"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Os presos das masmorras de Uribe serão assassinados se as FARC liberam os reféns

por Pedro Echeverría V./México
ABP notícias

1. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) não devem liberar mais nenhum refém sem que antes os presos políticos que Álvaro Uribe tem em suas prisões não sejam liberados e assegurados em países como Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua ou Bolívia. Que Uribe libere a todos, se comprometa a não perseguí-los e logo, apenas depois, a guerrilha deverá desfazer-se dos prisioneiros pró-yankees que estão sob seu poder, avisando ao mundo para que não continuem inventando mentiras. O governo colombiano do paramilitar Álvaro Uribe, com o apoio total do governo dos E.U.A. parece haver ganho uma grande batalha com a libertação de 14 reféns; a ganhou porque os meios de informação, como era de se esperar, aproveitaram para enaltecer o governo assassino de Uribe. Poderia se esperar outra coisa dos meios eletrônicos mexicanos que sempre funcionaram à serviço do poder econômico?

2. Que as FARC não se deixem pressionar por nada, pois caso se deixem, demonstrarão que estavam na guerrilha sem convicções profundas. Que decidam internamente suas políticas em função de sua realidade, de sua fortaleza, das possibilidades futuras, mas sem bauxar a guarda contra todas as calúnias que se têm desenvolvido contra eles. Não devem guardar silêncio, não podem deixar de combater a intensa propaganda que os governos inimigos têm feito à serviço dos E.U.A.. Se liberam mais reféns, não só poderiam assassinar todos os presos das FARC, como o governo poderia bombardear, sem nem mirar, toda a zona ocupada pelos homens e mulheres em armas. Deveriam exigir a todos que encham a boca pedindo a libertação dos demais reféns das FARC, como a burguesa uribista Betancourt, que exija a libertação de todos os presos políticos que estão nas masmorras para não ser demagoga evidente.

3. A guerra dividiu a Colômbia em duas realidades: os territórios controlados pelas guerrilhas e os grandes centros urbanos, cuja opinião pública é formada pelos meios de comunicação monopolizados pelos grandes grupos econômicos. Estes fazem uma campanah de desinformação contra as guerrilhas que lhes causou mais baixas que as feitas pelo exército. Propagam diariamente a imagem de uma guerrilha ligada ao narcotráfico, desumanizada, chantagista, que prejudica a população civil. Não é estranho, então, que as pesquisas concluam que 60 por cento da população é contra a guerrilha. (Ver Martha Harnecker,... Seattle) Ou seja, a guerra contra as FARC é ganha pelos meios de desinformação, não o exército do governo armado até os dentes. O mesmo acontece com os governos da Venezuela e outros países onde as correntes de esquerda se fortaleceram; mas o grave é quando se passa para a defensiva por medo da desinformação.

4. Uma opinião pública criada pelos meios de informação e logo propagada amplamente, mediante pesquisas desses próprios meios, não deve ser levada em conta, principalmente pela esquerda (como no caso do México) que só se arrasta diante dos meios, ao invés de enfrentá-los radicalmente. Logo, esses meios se queixarão porque não se respeita a “liberdade de expressão”, mas nossa missão será denunciar e esclarecer que as campanhas fascistas contra as lutas do povo não é liberdade de expressão e sim vontade de continuar com a exploração, a opressão e a miséria do povo. Não são diferenças políticas e filosóficas, mas sim contradições entre monopólios de multimilionários e os interesses do povo, os mesmos que a esquerda deve defender. A liberdade de expressão deve ser apoiada apenas quando os mais poderosos queserem calá-la, mas nunca quando se dedicam a propagar campanhas venenosas contra as lutas do povo.

5. A imprensa, como assinala Harnecker, nunca informa sobre aspectos positivos das organizações guerrilheiras. Jamais informaram das propostas que as FARC fizeram para erradicar os cultivos ilícitos de cocaína, que inclui um plano piloto de substituição de cultivos no município de Cartagena de Chairá (produtor de 90 por cento da cocaína do departamento de Caquetá) que custaria apenas 10 milhões de dólares. O projeto, que foi elaborado com a participação das populações da região e que o governo ignorou. A realidade é que para o fascista Uribe “o único guerrilheiro que ele reconhece é o guerrilheiro morto”. Contudo, existem esquerdistas oportunistas ou iludidos que querem que se libertem aos reféns, ainda que assassinem logo aos presos políticos das FARC e bombardeiem os acampamentos. Se esquecem, por acaso, de quando Fujimori assassinou os guerrilheiros peruanos enquanto os entretia com negociações?

6. As FARC estão vivas, fortes e atuantes. Algum dia os esquerdistas empanturrados pelos meios de desinformação, pelos gritos de Uribe e as ameaças de Bush, reconhecerão estes erros de aconselhar liberar a todos os reféns e dissolver a força guerrilheira. Harnecker escreve: “Toda figura pública que aparece ligada à guerrilha é alvo imediato dos paramilitares. Uma geração inteira de ativistas: 5 mil quadros da União Patriótica (frente política propiciada pelas FARC em 1985 como parte substancial do processo de diálogo que então se fazia com o governo de Belisario Betancourt) foram assassinados”. Na Colômbia, sobretudo depois da instalação do chamado Plano Colômbia, que autorizou milhares de membros do exército yankee a pilotar aviões para bombardear a selva, os guerrilheiros não possuem margem alguma para confiar. Deve-se criar uma opinião internacional que os favoreça.
7. O que devem fazer os presidentes de Venezuela, Cuba, Equador, Bolívia, Nicarágua, etc, é exigir ao fascista Uribe que libere os 900 ou mais presos políticos das FARC que tem em suas masmorras e pedir às FARC que façam o mesmo com seus reféns. Como podem garantir que os guerrilheiros entrem na vida pública sem que sejam assassinados como em 1985, sendo o governo de Uribe um governo militarista? Penso que se alguém não pode ajudar, pelo simples fato de ser uma grande nação, ao menos não prejudique, diante da opinião pública mundial. Os meios de informação são na Colômbia, Venezuela, México e em todas as partes, propriedade de poderosos milionários transnacionais. Devem ser combatidos por serem instituições à serviço do sistema capitalista de exploração. Quem sabe a imprensa possa se salver, mas os meios eletrônicos (rádio e televisão) devem ser enfrentados até serem derrotados.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

SOLIDARIEDADE ÀS FARC

(Nota Política do PCB)
ABP/PCB
Em toda a sua história, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) nunca precisaram tanto da solidariedade dos internacionalistas do mundo todo.

A ofensiva midiática e ideológica do imperialismo vem surtindo efeito.

A esquerda reformista procura diferenciar-se cada vez mais da organização insurgente colombiana, para não perder votos nem espaço na mídia e no aparato institucional.

Por outro lado, razões de Estado levam importantes lideranças revolucionárias da América Latina a concessões que contribuem para isolar as FARC, ajudando objetivamente a campanha de satanização que lhes move impiedosamente o império. Praticam uma diplomacia de curto prazo, na ilusão de que o fim da guerrilha diminui a insaciável agressividade do imperialismo, que lhes cobrará mais e mais concessões.

Alguns chegam ao ponto de não criticar o terrorismo de Estado, que deu causa e sobrevivência ao movimento guerrilheiro na Colômbia. Não ajudam a desmentir os estigmas, embora saibam perfeitamente que as FARC são uma organização política revolucionária, nem narcotraficante e nem terrorista. Outros teorizam sobre formas e métodos de luta, desumanizando as FARC, ao comparar processos revolucionários diferenciados. Não lhes ocorre, em seu discurso humanitário de mão única, preocupar-se com o inevitável assassinato em massa de milhares de combatentes revolucionários, a mando dos verdadeiros terroristas Bush e Uribe, no caso de desmilitarização unilateral da guerrilha, como já aconteceu recentemente. Esquecem-se até de reivindicar negociações de paz!

Mas o mais triste mesmo é não se lembrarem sequer de cobrar a necessária contrapartida às verdadeiras ações humanitárias que as FARC vêm praticando:

LIBERDADE PARA TODOS OS PRESOS POLÍTICOS COLOMBIANOS!

PCB (Partido Comunista Brasileiro)
Julho de 2008

Enlace original

Restrepo propõe diálogo direto

"Sem intermediários", é o que anuncia o Comissário para a Paz, Luis Carlos Restrepo. Agora sim é certo. O governo de Uribe condena os que ficam como reféns a outros dez anos.

Desdenha dos bons ofícios de certos países. Sobretudo os da Venezuela. O Intercâmbio fica em cacos. É a realidade.

Alistêmo-nos aos resgates sangrentos e os pagos. Se acabam funcionando.

O governo de Bogotá, educado na mentira e na sacanagem, não é de ceder. A insurgência sabe disso. Assim como os setores populares e a comunidade internacional também percebem esse sentimento.

Resta apenas uma saída. Um face a face em uma área livre de militares, paramilitares e mercenários internacionais.

Desmilitarização já.

*Interrupções na Agência Anncol em espanhol devido a problemas no servidor nos obriga à solidariedade da ABP : http://www.abpnoticias.com/

**Percebe-se que sempre que algum acontecimento de grande magnitude ocorre, ou vai ocorrer, a agência em espanhol é tirada do ar. Não nos deixemos calar. Não devemos também nos iludir com a idéia de "Liberdade de imprensa" burguesa. (Equipe Anncol Brasil)

terça-feira, 8 de julho de 2008

REAFIRMAÇÃO DE SOLIDARIEDADE COM AS FARC - FORÇAS ARMADAS REVOLUCIONÁRIA DA COLOMBIA


Miguel Urbano Rodrigues reafirma neste artigo a sua solidariedade com as FARC, que estão a ser alvo nestes dias de ataques e calúnias inseparáveis de uma campanha anticomunista de âmbito mundial . E define Manuel Marulanda como um grande revolucionário latino-americano do século XX


Miguel Urbano Rodrigues - 06.07.08



No dia em que escrevo este artigo o secretariado do Estado Maior das FARC não se pronunciou ainda sobre a operação cujo desfecho foi o «resgate» de Ingrid Betancourt ,de três agentes norte-americanos da CIA e de onze militares colombianos.


Milhares de comentários, analises e interpretações foram dedicados ao acontecimento em dezenas de países. A esmagadora maioria glorifica a franco-colombiana, enaltece o presidente Álvaro Uribe, calunia as FARC ou opta por exercícios especulativos na tentativa de explicar o que se passou.


Uma certeza emerge desde já dessa torrente mediática de desinformação: a versão oficial do Governo e do Exército colombiano é um novelo de mentiras e contradições.


A primeira inverdade surge como preâmbulo do auto elogio uribista: o «resgate» de Ingrid teria sido uma façanha 100% colombiana, concebida pelos estrategos do presidente, minuciosamente elaborada pela inteligência militar e executada pelo Exército. Nas declarações de Álvaro Uribe, dos seus ministros e generais abundam pormenores folhetinescos. Talvez venham a inspirar um realizador de Hollywood.


O primeiro desmentido indirecto, incomodo, veio do embaixador de Bush em Bogotá. Ainda desconhecedor do discurso oficial, o diplomata revelou que a cooperação dos EUA no plano foi decisiva. Simultaneamente, o Pentágono dizia o mesmo por outras palavras, valorizando a assessoria militar, a ajuda tecnológica, o uso dos meios electrónicos, de satélites, etc.


A França de Sarkozy também se orgulha de ter «colaborado».


Em Tel Aviv, o diário Haaretz qualificou de muito importante, talvez «decisivo», o envolvimento de elementos do serviço de inteligência israelense na preparação da «operação de resgate».


Com poucas excepções, Ingrid Betancourt foi guindada a heroína da humanidade pelas cadeias de televisão, jornais e rádios, de Washington a Paris, de Londres a Lisboa. Mas não tenho conhecimento de que algum desses media considere pelo menos insólito que ela tenha definido Uribe como um «grande presidente», merecedor de um terceiro mandato (inconstitucional). Não estranharam também que ela tenha abraçado comovida o general Mario Montoya.


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Nestes dias em que chovem ataques e calunias sobre as FARC recordei um texto em que Lenine, a propósito do fluxo e refluxo dos períodos revolucionários, e do comportamento da maioria dos políticos quando a maré sobe e baixa, lembrava que é nas situações históricas marcadas pela arrogância das forças reaccionárias que mais nítida surge a fronteira entre os revolucionários e aqueles que não o são.


Fugiria à verdade se negasse que não fui afectado emocionalmente pelos golpes que desde o inicio do ano atingiram as FARC. Fui amigo do comandante Raul Reyes – assinado num bombardeamento pirata que violou a soberania do Equador - e senti profundamente a morte de Manuel Marulanda, o legendário comandante chefe da guerrilha-partido marxista leninista. Identifiquei nele desde a juventude um herói da América Latina.


Mas esses golpes, em vez de atenuarem a minha solidariedade com as FARC contribuíram para a fortalecer.


Em Portugal a desinformação não difere muito do que vai pela Europa. A máscara humanitária não consegue ocultar os objectivos ideológicos. A apologia de Ingrid Betancourt (que diziam estar quase moribunda, mas parece estar afinal de boa saúde) é um verniz que disfarça mal uma intensa campanha anticomunista. Enquanto felicitam Uribe pela sua tenacidade como defensor inquebrantável da democracia, os media lusitanos entoam já um requiem antecipado pelas FARC e entregam-se a exercícios de futurologia sobre o seu fim iminente.


Esse frenesi anti-FARC não tem o poder de fazer História. Julgo útil sublinhar que o «resgate» de Ingrid – uso as aspas porque as circunstancias em que ela foi libertada são ainda nebulosas – não tem qualquer significado militar, não obstante configurar uma vitória politica de Uribe.


O governo conseguiu infiltrar gente sua em algumas frentes. Milhões de dólares são oferecidos pelas cabeças dos membros do Secretariado e de outros dirigentes. Foram espiões os responsáveis pela morte do comandante Ivan Rios. As FARC não negam as dificuldades resultantes de traições não esperadas.


Mas o panorama da luta não justifica atitudes de desalento. Em Maio e Junho destacamentos da guerrilha, que continua activa em dezenas de frentes, da selva amazónica ao litoral do Pacifico, da Serra Nevada e do Arauco aos vales das três cordilheiras andinas infligiram ao Exército e à Polícia Militar duras derrotas. Os próprios comunicados do Exército registam a existência de importantes perdas em combate.


O andamento da História não tardará a desmentir as previsões triunfalistas de Uribe e dos seus generais.


Mas não foi sem amargura que registei declarações não esperadas sobre as FARC de personalidades que durante anos foram solidárias com a sua luta. Tenho em mente particularmente as de dirigentes progressistas latino- americanos com responsabilidades a nível de Estado.


Choca-me que venham somar as suas vozes às do coro de epígonos de Uribe.Esses homens, que admiro e respeito, não ignoram que Uribe – cujo nome figura nos ficheiros de narcotraficantes da Drug Enforcement Agency e da CIA – foi, quando governador do Departamento de Antioquia, um dos ideólogos e financiadores dos grupos de paramilitares. Uribe é responsável pela chacina de dezenas de milhares de camponeses e pelos bombardeamentos com glisofato que envenenaram rios da Amazónias, difundiram o cancro e outras doenças entre as populações do Putumayo e do Caquetá e tornaram improdutivos milhares de hectares de terras férteis. É esse criminoso que presidentes da União Europeia felicitam agora como exemplo do combatente democrata antiterrorista.


É também chocante ver, em fotos difundidas pelo mundo, Ingrid a abraçar comovida o general Mário Montoya, comandante chefe do Exército da Colômbia. Ela foi candidata à Presidência da Republica e senadora. Não ignora que o general que tanto admira foi o criador de uma unidade terrorista clandestina, da Aliança Anticomunista Americana – AAA – promotora de matanças maciças de militantes de esquerda colombianos e de camponeses do Chocó. Foi também sob o seu comando que se realizou o famoso massacre da Comuna 13 de Medellin, recordado por Uribe quando o elogiou pela libertação de Ingrid.


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Dentro de poucos anos, Álvaro Uribe somente será recordado como o presidente responsável pelo agravamento da tragédia colombiana. Foi e é o mais fiel aliado de George Bush na América Latina. Invocando a necessidade de levar adiante uma politica de segurança nacional, executou uma política de terrorismo de Estado sem precedentes desde o Bogotazo de 48. Arruinou o pais, transformando-o numa semi colónia dos EUA e inaugurou um estilo de governo de contornos fascistas.


As Forças Armadas Colombianas, com quase 400.000 homens (e mulheres) são hoje as mais poderosas da América Latina, dispondo de armas equipamentos e tecnologia que Washington somente fornece a Israel.


Mas, apesar das dezenas de milhares de milhões de dólares investidos na militarização do Estado com o objectivo de destruir as FARC, essa meta não foi alcançada.


Quando a poeira da historia assentar o que das FARC deixará memoria não serão as acusações e a calúnias que hoje as apresentam como guerrilha de bandoleiros e narcotraficantes, mas o seu combate de quase meio século em defesa de uma Colômbia livre, democrática, progressista.Há 170 anos não houve injúria que a oligarquia colombiana não despejasse sobre Simon Bolívar, desde aristocrata louco, a Bonaparte latino-americano e ditador sanguinário.


Não pretendo estabelecer paralelos. Mas acredito que o nome de Manuel Marulanda será recordado em futuro não distante como o grande revolucionário colombiano do século XX.


Serpa, 5 de Julho de 2008


segunda-feira, 7 de julho de 2008

Britto García e Serrano afirmam que o governo da Colômbia interceptou liberação das Farc

Segundo a hipótese de ambos, respaldada em artigos da imprensa e declarações de Ingrid Betancourt, o grupo insurgente estava realizando uma entrega unilateral de reféns que foi interceptada pelo governo da Colômbia, como fizeram a meses atrás, quando capturaram os portadores de provas de vida de reféns que seriam entregues à Venezuela.

ANNCOL/YVKE Mundial

De forma independente, os intelectuais Luis Britto García e Pascual Serrano teorizaram nesta quinta-feira que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc-EP) estavam realizando nesta quarta-feira uma entrega unilateral de prisioneiros e seqüestrados, que foi interceptada pelo governo da Colômbia, possivelmente seguindo as comitivas internacionais que estavam dialogando com o grupo insurgente.

Lembram que a Colombia já fez algo parecido há alguns meses, quando o governo da Colômbia capturou pessoas que portavam provas de vida de retidos pelas Farc, que seriam entregues ao governo da Venezuela. O governo da Colômbia fez passar essas provas de vida como um “êxito” próprio e processaram aqueles que os portavam, vários deles mulheres alheias ao movimento guerrilheiro.

As opiniões de ambos os intelectuais foram emitidas no programa “Dando e dando” da VTV, cujo trecho pode ser visto à direita (no artigo original).

Serrano publicou nesta quinta um artigo no portal Rebelión, onde explica melhor sua teoria.

As FARC já haviam expressado a delegados europeus com os quais haviam se reunido sua disposição de liberar os reféns.

A pesar de o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, ter apresentado como uma brilhante operação de inteligência militar a liberação de Ingrid Betancourt e outros quatorze seqüestrados das FARC, a realidade é que foi produzida justamente quando delegados europeus, o francês Noel Sáez e o suíço Jean Pierre Gontard, haviam entrado em contato com a direção da guerrilha para planejar a libertação. As FARC haviam expressado sua intenção a respeito, e o governo havia autorizado os contatos, aos quais havia estrito seguimento.

No último 1º de julho um comunicado do Executivo colombiano lido pelo secretário de imprensa do palácio presidencial, César Mauricio Velásquez, assinalava que os delegados europeus:

Ingressaram nos últimos dias na Colômbia e pediram ao governo autorização para deslocar-se para esse encontro direto com o secretariado (cúpula) das FARC, autorização que o governo concedeu.

Também o diário espanhol El País tratava deste assunto no mesmo dia 1º.

Bogotá havia autorizado a reunião dos negociadores europeus para discutir as condições para futuros encontros para discutir o futuro dos seqüestrados pelas FARC, segundo havia informado a imprensa colombiana. O antigo cônsul francês em Bogotá, Noel Sáenz e o diplomata suíço Jean-Pierre Gontard partiram no início do último fim de semana para um ponto de encontro nas montanhas que o governo não teria facilitado e poderiam ter-se reunido com membros do secretariado da guerrilha, o principal órgão diretivo, e inclusive com o novo líder das FARC, Alfonso Cano.

Segundo este jornal:

As FARC haviam se declarado dispostas a trocar 40 seqüestrados, Betancourt entre eles (também com nacionalidade francesa), três estadunidenses, assim como outros políticos, policiais e membros do exército colombiano, por cerca de 500 guerrilheiros presos. Entre os presos que as FARC desejam trocar, figuram três extraditados aos Estados Unidos. Um deles, Ricardo Ovídio Palmera, o Simon Trinidad.

Segundo o jornal francês Le Figaro, os emissários francês, Noel Sáez, e o suíço, Jean-Pierre Gontard, haviam se reunido no último domingo e quinta, na selva colombiana, com uma pessoa próxima ao novo chefe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Alfonso Cano.

Já duas semanas antes, fontes próximas ao Elíseo indicaram que a França havia conseguido estabelecer contato com o novo secretariado das Farc, o que o embaixador francês na Colômbia não desmentiu então.

Na Colômbia, o jornal El Tiempo, aliado do governo, reconhecia que dois delegados internacionais poderiam ter se reunido com Alfonso Cano:

“Os encarregados da gestão são os francês Noel Saez e o suíço Jean Pierre Gontard, autorizados pelo Governo para as gestões junto ao grupos subversivo em busca de libertar os seqüestrados.”.

Uma fonte da Casa de Nariño confirmou que “há três dias os europeus inciaram o percurso para concretizar o encontro” em uma região não determinada. A mesma fonte não descartou que a reunião houvesse sido com o chefe guerrilheiro que substituiu Manuel Marulanda Vélez “Tirofijo”, que morreu no último mês de março.

Isso significaria que os canais de comunicação das Farc, praticamente contados após a morte de ‘Raúl Reyes’ no último primeiro de março, começaram a abrir-se novamente.

Governo deu garantias

“O governo havia garantido aos facilitadores o avanço para esses contatos: Foram-lhes dadas as condições para que a reunião fosse bem sucedida”, assinalou o funcionário. Da Casa de Nariño também se informou que os dois diplomatas iam pedir às FARC que aceitassem a proposta de uma zona de encontro para iniciar diálogos em torno de um eventual Intercâmbio Humanitário.

A versão do governo colombiano sobre a libertação é de que militares infiltrados na guerrilha haviam enganado o comandante César das FARC para concentrar os prisioneiros e embarcá-los em um helicóptero que acabou sendo do exército disfarçado, fazendo crer ao comando guerrilheiro que se dirigiam até onde se encontrava Alfonso Cano, chefe máximo das FARC.

A dúvida que paira sobre essa versão é se os guerrilheiros que custodiavam os seqüestrados teriam orientações destinadas a uma iminente liberação, daí sua fácil e ingênua disposição em colaborar em tão suspeito transporte. Ou até que ponto a libertação já estava acordada entre a direção das FARC e os mediadores enviados por França e, no último momento, o exército colombiano interceptou a liberação para apresentá-la como uma operação militar bem sucedida.

Na verdade seria uma operação semelhante à acontecida quando do bombardeio do acampamento de Raúl Reyes no Equador. Naquela ocasião o governo colombiano supôs que se estava gestando a libertação e preferiu eliminar militarmente os porta-vozes guerrilheiros de forma a abortar essa libertação, enquanto que neste caso teriam interceptado dirigindo eles a libertação, para apresentá-la como um sucesso exclusivamente militar e governamental.

domingo, 6 de julho de 2008

O que está em jogo na Colômbia?

Na Colômbia está em jogo o futuro do movimento revolucionário latino-americano. Cenários possíveis. Invasão. Diálogos de paz na Colômbia. A posição lamentável e inoportuna posição de Fidel Castro.

Por Allende La Paz, ANNCOL

É na Colômbia onde está se decidindo o futuro do movimento revolucionário latino-americano. Disso não há dúvida. Por quê? Precisamente porque o movimento insurgente colombiano é o empecilho do império para seus planos de afogamento dos processos revolucionários e democrático-burgueses que acontecem na região. Enquanto o império estadunidense –e seu lacaio déspota, Uribhitler- tenha a ‘defesa’ aberta muito dificilmente pode esticar suas garras sobre a América do Sul: Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil –com suas enormes reservas de petróleo-, etc.

Analisemos alguns cenários possíveis do futuro:

Primeiro cenário. O governo dos Estados Unidos –em sua imensa debilidade- lança suas tropas contra a Venezuela, Equador, Bolívia (Cuba estaria na lista, mas acreditamos que a pobreza de Cuba, no que diz respeito a recursos naturais, não a faria apetitosa no momento). Colocou em marcha sua IV Frota como uma ameaça, mas não esqueçamos que os EUA está realmente dependente dos resultados de suas tropas no Iraque e Afeganistão, e esta sorte não é precisamente um jardim de rosas com mais de 6.000 baixas.

A debilidade do governo dos EUA é tamanha que não puderam resgatar militarmente seus três espiões em poder das FARC e tiveram que recorrer a uma ‘negociação’ –compra da libertação dos 3 militares espiões gringos e de Ingrid Betancourrt, além de alguns militares colombianos- e pagaram 20 milhões de dólares. Independente que o pagamento tenha sido efetuado ou não –podem apagá-lo dos registros agora- o certo é que tiveram que recorrer a esta variante para poder tirar seus militares da selva. Não puderam resgatá-los, apesar de terem lançado mais de 3.400 tentativas de resgate militar.

Por isso esta variante é muito complicada e complexa para o império estadunidense mas não é descartável em seu desespero. Para isso lançaria centenas de milhares de efetivos militares, e para fazer seu trabalho ‘sujo’ os grupos paramilitares, e a constelação de serviços secretos –CIA, DEA, Mossad, etc-, que irão assassinando, massacrando, desaparecento com os lutadores do povo que enfrentem a invasão, e a os que não enfrentem também.

Outro cenário. O governo dos Estados Unidos –o próximo, não este moribundo- permitirá e ordenará aos lacaios nacionais da Colômbia que façam ‘diálogos de paz’. Partirão da base de uma ‘derrota’ da insurgência armada, baseada na estratégia midiática e não na realidade dos acontecimentos militares. As FARC e o ELN continuariam sua luta e realizariam diálogos de paz –sua proposta desde seu nascimento-, e neles se discutirão as causas do conflito interno e suas soluções. Entre elas está a espoliação de nossos recursos naturais, doutrina de segurança nacional e doutrina bolivariana, sistema econômico, político, etc, etc.

Este cenário é supremamente complicado para a oligarquia, por isso sempre insistiram na rendição da insurgência armada e não em autênticos diálogos. A oligarquia colombiana sempre simulou ‘diálogos’ que significam, segundo a peculiar visão deles, que a guerrilha chegue à mesa de negociações e diga: “aqui estamos, estamos arrependidos, perdão, aqui estão minhas armas”; em troca a insurgência sempre buscou a troca das estruturas como condição sine qua non para a mudança da vida no país e das condições de vida do povo, sua razão de ser.

Fidel e sua posição. Os colombianos nunca aceitamos as mentiras das altas hierarquias. Valorizamos justamente tudo o que fazem os grandes homens, mas nunca chegamos ao culto à personalidade. Jamais! Nunca achamos os soviéticos ‘os deuses’, assim como os cubanos, na época da União Soviética, nem sabiam quem era Bolívar.

Por sua vez, as FARC jamais aceitaram a ‘tutela’ de ninguém, por mais ‘Don Juan de Las Pelotas’ que seja, muito menos que lhes dêem ordens, ou que suas ações estejam midiatizadas pelos interesses de outro país que não seja a Colômbia (tenho que fazer isso e não o contrário, porque isso vai mais de acordo com a linha do país amigo e não com a minha, apesar de que a minha levou a triunfos para o meu povo), e é muito claro que o cruel é que ‘quem bate esquece, quem apanha não’. Não acreditamos que seja mais cruel ‘sequestrar’ –uma palacra usada pela cultura imperial e que muitos revolucionários adotaram- que matar. E no processo da revolução cubana, e nos primeiros períodos da revolução, e com Ochoa e os da Guarda, foram ‘mortos’ muitos cubanos. Com justiça e sem ela. Isso não está em discussão.

A revolução cubana tem todo o direito de defender-se e tratar de estabelecer laços com todos os governos do mundo, inclusive governos fascistas como o de Uribe Vélez –o déspota de inícios do novo século, que assassinou fora de combate 11.282 colombianos-, mas não o pode fazê-lo sobre a base de desquelificar a luta de um povo valente como o colombiano. Isso seria cair no mais claro oportunismo e tentar mudar as leis da história. Acreditamos que a percepção de Fidel está atrasada por anos e anos no poder -49 anos, quase os mesmos que Manuel Marulanda esteve na montanha combatendo, com armas em mãos, o regime apoiado pelos gringos-, e esses últimos anos em luta pela vida e pela preservação de sua obra. Parece que Fidel esqueceu que os povos tem todo o direito a se levantar contra a opressão e para isso não tem que pedir permissão a ninguém. Absolutamente a ninguém. Por isso somos marxistas-leninistas e bolivarianos. E esta é a base para o acionar dos povos.

Sempre fomos admiradores e solidários com a revolução cubana. Com seus defeitos –burocratismo, ‘sociolismo’, etc- e com suas enormes virtudes –sucessos na saúde, educação, esportes, medicina, etc.-. Enfatizando logicamente nas virtudes e nas realizações da revolução cubana. Temos sido profundamente respeitosos com todos os revolucionários de todos os países do mundo e nunca ousamos ‘tirar o crédito’ dos revolucionários cubanos como ocorreu com alguns deles, que parecia uma doença viral. Nós acreditamos que uma coisa é a solidariedade internacionalista, e outra, muito diferente, é a submissão. Porque nós acreditamos que a auto-determinação dos povos é um princípio sagrado dos revolucionários.

Por isso lamentamos profundamente essas declarações de Fidel –a quem temos admirado- que são as mais inoportunas do mundo em momentos em que o império estadunidense se prepara para atacar a América do Sul. Quando isso ocorrer será a luta dos povos, utilizando todas as formas de luta de massas quem enfrentará a agressão imperial. Luta de massas, resistência de massas e nada de aventuras! E aí ficará patenteada a crueldade de uns e outros porque não há nada mais cruel que a guerra. Mas apesar da imensa crueldade de ter que matar seres humanos, entenderemos, pois essa guerra é feita contra um império assassino e invasor.

ALP
http://allendelapaz.blogspot.com/

Detalhes de um resgate "surrealista"

Todo o cenário, montado para enaltecimento oficial, alimenta as dúvidas sobre a versão uribista da “operação limpa” executada pela inteligência militar colombiana para “enganar” as FARC e liberar os prisioneiros.

IAR Notícias, de YVKE Mundial

Os argumentos oficiais da operação de “inteligência militar” para libertar a política colombiana Ingrid Betancourt, cria nos especialistas mais dúvidas que certezas. O conto, quase infantil, da trama para enganar as FARC e “roubar-lhes” os prisioneiros, contado por Uribe e seu exército, certamente, revelaria uma desarticulação dos comandos militares das FARC, que faz o incrível para uma organização guerrilheira que opera há mais de 40 anos. As FARC, todavia, não falaram, mas já há algumas “versões” que distoam da versão oficial.
Quarta-feira, a libertação da política Betancourt ( que parecia recém-saída do cabelereiro) e outros quatorze reféns (que mostravam-se vigorosos e bem alimentados) realizou-se em um cenário midiático preparado para o enaltecimento de Uribe e de seu exército, treinado pelo Pentágono.

Vinte milhões de dólares: o custo da libertação de Ingrid Betancourt

Fontes bem confiáveis francesas, citadas pela Rádio da Suíça francesa afirmam que a operação exitosa para a libertação de Betancourt, os três mercenários estadunidenses e membros das FFMM colombianas, que o exército colombiano anunciou com todo o alvoroço, como a mais importante, jamais realizada na América Latina, não é mais que um folhetim medíocre. Esta informação é o resultado de fontes do analista francês Fréderic Blassel, da sucursal em Washington Patrick Chaboudez e o analista internacional Pierre Bavaud.

Redação Anncol

O cenário Internacional dessa operação é a seguinte:

A) Necessidade dos EUA de libertar os únicos estadunidenses prisioneiros de guerra no mundo, sobretudo, antes do final do governo de George Bush.

B) França acaba de assumir a presidência da União Européia, e Nicolas Sarkozy necessitava de um golpe midiático contundente para que esquecessem o NÃO ao tratado europeu, dado pelo povo da Irlanda. França sempre pagou por todos os cidadãos que libertou no mundo.

C) Uribe vêm sendo questionado pela corrupção que invadiu toda a coalizão de seu governo, além da própria emenda que aprovou a sua re-eleição ter sido delituosa, e por último, o pronunciamento da Corte Suprema que freia as possibilidades de Uribe, de tentar se eleger novamente para um terceiro mandato.

Acontecimentos que precederam a famosa operação do ponto de vista político-militar:

A) A prisão da companheira sentimental do responsável pela custódia dos prisioneiros de guerra. Acredita-se que através dela iniciou-se a operação de infiltração e promessa de pagamento ao seu companheiro que se presta ao jogo do pagamento de recompensa. A rádio citada, manifesta que Ingrid a viu quase nua, e amarrada muito perto do helicóptero.

B) A suposta utilização, por parte do exército, das logomarcas de uma ONG internacional, a rádio não cita essa informação, mas segundo outra fonte, poderia ser do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

C) El Tiempo e os principais jornais do país ligados ao governo, mencionaram um suposto encontro, autorizado pelo presidente Uribe entre o enviado Suíço, o senhor J-Pierre Gontard e o enviado francês Noel Sáez e o novo comandante das FARC-EP Alfonso Cano.

O que se gerou com este ridículo espetáculo do regime colombiano e seu exército.

A) Com esta liberação, se está lançando a próxima re-eleição de Uribe, certas fontes especulam que sua fórmula, poderia ser a própria Betancourt. A re-eleição é a única maneira de Uribe se garantir a imunidade frente a todos os delitos que cometeu.

B) Mostrar esta suposta operação como o clímax da segurança democrática.

C) Outro falso positivo, como nos tem acostumado o exército, Juan Manuel Santos, Uribe e, em geral, todo o regime colombiano.

D) Uribe se vangloria com os gringos, como o lacaio maior, e com a França, dando a mão a Sarkozy.

E) Criar o ambiente propício para mostrar uma suposta derrota insurgente e pressionar internacionalmente –Ingrid já começou- a desmobilização das FARC-EP.

Respostas que o povo colombiano deve saber

A) Que organização internacional o exército colombiano forjou em sua operação?

B) Aconteceu, ou não, a viagem dos enviados suíço e francês com Alfonso Cano e que papel tiveram eles nesse acontecimento?

C) Porquê o exército colombiano se sujeitou a este espetáculo, mostrando uma capacidade técnica e de inteligência que não possui.

D) Onde está a companheira do guerrilheiro responsável pelo cuidado dos prisioneiros, agora libertados?

E) Um pronunciamento da insurgência poderia dar mais detalhes sobre este acontecimento.

http://info.rsr.ch:80/fr/news/Ingrid_Betancourt_une_liberation_achetee.html?siteSect=2010&sid=9296449&cKey=1215171066000

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Vladimir Acosta: É possível que tenha havido um acordo entre Betancourt e Uribe

Por YVKE Mundial

O historiador da UCV aponta essa possibilidade devido a que Betancourt deu apoio completo ao presidente colombiano, incluindo sua polêmica reeleição obtida com o suborno de congressistas. Também justificou suas operações militares.

Para Vladimir Acosta, analista internacional e historiador da Universidade Central da Venezuela, é bastante provável que tenha havido uma conversação secreta entre Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, é Ingrid Betancourt, a recém libertada ex-candidata presidencial neogranadina, devido às declarações que deu logo depois de ser libertada, nas quais apoiou o governo e a polêmica reeleição de Álvaro Uribe Vélez.

“Sua declaração me põe a duvidar, pois acredito que Betancourt manteve uma cenversação prévia e secreta com o presidente Álvaro Uribe, que lhe permitiu apresentar seu ponto de vista absolutamente a favor do governo colombiano”.

“Ela está reconhecendo a reeleição de Uribe como algo positivo, reeleição que se baseia em algo absolutamente ilegal e ilegítimo como é o suborno: comprar um voto. Está dizendo que a política de Uribe tem sido positiva, salvo pequenos detalhes. Está justificando as operações militares. É dizer, chama a atenção uma declaração como esta, que não é uma declaração de amplitude, tolerância e visão política menos militarista que se esperaria dela”.

Previamente, no programa Dando y Dando, da Venezolana de Televisión, Acosta expressou que esta libertação não teria acontecido sem a participação do presidente Hugo Chávez e da senadora colombiana, Piedad Córdoba, com o Plano de Intercâmbio Humanitário.

“As FARC estavam em perfecto funcionamento, era uma guerrilha estável, ninguém poderia imaginar que este grupo pudesse experimentar uma crise como a que está vivendo, mas há que se levar em conta que teve seu ponto de partida com o Intercâmbio Humanitário”, assinalou Acosta.

De igual forma, argumentou que o presidente Hugo Chávez assumiu o compromisso de liberar os retidos “confrontando diversos entraves do governo Uribe”.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ingrid Betancourt livre: Acelerar a busca pela paz

Jaime Caycedo - Secretário Geral do Partido Comunista Colombiano / Rádio Café Stéreo

Ingrid Betancourt, os três prisioneiros de guerra estadunidenses e onze funcionários militares acabaram em liberdade nesta tarde em uma operação militar executada em áreas limítrofes dos departamentos colombianos de Vaupés e Guaviare.

Foram libertados, além da ex candidata presidencial, as seguintes pessoas:

Thomas Howes, Keith Stansell y Marc Gonsalves, contratados estadunidenses do Pentágono, capturados em 13 de março de 2003, quando faziam serviços de espionagem no marco do Plano Colômbia. Ainda, Juan Carlos Bermeo y Raimundo Malagón, tenentes do exército, Erasmo Romero, José Ricardo Marulanda, segundo sargentos do exército; William Pérez, José Miguel Arteaga y Armando Flórez, cabos do exército. Vaney Rodríguez, tenente da policia. Jairo Durán, y Julio Buitrago, cabos da policia. Armando Castellanos, superintendente da Policia.

O governo colombiano tema presentado a operação como um triunfo militar na política de guerra contra-insurgente do governo. De fato, a operação implicou ações de inteligência e infiltração que permitiram comprometer, mediante simulação, os guardiões dos reféns. Vultuosas recompensas para estimular as deserções dentro da própria guerrilha se anunciam permanentemente pelos meios de comunicação e bombardeios de propaganda nas zonas de conflito. Não descarta interceptações de comunicações com a mediação de satélites do comando sul dos Estados Unidos. O resgate coincide com o momento em que o candidato de Bush à presidência encerrava uma visita à Colômbia.

Deve recordar-se que os governos da França e Suíça haviam enviado, há vários dias, contatos destinados a libertar a várias pessoas. Os movimentos dos presos que provinham de três grupos diferentes dispersos na selva, indicam que efetivamente estavam em processo de ser reunidos, quiçá no contexto das prometidas libertações.

Para Uribe este sucesso representa um alívio em meio à crise política desatada pelos processos que move a Corte Suprema contra parlamentares aliados do governo e a ex parlamentar Yidis


Medina, condenada pelo crime confesso de suborno, que determinou a maioria de votos que tornaram possível a reeleição de Álvaro Uribe, nas eleições de 2006. Uribe tem planejado convocar um referendo para ratificar sua legitimidade. Ao mesmo tempo, se sabe que seu objetivo é uma nova reforma constitucional que permita reeleger-se em 2010.

A natural alegria pelo sucesso alcançado não esconde que permanecem retidos outros prisioneiros. É claro que se trata de um revés, mas não de uma derrota das FARC. O êxito alcançado pelas forças oficiais não desqualifica a necessidade do acordo humanitário, que pode ser um passo importante em busca de uma saída política negociada do prolongado conflito interno colombiano. Nesse sentido deve continuar a pressão nacional e internacional para alcançar a paz democrática, com justiça social e soberania.

Libertação e Desrespeito ao Direito Internacional Humanitário


À luz das notícias em torno do grande acontecimento da libertação de 15 sequestrados prisioneiros das Farc, que incluem a ex-candidata presidencial, Ingrid Betancourt, levada a cabo por uma operação comando das Forças Armadas da Colômbia, com o apoio reconhecido do governo estadunidense, não é menos claro que a operação se realizou com um “engano” que vai contra os postulados do direito internacional humanitário, o direito da guerra, porque se fez uso, na operação de resgate, de um avião do exército da Colômbia pintado de branco e com a insígnia da Cruz Vermelha Internacional, um assunto de gravíssimas implicações, e sobre o qual fizeram-se silêncio, em meio à euforia, tanto Ingrid Betancourt, como outros prisioneiros militares entrevistados, e as autoridades militares colombianas e o próprio presidente Uribe, o embaixador William Brownfield, e o candidato republicano McCain, que foi avisado da operação um dia antes que esta ocorresse.

Tal acontecimento, que é uma violação do direito internacional humanitário, ao utilizar de uma organização internacional neutra em uma ação de guerra, a Cruz Vermelha Internacional, nos iguala com operações cumpridas na África e em Israel, e continua uma cadeia de ações ilegais cometidas pelo governo colombiano, utilizando meios que supostamente teriam fins altruístas. Esta operação que se define como “perfeita e impecável” não o é nem um pouco em matéria jurídica, porque consiste em uma grave violação. E esta une-se ao recente anúncio da Corte Institucional, no mesmo dia da libertação, que não revisará a decisão de exeqüibilidade, com um honroso salvamento do voto do Magistrado Araujo, feita sobre a mudança constitucional que permitiu a reeleição do presidente Álvaro Uribe, com um ato ilícito, perpetrado pela congressista Yidis Medina.

Trata-se, nem mais nem menos, da cumplicidade com tal ato delitioso de funcionários do executivo nacional, e do próprio presidente beneficiado com tal conduta criminal, que abriu a possibilidade de sua segunda presidência. Ao qual se une a prova da intervenção ilegal do clientelismo armado nas duas eleições presidenciais, tal como está documentado pelas investigações da fundação Arco Íris, e as contribuições feitas pela equipe, da qual fazem parte León Valencia, Claudia López, Mauricio Romero, e a jovem investigadora Laura Bonilla, que hoje encontra-se forçadamente fora da Colômbia, morando em Madrid.
Por conta disso, é fundamental hoje participar na mobilização de apoio à Corte Suprema de Justiça, o qual deve se unir às exigências de renúncia do presidente por haver sido reeleito utilizando uma fórmula ilegal e inconstitucional para fazê-lo. Ao anterior deve-se unir uma demanda cidadã pelo respeito ao direito interno e ao direito internacional humanitário, que foi desconhecido flagrantemente para obter a libertação dos seqüestrados sobre o qual a euforia do instante guarda silêncio cúmplice.

Fingindo operação militar das FARC, governo resgata Ingrid Betancourt




O governo colombiano anunciou há poucas horas a libertação, por parte do Exército oficial, de Ingrid Betancourt, os três mercenários estadunidenses e 11 militares capturados em combate pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia FARC-EP.




A notícia ocupou os principais espaços dos meios informativos do mundo e causou múltiplas manifestações de apoio e solidariedade às famílias dos detidos pelas FARC-EP.


O Ministro de Defesa, em discurso televisionado, apresentou alguns detalhes da operação, que esteve inspirada, segundo a Revista Semana, na ação efetuada pelas FARC-EP há 5 anos, quando foram capturados os deputados do Valle, assassinados ao que parece por mercenários a serviço do Estado, em uma tentativa de resgate à sangue e fogo.


Ainda se desconhece a versão da insurgência e o estado e paradeiro dos guerrilheiros capturados; espera-se a reação de centenas de presos políticos nas prisões colombianas que viam na troca de prisioneiros a possibilidade de reaver sua liberdade e como o primeiro passo rumo a um processo de negociação política dialogada ao conflito social e armado cujas causas, conforme a insurgência assinala constantemente, continuam vigentes.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

"... O fim das FARC..."


Rios de tinta, resmas de papel, milhões de bits, milhares de palavras, foram gastas, impressas, gravadas e lançadas ao ar, através dos diferentes meios de informação, por conta das recentes mortes, em circunstâncias e com poucos dias de diferença, dos camaradas Manuel, Raúl e Iván, os três, membros do Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP.

O denominador comum da imensa maioria –para não dizer a totalidade- de tudo que foi dito e escrito pode-se resumir em uma frase que já parece senso comum: “...o fim das FARC...” e os importantes analistas se apóiam, para apontar os argumentos, em todo tipo de racionamentos: Que as FARC estão desmanteladas, que com a morte de Marulanda desaparece o mito fundacional (?), que a nomeação do novo Comandante em Chefe desatou uma luta interna, se seria Cano, se seria Jojoy; que as deserções, que chega uma geração de comunistas ortodoxos, seguida por uma de narcos puros; que perderam o apoio de Chávez, por conta da marcha do 4fev., por conta da do 6mar.; que porque agora os guerrilheiros vestem moleton e não se camuflam; que porque perderam o controle territorial, que porque há muito perderam o norte ideológico, que porque é inverno, que porque é verão; que porque patatí, patatá...
Ignorantes!

Ou melhor, ignorantes uns poucos, oportunista e mal intencionados os demais.

A verdade é que alguém que possui um pouco de cultura política e tenha mínimos conhecimentos acerca da história recente do nosso país, não se atreveria a dizer besteiras como essas, a menos que tenha, como está claro, algum interesse ideológico, político ou econômico. Que existem muitos; mercenários ideológicos dedicados à tarefa de desinformar em troca de uns quantos milhões mensais.

Se nos ocupássemos –como exercício de aquecimento mental- em comparar os argumentos dos desinformadores de profissão, com os apresentados, por exemplo, em seguida à morte do camarada Jacobo, em agosto de 1990; ou meses mais tarde, quando teve o ataque à Casa Verde, acampamento sede do Secretariado, ordenado pelo então presidente, Cesar Gaviria, veremos que são os mesmos argumentos, com os quais prognosticaram nosso desaparecimento, mas além disso; coisa curiosa, são os mesmos personagens e os mesmos meios de desinformação. Por acaso não foi um tal Rafael Pardo, então Ministro da Defesa, quem diagnosticou nosso desaparecimento em 18 meses? Se esqueceram, por acaso, de todos aqueles que nos chamaram de dinossauros, para convidar-nos seguidamente a abandonar nossos princípios e ideais, diante do fracasso do modelo socialista europeu? E assim, poderíamos nos extender ao longo de todos esses 44 anos de confrontação, citando exemplos concretos; mas para bom entendedor, meia palavra basta.

Para vossa desgraça, senhores agoreiros de então e de agora, para vossa desgraça, senhores desinformadores de sempre, sempiternos servos do regime, para vosso desdém, devemos dizê-los: mais uma vez, vocês erraram.

Mais uma vez, estão equivocados, para a sorte do povo colombiano. Para a sorte do povo colombiano, aqui tem FARC, e muito.

Nem derrotadas, nem desmoralizadas, nem desmanteladas. Uma organização político-militar como as FARC, produto histórico do grave conflito social e armado que afeta nosso país; uma organização político militar fundamentada ideologicamente em uma teoria científica, como é o marxismo-leninismo, inspiradas no projeto político do Libertador – hoje novamente a galope pelos Andes sulamericanos, convocando a unidade de seus filhos-; uma organização político-militar, com uma proposta política para a formação de um governo patriótico, pluralista e democrático, que se ponha à frente da solução dos problemas mais urgentes que demanda o atual momento histórico que a Colômbia vive, começando pela solução política do conflito; uma organização político-militar forjada nos campos da guerra de guerrilhas mais longa e prolongada que jamais teve que enfrentar povo algum, para conquistar sua independência; uma organização político-militar com uma raiz popular tão profunda como as FARC-EP, não será derrotada, por uma razão muito simples: As causas econômicas, políticas e sociais que a deram origem, e a nutrem, não foram resolvidas, pelo contrário, cada vez foram se agravando mais, como conseqüência do caráter violento e a leviandade da oligarquia colombiana. Se não acreditam, analizem o que aconteceu nessas quatro décadas com a propriedade da terra. Para mencionar apenas um elemento.

Senhores, oráculos do regime, talvez, em algo estejamos de acordo. Aqui, algo cheira mal, também chega a nós o fedor de um corpo em decomposição, algo que apodrece e ameaça desaparecer. Quem sabe seja o regime virulento, o regime de terror e morte instaurado pela oligarquia pro imperialista e mafiosa que vocês encarnam e defendem?


http://www.frentean.co.nu/


quinta-feira, 26 de junho de 2008

Entrevista com Piedad Cordoba



“Eu não estou privilegiando a guerra. Eu sou uma democrata, jamais empunhei um fuzil. Mas não posso continuar fazendo o jogo de uma direita e um stablishment desse país que quer que o mundo acredite que o problema da Colômbia são as FARC. E isso não é correto. As FARC, o ELN e os paramilitares são conseqüência de um modelo de desenvolvimento injusto, excludente”.



por Jorge Ramos Avalos/El Nuevo Herald


Não foi fácil localizá-la. Durante meses a estive perseguindo para entrevistá-la. Em Miami. Em Washington. Em Caracas. Nada. Até que um belo dia a encontramos em sua casa, em Bogotá, e foi ali, via satélite, que finalmente pude conversar com a senadora Piedad Córdoba. É, sem dúvida, uma das figuras mais controversas da Colômbia e, como pude comprovar, nunca foge de uma briga.

Comecei perguntando-a sobre sua denúncia de que o governo do presidente colombiano, Álvaro Uribe Vélez, tinha um fundo para resgatar, à força, a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt e outros seqüestrados. De onde tirou tal informação? “Eu soube por um informante desmobilizado”, me disse. “E é uma informação muito séria de que o presidente vem buscando a possibilidade de oferecer 100 milhões de dólares a qualquer pessoa do secretariado (das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, FARC), ou muito próxima do secretariado, que lhes forneça informações exatas, as coordenadas exatas, onde poderiam encontrar Ingrid Betancourt e resgatá-la em uma operação militar similar à que fizeram quando invadiram o território equatoriano”. Ela acredita que uma operação dessa seriedade seria muito perigoso e poderia culminar com a morte dos seqüestrados.

Piedad Córdoba está convencida de que tanto o comandante guerrilheiro Raúl Reyes como o líder das FARC Manuel Marulanda, Tirofijo, que morreram recentemente, tinham “boa vontade e a intenção de (liberar) os reféns por parte das FARC”. De fato, ao falar sobre Marulanda, a senadora me disse textualmente que “necessitamos de pessoas como ele, que podiam fazer a paz, para que Colômbia possa sair de todo esse poço profundo no qual está”.

Apesar do anterior, a senadora me disse estar “totalmente segura de que as ações da guerrilha são responsáveis por mortes e seqüestros”. E logo matizou. “Eu não estou privilegiando a guerra. Eu sou uma democrata, jamais empunhei um fuzil. Mas não posso continuar fazendo o jogo de uma direita e um stablishment desse país que quer que o mundo acredite que o problema da Colômbia são as FARC. E isso não é correto. As FARC, o ELN e os paramilitares são conseqüência de um modelo de desenvolvimento injusto, excludente”.

Córdoba reconhece que as FARC seqüestram –“todo mundo sabe”- e que “aquele que seqüestra, não somente pode ser classificado como terrorista [mas também] é um violador do direito internacional humanitário”. No entanto, ela resiste em qualificar as FARC como “terroristas”. “Nunca vai escutar isso de mim”, me disse, “porque meu objetivo não é simplesmente dizer coisas que agradem a uns e outros pra ficar bem. Olhe, eu penso que o conflito colombiano é muito complexo, leva 60 anos... Isso não significa que eu esteja do lado das FARC ou que esteja contra o governo”.

A senadora acredita que com o novo líder das FARC, Alfonso Cano, e “com a ajuda e a cooperação internacional, pode-se conseguir reabrir o acordo humanitário e os contatos para a liberação [dos seqüestrados]”. Mas para ela, o principal obstáculo para isso é o próprio presidente Álvaro Uribe, cujo governo descreveu como o de um “regime mafioso”.

“Eu não me arriscaria a falar de um processo de paz com o presidente da república”, me assegurou, “porque acredito que ele prefere a saída militar, a saída da guerra, e não acredito que na agenda do presidente esteja um processo de paz”. Logo me disse que 6.5 por cento do produto interno bruto está “dirigido para a guerra” e que ela acredita que a única saída é “política e negociada”.

A senadora Córdoba, junto com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ajudaram na libertação, há alguns meses, de vários seqüestrados em poder da guerrilha. Para ela, Chávez é “um homem generoso, um homem socialista, que privilegia a paz e que luta, ainda por cima, para que muitos homens e mulheres não morram de fome”.

Ela rechaça a recente afirmação do subsecretário de Estado estadunidense, John Negroponte, que assegurou que “não existem dúvidas que revolucionários das FARC se refugiam na Venezuela”. “Eu não acredito nisso”, me disse, “eu acredito que isso é parte de uma estratégia bem desenhada, não somente por parte do próprio governo colombiano, mas também com a ajuda e cooperação do Departamento de Estado estadunidense”. Tampouco dá credibilidade às informações faladas no computadores do assassinado líder guerrilheiro Raúl Reyes. “Eu cada vez acredito menos... e quando ouço o fiscal geral da nação dizer que eu mandei 900 correios [eletrônicos, a Raúl Reyes], isso para mim é prova suficiente de que isso é uma armação, uma mentira”.

Córdoba, que foi seqüestrada por paramilitares, se reconhece como uma mulher “absolutamente controvertida” e ameaçada de morte. Quem quer te matar?- a perguntei. “Eu penso que o stablishment”, respondeu. “Um setor muito importante do poder estabelecido desse país não quer matar somente a mim; quer matar todos que pensem diferente. [Mas] não nos deixaremos amedrontar pelas acusações. Não nos assusta que nos chamem de terroristas, que nos chamem de guerrilheiros ou guerrilheiras, e que nos submetam permanentemente ao escárnio público.”

Ela sabe que pelo “desgaste que sofri politicamente” não pode aspirar a presidência da Colômbia. Ainda que pareça mais importante para ela trabalhar pelo “processo de paz”.
Terminei a entrevista, que foi filmada originalmente para a televisão, perguntando-a sobre os turbantes que usa. O que escondem? “Uma cabeça cheia de idéias”, me respondeu com um sorriso, para logo explicar que o turbante, para ela, “significa meu orgulho total por pertencer à afrodescendência da América Latina e Colômbia”. Afinal, tive que reconhecer que a senadora respondeu todas e cada uma de minhas perguntas e que acreditei no que ela disse. “A luta continua”, concluiu.


quinta-feira, 12 de junho de 2008

As guerrilhas não são uma moda, são uma resposta à repressão e ao fechamento político

por Pedro Echeverría V. [*]

1. Incrível! Será que Hugo Chávez entrou num estado de desespero ou alguém imitou a sua voz para que os meios de informação do mundo, ao serviço do império ianque, divulgassem jubilosamente as suas declarações ? Obviamente, as FARC e as demais guerrilhas do mundo não vão fazer caso desse apelo formulado, aparentemente, domingo passado às guerrilhas colombianas para que libertem, "em troca de nada", reféns em poder dos rebeldes. Além disso, disse que "a guerra de guerrilhas passou à história... e vocês nas FARC devem saber uma coisa: que se converteram numa desculpa do império (o governo dos Estados Unidos), para ameaçar-nos a todos nós". Chávez recebeu o aplauso dos governos que estão ao serviço os EUA e, mais ainda, agora exigem que cumpra sua palavra. O passo seguinte dos cães do império será agora exigir-lhe que extermine os terroristas, os lutadores radicais e os rebeldes.

2. Hugo Chávez sabe perfeitamente que os ianques não necessitam de desculpa alguma para ameaçar. O governo dos EUA ameaça e submete a quem lhe dê na gana. Bush dividiu o mundo em aliados e terroristas. Invadiu o Afeganistão porque, segundo disse, ali se ocultava Bin Laden. Depois invadiu o Iraque com o argumento de que escondia um grande armamento, mas os enviados da ONU informaram que este nunca existiu. Chávez sabe que os EUA não precisam qualquer pretexto porque há vários anos seleccionaram os países que fazem parte, segundo seus critérios, do "Eixo do mal" e iniciaram uma série de agressões contra eles e seus vizinhos. Quando os EUA decidem dar um passo, pretextos não lhe faltam. Durante décadas, de modo permanente, disse que suas repetidas intervenções armadas eram para apoiar os interesses dos seus cidadãos e salvar seus investimentos. Chávez sabe-o melhor do que ninguém, por isso parece-me estranha a sua posição e até tive dúvidas que fosse dele.

3. Que corrente de esquerda pode negar ou regatear o enorme papel que Chávez desempenhou nos últimos oito anos na Venezuela e na América Latina frente ao saqueador e assassino governo Bush? Mais ainda, foi considerado o aluno com mais peso e, ao mesmo tempo, o herdeiro das lutas anti-imperialistas de Fidel Castro no continente. O que se passou então na cabeça de Chávez ou na dos seus conselheiros ao pensar que as condições políticas venezuelanas são idênticas às do México, Haiti, Guatemala, El Salvador ou Colômbia? No México, quando se dá esse tipo de mudanças intempestivas ou que não nos damos conta, perguntamos: O que fumaste? Ou advertimos: "estás a urinar fora do bacio". Chávez sabe muito bem que as guerrilhas e outras formas de luta como os movimentos de massas, as greves gerais, os piquetes bloqueando avenidas e praças, bem como outras mais batalhas dos explorados, não podem estar fora de tempo.

4. Os empresários e governos, em todo o mundo, desejariam controlar absolutamente tudo: monopolizar a economia, a política, a propriedade, a cultura. Assim o fizeram durante séculos apesar das débeis oposições e protestos. Contudo, essa classe social dominante teve de dar passos atrás, fazer concessões e por em prática reformas agrárias, laborais, eleitorais, só devido à pressão das lutas dos trabalhadores. Hoje talvez nuns 20 por cento dos países, sobretudo na Europa, por lutas que duraram séculos, a burguesia teve que ser "inteligente" para respeitar as lutas legais da oposição. Mas nos outros 80 por cento dos países a repressão contra os trabalhadores foi aberta e brutal. Inclusive em países como o México, onde os processos eleitorais foram implantados em 1824, 70 por cento da população continua a viver na pobreza e na miséria. Basta apenas esse dado para demonstrar até que grau a população é exploradas e oprimida.

5. A guerrilha na América Latina não pode sair de moda porque as condições económicas e políticas do continente, prejudiciais à maioria da população, continuam em vigor. Registaram-se enormes mudanças nas cidades, a tecnologia cresceu sem paralelo, os automóveis multiplicaram-se nas cidades e 80 por cento da população tem pelo menos uma televisão, mas para os explorados e oprimidos, para os milhões de desempregados e marginalizados de sempre, parece que não passaram os séculos. Para aproveitar e dar continuidade a este estado de coisas a burguesia submeteu com grande sanha o mais mínimo protesto ou oposição. Se Chávez não houvesse utilizado a força, ou certo grau de força, na Venezuela estariam a governar os partidos burgueses tradicionais, os meios de informação continuariam a idiotizar a população e os ianques continuariam a saquear os recursos naturais. Talvez o próprio Chávez estaria a ser defraudado no aspecto eleitoral.

6. O que fariam as FARC frente a um governo abertamente assassino, como o de Álvaro Uribe (apoiado pelo governo Bush) que se refreia um pouco em bombardear acampamentos pela existência de presos trocáveis? Esquece-se por acaso que muitos desses presos actuaram contra o povo e foram uma moeda necessária de troca com os heróicos presos guerrilheiros detidos pelo governo? É compreensível o desespero de Chávez e a pressão que sofre da parte dos familiares desses presos, mas a guerrilha surgiu há 44 anos para lutar pelos interesses dos explorados e dos mais pobres e é ela que tem de decidir o que fazer. Chávez não pode usar o seu prestígio, a sua grande autoridade, para pedir o desaparecimento da guerrilha. Certamente na Venezuela, na Bolívia e no Equador não é necessária a guerrilha porque os pobres, os explorados, agora estão a experimentar um novo governo que lhes deu espaços para encaminhar as suas petições e as suas lutas, mas não no México, na Guatemala e demais.

7. Fidel Castro assumiu o poder em Cuba em Janeiro de 1959 depois de encabeçar uma guerrilha e com ela tornar possível o triunfo da Revolução contra o ditador Batista. Depois Castro, como presidente, apoiou mais de cinco movimentos guerrilheiros que lutavam contra governos pro-norteamericanos no continente. Não foram apoios materiais porque Cuba carecia de meios para concedê-los, mas Fidel nunca deixou de analisar nos seus longos discursos a pobreza e o desespero dos povos perante um império ianque associados às burguesias nacionais de cada país. Hugo Chávez não assumiu o poder pela via guerrilheira e sim pelo processo eleitoral; mas teve de enfrentar a violência com o apoio do exército quando se rebelou contra o governo Carlos Andrés Pérez e quando, em 2002, foi "derrubado" por 48 horas. Os explorados nunca foram violentos por gosto, utilizaram a violência para defender-se da classe dominante que nunca os deixou viver em paz.

8. No México os movimentos guerrilheiros estiveram presentes em toda a sua história. Durante o colonialismo espanhol a guerrilha indígena foi permanente. A própria luta de Independência iniciou-se como um levantamento que logo se tornou uma resistência guerrilheira. As invasões ianques e europeias do México no século XIX sofreram os permanentes fustigamentos de guerrilheiros heróicos. Durante o Porfiriato e a Revolução os guerrilheiros, talvez mais que os exércitos formais, desempenharam um papel importantíssimo. O que foram as guerrilhas mexicanas de Ciudad Madera (Chihuahua), de Jenaro Vázquez e Lucio Cabañas do estado de Guerrero, as guerrilhas urbanas de princípios dos 70 e por que são actuais as guerrilhas hoje encabeçadas pelo EPR? Cada guerrilha responde a condições concretas: injustiças, miséria, fechamento, repressão, desespero, perseguição, ameaças. Ninguém poderá exterminar as guerrilhas se não se transformam as relações sociais. Chávez sabe-lo, por isso não creio no que ouvi.

[*] Analista mexicano.

O original encontra-se em http://www.resumenlatinoamericano.org/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Homenagem a Manuel Marulanda - por James Petras


Escrito por James Petras
02-Jun-2008


Pedro Antonio Marín Marín, mais conhecido como Manuel Marulanda Vélez e "Tirofijo", era o líder máximo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Foi, sem dúvida alguma, o maior campesino revolucionário da história do continente americano. Durante sessenta anos organizou movimentos campesinos e comunidades rurais e, quando todas as vias democráticas legais se lhe fecharam de forma brutal, criou o exército guerrilheiro mais poderoso da América Latina e as milícias clandestinas que o sustentavam. Em sua época de maior apogeu, entre 1999 e 2005, as FARC contavam com quase 20.000 combatentes, várias centenas de milhares de campesinos ativistas e centenas de unidades de milícias comunais e urbanas.

Inclusive hoje, apesar do deslocamento forçado de três milhões de campesinos como resultado das políticas de terra arrasada e os massacres do governo, as FARC têm entre 10.000 a 15.000 guerrilheiros em suas numerosas frentes, distribuídas por todo o país.

O que faz tão importantes as conquistas de Marulanda são suas habilidades organizativas, sua agudeza estratégica e suas intransigentes posições programáticas, baseadas no apoio às exigências populares. Mais que qualquer outro líder guerrilheiro, Marulanda tinha uma compenetração sem par com os pobres das zonas campesinas, os sem-terra, os cultivadores pobres e os refugiados rurais durante três gerações.

Após começar, em 1964, com dúzias de campesinos que haviam fugido de povoados devastados por uma ofensiva militar dirigida pelos EUA, Marulanda construiu metodicamente um exército guerrilheiro revolucionário sem contribuições econômicas ou materiais estrangeiras. Mais que qualquer outro líder guerrilheiro, Marulanda foi um grande mestre político rural. Os extraordinários dotes organizativos de Marulanda se foram refinando através de sua íntima vinculação com o campesinato. Como havia crescido numa família de campesinos pobres, viveu entre eles cultivando e organizando-os: falava sua mesma linguagem, se ocupava de suas necessidades diárias mais básicas e de suas esperanças de futuro. De maneira conceitual, porém também através da experiência cotidiana, Marulanda realizou uma série de operações políticas e militares estratégicas baseadas em seu brilhante conhecimento do terreno geográfico e humano.

Desde 1964 até sua morte, Marulanda derrotou ou escapou de, ao menos, sete importantes ofensivas militares financiadas com mais de sete bilhões de dólares de ajuda militar americana, que incluía milhares de "boinas verdes", corpos especiais, mercenários, mais de 250.000 militares colombianos e 35.000 paramilitares integrados em esquadrões da morte.

Diferentemente de Cuba ou Nicarágua, Marulanda construiu uma base massiva organizada e treinou uma direção, em grande parte, rural; declarou abertamente seu programa socialista e nunca recebeu apoio político ou material dos denominados "capitalistas progressistas". Ao contrário dos corruptos e ambiciosos gângsteres de Batista e Somoza, que saqueavam e se retiravam sob pressão, o exército da Colômbia era um formidável aparato repressor, altamente treinado e disciplinado, reforçado, ademais, por homicidas esquadrões da morte.

Distintamente de outros famosos guerrilheiros "de pôsteres", Marulanda foi um autêntico desconhecido entre os elegantes editores esquerdistas de Londres, os nostálgicos sessenta-e-oitistas parisienses e os socialistas eruditos de Nova Iorque. Marulanda passou seu tempo exclusivamente na "Colômbia profunda"; preferia conversar e ensinar aos campesinos e inteirar-se de suas queixas a conceder entrevistas a jornalistas ocidentais ávidos de aventura. Em lugar de escrever manifestos grandiloqüentes e adotar poses fotogênicas, preferia a pedagogia popular dos deserdados, estável e pouco romântica, porém sumamente eficaz.

Marulanda viajou desde vales praticamente inacessíveis a cordilheiras, desde selvas a planícies, sempre organizando, lutando, recrutando e treinando novos líderes. Evitou apresentar-se nos "foros de debate do mundo" ou seguir a rota dos turistas esquerdistas internacionais. Nunca visitou uma capital estrangeira e contam que jamais pôs os pés em Bogotá, a capital da nação. Porém, tinha um amplo e profundo conhecimento das exigências dos afro-colombianos costenhos; dos indo-colombianos das montanhas e da selva; dos desejos de terra de milhões de campesinos deslocados; dos nomes e endereços dos terra-tenentes maltratadores que brutalizavam e violavam os campesinos e seus familiares.

Durante as décadas dos 60, 70 e 80, numerosos movimentos guerrilheiros se levantaram em armas, lutaram com maior ou menor capacidade e logo desapareceram assassinados, derrotados (alguns, inclusive, se converteram em colaboradores) ou se integraram nas partilhas e repartilhas eleitorais. Pouco numerosos, lutavam em nome de inexistentes "exércitos populares"; a maioria era de intelectuais, mais familiarizados com os discursos europeus que com a micro história, a cultura popular e as lendas dos povos aos quais tratavam de organizar. Foram isolados, cercados e arrasados; deixaram, talvez, uma herança bem divulgada de sacrifício exemplar, porém não mudaram nada sobre o terreno.

Pelo contrário, Marulanda encaixou os melhores golpes dos presidentes contra-insurgentes de Washington e Bogotá e se os devolveu em 100%. Por cada povo arrasado, Marulanda recrutou dúzias de campesinos lutadores, enfurecidos e desamparados e os treinou com suma paciência para que fossem quadros e comandantes. Mais que qualquer exército guerrilheiro, as FARC chegaram a ser um exército de todo o povo: um terço dos comandantes eram mulheres, mais de setenta por cento eram campesinos, se bem que se associaram intelectuais e profissionais, que foram treinados por quadros do movimento.

Marulanda foi um homem venerado por seu estilo de vida excepcionalmente simples: compartilhou a chuva torrencial sob cobertas de plástico. Milhões de campesinos o respeitavam profundamente, porém nunca praticou o culto à personalidade: era demasiado irreverente e modesto, preferia delegar as tarefas importantes a uma direção coletiva, com muita autonomia regional e flexibilidade tática. Aceitou um amplo leque de opiniões sobre táticas, inclusive se discrepava profundamente delas. Em princípios dos 80, muitos quadros e líderes decidiram testar a via eleitoral, firmaram um "acordo de paz" com o presidente colombiano, criaram um partido – a União Patriótica – e fizeram eleger a numerosos prefeitos e deputados. Inclusive, obtiveram numerosos votos nas eleições presidenciais.

Marulanda não se opôs publicamente ao acordo, porém não abandonou as armas nem "baixou desde as montanhas às cidades". Muito mais lúcido que os profissionais e os sindicalistas que se postulavam nas eleições, Marulanda compreendia o caráter extremamente autoritário e brutal da oligarquia e seus políticos. Sabia que os governantes da Colômbia não aceitariam nunca uma reforma agrária justa só porque uns "poucos campesinos analfabetos os derrotassem nas urnas". Em 1987, mais de 5.000 membros da União Patriótica haviam sido assassinados pelos esquadrões da morte da oligarquia, entre eles três candidatos à presidência, uma dúzia de congressistas e mulheres e prefeitos e vereadores. Os sobreviventes fugiram para a selva, se reincorporaram à luta armada ou marcharam para o exílio.

Marulanda era um mestre na hora de romper os cercos e evitar as campanhas de aniquilação, sobretudo as que elaboraram os melhores e mais brilhantes estrategistas do centro de contra-insurgência dos Corpos Especiais do US Fort Bragg e da Escola das Américas. Em fins dos 90, as FARC haviam ampliado seu controle a mais da metade do país, bloqueavam autopistas e atacavam bases militares situadas a apenas 65 quilômetros da capital. Muito debilitado, o então presidente Pastrana terminou por aceitar negociações sérias de paz, nas quais as FARC exigiram uma zona desmilitarizada e um programa que incluía mudanças estruturais básicas no Estado, na economia e na sociedade.

Ao contrário das guerrilhas centro-americanas, que trocaram as armas por cargos eleitorais, antes de depor as suas Marulanda insistiu na redistribuição da terra, no desmantelamento dos esquadrões da morte, na destituição dos generais colombianos implicados nos massacres, numa economia mista baseada em boa medida na nacionalização dos setores econômicos estratégicos e no financiamento em grande escala dos campesinos para o desenvolvimento de colheitas alternativas à coca.

Em Washington, o presidente Clinton assistia histérico àquele espetáculo e se opôs às negociações de paz, em especial ao programa de reformas, assim como aos debates públicos abertos e aos foros de debate organizados pelas FARC na zona desmilitarizada, aos quais assistia numerosamente a sociedade civil colombiana. A aceitação, por parte de Marulanda, do debate democrático, a desmilitarização e as mudanças estruturais desmascaram a mentira dos social-democratas ocidentais e latino-americanos e dos universitários de centro-esquerda que o acusaram de "militarista". Washington tratou de repetir o processo de paz centro-americano enganando os chefes das FARC com a promessa de cargos eleitorais e privilégios em troca de que vendessem aos campesinos e aos colombianos pobres. Ao mesmo tempo, Clinton, com o apoio dos dois partidos do Congresso, fez aprovar um projeto de lei de apropriação de dois bilhões de dólares para financiar o maior e mais sangrento programa de contra-insurgência desde a guerra da Indochina, denominado "Plano Colômbia". O presidente Pastrana deu por terminado, de forma abrupta, o processo de paz e enviou soldados à zona desmilitarizada para que capturassem a cúpula das FARC. Porém, quando estes chegaram, Marulanda e seus companheiros já se haviam ido dali.

Desde 2002 até agora, as FARC têm alternado os ataques ofensivos e as retiradas defensivas, em especial desde finais de 2006. Com um financiamento sem precedentes e um apoio tecnológico ultramoderno dos EUA, o novo presidente Álvaro Uribe – sócio de narcotraficantes e organizador de esquadrões da morte – adotou uma política de terra arrasada para enfurecer-se com o campo colombiano. Entre sua eleição em 2002 e sua reeleição em 2006, mais de 15.000 campesinos, sindicalistas, trabalhadores de direitos humanos, jornalistas e outros críticos foram assassinados. Regiões inteiras do campo foram esvaziadas: da mesma maneira que na Operação Fênix americana no Vietnã, se contaminou a terra de cultivo com herbicidas tóxicos. Mais de 250.000 soldados e seus amigos paramilitares dos esquadrões da morte dizimaram amplas zonas do campo colombiano controladas pelas FARC. Helicópteros proporcionados por Washington bombardearam a selva em missões de busca e destruição (que não tinham nada a ver com a produção de coca ou com o envio de cocaína aos EUA). Ao destruir toda a oposição popular e as organizações campesinas e ao deslocar milhões de colombianos, Uribe logrou empurrar as FARC para regiões mais remotas. Assim como havia feito no passado, Marulanda assumiu uma estratégia de retirada tática defensiva, abandonando território para proteger a capacidade de luta dos guerrilheiros no futuro.

Diferentemente de outros movimentos guerrilheiros, as FARC não receberam nenhum apoio material do exterior: Fidel Castro repudiou publicamente a luta armada e buscou laços diplomáticos e comerciais com governos de centro-esquerda, inclusive melhores relações com o brutal Uribe. Depois de 2001, a Casa Branca de Bush rotulou as FARC de "organização terrorista", pressionando Equador e Venezuela para que restringissem os movimentos fronteiriços das FARC em busca de abastecimentos. A "centro-direita" da Colômbia se dividiu entre os que prestavam um "apoio crítico" à guerra total de Uribe contra as FARC e os que protestavam infrutiferamente contra a repressão.

É difícil imaginar que um movimento guerrilheiro possa sobreviver frente a um financiamento tão massivo da contra-insurgência, um quarto de milhão de soldados armados pelo império, milhões de deslocados de suas terras e um presidente psicopata vinculado diretamente com uma cadeia de 35.000 membros de esquadrões da morte. No entanto, sereno e resoluto, Marulanda dirigiu a retirada tática; a idéia de negociar uma capitulação nunca lhe passou pela cabeça, nem a ele nem à cúpula das FARC.

As FARC não têm fronteira contígua com um país que as apóie, como o Vietnã com a China; tampouco gozam, como o Vietnã, do fornecimento de armas da URSS e do apoio massivo internacional dos grupos ocidentais de solidariedade, como os sandinistas.

Vivemos numa época em que apoiar aos movimentos campesinos de libertação nacional não está "na moda"; em que reconhecer que o gênio de líderes campesinos revolucionários que constroem e mantêm a autêntica massa dos exércitos populares é tabu nos pretensiosos, loquazes e impotentes Foros Sociais Mundiais, cujo "mundo" exclui regularmente aos campesinos militantes e para os quais "social" significa o constante intercâmbio de mensagens eletrônicas entre fundações financiadas por ONGs.

É neste ambiente tão pouco promissor frente às pírricas vitórias dos presidentes de EUA e Colômbia onde podemos apreciar o gênio político e a integridade pessoal de Manuel Marulanda, o maior campesino revolucionário da América Latina. Sua morte não gerará cartazes ou camisetas para estudantes universitários de classe média, porém viverá eternamente nos corações e nas mentes de milhões de campesinos da Colômbia.

Recordar-se-á dele sempre como "Tirofijo", um ser de legenda ao qual mataram uma dúzia de vezes e, apesar disso, regressou aos povos para compartilhar com os campesinos suas vidas simples. Tirofijo foi o único líder que era realmente "um deles", que durante meio século enfrentou o aparato militar e mercenário ianque e nunca foi capturado ou derrotado.

Desafiou-os a todos em suas mansões, seus palácios presidenciais, suas bases militares, suas câmaras de tortura e suas burguesas salas de redação. Morreu de morte natural, depois de sessenta anos de luta, nos braços de seus queridos companheiros campesinos.

Tirofijo presente!

Publicado no Rebelión.

James Petras é sociólogo, nasceu em Boston a 17 de janeiro de 1937, de pais gregos, originários da Ilha de Lesbos. Publicou mais de sessenta livros de economia política e, no terreno da ficção, quatro coleções de contos.

Não temos tempo para o luto

Não temos tempo para o luto
(os yanquis querem carregar consigo ao abismo
todos os povos rebeldes ao seu caduco imperialismo)
e te prestamos homenagem em plena luta.
Comandante guerrilheiro Marulanda, em teu nome juramos:

Jamais o temor do inimigo usurpador
dominará nossa bravura combatente.
Viva a guerrilheira insolência!

O sacrifício de cada guerrilheiro libertador
formará com rebeldia milhares de jovens valentes!
Viva a comunista permanência!

Comandante Marulanda, camarada fariano,
não temos tempo para o luto
(os yanquis perderam o rumo e estão em queda livre
mas tentam agarrar nossos pés antes de tocar o timbre)
e te prestamos homenagem no ringue da luta.
Juramos seguir no último combate do povo sofredor
contra o moribundo império terrorista decadente.
Viva a proletária resistência!

Em cada novo militante se forjará um historiador
e dos heróis de carne ficará aceso o fogo ardente!
Viva a popular reminiscência!

Comunista Marulanda, comandante insurgente,
não temos tempo para o luto
(os yanquis estão se afogando com tanto bélico sangue
e querem transformar todo mundo neste pantanoso mangue)
e te prestamos homenagem avançando na luta.

Sentimos ainda mais viva a esperança e superamos a dor;
com a moral guerrilheira te sentimos sempre presente.
Viva a heróica transcendência!

Desde Marquetalia surge semeando ao povo o amor
e persiste pelas décadas como a armada insurgente.
Viva as FARC em vigência!

Camarada Manuel, guerrilheiro bolivariano,
não temos tempo para o luto
(os morcegos yanquis não podem suportar o sol nascente
e insistem em provocar, entre povos irmãos, uma guerra latente)
e te prestamos homenagem alertas à luta:

Comandante Manuel Marulanda Vélez,

morrer pelo povo é viver para sempre!

Otávio Dutra – 27.05.08
Juventude Avançando

As guerrilheiras das FARC - por Miguel Urbano


Fala-se e escreve-se muito dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – quase sempre para os caluniar – e pouco das guerrilheiras. A maioria dos europeus ignora que milhares de mulheres combatem nas 60 frentes em que as FARC lutam naquele país. Conheci muitas em 2001, nas semanas vividas num acampamento amazônico da organização revolucionária. Como transmitir no breve espaço de uma crônica o que em mim ficou do contato com essas guerreiras de novo tipo?

Encontrei ali moças tão diferentes que seria redutor o esforço para esboçar o choque emocional provocado pelo descobrimento das combatentes das FARC. De comum entre elas apenas a coragem, a capacidade de adaptação a condições de vida duríssimas e uma confiança total na justiça da luta das FARC e na vitória final, sem data.

No meu acampamento somente uma não tinha companheiro. Apenas Eliana ultrapassara os 40. A maioria não atingira os 25 anos. A ética da guerrilha impunha normas que eram respeitadas. Se dois namorados pretendiam estabelecer uma relação amorosa informavam o comandante. A infidelidade não era tolerada pelo código da guerrilha. A pareja era autorizada a dormir na mesma caleta, o estrado-cama que, sob um toldo de plástico, na grande floresta fazia as vezes de casa. O regulamento proibia também que os guerrilheiros, homens ou mulheres, mantivessem relações sexuais com hóspedes das FARC.

Mas não havia moralismo. Se um casal decidia pôr termo à relação comunicava essa decisão ao comandante. O gesto consumava a separação.

As mulheres realizavam os mesmos trabalhos que os homens, desde o treino militar à abertura das latrinas. Iguais direitos, tarefas idênticas.

O cotidiano dos acampamentos não permitia a privacidade a que hoje estamos acostumados na vida diária. Na selva, infestada por transmissores de doenças perigosas, o banho diário é imprescindível à defesa da saúde. As mulheres banhavam-se no rio ao lado dos homens, numa atmosfera de camaradagem e respeito que me impressionou. As normas do pudor, tal como as conhecemos, não podiam funcionar ali. Mas nunca, nem nos olhares nem nas palavras, testemunhei atitude da qual transparecesse um comportamento machista.

Elas, tal como eles, tinham diferentes origens sociais. Algumas tinham vindo de grandes cidades, outras dos llanos ou dos vales quentes, outras ainda das terras frias da cordilheira. A origem social transparecia mais no diálogo do que no comportamento, porque raparigas de famílias camponesas haviam adquirido uma sólida formação ideológica. Para surpresa minha, quase todas eram bonitas.

Na Aula – o lugar onde à noite o coletivo da guerrilha se reunia para assistir a palestras e debater o tema com o professor convidado – tive a oportunidade de falar mais demoradamente com algumas que mal conhecia, como a Adriana e a Jenny.

Um exército de heróis

O meu trabalho exigiu contatos muito freqüentes com quatro: a Glória, a Eliana, a Yurleni e a Isabel.

Glória era a secretária sem título do comandante Raul Reyes. De origem pequeno- burguesa, adquirira uma formação marxista ampla, pouco comum. Era a responsável pelos computadores e pelas transmissões por rádio, serviços instalados num "escritório", que se diferenciava das caletas apenas pela sua maior dimensão. Enviava mensagens codificadas e decifrava as recebidas. A sua intimidade com o mundo da informática fazia de mim um aprendiz bisonho.

Era muito bonita e nem o uniforme lhe afetava a feminilidade. Foi durante as lentas viagens para El Caguan, através de uma estrada imprevisível que rompia as matas da região – ela guiava carros pesados como uma profissional -, que do seu passado soube aquilo que me contou. O suficiente para eu entrever nela uma personagem de novela que irradiava uma intensa alegria de viver.

Em Eliana encontrei uma revolucionária de outro tipo. Responsável pela intendência, ocupava-se com zelo de tudo o que se relacionava com o abastecimento do acampamento. A sua beleza não era física. De meia idade, entroncada, brusca nos movimentos, alcançara o grau de subcomandante e o seu currículo de combatente dissipava dúvidas sobre os méritos da guerrilheira. Era de poucas falas, mas ao volante de um caminhão, respondia com rapidez e segurança às perguntas que eu formulava sobre a história das FARC e a organização do acampamento.

Yurleni, a rancheira, projetava a imagem de uma jovem camponesa desinibida, faladora, com uma espontaneidade tocante. Passava o dia na cozinha preparando as refeições dos convidados. Quando apreciávamos um prato de caça ou uma especialidade colombiana, reagia tão efusivamente que até comunicava o fato ao seu papagaio palrador, empoleirado num arbusto, ao lado do galão de água no terreiro por onde deambulavam galinhas e o quati, mascote da guerrilha. Yurleni tinha um companheiro, John, e dizia ser mais feliz do que algum dia pudera imaginar. Menina, tinha uma obsessão: ser soldado. Mas acabou nas FARC quando percebeu que era mentira o que delas contavam e que a guerrilha era, essa sim, um exército de heróis, como outro não existia.

Em Isabel, a historiadora, descobri uma romântica. Foi a ideologia, absorvida na universidade, que a empurrou para as FARC. Encontrava-se no umbral de uma vida de comodidades, já com um mestrado e trabalhando numa organização internacional que lhe garantia um salário mensal de quase 2000 dólares quando....

Ela hesitava ao chegar aí e eu interrompia, tentando descer às raízes da opção que a fizera mudar de rumo. "O tempo de reflexão foi breve", respondia. "Eu sentia um nojo crescente pelo tipo de vida que se abria para mim. Não queria ser triturada pelo sistema. O apelo foi irresistível. Ajudada por amigos, vim para as FARC, que eu admirava sem as conhecer...".

Comovida admiração

Isabel mantinha longas conversas comigo. Os temas ideológicos fascinavam-na e encontrou em mim um interlocutor. Após um ano, sentia-se ainda uma iniciada. Cumpria exemplarmente todas as tarefas, verifiquei que atirava muito bem, mas a insegurança atormentava-a.

A beleza de Isabel chamava a atenção pela suavidade. Tinha uma pele muito branca, uns olhos enormes, luminosos e um corpo onde tudo parecia certo pela forma e a proporção. Do conjunto desprendia-se irrealidade.

Um dia perguntei-lhe porque, sendo tão bela, não tinha companheiro.

Levou tempo a responder. "Sabe, isso me faz sofrer, mas não pelo que possas pensar. Alguns camaradas já me perguntaram por que os recusei. Pensam que é uma atitude de classe, mas o motivo é outro. Eu tenho uma idéia muito grande do amor e ainda não encontrei alguém que me abra ao amor"...

Naturalmente Gloria, Eliana, Jenny, Adriana, Yurleni e Isabel eram nomes de guerra. Desconheço os nomes reais.

Na sede das FARC, em San Vicente del Caguan, conheci outra guerrilheira, a Nora, da qual conservo nítida na memória a lembrança de alguém que me apareceu como símbolo das mulheres das FARC.

Ela estava então na legalidade relativa da época e por isso publiquei-lhe o retrato numa reportagem. O companheiro tinha caído em combate pouco antes.

Nora atendia na recepção todos os estrangeiros que chegavam à Zona Desmilitarizada. Apareciam ali muitos jornalistas que pretendiam entrevistas com os dirigentes mais destacados das FARC, incluindo Manuel Marulanda, o legendário Tirofijo, cuja morte fora anunciada vinte vezes por sucessivos governos. Era difícil a tarefa, mas Nora resolvia os problemas mais delicados. A voz e a doçura da guerrilheira desarmavam o protesto quando os visitantes não obtinham o que pretendiam. Fundia uma suavidade tocante numa firmeza de combatente veterana.

Fechava-se quando as minhas perguntas incidiam sobre o seu mundo interior. Nunca me falou do companheiro perdido, mas a palavra tristeza subia na minha memória quando a escutava. No dia em que me despedi dei-lhe um par de botas e uma lanterna. Indispensáveis na selva, não teriam mais utilidade para mim.

"Podem ser úteis para algum camarada", comentei, quase envergonhado.

Nora abraçou-me, sem uma palavra, e o seu ‘gracias, compañero’ chegou acompanhado do único sorriso que vi esboçar naqueles dias.

Hoje, quando leio ou escuto calúnias sobre as FARC, o meu pensamento viaja para as selvas e montanhas da Colômbia. No turbilhão de imagens que então me envolve, não é sem comovida admiração que revejo as guerrilheiras que ali conheci. Aquelas mulheres aparecem-me como símbolo da confiança na transformação revolucionária da vida.


Enlace original: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1873/59/
Miguel Urbano Rodrigues é escritor, jornalista e membro do Partido Comunista Português.