elas impõem recrutamento forçado?

Como tem sido admitido recentemente pelo governo Santos, as FARC-EP não só têm apresentado uma inacreditável habilidade para manter seu poder e presença por todo o país, como isso é revelador do apoio que tem a guerrilha. No entanto, é essencial que aqueles no poder apresentem uma hegemonia que pinta as FARC-EP como fracas ou sem apoio civil. Mas quando alguém examina por toda a história as lutas contra o poder dominante, fica claro que qualquer movimento de guerrilha não pode ser conduzido ou manter operações contra forças do estado sem um significativo apoio social e político. Enquanto algumas frentes das FARC-EP têm sofrido alguns golpes nos últimos anos, a insurgência tem sido capaz de não apenas estabilizar campanhas contra alvos escolhidos, mas também tem aumentado suas atividades ano após ano. Por muitos anos, as FARC-EP vêm modestamente ampliando suas campanhas armadas contra as forças do estado (949 em 2004, 1.008 em 2005, 1.026 em 2006, 1.057 em 2007). Mas os últimos anos, no entanto, presenciaram um salto significativo no número de ataques militares da insurgência, em uma média de cinco ao dia (1.614). Ainda 2010 testemunharam o maior número de ataques da guerrilha contra as forças do estado em 15 anos, totalizando mais de 1.947, e mais mortes das forças do estado do que no auge do conflito, no início dos anos 2000. Permanece o fato de que as FARC-EP são o mais longo movimento de guerrilha estabelecido nas Américas e desde o início se desenvolveu num movimento complexo e organizado com 65% de seus membros vindos do campo ou de municípios rurais – dos quais quase 13% são de origem indígena – e os outros 35% de setores urbanos. Isso está muito longe de um movimento que não tem apoio do povo. Quanto à questão do “recrutamento forçado”, a resposta é bem simples: fazer as pessoas lutarem por um movimento de autodeterminação e libertação através da força ou de ameaças resultaria apenas num desperdício de recursos e simplesmente geraria um plantel incapaz de dar resposta às forças do estado, pois estariam ali não para vencer, mas apenas para sobreviver. Ao se examinarem os dados acima, reconhece-se facilmente que, com uma média de seis ataques diários bem-sucedidos contra as forças do estado é possível ver além do que diz a propaganda da mídia dominante.

Qual foi o real objetivo dos EUA com o Plano Colômbia? Como ele afetou as FARC-EP?

A partir da metade dos anos 1990, as FARC-EP demonstraram um crescimento político militar que colocou os militares na defensiva. A partir disso, Washington procurou reforçar as medidas antiguerrilha da Colômbia esperando com isso diminuir a autoridade das FARC. Os EUA não podiam permitir, política ou economicamente, que um movimento de insurgência marxista-leninista chegasse ao poder em nível hemisférico ou geopolítico. Os EUA estavam bem atentos ao crescimento das FARC-EP e sua crescente ameaça aos interesses político-econômicos tanto domésticos quanto internacionais desde antes de 1997-1998. Evidências demonstram que Washington se envolveu com treinamentos às forças colombianas de contrainsurgência e posicionou tropas estadunidenses em regiões específicas do país desde o início dos anos 1990. Em 1990, por exemplo, o posto da CIA na Colômbia era o maior de seu tipo no mundo, e no fim dos anos 1990, os EUA e o estado colombiano já tinham estabelecido a maior campanha de contrainsurgência na história da América Latina, o Plano Colômbia. Para abrandar a oposição em relação ao crescente financiamento da contrainsurgência na Colômbia, o governo Clinton [1993-2001] camuflou o tópico da intervenção militar direta dos EUA sob a retórica de combate ao narcotráfico do Plano Colômbia. Inúmeros analistas já afirmaram que as FARC-EP não serão e não podem ser derrotadas. Alguns deles, como Marc Chernick, notaram que “apesar do constante aumento da capacidade militar do estado, ele ainda não é capaz de derrotar as guerrilhas hoje ou num futuro próximo… sua estrutura organizacional [da guerrilha], sua base de recrutamento e sua habilidade de travar guerra de guerrilhas por todo o território nacional permanecem inalteradas.” Especialistas, desde o ex-embaixador dos EUA em El Salvador, Robert White, até o historiador colombiano Herbert Braun, expressaram que Bogotá ou Washington não podem, de nenhuma maneira, derrotar as FARC-EP. Perto de seu final, o Plano Colômbia, com mais de 7,7 bilhões de dólares colocados na estratégia de contrainsurgência, não apenas falhou em derrotar as FARC-EP como testemunhou algumas das campanhas mais ferozes da guerrilha na década.

Glauber Ataíde e Leonardo Péricles, Belo Horizonte

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CARTA ABERTA AO ENCONTRO DE CARTAGENA

Senhoras e Senhores Presidentes e Chefes de Estado da América:


Como devem relembrar sem duvida muitos dos presentes, na primeira cimeira da CELAC ocorrida em Caracas, um conjunto respeitável de vozes expressou ao primeiro mandatário colombiano sua vontade de colaborar na busca de alguma saída política ao confronto que o nosso país sofre. A resposta direta do Presidente Santos foi que era melhor não fazer nada, a resolução do conflito devia ficar exclusivamente em mãos colombianas.

Apesar disso, o governo da Colômbia não esconde ter recebido dos EUA mais de dez bilhões de dólares para a guerra nos últimos doze anos, clama por sua intervenção direta, coloca a sua disposição a totalidade do território para suas operações aéreas, aumenta o número de assessores, pessoal militar e paramilitar norteamericanos, recebe apoio tecnológico de última geração, sujeita seus planos contrainsurgentes ao estipulado no Pentágono. E pressiona os seus vizinhos a combater conjuntamente a guerrilha colombiana, que é descrita com os mais abomináveis adjetivos.

Mas, para a guerra está sim disposto a receber toda a participação possível. Como reitera com freqüência o Presidente Santos, seu propósito é o de conseguir a paz, do jeito bom o ruim. Entendendo, é claro, que pelo jeito bom equivalem unicamente a rendição e a entrega. Depois da última década de gigantescas operações militares de extermínio, brilha a verdade sobre a impossibilidade de uma saída militar do conflito. De forma semelhante, os EUA concluíram que o melhor era sair do Afeganistão e Iraque. Após meia centúria de cruento enfrentamento fratricida, o regime colombiano ainda insiste na incerta vitória militar.

As FARC-EP estão muito longe de ser o monstro que a oligarquia colombiana descreve. Somos milhares de mulheres e homens que sonhamos em tornar realidade a ilusão que ficou truncada com a morte do nosso Libertador Simon Bolívar. Nós unimos com o povo do nosso país as mais legitimas aspirações políticas e sociais. Jamais poderão separar-nós dele as imensas patrulhas do exército regular, as esquadrilhas de aviões de bombardeio e helicópteros armados, as forças da Policia e da Segurança, os grupos paramilitares e os sicários de toda ordem que perfuram as esperanças de uma melhor convivência na Colômbia.

Nosso levante armado responde a uma situação nacional de violência estatal. São maiores os assassinatos políticos, de dirigentes sindicais, indígenas, afrodescendentes e camponeses, que os ocorridos em qualquer uma das nefastas ditaduras latinoamericanas do passado. Apesar das eleições periódicas e a fachada institucional, os crimes do Estado e os índices de desigualdade social configuram uma situação explosiva no nosso país. Cada um dos poderosos grupos econômicos controla um amplo monopólio mediático e, as quase 200.000 vítimas do paramilitarismo nos últimos vinte anos, certificadas pela própria Procuradoria Geral na Nação, são apenas uma anedota velha para essa imprensa que não para de nos informar. Um décimo da população se encontra em situação de deslocamento forçado. As prisões estão cheias de lutadores sociais.

Somente um irrestrito apoio aos interesses norteamericanos no continente e no mundo explica a benevolência de Washington com os dirigentes colombianos. Em nosso país aplicam-se as imposições dos órgãos multilaterais de credito, se privatiza o que for possível, se enche de privilégios os investidores transnacionais, se pioram as condições de trabalho e se cortam garantias sociais, se destrói a economia camponesa, se entregam ao saque imensos territórios e suas riquezas e se persegue com fúria a produção artesanal e comunitária. O crescimento do PIB favorece a um reduzido grupo de investidores que não são da Colômbia.

E se costuram as condições para uma futura agressão contra os povos que não se mostram dispostos a admitir um modelo similar de coisas. A paz na Colômbia, sempre que implique num conteúdo democrático de participação popular nas decisões de Estado, resulta um orçamento básico para a tranquila evolução das demais nações do continente. Sempre nos opomos a uma paz que seja equivalente a uma mera reintegração à institucionalidade pervertida que gera este levantamento. Insistimos na necessidade de um diálogo que se encarregue, de frente para o povo colombiano e com sua ativa ingerência, de recriar as condições para fazer possível a convivência democrática. Meio século de sangue colombiano o exige.

Em plena crise mundial do capital, uma exitosa Cimeira das Américas deveria se ocupar de muito mais do que o crescimento econômico relacionado às regras do mercando. Abordar o respeito à soberania e à independência de suas nações, um modelo de desenvolvimento alternativo, a proscrição da guerra como forma de enfrentar conflitos. O fim do irracional embargo, assim como a valente exigência do Presidente Correa de integrar livre e plenamente a Cuba, os legítimos reclamos argentinos sobre as Ilhas Malvinas e a solução política do longo conflito colombiano, são temas prioritários numa Agenda continental.

Quiçá tenha chegado o momento de tratar a inviabilidade da guerra contra as drogas. Como colocamos na carta aberta ao Congresso e ao povo dos EUA em abril do ano 2000: se o que se busca é uma solução definitiva ao flagelo das drogas, o mundo deve se preparar para a maior discussão sobre a convivência da legalização de seu consumo, tal como aconteceu no passado com outros flagelos como o álcool e o tabaco? Trata-se, de qualquer forma, de um grave problema social que não pode ser tratado por via militar, que requer acordos com a participação da comunidade nacional e internacional e o compromisso das grandes potencias como principais fontes da demanda mundial dos entorpecentes.

Fraternalmente:

SECRETARIADO DO ESTADO MAIOR CENTRAL
FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONÁRIAS DA COLÔMBIA, EXERCITO DO POVO - FARC-EP

Montanhas da Colômbia, abril de 2012.

Todas as vozes, todos os povos, todos os punhos... contra Frente fascista de Uribe

Uma nova manobra internacional do fascismo e do seu famoso promotor, Uribe Vélez, dirigida a partir de Washington e batizada com o nome pomposo de "Fundação Internacionalismo Democrático" (FEUDAIV), tem sido objeto de vigorosas rejeições.

Este tirano, forjado nas bases do para-militarismo colombiano e idealizador de inúmeros massacres, agora pretende reunir os campeões da desfaçatez e do servilismo, para conspirar e atacar a Revolução Bolivariana da Venezuela e seu comandante Hugo Chávez, bem como os processos de transformação em curso no Equador e na Bolívia.

O Movimento Continental Bolivariano, fiel aos seus princípios internacionalistas e anti-imperialistas, faz um chamado a todas as organizações revolucionárias e democráticas do continente e do mundo para denunciar e enfrentar com vigor essa manobra do imperialismo, a defender com ações contundentes a independência de nossos povos e a autodeterminação de nossas nações; colocando em evidência os verdadeiros propósitos desta organização internacional do neo-fascismo, identificando e revelando o caráter criminoso dos seus gestores locais e da sua principal liderança internacional, símbolo do narcoparamilitarismo e do terrorismo de Estado: Álvaro Uribe Vélez.

Fazemos um chamado a realizar como esforço necessário e urgente a mais ampla e diversa convergência das forças antiimperialistas de nossa América e do mundo para derrotar tão perversa manobra.

Neste cenário de ofensiva direta e pública contra os governos e os processos da ALBA latino-caribenha, temos o dever de expressar com atos nossa solidariedade revolucionária.

O apoio ao comandante Hugo Chávez, ao povo e ao governo da Venezuela, é uma tarefa histórica incontornável já nas próximas eleições de 7 de outubro, a nova batalha de Carabobo.

Contra o fascismo, o imperialismo e suas oligarquias: para desembainhar a espada de combate dos povos de nossa América!


Movimiento Continental Bolivariano (MCB)

Movimiento Caamañista MC. Narciso Isa Conde

Partido Comunista de México, Pavel Blanco

Partido Comunista Brasileiro, Iván Pinheiro

Coordinadora Simón Bolívar, Juan Contreras, Venezuela

Movimiento Voces Anti Imperialistas, Eduardo Sanchez, Venezuela

Frente Popular de Liberación Palestina, Isaac Khury, Venezuela

Colectivo Movimiento de Trabajadores Alfredo Maneiro, Raul Ramirez, Venezuela

Dax Toscano, Ecuador

Ingrid Storgen, Argentina

Miguel Ángel Sandoval, Guatemala

Nestor Kohan, Argentina

Jorge Beinstein, Argentina

Amílcar Figueroa, Venezuela



ADESÕES A ESTA MANIFESTO DEVEM SER ENVIADAS PARA:

secretariageral.pcb1@gmail.com

Tradução: PCB (Partido Comunista Brasileiro)

domingo, 15 de abril de 2012

Os movimentos sociais e os processos revolucionários na América Latina: Uma crítica aos pós-modernistas

Por Edmilson Costa [*]

Os anos 90 do século passado e os primeiros dez anos deste século foram marcados por intenso debate entre as forças de esquerda sobre o papel dos movimentos sociais, das minorias, das lutas de gênero e das vanguardas políticas nos processos de transformação econômica, social e política da sociedade. Colocou-se na ordem do dia a discussão sobre novas palavras de ordem, novos agentes políticos e sociais, novas formas de luta, novas concepções sobre a ação prática política.

Esses temas e concepções ocuparam o vazio político nesse período em funções de uma série de fenômenos que ocorreram na década de 80 e 90, como a queda do Muro de Berlim, o colapso da União Soviética e dos países do Leste Europeu, o refluxo do movimento sindical, a redução das lutas operárias nos principais centros capitalistas, a perda de protagonismo dos partidos revolucionários, especialmente dos comunistas, além da ofensiva da ideologia neoliberal em todas as partes do mundo, sob o comando das forças mais reacionárias do capital.

A conjuntura de derrota das forças progressistas favoreceu todo tipo modismo teórico e fetiche ideológico. Sob diversos pretextos, certas forças políticas, inclusive alguns companheiros de esquerda, começaram a questionar a centralidade do trabalho na vida social, o papel dos partidos políticos como vanguarda dos processos de transformações sociais e políticas, a atualidade da luta de classes como instrumento de mudança da história e o próprio socialismo-comunismo como processo que leva à emancipação humana.

Esse movimento teórico e político envolveu forças difusas, mas influentes junto à juventude e vários movimentos sociais. O objetivo era desconstruir o discurso dos partidos políticos revolucionários, do movimento sindical e do próprio marxismo, como síntese teórica da revolução. Para estas forças, os discursos de temas abrangentes, como a igualdade, o socialismo, a emancipação humana, os valores históricos do proletariado, as soluções coletivas contra a opressão humana, eram coisa do passado e produto de um mundo que já existia mais.

No lugar desses velhos temas, tornava-se necessário colocar um novo discurso, como forma de forma reconhecer a fragmentação da realidade e do conhecimento, a constatação da diferença, a emergências de novos sujeitos sociais, com características, valores e reivindicações específicas, como os movimentos sociais, de gênero, raça, etnia, etc, e novas formas de formas de luta, inclusive com renúncia à tomada do poder.

O condensamento desse ecletismo conservador, dessa matriz teórica diluidora, pode ser expresso no que se convencionou chamar de pós-modernismo. Essa é a fonte teórica inspiradora de todos os modismos teóricos e fetiches que se tornou moda as duas últimas décadas. Quais são os principais supostos teóricos dos pós-modernistas, que tanta influência tiveram nesses anos de vazio político? Vamos nos ater a três vertentes fundamentais que norteiam os fundamentos dessa corrente teórica.

1) O fim da centralidade do trabalho. Um dos temas mais destacados pelos pós-modernistas é o fato de que as tecnologias da informação, a reestruturação produtiva e a inserção acelerada de ciência no processo produtivo tornaram obsoleto o conceito de classe operária e proletariado, até mesmo porque esses atores estão se tornando residuais num mundo globalizado onde impera a robótica, a internet e a informática avançada. Alguns desses teóricos chegaram a dar adeus ao proletariado, que seria um conceito típico da segunda revolução industrial. Prova disso, seria a constatação de que a classe operária está diminuindo em todo o mundo e, por isso mesmo, perdeu o protagonismo para outros movimentos emergentes no capitalismo globalizado.

Os teóricos pós-modernistas se comportam como o caçador que vê apenas as árvores mas não consegue enxergar a floresta. Olham o mundo a partir de uma perspectiva da Europa ou Estados Unidos. Por isso, não conseguem compreender que o capital possui uma extraordinária mobilidade, em função da busca permanente por valorização. Por isso, são incapazes de perceber que o proletariado está crescendo de maneira expressiva em termos mundiais, com o deslocamento de milhares de indústrias dos EUA e da Europa para a Ásia, processo que está incorporando ao mundo do trabalho centenas de milhões de trabalhadores na China, na Índia e em toda a Ásia, num movimento que está mudando a conjuntura mundial.

Não conseguem entender que o próprio capitalismo é uma contradição em processo, pois quanto mais se moderniza, quanto mais insere ciência na produção, mais amplia sua composição orgânica e, consequentemente, mais pressiona as taxas de lucro para baixo. Por isso, o capitalismo não pode existir sem seu contraponto, o proletariado. Se o capitalismo automatizasse todas suas fábricas o sistema entraria em colapso, pois os robôs são até mais disciplinados que os seres humanos, são capazes de trabalhar sem descanso, não reivindicam salário, nem fazem greve, mas também tem seu calcanhar de Aquiles: não consomem. Se não têm consumidores, os capitalistas não têm para quem vender suas mercadorias. Ou seja, antes de uma automatização total, o sistema entraria em colapso em função de suas próprias contradições.

2) O fim da centralidade da luta de classes. Outro dos argumentos dos teóricos pós-modernos é a alegação de que a luta de classes é coisa do passado. Afinal, dizem, se o proletariado está se reduzindo aceleradamente, não existe mais identidade de classe e, portanto, não teria sentido se falar em luta de classes. Nessa perspectiva, dizem, a reestruturação produtiva pode ser considerada uma espécie de dobre de finados que veio sepultar os velhos agentes do passado, como o movimento sindical. Prova disso, é que os sindicatos perderam o protagonismo e agora agonizam em todo o mundo. E o principal representante teórico do mundo do trabalho, o marxismo, também estaria ultrapassado, em função de sua visão monolítica do mundo.

Novamente, os teóricos pós-modernistas também não compreendem a história e confundem sua submissão ideológica à ordem capitalista com a realidade dos trabalhadores. A luta de classes sempre existiu desde que as classes se constituíram na humanidade e continuará sua trajetória enquanto existir a exploração de um ser humano por outro. Não porque os marxistas querem, mas porque a realidade a impõe. Nos tempos de refluxo as lutas sociais diminuem, parece que os trabalhadores estão passivos e os capitalistas imaginam que conseguiram disciplinar para sempre os trabalhadores.

Nessa conjuntura, o discurso do fim da luta de classe, da passividade dos trabalhadores, chega a influenciar muita gente, afinal, quem não tem uma perspectiva histórica do mundo se atém apenas à superfície dos fenômenos, à aparência das coisas. Mas nos momentos de crise do capitalismo, esse discurso se torna inteiramente inadequado, entra em choque com a realidade, uma vez que a crise coloca a luta de classes naordem do dia com uma atualidade extraordinária, para desespero daqueles que imaginavam o seu fim.

Se observarmos a realidade atual, onde o sistema capitalismo enfrenta sua maior crise desde a Grande Depressão, poderemos facilmente constatar e emergência da luta de classes em praticamente todas as partes do mundo. É só observar as insurreições no Oriente Médio, na África, as lutas na América Latina, as greves e mobilizações na Europa. Além disso, a crise também tornou o marxismo mais atual do que nunca. Mesmo os capitalistas estão lendo O Capital para tentar entender o que está ocorrendo no mundo.

3) As vanguardas políticas não têm mais nenhum papel a desempenhar no mundo globalizado. O terceiro dos argumentos-chave dos teóricos pós-modernistas é o fato de os partidos revolucionários, especialmente os comunistas, não terem mais nenhum papel a desempenhar no mundo atual. A ação política agora deve ser comandada pelos movimentos sociais, pelos movimentos de gênero, minorias étnicas, de raças, sexuais, etc, que são vítimas de “opressões específicas”. Isso porque os partidos seriam organizações autoproclamatórias, autoritárias, portadoras de um fetiche autorealizável, que é a revolução socialista.Essas instituições, portadoras de um discurso utópico de emancipação humana, estão também definhando em todo o mundo porque não estariam entendendo a realidade do mundo globalizado.

Mais uma vez os teóricos pós-modernistas não conseguem compreender a totalidade da vida social. Por isso, vêem o mundo sem unidade, fragmentado e disperso. Não entendem que, por trás da “opressãoespecífica” que atinge os movimentos sociais e de gênero, etnia, raça, sexual, está o grande capital apropriando a mais-valia de todos, independentemente de raça, sexo ou orientação religiosa . Não compreendem que os movimentos, por sua própria natureza, têm limites institucionais e de representatividade.

Um sindicato, por mais combativo que seja, deve representar os interesses dos trabalhadores que representa. Da mesma forma que uma entidade estudantil, uma organização de moradores, de mulheres ou de homosexuais tem como objetivo defender os interesses específicos de seus representados, atuam nos limites institucionais da ordem burguesa. Somente o partido político revolucionário, que se propõe a derrotar a ordem capitalista e que junta em suas fileiras todos esses segmentos sociais, possui condições para entender a totalidade da luta política e lançar propostas globais para a transformação da sociedade.

A prática das lutas sociais

Se observarmos as lutas sociais que foram realizadas nos últimos anos, poderemos constatar facilmente que grande parte delas foram derrotadas exatamente porque não existiam vanguardas com capacidade de conduzir e orientar essas lutas para a radicalidade da luta de classes e a emancipação do proletariado. Não se trata aqui de negar a importância das lutas específicas ou dos movimentos sociais. Pelo contrário, são fundamentais para qualquer processo de mudança, servem também como aprendizado da luta dos trabalhadores, mas deixadas por si mesmas, apenas com seu conteúdo espontaneísta, não tem condições de realizaras transformações da sociedade e terminam se esvaziando e sendo derrotadas pelo capital.

O teatro de operações é mais ou menos o seguinte: após um momento de euforia e mobilização os movimentos sociais são capazes de realizar proezas impressionantes, como desacreditar a velha ordem, desafiar as classes dominantes, mas num segundo momento a euforia se esgota em si mesma sem atingir os objetivos por falta de perspectivas. A América Latina é um importante posto de observação para constatarmos essa hipótese, mas também em várias partes do mundo os exemplos são férteis para verificarmos a necessidades de vanguardas políticas.

A Bolívia, por exemplo, foi palco de várias insurreições populares contra governos neoliberais. As massas se sublevaram, foram às ruas aos milhões, derrubaram os governos conservadores, mas o máximo que conseguiram foi eleger um presidente progressista que é fustigado a todo momento pelo capital e não consegue realizar plenamente nem o próprio programa a que se propôs no período das eleições.

No Equador, ocorreram também várias insurreições populares. Em uma delas, os movimentos conquistaram o poder e o entregaram a um militar que depois os traiu e agora é um personagem conservador na política do País. Posteriormente, no bojo de outra insurreição, conseguiram eleger um presidente progressista, mas este não consegue implementar um programa transformador porque o capital não lhe dá trégua. Recentemente quase foi deposto por um setor militar sublevado.

Na Argentina, em função da crise econômica herdada do governo neoliberal de Menem, as massas também se sublevaram aos milhões em várias regiões do País. Em um período curto o País mudou três vezes de presidente. O resultado da sublevação popular foi a eleição de Nestor Kirchner e, posteriormente, de sua companheira, Cristina Kirchner. Nesses anos de poder, os Kirchner também não realizaram nenhuma mudança de fundo. O capitalismo seguiu seu curso como se nada tivesse acontecido.

Mais recentemente, duas grandes insurreições populares derrubaram os governos conservadores da Tunísia, do Egito e do Iêmen. Milhares de pessoas se sublevaram durante vários dias, centenas de pessoas morreram, os ditadores deixaram o poder, mas os movimentos sociais, sem vanguarda política, não conseguiram seus objetivos. Setores da burguesia local encabeçaram a formação de novos governos e os trabalhadores mais uma vez deixaram escapar de suas mãos a revolução.

No Brasil, um grande movimento social, o Movimento dos Sem Terra (MST) enfrentou com bravura os governos neoliberais, tendo como norte a bandeira da reforma agrária. Organizou um movimento original e de massas, com base social em todo o País, especialmente entre a população mais pobre da cidade e do campo. O MST ocupou fazendas dos latifundiários, realizou formação de grande parte dos seus quadros e até mesmo conseguiu construir uma universidade popular para formação permanente dos seus militantes.

No entanto, o desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro e a emergência do agronegócio criaram uma nova conjuntura no campo brasileiro, onde as relações de produção passaram a se dar predominantemente entre capital e trabalho. Essa conjuntura, aliada ao programa de compensação social do governo Lula, o “Bolsas Família”, uma programa de transferência de rendimento para a população mais pobre, levou o MST a uma encruzilhada.

Ou seja, a realidade mudou radialmente no campo brasileiro, mas a razão de ser do MST era a reforma agrária. Por isso, o movimento, que se tornara um dos símbolos de luta contra o neoliberalismo e, por isso mesmo obteve simpatia mundial, agora está perdendo protagonismo. Os acampamentos do MST foram reduzidos para menos da metade e o movimento vive grandes dificuldades estratégicas. Afinal, se a maioria dos trabalhadores está nas cidades, se o capitalismo hegemonizou as relações de produção no campo e subordinou a pequena agricultura à lógica do capital, torna-se difícil a sobrevivência no longo prazo de um movimento que tem apenas a bandeira da reforma agrária como luta estratégica.

A condensação mais expressiva da teoria movimentista foi o Fórum Social Mundial (FSM). Por ocasião do primeiro FSM, em Porto Alegre, parecia que todos tinham encontrado a fórmula ideal, a varinha mágica, para as novas lutas sociais. Milhares de lutadores de todo o mundo convergiram para o Rio Grande do Sul para se fazer presentes no lançamento da nova grife da luta mundial autônoma. Foi um sucesso extraordinário e um contraponto ao Foro de Davos, onde os capitalistas tramavam novas estratégias para dominação do mundo.

O sucesso de público e de mídia do FSM parecia ter enterrado de vez a noção de vanguarda política. Agora seriam os movimentos sociais, os movimentos de gênero, etnia, das mulheres, os movimentos sociais que doravante comandariam as lutas no mundo. Adeus partidos políticos, adeus movimento sindical, adeus velhos atores sociais da segunda revolução industrial. Agora eram os movimentos difusos, sem centralidade política, inteiramente autônomos, livres de dogmas e ideologias ultrapassadas que iriam provar ao mundo a nova realidade da luta social e política.

Muita gente sinceramente acreditou que o FSM poderia ser a fórmula mágica, o contraponto contemporâneo ao capital, o substituto das velhas vanguardas políticas e seu discurso autoproclamatório. Mas a realidade aos poucos foi colocando no devido lugar o modismo movimentista. Com o tempo, o FSM foi perdendo fôlego, foi se esvaziando, até o ponto em que hoje ninguém mais acredita que possa ser alternativa a coisa nenhuma. Mas uma vez a vida provou que os movimentos por si só não têm condições de mudar a sociedade, é necessário a vanguarda política para conduzir os processos de transformação.

O significado do pós-modernismo e as lutas sociais

Em outras palavras, a ideologia pós-modernista é responsável por grande parte das derrotas dos movimentos sociais nestas duas décadas, não só porque esse modismo teórico influenciou parte da juventude e lideranças dos movimentos sociais, como também porque levou à frustração milhares de lutadores sociais. Isso porque as lutas fragmentadas geralmente se desenvolvem de maneira espontânea. No início tem uma trajetória de ascenso, empolga milhares de pessoas, mas logo depois o movimento vai enfraquecendo até ser absorvido pelo sistema.

Em outras palavras, o pós-modernismo é o fetiche ideológico típico dos tempos de neoliberalismo e representa a ideologia pequeno-burguesa da submissão sofisticada à ordem do capital. Mas essa ideologia carrega consigo uma contradição insolúvel: no momento em que o capital mais se globaliza, com a internacionalização da produção e das finanças, é justamente neste momento que os pós-modernos pregam a fragmentação da realidade, a setorização das lutas sociais, a especificidade dos combates de gênero, etnia, raça, sexo, etc. Só mesmo quem não quer mudar a ordem capitalista pensa desse jeito.

Na verdade, todos que seguem esse ritual teórico, de maneira direta ou indireta, estão abrindo mão de um projeto emancipatório e escondem sua impotência mediante um discurso cheio de abstrações sociológicas, mas muito conveniente para o capital. Por isso, combatem as lutas gerais, para fragmentá-las em lutas específicas, que não afrontam abertamente o sistema dominante.Trata-se do varejo da política fantasiado de moderno.

Esses setores cumpriram, nos últimos 20 anos e ainda cumprem até hoje, um papel muito especial na luta ideológica atual: eles são a mão esquerda do social-liberalismo capitalista. Influenciam as gerações mais jovens, desenvolvem um discurso com aparência de modernidade, influem na organização das lutas sociais. Com seu discurso eclético e fatalista, cheio de senso comum, desorientam setores importantes da sociedade no que se refere à ação política e, na prática, ajudam a organizar, mesmo que indiretamente, a submissão de vários setores sociais à ordem capitalista e aos valores do mercado.

Essas duas décadas de experiências fragmentadas nos levam à conclusão de que, mais do que nunca, as vanguardas revolucionárias têm um papel fundamental no processo de transformações sociais. São elas exatamente que podem conduzir e orientar os vários movimentos sociais com uma plataforma estratégica de emancipação da humanidade, o que significa derrotar o imperialismo e o capitalismo e transitar para a construção da sociedade socialista.

[*] Doutorado em Economia pela Unicamp, com pós-doutoramento na mesma instituição. É autor, entre outros, de A globalização e o capitalismo contemporâneo e A política salarial no Brasil. Professor universitário, é membro da Comissão Política do Comitê Central do PCB.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
10/Abr/12

A La V Cumbre de los Pueblos

“En todos esos análisis, movilizaciones y bregas participaremos vigorosamente con la Plataforma Bolivariana como faro, buscando que la unidad y organización del pueblo afiance sus luchas”
Alfonso Cano

Compatriotas de Nuestra América protagonistas de la V Cumbre de los Pueblos:

Las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia Ejército del Pueblo FARC-EP extendemos a todos nuestro cálido y fraternal saludo en su condición de forjadores con su resistencia, de la Patria Grande Latinoamericana y Caribeña.

Unimos el quehacer revolucionario de la guerrilla fariana a la justa voz que surge de la entraña de Nuestra América, en su clamor por exigir solución a los problemas de las grandes mayorías ignoradas y explotadas.

Confiamos en la sabiduría de los pueblos que reconoce en nuestra lucha el interés por transitar los caminos hacia la Nueva Colombia, la Patria Grande y el Socialismo, por encima de la manipulación mediática que divierte y pervierte la realidad.

La democracia de mercado, la injusticia institucionalizada, la explotación despiadada, la corrupción de las élites gobernantes, la impunidad de sus crímenes, la expoliación de nuestras riquezas, el colonialismo, el neoliberalismo y el imperialismo entre otros, son importantes temas a examinar en vías a su resolución por nuestros pueblos. Nosotros agregaríamos el Terrorismo de Estado y el arrodillamiento de la rancia clase gobernante ante el Imperio.

Muy a nuestro pesar, y es causa fundamental de nuestra lucha, el gobierno de la Colombia actual representa una amenaza real para los intereses de los patriotas americanos. Suplica y recibe ayuda de la Casa Blanca, en millonarios recursos y parafernalia bélica de avanzada tecnología, mientras rechaza los intentos de apoyo internacional a una solución diferente a la guerra. Incluso va más allá, convierte el territorio nacional en base de operaciones y provocaciones contra los demás miembros de Nuestra América que libran procesos democráticos.

La paz en nuestro país es clamor y anhelo mayoritario. No obstante, nuestras propuestas de paz democrática con justicia social son desestimadas por el régimen, quien las interpreta siempre como debilidad o engaño, al tiempo que exige la rendición incondicional de nuestra lucha. Bajo la furia de toneladas de bombas, con los fusiles en alto, percibimos el cariño y la solidaridad de los pueblos que ustedes representan. Nos unen las mismas banderas y enemigos, a todos los acompañamos.

Cerca de aquí, en afrenta a la historia libertaria de Cartagena, como cuando se concertaban para la subasta de esclavos negros en el mercado público, se hallan reunidos los más poderosos propietarios y empresarios continentales, expoliadores de trabajadores y trabajadoras, buscando acuerdos para incrementar la productividad de sus negocios a costa de la desprotegida mano de obra.

Un poco más allá, dialogan Presidentes y Jefes de Estado de América. Varios de ellos, mandatarias y mandatarios comprometidos con los intereses de los pobres de sus países y el mundo, procuran con dignidad sobreponerse al freno impuesto por los Estados Unidos para imponer un destino en contravía de los intereses de las mayorías y a favor del capital y el latifundio.

En este recinto confluyen representantes de los pueblos que no tienen cabida nunca en las cumbres hemisféricas convocadas por el Imperio. A diferencia de aquellos escenarios, aquí se levantan enardecidas la energía y la voluntad política, para afrontar con verdad y valentía los problemas que agobian a los pueblos del continente. Las voces que se alzan aquí no tienen el menor interés en auxiliar al capitalismo en crisis, procuran por el contrario concertar el modo de levantar nuestros pueblos contra él, encontrar la manera de marchar unidos hacia nuestra segunda y definitiva independencia.

Sabemos que eso impone hablar de dos términos vedados por las oligarquías y el imperialismo: Revolución y Socialismo. En las condiciones del mundo de hoy, asimiladas las experiencias de otros confines, echando mano a nuestro espíritu crítico y renovador, las luchas de nuestros pueblos han de seguir esa senda, no existe una alternativa distinta. Conseguirlo es cuestión de grandes masas en agitación y lucha. Con las armas si es preciso. En todo caso unidas y avanzando con la resolución de no dejarse aplastar por el poder dominante.

Materializar tales propósitos debe ser la tarea que emprendamos todos al regreso. Aquí debiéramos tratar el modo más efectivo de ayudarnos unos a otros.

Las luchas de nuestros pueblos son tan inatajables como las aguas, vencen todos los escollos, fluyen a encontrarse para formar el gran río que nos ha de conducir al océano de independencia, soberanía, justicia, igualdad social y democracia verdadera. Es nuestro futuro tejido con paciencia y tenacidad.

Por la unidad de los pueblos latinoamericanos y caribeños.

Secretariado del Estado Mayor Central

Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia Ejército de Pueblo FARC-EP

Montañas de Colombia, abril de 2012.

Carta abierta a la Cumbre de las Américas en Cartagena

Señoras y Señores Presidentes y Jefes de Estado de América:

Como lo recordarán sin duda muchos de los presentes, en la primera cumbre de la CELAC celebrada en Caracas, un conjunto respetable de voces expresó al primer mandatario colombiano su voluntad de colaborar en la búsqueda de alguna salida política a la confrontación que sufre nuestro país. La respuesta directa del Presidente Santos apuntó a que era mejor no hacer nada, la resolución del conflicto debía quedar exclusivamente en manos colombianas.

Pese a ello, el gobierno de Colombia no oculta haber recibido de los Estados Unidos más de diez mil millones de dólares para la guerra en los últimos doce años, clama por su intervención directa, pone a su disposición la totalidad del territorio para su operación aérea, acrecienta el número de asesores, personal militar y paramilitar norteamericanos, recibe apoyo tecnológico de última generación, sujeta sus planes contrainsurgentes a lo estipulado en el Pentágono. Y presiona a sus vecinos a combatir conjuntamente la guerrilla colombiana, a la que describe con los más abominables adjetivos.

Para la guerra sí está dispuesto a recibir toda la participación posible. Como reitera con frecuencia el Presidente Santos, su propósito es el de conseguir la paz, por las buenas o las malas. Entendiendo desde luego que las buenas equivalen únicamente a rendición y entrega. Tras la última década de gigantescas operaciones militares de exterminio, refulge la verdad sobre la imposibilidad de una salida militar al conflicto. En un término semejante, los Estados Unidos concluyeron que lo mejor era salir de Afganistán e Irak. Tras media centuria de cruento enfrentamiento fratricida, el régimen colombiano aún insiste en la incierta victoria militar.

Las FARC-EP estamos muy lejos de ser el monstruo que describe la oligarquía colombiana. Somos miles de mujeres y de hombres que soñamos con hacer realidad la ilusión que quedó trunca con la muerte de nuestro Libertador Simón Bolívar. Nos unen con el pueblo de nuestro país las más legítimas aspiraciones políticas y sociales. Jamás podrán separarnos de él las inmensas patrullas del Ejército regular, las flotillas de aviones bombarderos y helicópteros artillados, las fuerzas de Policía y de Seguridad, los grupos paramilitares o los sicarios de todo orden que acribillan las esperanzas de un mejor vivir en Colombia.

Nuestro alzamiento armado responde a una situación nacional de violencia estatal. Son mayores los asesinatos políticos, de dirigentes sindicales, indígenas, afrodescendientes y campesinos, que los cumplidos en cualquiera de las nefastas dictaduras latinoamericanas del pasado. Pese a las elecciones periódicas y la fachada institucional, los crímenes de Estado y los índices de desigualdad social configuran en nuestro país una situación explosiva. Cada uno de los poderosos grupos económicos controla un amplísimo monopolio mediático, y las casi 200.000 víctimas del paramilitarismo en los últimos veinte años, certificadas por la propia Fiscalía General de la Nación, son apenas una anécdota vieja para esa prensa que no cesa de infamarnos. Un décimo de la población se halla en situación de desplazamiento forzado. Las cárceles rebosan de luchadores sociales.

Sólo un irrestricto apoyo a los intereses norteamericanos en el continente y el mundo explica la benevolencia de Washington con la dirigencia colombiana. En nuestro país se aplican al dedillo las imposiciones de los organismos multilaterales de crédito, se privatiza cuanto sea posible, se llena de privilegios a la inversión transnacional, se desmejoran las condiciones laborales y se recortan las garantías sociales, se destruye la economía campesina, se entregan al saqueo de sus riquezas inmensos territorios y se persigue con saña a la producción artesanal y comunitaria. El crecimiento del PIB favorece a un reducido grupo de inversionistas que no son Colombia.

Y se cuecen las condiciones para una futura agresión contra los pueblos que no se muestran dispuestos a admitir un similar modelo de cosas. La paz en Colombia, siempre que implique un contenido democrático de participación popular en las decisiones de Estado, resulta un presupuesto básico para el tranquilo devenir de las demás naciones del continente. Nos hemos opuesto siempre a una paz que equivalga a la mera reincorporación a la institucionalidad pervertida que genera este alzamiento. Insistimos en la necesidad de un diálogo que se encargue, de cara al pueblo colombiano y con su activa injerencia, de recrear las condiciones para hacer posible la convivencia democrática. Medio siglo de sangre colombiana lo reclama.

En plena crisis mundial del capital, una exitosa cumbre de las Américas debiera ocuparse de mucho más que el crecimiento económico afín a las reglas del mercado. Abordar el respeto a la soberanía e independencia de sus naciones, un modelo de desarrollo alternativo, la proscripción de la guerra como forma de afrontar conflictos. El fin del irracional embargo, así como la valiente exigencia del Presidente Correa de integrar libre y plenamente a Cuba, los legítimos reclamos argentinos sobre las Malvinas y la solución política al largo conflicto colombiano son temas prioritarios en una Agenda continental.

Quizás haya llegado el momento de tratar la inviabilidad de la guerra contra las drogas. Como planteamos en carta abierta al Congreso y el pueblo de los Estados Unidos en abril del año 2000: “…si lo que se busca es una solución de raíz al flagelo de las drogas, el mundo debe prepararse para la más grande discusión en torno a la conveniencia de la legalización de su consumo, tal como sucedió en el pasado con otros flagelos como el alcohol y el tabaco”. Se trata en todo caso de un grave problema social que no puede ser tratado por vía militar, que requiere acuerdos con la participación de la comunidad nacional e internacional y el compromiso de las grandes potencias como principales fuentes de la demanda mundial de los estupefacientes

Fraternalmente,

SECRETARIADO DEL ESTADO MAYOR CENTRAL
FUERZAS ARMADAS REVOLUCIONARIAS DE COLOMBIA – EJERCITO DEL PUEBLO FARC-EP

Montañas de Colombia, abril de 2012.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Obama prepara os EUA para uma nova guerra

Por Atilio A. Boron [*]

Comentamos a seguir uma notícia muito preocupante que recebeu escassa, para não dizer nula, atenção da imprensa mundial. Segundo revelou Kenneth Schortgen Jr., do jornal digital Examiner.com, o presidente Barack Obama assinou em 16 de Março de 2012 uma nova Ordem Executiva que amplia consideravelmente os poderes presidenciais conferidos pela Ordem Executiva para a Preparação diante de Desastres, emitida por Harry Truman em 1950. Graças a este novo instrumento legal, o presidente Obama está habilitado a assumir o controle absoluto de todos os recursos dos Estados Unidos em tempo de guerra ou emergência nacional. Dependerá dele escolher o momento em que decida fazer uso de tão enormes prerrogativas bem como os alcances específicos da mesma.

Segundo consta na documentação oficial, a nova ordem para a "Preparação de recursos para a defesa nacional" concede poderes imensos à Casa Branca. Através dele concede-se-lhe a faculdade de controlar e distribuir por decreto a energia, a produção, o transporte, a alimentação e inclusive a água caso a defesa e segurança nacionais estejam em perigo. Cabe notar que esta ordem não limita a sua aplicação a tempos de guerra, pois estende-se também a tempos de paz. Ficam também abrangidos pela mesma o controle sobre empreiteiros e fornecedores, os materiais, os trabalhadores qualificados e o pessoal profissional e técnico. Cada um dos secretários (ministros) do Poder Executivo (Defesa, Energia, Agricultura, Comércio, Trabalho, etc) encarregar-se-ia da execução da ordem.

Ordens Executivas deste tipo, criadas para preparar ao país perante catástrofes iminentes ou para assegurar a defesa nacional, não são novas na história dos Estados Unidos. Mas em dois casos muito significativos desencadearam uma crise constitucional, pelo facto de que mediante estes dispositivos jurídicos o Executivo passa a dispor de faculdades ditatoriais sobre os cidadãos, cuja implementação fica entregue à discricionariedade do ocupante da Casa Branca. Durante a Guerra Civil, o presidente Abraham Lincoln suspendeu as liberdades de palavra e de imprensa, revogou o habeas corpus e o direito a um julgamento justo sob a Sexta Emenda. Por ocasião da Primeira Guerra Mundial, o Congresso recusou conceder ao presidente Woodrow Wilson poderes novos e mais extensos sobre recursos de diverso tipo para colaborar no esforço da guerra. Wilson, como resposta, emitiu uma Ordem Executiva que lhe permitiu aceder a um controle completo sobre os negócios, a indústria, o transporte, os alimentos, assim como faculdades discricionárias para conceber e implementar políticas económicas. Segundo Schortgen Jr., foi só a seguir à morte destes dois presidentes que os poderes constitucionais foram devolvidos ao povo dos Estados Unidos.

Na mudança verificada no clima ideológico norte-americano, o avanço do belicismo e a sutil e persistente manipulação da opinião pública em favor da guerra descartam, salvo eventualidades inesperadas, a irrupção de um debate sobre a constitucionalidade, ou oportunidade, da nova Ordem Executiva.

Contudo, a decisão de surpresa do presidente Obama abre interrogações muito sérias, pois confirma o vigor da escalada belicista instalada em Washington. Segundo se informa no referido artigo do Examiner.com, aquela teria sido precipitada pela certeza de que os planos israelenses para atacar o Irão já teriam entrado numa contagem regressiva que Washington demonstrou ser incapaz de deter. O killer de Jerusalém já não obedece às ordens dos seus patrões e financiadores. Assim, Washington prepara-se, paradoxalmente arrastado por um dos seus peões, para participar de uma guerra que incendiará o Médio Oriente. Por isso Obama decidiu reforçar extraordinariamente os poderes presidenciais e adoptar as medidas para que, quando a conjuntura exigir, toda a maquinaria económica dos Estados Unidos seja posta ao serviço da nova, e mais grave, aventura militar. Não é um dado menor recordar que nem sequer durante a guerra do Vietname as sucessivas administrações norte-americanas apelaram a uma concentração de poderes tão fenomenal.

Já há bastante tempo Fidel vem advertindo acerca dos perigos que se aprofundam sobre a paz mundial. Numa "reflexão" escrita poucos dias depois de Obama emitir a nova ordem, "Os caminhos que conduzem ao desastre", o Comandante concluía a sua nota dizendo que "não tenho a menor dúvida de que os Estados Unidos estão a ponto de cometer e conduzir o mundo ao maior erro da sua história". Lamentavelmente, os factos parecem dar-lhe razão, mais uma vez.

# A nova Ordem Executiva pode ser vista em:
www.whitehouse.gov/thepressoffice /2012/03/16/executiveordernationaldefenseresourcespreparedness

# A nota do Examiner ncontra-se em:
www.examiner.com/financeexaminerinnational/ presidentobamasignsexecutiveorderallowingforcontroloverallusresources

[*] Director do PLED, do Centro Cultural de la Cooperación Floreal Gorini.

O original encontra-se em www.resumenlatinoamericano.org

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O mundo maravilhoso do capitalismo

Fidel Castro Ruz
Fonte: Alainet


A busca da verdade política sempre será uma tarefa dura, ainda em nosso tempo, quando a ciência colocou em nossas mãos um grande número de conhecimentos. Um dos mais importantes foi conhecer e estudar o fabuloso poder da energia contida na matéria.

O descobridor dessa energia e seu possível emprego era um homem pacífico e bondoso, apesar do seu repúdio à violência e à guerra, solicitou o seu desenvolvimento aos Estados Unidos, presidido nessa época por Franklin D. Roosevelt, de conhecida posição antifascista, líder de um país capitalista em profunda crise, que havia contribuído para salvar com fortes medidas com as quais ganhou o ódio da extrema direita de sua própria classe. Hoje, esse estado impõe ao mundo a mais brutal e perigosa tirania que a nossa frágil espécie já conheceu.

Os despachos procedentes dos EUA e seus aliados da OTAN referem-se aos crimes cometidos por eles e seus cúmplices. As cidades mais importantes dos EUA e da Europa refletem constantes batalhas campais entre os manifestantes e a polícia bem treinada e alimentada, com carros blindados, mascaras, distribuindo pauladas, pontapés e gases contra mulheres e homens, entortando mãos e pescoços de jovens e velhos, mostrando ao mundo as covardes ações que se cometem contra os direitos e a vida dos cidadãos dos seus próprios países.

Até quando podem durar semelhantes barbáries?

Para não me estender, já que estas tragédias irão se apresentando cada vez mais pela televisão e a imprensa em geral, e serão como o pão que a cada dia se nega aos que menos tem, citarei o despacho via cabo, recebido hoje, de uma importante agência de noticias ocidental.

“Boa parte das costas japonesas do Pacífico poderiam ser inundadas por uma onda gigantesca com mais de 34 metros (112 pés) se ocorresse um terremoto poderoso segundo os cálculos revistos de um cartaz”.

“Qualquer tsunami desencadeado por um terremoto de magnitude nove na depressão de Nankai, que se estende desde a principal ilha nipônica de Honshu até a ilha de Kyushu, ao sul, poderia atingir 34 metros de altura”, assinalou o comitê.

“Um calculo anterior, em 2003, estimava que a altura máxima de tal onda seria inferior aos 20 metros (66 pés)

“A usina de Fukushima foi desenhada para resistir a um tsunami de 6 metros (20 pés), menos da metade da altura da onda que a atingiu em 11 de março de 2011”.

Mas não há razões para se preocupar. Outro despacho, datado em 30 de março, pode-nós tranquilizar. Procede de um meio realmente bem informado. Resumindo em breves palavras: “Se você fosse jogador de futebol, xeique árabe ou diretor de uma grande multinacional, que tipo de tecnologia lhe faria suspirar?”.

“Recentemente, famosa loja de luxo em Londres inaugurou uma seção inteira dedicada a amantes da tecnologia com carteiras recheadas. Televisores de um milhão de dólares, câmeras de vídeo Ferrari e submarinos individuais, são alguns dos fetiches para a felicidade dos milionários”.

“A TV de um milhão de dólares é a jóia da coroa”.

“No caso da Apple, a empresa se compromete a entregar seus novos produtos no mesmo dia do lançamento no mercado”.

“Suponhamos que saímos da nossa mansão e já estamos cansados de passear com o nosso iate, limusine, helicóptero ou jatinho. Ainda temos a opção de comprar um submarino individual para duas pessoas”.

As ofertas continuam com telefones celulares com capa de aço inoxidável, processador de 1,2 GHz e 8Gb de memória, e tecnologia NFC para fazer pagamentos através do celular. Câmeras de vídeo com a marca Ferrari!

Verdade compatriotas que o capitalismo é uma coisa maravilhosa! Talvez nós sejamos os culpados de que cada cidadão não tenha um submarino particular na praia.

São eles e não eu quem misturou num mesmo saco os xeiques árabes e os diretores das grandes transnacionais com os jogadores de futebol. Pelo menos estes últimos dão entretenimento a milhões de pessoas e não são inimigos de Cuba, devo esclarecer!

sábado, 7 de abril de 2012

“Onde estão os gestos de paz do governo colombiano?”

Entrevista com Carlos Lozano

Carlos Lozano é advogado e periodista, diretor do jornal comunista VOZ, membro do Comitê Central do Partido Comunista Colombiano e da organização Colombianos e Colombianas pela Paz. Ele fez parte de uma equipe de conselheiros no tema de paz, nos diálogos do “Caguan”, entre a guerrilha das FARC-EP e o governo da Colômbia, nos anos de 1998-2002. Lozano é um dos colombianos que mais tem estudado sobre processos de paz, tem escrito numerosos livros e artigos sobre a temática e conta com uma vasta experiência como facilitador de processos de paz na Colômbia.

Nos últimos dias de março a Agenda Colômbia-Brasil encontrou-se com Lozano, na cidade de Rio de Janeiro, na qual este estava participando de um evento internacional. Nesse momento da entrevista a conjuntura colombiana apontava para a liberação de forma unilateral, dos 10 prisioneiros de guerra que ainda estavam em poder FARC-EP, realizada em dia 2 de abril e muitas organizações sociais e de direitos humanos realizavam exigências ao governo de Juan Manuel Santos para verificar a situação nas cadeias onde estão os presos políticos.

Carlos Lozano acredita nas possibilidades da construção da paz na Colômbia e nos mostra a urgência dessa construção.

Agenda Colômbia-Brasil: Como você vê as possibilidades de um processo de paz na Colômbia?

Carlos Lozano: Bom, o que fica claro é que na Colômbia para resolver o conflito social e armado, que existe há mais de cinco décadas, só é possível fazê-lo pela via política, pela via do diálogo, sobre a base de soluções democráticas, de uma abertura social, progressista, que erradiquem as causas do conflito, as causas históricas e as causas mais recentes que afetam os tecidos sociais e a precariedade da democracia em Colômbia. Historicamente têm-se feito muitos esforços a partir da guerrilha e a partir da esquerda a fim de abrir um caminho para o diálogo, para a solução política democrática do conflito. Mas, sempre se há tropeçado com as resistências da classe dominante em aceitar as mudanças de fundo. O que eles querem é uma paz de graça, querem a desmobilização da guerrilha, mas sem produzir as mudanças que são necessárias para fortalecer a democracia e a justiça social.

A.C: A oligarquia colombiana mantém resistência quanto a um diálogo que implique uma paz com justiça social?

C. L: Desde esse ponto de vista as coisas não mudaram muito na Colômbia, estamos quase como se a historia tivesse sido detida. A oligarquia colombiana mantém essa resistência de um diálogo que implique uma paz construtiva, uma paz com democracia e com justiça social. Mas não tenho a menor dúvida que em médio prazo vai impor-se uma saída para o diálogo, um espaço para o diálogo. Esse é o cenário previsível para os próximos meses, porque, sem dúvida, depois de mais de meio século de conflito, de uma guerra degradada, não fica mais alternativa tanto para o governo como para a insurgência, que a de buscar essa possibilidade de acercamento, de superar as desconfianças recíprocas para que com o acompanhamento da sociedade colombiana, e porque não, da comunidade internacional, se possa abrir um diálogo sobre a base de uma agenda política e social concreta em transformações.

A.C: À classe dominante lhe convém a paz…

C.L: À classe dominante colombiana, à oligarquia colombiana, lhe convém a paz porque a maior quantidade dos recursos públicos, dos recursos do Estado, além da suposta ajuda dos Estados Unidos e dos outros países, estão sendo destinados para guerra. Tamanhos recursos são quase mais de 8% do produto interno bruto, o equivalente do que inverte o país de seu próprio orçamento, mais as ajudas para a guerra, está se chegando a cifras de 8% do produto interno bruto, que poderia ser melhor convertido na satisfação das necessidades sociais represadas, em um país que tem o “recorde” de ser o terceiro país com maior desigualdade, um país no qual existem os maiores índices de concentração da propriedade sobre a terra e onde existem poucos grupos econômicos, cinco ou seis grupos que monopolizam toda a produção industrial, que têm os melhores negócios nos setores financeiros. Esta é uma situação insustentável.

Semelhantes situações, mesmo para estes grupos dominantes, se convertem em uma espécie de entrave para o crescimento da economia. Então, se requer a paz, mas a paz com democracia, com justiça social. Não se pode pensar que a paz precisa existir para manter o status quo.

Eu acredito que estamos às portas de um melhor ambiente. Enquanto exista o conflito estaremos levados a situações trágicas, a confrontações, a situações que são lamentáveis nacional e internacionalmente. Mas, de todas as maneiras, acredito que estamos em um novo espaço, em um momento distinto da vida política nacional, em que o tema da paz e da guerra vai ocupar a agenda do governo nacional, dos partidos políticos, das organizações sociais e também da comunidade internacional que estiver atenta ao processo colombiano.

A.C: Agora com a entrega unilateral dos prisioneiros de guerra evidenciou-se também o tema de prisioneiros políticos e presos de opinião. Como está esta situação?

C.L: É curioso que o governo colombiano reconheceu a existência do conflito depois que o governo Uribe não a reconhecia, então Santos deu um passo supostamente audaz de reconhecer que na Colômbia existe um conflito. Mas, o reconhecimento do conflito tem as suas implicações: há uns combatentes, há outros não combatentes; é necessário estabelecer o princípio de distinção entre uns e outros. Há que aplicar o direito internacional humanitário e é preciso reconhecer que a única via de resolução do conflito é a via política do diálogo e não a da confrontação armada. Mas, o governo, mesmo que reconheça o conflito, não dá esse passo. É aí que vemos que o governo não reconhece a existência de presos políticos, de prisioneiros de guerra. Que eles existem sabemos, pois há combatentes, há presos políticos que são de consciência, presos de opinião, companheiros e companheiras que foram detidos em suas atividades sindicais, sociais; integrantes de partidos da esquerda que são levados aos estrados judiciais, sindicados como amigos e colaboradores da guerrilha. Processam-lhes por rebelião que é um delito tipicamente político, quando não lhe estendem a outro tipo de delitos, acomodados para sustentar com mais força estes processos judiciais arranjados. Assim, este é um tema que o governo tem que aceitar e, sobretudo neste momento que a guerrilha tem feito mais gestos humanitários.

A.C: Os gestos de paz da guerrilha das FARC…

C.L: A guerrilha das FARC derrogou a lei 002, que era a que estabelecia as retenções por razões econômicas. Está entregando 10 membros da força pública que são os últimos que estavam em seus poder, que em todos os últimos anos, ao largo de décadas, haviam mantido em qualidade de prisioneiros de guerra. Então, são gestos de paz que ajudam a diminuir a intensidade do conflito.

A.C: E os gestos de paz do governo…

C.L: Onde estão os gestos de paz do governo, quando nem sequer se reconhece a existência de presos políticos, enquanto se mantém a política neoliberal de liquidação das conquistas dos trabalhadores, do povo e do agravamento das más condições de vida. Enquanto seguem as privatizações, enquanto segue as ofensivas contra a esquerda, a violação aos direitos humanos, seguem as execuções que as Nações Unidas chamam de extrajudiciais, que não são outra coisa do que chamamos “falsos positivos”. Então: onde estão os gestos de paz do governo? Aí é onde enfocamos (planteamos).

Por isso, desde Colombianos e Colombianas pela Paz temos dito ao governo que o mínimo que pode fazer, uma vez se produzam as liberações, é permitir as visitas da missão humanitária internacional às prisões. Assim, poderão verificar em lócus qual é a situação dos presos políticos e dos prisioneiros de guerra na Colômbia. Isto é muito importante que o país e a comunidade internacional conheçam, não somente como problema de agitação e de publicidade, se não para que o governo poda introduzir mudanças nas prisões. É preciso que humanizem as cadeias colombianas, que lhe dêem dignidade a quem está encarcerado, não somente por delitos políticos, mas também por outro tipo de delitos. As prisões realmente são masmorras que se converteram em espaços vulneráveis para os direitos humanos. Isto foi dito pelas Nações Unidas e pela Defensoria do Povo, não é um discurso da esquerda somente. Assim, é a hora de que o governo atenda isso e faça os gestos de paz. Santos diz que tem em suas mãos as chaves da paz, mas elas não funcionam, nem sequer para fazer gestos similares aos que está fazendo a guerrilha colombiana neste momento.

A.C: A respeito das relações de solidariedade política internacional, que papel você acha que poderia fazer o Brasil para contribuir à um processo de paz e para a situação que vive a Colômbia?

C.L: Basicamente eu diria que são três de ordem geral para a solidariedade internacional e um agregado, que são: O respaldo às organizações sociais colombianas que estão propondo (planteando) a paz, não somente “Colombianos e Colombianas pela paz” que é, talvez, a mais conhecida, mas há outras, múltiples organizações que trabalham nesse sentido e é necessário apoiá-las. A comunidade internacional deve respaldá-las e fazer chegar até elas a suas vozes de alento, na exigência de que é preciso parar a guerra na Colômbia e abrir um cenário de paz, de diálogo, de saída política da crise colombiana. Em segundo lugar o tema dos direitos humanos, na Colômbia seguem sendo violando os direitos humanos com os deslocados pela violência, o tema dos dirigentes da esquerda, dirigentes sindicais ameaçados, que estão sofrendo atentados e perseguições por parte de organismos de inteligência do estado. Terceiro, o tema dos presos políticos na Colômbia. Há quase nove mil presos segundo dizem as organizações de solidariedade e que estão esquecidos do mundo, porque quase ninguém fala da situação deles, é como se não existissem, mas, realmente, estão em situações precárias. Nestes dias estiveram em greve de fome, chamando a atenção do país e do exterior, sobre a situação que padecem e exigindo as visitas humanitárias.

A.C: ¿Y el agregado?

C.L: O agregado é para o caso concreto do Brasil. O Brasil tem se mostrado disposto a colaborar no tema de paz e no tema humanitário, vêm aportando os helicópteros e a logística. Desde esse ponto de vista merece o nosso reconhecimento, nosso agradecimento porque é um gesto de solidariedade para que estas missões humanitárias possam se realizar. Mas, ao mesmo tempo está vendendo armas ao estado colombiano. Armas que estimulam a guerra e a confrontação. Os aviões tucanos são dos que mais se utilizam nos bombardeios de terra arrasada na Colômbia, não somente para destruir a guerrilha, se não também para inundar de bombas, de toneladas de bombas o campo colombiano, sem importar que aí existem camponeses, agricultores, que existem aí propriedades de pequenos agricultores e que esta destruição não é somente da vida das pessoas, mas também das suas vivendas, dos animais, contaminando todo o ambiente na selva colombiana.

Assim, o Brasil não pode auspiciar isso. Em lugar de vender armas ao estado colombiano para a guerra o que deve é vincular-se às comissões de apoio, de verificação, de promoção do diálogo e da saída política. Sendo assim, atores da paz na Colômbia, mais do que atores da guerra.

Agenda Colômbia-Brasil
A Solidariedade é dos Povos!!!

http://agendacolombiabrasil.blogspot.com.br/2012/04/onde-estao-os-gestos-de-paz-do-governo.html#comment-form
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Com apoio do PCB

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Os cárceres convertidos em trincheiras de luta




Na Colômbia 9.500 prisioneiros políticos e de guerra não se deixam desperceber

José Antonio Gutiérrez D.
Fonte: Rebelión.org


No dia 20 de março passado, 554 prisioneiros políticos e de guerra começaram uma greve de fome de três dias [1] (em 22 de março, o total de grevistas chegou a 609 [2]).
Esta greve é o corolário de várias mobilizações e de atos de insubordinação e desobediência por parte dos presos durante os últimos anos para protestar pelas deploráveis condições em que são mantidos. Nas penitenciarias de La Picota, La Combita, El Barne, ERON Picota, Palo Gordo, La Tramacúa, La Dorada, Quibdó, etc., os presos se declararam em greve de fome, demonstrando a sua capacidade de ação e coordenação, assim como o seu espírito de luta. O que pedem é uma exigência bastante moderada: que seja formada uma Comissão Internacional de Observação da Situação dos Direitos Humanos dos Prisioneiros e Prisioneiras Políticas na Colômbia. Sabe-se da espantosa situação de aglomeração em que se encontram os 9.500 prisioneiros políticos e de guerra, as condições insalubres em que sobrevivem, as freqüentes torturas e tratamento degradante que, sistematicamente, sofrem nas mãos de funcionários da INPEC, como para duvidar da justeza dessa demanda. Só no primeiro semestre de 2011 morreram sete prisioneiros políticos devido aos maus tratos e negligência – desconhecemos os números exatos desde essa data – mas sabemos que pelo menos outros tantos morreram desde então.

Em entrevista de um companheiro do Grupo Bifurcação – Cruz Negra Anarquista, dizia-nós que “As condições às que são submetidos os prisioneiros não é por ‘inoperância’ do sistema, mas por uma estratégia social e política de abandono, de pressão psicológica, moral, para que o prisioneiro abandone, definitivamente, seu sentido revolucionário e os que estão fora e ainda não foram aprisionados saibam ‘as consequências’” [3].

Dois dias antes da greve, o presidente Angelino Garzón, seguindo essa mania das autoridades colombianas de negar o evidente, negava a existência de prisioneiros políticos (ou de guerra) na Colômbia [4]. O movimento telúrico que surgiu desde as cadeias da Colômbia faz, entretanto, que seja impossível tampar o sol com a peneira e exige que o olhar das organizações populares e solidárias se volte para a grave crise humanitária que se vive atrás das grades. O governo nega a necessidade de uma Comissão Internacional de Observação da situação dos prisioneiros políticos, devido a que tal Comissão deixaria evidentes as bestiais condições com que o Estado castiga, em autênticas masmorras, àqueles que o tenham interpelado. Tal trato foi demonstrado, uma vez mais, pela resposta das autoridades carcerárias a este formidável movimento de protesto: denunciaram-se numerosos casos agressões, maus tratos e castigos contra os prisioneiros e prisioneiras [5].

Esta greve de fome, apesar de suas dimensões, foi absolutamente ignorada pelos meios de comunicação colombianos. Se apenas este acontecimento chegou à mídia alternativa foi graças ao trabalho febril da Campanha Transpõe os Muros, da Fundação Laços de Dignidade e da Fundação Comitê de Solidariedade com os Presos Políticos. O fato político que marca esta greve, entretanto, é de maior transcendência.

Em todo conflito social os prisioneiros têm a capacidade de se convertem em atores políticos em direito próprio. Ainda atrás das grades, os prisioneiros são capazes de liderar um número de importantes batalhas contra o sistema e o regime. Exemplos importantes disto encontramos em países como o Peru, Turquia e Irlanda. Neste último, a famosa greve de fome, no inicio dos anos 80, em que deram a vida militantes republicanos, marcou um ponto de inflexão na luta contra a ocupação britânica na parte norte do país. Como observou o colunista Aldo Cívico:

“A greve de fome de 1981 contribuiu de forma fundamental à transformação do IRA. Em um princípio, os prisioneiros rechaçaram os uniformes da prisão e mancharam as paredes de suas celas com seus próprios excrementos. Depois, e desafiando a opinião dos seus lideres, jejuaram até a morte. Dez membros do IRA, entre eles o famoso Bobby Sands, morreram. A greve de fome assentou a base para o subsequente apoio popular do Sinn Fein, que foi o movimento político do IRA”.

“Os prisioneiros do IRA foram radicais em seus métodos e determinados em suas petições. Negaram-se a ser rotulados como criminosos ou terroristas e exigiram ao governo britânico o reconhecimento do seu status político. Na mente dos prisioneiros, a greve de fome foi um ato de insurreição em que utilizaram seus corpos como armas. Foi uma campanha política que converteu as cadeias em centro político do movimento republicano” [6].

No caso colombiano, os prisioneiros políticos e de guerra tem estado, por anos, relegados a um papel mais passivo, à espera que a estratégia de intercâmbio humanitário dê frutos. O anúncio, em fins de fevereiro, da libertação unilateral por parte das FARC-EP do último contingente de detidos em seu poder, deixam sem base a esperança de formalizar um intercâmbio humanitário como até pouco era colocado e como os próprios prisioneiros esperavam.

O que resta para os prisioneiros políticos e de guerra? Sobra o caminho da ação direta, da mobilização constante, da desobediência e da resistência. O único caminho que lhes sobra é tomar em suas próprias mãos, mediante sua luta frontal, o que a negociação indireta não conseguiu. O único que pode garantir que os olhos do povo se voltem para a situação das cadeias e deter a série de abusos e atropelamentos de que são vitimas, é converter a cadeia em uma trincheira a mais da resistência.

Essa é a importância histórica desse movimento, que ainda que breve, teve um amplo impacto e se estendeu por vários centros prisionais. O movimento demonstrou que os prisioneiros têm poder, têm capacidade de ação coletiva e têm força para dar golpes ao sistema, ainda que por trás das grades. É um primeiro passo, um movimento tentativo, e ainda que já tenha terminado, seguem-se reproduzindo os atos de desobediência e insubordinação em todos os centros carcerários [7].

Agora que se tirará a pressão sobre a opinião pública pelo tema do mal chamado “sequestro" de uniformizados capturados pelos insurgentes em combate, a iniciativa política fica em mãos dos prisioneiros, para que eles mesmos se mobilizem e definam suas ações coletivas a seguir. Ao final de contas, os prisioneiros políticos e de guerra não têm mais nada a perder, a não ser seus grilhões.


NOTAS DO AUTOR:

[1] http://www.rebelion.org/noticia.php?id=146764&titular=m...%F3n-
[2] http://www.colectivodeabogados.org/609-prisioneros-poli...os-en
[3] http://www.anarkismo.net/article/21614
[4] http://m.elespectador.com/noticias/politica/articulo-333039-gobierno-reitera-colombia-no-existen-presos-politicos
[5] http://www.rebelion.org/noticia.php?id=146890&titular=p...tigo-
[6] http://www.elespectador.com/impreso/opinion/columna-334...-farc
[7] http://www.comitedesolidaridad.com/index.php?option=com...id=45


(*) José Antonio Gutiérrez D. é militante libertário, residente na Irlanda onde participa nos movimentos de solidariedade com a América Latina e Colômbia, colaborador da revista CEPA (Colômbia) e El Ciudadano (Chile), assim como da página web internacional www.anarkismo.net

Autor de “Problemas e Possibilidades do Anarquismo”, (Ed. Faísca, 2011) e coordenador do livro “Orígenes Libertários del Primero de Mayo en América Latina” (Editora Quimantú, 2010)

Farc libertam últimos prisioneiros de guerra na Colômbia

Por meio de um comunicado, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) confirmou a libertação dos dez militares que estavam prisioneiros da guerrilha colombiana. A ação unilateral das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército Popular (Farc-EP) foi acompanhada por ativistas de várias partes da América Latina.

O helicóptero brasileiro que efetuou a missão já está retornando para a cidade de Villavicencio, carregando a bordo os dez libertados, em bom estado de saúde, segundo informou às 19h a emissora latino-americana de televisão TeleSur.

"Isso é uma grande conquista, um grande avanço na direção da paz. Os grupos de mulheres e de ativistas que participaram das negociações tiveram papel fundamental nisso, agora é preciso que o governo colombiano honre o compromisso assumido com esses grupos. As Farc cumpriram a promessa, agora o governo precisa retribuir isso, fazer o gesto que prometeu, garantindo a visita aos presos", afirmou ao Vermelho Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz e que participa da libertação dos militares.

"O governo colombiano agora precisa garantir a integridade dos sete mil presos políticos que estão sob sua custódia. São sindicalistas, professores, estudantes, profissionais de diversas áreas que formam um grupo de sete mil prisioneiros políticos. É preciso prosseguir o diálogo entre as partes para que a paz se estabeleça", afirmou Socorro.

Segundo a ativista, os familiares já estão no aerporto de Vanguardia, de Villavicencio, à espera do helicóptero brasileiro. A estimativa é de que a aeronave pouse às 19h20 (hora de Brasília).

As más condições climáticas desta segunda-feira atrasaram a partida do helicóptero encarregado da missão humanitária, mas ao meio-dia, hora local, a ex-senadora colombiana Piedad Córdoba disse por meio do twitter que a partida dependia de uma melhora no clima, o que aconteceu no início da tarde.

Piedad informou também que Amparo Sánchez, diretora da Casa da Mulher, seguiu no helicóptero que resgatou o grupo de prisioneiros, junto com a ativista Marleni Orjuela, dirigente do grupo Colombianos e Colombianas pela Paz e da Associação Colombiana de Familiares de Membros da Força Pública Retidos e Liberados por Grupos Guerrilheiros (Asfamipaz).

Os militares libertados são Luis Alfonso Beltrán Franco, Luis Arturo Arcia, Robinson Salcedo Guarín e Luis Alfredo Moreno Chagüeza. Já os policiais são Carlos José Duarte, César Augusto Lasso, Jorge Trujillo Solarte, Jorge Humberto Romero, José Libardo Forero e Wilson Rojas Medina, todos feitos prisioneiros entre 1998 e 1999.

No domingo, em entrevista ao Vermelho, Socorro Gomes valorizou o gesto dos insurgentes colombianos. Para ela, a libertação dos detidos em poder das Farc “é um sinal de que está havendo a busca da paz para o povo colombiano”.

A presidente do Conselho Mundial da Paz acha que o momento é propício para se intensificar as medidas no sentido de alcançar uma solução política para o conflito colombiano, que perdura há décadas. “Isto é importante para as famílias dos detidos, para os presos políticos em poder do Estado, para o povo colombiano e para toda a América Latina, que poderá se consolidar como uma região de paz,”

Em declarações à imprensa, a guatemalteca Rigoberta Menchú, Prêmio Nobel da Paz, defendeu o fim do conflito armado interno na Colômbia, “uma exigência que cresce cada vez mais dentro e fora do país”.

A ativista pediu tanto à guerrilha como ao governo colombiano que cumpram o que foi pactuado para que as libertações cheguem a bom termo. Ela valorizou a ação do grupo Mulheres do Mundo pela Paz, ressaltando que se trata de “uma delegação composta por distinguidas personalidades, pessoas que lutaram durante muitíssimos anos, que vieram à Colômbia para acompanhar o processo”.

Depois da libertação dos detidos pelas Farc, está previsto que na próxima quinta-feira (5) a delegação de Mulheres do Mundo pela Paz visite alguns presídios colombianos onde estão encarcerados milhares de presos políticos.

Com informações da TeleSur e portal vermelho

Farc libertarão os 10 reféns hoje, diz brasileira

ANDRÉ LACHINI -

Os dez últimos reféns militares mantidos pela guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) no cativeiro deverão ser libertados mais tarde nesta segunda-feira, informou a presidente do Conselho Mundial da Paz, a brasileira Socorro Gomes, que integra uma comissão de mulheres latino-americanas que intermediaram o acordo de libertação entre o governo colombiano e as Farc. Os reféns serão resgatados por dois helicópteros da Força Aérea Brasileira (FAB) em um ponto na selva, também por funcionários da Cruz Vermelha, e levados ao aeroporto de Villavicencio, no departamento de Meta.

"Todos os dez serão entregues hoje. O governo brasileiro ajudou com os helicópteros, para que uma solução pacífica seja encontrada para esse conflito na Colômbia. As Farc aceitaram negociar e pediram que o governo colombiano garanta os direitos dos presos de consciência no país", disse Socorro Gomes, em entrevista por telefone a partir de Meta, na Colômbia. Ela aguarda a chegada dos reféns no aeroporto.

"Agora, com a libertação dos reféns, nós queremos que o governo colombiano cumpra a sua parte e permita que os presos de consciência sejam tratados de maneira humanitária nas prisões da Colômbia. Nós queremos acesso às prisões", disse Socorro Gomes. Estima-se que a Colômbia tenha sete mil presos de consciência atualmente, não apenas entre ex-guerrilheiros das Farc e do Exército Nacional de Libertação (ELN), como também sindicalistas e estudantes.

Se a operação for concluída com sucesso, os helicópteros brasileiros deverão chegar a Meta com os reféns às 15h30 do horário local (17h30, hora de Brasília), desta segunda-feira.

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Com apoio de estadao.com.br

Momento histórico: Tudo pronto para libertar os detidos das Farc

Já chegaram neste domingo (1º de abril) à cidade colombiana de Villavicencio, capital do Departamento de Meta, provenientes do Brasil, os helicópteros que participarão da operação humanitária para receber os 10 detidos pelas Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (Farc), que serão libertados a partir desta segunda-feira (2).

Em um dos helicópteros estava a ex-senadora e defensora dos direitos humanos Piedad Córdoba, coordenadora da Organização Não Governamental Colombianas e Colombianos pela Paz. Com ela estavam também os integrantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e membros da Associação de Familiares dos Detidos, Asfamipaz.

Em coletiva de imprensa, Córdoba afirmou que as Farc seguem com o compromisso de entregar os militares detidos.

A ex-senadora indicou que ainda não foram entregues as coordenadas de onde se efetuarão as libertações, mas que na segunda-feira pela manhã partem para a região da selva colombiana que a organização guerrilheira indicar.

Córdoba disse que a operação humanitária está "sob controle" e "vai muito bem".

A defensora dos direitos humanos manifestou que Colombianas e Colombianos pela Paz e a sociedade civil colombiana manterão seu trabalho para conseguir uma saída política e negociada para terminar o conflito armado interno que a Colômbia vive há quase 50 anos.

As libertações unilaterais por parte das Farc estão programadas para a segunda-feira e a quarta-feira (4).

As Farc entregarão à missão de paz os militares Luis Alfonso Beltrán Franco, Luis Arturo Arca, Robinson Salcedo Guarín e Luis Alfredo Moreno Chagüeza e os policiais Carlos José Duarte, César Augusto Lasso Monsalve, Jorge Trujillo Solarte, Jorge Humberto Romero, José Libardo Forero y Wilson Rojas Medina.

Faz parte também da missão de paz uma delegação internacional do grupo humanitário Mulheres do Mundo pela Paz. Além de Piedade Córdoba, integram o grupo a guatemalteca Rigoberta Menchú, detentora do Prêmio Nobel da Paz, a candidata à Presidência da República de Honduras Xiomara Zelaya, a senadora colombiana Gloria Inês, as argentinas Marcela Bordenave e Mirta Paravalle, a deputada do Parlamento Centro-americano Nídia Diaz, a mexicana Margarida Zapata e a brasileira Socorro Gomes, presidente do Conselho Mundial da Paz.

Encontra-se também em Villavicencio o ex-presidente colombiano Ernesto Zamper, para acompanhar a devolução dos detidos.

Por telefone, de Villavicencio, Socorro Gomes reportou ao Vermelho que neste domingo as Mulheres pela Paz se reuniram com os familiares dos militares e policiais que serão libertados e realizaram um importante encontro de trabalho com a ONG Colombianos e Colombianas pela Paz.

A pacifista brasileira destacou que se trata de um “momento histórico de muita esperança”. Socorro Gomes valorizou o gesto dos insurgentes colombianos. Para ela a libertação dos detidos em poder das Farc “é um sinal de que está havendo a busca da paz para o povo colombiano”. A presidente do Conselho Mundial da Paz acha que o momento é propício para se intensificar as medidas no sentido de alcançar uma solução política para o conflito colombiano, que perdura há décadas. “Isto é importante para as famílias dos detidos, para os presos políticos em poder do Estado, para o povo colombiano e para toda a América Latina, que poderá se consolidar como uma região de paz”.

Socorro Gomes informou ainda ao Vermelho que no domingo (1º de abril) foi celebrada uma missa e realizada uma confraternização em praça pública na cidade de Villavicencio entre ativistas da ONG Colombianas e Colombianos, as Mulheres do Mundo pela Paz, familiares dos detidos e a população da cidade.

Em declarações à imprensa Rigoberta Menchú defendeu o fim do conflito armado interno na Colômbia, “uma exigência que cresce cada vez mais dentro e fora do país”. A ativista guatemalteca pediu tanto à guerrilha como ao governo colombiano que cumpram o que foi pactuado para que as libertações cheguem a bom termo. Ela valorizou a ação do grupo Mulheres do Mundo pela Paz, ressaltando que se trata de “uma delegação composta por distinguidas personalidades, pessoas que lutaram durante muitíssimos anos, que vieram à Colômbia para acompanhar o processo”.

Depois da libertação dos detidos pelas Farc, está previsto que na próxima quinta-feira (5) a delegação de Mulheres do Mundo pela Paz visite alguns presídios colombianos onde estão encarcerados milhares de presos políticos.

Da redação
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com apoio de vermelho.org

sexta-feira, 30 de março de 2012

LANÇAMENTO DO MOVIMENTO POLÍTICO MARCHA PATRIÓTICA E CONSTITUIÇÃO DE SEU CONSELHO PATRIÓTICO NACIONAL

21, 22 e 23 de abril de 2012.


http://www.marchapatriotica.org/

   As organizações sociais, populares e políticas de camponeses, indígenas, estudantes, trabalhadores, de bairros, culturais e em geral, compostas por milhares de mulheres e homens explorados deste país, que, desde 20 de julho de 2010, nos articulamos e organizamos na Marcha Patriótica pela Segunda e Definitiva Independência,

CONVOCAMOS:

   O conjunto do povo colombiano, suas organizações, todas aquelas pessoas que em nosso país e em todas as latitudes do mundo compartilham conosco este anseio por transformações, de verdadeira democracia, de paz com justiça social, em síntese, a todas aquelas e todos aqueles que compartilham os sonhos e propostas apresentados na proclamação pela segunda e definitiva independência, fruto da vontade popular e soberana de milhares de mulheres e homens de nosso país, ao Lançamento do Movimento Político Marcha Patriótica e Constituição de seu Conselho Patriótico Nacional, uma proposta de organização eminentemente política, social e democrática, profundamente comprometida na defesa da causa popular e das reivindicações dos setores menos favorecidos da sociedade ou afetados pelas políticas neoliberais do Estado; um movimento que dinamize a variedade de formas de organização e mobilizações existentes em qualquer região da Colômbia, que cresça e se fortaleça, até se converter em uma verdadeira alternativa de transformação democrática para todo o povo colombiano, a ser realizado nos dias 21, 22 e 23 de abril de 2012, na cidade de Bogotá.

A crise e a mobilização social e popular

   O Lançamento do Movimento Político Marcha Patriótica e a Constituição de seu Conselho Patriótico Nacional se dá em meio de um importante e vigoroso aumento da mobilização social e popular não somente em nosso país, mas também em diferentes latitudes do mundo, contra a crise do capitalismo e pela geração de alternativas verdadeiramente democráticas, que possibilitem a existência de sociedades justas e dignas.
   
   Mais uma vez, o capitalismo entrou em crise demonstrando sua incapacidade estrutural de resolver os problemas materiais mínimos das maiorias, além de sua comprovada essência depredadora, que põe cada vez mais em questão a existência de nosso planeta.

   Nesta ocasião, a crise tem seu centro na financeirização promovida pelo modelo neoliberal, o qual põe como eixo principal da economia e, porque não dizê-lo, de nossas sociedades, o sistema financeiro, caracterizado por ser fundamentalmente especulador e parasitário, afetando a produção real de riqueza e gerando acumulação para uma ínfima minoria sobre a base da negociação, por parte desses poucos, dos bens e do bem-estar do conjunto de nossos povos.
  
   Frente a essa crise, as classes possuidoras, que estão no governo da maioria dos países do mundo, saíram apressadamente para salvar os bancos e o conjunto do sistema financeiro, enquanto impõem às grandes maiorias os custos da crise, através de fortes cortes dos investimentos sociais por parte dos Estados, promovendo novas ondas de privatização da saúde, da educação, da ordem territorial e de maior precarização dos direitos dos trabalhadores, tudo isso, por suposição, acompanhado de fortes doses de repressão e de cinismo contra os reais afetados por essas medidas.

   Diante desse panorama, a digna mobilização não se fez esperar em todas latitudes do mundo, no Magreb, na beligerante resistência do povo grego, na greve que mostra um ressurgimento da histórica classe operária inglesa, no grito de “democracia real já” de milhares de indignados na Espanha, nos milhares de estudantes que contra o modelo neoliberal voltam a abarrotar as grandes avenidas de Allende no Chile, demonstrando na prática que “a história é nossa e a fazem os povos” e, logicamente, a luta singular que muitos estadunidenses vêm fazendo em Wall Street.

   Na Colômbia, corajosamente, apesar de tanta morte e humilhação por parte do regime, assistimos a uma importante reativação do movimento social e popular contra as manifestações da crise em nosso país, contra o aprofundamento do modelo neoliberal, com seu necessário componente de guerra (adiantado pelo presidente Juan Manuel Santos) e pela recuperação dos direitos mínimos de nosso povo.

   É assim como em nosso país a herança de Ignacio Torres Giraldo, arquétipo da classe operária colombiana, está presente nas greves impulsionadas recentemente pelos trabalhadores do petróleo, especialmente em Campo Rubiales, no Meta. Sente-se também o clamor de mais de 30 mil pessoas que, nas ruas do histórico Barranco Avermelhado, em meados de 2011, fizeram retumbar a palavra de ordem da solução política, da paz e do direito à terra; a lição unitária do movimento estudantil colombiano que, através da mobilização, do debate e da organização – contando com o apoio de grandes setores da população colombiana – ganhou uma importante batalha contra o governo nacional, que tinha a intenção de privatizar a educação superior. Presenciamos também a importante confluência que significa o CONGRESSO DOS POVOS e o esforço unitário que representa a criação do COMOSOCOL.

   Parte ativa e muito importante dessa reativação do movimento social e popular é o nosso processo da Marcha Patriótica pela Segunda e Definitiva Independência, herdeira e continuadora da façanha independentista, democratizadora e soberana, empreendida por Bolívar, Nariño, José Antonio Galán, Benkos Biojó, Policarpa Salavarrieta, Manuela Beltrán e milhares de homens e mulheres que, ao longo desses mais de 200 anos, ofereceram suas vidas na conquista de tão altos propósitos. Nosso processo significa o encontro e a articulação de camponeses, estudantes, indígenas, trabalhadores, organizações de bairros, personalidades democráticas e expressões de todos os setores sociais, construindo uma proposta alternativa de país, invocando a soberania direta do povo através das assembleias abertas, retomando a mobilização e as ruas como elemento indispensável para a transformação, com vocação unitária e reafirmando, a cada dia, a importância da organização popular, tudo isso com o objetivo de conquistar para o povo sua participação decisória no governo da pátria, elemento que hoje se constitui no principal motivo da conformação de nosso Conselho Patriótico Nacional.

Presidente Juan Manuel Santos – neoliberalismo: aprofundamento do despojo e continuação da guerra contra o povo colombiano

   O governo de Juan Manuel Santos significa a aposta das classes dominantes na recomposição do regime político colombiano, o que é fundamental para a perpetuação de seus interesses, regime certamente enfraquecido em alguns elementos importantes depois dos oito anos do governo anterior. Logrou seu objetivo com relativo êxito através da chamada Unidade Nacional, verdadeiro pacto de elites, que, com o maior descaramento, repartiu os postos e os recursos do Estado como verdadeiro butim pirata, com o objetivo de comprar qualquer tipo de oposição, garantindo a unanimidade no interior do congresso e a maioria dos partidos políticos, assegurando a implementação do aprofundamento do modelo neoliberal, principal objetivo desse governo.

   Outro componente fundamental nessa intenção de maquiar o regime político colombiano tem sido uma decidida estratégia de cooptação de setores que outrora afirmavam defender os interesses populares, assim como uma política muito habilidosa de amoldamento e promoção de uma suposta nova esquerda, claramente dócil e funcional aos interesses das classes dominantes e à continuidade de seu projeto neoliberal.

   Essas ações lograram efetivamente cooptar algumas organizações sociais, tornar invisível, atacar e estigmatizar sistematicamente as posições de esquerda que questionam o modelo, promovendo sobre estas a etiqueta da ortodoxia e da imobilização. Especial atenção merecem as consequências que tiveram essa estratégia em nível internacional, com a aprovação do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos, Canadá e a União Europeia e a confusão de muitos setores progressistas internacionais que veem com lástima a realidade de nosso país através da visão dos grandes monopólios da desinformação.

   Os elementos anteriormente mencionados facilitaram ao governo de Juan Manuel Santos adiantar uma reengenharia institucional neoliberal, através de um agressivo pacote legislativo, o qual começa com o Plano Nacional de Desenvolvimento e suas locomotivas do despojo, a reforma que consagra como princípio constitucional a sustentabilidade fiscal, a reforma do sistema nacional de royalties, a reforma do sistema de saúde, da justiça e do derrotado projeto de reforma da educação superior, só para mencionar alguns deles, visando aprofundar em nosso país a privatização de todos os elementos necessários da vida humana e da natureza, o despojo de nossos elementos naturais mais apreciados, a precarização absoluta das condições dos trabalhadores colombianos e o predomínio absoluto do setor financeiro que dessangra as finanças estatais e as riquezas dos colombianos, configurando-se dessa maneira em nosso país a terceira sociedade mais desigual do mundo.

   Esse modelo profundamente desigual, que se perpetua fundamentalmente através da guerra empreendida pelo regime contra o povo colombiano, tornou possível níveis absurdos de concentração das terras de nosso país através do deslocamento forçado de milhões de camponeses e do ataque sistemático às suas formas de organização. As “vantagens competitivas” para a economia colombiana, que significam salários de fome para nossos trabalhadores, foram conseguidas graças ao assassinato seletivo de milhares de sindicalistas, o saque descarado de nosso ouro, água, petróleo e demais elementos naturais, e se ergue sobre o extermínio consciente e deliberado de nossas comunidades indígenas e afro-colombianas. A continuidade no governo colombiano desses mercadores da morte se explica em grande medida devido ao genocídio de qualquer forma real de oposição política.

   É nessa realidade que encontra explicação a existência de nosso conflito social, político e armado, assim como a presença histórica das insurgências de nosso país; é por isso que se equivocam aqueles que afirmam que o atual governo conta com uma política de paz. Nesse ponto, a única política desse governo é a guerra total contra o povo colombiano: não se pode pensar que se avança até a paz quando as causas estruturais que originaram o conflito não só permanecem, mas também que se aguçam, quando se mata o opositor político e se fecha cada vez mais os espaços da já maltratada democracia. É por isso que, a partir da Marcha Patriótica e da Assembleia Aberta pela Independência, cremos que a luta pelas reivindicações mais sofridas de nosso povo e a luta pela solução política são elementos que necessariamente têm que se desenvolver de maneira conjunta: isso hoje é tarefa urgente e inadiável.

A cultura, a academia e a arte: elementos indispensáveis para nossa segunda e definitiva independência

   A desaforada depredação promovida pelo capital financeiro e pelo sistema bancário internacional, produto da concentração de riqueza do mundo em poucas mãos, não somente afeta a vida material dos países e das pessoas, como também afeta a identidade cultural dos povos, as tradições e as expressões culturais e artísticas.

   Por sua vez, as políticas neoliberais dos países imperialistas, agravadas pelos tratados profundamente desiguais do chamado “livre comércio”, promovem o saque das riquezas naturais, impondo para isso modos homogêneos de ser e de pensar.

   A isso contribuem os meios de comunicação, que formam parte do sistema, com a característica de que estes são os encarregados, desde o plano da cultura, de preparar o caminho mediante a desinformação massiva e a distorção da realidade, para que o imaginário coletivo social se mantenha seduzido pelo modelo, na passividade e no consumismo.

   A Cultura não é, como nos querem fazer crer, um luxo de uns tantos iniciados, ou umas atividades massivas de entretenimento. É uma necessidade vital do povo e das pessoas, um assunto fundamental da política, pois tem relação com nossa maneira de ser, de habitar o mundo, com nosso sentido de memória e de pertencimento, com nossa capacidade de prefigurar o futuro. E, portanto, com a vontade de atuar no “aqui e agora”!

   Amilcar Cabral, um poeta africano, dizia que a Cultura é feita da capacidade que têm os povos de responder às crises. Nós, ao mesmo tempo em que reconhecemos a crise, vemos, na busca de sua saída, uma grande oportunidade de mudança.

   A Cultura é a ponte entre a memória herdada das tradições e da decisão coletiva e pessoal, no presente, de lutar para que outro mundo seja possível.

   Essa Marcha Patriótica nos estimula a desenvolver a mobilização social pelos grandes ideais de Justiça que nos incentivem a encontrar, mais cedo que tarde, soluções criativas e coletivas ao conflito.

   Essa Marcha Patriótica não depende só da razão, que a temos de sobra. A sensibilidade e os sentimentos coletivos são, para todas e todos nós, assuntos fundamentais. Queremos fazer essa caminhada com canções, poemas e obras de teatro que desautorize o mito de que os poderosos são o modelo e de que são invencíveis. Não são! E o riso e a festa nos ajudarão a demonstrá-lo.

   As batalhas não devem se dar somente no terreno da Economia, mas também no terreno das ideias e no das imagens. Por isso, expressamos nossa valorização da arte e da cultura e a necessidade de contar com as e os artistas como sujeitos criadores.

   Por isso, convocamos imediatamente o povo colombiano a marchar conosco por um novo modelo de sociedade, chamamos os intelectuais democratas e as e os artistas, que contribuam com sua voz, seu pensamento e suas obras para vencer nesse empenho.
Façamos da Marcha Patriótica um grande acontecimento social, político e cultural.

O Movimento Político Marcha Patriótica e seu Conselho Patriótico Nacional, rumo à construção de uma alternativa política para a segunda e definitiva independência.

   É precisamente nesse contexto que a Marcha Patriótica, na perspectiva de se converter na alternativa política para a segunda e definitiva independência, convoca para a constituição e para o lançamento de seu Conselho Patriótico Nacional, como espaço amplo, inclusivo, deliberativo e estratégico, que deverá dotar esse novo instrumento político de uma plataforma, que contemple as reivindicações centrais do nosso país, e das perspectivas de ação para conquistá-las, assim como sua necessária estrutura interna.

   A configuração da Marcha Patriótica como movimento político não significa a dissolução das organizações políticas, sociais e populares que a compõem, nem muito menos que estas se afastem de suas ações e reivindicações setoriais; ao contrário, significa a constituição de um movimento de movimentos, que potencialize muito mais a atual reativação da mobilização e que articule as lutas de cada setor e as projete na disputa estratégica por um modelo de país e de sociedade. Para essa tarefa, é indispensável e determinante disputar o poder político do governo e do Estado com as atuais classes dominantes, que levaram o país a ocupar o vergonhoso segundo lugar entre os países mais desiguais da América e o terceiro no mundo.

   Nosso movimento político deve encorajar a ação de todos os colombianos e colombianas que se encontram inconformados, indignados e entediados com a situação atual repleta de pobreza, humilhação e morte e que desejam construir uma Colômbia verdadeiramente democrática, com um modelo econômico e político no qual o direito à saúde, à educação, à cultura, à moradia, à recreação sejam uma realidade para o conjunto da população; um país no qual se impeça o roubo de nossos bosques, campos andinos e riquezas; uma Colômbia na qual a diferença política seja um elemento essencial para o debate democrático; uma nação soberana, um país em paz, com justiça social – em síntese, uma Colômbia que alcance a segunda e definitiva independência.

   Fazemos isso com a profunda convicção de que a transformação de nosso país necessita urgentemente de um movimento político composto, em todo o seu ser e razão, pelas lutas e organizações sociais, populares, intelectuais e setores democráticos, que tenha, como princípios paralelos, o trabalho de base, a mobilização, a organização e a unidade do povo colombiano e o profundo compromisso de defender os interesses populares e das maiorias nacionais, para que possa alcançar a sinergia emancipadora entre as lutas sociais, as reivindicações e a disputa do poder político para colocá-lo ao serviço de todos os colombianos e não de una elite oligárquica.

METODOLOGIA E AGENDA:

Sábado - 21 de abril de 2012

Ato de Instalação:

→ Das 9 às 10 horas: leitura da convocação, explicação da metodologia e leitura das saudações

→ Das 10 às 12:30 horas: Painel inaugural “A construção de alternativas políticas e a mobilização social e popular contra a crise”

→ Das 12:30 às 14 horas: almoço

→ Das 14 às 18 horas: Trabalho das mesas:
   - Caracterização do regime político colombiano
   - Caracterização interna da Marcha Patriótica e do Conselho Patriótico Nacional
   - Plataforma política da Marcha Patriótica
   - Plano de trabalho 2012-2014
   - Política organizativa da Marcha Patriótica
   - Política internacional da Marcha Patriótica

→ 18 horas: Ato cultural

Domingo - 22 de abril de 2012

→ Das 8 às 10 horas: Plenária por comissões

→ Das 10 às 12:30 horas: Reunião por setor social:
   - Camponeses
   - Estudantes
   - Trabalhadores
   - Indígenas
   - Afro-colombianos
   - Mulheres
   - Organizações de bairros
   - Jovens
   - Artistas
   - Personalidades democráticas
   - Direitos Humanos

→ Das 12:30 às 14 horas: almoço

→ Das 14 às 18 horas: plenária geral e designações de pessoas para as diferentes instâncias colegiadas

→ 18 horas: Ato cultural

Segunda-feira - 23 de abril de 2012

Ato de lançamento do Movimento Político Marcha Patriótica e Constituição de seu Conselho Patriótico Nacional.

   Nesse dia, as diferentes organizações e processos de todos os departamentos enviarão um bom número de delegações para participar no ato de mobilização cultural e política, no qual será lançado o Conselho Patriótico Nacional e se dará a conhecer publicamente suas principais definições e propostas face ao país.

→ Das 8 às 10 horas: Recepção das delegações

→ Das 10 às 13 horas: Mobilização pela segunda e definitiva independência

→ Das 14 às 19 horas: Ato político e cultural
 

Mais informação: http://www.marchapatriotica.
http://agendacolombiabrasil.blogspot.com.br/