"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Leonardo Boff: Crise terminal do capitalismo


Fonte: Adital


Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal. Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.

A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.

O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.

Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal 12% no país e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas, mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.

A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.

Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.

As ruas de vários países europeus e árabes, os "indignados" que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhóis gritam: "não é crise, é ladroagem". Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumossacerdotes do capital globalizado e explorador.

Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da superexploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.

[Leonardo Boff - Teólogo, filósofo e escritor. Autor de “Proteger a Terra - cuidar da vida: como evitar o fim do mundo”, Record 2010]

domingo, 4 de setembro de 2011

A paz com justiça social é possível, lutemos por ela. No 27

Depois de oito anos do governo Uribe, o tema da paz voltou, mais uma vez, aos meios de comunicação, é matéria de discussão dos intelectuais e das organizações sociais. O Império e o estabelecimento fizeram todo o possível por ganhar a guerra e someter a insurgência para poder fazer da Colômbia o paraíso das multinacionais.

O fracasso foi total, pois aconteceu todo o contrario. O DAS (Departamento Administrativo de Segurança) virou um ninho de delinquentes; o exercito e a policia ficaram por conta da corrupção, ao ponto de haver mais de um milhar de praças presos, entre eles vários oficiais e sob-oficiais; os paramilitares são bandas de delinquentes ao serviço da politica do governo e continuam assassinando.

O anterior indica que o caminho não é a guerra, mas a solução politica do conflito, a democratização do país, as transformações sociais e econômicas que eliminem as causas que geraram o conflito.

Mas, o Império e o estabelecimento continuam a manter a guerra, desnecessária desde todo ponto de vista. Eles não se importam pela quantidade de mortos que deixa o conflito. Quantos mortos a mais necessita o país para que a dirigencia politica e econômica reconheça que a saída é a solução politica?

A seguir, os resultados dos combates entre as FARC e as forcas militares da Colômbia, segundo a imprensa do pais do 17 ao 27 de agosto de 2011

17/08: Guerrilheiros das FARC queimam um ônibus e uma caçamba no sitio Os Laranjais, município de Toledo, Antioquia.
http://www.elcolombiano.com/BancoConocimiento/L/las_farc_asesinan_4_policias_en_narino/las_farc_asesinan_4_policias_en_narino.asp

18/08: Emboscada das FARC perto de Tumaco, Nariño: 5 policiais mortos e 2 feridos.
http://www.larepublica.pe/archive/all/larepublica/20110818/17/node/377353/todos/10

18/08: Guerrilheiros das FARC atacam patrulha do Exército perto de Argelia, Cauca: 1 suboficial e 2 soldados feridos gravemente.
http://www.rcnradio.com/noticias/tres-militares-heridos-por-ataque-de-las-farc-en-el-cauca-103338

18/08: FARC atacam carrotanque da petroleira Emerald Energy em El Caquetá.
http://www.rcnradio.com/noticias/las-farc-atacan-otra-empresa-transportadora-de-petroleo-en-caqueta-103327

21/08: Novo ataque das FARC contra a Policia em Argelia, Cauca: 2 uniformizados feridos.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/dos-policias-heridos-por-explosivos-en-argelia

22/08: Sabotagem das FARC deixa todo o departamento (estado) de Arauca sem energia eléctrica.
http://www.rcnradio.com/noticias/por-lo-menos-100-mil-habitantes-de-arauca-siguen-sin-servicio-de-energia-tras-at-103711

23/08: Guerrilheiros das FARC bloqueiam a via Buenaventura-Cali com 4 carretas perto da localidade Los Tubos.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/hostigan-tropas-combaten-robo-hidrocarburos

23/08: FARC ataca uma patrulha do Exército no povoado de Bendiciones, estado do Vale do Cauca.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/hostigan-tropas-combaten-robo-hidrocarburos

23/08: Em combates entre insurgentes da Frente 30 das FARC e tropas da Brigada 29 do Exército em Argelia, Cauca, ficaram 4 soldados feridos.
http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/hostigan-tropas-combaten-robo-hidrocarburos

25/08: Morrem 4 militares em dois ataques das FARC em Antioquia e no Cauca.
http://lci.tf1.fr/filnews/monde/colombie-4-militaires-tues-dans-deux-attaques-attribuees-aux-6638571.html

26/08: Emboscada das FARC em zona rural do município de Miranda, Cauca: 4 militares feridos.
http://www.rcnradio.com/node/104785

26/08: FARC lancam granadas contra patrulha militar no município de Magüí Payán, Nariño: 3 uniformizados feridos.
http://www.rcnradio.com/noticias/6-subio-numero-de-heridos-por-ataque-de--104797

27/08: Guerrilheiros das FARC atacam patrulha da Policia no sul do Cesar: 5 uniformizados mortos e 2 desaparecidos.
http://www.radiosantafe.com/2011/08/27/cinco-policias-muertos-dejo-atentado-atribuido-a-las-farc-en-el-cesar/

Lutemos pela liberdade dos 7.500 presos políticos que há na Colômbia, assim como pela Comandante Sonia e os Comandantes Simón Trinidad e Ivan Vargas, extraditados aos Estados Unidos para que sejam trazidos de volta para Colômbia.


sábado, 3 de setembro de 2011

Alfonso Cano, Comandante das FARC responde a jornalista espanhol

- São a guerrilha mais antiga do mundo. Continuam actuais os motivos pelos quais começou a luta armada ou eles mudaram com o tempo?

AC: Nestes 47 anos, desencadeou-se uma vertiginosa transformação na ciência e na tecnologia, aumentaram as taxas de crescimento económico em muitos países, entrou em colapso o modelo soviético de construção socialista e a explosão incontida da República da China, no entanto, apesar de tudo isto e muitos outras novidades transcendentes, a fome cresceu no mundo, a injustiça, a desigualdade social e os conflitos persistiram e cresceram, enquanto cerca de 10 mil indivíduos, terrivelmente ricos, decidem o destino de milhares de milhões de pessoas. As FARC nasceram resistindo à violência oligárquica que rotineiramente utiliza o crime político para liquidar a oposição democrática e revolucionária; também como resposta popular à agressão dos latifundiários e proprietários, que inundou de sangue o campo colombiano ao invadir terras de camponeses e colonos, e nascemos também como rejeição, digna e beligerante à intervenção do governo dos Estados Unidos no confronto militar e na política interna do nosso país. Três razões principais que desenvolveram as FARC, conforme descrito no Programa Agrário de Marquetalia elaborado e divulgado em 1964. Um olhar superficial sobre a situação na Colômbia, em Maio de 2011, mostra que, apesar do contexto internacional descrito acima, esses três factores germinais persistem e aumentam até hoje.

- Acha que é possível abrir um processo de negociação com o presidente Juan Manuel Santos?

AC: Com os esforços conjuntos de muitos sectores progressistas e democráticos interessados numa solução sem sangue para o conflito, é sempre possível construir cenários e iniciar conversações directas com qualquer governo, incluindo o presente, apesar de que este, no começo do seu mandato, reduziu as possibilidades ao impor uma lei que fecha as portas ao diálogo dentro do país. Mas estamos optimistas sobre a possibilidade de fazê-lo.

- Na recusa do Governo em aceitar trocas de reféns por guerrilheiros presos, quais são seus planos para os reféns ainda mantidos pelas FARC?

AC: Penso que você se está referindo aos prisioneiros de guerra em nosso poder, porque uma abordagem imparcial, rigorosa e objectiva do assunto num confronto político, social e militar de 47 anos, em que se enfrentam dois adversários, deve referir-se aos prisioneiros de guerra capturados pelas partes no confronto, certo? A recusa do governo actual para a troca não tem de fazer recuar o desejo de ter connosco, livres os camaradas actualmente prisioneiros, e fazer voltar para suas casas os soldados e policias capturados em combate, que temos em nosso poder, cujas famílias também esperam tê-los de volta. Acima da indiferença do Estado sobre os seus próprios soldados, vamos perseverar. Sabe-se que enquanto um confronto perdurar haverá prisioneiros mantidos pelas partes.

- O Comité Internacional da Cruz Vermelha é uma entidade neutra responsável por assegurar o cumprimento do direito internacional humanitário. No seu último relatório indica que "enquanto as partes em conflito actuam em frentes de combate em áreas rurais, a população que vive nestas áreas vive em constante perigo e exposta a violações dos Direitos Humanos, como assassinatos e / ou ataques a pessoas protegidas pelo DIH, desaparecimentos forçados, violência sexual, sequestros, recrutamento forçado, maus tratos físicos e/ou psicológicos, e deslocamento forçado. A falta de respeito pelo princípio da distinção entre combatentes e civis, as pressões para colaborar gerando represálias directas contra civis, a ocupação de bens públicos ou privados e a contaminação por armas são outros factores agravantes que afectam a vida das comunidades". Quais dessas violações são cometidas pelas FARC?

AC: Para ser objectivo teria de referir um por um os casos relatados pelo CICV e como este não é o espaço certo, posso comentar que, para nós, o mais importante da nossa luta é a população, não só por razões de princípios políticos e ideológicos, mas práticos, da guerra. Apenas na medida em como respondemos às necessidades objectivas da população em cada área, nós podemos resistir, crescer e avançar. Caso contrário é impossível.

Anos atrás, e dada a intensidade dos combates, difundimos normas de comportamento para que os civis não permitissem o seu uso como escudo pelas forças de segurança que construíram quartéis no meio de aldeias, usam o transporte público para os seus movimentos, intercalam comboios militares no meio de transporte civil para viagens por estrada, pernoitam em escolas e colégios, e assim por diante, práticas que a força pública utiliza, criando riscos para a população.

Eventualmente, as nossas unidades podem violar regras, mas como somos governados por leis, normas e regulamentos de um rigoroso regime disciplinar, fundamentados numa concepção revolucionária da vida, que harmonizam as relações entre combatentes e também das nossas com a população civil garantindo um profundo relacionamento sincero, harmonioso e forte, nós tomamos as medidas correctivas que indicam os nossos documentos.

Com respeito aos direitos individuais, DIH e seus protocolos adicionais, mantemos algumas reservas porque, às vezes em certas situações dificultam a aproximação, dado que foi concebido e projectada para conflitos entre nações e, apesar de os protocolos adicionais, nem sempre proporciona o justo equilíbrio. Por exemplo, qualificar como "execuções extrajudiciais" a assassina, criminosa e sistemática prática das Forças Armadas oficiais da Colômbia nos últimos 63 anos, matando civis, vestidos com roupas militares e colocar armas nos seus cadáveres para fazer passá-los por guerrilheiros, “baixas em combate”, num país que se ufana de ser um Estado de direito e cuja legislação não contempla a pena de morte, permitiu um tratamento benigno aos criminosos, que tem escamoteado uma condenação drástica, vertical, clara e oportuna do terror desenvolvido pelo Estado colombiano há mais de 47 anos.

A regra sobre o uso de armas não convencionais, é uma regulamentação para a guerra entre as nações que não pode abarcar a movimentos populares como o nosso, que foi montada desde o início com paus e facões para se defender contra a agressão urdida e executado pelo Estado com a contribuição militar, financeira e tecnológica da Casa Branca. Equivale a repreender o David bíblico porque usou pedras para se defender contra a agressão do gigante Golias.

Seria útil trabalhar um cenário internacional para analisar, a partir de perspectivas diferentes, estas situações e outras do mesmo teor e trocar ideias sobre a "neutralidade" que, acima de qualquer consideração, devem manter aqueles que se afirmam os seus garantes.

- As FARC fazem uso de minas anti-pessoal, entre outras coisas contra as operações de erradicação manual de cultivos de coca. Por que continuar a usar uma arma proibida pelo direito humanitário e todos concordaram em 1998 em erradicar através do Tratado de Ottawa ou da Convenção sobre a proibição de minas terrestres?

AC: Reitero que no armamento utilizado pela guerrilha na sua luta de resistência, na irregularidade da sua táctica e, como consequência da assimetria que caracteriza um confronto como o colombiano, será necessário que num cenário internacional amplamente representativo, é claro que com a presença de guerrilha revolucionária, nos preocupemos em resolver esta questão objectivamente, sem mentiras, procurando conclusões realistas que todos possamos acatar rigorosamente, incluindo os governos. É ridículo, para o qualificar de alguma maneira, que quando o governo colombiano lança operacionais contra insurgentes numa proporção de 100 soldados para cada guerrilheiro, com bombardeamentos da guerrilha com milhares de toneladas de pentolite, realizados por uma aviação equipada com foguetes de todos os tipos, metralhados por centenas de helicópteros gringos e russos da ultima tecnologia, bombardeados com morteiros de 120 mm, em seguida, venham logo os comandos militares queixar-se e denunciar, que muitas de suas unidades caíram em campos minados num teatro de operações tão desigual. Ou, como acontece, é criminoso forçar civis a servir como guias com consequências muitas vezes infelizes para aqueles que são forçados. Ou, como em outras ocasiões, é perversamente fariseu dar dinheiro a civis para actuar como informadores, que à procura de informações, são muitas vezes vítimas do confronto.

Certamente ninguém pode poupar esforços para separar a população civil do conflito. Este deve privilegiar cada um dos eventos cometidos como parte do conflito, mas como entender isso no caso da Colômbia, onde o governo nacional desencadeou uma intensa campanha para recrutar civis como informadores, em troca de dinheiro, integrando-os num dispositivo chamado Rede de Cooperantes? Estarão aderindo às regras do direito internacional humanitário? Ou há uma contradição entre seu discurso maniqueísta em relação aos padrões internacionais e as políticas que desenvolve? São muitas as questões a serem actualizadas numa reunião de actualização do DIH, na qual seria vital a participação dos Estados Unidos da América para também analisar a síntese entre as exigências que faz ao resto do mundo com respeito aos direitos humanos e a sua prática diária e universal.

- As FARC têm futuro, se se mantiverem à margem do comércio de drogas? Que relações têm agora com o cultivo e tráfico de drogas? É hoje a sua principal fonte de financiamento? Qual a receita anual?

AC: A nossa luta para ficar fora do tráfico de drogas não tem sido fácil, porque nos últimos 30 anos, a Colômbia tem sido permeada e contaminada, dos pés à cabeça, pelos dinheiros da droga: as instituições do Estado, sem excepção, a indústria, a bancária, o comércio, a política, o desporto, a agricultura, o entretenimento, as forças militares e policiais, a Igreja e, em geral, o conjunto do tecido social.

A guerra contra as drogas ordenada pela Casa Branca tem sido um fracasso, especialmente na Colômbia, pois deixou um rastro de sangue enorme, desintegração social e perda de valores substantivos da ética e da moralidade, enquanto a área plantada com coca oscila pendularmente entre os 90 mil e 180 mil hectares e o país continua a liderar o tráfego mundial, de acordo com relatórios de várias organizações internacionais.

Desde há muito tempo que temos manifestado a nossa concordância com a legalização ou despenalização que desde os tempos do Nobel americano laureado Milton Friedman, até à data, incluindo quatro ex-presidentes latino-americanos e muitos indivíduos e organizações em todo o mundo, é promovida como uma saída realista para liquidar os enormes lucros deste tráfego, gerir o seu uso crescente como um problema de saúde pública e desenvolver estratégias de prevenção com a certeza da sua superação definitiva.

Na época do Caguán, em sessão especial para embaixadores e representantes de vários países e organizações multilaterais, apresentamos um plano detalhado para experimentar numa área delimitada uma estratégia de substituição de cultivos para desencorajar os produtores de coca e isso iria contribuir para a criação de certas alternativas económicas. Muitos traficantes de drogas e líderes políticos dos partidos do governo chumbaram a proposta e frustraram-na.

O tráfico de drogas não é um problema das FARC. É um fenómeno nacional, da América Latina e do mundo, o qual se tem que enfrentar com uma estratégia racional e convergente liderada pelos primeiros responsáveis e também as principais vítimas deste tipo de câncer: os países desenvolvidos.

Eu queria ser taxativo nisto: nenhuma unidade fariana, de acordo com os documentos e decisões que nos regem pode plantar, processar, trocar, vender ou consumir substâncias alucinogeneas ou psicotrópicas.
Tudo o resto que se diga é propaganda.

- Fora do tráfico de drogas, como são financiadas as FARC?

AC: As FARC-EP têm três fontes básicas de financiamento: as contribuições de amigos e apoiantes que acreditam sinceramente no compromisso revolucionário das FARC e na causa pela qual lutamos; impostos que cobramos aos ricos através da Lei 002 e as rendas geradas por investimentos que mantemos.

- As FARC sofreram os seus mais duros golpes durante o governo Uribe, como a Operação Jaque, a Operação Fénix, a Operação Camaleão. Em que situação se encontra a guerrilha? Quais são os seus efectivos e que território controla?

AC: Para ser honesto o golpe mais sério e mais substancial que recebemos foi após a segunda conferência da guerrilha realizada em 1966, no departamento de Quindío, onde perdemos uma grande quantidade de combatentes e 70% das armas. Só após a quinta conferência, muitos anos depois, o comandante Marulanda poderia dizer: "Finalmente recuperámos do mal que quase nos liquidou."

Operativos como Jaque, desenvolvido a partir da traição do chefe da unidade de guerrilha que vendeu os prisioneiros de guerra sob sua custódia, não possuem as conotações propagandeadas pelo governo. Temos resgatado inúmeras vezes os nossos prisioneiros das prisões do Estado. São acções de guerra que obrigam as partes a tomarem novas medidas de segurança. Não modificam a concepção nem os desenhos operacionais, e muito menos a estratégia operacional de nossas forças.

Nos últimos nove anos, e, como resultado da maior ingerência militares dos EUA nos assuntos internos da Colômbia, a guerra intensificou-se. Temos sofrido golpes. As mortes de Raúl, de Jorge, de Ivan Ríos e de muitos camaradas, doem-nos e geram a dor revolucionária que desencadeia, imparável, maior compromisso com os nossos ideais do socialismo. Já a assimilamos. Com o legado e o exemplo de nossos heróis e mártires, as novas gerações tomam o seu lugar na trincheira, novas gerações de revolucionários dispostos, como os mais velhos, a dar tudo, até a vida, pelos objectivos da Nova Colômbia.

Mas sabemos que em toda a guerra existem mortes, em ambos os lados, e a Colômbia não é excepção.

Também estes nove anos, têm mostrado a dimensão e a qualidade do compromisso das FARC com os nossos ideais de mudança e transformação revolucionária. Como é evidente também temos atingido as forças militares e paramilitares do Estado, as institucionais e as para-institucionais, todas, incluindo aquelas que atiram a pedra e escondem a mão, que cinicamente dizem desconhecer a estratégia dos "falsos positivos", que negam nos media a sua conivência com o narcoparamilitarismo, mas lhe abrem na escuridão da noite as portas secretas de seus palácios, mansões e fazendas para conspirar contra a convivência, a democracia e contra o povo.

As FARC mantêm a sua influência, sólida influência, nas áreas onde existem, em todos os cantos do território nacional, nascida e enraizada na correcção da nossa abordagem política, no nosso trabalho e apoio permanente às comunidades, no respeito por todas e pela nossa autoridade, decorrente do compromisso sincero de quem não pretende nada em troca do seu esforço, excepto a satisfação de trazer a esperança ao povo na sua própria capacidade de mobilização, organização, luta e seu futuro bem-estar.

Não posso comentar sobre quantas unidades compõem as FARC-EP, porque somos uma organização irregular. Mas, temos acções, trabalhamos e lutamos em todo o país.

- O que há de verdade sobre o suposto conteúdo do computador de Raúl Reyes?

AC: Os elementos que poderiam ter continuado a trabalhar após o bombardeamento do camarada Raul e sua guarda, foram manipulados pelo governo. Nem a própria INTERPOL quis comprometer-se com a truculência de Alvaro Uribe e declarou publicamente após uma análise detalhada, que havia sido quebrada a cadeia de segurança, o que significa, em linguagem simples, que depois da morte de Raul o conteúdo do disco rígido "sobrevivente" foi manipulado, se é que existia ainda depois de tal inferno de explosivos. Tratava-se de inventar e torcer eventos para chantagear as FARC e muitos amigos da paz na Colômbia com esse estilo particular que caracteriza o Sr. Alvaro Uribe e que impôs ao seu governo. Esta semana, a Suprema Corte declarou ilegal qualquer prova levantada sobre os computadores de Raul Reyes precisamente porque eles manipularam os materiais supostamente encontrados e desvirtuaram-se os procedimentos judiciários.

Curiosamente, não foi divulgado nenhum relatório, que o comandante devia conservar, por exemplo, sobre pagamentos a oficiais superiores da polícia, os generais de hoje, que fez o traficante Wilber Varela e que comentou pessoalmente e com detalhes a um dos nossos comandantes no Valle del Cauca coronel Danilo Gonzalez, o qual ainda na actividade, procurou as FARC pretendendo a libertação de alguns suspeitos, que tínhamos retido; nem se mencionaram relatórios precisos sobre o uso pleno da DAS pelos paramilitares, com pleno consentimento do então Presidente, ou de reuniões, de uísque na mão, em Bogotá, de chefes paramilitares com altas personalidades para planejar ataques à esquerda, nem outras que tornariam muito extensa esta entrevista e que, certamente, não incluíram nas cópias que foram dando a alguns de seus governos amigos, à CIA, ao MI5 e ao MI6 britânicos, à Mossad israelense e outras histórias improváveis que continuam publicitando através das suas organizações de bolso.

- Você acha que o processo de desmobilização paramilitar impulsionado pela lei de Justiça e Paz tem sido bem sucedido? Qual é a sua opinião sobre este processo?

AC: Esse processo foi planeado e executado como uma farsa para branquear os verdadeiros líderes do paramilitarismo logo que Alvaro Uribe, um deles, ganhou as eleições presidenciais em 2002.

Como cobertura, eles usaram narcotraficantes e pistoleiros como líderes da contra-insurgência, a quem prometeram estatuto político e respeito por suas incalculáveis fortunas. Logo os descartaram numa história que se repete, onde a aristocracia e alguns infractores procuram o poder e riqueza utilizando criminosos e bandidos, que são posteriormente condenados, presos ou enviados para assassinar, num repetido espectáculo de escárnio público.

O país sabe que o paramilitarismo é uma estratégia do estado para assassinar sistematicamente adversários, procurando esconder o sangue que mancha as principais instituições públicas, por trás de bandos de sicários e criminosos da aparência civil.

A oligarquia colombiana, impotente na luta contra o progresso da acção revolucionária, entregou-se à prática paramilitar, à qual, no final da década de 70, articulou com o nascente narcotráfico, dando origem ao narcoparamilitarismo, elogiado e consentido socialmente pelos poderosos durante largos anos, que agora estão lutando para escapar do estigma e lavar as suas próprias porcarias.

Traficantes que acreditaram em suas palavras foram exibidos e promovidos como grandes líderes contra revolucionários e logo de seguida extraditados para os Estados Unidos, a fim de silenciá-los. Mais tarde, quando desde lá e sob a pressão das vítimas chegaram a confessar a sua vilania, a mencionar os seus amigos, parceiros, contactos, padrinhos políticos e militares, a oligarquia usou os seus meios de comunicação para semear a dúvida: como acreditar num criminoso e não num aristocrata, num político tradicional ou num prestigioso general das Forças Armadas?

A lei de justiça e paz, tem sido uma grande farsa, que passou pela venda de títulos como "comandantes paramilitares" para assassinos narcotraficantes, também passou pelas fotos de "desmobilizações" de desempregados e bandidos contratados para a ocasião, com espingardas e armas compradas para a fotografia, e terminará com a absolvição de Alvaro Uribe, na comissão de acusações da Câmara dos representantes do Parlamento colombiano, excepto se os milhões de afectados por esta estratégia criminosa imprimirem uma maior dinâmica aos seus esforços e lutas e receberem uma maior solidariedade global. Somente desta forma, na Colômbia, como sucedeu na Argentina e outros países também se poderão condenar os autores e mandantes da noite negra e sangrenta em que mergulhou o país.

- Por que faz sentido a luta armada das FARC e não a defesa através de meios democráticos dos ideais políticos e das transformações económicas que consideram necessárias?

AC: Porque na Colômbia a oposição democrática e revolucionária é assassinada pela oligarquia. O massacre da União Patriótica é a nossa demonstração.

Qualquer líder ou qualquer organização não oligárquica que ameace os poderes oligárquicos é assassinado ou massacrada, como parte de uma estratégia oficial de Segurança Interna. Os poderosos instituíram-na como característica da sua cultura política e agora incorporaram-na na concepção do Estado.

Longas passagens da história nacional que remontam a Setembro de 1828 quando facções pró-gringas colombianas de então atentaram contra o Libertador Simon Bolívar, até anos recentes, passando pelo assassinato do Grande Marechal de Ayacucho António José de Sucre, o líder liberal Rafael Uribe Uribe, de Jorge Eliecer Gaitán, de Jaime Pardo Leal, de Luis Carlos Galan, e Bernardo Jaramillo Ossa, de Manuel Cepeda Vargas e centenas de outros líderes, parecem ratificar uma afirmação popular: a oligarquia colombiana não entende senão a linguagem dos tiros.

Aqui nas FARC pensamos que, apesar da histórica agressão contra o povo que caracteriza o futuro da nação, é realista e urgente trabalhar na construção de espaços de convergência, onde, entre todos os colombianos construamos os acordos que sustentem a vida democrática. O comandante Jacobo Arenas insistiu em que o destino da Colômbia não poderia ser a guerra civil, portanto, nós temos lutado e lutamos de novo, para encontrar a solução com diferentes governos, a saída política para o conflito colombiano. Não foi alcançado porque a oligarquia pensa em rendições e nós em mudanças de fundo, democráticas da vida institucional e das regras de convivência, mas nem por isso deixaremos de combater por uma solução sem derramamento de sangue como essência da nossa concepção de apoio revolucionária e sustentada de uma Nova Colômbia.

- Que lições tiraram da criação do partido União Patriótica?

AC: Foi uma experiência tanto cheia de riqueza como dolorosa, que devemos analisar e referir constantemente. De entre as suas muitas lições poderia citar algumas como o difícil que é avançar num processo de resolução política, quando a oligarquia colombiana mantém sua estratégia de paz dos cemitérios e Pax Romana, pois contra este projecto mostrou a sua mesquinhez e foi essencialmente sanguinária e cruel. Preferiu o assassinato de cerca de 5.000 dirigentes democráticos e revolucionários numa razia de recorte hitleriano, do que abrir espaços para todas as vertentes da esquerda, o que, se tivesse acontecido, teria gerado uma nova dinâmica no confronto político e tornado possível a realização integral dos Acordos de La Uribe há 25 anos.

Com o extermínio da UP não só se perdeu uma geração quase completa de líderes revolucionários, a maioria deles de grande dimensão política e ética, cuja ausência, hoje, é evidente na cena pública, tanto da nação como do continente, como também frustrou por muitos anos, a possibilidade de assinar um acordo de convivência.

A experiência da UP ensinou-nos que qualquer progresso em direcção da paz que surja de acordos exige transparência, que cada dificuldade deve ser esclarecida antes de empreender uma nova etapa. Os Acordos de La Uribe, a origem da UP, foram sabotados pelo Comando militares desde o primeiro momento, apesar do que, lutámos como Quixotes, para fazer avançar todos estes acordos,.

Mas alcançar a assinatura dos acordos de paz em La Uribe em 1984 e assegurar o seu cumprimento integral até ao fim foi impossível. Os colombianos empreenderam com grande optimismo e maior entusiasmo uma histórica jornada para a convivência, mas perderam essa batalha civilizada contra a "inimigos agachados da paz ", que hoje já não se escondem tanto.

Um processo de paz bem sucedido, tem como premissa inevitável o apoio, completo, determinado, claro e activo, da maioria da população.

Não tenho a menos dúvida de que as novas gerações de colombianos, num futuro próximo, irão homenagear e reconhecer os mártires da União Patriótica que "de peito descoberto" lutaram por um país melhor para seus filhos, pela democracia e a convivência, com uma generosidade, um desprendimento e uma valentia exemplares.

- Destacados líderes da esquerda colombiana disseram ao Público que acreditam que a existência como guerrilha das FARC é responsável pela "direitização extrema" da sociedade colombiana, já que "esquerda" se associa a guerrilha. Você concorda?

AC: Digamos genericamente, que se está à esquerda, se for dada prioridade ao social, à democracia popular e às mudanças revolucionárias, em oposição aqueles que privilegiam o lucro económico, a hegemonia burguesa e a defesa do status quo. Não se trata apenas de estar do lado esquerdo da direita, mas de defender integralmente os interesses de classe, populares. Plenamente.

Faço um parêntesis para lhe dizer que não ouvi nenhum líder proeminente, de esquerda, dizer o que você menciona na sua pergunta.

Na Colômbia há muitos, muito importantes e muito consequentes, que com enorme responsabilidade discordam da luta armada revolucionária, se afastam dela, mas compreendendo as suas circunstâncias históricas, trabalhando para encontrar os caminhos de uma solução política, respeitando o compromisso dos que lutam na guerrilha e priorizando os seus debates contra a oligarquia e contra o neo-colonialismo imperial, verdadeiros geradores da violência na Colômbia.

Por certo há aqueles que fizeram campanha do lado da esquerda e já não defendem suas posições originais, mas as do regime, como em muitas partes do mundo. Há que respeitar as suas novas posições, mas sem os registar como defensores dos interesses do povo ou colocá-los à esquerda no xadrez político.

Também pode dar-se o caso dos que procuram esconder os seus próprios fracassos, atrás dos esforços dos outros.

A nossa luta desde Marquetalia é pela democracia, pela possibilidade de desenvolver uma acção de massas, aberta, pelas mudanças revolucionárias e pelo socialismo. E esta opção, é a que tem sido sabotada a tiro pela oligarquia colombiana.

Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado, legislaram com o anti-comunismo como suporte durante a ditadura militar, criaram a Frente Nacional bipartidária para excluir e perseguir os revolucionários, e aprovaram uma constituição em 1991, com elementos positivos na sua concepção e texto, mas deixando intacto o conceito de segurança nacional do inimigo interno que se mantém desde há pouco mais de 47 anos no nosso país, a mesma dos paramilitares e dos falsos positivos.

A direita na Colômbia e no mundo, faz propaganda e espalha os seus pretextos, reais ou fictícios, para confundir, atacar e desvirtuar as lutas dos povos pelo bem-estar e o progresso social. E usa uma variedade de formas, incluindo muitos que foram militantes da esquerda.

Nos tempos que correm, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, não há confusão possível. Aqueles que defendem a ordem existente, não o podem esconder.

O confronto na Colômbia prolongou-se muito. Lutar e clamar pela paz é uma expressão de um sentimento profundamente popular e revolucionário.

- As FARC assinaram um pacto de não agressão com a guerrilha do ELN, em Dezembro de 2009. Que obstáculos têm havido na sua implementação?

AC: Tanto o Comando Central do ELN como o Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP, temos reconhecido com sentido de autocrítica, o erro que significou não parar drástica, nítida e oportunamente as fricções que estavam ocorrendo em várias áreas do país entre combatentes das duas forças.

Agora trabalhamos com grande convicção revolucionária em todas estas áreas para superar definitivamente as asperezas, os mal-entendidos, as emulações mal feitas e os confrontos. É um processo complexo, dada a conjuntura actual, de intenso clima de confronto político e militar com o Estado. Mas vamos avançando com solidez.

A auto-crítica é profunda e nós estamos a fazê-la. Leva tempo, há muito terreno a percorrer, mas avançamos com firmeza, com consciência, em todos os níveis das nossas organizações, de que somos parte do mesmo contingente de luta popular, revolucionária, bolivariano, anti-imperialista e socialista. E este é o fundamento da maneira como nos relacionamos, as convergências que devemos trabalhar e lutar para elevar a novos níveis a necessária estratégia unificada dos revolucionários colombianos.

Tomámos o legado de um grande revolucionário, o sacerdote Camilo Torres Restrepo para enfatizar o que nos une. As diferenças devem ser arejadas com mecanismos que estamos criando para isso.

Estamos obrigados a ser um exemplo de unidade. E maturidade. Assim também contribuiremos para a unidade do povo colombiano, projectando na realidade a prioridade "do bem comum" acima de qualquer interesse particular.

Ainda temos um longo caminho, mas já o começámos. E isso é o estratégico.

- De acordo com uma ordem do Supremo Tribunal dois testemunhos de ex-membros das FARC envolvem o exército de Hugo Chávez nos cursos de formação que a ETA deu aos guerrilheiros colombianos em território venezuelano. Os relatos dos arrependidos fazem parte de um relatório do Comissariado Geral de Informação da Polícia. Na secção dedicada aos "factos" descreve-se como em Agosto de 2007, dois supostos membros da ETA ministraram na selva venezuelana dois cursos sobre manipulação de explosivos à guerrilha das FARC. As FARC tiveram no passado relações com a ETA? Mantêm relacionamento no presente e, em caso afirmativo, em que consiste?

AC: A experiência das FARC em explosivos, tanto no seu fabrico, como no seu armazenamento e utilização é longa e abundante, o que, desde há muito tempo nos permite sustentar-nos sem recurso a qualquer tipo de ajuda, simplesmente porque não temos necessidade. Temos os nossos próprios instrutores. É simples. Isto para rejeitar as afirmações sobre tais cursinhos com pessoal estrangeiro que só visa prejudicar o governo bolivariano da Venezuela.

Na Colômbia, a partir do oferecimento de dinheiro, viagens para a Europa e de considerável redução de sentenças, alguns desertores, prestaram-se a testemunhar contra nós e a promover as políticas nacionais e internacionais do governo de Alvaro Uribe. Mas como a mentira não dura, as montagens que fabricaram a partir de milhares de falsos testemunhos estão-se desmoronando. Todas caem como um castelo de cartas.

Por exemplo: actualmente decorrem investigações criminais e administrativas, do Procurador e da Procuradoria Geral da República contra funcionários do governo Uribe e altos oficiais militares da época, pelas comédias que montaram, farsas, falsas deserções cheias de infames afirmações, como parte da sua ofensiva contra as FARC.

O mundo está-se inteirando de como em Tolima foram recrutados bandidos e desempregados, com quem "formaram" uma coluna de guerrilheiros, vestidos com uniformes militares, alguns com velhas espingardas e outros com armas de madeira. Chamados os jornalistas foram tiradas fotos, peroraram uma diatribe, deram algum dinheiro aos farsantes, vilipendiaram muitos cidadãos, que foram presos, e depois, felizes, incluindo o então presidente, certificaram que o final do fim estava próximo.

Dissemos que esta era uma tendência geral do anterior governo colombiano: tentando impor as suas políticas fascistas, levantou todo o tipo de barreiras morais, legais, éticas para se conceder a licença para difamar, caluniar, mentir e inventar. Valeria a pena a justiça espanhola verificar e confrontar exaustivamente a informação que foi fornecida no momento.

As nossas relações, neste momento, têm carácter clandestino, com muitas organizações democráticas e revolucionárias do mundo, civis e armadas, são regidas pelas conclusões das Conferências da Guerrilha que, como eu disse, orientam sobre o não desenvolvimento de acções militares em outros países, respeitando a soberania de cada país e as lutas de cada povo.

- É verdade que as FARC pediram apoio à ETA para atentar contra várias pessoas, incluindo o presidente Alvaro Uribe, quando ele visitou a Espanha ou a UE?

AC: Essa é a propaganda que fez o mesmo Uribe, na Colômbia e no exterior, para projectar uma imagem de vítima.

- As forças de segurança espanholas prenderam Remedios Garcia Albert, que consideram ligada às FARC. Têm as FARC ligações com Remedios Garcia Albert? Se sim em que consistem?

AC: Não conheço vínculos de Remedios Garcia com as FARC. A única referência é uma menção das autoridades colombianas num jornal, durante o período de incontinência propagandística que atacou o governo em volta do suposto computador do comandante Raul Reyes. Nunca, nem antes nem depois ouvi o nome dela. Eu diria, se para alguma coisa serve, que nos tempos de negociações de paz em Caguán, grande quantidade de pessoas de todo o mundo, individualmente ou como representantes de muitas organizações diversas ou governos, estiveram presentes e compartilharam pontos de vista com os nossos representantes sobre o processo que decorria. Eu não poderia acrescentar mais nada sobre isso.

- Qual é a relação com os governos de Cuba, Venezuela e Equador?

AC: Se me permite, preferia abster-me de responder acerca das nossas relações com qualquer governo no mundo.

- Acham que a Espanha pode desempenhar um papel na resolução do conflito colombiano? Qual?

AC: Nós sempre encaramos de forma positiva a participação da comunidade internacional na resolução política do conflito. Mas dadas as suas características actuais e as permanentes e agressivas declarações oficiais, é necessário dar tempo ao tempo.

- O que sabe dos falsos positivos? Por que as FARC não fizeram mais revelações sobre este assunto?

AC: A matança sistemática de civis indefesos pelos militares e policiais, e sua posterior apresentação como "guerrilheiros mortos em combate" é uma prática institucional na Colômbia desde 1948.

Não é nova. É parte de uma guerra suja feita pelo governo colombiano contra o "inimigo interno", que também concebe e implementa o assassinato selectivo de líderes políticos da oposição, dirigentes sindicais comprometidos com os trabalhadores, o desaparecimento de militantes revolucionários, a tortura, o terror e massacres para intimidar e criar o medo, a paralisia, o pânico e o deslocamento.

Tudo isto tem sido denunciado e continua a ser. Existem centenas de livros, milhares de denúncias, milhares de evidências e de provas que mostram a responsabilidade do estado da Colômbia no desenvolvimento desta estratégia, só que até agora, a comunidade internacional aceita a versão oficial que aponta como factos isolados sob a responsabilidade de algumas maçãs podres, esta criminosa prática institucional.

Há centenas de milhares de vítimas civis da guerra suja que o regime levou a cabo, segundo afirma, "em defesa das instituições e do Estado de Direito". Em meados dos anos setenta, a estratégia de oligárquica de terror fundiu as suas práticas paramilitares com o tráfico de drogas, sob a direcção e liderança de empresários poderosos, figuras proeminentes na política tradicional e os altos comandantes militares, com o objectivo de reforçar os seus crimes e acumular dinheiro proveniente do tráfico de drogas, mas escondendo seus verdadeiros chefes e orientadores.

Hoje, muitas evidências começaram a surgir, a partir das farsas das prisões atribuídas aos militares e políticos responsáveis por crimes hediondos, passando por usurpações maciça de terras por proprietários, militares, industriais e os líderes de partidos tradicionais, acordos políticos encharcados de sangue entre chefes e traficantes, o enriquecimento desmesurado e inusitadamente rápido de um pequeno sector social ligado aos vários governos destes anos, infiltrado quase sem excepção por dinheiro mafioso e ao seu serviço. até ás ligações do governo com esta estratégia, por enquanto visualizada em duas das suas "eminentes" cabeças, o Sr. Narvaez e Alvaro Uribe Velez.

E ainda que até hoje não haja militares condenados pelos chamados "falsos positivos", a sociedade avança na luta para chegar ao fundo do problema, avaliar cada situação com precisão, para punir os autores materiais e os autores intelectuais e mandantes, o que inevitavelmente, chegará aos regulamentos militares existentes, inspirados, concebidos e desenhados a partir da perspectiva de Segurança Interna apresentado por Washington desde os tempos da Guerra Fria, que foi um dos assuntos tabu na Assembleia Constituinte de 1991 e causa subjacente dos milhares e milhares de mortos todos estes anos. A Colômbia perdeu muito tempo por esse veto imposto pela oligarquia nas discussões daqueles anos.

Tamanho erro não se pode repetir. As soluções que requer o nosso país são estruturais, se queremos a reconciliação na base certa e não cerzindo outro remendo como o de 1991. Por isso, também é importante que, se construirmos um novo cenário baseado na solução sem derramamento de sangue em algum ponto se podem incluir representantes da força publica, onde certamente muitos de seus membros, sem responsabilidade na baixeza da guerra suja, também estarão clamando pela reconciliação e reconstrução nacional.

- Depois da morte de Jorge Briceño num atentado em 22 de Setembro [2010], o presidente Santos reiterou que agora estava à vista o fim das FARC. O que acha disso?

AC: Desde 1964 que temos conhecimento de tal declaração oficial da boca de vários presidentes e ministros de guerra, às vezes ameaçadores, outras vezes na forma de promessas e outras como ameaça, sempre com a intenção de esconder as raízes do conflito que tornou necessária a existência das FARC.

Assim têm justificado a violência terrorista do Estado.

Assim, ano após ano, têm aumentado o orçamento militar e da polícia, para deleite dos generais e senhores da guerra.

Assim, eles têm escondido durante muito tempo a sua própria incompetência, intransigência e corrupção profunda que corrói as instituições oficiais.

Assim pretendem cobrir a sua vergonhosa e humilhante postura de joelhos perante o Pentágono e a Casa Branca.

Apesar de não nos dedicarmos seriamente, entre todos, à procura das soluções para os problemas estruturais do país, a confrontação será inevitável. Umas vezes mais intensa, outros menos. Às vezes, com a iniciativa militar do Estado, outras, com a iniciativa popular, numa trágica ciclotimia que devemos superar, inteligentemente, com grandeza histórica.

Como o confronto continua, haverá mais mortes. Em ambos os lados. Mais tragédias para o povo. E não haverá paz nem convivência na Colômbia.

Não se trata da morte de um ou outro comandante guerrilheiro. O conflito não é tão fácil ou simples. As circunstâncias históricas do país são particulares. A existência de guerra de guerrilha revolucionária na Colômbia não é um resultado do voluntarismo de um punhado de valentes ou de aventureiros, de "terroristas", ou "narco-terroristas". Tais adjectivos podemos deixá-los para a propaganda oficial. A insurgência colombiana reflecte a súmula de uma série de diferentes factores estruturais que os governos não podem teimosamente e criminosamente, continuar a ignorar.

A oligarquia colombiana formou umas forças armadas de mais de 500 mil homens num país de cerca de 45 milhões de pessoas com enormes necessidades e carências. Inaudito! Quase um quinto do orçamento nacional do próximo ano é para gastos militares. Investiu-se cerca de 10 mil milhões de dólares de ajuda dos EUA ao abrigo do Plano Colômbia, para uma guerra fracassada. No entanto, o confronto continua.

Quando eles bombardearam o acampamento do comandante Jorge Briceño, com quase uma centena de aeronaves que deixaram cair milhares e milhares de toneladas de explosivos durante muitos dias, num inferno dantesco, instalaram na periferia do local tendas com espelhos e presentes, alimentos e roupas novas, sapatos, Reebok e Nike convidando os guerrilheiros por meio de alto-falantes durante semanas, à traição e deserção.

Tudo o que obtiveram foi uma resposta militar da guerrilha heróica, cheia de consciência moral e revolucionária, que produziu centenas de baixas na força de ocupação e o afluxo maciço de novos guerrilheiros à região e muitas outras zonas do país.

A aproximação à paz democrática, a convivência e a justiça social não pode ser medida em litros de sangue. Sabe-o o país e, claro, o presidente Santos.

- No seu último relatório, a ONG colombiana Nuevo Arco Iris, que acompanha o desenvolvimento do conflito militar cruzando informação oficial e de analistas, embora reconhecendo a supremacia aérea do governo, disse que o combate em terra lhe é reconhecidamente adverso. Quais são os resultados reais desse confronto?

AC: Gostaria de observar que todos os dias há combates e actos de guerra entre a guerrilha e a força publica institucional na maior parte dos 32 departamentos do país, onde se obtêm vitórias e às vezes se recebem golpes, num confronto que se prolongou no tempo e em que a iniciativa militar se altera ao longo do tempo em diferentes áreas, mas não de forma estratégica. Os relatórios militares que trazemos a público, quantificam os efeitos da guerra no nosso adversário e nas nossas próprias fileiras com números irrefutáveis.

Gostaria de destacar que a ofensiva oficial lançada há mais de 11 anos a partir do chamado Plano Colômbia, projectado no Pentágono, dirigido e financiado por eles e alimentado incansavelmente por armamento da última geração a partir de Washington, fracassou. É a operação de contra-revolução maior e mais avançada e longa no continente e é também a maior demonstração de que a solução do conflito na Colômbia não passa pela Pax Romana.

- Quais as condições que exigem hoje para desmobilizar?

AC: Desmobilização é sinonimo de inércia, é entrega covarde, é rendição e traição à causa popular e às ideias revolucionárias que cultivamos e lutamos pela transformação social, é uma indignidade que tem implícita uma mensagem de desesperança para o povo que confia no nosso compromisso e proposta bolivariana.

Não temos nenhuma hesitação, nenhuma dúvida sobre o nosso dever de lutar constantemente e sem descanso, com convicção e optimismo, pela solução política do conflito, sem derramamento de sangue. Nós os colombianos, com a contribuição de países amigos, devemos construir um cenário de diálogo, onde haja adesão e trabalho em conjunto num processo para celebrar acordos, cuja materialização incida fortemente e de forma irreversível na liquidação das causas que deram origem ao conflito armado e hoje o alimentam.

Uma vez erguido o cenário, num processo que também deve actuar na reconstrução da confiança entre as partes, teremos de falar sobre os prisioneiros de guerra, militares, policias e guerrilheiros detidos pelas partes como um aspecto político e humanitário prioritário. E em função de objectivos a longo prazo, contamos como ponto de partida com uma ferramenta excepcional que é a Agenda Comum para a Mudança para uma Nova Colômbia, assinado como acordo entre o Estado colombiano e as FARC-EP, em El Caguán.

Claro que o importante é construir o cenário, com vontade e decisão política, pensando no país e seu futuro, abstraindo das mentiras inventadas pela propaganda oficial que afastam a solução final, porque fazem pensar no estabelecimento com os seus próprios desejos. E nestes processos é essencial manter os pés no chão.

As tentativas dolorosamente frustrantes que tivemos desde La Uribe em 1984, para encontrar maneiras civilizadas, são evidências das enormes dificuldades envolvidas em encontrar o caminho certo, sem que isso implique renúncia.

A Colômbia está passando por um momento crítico porque acabou de terminar o período do governo mais violento e corrupto da história nacional, aquele liderado por Álvaro Uribe. Dezenas de congressistas e líderes políticos que participaram na sua campanha presidencial e na sua gestão estão na cadeia condenados como mandantes do narcoparamilitarismo, muitos outros enfrentam investigação preliminar pelo Ministério Público e do Supremo Tribunal, vários dos seus ministros também são indiciados e são investigados, enquanto dezenas de quadros médios dessa administração já estão presos, todos por corrupção e/ou paramilitarismo.

O véu está prestes a cair. A capa de teflon construída pelos amigos de Uribe permitindo o enriquecimento desmesurado desse círculo mafioso, como resultado de uma incomensurável corrupção administrativa, a contemporização complacente de muitos com a estratégia e prática paramilitares que era conhecida e a sua fascistóide rejeição visceral de uma solução política do conflito, todos esse vergonhoso véu, está prestes a cair, o que abrirá novas perspectivas para uma verdadeira democracia.

Quando, para além da violência e da corrupção, a natureza açoita o país com a chuva inclemente, está pedindo aos seus dirigentes grandeza e estatura histórica para enfrentar a difícil conjuntura e projectá-lo com força para o futuro.

Os ódios doentios espalhados pelo governo anterior, que polarizaram a Colômbia, estão acabando o seu prazo. As licenças que se arrogou para burlar a lei como rotina estão terminando através da Procuradoria, dos Juízes e dos Tribunais. Ter recuado o DAS aos tempos da tenebrosa POPOL, polícia política do regime nos anos 50, não será um crime impune.

A insana insistência uribista em apontar as FARC como terrorista, não ofusca a verdade nua e crua sobre a existência do conflito armado na Colômbia contida no projecto da chamada Lei de vítimas, se considerarmos que foi sobre a tese mentirosa da inexistência de conflito, que Uribe edificou o seu palanque fascista.

Como revolucionários que temos dado tudo pelos nossos ideais e o bem-estar do povo, persistimos na resolução política do conflito.

Montanhas da Colômbia, 21 de Maio 2011

16/Junho/2011

O original encontra-se em http://frentean.blogspot.com . Tradução de Guilherme Coelho.

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .
01/Set/11

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Desaparecidos na Colômbia superam as 61 mil pessoas

Bogotá, 30 ago (Prensa Latina)

A memória histórica das vítimas do conflito armado interno na Colômbia, onde se reportam mais de 61 mil desaparecimentos, será objeto hoje aqui de comemoração, com motivo do Dia Internacional dos Desaparecidos.

Conforme com um relatório da Comissão de Busca de Pessoas Desaparecidas, na nação sul-americana há registradas 61 mil 604 denúncias por pessoas desaparecidas desde meados do século passado.

Dessa cifra, 10 mil 334 têm aparecido vivas, de outras duas mil 348 encontraram-se os cadáveres, enquanto o paradeiro das restantes ainda se desconhece.

Dito relatório, que será entregue nesta terça-feira pelo defensor do Povo, Volmar Pérez, também refere que por cada mulher desaparecida no país há três homens na mesma condição.

A sua vez, adverte que neste ano apresenta-se quase 11 mil casos mais, com respeito ao corte realizado até 2010.

Por outra parte, Nações Unidas qualificou este delito como um dos mais graves cometidos contra os direitos humanos em Colômbia.

Segundo o organismo multilateral os desaparecimentos forçados neste país ocorreram principalmente nos departamentos de Antioquia, com quatro mil 251 casos; Vale do Cauca com mil 130; Meta com 949 e Putumayo, com 926. Assim mesmo, fontes especializadas sustentam que o desaparecimento tem como agravante que quase todos os casos vem acompanhado de delitos conexos como a tortura, as agressões, a violência sexual e a estigmatização.

Entretanto, organizações de direitos humanos têm expressado preocupação pela impunidade imperante em frente a dito flagelo, que o Estatuto de Roma qualifica como delito lesa humanidade. Em outubro passado, Bogotá aderiu-se à Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas Contra os Desaparecimentos Forçados, depois que a Câmara de Representante a aprovasse em último debate.

Dessa maneira Colômbia converteu-se assim no vigésimo país em aprovar a Convenção.

Essa norma já foi ratificada por Albânia, Argentina, Bolívia, Burkina Faso, Chile, Cuba, Equador, Espanha, França, Alemanha, Honduras, Japão, Kazaquistão, Mali, México, Nigéria, Paraguai, Senegal, Uruguai.

Subscrita em Nova York em dezembro de 2006, a Convenção estabelece sua plena vigência a partir da aprovação em 20 países, fato consumado com a entrada da Colômbia, desde o ponto de vista formal.

É um tratado vinculante e define o desaparecimento forçado como uma violação aos direitos humanos.

Estabelece que uma pessoa sequestrada ou detenta deve ter comunicação com o exterior, bem seja com sua família ou advogado.

Ao mesmo tempo reconhece não só como vítimas aos desaparecidos, senão também sua família, que terá direito a conhecer o sucedido e a receber reparo pelo dano causado.
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Com apoio do COmitê de Solidariedade ao Povo colombiano

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Terrorista louro de olhos azuis

Por Frei Betto

Preconceitos, como mentiras, nascem da falta de informação (ignorância)
e do excesso de repetição. Se pais de uma criança branca se referem
em termos pejorativos a negros e indígenas, judeus e homossexuais,
dificilmente a criança, quando adulta, escapará do preconceito.

A mídia norte-americana incutiu no Ocidente o sofisma de que todo
muçulmano é um terrorista em potencial. O que induziu o papa Bento
XVI a cometer a gafe de declarar, na Alemanha, que o Islã é
originariamente violento e, em sua primeira visita aos EUA,
comparecer a uma sinagoga sem o cuidado de repetir o gesto
numa mesquita.

Em qualquer aeroporto de países desenvolvidos, um passageiro em trajes
islâmicos ou cujos traços fisionômicos lembrem um saudita, com certeza
será parado e meticulosamente revistado. Ali reside o perigo... alerta
o preconceito infundido.

Ora, o terrorismo não foi inventado pelos fundamentalistas islâmicos.
Dele foram vítimas os árabes atacados pelas Cruzadas e os 70 milhões
de indígenas mortos na América Latina, no decorrer do século 16,
em decorrência da colonização ibérica.

O maior atentado terrorista da história não foi a queda, em Nova York,
das Torres Gêmeas, há 10 anos, que causou a morte de 3 mil pessoas.
Foi o praticado pelo governo dos EUA: as bombas atômicas em Hiroshima
e Nagasaki, em agosto de 1945. Morreram 242.437 civis, sem contar as
mortes posteriores por efeito da contaminação.

Súbito, a pacata Noruega — tão pacata que, anualmente, concede o
Prêmio Nobel da Paz — vê-se palco de dois atentados terroristas que
deixam dezenas de mortos e muitos feridos. A imagem bucólica do país
escandinavo é apenas aparente. Tropas norueguesas também intervêm
no Afeganistão e deram apoio aos EUA na guerra do Iraque.

Tão logo a notícia correu mundo, a suspeita recaiu sobre os islâmicos.
O duplo atentado, no gabinete do primeiro-ministro e na Ilha de Utoeya,
teria sido um revide ao assassinato de Bin Laden e às caricaturas de
Maomé publicadas pela imprensa escandinava. O preconceito estava
entranhado na lógica ocidental.

A verdade, ao vir à tona, constrangeu os preconceituosos. O autor do
hediondo crime foi o jovem norueguês Anders Behring Breivik, 32 anos,
branco, louro, de olhos azuis, adepto da fisicultura e dono de uma
fazenda de produtos orgânicos. O tipo do sujeito que jamais levantaria
suspeitas na alfândega dos EUA. Ele “é dos nossos”, diriam os policiais
condicionados a suspeitar de quem não tem a pele suficientemente
clara nem olhos azuis ou verdes.

Democracia é diversidade de opiniões. Mas o que o Ocidente sabe do
conceito de terrorismo na cabeça de um vietnamita, iraquiano ou afegão?
O que pensa um líbio sujeito a ser atingido por um míssil atirado pela
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre a população
civil de seu país, como denunciou o núncio apostólico em Trípoli?

Anders é um típico escandinavo. Tem aparência de príncipe. E alma de
viking. É o que a mídia e a educação deveriam se perguntar: o que
estamos incutindo na cabeça das pessoas? Ambições ou valores?
Preconceitos ou princípios? Egocentrismo ou ética?

O ser humano é a alma que carrega. Amy Winehouse tinha apenas
27 anos, sucesso mundial como compositora e intérprete, e uma fortuna
incalculável. Nada disso fez dela uma mulher feliz. O que não encontrou
em si, ela buscou nas drogas e no álcool. Morreu prematuramente,
solitária, em casa.

O que esperar de uma sociedade em que, entre cada 10 filmes, oito
exaltam a violência; o pai abraça o filho em público e os dois são
agredidos como homossexuais; o motorista de um Porsche se choca
a 150km/h com uma jovem advogada que perece no acidente e ele
continua solto; o político fica indignado com o bandido que assaltou
a filha dele e, no entanto, mete a mão no dinheiro público e ainda
estranha ao ser demitido?

Enquanto a diferença gerar divergência, permaneceremos na pré-história
do projeto civilizatório verdadeiramente humano.

60% DOS SINDICALISTAS ASSASSINADOS NO MUNDO SÃO COLOMBIANOS

Na passada quarta-feira, 24 de agosto a Conferedação Geral do Trabalho (CGT) da Colômbia, uma das quatro centrais sindicais que existem nesse país, denunciou o assassinato de 29 sindicalistas no decorrente ano de 2011, a maioria deles em zonas afetadas pelo conflito armado. O presidente da CGT, Julio Roberto Gómez, em declarações aos jornalistas reconheceu que as ameaças e ataques contra sindicalistas continuam.


As organizações trabalhistas responsabilizam pela maioria das ameaças e homicídios aos grupos paramilitares, que são mercenários criados pelo Estado colombiano e financiados pelo narcotráfico. No ano de 2005, durante o governo de Álvaro Uribe Vélez, os paramilitares iniciaram uma suposta desmobilização em troca de penas baixas de prisão (menos de 5 anos) por delitos contra a humanidade.

Em julho do ano de 2010 a Central Unitária de Trabalhadores (CUT) da Colômbia denunciou que 60% dos sindicalistas assassinados no mundo eram da Colômbia. Nos últimos 10 anos foram assassinados mais de 2.778 e foram cometidos mais de 11 mil atos de violência.

Esses fatos contradizem os discursos que afirmam que no governo do atual presidente da Colômbia Juan Manuel Santos há uma superação às violações dos direitos, melhora nos direitos trabalhistas e consolidação do desmantelamento dos grupos paramiliateres.

Com apoio da Agenda Colômbia

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

ATO DE LANÇAMENTO DA AGENDA COLÔMBIA

“A situação dos Direitos Humanos na Colômbia e a Resistência popular”

Agenda Colômbia realizará na próxima sexta-feira, 26 de agosto, uma atividade com o título “A situação dos Direitos Humanos na Colômbia e a Resistência popular”. Será feito o lançamento no Brasil e simultaneamente na Colômbia desta iniciativa de solidariedade entre os povos que é a Agenda Colômbia.

O evento contará com duas palestras na Colômbia que simultaneamente serão transmitidas por videoconferências para o Brasil. Os palestrantes são: - O advogado defensor dos direitos humanos doutor Gustavo Gallardo com a conferência: “As atuais condições dos direitos humanos na Colômbia”; O doutor em filosofia política Sérgio Zubiría Samper, professor da universidade dos Andes da Colômbia com a conferência: “Formas de resistência à política de ‘seguridad democrática’ e ao modelo neoliberal na Colômbia.”

Agenda Colômbia é um espaço social e político que está sendo organizado em várias capitais do Brasil e concomitantemente na Colômbia. Tem por objetivo dar visibilidade à realidade colombiana e gerar ações de solidariedade do povo brasileiro aos movimentos da sociedade civil e organizações políticas democráticas colombianas. Assim como a defesa dos direitos humanos e pressionar pela saída pacifica e negociada ao conflito armado da Colômbia.

O evento será realizado simultaneamente nas cidades de Bogotá, Colômbia e em Porto Alegre, Brasil, às 19 horas do Brasil. O lugar é o auditório do CPERS, Avenida Alberto Bins, 480, 9º andar. A entrada é franca.


Carta às esquerdas

Livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação de algumas ideias. A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas.

Boaventura de Sousa Santos

Não ponho em causa que haja um futuro para as esquerdas mas o seu futuro não vai ser uma continuação linear do seu passado. Definir o que têm em comum equivale a responder à pergunta: o que é a esquerda? A esquerda é um conjunto de posições políticas que partilham o ideal de que os humanos têm todos o mesmo valor, e são o valor mais alto. Esse ideal é posto em causa sempre que há relações sociais de poder desigual, isto é, de dominação. Neste caso, alguns indivíduos ou grupos satisfazem algumas das suas necessidades, transformando outros indivíduos ou grupos em meios para os seus fins. O capitalismo não é a única fonte de dominação mas é uma fonte importante.

Os diferentes entendimentos deste ideal levaram a diferentes clivagens. As principais resultaram de respostas opostas às seguintes perguntas. Poderá o capitalismo ser reformado de modo a melhorar a sorte dos dominados, ou tal só é possível para além do capitalismo? A luta social deve ser conduzida por uma classe (a classe operária) ou por diferentes classes ou grupos sociais? Deve ser conduzida dentro das instituições democráticas ou fora delas? O Estado é, ele próprio, uma relação de dominação, ou pode ser mobilizado para combater as relações de dominação?

As respostas opostas as estas perguntas estiveram na origem de violentas
clivagens. Em nome da esquerda cometeram-se atrocidades contra a esquerda; mas, no seu conjunto, as esquerdas dominaram o século XX (apesar do nazismo, do fascismo e do colonialismo) e o mundo tornou-se mais livre e mais igual graças a elas. Este curto século de todas as esquerdas terminou com a queda do Muro de Berlim. Os últimos trinta anos foram, por um lado, uma gestão de ruínas e de inércias e, por outro, a emergência de novas lutas contra a dominação, com outros atores e linguagens que as esquerdas não puderam entender.

Entretanto, livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Voltou a ser urgente reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação das seguintes ideias.

Primeiro, o mundo diversificou-se e a diversidade instalou-se no interior de cada país. A compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo; não há internacionalismo sem interculturalismo.

Segundo, o capitalismo concebe a democracia como um instrumento de acumulação; se for preciso, ele a reduz à irrelevância e, se encontrar outro instrumento mais eficiente, dispensa-a (o caso da China). A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas.

Terceiro, o capitalismo é amoral e não entende o conceito de dignidade
humana; a defesa desta é uma luta contra o capitalismo e nunca com o capitalismo (no capitalismo, mesmo as esmolas só existem como relações públicas).

Quarto, a experiência do mundo mostra que há imensas realidades não capitalistas, guiadas pela reciprocidade e pelo cooperativismo, à espera de serem valorizadas como o futuro dentro do presente.

Quinto, o século passado revelou que a relação dos humanos com a natureza é uma relação de dominação contra a qual há que lutar; o crescimento económico não é infinito.

Sexto, a propriedade privada só é um bem social se for uma entre várias
formas de propriedade e se todas forem protegidas; há bens comuns
da humanidade (como a água e o ar).

Sétimo, o curto século das esquerdas foi suficiente para criar um espírito igualitário entre os humanos que sobressai em todos os inquéritos; este é um patrimônio das esquerdas que estas têm vindo a dilapidar.

Oitavo, o capitalismo precisa de outras formas de dominação para florescer,
do racismo ao sexismo e à guerra e todas devem ser combatidas.

Nono, o Estado é um animal estranho, meio anjo meio monstro, mas, sem ele, muitos outros monstros andariam à solta, insaciáveis à cata de anjos indefesos. Melhor Estado, sempre; menos Estado, nunca.

Com estas ideias, vão continuar a ser várias as esquerdas, mas já não é provável que se matem umas às outras e é possível que se unam para travar a barbárie que se aproxima.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

domingo, 21 de agosto de 2011

Colômbia: Pilhagem, esperança e paz

Vivemos tempos de grande destruição e de grandes oportunidades económicas. A América Latina não é excepção. No contexto global, o Império estado-unidense está empenhado em guerras destrutivas (Afeganistão, Iraque, Paquistão, Líbia, Iémen, Somália e Haiti). Em contraste, a China, Índia, Brasil, Argentina e outras "economias emergentes" estão a expandir comércio, investimentos e reduzir pobreza. A União Europeia (UE) e os Estados Unidos (EUA) estão em crises económicas profundas. A periferia da UE (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha) está totalmente em bancarrota. As "dependências" dos EUA na América do Norte (México), América Central e Caribe são narco-estados virtuais praguejados pela pobreza em massa, taxa de crime astronómicas e estagnação económica. As dependências dos EUA são pilhadas por multinacionais, oligarcas locais e políticos corruptos.


A Colômbia posiciona-se em encruzilhadas: ela pode seguir as pegadas do seu antecessor, o narco-presidente Álvaro Uribe, e permanecer uma dependência militar, um solitário posto avançado do Império estado-unidense na América do Sul. A Colômbia pode permanecer à margem da maior parte dos mercados mundiais dinâmicos e em guerra com o seu povo ou, através de uma nova liderança sócio-política, pode efectuar uma reorientação profunda de política e consumar uma transição rumo a maior integração com os mercados dinâmicos do mundo.

A Colômbia tem todos os ingredientes objectivos (recursos materiais e humanos) para ser parte da nova ordem dinâmica. Mas primeiro e acima de tudo ela deve abandonar seu papel como vassalo militarizados dos Estados Unidos e objecto de exploração de uma oligarquia rentista. A Colômbia deve deixar de apoiar golpes dos EUA (Honduras, Venezuela) e de ameaçar seus vizinhos (Equador).

A Colômbia não pode desenvolver suas forças produtivas e financiar a modernização da educação superior e melhoria de treino técnico e [ao mesmo tempo] gastar milhares de milhões com as centenas de milhares de militares, paramilitares, polícias e operativos de inteligência. O aparelho repressivo militar está orientado para a repressão dos sectores da força de trabalho mais produtivos, criativos e motivados. A prosperidade depende da paz civil a qual depende da profunda desmilitarização do estado colombiano. A conexão entre a economia e o pode militar é clara. A China gasta um décimo do orçamento militar dos EUA mas cresce cinco vezes mais rápido. A política externa independente do Brasil e o realinhamento com o mercado asiático levou a um alto crescimento, ao passo que o México, como um satélite do North American Free Trade Treaty, é um estado estagnado e fracassado.

Desmilitarização: As especificidades da Colômbia

A Colômbia é a sociedade mais militarizada da América Latina, com o mais elevado número de vítimas na sociedade civil. O "militarismo" na Colômbia inclui a maior força militar activa operacional dentro das fronteiras do estado e ser o maior recipiente de financiamento militar da maior potência militarista do mundo. Como cliente subordinado do Império estado-unidense, a Colômbia tem o pior registo de direitos humanos, no que se refere a mortes de jornalistas, sindicalistas, activistas camponeses e advogados de direitos humanos.

Contudo, a violência estatal e para-estatal não é aleatória. Mais de 4 milhões de agricultores, camponeses e intermediários rurais foram expulsos à força e a suas terras foram tomadas por grandes latifundiários, narco-traficantes, generais e homens de negócio aliados ao governo. Por outras palavras, o Estado terrorista e a expulsão em massa é um método peculiarmente colombiano de "acumulação de capital". A violência do Estado é o método para assegurar os meios de produção para aumentar agro-exportações a expensas de famílias de agricultores.

Na Colômbia, o extermínio estatal e para-estatal substitui o mercado e "relações contratuais" no cumprimento de transacções económicas. As relações desiguais entre um estado militarista e movimentos populares da sociedade civil têm sido o principal obstáculo a uma transição de um regime político oligárquico para um sistema eleitoral democrático e pluralisticamente representativo.

A Colômbia combina formas de representação da elite do século XIX com meios de repressão militar altamente desenvolvidos do século XXI: um caso de desenvolvimento desigual e combinado. Em consequência deparamo-nos com "crescimento desequilibrado", um aparelho militar, policial e paramilitar super-desenvolvido e subdesenvolvidas instituições sociais e políticas dispostas e capazes de entrar em negociações através da reciprocidade e dos compromissos dentro de uma estrutura cívica.

A cultura do estado de "guerra permanente" mina as condições de confiança e reciprocidade e levanta riscos inaceitáveis para quaisquer interlocutores sociais e políticos.

Dentro do estado militarizado – especialmente devido às suas ligações profundamente enraizadas a instituições militares regionais dos EUA – apenas "negociações" que reforçam a actual ordem sócio-económica e disposição política institucional são aceitáveis. Mesmo reconhecidos "mediadores da paz" empenham-se em "negociações" só com um lado exigindo concessões unilaterais de insurgentes e raramente fazem exigência de concessões recíprocas do Estado.

A maior parte dos países latino-americanos que passaram por transições do domínio ditatorial para a política eleitoral respeitou os oponentes. Só a Colômbia assassinou toda a liderança política e os activistas – da União Patriótica – que se converteram da luta armada para a luta eleitoral. Nenhuma outra oposição latino-americana (ou europeia ou asiática) experimentou a violência do estado infligida à União Patriótica (UP): o assassínio de 5.000 activistas incluindo candidatos ao Congresso e à Presidência.

Os actuais regimes de centro-esquerda da América do Sul, suas economias em expansão e as lutas de movimentos sociais livres e abertas, são um produto de levantamentos sociais (entre 1999-2005) que terminaram "políticas militarizadas". Revoltas populares na Bolívia, Argentina, Equador e Venezuela abriram o caminho para o centro-esquerda. No Brasil, Uruguai e Chile movimentos sociais ajudaram a deslocar regimes de direita.

Em consequência de lutas de massa e levantamentos populares, regimes de centro-esquerda prosseguem políticas económicas relativamente independentes e programas anti-pobreza progressistas. Eles elevaram padrões de vida e proporcionaram espaço político e social para a continuação da luta de classe

A Colômbia é um dos poucos países que fracassaram em efectuar a transição de um regime militarista de direita para um modelo de bem-estar e desenvolvimento de centro-esquerda, porque ao contrário do resto da América Latina ela ainda tem de experimentar um levantamento popular, resultando numa nova configuração política.

Colonatos de paz: América Central ou Indochina?

"Colonatos de paz" produzem vencedores e perdedores. Eles reflectem a correlação de forças externa e interna. O processo de negociação, incluindo quem é consultado no estabelecimento de prioridades e em efectuar concessões, é central para a trajectória futura do "processo de paz".

A história recente proporciona-nos dois "processos de paz" diametralmente opostos e com consequências dramaticamente diferentes: os aldeamentos de paz indochineses de 1973-75 e os aldeamentos de paz centro-americanos de 1992-1993. No caso da Indochina e mais especificamente dos aldeamentos vietnamita-americanos, a Frente de Libertação Nacional (FLN), assegurou a retirada das forças militares dos EUA, o desmantelamento de bases militares estado-unidenses e a desmilitarização do estado. a FLN concordou acordou um processo de integração política baseado no reconhecimento de certas reformas sócio-económicas e políticas básicas, incluindo reforma agrária, a recuperação da posse de terras de milhões de camponeses deslocados e o processamento de responsáveis civis e militares acusados de crimes contra a humanidade. Os negociadores da FLN fizeram concessões políticas mas em consulta estreita com a sua base de massa de camponeses, trabalhadores e profissionais. Eles apoiaram o princípio da democratização do estado e desmilitarização da sociedade como condições essenciais para a finalização da guerra.

Ao longo dos últimos 35 anos, o Vietname evoluiu de país socialista independente em direcção a uma economia capitalista pública-privada, transitando para um crescimento mais alto e padrões de vida mais elevados mas aumentando desigualdades e com maior corrupção.

Em contraste, os acordos de paz centro-americanos assinados pelos líderes da guerrilha levaram ao fim do conflito armado e à incorporação da elite insurgente dentro do sistema eleitoral. Contudo, não houve mudanças básicas no sistema militar, económico e social. Nenhuma das organizações populares de massa foi consultada. Ao grosso dos combatentes armados, tantos insurgentes populares como mercenários paramilitares, foi dada alta e tornaram-se um exército de desempregados "armados". Ao longo dos últimos 20 anos, gangs criminosas tomaram o controle de grandes extensões da América Central, ao passo que a elite da guerrilha ex-Farabundo Marti, e dos seus colegas guatemaltecos e nicaraguenses, se tornaram homens de negócio ricos e aliados eleitorais de políticos conservadores. Eles são protegidos por guarda-costas privados e não tomam conhecimento das condições de 60% da população que vive abaixo da linha de pobreza. Os "acordos de paz" na América Central serviram de veículo para a mobilidade social da elite da guerrilha. Eles não acabaram com a violência. Todos os anos mais pessoas deparam-se com mortes violentas do que os que foram mortos durante os anos de guerra civil.

Os acordos de paz vietnamita e centro-americanos tiveram lugar durante diferentes momentos internacionais. Na década de 1970, a União Soviética e a China proporcionavam vasto apoio material e político aos vietnamitas. Durante as negociações de paz centro-americanas, com a União Soviética desintegrada, a China estava virar para o capitalismo e Cuba enfrentava um "período especial" de crise económica devido à perda da ajuda e do comércio soviético.

A mudança na correlação de forças internacional influenciou claramente, mas não determinou, os resultados desfavoráveis na América Central. Em menos de uma década após os desastrosos acordos de paz centro-americanos, a Venezuela, sob o presidente Chávez, conseguiu derrotar um golpe e avançou rumo a uma transformação socialista. Revoltas populares aboliram governantes neoliberais na Argentina, Bolívia, Equador e alhures. O fim da URSS não acabou com lutas de classe bem sucedidas na América Latina.

A reaccionária correlação de forças política da década de 1990 mudou dramaticamente. Em 2011, só a América Central, o México e a Colômbia permanecem como ilhas de reacção num mar de esquerda ressurgente e de lutas populares na América do Sul, Norte de África e Sul da Ásia.

O estabelecimento da paz centro-americana, com sua aceitação do estado militarizado, ligado às exportações agro-minerais das elites e às gangs narco-criminosas, tornou-se um monumento de um "processo de paz" fracassado. O estabelecimento da paz vietnamita, se bem que longe de perfeito, pelo menos proporcionou paz, segurança, reforma agrária e rendimento mais alto para o campesinato e os trabalhadores. Não há dúvida de que a Colômbia tem diferenças históricas e estruturais com a América Central e a Indochina.

Os movimentos sociais armados na Colômbia têm uma história específica a qual antecede os insurgentes centro-americanos em muitos anos e desenvolveu laços políticos com certas regiões e movimentos sociais os quais têm perdurado ao longo do tempo. Ao contrário dos insurgentes centro-americanos e vietnamitas eles também não estão dependentes de apoiantes "externos". Acima de tudo, a experiência fracassada de "reconciliação política" na América Central levou insurgentes colombianos a levantarem condições significativas em relação ao processo de paz, nomeadamente desmilitarização e reformas sócio-económicas (reforma agrária e recuperação de terra para os que dela foram privados). "Paz a qualquer preço" só levará a novas e igualmente virulentas formas de violência, como no caso actual do México com 10 mil mortos por ano, 7 mil assassínios por ano em El Salvador e um número igual de homicídios na Guatemala.

A experiência vietnamita de paz via justiça social e desmilitarização parece assegurar um mínimo de prosperidade. Certamente a correlação internacional de forças melhorou dramaticamente. A América Latina substituiu os regimes fantoches neoliberais. As economias latino-americanas descobriram mercados dinâmicos na Ásia independentes dos EUA. Revoltas populares no Médio Oriente e na Ásia – desde a Tunísia até o Afeganistão – estão a forçar os militares estado-unidenses a recuar. O contexto internacional e regional é muito favorável se a Colômbia souber aproveitá-lo. O método e os modos de luta, aqueles que unem movimentos populares sem distinção, deveriam ser abertamente discutidos e resolvidos sem exclusões. A insurgência é parte da solução, não do problema. A chave para um diálogo frutífero é a desmilitarização do estado, finalizar a presença militar dos EUA, terminar o Plano Colômbia e converter despesas militares em desenvolvimento económico e social.

04/Agosto/2011
[*] Intervenção a ser apresentada no "Encuentro Nacional de comunidades Campesinas, Afrodescendientes e Indigenas por la Tierra y la Paz de Colombia: El dialogo es la Ruta" , 12 a 15 de Agosto 2011, Barrancabermeja, Colombia

O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=1870


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
09/Ago/11