"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

“O povo boliviano vive a maior revolução social”, afirma García Linera

Além de ser o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera é um dos mais importantes intelectuais de esquerda, latino-americano, no continente. Ainda que sua profissão inicial seja o de matemático (estudou na Universidade Nacional Autônoma do México), formou-se como sociólogo na prisão e na prática.

A entrevista é de Luis Hernández Navarro e publicada pelo jornal mexicano La Jornada, 08-02-2012. A tradução é do Cepat.

Ele teorizou a experiência boliviana de transformação como ninguém fez, ou seja, com originalidade, profundidade e desenvoltura. E a experiência boliviana atualmente é uma referência obrigatória e cada vez mais ascendente no movimento popular latino-americano. García Linera conhece e domina com profundidade o marxismo clássico, mas está muito longe de ser doutrinário. Seu pensamento é muito influenciado pela obra de Pierre Bourdieu.

Na entrevista para La Jornada, o vice-presidente assinala que o fato fundamental que se vive no atual processo, em curso, de transformação política é que os indígenas, maioria demográfica, são hoje ministros e ministras, deputados, senadores, diretores de empresas públicas, redatores de constituições, juízes máximos da justiça, governadores; presidente. Este fato, desde a sua fundação, significa a maior revolução social e igualitária que aconteceu na Bolívia.

García Linera caracteriza o modelo econômico de seu país como pós-neoliberal e de transição pós-capitalista. Um modelo que recuperou o controle dos recursos naturais, que estavam nas mãos de estrangeiros, para colocá-los nas mãos do Estado, dirigido pelo movimento indígena.

Eis a entrevista.

Faz seis anos que vocês governam a Bolívia. Houve, realmente, avanços na descolonização do Estado?

Na Bolívia, o fato fundamental que vivemos é que aquelas pessoas, a maioria da população de antes e de agora, os indígenas, a quem a brutalidade da invasão e os sedimentos centenários da dominação estabeleceram no próprio sentido de classes dominantes e classes dominadas que estavam predestinados a serem camponeses, trabalhadores de postos inferiores, artesãos informais, porteiros ou garçons, hoje são ministros e ministras, deputados, senadores, diretores de empresas públicas, redatores de constituições, juízes máximos da justiça, governadores; presidente.

A descolonização é um processo de desmontagem das estruturas institucionais, sociais, culturais e simbólicas que subsumem a ação cotidiana dos povos aos interesses, às hierarquias e às narrativas impostas por poderes territoriais externos. A colonialidade é uma relação de dominação territorial que se impõe à força e com o tempo se ‘naturaliza’, inscrevendo a dominação nos comportamentos ‘normais’, nas rotinas diárias, nas percepções de mundo dos próprios povos dominados. Por conseguinte, desmontar essa maquinaria da dominação requer muito tempo. Em especial, o tempo que é necessário para modificar a dominação convertida em sentido comum, no hábito cultural das pessoas.

As formas organizativas comunais, agrárias e sindicais do movimento indígena contemporâneo, com suas formas de deliberação em assembleias, de giro tradicional de cargos, em alguns casos, de controle comum dos meios de produção, são atualmente os centros de decisão na política e em boa parte da economia na Bolívia.

Nos dias atuais, para influir nos pressupostos do Estado e para saber a agenda governamental não adianta andar de braços dados com altos funcionários do Fundo Monetário, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e com as embaixadas estadunidenses ou europeias. Hoje, os circuitos do poder estatal passam pelos debates e decisões das assembleias indígenas, operárias e de bairros.

Os sujeitos da política e a institucionalização real do poder moveu-se para o âmbito do pobre e do indígena. Os anteriormente chamados ‘cenários de conflito’, como sindicatos e comunidades, hoje são os espaços do poder fático do Estado. E os antes condenados para a subalternidade silenciosa, atualmente são os sujeitos decisórios da trama política.

O fato da abertura do horizonte de possibilidade histórica dos indígenas, de poderem ser agricultores, operários, pedreiros, empregadas, mas também chanceleres, senadores, ministras ou juízes supremos, é a maior revolução social e igualitária que ocorreu na Bolívia desde sua fundação. ‘Índios no poder’, é a frase seca e depreciativa com que as deslocadas senhoras classes dominantes anunciam a hecatombe desses seis anos.

Como caracterizar o modelo econômico posto em prática? É uma expressão do socialismo no século XXI? É uma modalidade do pós-neoliberalismo?

Basicamente pós-neoliberal e de transição pós-capitalista. Recuperou-se o controle dos recursos naturais que estava nas mãos estrangeiras, para colocá-los nas mãos do Estado, que é dirigido pelo movimento indígena (gás, petróleo, parte dos minerais, água, energia elétrica); enquanto outros recursos, como o imposto sobre a terra, o latifúndio e as florestas, passaram para o controle de comunidades e povos indígena-camponeses.

O Estado é, no momento atual, o principal gerador de riqueza do país, e essa riqueza não é valorizada como capital; ela é redistribuída na sociedade por meio de bônus, rendas e benefícios sociais diretos para a população, além do congelamento das tarifas dos serviços básicos, dos combustíveis e a subvenção da produção agrária. Pretende-se priorizar a riqueza como valor de uso, acima do valor de troca. Nesse sentido, o Estado não se comporta como capitalista coletivo, próprio do capitalismo de Estado, senão como um redistribuidor de riquezas coletivas entre as classes trabalhadoras e um potencializador das capacidades materiais, técnicas e associativas dos modos de produção camponeses, comunitários e artesanais urbanos. Nesta expansão do comunitário agrário e urbano depositamos nossa esperança de transitar pelo pós-capitalismo, sabendo que essa também é uma obra universal e não somente de um país.

A partir da Bolívia, como se vê o processo de integração regional? Que papel desempenham os Estados Unidos e a Espanha? Que espaço tem China, Rússia e Irã?

O continente latino-americano atravessa um ciclo histórico excepcional. Grande parte dos governos é de caráter revolucionário e progressista. Os governos neoliberais tendem a mostrarem-se retrógados. E, ao mesmo tempo, a economia latino-americana desdobra iniciativas internas que a permite enfrentar de maneira vigorosa os efeitos da crise mundial. Em particular, os mercados regionais e a vinculação com a Ásia definiu uma arquitetura econômica continental de um novo tipo. É necessário apostar no aprofundamento desta articulação regional e, se possível, projetarmos uma espécie de Estado regional de estado e nações. Comportarmo-nos como Estado regional no âmbito do uso e negociação planetária das grandes riquezas estratégicas que possuímos (petróleo, minerais, lítio, água, agricultura, biodiversidade, indústria semielaborada, força de trabalho jovem e qualificada...) e, internamente, respeitar a soberania estatal e as identidades nacionais regionais que o continente possui. Só assim poderemos ter voz e força própria no curso das dinâmicas de mundialização da vida social.

Existe um papel ativo de Washington para sabotar a transformação boliviana em curso?

O governo estadunidense nunca aceitou que as nações latino-americanas possam definir seu destino porque sempre considerou que formamos parte da área de influência política para sua seguridade territorial, e somos o seu centro de provisão em riquezas naturais e sociais. Qualquer dissidência neste enfoque colonial coloca a nação insurgente na mira de ataque. A soberania dos povos é o inimigo número um da política estadunidense.

Isso aconteceu com a Bolívia nesses seis anos. Nós não temos nada contra o governo estadunidense, nem contra o seu povo. No entanto, não aceitamos que nada, absolutamente que ninguém de fora nos venha dizer o que temos que fazer, dizer ou pensar. E quando como governo de movimentos sociais começamos a assentar as bases materiais da soberania estatal ao nacionalizar o gás; quando rompemos com a vergonhosa influencia das embaixadas nas decisões ministeriais; quando definimos uma política de coesão nacional enfrentando abertamente as tendências separatistas latentes nas oligarquias regionais, a embaixada dos Estados Unidos não apenas apoiou financeiramente as forças conservadores, como as organizou e dirigiu politicamente, numa brutal ingerência em assuntos internos. Isso nos obrigou a expulsar o embaixador e depois a agência antidrogas desse país (DEA).

Desde então, os mecanismos de conspiração tornaram-se mais sofisticados: usam organizações não governamentais, infiltram-se por intermédio de terceiros nos agrupamentos indígenas, dividem e projetam lideranças paralelas no campo popular, como recentemente ficou demonstrado mediante o fluxo de chamadas da própria embaixada de alguns dirigentes indígenas da marcha do Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS), no ano passado.

De qualquer maneira, nós buscamos respeitosas relações diplomáticas, mas também estamos atentos para repelir as intervenções estrangeiras de ‘alta’ ou ‘baixa’ intensidade.

Alguns setores da esquerda aponta que o bloco conservador conseguiu rearticular-se e tomar a ofensiva, enquanto o movimento social que levou o MAS ao poder foi absorvido pela política institucional. É correta esta consideração?

Hoje, o bloco conservador de oligarquias estrangeirizantes não tem um projeto alternativo de sociedade capaz de articular uma vontade geral de poder. O horizonte da atual política boliviana está marcado por um tripé virtuoso: o pluralismo da nação (povos e nações indígenas no mando do Estado); a autonomia (desconcentração territorial do poder) e a economia plural (coexistência articulada pelo Estado dos diversos modos de produção).

Temporalmente derrotado o projeto neoliberal de economia e sociedade da direita, nesse momento o que caracteriza a política boliviana é a emergência de ‘tensões criativas’ no interior do mesmo bloco nacional-popular no poder. Passado os grandes momentos de ascensão das massas, quando se construiu o ideário universal das grandes transformações, o movimento social vive em alguns casos um processo de retrocesso corporativo. Tendem a prevalecer, às vezes, interesses locais acima dos interesses nacionais, ou as organizações se enroscam em rivalidades internas pelo controle de cargos públicos. Porém, também emergem novas temáticas não previstas sobre como conduzir o processo revolucionário. É o caso do tema da defesa dos direitos da mãe terra, tensionados com a exigência também popular de industrializar os recursos naturais.

Como se pode notar, tratam-se de contradições no meio do povo, tensões que submetem ao debate coletivo o modo de levar adiante as mudanças revolucionárias. E isso é saudável, é democrático e é o ponto de apoio na renovação vivificante da ação dos movimentos sociais. Embora também se tratem de contradições que podem ser usadas pelo imperialismo e pelas forças de direita entocadas, que de modo ventríloquo e travestido projetam seus interesses, ao longo prazo, por meio de alguns sujeitos populares e de discursos aparentemente altermundistas e ecologistas.

Em setembro do ano passado, a marcha dos povos indígenas em defesa do TIPNIS e contra a construção de uma estrada foi reprimida pela polícia. O fato foi apresentado para a opinião pública como a perda de apoio indígena ao governo de Evo Morales. Foi afirmado que o governo boliviano obstinou-se em construir a estrada porque recebeu apoio econômico da empresa petroleira brasileira OAS. Isso está correto?

A população indígena na Bolívia, como na Guatemala, é majoritária em relação ao resto dos habitantes. São 62% os bolivianos indígenas. As principais nações indígenas são a aymara e a quéchua, com cerca de seis milhões de pessoas localizadas principalmente no altiplano, nos vales nas áreas de yungas e também em terras baixas. Outras nações indígenas são os guaranis, moxeños, yuracares, chiman, ayoreos e outras 29 que habitam a Amazônia, a Chiquitania e o Chaco, em terras baixas. A população total destas nações em terras baixas é estimada em 250 mil e 300 mil habitantes, no seu total.

O conflito sobre o TIPNIS envolveu alguns povos indígenas das terras baixas, mas se manteve o apoio dos indígenas das terras altas e vales, que são 95% da população indígena da Bolívia. E dos indígenas mobilizados, a maior parte eram dirigentes de outras áreas que não precisamente do TIPNIS, mas que contam com um apoio sistemático de organismos não governamentais ambientalistas, vários deles financiadas pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), além do respaldo das principais redes de comunicação televisiva privada, de propriedade de velhos militantes da oligarquia separatista, e com ampla influência na construção da opinião pública da classe média. Esses dias chegou a La Paz outra marcha de indígenas das terras baixas e com maior presença de indígenas do TIPNIS, que demandam a construção da estrada para o parque, argumentando que não é possível que os deixem à margem dos direitos à saúde, educação e transporte, que atualmente só podem acessar depois de dias de caminhada.

O problema é complexo. Estão mesclados temas próprios do debate revolucionário, como o do difícil equilíbrio entre o respeito à mãe terra e a necessidade urgente de ligar o país após séculos de desarticulação isolacionista das regiões. Está, também, o debate entre a relação orgânica e a liderança dos povos indígenas das terras altas, no Estado de pluralidade nacional, diferente da relação ainda ambígua com o Estado plurinacional por parte dos povos indígenas das terras baixas.

Porém, também é por meio da estratégia da oligarquia regional de Santa Cruz para impedir essa estrada, que desvincularia a atividade econômica de toda a Amazônia de seu controle empresarial. É o interesse estadunidense de resguardar a Amazônia como seu reservatório de água e biodiversidade, e de promover divisões entre as lideranças indígenas para criar condições para a expulsão dos indígenas do poder estatal. É o interesse de algumas ONGs acostumadas a fazer grandes negócios privados com os parques.

Em todo caso, em meio a essa trama de interesses, como governo temos que ter a capacidade de resolver democraticamente as tensões internas, e de desvelar e neutralizar os interesses contrarrevolucionários que muitas vezes se vestem de roupagem pseudorrevolucionário.

Por que construir essa estrada apesar da oposição de uma parte da população? Por três motivos. O primeiro, para garantir à população indígena do parque o acesso aos direitos e garantias constitucionais: água potável para que as crianças não morram de infecções estomacais. Escolas com professores que ensinem em seu idioma, preservando sua cultura e enriquecendo-a com outras culturas. Acesso a mercados para levar seus produtos sem ter que demorar uma semana em balsas para vender seu arroz ou comprar sal dez vezes mais caro que em qualquer armazém do bairro.

O segundo motivo é que a estrada permitirá ligar pela primeira vez a Amazônia, que é uma terceira parte do território boliviano, com o resto das regiões dos vales e altiplano. A Bolívia mantém isolada a terceira parte de sua territorialidade, o que permitiu que a soberania do Estado fosse substituída pelo poderio do fazendeiro, do madeireiro ou do narcotraficante.

E o terceiro motivo é o caráter geopolítico. As tendências separatistas da oligarquia, que estiveram a ponto de dividir Bolívia, em 2008, foram contidas porque foram derrotadas politicamente durante o golpe de Estado de setembro desse ano, e porque parte de sua base material, a agroindústria, foi ocupada pelo Estado. No entanto, há um último pilar econômico que mantém em pé as forças retrógadas de tendências separatistas: o controle da economia amazônica, que para chegar ao resto do país, obrigatoriamente, tem que passar pelo processamento e financiamento de empresas sob o controle de uma fração oligárquica assentada em Santa Cruz. Uma estrada que ligue diretamente a Amazônia com os vales e o altiplano reconfiguraria radicalmente a estrutura de poder econômico regional, derrubando a base material final dos separatistas e dando lugar a um novo eixo geoeconômico no Estado. O paradoxo de tudo isto é que a história coloca alguns esquerdistas como os melhores e mais loquazes defensores dos interesses mais conservadores e reacionários que existe nesse país.

Dizem que a Bolívia segue sendo uma abastecedora de matérias-primas no mercado internacional e que o modelo de desenvolvimento na prática (que alguns analistas qualificam como extrativistas) não questiona este papel. Isso é correto? Trata-se de uma fase transitória de acumulação que é acompanhada de uma redistribuição de renda?

Nem o extrativismo, nem o não extrativismo e nem o industrialismo são uma vacina contra a injustiça, a exploração e a desigualdade. Em si mesmos, não são nem modos de produzir, nem modos de administrar a riqueza. São sistemas técnicos de processar a natureza mediante o trabalho. E dependendo de como se usam esses sistemas técnicos, de como se administra a riqueza assim produzida, poderá haver regimes econômicos com maior ou menor justiça, com exploração ou sem exploração do trabalho.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AS FARC ANUNCIAM ADIAMENTO DE LIBERTAÇÕES

Através de comunicado divulgado nas redes sociais em 01 de fevereiro de 2012, o secretariado da organização guerrilheira manifesta o adiamento das libertações.

DECLARAÇÃO PÚBLICA

Senhoras:

Lucía Topolanski, Jody Williams, Elena Poniatowska, Alice Williams, Mirta Baravalle, Isabel Allende, Rigoberta Menchú, Socorro Gómez, Elsie Mongue, Ángela Jeira y Piedad Córdoba, nossas cordiais saudações;

A região que tinhamos escolhido para a libertação dos prisioneiros de guerra Luis Alfonso Beltrán, César Augusto Laso, Carlos José Duarte, Jorge Trujillo, Jorge Humberto Romero e José Libardo Forero, todos membros das forças armadas do Estado capturados em combate, foi militarizada injustificadamente pelo governo da Colômbia, o que nos obriga a adiar a sua realização.

Militares patriótas
tinham nós alertado das intenções do governo Santos de procurar a qualquer custo um resgate militar, sem se importar com a possibilidade de um resultado trágico, como ocorreu no passado 26 de novembro. Essa atitude corresponde à recente determinação governamental de impedir a participação internacional humanitária na anunciada libertação.

Queremos libertá-los vivos, mas parece que o governo prefere entregá-los em catafalcos às suas famílias.

Distintas senhoras, saibam que, apesar destas circunstâncias, a nossa determinação unilateral, surgida da soberania política das FARC e de um profundo sentido de humanidade, ainda está de pé. Assim que a insanidade que tomou conta do Palácio de Nariño se acalme, faremos uma nova tentativa para que as senhoras possam receber aqueles que serão liberados.

Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP
Montanhas da Colômbia, 1 de fevereiro, 2012

DECLARACIÓN PÚBLICA

Señoras

Saludo cordial.

Secretariado del Estado Mayor Central de las FARC-EP

Montañas de Colombia febrero 1 de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

SE OS EUA ATACAREM O IRÃ, A SOBREVIVÊNCIA DO SER HUMANO PODE ESTAR EM PERIGO


Miguel Giribets (especial para ARGENPRESS.info)


A ofensiva mediática: como nós levar a acreditar que um país nós ameaça com bombas atômicas que não tem

Nos últimos anos, não param as declarações de dirigentes ocidentais demonizando o Irã. É o caso de Tony Blair em 2006: “É importante que enviemos um sinal de força” contra um regime que “virou as costas para a diplomacia” e que está “exportando terrorismo” e “desprezando as suas obrigações internacionais” (1); o Departamento de Estado dos EUA afirmava, no mesmo ano: “O Irã é o mais ativo dos estados que apóiam o terrorismo, junto com a Coréia do Norte, Líbia, Sudão, Síria e Cuba”. Robert Gates, secretário de Defesa, disse, em 2008, que “O Irã está determinado a adquirir armas nucleares”. Relembrando as declarações do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, em 2011, há poucas semanas, no sentido em que “falta pouco tempo” para que o Irã obtenha armas nucleares.

Também se refere aos planos “expansionistas” iranianos, de mãos dadas com os xiitas do Hezbollah no Líbano e dos xiitas do Iraque e da Síria.

Em 2006, a CNN tergiversou uma declaração do presidente iraniano dizendo que eles estavam desenvolvendo armas nucleares; o Irã respondeu proibindo a entrada dos jornalistas da CNN no país por alguns dias.

Também foram tergiversadas as palavras do presidente iraniano, Ahmadinejad, no sentido de que ele iria varrer Israel do mapa. A frase que ele disse foi: “Nosso querido Imã (referindo-se a Khomeini) disse que o regime de ocupação devia ser varrido do mapa” (2), que o que declarou é que o que deve desaparecer é um regime e não um país.

No Ocidente, a pretendida negação do holocausto, por parte de Ahmadinejad, criou muita controvérsia. A tradução literal das palavras que ele pronunciou foi: “Alguns tem criado um mito sobre o holocausto e o elevam ainda mais alto que a própria fé na religião e nos profetas”. O dicionário da Real Academia diz que mistificar (criar um mito) é “cercar de extraordinária estima certas teorias, pessoas, eventos, etc”. Evidentemente, acusar alguém de criar um mito, não é o mesmo que negar o acontecimento que gera o mito. (2)

Em 2006, o National Post de Toronto (Canadá), publicou que se criariam símbolos para os diferentes grupos da população no Irã, incluindo judeus, da mesma forma como fizeram os nazistas.

Por causa das eleições gerais de 2009, os EUA colocaram em funcionamento o mecanismo do golpe de Estado, embora o resultado da votação fosse o seguinte: Mahmoud Ahmadinejad, 63,3% dos votos (24,5 milhões), Hossein Mousavi, 34,2% (3,2 milhões); comparecimento às urnas de mais de 80%.

Muitas vezes já vimos que, quando a eleição não favorece o imperialismo, nossos “democratas” se esgoelam chamando-as de fraude, de lideranças populistas que enganam o povo, etc. Foi o que aconteceu no Irã em 2009: Mousavi, líder da oposição, convocou manifestações contra a “fraude” eleitoral, provocando um nível de violência (queima de carros e edifícios públicos, confrontos com a polícia...) para justificar o assalto do poder. Sabe-se que uma das fontes de financiamento destes movimentos, além da CIA é claro, era Amir Jahanchahi, o último ministro de Economia do Xá, desde Londres.

“O que é surpreendente na condenação ocidental dos resultados das eleições através de fraude é que não há sequer indícios ou provas como resultado da observação feita antes ou uma semana após a recontagem. Durante toda a campanha, não houve nenhuma acusação crível (ou até mesmo duvidosa) de manipulação de votos”. (3)

Há poucos meses, o regime iraniano foi acusado de uma tentativa de assassinato do embaixador da Arábia Saudita nos EUA. Ali Akbar Javanfekr, porta-voz do presidente iraniano, declarou que “o governo dos EUA está ocupado na fabricação de um novo cenário e, a história tem mostrado, que tanto o governo dos EUA como a CIA, tem muita experiência na fabricação de cenários semelhante... Penso que seu objetivo é atingir o público norteamericano. Querem distrair as mentes do público dos graves problemas internos que enfrentam e atemorizá-lo com problemas fabricados fora do país” (4). “O ex-agente da CIA, Robert Baer, geralmente consultado pela mídia dos EUA, ridiculariza, no Time Magazine, o grotesco cenário da “conspiração iraniana”. Como pode a administração de Obama querer nos fazer crer que uma tropa de elite como a Força Al-quods poderia colocar uma operação sigilosa nas mãos de um vendedor de carros usados e de uma organização criminosa mexicana? Tudo isso é mais bem parecido com as mentiras em que os Mujahedeen e-Khalq se especializaram e nas que Washington costuma embarcar alegremente”. (5)

Destaque-se como se brinca com a linguagem segundo os interesse do momento. “Quando, há alguns anos, a construção de usinas nucleares era objeto de enfrentamento entre os governos europeus e as organizações ambientais, a mídia cunhou o termo “nuclear” no lugar de “atômica” com o objetivo de que o público não associasse esse tipo de energia com a bomba atômica, de tão infame lembrança. Agora, quando se trata do Irã, volta a se usar o termo banido de “atômico”. (2)


Os países ocidentais realizam ações terroristas no Irá

Os atentados e ações terroristas no Irã, vem ocorrendo sem interrupção ano após ano.
De 2006 podemos destacar um sequestro de oito soldados pela “Organização de Soldados de Deus para os Mujahideen sunitas”, dependente da CIA; a morte de oito pessoas em um atentado com bomba que era dirigido ao presidente do país, organizado por 17 oficiais britânicos e 140 árabes iranianos separatistas (a presença britânica no Iraque é uma excelente base de operações no Irã), o que faz com que os mortos na região se elevem para 18 em poucos meses; 21 civis morrem metralhados em uma estrada; mais 12 civis morrem em circunstâncias semelhantes.

Em 2007 aconteceu o seqüestro do segundo secretário da embaixada do Irã no Iraque por agentes dos EUA; a morte de oito Guardas da Revolução em um atentado perto da fronteira com o Paquistão; enfrentamentos armados no noroeste; tiros dados contra o consulado iraniano em Basra (Iraque) pelas tropas britânicas, que cercaram o prédio e abriram fogo; violação do espaço aéreo iraniano por dois aviões dos EUA em Khuzestão (região petrolífera ao sudoeste do país); 15 soldados britânicos foram presos por ações de espionagem em águas iranianas; liberação de um diplomata seqüestrado dois meses antes que afirma ter sido torturado pela CIA (seus pés foram perfurados com furadeira e apresenta fraturas no nariz e pescoço, além de lesões importantes nas costas, hemorragia nos órgãos digestivos e machucados nas orelhas).

Do ano de 2008 podemos ressaltar que nove pessoas são mortas em atentado a bomba em uma mesquita da cidade de Shiraz. Em 2010, 33 mortos em atentados suicidas com bombas em Zahedan, no SE, na fronteira com o Paquistão; outros 20 mortos em Mahabad, na maioria mulheres e crianças; vem a público a noticia de que o ex-vice ministro do Interior, Ali Reza Asgari, morreu em uma prisão israelense (fora sequestrado em 2007).

Em 2011 houve a derrubada de um avião espião não-tripulado dos EUA próximo às instalações nucleares de Fordo; 15 pessoas foram mortas na explosão de um depósito de munições em Teerã.


O assassinato de cientistas iranianos é política oficial dos EUA e Israel

“Não me lembro de outro momento na história em que o assassinato de cientistas tivesse se tornado política oficial de um grupo de potências equipadas com armas nucleares”, disse Fidel Castro há alguns meses. Mas é mesmo: os EUA e Israel estão assassinando os cientistas envolvidos no programa nuclear iraniano.

Em 2010, morre o professor de física da Universidade de Teerã, Masoud Ali Mohammadi, em atentado a bomba colocada em sua motocicleta. Poucas semanas depois, é revelado que o cientista Shahram Amiri fugiu depois de uma viagem a Meca, ajudado pela CIA. Dois meses depois, Shahram Amiri reaparece aparece dizendo que escapou de seus captores da CIA na Virgínia, diz que lhe ofereceram 50 milhões de dólares para desertar para os EUA e mentir sobre o programa nuclear iraniano. Acontece que ele não é um cientista nuclear e não sabe nada sobre as pesquisas sobre energia nuclear em seu país. Esclarece que agentes israelenses participaram dos interrogatórios.

Em setembro de 2010, o Irã confirmou que um total de 30.000 computadores do setor industrial foram infectados com o vírus conhecido como Stuxnet. Este ataque cibernético afeta seriamente o desenvolvimento da pesquisa nuclear, pois quase 20% das centrífugas nucleares do Irã ficam imprestáveis. Testes prévios com este vírus já tinham sido feitos nas instalações nucleares israelense de Dimona.

Em novembro de 2010, o cientista nuclear iraniano Majid Shahriari morreu e o cientista Fereydun Abbasi ficou ferido em Teerã após atentados a bomba colocadas em seus carros. Ambos eram professores na Universidade de Teerã. O Mossad reconheceu a autoria dos ataques.

Em julho de 2011, o cientista Darioush Rezaie morre a tiros. Os terroristas também atiraram em sua esposa. Ele não estava ligado ao programa nuclear do país. O governo culpa os Estados Unidos e Israel pelo assassinato.

A cereja do bolo de toda essa trama foi colocada pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), quando, recentemente, divulgou os nomes de uma grande quantidade de cientistas iranianos relacionados com a pesquisa nuclear. O governo diz que agora são alvo fácil para os terroristas israelenses e norteamericanos.


Um governo pró EUA em Teerã é absolutamente necessário para manter a hegemonia imperialista

O Irã produz 5,2% do petróleo mundial, é o quarto maior produtor do mundo. Sua receita do petróleo são cerca de 35 bilhões de euros (dados de 2005).

A reserva de petróleo iraniano é a segunda maior do mundo: 11,1% das reservas conhecidas assim com o gás natural iraniano que representa 15,3% das reservas mundiais.

Uma parte importante da indústria do petróleo ainda está em mãos privadas. A intenção do governo de Ahmadinejad é nacionalizá-la, “colocar os últimos elos da cadeia da nacionalização da indústria petrolífera”, segundo manifestou recentemente, pois “a maior parte das receitas de petróleo do país ainda vão para os bolsos estrangeiros”. Segundo com o chefe de Estado iraniano, apenas um terço das receitas do petróleo permanece no Irã, enquanto o restante “vão parar nos bolsos daqueles que saquearam os recursos petrolíferos do país”. (6)

O Irã se estende desde a região do Mar Cáspio, ao norte, até o Golfo Pérsico e o estreito de Hormuz, no sul. São áreas com um alto valor estratégico. O Mar Cáspio é um dos maiores produtores de petróleo e gás; um Irã dominado pelos EUA facilitaria o trânsito dessas matérias primas para o Japão e Europa. Pelo estreito de Hormuz passam, por dia, 40% do petróleo mundial. “Se estabelecer o controle sobre o Irã, Washington teria também o controle militar da costa oriental do Golfo e da costa sul do Mar Cáspio, das suas reservas de petróleo e gás, consideradas ambas como as segundas em importância no mundo. Os EUA já tem o controle militar de parte da bacia do Cáspio e do corredor que permite a comunicação dessa região com o Oceano Índico (Afeganistão e Paquistão). A maior parte do Golfo (Arábia Saudita e Iraque) também já está sob controle militar dos EUA. Ao final desta operação, Washington seria senhor e mestre das mais importantes áreas de exploração de hidrocarbonetos e das principais reservas ainda por explorar”. (7)

As relações comerciais com a Rússia são muito importantes e destaca o papel russo no desenvolvimento do programa nuclear civil. Com a China mantém-se o acordo de compra de gás iraniano por 25 anos, assim como o apoio no desenvolvimento do campo de gás de Yadavaran; 13,6% do petróleo importado pela China é iraniano, o que representa 25% das exportações de petróleo do Irã. Também existem grandes acordos comerciais com a Índia e Japão.

Outra das dores de cabeça dos EUA é que, em 2010, o Irã e o Paquistão firmaram um acordo para a construção de um gasoduto. A parte iraniana já estava pronta em 2011. “Mais preocupante para os EUA é que o gasoduto possa se estender para a Índia. O tratado de 2008 dos EUA com a Índia, apoiando seu programa nuclear, pretende evitar que este país se ligue a este gasoduto” (8). Não só isso: o gasoduto poderia chegar à China a partir do próprio Paquistão.

Está claro que os EUA precisam controlar o Irã como condição sine qua non para manter a hegemonia imperialista no mundo e, especialmente, a supremacia sobre a China.


O Irã e o dólar

O Irã quer fazer as suas vendas de petróleo em moedas que não seja o dólar. Embora a quantidade de dólares que circulam pelo mundo já não reflete qualquer riqueza real – pois os EUA botaram para funcionar “a máquina de imprimir dinheiro” sempre que necessitaram nos últimos 40 anos – a maioria das transações econômicas no comércio mundial são feitas em dólares; esta é a única “força” que resta para essa moeda. Se em algum momento o dólar deixasse de ser a moeda de referência para o comércio internacional, a economia mundial entraria em colapso. E não está em perigo só o dólar como moeda, mas também uma série de operações especulativas; quase as totalidades das bolsas de futuros de petróleo têm a sua sede em Nova York e Londres, e ambas as praças trabalham em dólar. Nestas bolsas ocorrem aumentos do preço do petróleo para beneficiar um punhado de especuladores.

O Irã aceita euros em suas vendas de petróleo desde 2003. Esta é uma das principais causas da crise EUA-Irã. Lembramos que Sadam Hussein quis fazer o mesmo com o petróleo do Iraque em 2000 e depois aconteceu o que aconteceu.

Desde 2008 o Irã está deixando de vender petróleo em dólares e passou a negociar em euros e yuans. Digamos que, por outro lado, esta medida permitiu-lhe ganhar, em um ano, sete bilhões de dólares. Desde 2006, o Irã está transferindo suas reservas em divisas de bancos europeus para bancos asiáticos.


O Irã não tem nem fabrica armas nucleares

Embora a propaganda ocidental tenta esconder, o Irã é talvez o país que mais tem sido controlado pela supervisão da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). E mais, “em 2003, uma proposta razoável para esse fim foi a de Mohamed El Baradei, diretor da AIEA: que toda a produção de material que pudesse ser destinado a armas permaneceria sob controle internacional, com “mecanismos de controle para que os potenciais usuários possam obter suprimentos”. Esse seria o primeiro passo em sua proposta para implementar completamente a Resolução da ONU em 1993 sobre um Tratado de Redução de Materiais de Fissão (Fissban, em Inglês: Fissile Material Cutoff Treaty).

Até o momento, a proposta de El Baradei foi aceite, como pude entender, por um único Estado: O Irã, que o fez em fevereiro, por meio de Ali Larijani, chefe dos negociadores nucleares de Teerã. A administração Bush rejeita um Fissban verificável e está praticamente sozinha. Em novembro de 2004, o Comitê de Desarmamento da ONU votou a favor de um Fissban verificável. A votação foi de 147 contra um (EUA), com duas abstenções: Israel e Grã-Bretanha. Em 2005, uma nova votação na Assembléia Geral da ONU foi de 179 contra dois, com Israel e Grã-Bretanha novamente se abstendo. Aos Estados Unidos juntou-se Palau. (9)

Três países não assinaram o Tratado de Não Proliferação (TNP): Índia, Paquistão e Israel. Todos os três são potências militares nucleares (o Irã não é); os três conseguiram isso com a ajuda dos EUA, nenhum dos três representa “perigo” algum para a comunidade internacional (o Irã é um perigo). Concretamente, Israel possui entre 200 a 300 armas nucleares e não permite nenhuma inspeção da AIEA; além disso, Israel viola a resolução do Conselho de Segurança de 1991 para que todo o Oriente Médio fosse zona livre de armas nucleares e de destruição em massa.

Há poucos meses, o Irã anunciou que tinha um orçamento de 250 milhões dólares para pesquisas nucleares com fins pacíficos. Por sua vez, os EUA tem 81 bilhões de dólares, não só para pesquisa, mas também para incrementar o seu arsenal nuclear, que atualmente é de 5.000 bombas nucleares.

A forma iraniana de compreender o Islã é contraria as armas nucleares. “O aiatolá Khomeini e seus sucessores condenaram a fabricação, armazenamento e uso de armas nucleares, e até mesmo a ameaça de recorrer a elas, como atos contrários aos valores religiosos da fé islâmica. Segundo eles, o uso de armas de destruição em massa que matam indiscriminadamente civis e militares, partidários e opositores de um governo, é moralmente inaceitável. Tal proibição ganhou força de lei através da promulgação do decreto emitido pelo Guia Supremo da Revolução, o aiatolá Khamenei, em 09 de agosto de 2005. (10)

“Durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), Saddam Hussein ordenou disparar mísseis não-guiados contra cidades iranianas. O exército iraniano respondeu fazendo o mesmo... Até que a intervenção do Imã Khomeini, que ordenou a suspensão de lançamento de mísseis iranianos, invocando o princípio exposta acima, e proibiu qualquer lançamento indiscriminado de mísseis contra as cidades inimigas. O Irã escolheu sofrer uma guerra de longa duração antes de vencê-la usando armas que matam indiscriminadamente”. (10)

Em 2006, o Irã retomou seu programa de pesquisa nuclear, que havia sido interrompido em 2003 por pressão internacional. O suporte técnico russo é importante, tanto em pessoal como na construção de usinas de energia nuclear como a de Busher, que tem um custo de quase um bilhão de euros. “O projeto nuclear iraniano é baseado em três aspectos principais: construção de reatores nucleares, produção de combustível nuclear e desenvolver através desta forma de energia a medicina, indústria e agricultura. Existem mais de 430 reatores nucleares para produção de energia elétrica no mundo e produzem 16% de eletricidade”. (11)

O enriquecimento de urânio iraniano é feito a 3,5%. Para uso militar é necessário enriquecê-lo a 80-90%; como vemos, os “perigos” de que o Irã esteja construindo a bomba atômica são simplesmente uma grande mentira.

Desde 2006, os norteamericanos têm conseguido várias condenações contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU e medidas de boicote internacional contra esse país, o que tem prejudicado seriamente sua economia (proibição de venda de bens e tecnologia, congelamento de ativos...). O relatório da AIEA que facilitou a condenação pelo Conselho de Segurança da ONU naquele ano contém frases antologia como: “Apesar de a Agência não ter visto qualquer desvio de material nuclear para armas atômicas ou outros artefatos explosivos nucleares, não é possível neste momento concluir que não há material ou atividades nucleares não declaradas no Irã”. (12)

A realidade é que um relatório de 2006 do Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, assinala que os EUA não tem nenhuma informação real do programa nuclear iraniano, não há evidências. Outro relatório de 2006 da AIEA ao Conselho de Segurança afirma que não há evidências de que o programa nuclear do Irã tenha como objetivo a fabricação de armas nucleares.O mesmo volta a ser dito em 2008, quando um relatório da NIE (National Intelligence Estimate) dos EUA reconhece que o Irã não tem programa nuclear armamentista algum, pelo menos desde 2003. Em 2010, Ali Asghar Soltanieh, embaixador permanente do Irã na AIEA, relembra que, após oito anos de inspeções, não há evidência alguma de construção de armas atômicas. Um total de 16 agências de inteligência dos EUA (incluindo a CIA) manifestam-se nesse sentido em dois Estudos Nacionais de Inteligência.

Como Mohamed El Baradei, diretor da AIEA, não defendia exatamente as tese dos EUA, as potências ocidentais forçaram sua demissão.

Um relatório dos EUA de 2006, apresentado perante uma comissão parlamentar, continha tantas mentiras que a própria AIEA teve de protestar, e isso não foi bem recebido em Washington. Recentemente, Baradei, livre de compromissos, colocou as cartas na mesa: “Os norteamericanos e os europeus retiveram importantes documentos e informações. Não estavam interessados em compromisso com o governo de Teerã, mas na mudança de regime por quaisquer meios”. (13)

El Baradei foi substituído pelo japonês Amano, um cãozinho fiel do império. Segundo o Wikileaks, através de documentos da embaixada dos EUA em Viena, Amano prometeu lealdade aos Estados Unidos. A partir de 2010-2011 as teses da AIEA estão em perfeita harmonia com os interesses ocidentais.

Primeiro relatório Amano é datado de fevereiro de 2010. Em novembro de 2011, um relatório da AIEA assinala, sem provas conhecidas, que o Irã “tem realizado atividades relacionadas com o desenvolvimento de um artefato nuclear explosivo” com “possíveis dimensões militares”. É um relatório falso: “Especialistas e analistas de todo o mundo têm questionado o relatório, alegando que o mesmo é baseado em informações procedentes de alguns serviços secretos de países nada próximos ao regime de Teerã.

Além disso, algumas fotografias apresentadas são do início desta década, ou se faz referencia a um programa sobre mísseis que o Irã abandonou há anos, ou tenta-se vincular o programa nuclear com um especialista ucraniano que trabalhou no país nos anos noventa. Como essas fontes informam, a maior parte do relatório refere-se a atividades anteriores a 2003, tornando obvio o que a própria inteligência dos EUA reconheceu em 2007, que o programa nuclear iraniano tem “sido pacífico desde 2003” e ocultando intencionalmente a colaboração que o governo iraniano vem mantendo com a agência citada. (14)

Nos Estados Unidos ventila-se que as pesquisas que permitirão que o Irã obtenha armas atômicas são chefiadas por um proeminente cientista russo que, uma vez identificado como Vyacheslav Danilenko, é uma das mentes mais importantes do mundo na produção de... nanodiamantes; nada que tenha a ver com energia nuclear.

E, para completar, em dezembro passado, o Tribunal de Manhattan chegou a sabia conclusão de que o Irã estava por trás dos atentados de 11 de setembro.

O Irã novamente solicitou à AIEA para enviar um grupo de técnicos ao país para inspecionar suas pesquisas nucleares. Não houve resposta. O representante iraniano na AIEA, Ali Asghar Soltanieh, disse que, após oito anos de inspeções e centenas de visitas não planejadas, não há sequer uma prova de que o Irã esteja produzindo bombas atômicas. Neste sentido também se manifestou o ex-secretário geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Hans Blix.

É tão difícil saber se o Irã está desenvolvendo armas nucleares? Primeiramente, se o estivesse fazendo, estaria desviando o urânio para esses fins; mas o relatório da AIEA nega, pois os movimentos de urânio deixam um rastro facilmente detectável com contadores Geiger. Depois, há meios técnicos (contadores e medidores de radioatividade) para medir níveis de radioatividade; mas todas as investigações neste sentido revelam que o Irã enriquece urânio para fins pacíficos. E ainda, “temos uma capacidade incrível para encontrar dutos de ventilação desde o ar, desde o espaço, por satélites. Se você está construindo uma instalação subterrânea, tem que ter ventilação. Tem que ter ar limpo. Para eliminar o ar contaminado e trocá-lo por ar fresco... Entretanto nada, nada foi encontrado”. (15)


EUA: armando seus aliados na região até os dentes

As manobras militares ocidentais simulando um ataque ao Irã ainda são comuns. Em 2004, forças dos EUA e britânicas realizaram manobras em Fort Belvoir, na Virgínia; em 2006 as manobras das tropas dos EUA foram diante das costas do Irã; em 2007, mais uma vez ao largo da costa iraniana, com o maior contingente de forças navais jamais utilizadas pelos EUA: vários porta-aviões, 200 aviões de combate e 10 mil soldados; em 2008 foram os israelenses que realizaram manobras no Mediterrâneo; em 2009, novamente os israelenses fizeram exercícios militares em Gibraltar; também em 2009, foram realizados os maiores exercícios militares jamais realizados no mundo, pelos EUA e Israel, com armamento de última geração. Para 2012 estão programadas grandes manobras.

O maior perigo de guerra até agora ocorreu no verão de 2010, quando uma grande frota dos EUA se posicionou no Golfo Pérsico, ao largo da costa iraniana, para monitorar navios que entravam e saiam do Irã, com base em acordos da ONU.

Os EUA estão armando até os dentes os países “amigos” da região. Em 2008, prometeu ao Egito ajuda militar de 13 bilhões de dólares, 30 bilhões a Israel e 20 bilhões para a Arábia Saudita. “Por sua vez, transferências de armas em larga escala têm sido realizadas sob a bandeira dos EUA como “ajuda militar” a países selecionados, incluindo cinco bilhões de dólares em um acordo de armas com a Índia, destinado a melhorar a capacidade da Índia contra a China. (Huge US-India Arms Deal to Contain China, Global Times, 13 de Julho de 2010)”. (16)

Também em 2008, Israel decidiu comprar 25 caças F-35 dos EUA, por 15,2 bilhões de dólares; assim garante a superioridade aérea sobre qualquer outro país do Oriente Médio. Além disso, a Arábia Saudita cedeu um corretor em seu espaço aéreo para que aviões israelenses bombardeiem o Irã. (fonte: The Times).

“Os EUA estão armando os estados do Golfo (Bahrain, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos), com o sistema antimísseis terra-ar Patriot Advanced Capability-3 e o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD), bem como com o míssil padrão interceptador Marc-3 instalados em navios de guerra da classe Aegis no Golfo Pérsico” (16). “Em 11 de novembro [de 2011] o The Wall Street Journal revelou que a Casa Branca fornecerá aos Emirados Árabes Unidos (UAE) “milhares de bombas avançadas “antibunker” e outras munições, como parte de um esforço dos EUA para criar uma coalizão regional para se contrapor ao Irã” (17). Em 2010, foi assinado o maior contrato de venda de armas da História, num montante de 60 bilhões de dólares, os EUA estão vendendo aviões, navios e tecnologia militar à Arábia Saudita.


Rumo à Terceira Guerra Mundial?

Os planos de ataque ao Irã são anteriores ao ataque contra o Iraque; assim o afirmou o analista de inteligência Willian Arkin no Washington Post.

Em agosto de 2010, o Almirante Mile Mullen, chefe da Junta de Chefes de Estado Maior da FFAA dos EUA, assegurou que este plano existia: “Sim, já o temos...atacar o Irã é uma opção importante e está bem compreendida”.

Apenas 24 horas depois no jornal The Washington Times (...), Rowan Scarborough disse: “Os mísseis serão disparados de navios, submarinos e bombardeiros B-2, para eliminar as defesas aéreas e as instalações nucleares. O B-2 jogarão toneladas de bombas, incluindo bombas que penetram instalações subterrâneas em locais fortificados e enterradas onde se suspeita que Teerã esteja enriquecendo urânio para ativar suas armas e onde trabalham nas ogivas” (18). O uso de bombardeiros B-2 não é por acaso, pois são os únicos que podem transportar ogivas nucleares. O The New Yorker deixa claro que os planos dos EUA contemplam um ataque ao Irã com armas nucleares.


A crise econômica do capitalismo está deixando o sistema mais agressivo

Hoje, a política internacional dos Estados Unidos é feita a canhonaços; a “guerra fria”, que dominou o cenário mundial nas últimas décadas, está muito longe. Os EUA somente podem manter manu militari seus interesses econômicos e estratégicos para que o sistema capitalista não afunde e para não perdem a liderança sobre seus concorrentes europeus e asiáticos. Uma das razões para a retirada das tropas no Iraque e no Afeganistão pode ser a necessidade de concentrar tropas para um ataque ao Irã.

A guerra contra o Irã não é um evento isolado, mas há cinco anos faz parte de um plano de guerra para fortalecer a presença americana, especialmente diante da China. “[A campanha] de um plano de cinco anos [inclui]...num total de sete países, começando com o Iraque, em seguida Síria, Líbano, Líbia, Irã, Somália e Sudão” (19). A atual ofensiva do Ocidente, dos países do Golfo e da Turquia contra a Síria tenta deixar o Irã sem aliados no Oriente Médio. Isto significa que depois da Síria, o próximo passo do imperialismo será atacar o Irã.

O exército iraniano tem um milhão de soldados, incluindo a Guarda Revolucionária que é de 500.000; as autoridades iranianas prevêem a mobilização de 20 milhões de reservistas (população total: 71 milhões de habitantes). Não podemos prever o resultado de uma guerra contra o Irã, mas com certeza podemos dizer que os EUA estão diante do exército mais numeroso e melhor armado que jamais enfrentaram.

Os aviões e helicópteros de combate iranianos são semelhantes em desempenho aos norteamericanos F-5E e F-14, além disso, o Irã está adquirindo caças-bombardeiros russos e outros equipamentos militares de última geração. O míssil Shahab-3 pode carregar ogivas nucleares e atingir Israel e bases dos EUA em todo o Oriente Médio. Em recentes manobras militares foram testados mísseis de médio e longo alcance, que podem atingir alvos difíceis de detectar.

A derrubada de um avião espião norteamericano de última geração em dezembro passado, é um sinal de que a tecnologia iraniana não deve nada à dos EUA. O avião não foi abatido com um míssil, mas através do uso de informática: os iranianos controlaram o software do avião espião e o fizeram pousar com segurança. Além disso, essas aeronaves possuem sistema de autodestruição que foi neutralizado pelos iranianos. Lembrando que os iranianos já tinham conseguido interceptar outras vezes até seis aviões de espionagem, sendo alguns israelenses.

Foi repetido diversas vezes nos meios de comunicação ocidentais que os planos de agressão dos EUA contemplam a destruição de 10.000 alvos em poucas horas. Esta lista inclui alvos civis, como indica a revista Military Review (do exército dos EUA) em julho de 2010: “Este tipo de ação militar é semelhante às sanções: provoca danos com a finalidade de mudar condutas, através de meios mais poderosos" (20). As palavras de John Pike, analista militar que dirige a empresa Global Security, no Washington Times em 2010, não deixam duvidas: “Muitos desses lugares têm anexos alojamentos para os trabalhadores. Bombardeam-se as casas, matam-se os trabalhadores e se fará retroceder o programa em, pelo menos, uma geração”. (21)

Os EUA usaria mini-bombas atômicas, mas que são seis vezes mais potentes que a de Hiroshima. O cúmulo do cinismo é que, para o Ocidente, estas bombas são humanitárias, enquanto que as armas nucleares iranianas – que não existem – são terrorismo puro e simples. O uso de armas nucleares é “justificado” porque muitos alvos são subterrâneos e só podem ser destruídos com estas armas.

Os perigos de uma guerra global são claros. Por um lado, morreriam centenas de técnicos russos que estão trabalhando nas instalações nucleares iranianas, com o que a Rússia não poderia ficar de braços cruzados. Na opinião de Michel Chossudovsky “se o Irã for alvo de um ataque aéreo ‘ preventivo’ das Forças Aliadas, toda a região, desde o Mediterrâneo Oriental à fronteira ocidental da China com o Afeganistão e o Paquistão, poderia explodir, o que, potencialmente, conduz a um cenário de uma Terceira Guerra Mundial. A guerra também se estendem para o Líbano e a Síria. É muito improvável que os ataques, se implementados, fiquem limitados às instalações nucleares do Irã, como afirmam as declarações oficiais dos EUA e da OTAN. O mais provável é um ataque aéreo a infraestruturas militares, civis, sistemas de transporte, fabricas e edifícios públicos”.(22)

“A questão da chuva radioativa e da contaminação, casualmente ignorada pelos analistas militares dos EUA e da OTAN, seria devastadora, afetando uma vasta área do Oriente Médio (inclusive Israel) e a região da Ásia Central” (19). Para citar um exemplo: Há alguns anos a Birmânia mudou sua capital de Rangum para Pyinmana, pois eles acreditam que nesta localidade o efeito da radiação nuclear provocado por um ataque ao Irã seria menor.

A radiação e o inverno nuclear poderiam ter consequências insuportáveis para o ser humano. Claramente falando: a sobrevivência da raça humana estaria em jogo se os EUA atacassem o Irã.

Seria catastrófico para a economia mundial. O estreito de Ormuz pode ser fechado em poucos minutos, com isso 40% da produção mundial de petróleo estaria bloqueada. O petróleo poderia alcançar preços exorbitantes.

Ray McGovern e Elizabeth Murray, ex-analistas da CIA, manifestaram-se recentemente sobre as consequências de um ataque ao Irã. Dizem que poderia acabar com a economia mundial e que somente beneficiaria aos comerciantes de armas.

Nos últimos tempos vem tomando corpo a possibilidade de que o inicio do ataque ao Irã seja feito por Israel. Desta forma, os meios de comunicação ocidentais poderiam dizer que os EUA e a OTAN entram numa guerra contra o Irã para dar respaldo ao seu aliado israelense. Neste sentido temos observado na mídia, já há algum tempo, declarações como as de Shaul Mofaz, Ministro de Defesa israelense: “Se o Irã continuar com seu programa de desenvolvimento da bomba atômica, o atacaremos. As sanções não são eficazes...Um ataque ao Irã para deter seus preparativos nucleares será inevitável”. (23)


Notas:
1) LA PRÓXIMA GUERRA -JOHN PILGER- ZNET 8 DE MARÇO DE 2006
2) LAS MENTIRAS Y LOS OCULTAMIENTOS SOBRE IRÁN -PASCUAL SERRANO -REBELIÓN 12/05/06,
3) LAS ELECCIONES IRANÍES: EL TIMO DEL ROBO ELECTORAL-RED VOLTAIRE, FRANÇA 22/06/09 por James Petras
4) EL COMPLOT RÁPIDO Y FURIOSO PARA OCUPAR IRÁN-REBELION, ESPANHA 15/10/11 Pepe Escobar -Al-Jazeera.
5) ¿EL "COMPLOT IRANÍ" NO SERÁ MÁS BIEN ESTADOUNIDENSE?-RED VOLTAIRE, FRANÇA 21/10/11
6) PRESIDENTE PLANTEA COMPLETAR NACIONALIZACIÓN DE INDUSTRIA PETROLERA DE SU PAÍS-TELESUR, VENEZUELA 10/08/11
7) LO QUE REALMENTE ESTÁ EN JUEGO EN LA CRISIS IRANÍ -RED VOLTAIRE, FRANÇA 04/02/06
8) NUBES DE TORMENTA SOBRE IRÁN-REBELION, ESPANHA 05/07/10 Noam Chomsky –Público.
9) DESACTIVANDO EL ENFRENTAMIENTO NUCLEAR CON IRÁN -LA JORNADA, MÉXICO 01/07/06 Noam Chomsky
10) ¿QUIÉN LE TEME AL PROGRAMA NUCLEAR CIVIL DE IRÁN?-RED VOLTAIRE, FRANÇA 12/07/10 por Thierry Meyssan
11) ¿POR QUÉ IRÁN QUIERE EL DESARROLLO NUCLEAR?-GRANMA, CUBA 16/03/06 ELSON CONCEPCIÓN PÉREZ
12) COMO EN EL CASO DE IRAQ, IRÁN ES CULPABLE PORQUE NO SE PUEDE DEMOSTRAR SU INOCENCIA-EL INSURGENTE, ESPANHA 19/03/06
13) ATAQUE A IRÁN, PRELUDIO DEL CAOS MUNDIAL-REBELION, ESPANHA 18/11/11 Chems Eddine Chitour - Le Grand Soir
14) UNA SOMBRA BÉLICA SE CIERNE SOBRE IRÁN-REBELION, ESPANHA 12/12/11
Txente Rekondo -Gara/Rebelión
15) LA PROPAGANDA QUE SIRVIÓ PARA PREPARAR LA GUERRA DE IRAQ ESTÁ SIENDO REUTILIZADA EN IRÁN-REBELION, ESPANHA 23/11/11 Amy Goodman -Democracy Now!
16) PREPARANDO LA III GUERRA MUNDIAL (I) OBJETIVO IRÁN-REBELION, ESPANHA 09/08/10 Michel Chossudovsky -Global Research
17) Estados Unidos ARMA SUS ALIADOS DEL GOLFO PÉRSICO PARA CONFLICTO CON IRÁN-REBELION, ESPANHA 28/11/11 Rick Rozoff -Media Monitors Network
18) EL ATAQUE A IRÁN… Y VAN APARECIENDO LOS DETALLES…-GRANMA, CUBA 05/08/10 REINALDO TALADRID HERRERO.
19) PREPARANDO LA III GUERRA MUNDIAL (III), -EL PAPEL DE ISRAEL EN LA GESTACIÓN DE UN ATAQUE A IRÁN-REBELION, ESPANHA 17/08/10 Michel Chossudovsky -global Research
20) NUBES DE TORMENTA SOBRE IRÁN-REBELION, ESPANHA 05/07/10 Noam Chomsky –Público
21) EL ATAQUE A IRÁN… Y VAN APARECIENDO LOS DETALLES…-GRANMA, CUBA 05/08/10 REINALDO TALADRID HERRERO.
22) PREPARANDO LA III GUERRA MUNDIAL (I) OBJETIVO IRÁN-REBELION, ESPANHA 09/08/10 Michel Chossudovsky -Global Research
23) ATAQUE A IRÁN, PRELUDIO DEL CAOS MUNDIAL-REBELION, ESPANHA 18/11/11 Chems Eddine Chitour -Le Grand Soi

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Sem mentiras, Santos, sem mentiras

Se pode ser seguidor e adorador de Deus. Mas, não deveria se deixar de lado o profundo conteúdo dos mitos religiosos, que em geral, são interpretados no seu sentido mais obvio, tratando assim evadir as consequências inevitáveis dos outros significados. Os cristãos, por exemplo, encontram no no livro da Gênesis a explicação real ou figurada do começo das coisas. E até sem serem fanáticos, aceitam a expulsão do paraíso como a consequência lógica do pecado da desobediência.

Mas, o que pensava Adão? Estariam resignados ele e Eva a serem condenados desse modo por toda a eternidade? Jack London tem um verso insuperável que reflexa de forma magistral sua situação: O ser que jogastes do jardim do éden, era eu, Senhor! Ali estava eu desterrado. O grito ferido dos pais da Humanidade inteira. Talvez Deus fosse onipotente, mas sua lógica não se encaixava com a dos pobres mortais, pois existe outra maneira de olhar as coisas, mais justa e válida.

Hoje poderia se dizer que a verdade não é única. Depende de quem e com que difusão a afirme. Quando se conta com o monopólio do poder da mídia, se reforça o próprio dito em escala galáctica. E se minimiza e ridiculiza o oponente. Vozes cada vez mais criveis e respeitáveis nos confirmam formais razoes oficiais acerca da urgência de falar. Em quanto isso sucede, se escuta uma e outra vez que conosco não se pode conversar porque todo o tempo enganamos.

Aqui poderíamos dizer algumas cosas. Depois dos deploráveis feitos do 26 de novembro no estado do Caquetá, ninguém revelou que o jornalista Herwin Hoyos, de Caracol Radio, trás embaucar os familiares dos prisioneiros com sua caravana, marchava para a área onde sabia que se realizaria a operação militar de resgate violento, com o propósito de receber os resgatados, montar outra cruzada de glorificação do Exército e alardear o êxito de sua campanha de “Vamos por eles”.

Reclamar sinceridade num primeiro momento, nos parece um péssimo precedente. Poderíamos apresentar algumas coisas. Após os deploráveis feitos do 26 de novembro no estado do Caquetá, ninguém revelou que o jornalista Serwin Hoyos, de Caracal Radio, logo de embaucar os familiares dos prisioneiros com sua caravana, viajava para a área donde sabia se iva a realizar a operação de resgate pela força, com o propósito de recebe-os, montar outra cruzada de glorificação do Exercito e exibir até a exaustão, sua campanha de “vamos por eles”.

Todo isso demonstra o conhecimento que o alto governo tinha da liberação unilateral prometida desses prisioneiros, assim como a forma de sabotar dita entrega mediante um espetáculo transmitido ao vivo, via internet para o mundo inteiro. Havia, então, que sair a condenar de forma contundente o natural boi expiatório: As FARC. E também, jurar uma e mil vezes que jamais tinha-se preparado uma operação militar para impedir a entrega. Como queremos persistir na entrega de prisioneiros, então, seremos tratados como testarudos por parte das raposas da verdade oficial. Pois, por encima delas insistiremos como cinco seculos atrás o fazia Frei Antonio de Montesinos ante os encomendeiros da Espanhola: “Ego vox clamantis in deserto”. Vemos apropriada a seguinte recordação do Frei dominicano para advertir sobre a iminente agressão que se prepara contra a região do Catatumbo e, em geral, contra o estado de Norte de Santander: “Com que autoridade têm feito tao detestáveis guerras a essas gentes que estavam em suas terras, mansas e pacíficas?”

O comandante da XXX Brigada manifestou claramente ao deixar se cargo: “O governo ratificou a vontade de incrementar a presencia militar em O Catatumbo pelo ingresso de novas empresas”

“Temos solicitudes de empresas para trabalhar nas áreas do carvão e do petróleo, assim como o incremento do plantio de palma a 16.500 hectares. A intenção é permitir a chegada das empresas, continuar aumentando os plantios de palma e atacar o narcotráfico”


Falava isso meses atrás. Por que agora, quando milhares de soldados e dezenas de naves artilhadas em plano de guerra estão sediadas em Cúcuta, Ocaña, Tibú e outras localidades, prontas para o ataque, diz que toda essa força tem o propósito de perseguir e eliminar o Chefe máximo das FARC?

Qualquer pessoa com sensu comum sabe o que alguém pode fazer, sabendo o que está por vir. O governo e o alto comando militar sabem bem o que querem fazer. Como bonecos de Collodi, lhe mentem ao país. Em um ato vergonhoso, o exercito nacional se aproxima das comunidades indígenas do Catatumbo, simulando brigadas de ajuda social, a sabendas de que o que está por vir é uma perseguição infame e o enxotamento violento dos indígenas Bari, cujos terras estão na mira das grandes companhias transnacionais do carvão, o petróleo e os biocombustíveis.

Cinquenta anos atrás essas mesmas comunidades moravam em extensas áreas do estado Norte de Santander. E pelejavam com arcos e flechas em defesa de suas terras. Hoje moram refugiados nos lugares mais inóspitos de onde serão expulsos pela desumana exploração global capitalista que destruirá zonas de reserva florestal e parque naturais. Igual sorte correrão as comunidades camponesas de pequenos agricultores. A sentença de morte contra os pequenos mineradores, também, está ditada há meses.

Isso fe o que chegam a fazer as tropas, Santos. A garantir ainda mais prosperidade para os mais prósperos. E a afundar na infeliz desesperança os mais pobres. Eles sabem bem disso e gritam e choram, mas suas vozes se perdem na montanha, como os berros dos macacos. Trata-se da mesma historia que tem ocorrido em nosso país durante décadas, melhor dizer, por séculos . Uma casta enquistada no poder tem posto sempre por diante seus interesses e os do amo estrangeiro antes que os de seus nacionais.

Destes e similares assuntos, com participação ativa dos afetados, nos interessa tratar em uma hipotética mesa de conversações, de cara ao país. Discutir as privatizações, a desregulação, a liberdade absoluta de comercio e os investimentos, a depredação ambiental, a democracia de mercado, a doctrina militar. Retomar a Agenda que ficou sem ser discutida nos diálogos no município de El Caguán. O governo do qual você fazia parte, se negou a abordá-la dez anos atrás, condenando-nos a todos a esta Troya sangrenta que sim toma de Ilión se apresta a repetir-se.

Nós, assim como a imensa maioria do povo colombiano, pertencemos a estirpe mundial de mulheres e homens a quem um soberbo poder celestial desterrou do paraíso. Sempre nos negaremos a aceitar a imposição de verdades absolutas. Nosso destino é recuperar o que nos pertence. Proclamamos nossa verdade: este conflito não terá solução enquanto não sejam atendidas nossas vozes. Sem mentiras, Santos, sem mentiras

Timoleón Jiménez
Comandante do Estado Maior Central das FARC-EP

sábado, 7 de janeiro de 2012

SAUDAÇÕES DAS FARC-EP AOS POVOS DO MUNDO



Desde a Colômbia, nação que pouco a pouco se levanta contra a política neoliberal do Estado, a saudação fraternal dos guerrilheiros das FARC aos povos do mundo, às suas organizações de luta pela dignidade humana e aos amigos que anseiam por uma solução política do conflito que se desenvolve nestas terras de Bolívar e de Manuel Marulanda.

Agradecemos a solidariedade com a determinação justa de um povo que resiste às imposições das transnacionais e de um governo apátrida, que ávidos de lucro, precarizam o padrão de vida dos colombianos, arrasam a soberania e destroem o meio ambiente. Esta luta faz parte da mobilização crescente da indignação mundial contra os desaforos e a voracidade do capital financeiro.

Os governos de Washington e Bogotá têm recorrido ao uso desproporcional da força, da tecnologia e ao uso sem descanso de suas fábricas de desinformação, numa vã tentativa de varrer o entulho que representamos como povo em armas contra suas ambições exacerbadas do saque de recursos, em um momento de crise, agonia e senelidade do sistema capitalista mundial. Obrigado pela solidariedade para com a nossa organização insurgente.

Temos enfrentado momentos difíceis, sim, como a recente queda em combate do Comandante Alfonso Cano, mas a bagagem moral da solidariedade dos povos, o estimulo das suas manifestações, nos mantém ergidos em uma luta justa que busca independência, justiça, humanidade e uma nova ordem social.

Somente os exércitos aguerridos – como dizia Bolívar, o Libertador – são capazes de superar os primeiros eventos infelizes de uma campanha. As FARC, longe de ser compostas de soldados inexperientes ou sem consciência, reafirmam e endossam com o sangue dos camaradas caídos, seu compromisso inelutável de continuar adiante.

Quando o capitalismo decrépito naufraga hoje em sua crise sistêmica, ninguém deve esmorecer. As manifestações de indignação contra a tirania financeira que abalam o mundo, devem se generalizar. Mas, para salvar a humanidade e a vida do planeta é necessária a articulação das lutas dispersas, a formação de um centro de coordenação, de uma vanguarda coletiva, com uma estratégia comum que desdobre a grande bandeira da humanidade e da justiça.

Os governos revolucionários e organizações políticas e sociais dos povos, tem trabalho a fazer. Contem com as FARC nesta luta justa por uma alternativa anticapitalista.

Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP


Montanhas da Colômbia, janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Câncer peculiar persegue presidentes

Como sabemos através das revelações do Wikileaks: há dois anos, Hilary Clinton enviou ao embaixador de Buenos Aires uma mensagem secreta para pedir-lhe que investigue a saúde da Presidente Cristina Fernández. Necessitava saber de seus hábitos pessoais, de como ela manejava o estresse relacionado a seu trabalho. Perguntava se acaso tomava algummedicamento e qual seria.

Estranha coincidência: a Presidente Cristina Fernández, que até agora havia desfrutado de uma saúde excelente, padece de câncer na glândula tireoidal. Seu marido, Presidente Néstor Kirchner, então candidato de novo à presidência, havia tomado um café em um hotel na Patagônia onde costumava ir. Na mesma noite, foi alvo de um repentino mal estar e morreu de infarto fulminante do miocárdio. O Presidente do Paraguai, Fernando Lugo, teve câncer linfático. A Presidente Dilma Rousseff padeceu de câncer enquanto estava em campanha eleitoral. Era antigamente líder de um movimento de libertação nacional nos terríveis anos da ditadura militar, que foi apoiada pelos Estados Unidos, foi detida e torturada. O Presidente Lula da Silva sofre agora de câncer e seu povo reclama para apresentar-se a futuras eleições. O Presidente da Venezuela Hugo Chávez, que enfrentava favoravelmente em 2012, ano eleitoral, um novo período, está se recuperando de um câncer.

Tod@s el@s haviam, até então, desfrutado de boa saúde. Por sua vez, têm se caracterizado por sua orientação política progressista, fortemente criticada pelo governo dos Estados Unidos.

Há poucos anos atrás, o Presidente Fidel Castro, ao voltar de uma viagem oficial na Argentina, encontrou-se de repente vítima de uma hemorragia interna misteriosa que o colocou à beira da morte. Ressuscitou por milagre. Anteriormente, Yasser Arafat foi acusado durante dois anos por disparo de armas pesadas contra sua residência em Ramallah, quando se negou a ser deportado como requeria Sharon, foi vítima de envenenamento de seus glóbulos vermelhos e nem sequer pôde ser diagnosticado pelos especialistas franceses em Paris, onde morreu de repente.

Nos últimos 50 anos, Fidel foi o *laranja* de cerca de 700 intenções de assassinato (o que já entrou pros anais do Guinness!), incluindo meios biológicos sofisticados preparados em laboratórios da CIA e das forças armadas dos Estados Unidos, intenções de assassinato revelados tanto pelo Wikileaks como por outras fontes oficiais.

Quando não se trata de golpe do Estado militar formentado pela CIA, seja no Chile contra o Presidente Salvador Allende, ou mais recentemente em Honduras contra o Presidente Manuel Zelaya, estão então tramando atentados disfarçados de acidentes de avião, como foi o caso do Presidente do Panamá Omar Torrijos, que nacionalizou o canal (!); ou o Presidente Samora Machel, de Moçambique. Em outros cenários, foi o vil e covarde assassinato de Che Guevara, e recentemente o linchamento de Muammar Gaddafi. Estes grandes líderes eram dignos patriotas de países do Sul que se opõem à dominação imperialista dos Estados Unidos.

Quem mais se encontra na mira em 2012...?

Rashid SHERIF

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

"Eu ouvi as últimas palavras de Mono Jojoy"

Reaparece Tanja, a holandesa das FARC. "Eu ouvi as últimas palavras de Mono Jojoy"

No ano que entra (2012), a holandesa Tanja Nijmeijer completará uma década nas FARC e, em fevereiro, terá 34 anos de idade. Já escapou da morte sete vezes, a última dela em 20 de setembro de 2010, quando trinta toneladas de bombas caíram sobre o acampamento de Mono Jojoy.

Por: Jorge Enrique Botero

"Eu vivia a 25 metros do bunker do camarada Jorge", relata quinze meses depois daquela estrondosa madrugada. Tanja tem em suas mãos um exemplar da revista Semana, que relata a morte de Alfonso Cano; um moderno Mac Book Pro a sua frente e um livro de título "Marulanda e as FARC" para principiantes. Ela explica que está traduzindo o livro para o inglês.

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"Nos sentimos orgulhosos de que nosso Comandante tenha morrido em combate", afirmou Tanja sobre a morte do Mono Jojoy.

Com dez anos de monte, ela é tradutora e professora; já carregou nas costas muita comida pelos labirintos da Serrania de La Macarena; já cruzou a pé pelo menos cinco departamentos da Colômbia: Meta, Cundinamarca, Caquetá, Guaviare e Vichada; já perdeu a conta dos combates dos quais participou e dos bombardeios que já esquivou. Pôs bombas em Bogotá para pressionar o pagamento dos impostos que cobra a guerrilha e perdeu seu diário em um assalto do Exército em 2005.

Havia escrito que estava cansada no monte, que não suportava mais a soberba de certos comandantes e a falta de cigarros. Se disse que haviam feito conselho de guerra e por pouco a fuzilaram. Mas em 2010 reapareceu desafiando o Exército. "Se estão pensando que estou aqui contra a minha vontade, venham me buscar. Aqui os espero com minha AK, com morteiro, com tudo".

Personagem midiático na Holanda, Nirjmeijer desatou calorosas polêmicas nos jornais e na televisão de seu país. Na semana passada, foi transmitido o primeiro capítulo de uma telessérie argumentativa sobre a sua vida, rodada em sua cidade natal Denekamp, na fronteira com a Alemanha, e em regiões da selva do Equador.

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"A morte é algo normal em uma guerra", disse Tanja enquanto abria a revista em que se anunciava a morte de Alfonso Cano. Este é seu testemunho do ocorrido no dia que Mono Jojoy morreu sobre uma chuva de bombas: 

Os dias transcorriam com tranquilidade, nós estávamos trabalhando normalmente. O Mono Jojoy nos dava conferências na aula pela manhã, e às vezes à tarde também. 
Lembro-me que no dia antes do bombardeio havíamos visto um filme colombiano, Retratos de Mentiras, ou algo assim. Trabalhávamos sobretudo fazendo trincheiras, pois havia muitos voos da aviação. Da extrema esquerda à extrema direita do acampamento se escutava muito chumbo, mas Mono dizia que não iria sair dali. Estava dirigindo as batalhas pessoalmente. Precisamente por esses dias, haviam chegados os cigarros e nós fumantes andávamos contentes.

Nesses dias, a diabetes tinha deixado Mono bastante mal. Estava muito enfermo, no entanto nunca se deixava diminuir pela enfermidade. Recebia os comandos, fazia reuniões de comando e nos dava as orientações. Pelas tardes, dedicava-se à orquestra que havia criado uma semana antes. A orquestra chegava até a sua oficina, e ali se dedicavam a compor e a ensaiar novas canções. Ele escutava e cantava. De minha barraca, eu o ouvia cantar todas as tardes.

Também andava pelo acampamento, mas se notava o esforço fazia. Movia-se para todos os lados com uma cadeira dessas de plástico. Chegava no rancho e colocava sua cadeira e ali sentava a sacanear a gente; ia para outro lugar e outra vez sentava a se divertir. Porém tudo isso era dentro do acampamento, porque ele já não podia marchar. Durante a última marcha que fizemos, em junho de 2010, ele foi carregado na rede. Lembro-me que, quando chegamos ao nosso destino, eu fiquei esperando que ele passasse e me dei conta que estavam carregando ele na rede e isso me impressionou muito, não só porque era o Comandante, mas porque havíamos cruzado os terrenos mais impossíveis e perigosos ao seu lado. Senti muita dor vê-lo na rede. Quando passou por onde eu estava, seguro ele se deu conta do meu assombro e levantou o punho e gritou para mim: "vamos para a Copa, Holanda!", pois estávamos nas semifinais do mundial de futebol.

Nas semanas anteriores ao bombardeio, com muita frequência fazíamos simulacros nas trincheiras. Mono havia nos anunciado que viriam bombardeios massivos contra a Serrania de La Macarena, assim que os ensaios se tornaram permanentes. Você se deita, de repente chamam e você se mete o mais rápido possível na trincheira com fuzil e colete. Na noite anterior ao bombardeio fizemos essa manobra três vezes.

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Tanja, em sua "oficina" na profundidade da selva, faz traduções de documentos das FARC em inglês. 

Na tarde de 20 de setembro havíamos tido uma reunião dos secretários. Deitei-me, houve um ensaio de trincheira, voltei a deitar e levantei-me mais tarde para cumprir a missão de vigia. Nessa noite fiquei com o terceiro turno, de dez às doze horas da noite. Durante o turno, tudo estava normal. Passou um avião, mas tudo estava normal. Deitei-me às doze horas e às duas da manhã uma bomba me despertou. Ainda que não houvesse caído muito perto de minha barraca, a bomba me despertou e eu me meti em uma trincheira, com cobertor e tudo, mas sem botas, porque depois da primeira caíram mais três, uma depois da outra. Depois fez-se um curto silêncio e eu saí da trincheira, pus as botas, o colete e o fuzil e voltei a me esconder na trincheira com raiva, pois não pude encontrar minhas lentes de contato. De repente começou o bombardeio massivo. 
Desde o começo notou-se que todo o fogo estava concentrado no bunker do camarada Jorge. Esse bunker ficava cerca de vinte e cinco metros da nossa esquadra. Todo o fogo foi concentrado ali, as primeiras descargas das bombas. Entre bomba e bomba, eu tratava de ver mas não se via nada, só escutava-se o cacarejar de uma galinha ferida. Quando passou o bombardeio massivo contra a barraca do Camarada, começaram a bombardear as esquadras; da última descarga de bombas eu nunca vou duvidar porque uma caiu a uns quatro ou cinco metros de minha barraca.

Entre descarga e descarga nós escutávamos Mono gritar. Ele permaneceu vivo depois das primeiras bombas. Chamava Quino, seu oficial de serviço, que também morreu nessa madrugada, e lhe dizia: "Quino, retire daqui todo o pessoal"! Essas foram as últimas palavras de Mono. Ali está pintado ele: Quino, retire o pessoal!...

Depois das últimas bombas, eu estava um pouco surda. Tinha o corpo dormente da cintura para cima. As mãos, os braços, tudo formigava. Na trincheira fazia um calor insuportável, então tirei a cabeça para fora da trincheira e pensei em pegar minhas coisas, a minha mochila, e aí me dei conta de que já não havia nada. Aonde estava minha barraca já não havia nada. Um pau grande e negro havia caído em cima. Tirei a cabeça um pouco mais e vi a barraca do Mono. Ela parecia, -como eu disse- um pasto, um cultivo: já não haviam árvores, não havia matas, tudo ficou arrasado. Tudo estava negro e se viam chamas por aqui e por lá...

Quando saí da trincheira disse: menos mal, tenho meu fuzil e tenho meus coletes, assim que nós vamos. O comandante de minha esquadra estava nos chamado todos e nós respondíamos, assim que se deu a ordem: Vamos saindo, rapazes! Começamos a subir por uma serrania. Éramos 17, o bombardeio já havia passado mas então chego a hora de nos metralhar. Seguimos subindo por uma hora e meia até que coroamos a serrania, e ali me pus debaixo de uma rocha. Peguei minhas lentes de contato, coloquei-as e por fim me senti pronta para o combate. Uma parte da esquadra voltou para pelejar. Tratavam de impedir que o Exército desembarcasse no acampamento, enquanto isso nós nos dedicávamos a evacuar os feridos, a sacar a comida e a munição... Gastamos quase todo o dia nisso.

Nos dias seguintes, nunca saímos da área de combate. Escutávamos os aviões, escutávamos os combates, e quase não ouvíamos rádio. Estávamos dedicados a tarefas militares. Nas explorações às vezes encontrávamos panfletos que diziam: "Morreu o terror de La Macarena, Alfonso Cano já está pensando, e você, o que vai fazer?". Nós dávamos risadas. Os que distribuíam os panfletos esqueceram que nós guerrilheiros temos uma senha: não se chora pelos mortos, mas leva-se sua memória ao próximo combate. O que se via nesses dias era essa vontade de ir ao combate.

Depois, com o passar dos dias, a tristeza chegou até a gente. Não vê que ele andava há tantos anos com a gente? Para muitos, ele era como um pai..

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Declaração de fim de ano das FARC-EP ao povo colombiano

Terça-feira, 27 dezembro, 2011

Do Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP


Comunicado:


Com a chegada do ano novo, as FARC-EP convidam o povo colombiano a um momento de reflexão sobre o futuro da nossa pátria. O que pode nos importar mais do que o destino de nossos filhos e do bem-estar das gerações futuras. De fato, as coisas no país não vão como para comemorar. Os reis magos desta vez não vêm para trazer a boa fortuna e carregados de tesouros, mas chegam gananciosos para levar quanta riqueza encontrarem em seu caminho.

Além disso, chegam escoltados por gigantescos aparatos militares de repressão e supressão. Defendidos por uma casta política antipatriótica, corrupta e entreguista que só pensa em seu bolso. Cheios de soberba, porque contam ao seu favor com o poderoso aparato mediático de propaganda e publicidade que representam os monopólios informativos com seus jornalistas e colunistas pagos.


A louvada retomada da economia

Quando a burguesia colombiana comemora seus recentes números do crescimento econômico, com os que quer fazer crer que os rios de leite e mel correm caudalosos por toda a nação, oculta dos colombianos que as toneladas de carvão, petróleo e gás que empurram o PIB, representam o maior saque já realizado neste solo. Poderosas empresas transnacionais aliadas com a oligarquia colombiana são os únicos beneficiários.

O aumento do investimento na agricultura não significa uma recuperação para a economia camponesa nem um alívio para o campesinato violentado, mas a expansão da agroindústria dos biocombustíveis, propriedade dos grandes monopólios. Até a tradicional classe pecuarista sofre o embate dos tratados de livre comércio que ofuscam o seu futuro. Fala-se de extrair das entranhas da terra ouro, prata, platina e urânio, entre outros, mas por grandes corporações multinacionais que exigem como pré-requisito a aniquilação da média e pequena empresa de mineração artesanal representada por centenas de milhares de famílias humildes.

O extraordinário crescimento em infra-estrutura e construção anunciado por Santos, não tem outro propósito que a criação das bases materiais para o funcionamento da expropriação dos nossos recursos e o fortalecimento dos polvos financeiros nacionais e estrangeiros. Enquanto que mais de metade da população colombiana sobrevive graças ao trabalho informal pela total ausência de oportunidades de emprego. Está demonstrado, historicamente, que as economias baseadas na mineração não geram bem-estar algum. Os postos de trabalho gerados são precários e sujeitos às mais vis formas de exploração, a única coisa que nos deixaram serão os buracos e crateras.


A desigualdade social do regime

A escandalosa aceleração da injustiça social tem sido formalmente reconhecida com o penúltimo lugar em termos de desigualdade social mundial. E isso reflete na miséria e na pobreza que invadem todos os espaços urbanos e rurais habitados, em contraste com os bairros exclusivos e fazendas pertencentes às altas esferas, ou áreas destinadas ao turismo, comercio ou sistema financeiro com as quais se pretende comparar-nos ao primeiro mundo.

A crise hospitalar generalizada, produto da privatização da saúde; as graves deficiências na educação, originadas no propósito de reduzi-la a um negócio rentável, que gere ovelhas em vez de homens e apenas as máquinas humanas insensíveis e robotizadas necessárias para aumentar os lucros dos grandes empresários; o vergonhoso déficit na habitação e condições dignas de moradia; a situação cada vez mais grave dos camponeses amedrontados pelo paramilitarismo e por hordas de soldados profissionais que ocupam ameaçadoramente extensos territórios e que não será solucionada por leis de terras concebidas para beneficiar os expropriadores e não os expropriados, constituem todas chagas que demonstram a hipocrisia das classes dominantes na Colômbia.

A cada mês, anuncia-se aos colombianos, através de alardeadas pesquisas favoráveis ao governo, que o preço da gasolina e outros combustíveis aumentarão, de forma que pagamos o litro mais caro entre os países produtores e não-produtores, apesar de extrair quase um milhão de barris de petróleo por dia do nosso solo. Por sua parte, os péssimos serviços públicos e, por acréscimo, em crise por causa do inverno e da apatia oficial, sobretaxam os usuários com altíssimas tarifas, especialmente nos itens água e energia elétrica, a ponto de causar, por obra do desespero, repetidas agressões contra as empresas prestadoras destes serviços em muitas partes do país.


A verdadeira natureza do conflito

Além de tudo é o nosso país em guerra. Esta não é mais do que o produto da decisão oficial de solução violenta, a sangue e fogo, para os graves problemas sociais e políticos que afligem vida nacional. Toda vez que o dizemos, nossos inimigos caem sobre nós com suas mídia paga, taxa-nós de querer parecer como mansas e inocentes vítimas. Não se trata de nós.

Trata-se dos 400 mil mortos enterrados para sempre na impunidade concertada pelo Frente Nacional, dos cinco milhões de desalojados e despojados de suas terras nos últimos 30 anos, dos cinco mil dirigentes, ativistas e simpatizantes da União Patriótica que serviram para destruir essa nova opção política, das mais de 200 mil vítimas do paramilitarismo fomentado pelas Forças Armadas, dos milhares e milhares de colombianos desaparecidos, torturados, encarcerados ou exilados por obra da intolerância demencial que se enraizou na Colômbia, em beneficio de um pequeno grupo de latifundiários, capitalistas, mafiosos e empresários estrangeiros.

Trata-se de todas essas vítimas do terrorismo de Estado imposto pela prática da Segurança Nacional, que ultimamente tem sido chamada de Segurança ou Prosperidade Democrática. A resistência popular e heróica luta armada guerrilheira são a expressão mais digna e elevada da rebelião e da dignidade de um povo que se recusou a aceitar docilmente o destino imposto pelos poderes dominantes.

Essa resistência e essa tem sido alvo dos maiores assaltos militares e de toda ordem por quase cinco décadas. E ainda continuam de pé, combatentes, apesar dos bilhões de dólares fornecidos pelos norteamericanos, da sua grosseira intervenção, seus recursos tecnológicos, das centenas de milhares de homens treinados para matar sem piedade, dos bombardeios devastadores, do seu fustigamento e desembarques.

Isso é o que os deixa desesperados de ódio contra nós. O que alimenta as suas mentiras e ultrajes. Que uma força de camponeses, índios, negros, estudantes e profissionais, mulheres e homens do povo mantenham suas verdades e convicções em meio ao todo poderoso domínio do grande capital transnacional e os seus regimes de morte. É por isso que se recusam a considerar a possibilidade de um diálogo sincero para a paz. Eles sabem que aqui não vão encontrar traidores dispostos a se vender, por isso insistem em suas ameaças de extermínio.


O ano que termina e o significado do que começa

Em 2011, como o previmos, foi um ano de grandes jornadas populares. Demolindo o muro do medo, da dissuasão criminoso do terrorismo de Estado, o povo se levantou contra a política neoliberal, a corrupção, a entrega da soberania, e os excessos do poder.

As vitimas do inverno, com a água no pescoço, questionaram a demagogia e a negligência do governo. Os camponeses bloquearam estradas em protesto contra as fumigações indiscriminadas e irresponsáveis que arrasaram seus cultivos. Os garimpeiros resistiram à entrega da exploração do ouro para as transnacionais. Os indígenas marcharam exigindo respeito por seu território e identidade. Organizações camponesas exigiram a restituição de terras e indenização para as vítimas da expropriação e clamaram pela paz e solução política do conflito. Caminhoneiros colocaram o governo em xeque pelo não cumprimento dos acordos para suas reivindicações. O país inteiro se indignou com a vergonhosa pilhagem dos recursos para a saúde e pelos escandalosos roubos da terceirização.

Aumentou a irritação e insatisfação pela inoperância dos serviços públicos nos setores populares, porque eles foram transformados em atividades privadas. Os cortadores de cana-de-açúcar se levantaram contra a nova escravidão que significa a chamada flexibilização trabalhista. Os petroleiros entraram em confronto com a Pacífico Rubiales que, com a cumplicidade do governo, pretende avançara na imposição da precariedade e incerteza trabalhista. O movimento estudantil, com suas portentosas marchas conseguiu frear o absurdo de Santos de privatizar a educação. Sem dúvida, o ano que termina marcou o despertar, a ascensão da luta e da mobilização do povo pelos seus direitos.

Em 2011 foram assentadas as bases da rebeldia e dignidade para enfrentar as decisivas lutas sociais e políticas de 2012, que estremecerão os alicerces do sistema apátrida que está entregando a soberania e as riquezas do país às transnacionais do capital. O TLC e as chamadas locomotivas neoliberais de desenvolvimento, não vão passar. Em pé de luta, damos as boas-vindas ao novo ano com sua percentagem de descontentamento e os anseios uma Nova Colômbia.


Os caídos na guerra

Perante o altar sagrado da pátria, oferecemos o sangue revolucionário e amoroso do comandante Alfonso Cano, caído em combate, consequentemente, na defesa dos pobres e excluídos, e pela Nova Colômbia de seus sonhos. O sacrifício heróico de milhares de guerrilheiros e líderes sociais abatidos pela intransigência atávica do regime pró-ianque, é uma força poderosa, que se soma ao anseio popular de justiça e liberdade. O povo unido, insurreto resolutamente contra o sistema que o oprime, triunfará.

Foram-se os dias de manipulação mediática e do engano. Desde as montanhas da Colômbia, um abraço para o povo que em 06 de dezembro rejeitou a marcha do ódio e da guerra, idealizada pelo Senhor Juan Manuel Santos. Sem nenhum malabarismo, poderia o presidente iludir sua responsabilidade no trágico resultado. Foi ele quem ordenou o resgate militar dos prisioneiros no departamento de Caquetá, e foi o exército que penetrou, a sangue e fogo, no acampamento, como declarou o sargento Herazo.


As conversações de paz

Nosso povo anseia pela paz; a insurgência sempre tem reivindicado a solução política do conflito. Cada vez são mais aqueles que não engolem o mentiroso conto do Palácio de Nariño; o mesmo que agora proclama que não houve massacre em Mapiripán. Por isso, a pretendida marcha contra as FARC ficou melancolicamente diluída muito antes da chuva. Juntando vontades podemos isolar os belicosos de Washington e Bogotá. Como dizia o comandante Jacobo Arenas: o destino da Colômbia não pode ser a guerra. Apoiemos todos o primeiro passo para uma solução política, representado pela troca de prisioneiros entre as partes em disputa.


A marcha que a pátria requer é a grande marcha pela paz e pela justiça social.

Em uma eventual mesa de negociação com um governo que realmente aspire à paz e não a uma rendição incondicional, sempre apresentaremos as reivindicações de justiça, soberania popular, de independência, de adoção de uma doutrina militar bolivariana, de uma nova política econômica distanciada dos desiguais postulados neoliberais, de terra para os agricultores, o respeito pelos direitos indígenas, saúde e educação gratuita, defesa do meio ambiente, revisão dos contratos injustos que favorecem as transnacionais, política internacional que privilegia a fraternidade dos povos, sentimentos que fervilham no desejo centenário dos diversos setores sociais do país.

Que continue a marcha da pátria rumo à construção de alternativas que reafirmem a soberania e a justiça. As maiorias mobilizadas não poderão ser detidas por uma minoria de traidores atravessada no caminho das mudanças políticas e sociais.

Com esta saudação de ano novo, relembrando o compromisso que assumimos com a senadora Piedad Córdoba e o prestativo grupo de mulheres que trabalham pela paz na Colômbia, informamos os nomes de três dos seis prisioneiros de guerra sob a nossa guarda a ser entregues a elas assim que se acertarem os protocolos necessários. Trata-se dos subintendentes da Polícia Nacional Jorge Trujillo Solarte e Jorge Humberto Romero Romero, e do cabo primeiro, da mesma instituição, José Libardo Forero Carrero. Em breve anunciaremos a identidade dos outros três. Esperamos que o governo nacional e a cúpula militar não voltem a repetir o ocorrido no passado 26 de novembro em Caquetá.


Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP
Montanhas da Colômbia, 27 de dezembro de 2011

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Saudações de fim de ano das montanhas da Colômbia

A quienes luchan por la vida, la justicia social y la dignidad,

A quienes no son los mas fuertes pero están colmados de razón;

A quienes con moral, dignidad e idealismo, se comprometen con las luchas populares;

A quienes construyen una opción para conducir su pueblo hacia destinos de igualdad y soberanía;

A quienes han tomado la decisión de nunca rendirse;

A quienes derriban fronteras por la unidad de los pueblos latinoamericanos;

A quienes sueñan con la Patria Grande, armoniosa y prospera;

Aquellos que con su acción encarnan él espíritu Bolivariano;

A los que asumen el deber Internacionalista de defender nuestra trinchera;

A nuestros compañeros y camaradas en cada rincón del mundo, va nuestro abrazo y nuestro deseos por un año pleno de logros y realizaciones.

FARC EP

MONTAÑAS DE COLOMBIA

Diciembre de 2011
Tomado de : http://www.farc-ep.co/

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Àqueles que lutam pela vida, a justiça social e a dignidade;

Àqueles que não são os mais fortes, mas estão cobertos de razão;

Àqueles que se comprometem com as lutas populares
com moral, dignidade e idealismo;

Àqueles que constroem uma opção para conduzir seu povo
para destinos de igualdade e de soberania;

Àqueles que tomaram a decisão de nunca renderem-se;

Àqueles que derrubam fronteiras pela unidade
dos povos latinoamericanos;

Àqueles que sonham com a Pátria Grande, harmoniosa e próspera;

Àqueles que, com sua ação, encarnam o Espírito Bolivariano;

Aos que assumem o dever internacionalista
de defender nossa trincheira;

Aos nossos companheiros e camaradas em cada canto do mundo,
vá o nosso abraço e nossos desejos
por um ano novo cheio de êxitos e realizações.

FARC - EP
Montanhas da Colômbia
Dezembro de 2011