"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

FARC-EP: Sobre o nosso caráter político



Somos um movimento de esquerda que luta pela superação do modelo econômico e político existente e por uma nação plena de dignidade e soberania.


As FARC-EP são acusadas de duas coisas. A primeira, de ser o pau que trava a roda para um verdadeiro desenvolvimento e consolidação da esquerda na Colômbia, e a segunda, de ser os artífices do paulatino giro da vida política para formas abertas de fascismo durante a última década.

As FARC-EP somos uma tranqueira que impede o avanço das tendências de esquerda na Colômbia?

A pergunta surge, ao nosso ver, de duas situações: o desconhecimento sobre a nossa história e atividade como organização revolucionária, de um lado, e pelo outro, uma obvia intenção de desligar-nos do campo das esquerdas na história do nosso país. É como se nosso surgimento e desenvolvimento obedecessem a uma sorte de geração espontânea militar única na história universal.

A realidade contrasta com o anterior. Nossa história é produto da convergência das mais diversas expressões das lutas sociais do povo colombiano. Se analisamos o caso dos nossos dois maiores timoneiros, Manuel Marulanda Vélez e Jacobo Arenas, veremos que se juntaram as lutas dos colonos camponeses liberais e comunistas da cordilheira central e o turbilhão proletário do povo santanderiano. Dois homens, duas cordilheiras, duas lutas transformadas em uma nas trincheiras de Marquetália.  

No processo de surgimento dos frentes e companhias das FARC obtêm-se muitas das tradições político-culturais do campo popular colombiano. Assim é como contamos com camaradas oriundos do movimento indígena, dos campesinato rebelde, da luta estudantil, dos afrodescendentes, mulheres rebeldes, do proletariado, dos intelectuais, artistas e do movimento cooperativo.


Vale a pena rever um pouco de historia

O assassinato de Rafael Uribe Uribe, a perseguição a tiros e a conversão em assunto de guerra do socialismo revolucionário de Maria Cano, o massacre das bananeiras, a cruzada santa decretada contra o jovem Partido Comunista por Laureano Gómez, o assassinato de Jorge Eliécer Gaitán e subsequente período denominado de “A Violência”, assim como a perseguição internacional dos partidos políticos colombianos empreendida pro Rojas Pinilla, junto das suas selvagens guerras contra Villarrica e Sumapaz, constituem acontecimentos de profunda repercussão na Colômbia, todos ocorridos antes da existência das FARC. 

A repressão contra a esquerda, o assassinato seletivo dos seus líderes e a busca do desmembramento de suas organizações tem sido uma constante de longa data na história colombiana, cuja responsabilidade recai diretamente no regime reacionário e antidemocrático. E, o mais importante, esta constante não foi interrompida com o surgimento das guerrilhas revolucionárias, incluindo obviamente as FARC-EP.

A perseguição sistemática contra a União Patriótica, Luchar e o Frente Popular, assim como a desatada contra inúmeras organizações civis, sindicais, camponesas, étnicas ou comunitárias, não pode ser examinada como processos isolados ou casualidades políticas, mas como exercício continuo da repressão antipopular e retrograda que sempre imperou na Colômbia.

Quando o povo ainda chorava, a plêiade de grandes dirigentes assassinados pelo militarismo, nos anos 80, uma Assembléia Nacional Constituinte, convocada com o estilo bombástico de quem pretende chamar a atenção pelo fato de gritar e não pelo que grita, proclamava a Carta Magna de 1991. Esta era a premissa para a imposição imperialista das políticas neoliberais, que significavam o saque aberto do patrimônio e recursos da Colômbia.

Esta Constituição não foi o momento nem o cenário para uma verdadeira construção da paz, pelo contrário, foi o carimbo perfeito para a cooptação de um importante setor do campo popular que se convertia agora em defensor da suposta legitimidade do Estado. A dispersão da esquerda não foi imposta pela insurgência, mas patrocinada pelo regime.

Eis ai outro sinal que os nossos críticos pretendem ignorar. Por que não falam da cooptação de dezenas de intelectuais e analistas, antes ultra revolucionários e incendiários, pelas instituições, a academia e os meios de comunicação? Por que iludem a atuação corrupta e reacionária de uma grande parte dos integrantes de grupos revolucionários que renunciaram à luta e se acolheram à desmobilização? O governo de Álvaro Uribe não esteve repleto de ex-revolucionários? Hoje, Santos não consulta sua política de segurança com aqueles que, há vinte anos, o consideravam um oligarca?

Este tipo de acontecimento não pode ser visto como uma simples sucessão de coincidências, vocações tardias ou refluxos ideológicos. Trata-se de outra estratégia chave do funcionamento do Estado contra a unidade das esquerdas colombianas. A infiltração, a delação, a perfídia e o engano têm sido tretas permanentes que fizeram florescer ciclicamente o oportunismo e a divisão da esquerda. O atual debate permite elucidar novos elementos nesta longa história de traição.

É necessário ressaltar que as FARC-EP têm participado ativamente dentro do campo das esquerdas colombianas desde a sua fundação.

Com as comunidades camponesas de Marquetália, El Davis e Riochiquito, de maioria liberal, somente a esquerda colombiana e mundial se manifestaram solidárias. Os partidos tradicionais do Frente Nacional incitaram a desocupação, o despojo e a sevicia contra alguns lavradores e indígenas que se negavam a entregar anos de árdua colonização. Esse mérito marcou nosso rumo na luta pela paz, a democracia e o socialismo. O camarada Jacobo enfatizava em Riochiquito, há mais de quarenta anos, que a solução dos problemas das massas camponesas somente podia ocorrer a partir do triunfo de um frente político, que incluísse todas as esquerdas e os verdadeiros democratas e patriotas do nosso país.

Na União Patriótica, na Coordenadoria Guerrilheira Simón Bolivar e muitos outros espaços de convergência e unidade temos manifestado nosso caráter definido de combatentes pela liberdade e pela construção de uma Nova Colômbia.

Somos um movimento de esquerda que luta pela superação do modelo econômico e político existente e por uma nação plena de dignidade e soberania. Sabemos que estes objetivos não derivam de uma ação solitária da nossa parte. Por isso estamos abertos ao dialogo com todas as esquerdas.

Durante todos estes anos temos dialogado com diversos representantes da nossa esquerda. Maoistas, marxistas-leninistas, socialistas, trotskistas, socialdemocratas, indigenistas e muitas outras vertentes, em espírito de solidariedade, respeito e franca critica. Esta tradição, que sem duvida, tem tido pausas lamentáveis dentro do contexto político pátrio, não pode ser abandonada e seremos reiterativos nela.

Não se pode achacar, de boa fé, a responsabilidade plena sobre o desenvolvimento atual da esquerda colombiana. Certamente teremos uma carga determinada, mas a magnitude desta teria de ser elucidada em um debate franco e coletivo de todas as organizações que constituem o campo popular e das esquerdas do nosso país.

Ao nosso ver, os que mantêm a existência de uma estendida e generalizada crise da esquerda colombiana, são os mesmos que a concebem simplesmente como uma representação parlamentar, assumindo que o êxito ou fracasso está no número de cadeiras e na popularidade das pesquisas. A esquerda real não se circunscreve unicamente ao cenário eleitoral, mas tem um componente vivo, móbil e mutável no agitado universo dos movimentos sociais.

É ai onde qualquer observador acostumado encontrará que na Colômbia se vivencia um florescimento de ricas e novas experiências organizativas dentro do campo popular, que se manifestam em heterogêneas manifestações de movimentos, convergências, expressões e plataformas que saudamos com a alegria de quem encontra novos amigos e companheiros para sua luta diária. As FARC-EP não vêm neste crescente e novo turbilhão popular um inimigo ou um contrário.

 
As FARC-EP são coadjuvantes da extrema direita na Colômbia?

Quiséramos partir de uma afirmação categórica. Quem sustenta esta teoria são, fundamentalmente, os porta-vozes da socialdemocracia e o liberalismo.

Assim, cada vez que atuamos militarmente, em ações legitimas próprias da guerra de guerrilhas, pululam críticos e analistas para nos apontar como sustentadores da pretendida validade de governos de mão de ferro e, como tranqueiras no caminho de uma suposta esquerda, descafeínada e a vácuo, que resulta não ser sequer oposição.

Trata-se de todas as luzes do roteiro das teorias da conspiração tão em voga nestes dias. Um grupo de revolucionários que combate contra o Estabelecimento, sua força militar e sue paramilitarismo, com o secreto fim de favorecer politicamente aos seus misteriosos e clandestinos amigos fascistas. Um livreto repleto de absurdos e contradições que somente pode caber na cabeça daqueles que pretendem que se continue com a falácia de nós rotularem como delinquentes sem princípios, que no passado tivemos origem revolucionária, mas que agora não somos mais do que vulgares narcotraficantes.

Tal hipótese se contradiz completamente com a realidade. Milhares de combatentes farianos lutam por toda a geografia nacional contra o fascismo e imperialismo, expondo suas vidas e entregando tudo pela revolução. A pergunta é: serão eles coadjuvantes, agentes conscientes ou colaboradores telepáticos do projeto da extrema direita?

Façamos um exercício de memória político-militar. Em 1999, surgiu o Bloco Calima realizando massacres, execuções, torturas e violações na região centro-oriental do Valle del Cauca. Suas ações criminosas, abertas e escandalosas, não foram em momento algum repelidos pelo Exército ou Polícia, nem muito menos rechaçados publicamente pelos poderes locais e regionais. Foram os homens e mulheres do Bloco Móvel Arturo Ruiz, o Comando Conjunto do Ocidente e integrantes do então existente Movimento Jaime Bateman Cayón, que enfrentaram eficazmente as tropas fascistas, levando-as à sua completa derrota e ao fracasso do seu projeto nessa parte do país.

Terá sentido afirmar que isto permitiu o fortalecimento de tendências de direita na região? Que levou à consolidação de grupos fascistas em Valle del Cauca?

Está claro que, no andaime discursivo montado pelos grandes meios contra as FAR-EP, existem duas práticas de uso intenso:

A primeira, de uso corrente e orientada ao público popular, é o discurso do narcoterrorismo que não é mais do que a readaptação do clássico terror vermelho da Guerra Fria, que bebe nos mais retrógrados mitos do anticomunismo.

A segunda, segundo a qual a guerrilha teria, nesta versão, origens medianamente justos, ofuscados infelizmente pelo desenvolvimento ulterior, a adoção do narcotráfico como suposta forma de vida e a conversão numa difusa máquina de guerra, ao mesmo tempo petrificada e míope politicamente, assim como macabra no plano militar. Dentro desta trama os guerrilheiros seriamos simples fichas dos truculentos comandantes que, além disso, buscam contribuir com suas ações ao fortalecimento do seu inimigo.

Que projetos passam pela mente daqueles que defendem semelhante hipótese?
 


Montanhas da Colômbia, agosto de 2012
https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2891208492651262968-2349150470738846148?l=farccom.blogspot.com

(*) Pablo Catatumbo é integrante do Secretariado das FARC-EP

Fonte:
http://farccom.blogspot.com.es/2012/08/pablo-catatumbo-farc-ep-acerca-de.html#!/2012/08/pablo-catatumbo-farc-ep-acerca-de.html

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Homenagem a Piedad Córdoba e ratificação do apoio a Chávez na Argentina

A ex-senadora colombiana Piedad Córdoba foi calorosamente ovacionada pelo grande público que encheu as instalações do teatro do Hotel Bauen, no centro de Buenos Aires. Duplamente homenageada por sua luta consequente em defesa dos direitos humanos e por não baixar a cabeça diante da prepotência do atual governo colombiano que não para de criminalizá-la, a integrante do partido Marcha Patriótica recebeu por parte da Federação Universitária de Buenos Aires (FUBA), a distinção "Deodoro Roca", que foi entregue pelo presidente da dita organização estudantil, Igal Kejsefman.

O ato foi coorganizado pela FUBA, a Marcha Patriótica e o periódico Resumen Latinoamericano.
Tanto o titular da FUBA, como o politólogo Atilio Borón e o jornalista Carlos Aznárez, destacaram a valentia e o compromisso da ex-senadora, razões fundamentais pelas quais seus inimigos a perseguem e tentam processá-la, além das numerosas vezes em que foi ameaçada de morte.

Também subiram ao palco e se abraçaram com Piedad as Madres de Plaza de Mayo – Línea Fundadora, Nora Cortiñas e Mirta Baravalle, o que despertou um grande aplauso do público presente.

Após a leitura do manifesto em solidariedade à dirigente colombiana, assinado por inúmeras personalidades argentinas, Piedad Córdoba agradeceu todo o apoio recebido.

Destacou a importante luta que está travando com seus companheiros e companheiras da Marcha Patriótica para gerar um cenário de esperança e luta para o povo colombiano. Detalhou varias das políticas repressivas encaradas pelo atual governo, entre as quais a campanha de mentiras sobre o financiamento do novo partido pela guerrilha ou a demonização realizada nos últimos anos sobre sua própria figura, na tentativa de afastá-la da atuação política.

Pediu a todos os colombianos e colombianas que estejam fora de seu país que cerrem fileiras junto à Marcha Patriótica, somando-se às campanhas de denúncia contra os embates repressivos sofridos pelos “que lutam contra o autoritarismo dentro da Colômbia”. Também assinalou que está disposta a recorrer à Unasul (mediante uma carta), solicitando que esta aliança de países latino-americanos escute as razões dos componentes da Marcha Patriótica e não permaneçam apenas com uma versão sobre o que ocorre na Colômbia.

Por último, disse que “temos a certeza de que vamos vencer” e reiterou que “não nos assustam com as ameaças e nem com as intimidações. Continuaremos caminhando e lutando até conseguirmos a liberdade com justiça social para nosso país”.

Na segunda parte do ato de confraternidade latino-americana e dentro da convocatória realizada por Cátedras 
Bolivarianas do jornal Resumen Latinoamericano, foi possível escutar Atilio Borón  e o conselheiro político da Embaixada da República Bolivariana da Venezuela, Juan E. Romero. Depois de ser apresentado por Aznárez, que reiterou a necessidade de multiplicar as manifestações de adesão ao processo revolucionário, justamente a menos de dois meses da estratégica eleição de 7 de outubro, Borón fez uma pormenorizada descrição das manobras realizadas pelo império para atacar os distintos cenários emancipacionistas do continente, além de aprofundar seus embates bélicos no mundo árabe e na África. Também destacou as excelentes possibilidades econômicas possuídas pelas Venezuela, apesar da crise capitalista, e o que isso provoca naqueles que tentam desestabilizá-la como país.

Finalmente, o diplomata venezuelano Romero explicou as diferentes manobras da burguesia para gerar uma situação desestabilizadora em seu país, que vão “desde o não reconhecimento do triunfo eleitoral do dia 7, com a alegação de fraudes, até as campanhas acusatórias contra a liderança de Hugo Chávez”. Assim, argumentou que se estão dadas todas as condições para a vitória (inclusive é o que apresentam as pesquisas da própria oposição) “não é preciso cair em triunfalismos, mas sim reforçar ainda mais a militância para assegurar a vitória”.

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Emir Sader: O asilo de Assange; sinais dos tempos



Fonte: WWW.vermelho.org.br

A crise diplomática gerada pela aceitação do asilo de Julian Assange pelo Equador reflete as novas condições do mundo contemporâneo. Em primeiro lugar, porque as mídias alternativas conseguiram grande vitória sobre o segredo diplomático das grandes potências, logrando colocar à disposição da opinião pública mundial mais de 5 mil documentos até ali considerados secretos.

Por Emir Sader*, em seu blog


Em segundo lugar, porque ao tentar fazer recair sobre o principal responsável por essa divulgação, Julian Assange, o peso da repressão e da censura, se viram às voltas com a solidariedade do governo do Equador, dos governos latino-americanos e de várias outras forças da própria Europa. Não puderam evitar, apesar das bravatas do governo britânico, o asilo de Assange na Embaixada do Equador e ainda tem que sofrer a campanha de protestos pela sua atitude e a favor do salvo-conduto que Assange necessita para seguir para o Equador.

Em terceiro lugar, um país progressista latinoamericano não apenas peitou o governo britânico, como aparece como território de abrigo de alguém que passou a representar a liberdade de expressão no mundo, enquanto que a Grã Bretanha aparece como seu perseguidor.

Em quarto lugar, a Grã Bretanha, com a atitude do seu governo, já é e continuará sendo objeto de campanhas no seu próprio país e em vários outros países do mundo, pela liberdade de Assange e contra a atitude do governo britânico.

Ao tomar a atitude que toma, o governo da Grã Bretanha faz uma aposta muito perigosa: a de ter que suportar, por tanto tempo quanto pretenda retardar o salvo-conduto para Assange, campanhas mundiais contra sua posição e a favor de Assange.

Se juridicamente o governo britânico pode retardar por um tempo indefinido a saída de Assange da embaixada equatoriano na direção do país que lhe concedeu asilo, a questão será decidida pelo grau de desgaste que a Grã Bretanha está disposta a sofrer por essas campanhas. Ela pode sustá-las concedendo de imediato o salvo-conduto a Assange ou ter que finalmente concedê-lo, quando esse desgaste já tenha se dado por um tempo mais ou menos longo.

Seja qual for o desfecho da situação, a Grã Bretanha – e, com ela, os EUA - saem perdedores, enquanto o Equador, a América Latina e Assange, sairão vencedores. Porque representam a liberdade de expressão, as formas alternativas de mídia, a ruptura de mecanismos de de diplomacia secreta.

Sinais de que os tempos mudaram no mundo. E, neste caso, para melhor.


* Emir Sader é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj)




sábado, 18 de agosto de 2012

O asilo a Assange - O Equador dá lição de dignidade e firmeza

O governo do Equador deu ao mundo uma lição de firmeza e dignidade ao conceder «asilo diplomático» ao jornalista australiano Julian Assange, fundador da Wikileaks, refugiado na sua embaixada em Londres desde o dia 19 de Junho.

A nota do Ministerio das Relações Exteriores concedendo o asilo foi emitida horas depois de ter recebido um «memorial» do governo britânico informando que este concluíra ter o direito de invadir pela força as instalações da embaixada equatoriana se Assange não lhe fosse entregue a fim de ser extraditado para a Suécia.

Minutos depois, um forte dispositivo policial cercou o edifício da embaixada.
A manobra de chantagem produziu um efeito oposto ao visado pelo Foreign Office. O governo de Rafael Correa já deu provas que não se submete a ameaças do imperialismo.
 
A iniciativa britânica foi obviamente recebida com espanto a nível mundial. Não há precedentes na história das relações diplomáticas entre estados soberanos de uma violação da total imunidade de que gozam as embaixadas comparável à sugerida na nota do governo de Sua Majestade.
Nem Hitler durante a guerra mundial ousou invadir embaixadas de países que haviam acolhido refugiados judeus. Nem Pinochet no Chile forçou a entrada em qualquer embaixada para retirar gente perseguida pelo exército.
 
O único caso conhecido de desrespeito frontal da inviolabilidade de sedes de missões diplomáticas, garantida pela Convenção de Viena de 1949 e pela Convenção de Genebra de 1996 (e pela Carta da ONU, Declaração Universal dos Direitos do Homem, etc.) ocorreu no Afeganistão em 1969 quando uma horda talibã invadiu a embaixada da ONU em Kabul e retirou dali o presidente Muhamad Najibullah para o enforcar numa praça da cidade.

A ameaça britânica é esclarecedora do nível ético dos actuais responsáveis pela política exterior do Reino Unido.
 
A reacção do governo de Cameron à concessão do asilo a Julian Assange veio aliás confirmar o servilismo de Londres, empenhado em atender pressões dos EUA.

O ministro dos Estrangeiros, William Haggue, apressou-se a declarar que a decisão equatoriana «não altera nada». O Reino Unido – disse – não reconhece o direito de asilo. Afirmou que não será entregue um salvo-conduto a Assange, que «será extraditado para a Suécia».

O processo contra o jornalista australiano tem aspectos folhetinescos. Foi acusado pela justiça de Estocolmo de ter mantido relações sexuais sem protecção com uma rapariga sueca.
Isso aconteceu quando corriam pelo mundo, entregues pela Wikileaks a influentes jornais, milhares de documentos trocados entre as embaixadas dos EUA s e o Departamento de Estado, reveladores da existência de uma rede de espionagem secreta altamente comprometedora para o imperialismo norte-americano.

A Nota equatoriana sobre a concessão do asilo a Assange é uma peça diplomática solidamente fundamentada no direito internacional. A exposição de motivos que justifica a decisão tomada pelo Presidente sublinha os vícios do processo jurídico iniciado na Suécia contra Assange e invoca a forte possibilidade de Assange ser extraditado para os EUA onde «não teria um julgamento justo e poderia ser julgado por tribunais especiais ou militares», não sendo de excluir que o condenassem «a prisão perpétua ou na pena capital».

É imprevisível no momento o desfecho da situação criada pela recusa britânica de respeitar a decisão soberana do governo do Equador.
Julian Assange vai provavelmente permanecer muito tempo na embaixada onde se encontra.
 
Mas enquanto o governo de Cameron projecta nestes dias no mundo uma imagem desprestigiante ao tripudiar sobre princípios do Direito internacional estabelecidos por Convenções por ele assinadas, o Presidente Rafael Correa torna-se credor da admiração da humanidade democrática e progressista.

OS EDITORES DE O DIÁRIOINFO

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

*AS FARC RESISTEM E LUTAM CONTRA UNA OLIGARQUIA NEOFASCISTA*

Por Miguel Urbano Rodrigues

 Influentes *media norte-americanos* manifestaram nas ultimas semanas
inquietação com a situação político-económica e militar na Colombia, o
aliado preferencial dos EUA na América Latina, apresentado habitualmente
como modelo democrático para o Hemisfério.

Para essa súbita preocupação contribuíram noticias sobre divergências agora inocultáveis entre o presidente Juan Manuel Santos e o seu antecessor Álvaro Uribe, a denuncia publica de envolvimento de generais Santoyo e César Pinzon com a rede narco paramilitar, o agravamento da crise económica, os efeitos dos Tratados de Livre Comercio impostos pelos EUA e pela União Europeia, o avolumar do descontentamento popular e, sobretudo, uma serie de derrotas infligidas pelas FARC EP a forças do Exercito e da Policia Nacional.

Julho foi um mês desastroso para a oligarquia colombiana e a engrenagem de comando das forças armadas mais numerosas e bem equipadas da América Latina (quase 400 mil homens)

O discurso pronunciado a 22 de Julho por Juan Manuel Santos foi uma peça
oratória que deixou transparecer a decomposição do estado oligárquico. O
sucessor de Uribe já não faia agora do país paradisíaco que não tinha sido
atingido pela crise mundial. As suas promessas populistas são a cada semana desmentidas pela desindustrialização, os elevados índices do desemprego e da violência urbana, o aumento da repressão.

Iniciativas de Santos, como a tímida reforma tributária, a «lei de
vítimas», a prisão de alguns narcotraficantes e o esforço para normalizar
as relações com a Venezuela, desagradam a Álvaro Uribe e à máfia narco
paramilitar. Mas, no fundamental, o actual presidente apresenta-se como
continuador da chamada politica de «segurança democrática» -o eufemismo que serve para designar a brutal militarização do país. O sistema mediático,
controlado pelo Poder não consegue, contudo, ocultar que as coisas estão a
correr muito mal para a oligarquia. Até, Facho Santos, um primo do
presidente, reconheceu num artigo (in El Pais, de Cali, 17.07.20121) que a
situação no departamento do Cauca se assiste uma «ressurreição das FARC».

Alarmado, teme já a atomização da nação.

Na realidade,  as FARC-EP estiveram sempre activas no Cauca. Mas o Governo enfrenta agora ali uma situação inédita. As comunidades indígenas da região, numerosas, expulsaram unidades militares e destacamentos da polícia de alguns *pueblos *e a adesão de jovens camponeses e índios à organização revolucionária é indesmentível. Obviamente , sem base social as FARC não estariam fortemente implantadas no Departamento.

O embaraço oficial é compreensível. Os êxitos das FARC- EP no combate ao
aparelho militar-policial ridicularizam o discurso triunfalista de Santos.
Agora o general Miguel Perez, ex-comandante chefe no Cauca, já declara numa entrevista a um jornal de Cali, que o plano estratégico para a Região é «a longo prazo». É útil esclarecer que esse plano, intitulado «Espada de Honor de la Task Force Apolo», foi financiado pelos EUA.



DAS CALUNIAS À REALIDADE



A grande Marcha Patriótica, promovida pelo Movimento Colombiano para a Paz com o apoio de dezenas de organizações democráticas, demonstrou o repúdio do povo colombiano por um sistema de poder que, sob uma fachada
institucional democrática, actua como neofascista.

 Juan Manuel Santos orgulha-se do papel que desempenhou -com a cumplicidade da CIA, da Mossad e do Pentágono – na montagem da operação genocida que foi o bombardeamento do acampamento no Equador do comandante Raul Reyes. Crimes como os assassinios dos comandantes Jorge Briceño y Alfonso Cano são apresentados em Bogotá como acções «patrióticas», assim como o sequestro, em Quito, do comandante Simón Trinidad (depois extraditado para os EUA) e em Caracas do comandante Rodrigo Granda.

O desrespeito pela soberania de estados vizinhos é prática rotineira do
governo de Bogotá. Sequestros e extradições sumárias têm contado por vezes
com a colaboração da Policia e do poder judicial da Venezuela.

Particularmente chocante foi a prisão em Caracas do jornalista Joaquin
Perez Becerra, director da Agencia Anncol, e a sua imediata entrega ao
governo colombiano que o mantem ate hoje encarcerado e ameaçado de
extradição para os EUA.

Uma campanha de calúnias contra o jornalista Dick Emanuelsson, actual
subdirector da mesma agência, precedeu ameaças concretas a esse prestigiado intelectual sueco, acusado de solidariedade com «o terrorismo».

A prisão ilegal na Venezuela, a pedido de Juan Manuel Santos, do
cantor-guerrilheiro Julian Conrado suscitou a nível internacional, como a
de Perez Becerra, uma vaga de protestos, mas foi aplaudida com entusiasmo
pela oligarquia colombiana.

A Marcha Patriótica não significou somente a condenação popular de um
regime neofascista pelas multidões que nela participaram. Ela veio
demonstrar a necessidade de novas formas de luta contra a engrenagem
politica e económica que domina o país ´

As FARC-EP expressaram bem essa realidade ao defenderem a criação de uma ampla frente de resistência capaz de unificar na luta as forças que
combatem o regime oligárquico, e mobilizar os trabalhadores contra o
sistema em grandes acções de massas.

A lenda negra, forjada pelo imperialismo, que difunde da guerrilha a imagem
de uma organização terrorista ligada ao narcotráfico, tem dificultado muito
a concretização desse objectivo.

AS FARC são acusadas de radicalismo e o governo repete exaustivamente que o seu programa é maximalista e utópico.

É falso.

AS FARC-EP defendem a unidade na luta do movimento operário, camponês, de sindicatos, de indígenas, negros, desempregados, mineiros, estudantes,
pequenos e médios empresários, comerciantes, intelectuais, professores,
partidos e movimentos de esquerda.

O seu programa não é radical.

Que pretendem?

No seu comunicado de 22 de Julho pp. o secretariado do Estado-maior Central das FARC-EP sintetiza num parágrafo esse programa:

«Um governo democrático, amplo, pluralista poderá, finalmente, cortar as
amarras que atam os colombianos à horrível noite da violência. Possibilitar
acordos de paz, construir umas forças armadas que defendam o interesses de todos os cidadãos e não os da casta antipatriótica, materializar uma
existência democrática na qual a voz das maiorias seja a que determine o
caminho a seguir, encaminhar o país para um desenvolvimento económico
baseado na produção e no trabalho de todos os colombianos, zelar pela
saude, a educação, o emprego e o bem estar geral, sem favoritismos,
entregar a terra aquem a queira e possa trabalhar, apoiados na sua
actividade e crescimento, usar os recursos naturais para o bem comum,
resgatar as nossas culturas e encontrar solução justa para os mais graves
problemas sociais».

Por que recorreram as FARC-EP à luta armada, conscientes de que essa opção somente é  hoje possível em condições históricas, geográficas e sociais
excepcionais?

O secretariado do seu Estado-maior responde:

«Queríamos, sonhávamos com uma mudança pela via pacífica e democrática, mas todas as portas nos foram fechadas violentamente uma e outra vez desde o governo de Guillermo Leon Valencia. Hoje podemos garantir que

Um dialogo distante e nas costas do país, como pretende Santos, solo
contribuiria para intensificar mais a confrontação. Permanecemos atentos ao
avanço da rebeldia popular e à organização dos debaixo.Com eles estaremos
em todos os cenários a que os conduza a sua acção pela paz e a mudança.
Seja qual for o rumo que o destino ofereça ao esforço para democratizar a
Colombia, hoje imensamente renovado e latente, as FARC-EP estarão sempre ao lado do nosso povo. Venceremos com ele, juramos».

A linguagem expressa bem o espírito de uma guerrilha-o partido que se
declara marxista-leninista, na fidelidade ao legado de heróis como Manuel
Marulanda, Jacobo Arenas, Raul Reyes, Jorge Briceño e Alfonso Cano. Uma
guerrilha que se bate há meio século contra a oligarquia mais reaccionária
da América Latina, aliada do imperialismo.



Vila Nova de Gaia, 9 de Agosto de 2012

sábado, 11 de agosto de 2012

Entrevista com Carlos A. Lozano Guillén, diretor de VOZ e um dos principais dirigentes do Partido Comunista Colombiano


Carlos Lozano é um polêmico dirigente do Partido Comunista Colombiano. Querido em seu partido até o ponto em que logrou a primeira votação na eleição do Comitê Central. Odiado por seus inimigos que diariamente o insultam e ameaçam de morte, apreciado em círculos políticos e sociais de todos os partidos e classes, onde reconhecem seus dotes intelectuais e de obstinado militante da paz. É um bom falador e sabe ouvir.
Quisemos entrevistá-lo sobre o Congresso do Partido Comunista Colombiano, realizado entre 17 e 22 de julho do presente ano, porém resultou numa longa conversação porque se atravessaram outros temas da atualidade. Não pudemos evitá-lo.
Pergunta [P]. Se diz que os debates internos no Partido Comunista Colombiano são intensos, há rumores de divisões internas e de frações que ameaçam a unidade. Como concluiu o XXI Congresso Nacional? Quais são as principais decisões?
A clássica obra de Lênin sobre a construção do Partido de Novo Tipo.
Resposta [R]. Desde logo que no Partido Comunista Colombiano, com a mais ampla participação de dirigentes e militantes, há debates internos, profundamente democráticos. Nem mais faltava que primasse o reino da unanimidade. O unanimismo é antidemocrático, restringe a livre expressão e a liberdade de opiniões. A política dos comunistas se constrói coletivamente e sua formulação é a síntese do debate interno. Ainda que tampouco o partido é um clube de discussões. Se adotam as decisões por maioria e regem para todo o partido. O Partido Comunista Colombiano tem um só Programa, um só estatuto, uma só linha política e uma só direção nacional. Todos os seus dirigentes e militantes estão na obrigação de acatá-los, depois do processo democrático de discussão e aprovação dos documentos.

P. É o que vocês chamam de “centralismo democrático”?
R. Sim, senhor. É um princípio leninista de organização. O fundamento ideológico do Partido Comunista Colombiano é o marxismo-leninismo, entendido como uma teoria de aplicação concreta a realidades concretas. Sem critérios dogmáticos de nenhuma índole. Na hora da verdade, entendemos o marxismo-leninismo como teoria inesgotável, em permanente construção. A ideologia revolucionária é inesgotável, precisamente porque é dialética.
P. Bem, porém, conte-me, quais foram as conclusões principais do Congresso?
R. Se adotou o novo programa do Partido Comunista Colombiano, é a linha estratégica, vigente para a realidade colombiana em função de nossa análise. O Programa faz a radiografia política, econômica e social colombiana; a composição social e as características do bloco de poder dominante; o caráter do regime, dependente do imperialismo estadunidense e em função dos interesses do grande capital, em particular do capital financeiro, da burguesia industrial e do poder latifundiário no campo. Sobre essa base se formulam as mudanças e reformas que propomos, que tem o objetivo fundamental da conquista do socialismo, democrático e humanista por excelência. É a antessala do comunismo, que varrerá para sempre a exploração capitalista.
Foram aprovadas as reformas estatutárias para adequar a organização às mudanças reais institucionais, administrativas, políticas, sociais e econômicas do país, ainda que também para fortalecer a militância política e o vínculo do partido com as massas. A ideia é de um partido metido na luta popular e com absoluta vocação de poder.
Também foi aprovada a linha política. Contém as orientações para a ação imediata, a tática, que se sustenta nas seguintes bases: Confrontação ao modelo neoliberal de acumulação do capital, baseado na chamada economia de livre mercado capitalista; resistência popular ao desenfreio dominante de fazer recair o peso da crise nacional sobre os trabalhadores e o povo; ação de massas e de mobilização popular com um programa mínimo, que não exclui a preparação e realização de uma paralisação cívica nacional em curto tempo; a luta pela paz, pela solução política e democrática do conflito colombiano, isto é, mobilização pela paz com democracia e justiça social; e a unidade da esquerda, a mais ampla unidade, no entendido que só uma frente ampla, popular, social, democrática e de esquerda é a única via possível para forjar uma alternativa ao poder dominante burguês e oligárquico. É a proposta de um novo país, sobre as bases do pluralismo, da participação democrática e a maior equidade social. Um novo “contrato social” sobre a base de uma melhor e justa ordem política, social e econômica.
Também foi elegido o Comitê Central, a Comissão de Quadros e garantias e a Comissão Revisora de Contas. Tudo fizemos sem dor, sem brigas internas, sem debates ácidos e sem grupos ou frações. Foram debates intensos, democráticos, sem limites, porém criativos e construtivos, de tal sorte que todos coincidimos em que foi um grande Congresso, alguns o qualificam de histórico. Foi um Congresso ao calor da luta popular.
P. Polo Democrático Alternativo ou Marcha Patriótica. Onde, em definitivo, vai ficar o Partido Comunista Colombiano?
R. Esse não é nosso dilema. A unidade que projetamos é muito mais ampla, mais além do Polo e da Marcha, porque não temos inimigos à esquerda. A chave para avançar para o poder democrático e popular está na unidade. Estamos no Polo porque cremos que é um espaço válido de convergência de forças políticas avançadas, somos conscientes de sua crise, porém também da possibilidade de resolvê-la se se conseguem acordos sobre a base da autocrítica que reclama o mestre Gaviria. O Polo Democrático Alternativo tem vigência, porém isso vai depender de sua capacidade de traçar uma política clara e definida de esquerda, de mudanças democráticas e de estreita relação com as massas populares. Ali é onde está a chave das alianças necessárias. Um Polo nas nuvens, crê que as alianças e os acordos se pactuam por cima, até com “empresários democráticos” e por aí terminamos na “unidade nacional” ou em outro conto. O Polo deve abandonar a ideia de que é uma máquina de eleições e um instrumento de respaldos eleitorais. As eleições são importantes com tudo e viciadas que são. Estão longe de ser expressão da democracia. Porém, são importantes e permitem estar no espaço da representação parlamentar e cargos de eleição popular. Porém, são insuficientes se não existe a relação com a luta e os anseios do povo colombiano. Não basta ir a uma marcha ou a um protesto, há que estar ao lado das massas, acompanhando-as e sofrendo com elas pelas razões que elas sofrem.  
A Marcha Patriótica é um projeto social e político que não deve transcender tanto a certos dirigentes do Polo. A base social são as organizações populares, ainda que tenha a presença de partidos como a Esquerda Liberal de Piedad Córdoba e o Partido Comunista Colombiano. O mais importante nela é a presença de cerca de 2.000 organizações de base, nacionais e regionais, de todos os tamanhos. É o que garante sua estreita relação com as lutas cotidianas do campo e da cidade. Seu chamado, como o fez também a Conferência Ideológica do Polo Democrático Alternativo, reunida há poucos dias, é à mais ampla unidade da esquerda e de setores democráticos e progressistas. Então, como você vê, não há pontos contraditórios, se complementam. Assim que não vemos problemas em permanecer no Polo e em ajudar no projeto social e político da Marcha, propugnando por aproximações com outros setores como o Congresso dos Povos e a Minga. O Polo deve ver a estes lados também, porque, se se impõe a ideia de acercar do centro, terminaria deformando-se, renunciando à sua condição de força de esquerda. Foi a diferença com Lucho Garzón e com Gustavo Petro, e veja onde terminaram acomodando-se. Um na “unidade nacional” e o outro bastante próximo dela.
P. El Moir acaba de enviar ao Partido Comunista uma carta em que o convida a retirar-se do Polo; o mesmo chamamento, dizem, lhe fez o ex-candidato presidencial Carlos Gaviria Díaz na Conferência Ideológica do PDA. Que responde o PC?
R. Bem, até onde sei, a carta nunca a recebemos. Fizeram-na pública e a comentou um noticiário. É uma falta de cortesia que em política também existe. Porém, ademais, haveria que dizer quem deu o direito ao Moir de decidir quem pode ou não pertencer ao Polo Democrático Alternativo. A velha militância maoísta lhes deixou o costume de atuar como comissários ou guardas vermelhos das organizações unitárias e de convergência. É uma falta de respeito. Quem não se sinta cômodo com um partido ou aliado no PDA, pois, deve abandoná-lo, porque quem ingressou de maneira voluntária, da mesma forma decide sua permanência. Até onde conheço, o mestre Carlos Gaviria Díaz não fez tal manifestação na Conferência Ideológica, ainda que  tenha dado opiniões, às quais tem direito, certamente, que não compartilhamos, ao qual também temos direito. Essa situação não modifica para nada nosso respeito, apreço e simpatia pelo mestre Gaviria.
P. Como quais são as diferenças?
R. O mestre sugere que Marcha Patriótica não tem explicado bem sua relação ou não com as FARC; e acorre ao velho e anacrônico argumento da combinação das formas de luta, sempre argumentado pela ultra direita e pelo militarismo para justificar a eliminação da esquerda e da União Patriótica. Uma e mil vezes os porta-vozes de Marcha Patriótica declararam que não existem vínculos com as FARC, sua causa é a paz, a solução política e democrática do conflito.
Marcha não advoga pela guerra, é um movimento social e político civil e de atuação pública e legal. Que mais querem? Que mais se deve dizer para satisfazer aos obcecados? O demais é repetir as acusações fraudulentas e perigosas dos mandos militares e da ultra direita criminosa.
Mais que discutir sobre a combinação das formas de luta, há que abrir o debate do novo Estado que se deve construir, sobre a base de eliminar a violência na relação entre governantes e governados. Aqui a violência foi inventada pelo Estado burguês-latifundiário, porque a classe dominante se acostumou a governar por meios repressivos, autoritários e violentos. Em Colômbia não existe um Estado democrático, mas sim totalitário, que se apoia em métodos violentos para aniquilar ao opositor. O Polo tem sido vítima disso. Perseguição e linchamento político com enorme respaldo midiático para acabá-lo. Precisamente por isso o tema em debate não é a combinação das formas de luta, mas sim a necessidade da paz, mediante o diálogo e a construção de democracia e justiça social.   
  
P. Tem futuro a esquerda?

R. Certamente. Porém, uma esquerda ávida de mudanças; uma esquerda comprometida com a transformação revolucionária da sociedade. Não uma esquerda light, adocicada, em conluios com o poder dominante e com ilusões de alianças com “burguesias nacionais” que não existem. Uma esquerda com seu próprio projeto democrático e social. Sempre haverá espaço para a esquerda. Se equivocaram os ideólogos da direita e da pseudoesquerda que, após a derrocada do Muro de Berlim, declararam a morte do socialismo e até da história. Norberto Bobbio os desmascarou e demonstrou que a dicotomia esquerda-direita é vigente e que as ideologias não desaparecem em meio ao fragor da luta ideológica, dos retrocessos e dos avanços.
P. Uribe e Santos estão enfrentados numa aguda confrontação. Algumas personalidades, incluindo de esquerda, dizem que vão mediar para que resolvam suas diferenças. Que pensa disso?
R. Mediar, para quê? São contradições na classe dominante, em duas facções do bloco hegemônico, uma que representa a burguesia tradicional, de matiz aristocrático, e outra decomposta, mafiosa, que recorre a tudo o que possa para destruir o adversário. Santos a teme e, por isso, não a enfrenta com decisão. São, na realidade, diferenças de forma, que podem agudizar-se ainda mais e tornar-se perigosas. A esquerda nada tem que fazer ali, não é seu tema, deve concentrar-se no projeto alternativo e unitário.
Preparar-se para ser opção de poder. Veja você a concepção traiçoeira do vice-presidente, que consiste em sentar Santos e Uribe numa mesa, para que acordem a Constituinte uribista que não busca outra coisa senão uma nova reeleição de Uribe Vélez. Quem disse que as discrepâncias de Santos e Uribe significam o principal problema do país? Por favor: há que ser sérios e responsáveis desde as funções do Estado.
O primeiro representa uma burguesia “decomposta e mafiosa” e o outro a mesma burguesia, porém a corrente “tradicional, de matiz aristocrático”.
P. Falemos de paz. Você vê possibilidades de um futuro diálogo do Governo de Santos e as FARC?
R. Não há outra saída ao conflito atual que a via política, do diálogo, pacífica e democrática. Porém, uma paz com democracia e justiça social. A paz está estreitamente ligada ao fortalecimento da democracia e da justiça social. O conflito colombiano tem umas causas e, enquanto não se resolvam, será difícil a paz. A resistência do estabelecimento a modificar as causas do conflito é a razão para que este permaneça: A paz gratuita não ocorrerá, não o creio, porque seria uma espécie de pax romana. Se o Governo crê que o diálogo é para negociar a rendição da insurgência, perderá tempo. Por aí não está a porta da paz. A chave lhe funcionará se abre a discussão, de frente para o país, com a participação de toda a sociedade.
P. Dizem alguns que já há diálogo secreto, que sabe você?
R. É provável que sim, para construir uma agenda. Porém, não sei com exatidão. De todas as maneiras, se há essas aproximações, me parece bem, porque as FARC e o ELN têm feito manifestações expressas de disposição ao diálogo e à busca da solução política e se conhecem sinais evidentes, que para o Governo não são suficientes, porém são importantes e até históricas. Quem está em dívida, a propósito de sinais, é o Governo, que insiste na guerra, no neoliberalismo e em entregar o país às transnacionais.
P. E cabe num processo o ELN, porque se comenta que a aproximação é com as FARC?
R. Bem, o diálogo deve ser com as FARC e o ELN. Não teria sentido falar com um e excluir o outro.
P. Humm... me dizem que você sabe bastante mais disto...
R. Não creia tanto nisso. O importante é que a paz está no centro do debate e será inevitável que em curto tempo se abra o cenário de diálogo para a democracia e a justiça social. Da paz com democracia e justiça social depende o bem-estar do país. Com paz, a Colômbia se converterá num país viável.
P. Ao final, lhe funcionará a chave ao presidente?
R. Ao final, se imporá o realismo político e humanista. A paz é uma necessidade para o país. Só os obcecados, os guerreiristas veementes, não entendem que o tema da paz ou da guerra é o principal dilema da Colômbia. Daí depende o futuro luminoso do nosso país.
P. Que pensa das FARC-EP?
R. É uma organização política e militar que surgiu em consequência da violência do Estado dominante e da exclusão social. Tem sido protagonista de primeira linha da história deste país durante mais de meio século, é uma realidade que não se pode ignorar. A sua existência, há que buscar soluções e elas estão na via política e não na guerra absurda.
Fabián Ramírez, comandante do Bloco Sul das FARC-EP, diz, em entrevista ao repórter Karl Penhaul, que há que acabar com os [fenômenos] causadores que geram a guerra.
P. Você compartilha seus métodos?
R. Não compartilho seus métodos, porém entendo sua existência desde o ponto de vista histórico e sociológico. É uma posição desde uma visão intelectual e acadêmica. Se a oligarquia colombiana não houvesse recorrido à violência para manter-se no poder e preservar o regime plutocrático de privilégios, pois, não existiriam as FARC. Não faço a apologia da guerra, porém estou obrigado a fazer uma leitura séria do conflito colombiano, ainda que isso me traga problemas, ameaças e até processos judiciais. As ideias não se vendem, nem se trocam por pressões e intimidações.
P. Como é o panorama do país aos dois anos do Governo Santos? Coincide com as contas alegres de Santos ou com as críticas de Uribe?
R. Não coincido nem com Santos, nem com Uribe. Uribe critica a Santos, apesar de que têm a mesma política, porque quer submetê-lo, dominá-lo, tal e como ele acostuma. Se crê um Messias, ‘predestinado pela providência’. Porém, ao país não o vejo bem. Muito longe do país das maravilhas que nos querem mostrar nos balanços da metade do período presidencial.

Um indigente no setor dos bancos no centro de Bogotá.

A realidade é outra muito diferente, o crescimento econômico só tem beneficiado aos poderosos, porque a pobreza se mantém igual e cada vez é menor a renda real dos colombianos.
Crer, como o Dane, que uma família com rendas de $ 170 mil pesos mensais não é pobre é uma estupidez. O presidente Santos tem uma ideia da democracia como valor unanimista, ao estilo da unidade nacional, que controla 93 por cento do Congresso, assim a maioria seja [composta por] uns corruptos. Patética a fracassada reforma à justiça. Quis agradar a todos os poderes do Estado e nào deu certo, então decidiu rasgar-se as vestiduras. O país vai mal, a economia vai mal e as condições sociais vão pior. Os únicos felizes são os usufruidores das benesses do modelo de acumulação, dos TLCs e dos negócios que se derivam das transnacionais que levam a riqueza nacional e deterioram o meio ambiente.  
P. América Latina já não é o pátio traseiro dos Estados Unidos. Porém, tampouco se veem grandes revoluções ou insurreições populares. Como analisa a situação do continente?
R. Na América Latina está hoje o elo mais fraco do imperialismo usamericano. Como você diz, América Latina já não é o pátio traseiro ianque, porque à maioria dos povos se lhes acabou a paciência de tantos anos de infâmias e de governantes submissos à autoridade de Washington. Os Estados Unidos nunca fizeram nada positivo por este continente e tem ido perdendo-o de maneira paulatina. Hoje, predomina uma tendência mais emancipadora, de defesa da soberania nacional, de autoestima e convencida que se pode caminhar só com a ajuda mútua a nível regional. Só governos títeres como o de Colômbia creem que o destino está estreitamente ligado à Casa Branca.
Não se trata de romper com os Estados Unidos, porém de tratá-lo de igual para igual, sem critério pequeno e pusilânime. As potencialidades de América Latina e Caribe unidos, como sonhou o Libertador Simón Bolívar, estão demonstradas e é o desejo majoritário, se abre passagem a Unasul, a Celac, a Alba e outras formas de integração regional sem a tutela gringa. Aqui há demasiados recursos, que se podem colocar numa bolsa comum latino-americana e caribenha para negociar de igual para igual com o Norte, incluindo a Europa. Os TLCs são instrumentos coloniais e formas desiguais do mercado. Dá vantagens às economias poderosas que pretendem meter-nos à força suas transnacionais cheias de voracidade. Colômbia tem que colocar-se neste caminho dos processos democráticos e emancipatórios. É o desafio que tem a esquerda.
P. Que opinião de sua parte merecem os indignados? Está em crise a Europa?

Na Puerta del Sol, lotada de “Indignados”

O capitalismo está em crise. É uma crise sistêmica e histórica e não quer dizer que esteja à beira do precipício. Pode superar a crise, porém está demonstrado que o capitalismo fracassou historicamente. Nas condições da unipolaridade, não foi capaz de resolver os conflitos sociais porque, óbvio, sempre se inclina a favorecer aos seus, aos capitalistas. Na Europa pretendem resolver a crise às custas do povo e dos trabalhadores. É indignante. Apareceram Os Indignados como expressão do inconformismo. Rechaçam o capitalismo, desafogam sua raiva contra o setor financeiro, o pior de todos no capitalismo, parasita e vivedor como os “chulos” [vaidosos], exercem a resistência civil através da ação de massas, porém não têm alternativa. Os resultados eleitorais em Espanha e Grécia, favoráveis à direita, responsáveis também pela crise, são decepcionantes. De alguma maneira, Os Indignados, com seu discurso antipolítico, fazem o jogo do capital que tanto desprezam. Porém, é um movimento importante, que reflete a ira e o desespero popular ante o abuso do capital.
P. Dizem que você não quis aceitar a Secretaria-Geral do PC depois do XXI Congresso, apesar de ter obtido a primeira votação como membro do Comitê Central. Por quê?
R. Não é certo. Ninguém me propôs, ainda que tenha havido opiniões diferentes na direção central. No entanto, Jaime Caycedo, que fez bem, recebeu o apoio para que continue à frente do partido, no entendido que a direção é coletiva, é um esforço de todos os dirigentes para que as importantes resoluções do Congresso se ponham em marcha. Estamos num momento histórico, em que a unidade da esquerda é fundamental e essa é a mensagem que envia o Partido Comunista Colombiano à esquerda e aos setores democráticos do país.
P. Diga-me, como define aos seguintes personagens da esquerda: Lucho Garzón, Carlos Gaviria, Gustavo Petro, Jorge Enrique Robledo, Angelino Garzón, Piedad Córdoba?



Piedad Córdoba

R. Lucho, o que pôde ser e não foi, terminou sentado no Estabelecimento, ao qual enfrentou como comunista e sindicalista; Carlos Gaviria, um homem respeitável, intelectual honesto, pode contribuir para a esquerda entendendo que a unidade está no caminho da amplitude sem exclusões; Gustavo Petro, um bom parlamentar que se deixou seduzir pela ideia do poder a qualquer preço, um político com demasiadas ambiguidades e ambições; Jorge Enrique Robledo, um bom parlamentar; Angelino Garzón, por agora façamos força para que se recupere de sua enfermidade; Piedad Córdoba, uma mulher extraordinária e exemplar, de muita bravura e coragem, da estirpe de Policarpa e das mulheres do nosso povo que lutam por seus direitos e pela igualdade, que se indigna ante as injustiças.


Bogotá D.C. 6 de agosto de 2012


terça-feira, 7 de agosto de 2012

CONTRADIÇÃO FUNDAMENTAL COLOMBIANA


Por Athemay Sterling Acosta, Advogado, Comunista, Defensor de Direitos Humanos e dos Povos, Diretor de Direito Preventivo e Direitos Humanos, Grupo de Pesquisa Universitária PALENQUE, Diretor Colômbia e Comunicador de Radio Televisión Palenque – RTVPalenque, da Frente Ampla Popular, integrante de ANDAS e do CPDH, filial da Federação Internacional de Direitos Humanos – FIDH -, ex-candidato a Governador do Valle do Cauca, analista político e impulsionador da solução política ao atual conflito social e armado colombiano.
Cordilheira dos Andes Colombianos, junto ao campesinato, sete de agosto de 2012.
1
Jacobo Arenas, o principal Dirigente Político das FARC-EP junto a Manuel Marulanda Vélez, me dizia na Uribe Meta que Política é a capacidade social de descobrir, interpretar e resolver as contradições de Classe num momento determinado e com um propósito comum também classista, e é o que deve distinguir a um político de verdade como ao subscrito, quando Ele, que havia carregado com meu pai em tarefas do Partido Comunista na década dos sessenta e o havia salvado do terrorismo de Estado nessa mesma época, quando os comunistas saíam da ilegalidade que o Ditador Gustavo Rojas Pinilla havia arbitrariamente decretado ao nosso Partido Comunista de Colômbia, como se chamava nessa época, me dizia com tranquilidade e força intelectual quando militava na Juventude Comunista Colombiana, que assim devia ser. E assim o sou, e por isso ganhei milionária ascendência e também malogrados comentários e confabulações para derrotar esta política que está impondo hoje. Quer dizer, temos a razão histórica!
Igualmente, afirmava o primo de minha mãe Hernando González Acosta, quando discernia sobre o papel das diferentes formas de expressão do Movimento Popular, que, se é certo que cada uma tem seus próprios cenários, é uma mesma política o que nos guia aos comunistas, e é a coluna reitora da Unidade Popular.
Fundamentado nestes dois mestres da política, Jacobo Arenas e Hernando González Acosta, tenho dito hoje que há diferentes formas de Unidade que se dão objetivamente, independente de nossa vontade, desejo e consciência, como escutei feliz em Caloto nos dias 3 e 4 de agosto, quando da vitoriosa Marcha Patriótica, o importante Congresso dos Povos, a soberana Minga Indígena, os e as ativistas e advogados Defensores dos Direitos Humanos e dos Direitos dos Povos, Colombianos e Colombianas pela Paz e todos os que aí assistíamos, o necessário para que todas estas formas e processos de Unidade Popular se encontrem todos numa grande Frente Ampla Popular que afronte o Regime Político Colombiano que declarou, desde 1948, uma guerra frontal contra o povo, a sociedade e os trabalhadores.
2
Exemplo desta afirmação que faço é o que se dá numa zona altamente militarizada pelas FFAA Constitucionais em Caloto, o Palo, o Damián, o Tierrero, onde se assassinou a um Comuneiro, Autoridade indígena de López Adentro, feridos outros, e ameaçada toda a população civil pelo paramilitarismo que anda satisfeito com o suposto, outros afirmam que, certamente, apoiados pelos militares que Pinzón el Gomelo lhes impulsiona à guerra e a mais guerra, com uma política sistemática, permanente, institucional, classista burguesa e criminosa de exterminar a oposição política em Colômbia. E isso está fazendo na contramão do Direito Internacional dos Direitos Humanos e dos Direitos dos Povos.
Relembro com assombro toda a catástrofe humanitária e social que o Sul Ocidente Colombiano sofre por esta política criminosa, onde o paramilitarismo como política de Estado tem sido nefasto protagonista e o povo é quem sofre sua criminalidade, onde as classes dominantes e o imperialismo utilizam todas as formas de luta contra um inimigo interno, que, para eles, somos nós, a oposição política em Colômbia. Clara manifestação de traços fascistas na política do Estado Colombiano.
O Sul Ocidente Colombiano hoje possui o maior pé de força militar e paramilitar, a aviação de todo tipo controlada pela Missão Militar ianque bombardeia não só a população civil, como também causa a maior destruição ecoambiental da história, e cria desassossego em todas as populações e cidades por onde sobrevoam estas aeronaves do terror. O povo nos pergunta: que passaria quando uma dessas aves mecânicas da criminalidade terrorista estatal caia acidentalmente com todas essas toneladas de explosivos sobre meninas, meninos, anciãos, estudantes, homens e mulheres da população civil?
Por isso, tem razão o Seminário pela Paz realizado em Caloto, que, entre suas conclusões, afirma de maneira unitária que não é a guerra o que soluciona o conflito, mas sim a Solução Política através da negociação dele, terminando com as causas estruturais que geraram a guerra, como muito bem o disse numa entrevista aos meios de comunicação o Comandante Fariano Fabián Ramírez, deste Grupo Insurgente que cumpre todos os requisitos consuetudinários, Iuris e Políticos de umas Forças Armadas Revolucionárias com pleno caráter de Beligerância e insurgência que vem sistematicamente, desde que nasceram, buscando a Paz com Justiça Social.
3
Sobre o conceito de política há muitas acepções, a que complementa, ou se complementam melhor com a de Jacobo Arenas, Hernando González Acosta e Gilberto Viera, que eu e o povo aceitamos como corretas quando afirma concomitante com outra opinião do Materialismo Científico, que Política é a expressão concentrada da economia em última instância.
O que determina, portanto, a contradição fundamental neste momento, muito apesar de uns desatentos ex-esquerdistas, a própria direita, Angelino que, como múmia política, reaparece deficiente físico, e integrantes do Congresso Eunuco, os quais dizem que a contradição de hoje é a que se dá entre dois criminosos de guerra e de lesa-humanidade: Álvaro Uribe Vélez versus Juan Manuel Santos.
E já recorrem ao “rei dos céus” para que estes se reconciliem, apesar de ter seus mesmos interesses de classe. O que querem é fortalecer a direita e salvar a estes dois da Justiça, seja Nacional ou Internacional, por serem determinadores e executores do terrorismo de Estado em Colômbia.
Essa contradição dita por Angelino para resolvê-la “tornando amigos Uribe e Santos” é, desde o ponto de vista dos exploradores, do paramilitarismo, do militarismo dentro e fora do Estado e dos guerreiristas de todos os pelames. Angelino, “salvo pelos céus”, é cabeça de proa destes interesses de classe, diferente de nós, o Movimento Popular Colombiano em todas as suas Expressões em processo da Unidade Popular numa grande Frente Ampla Popular, que destrua com toda esta oligarquia mafiosa e monstruosa, porém exploradora.
4
Então, qual é a contradição fundamental, desde o nosso ponto de vista, do movimento popular colombiano?
Segundo a acepção já comprovada pelo Materialismo Científico, a contradição vertebral e estrutural é a que se dá entre os que geramos socialmente a riqueza e os que se apropriam dela e aspiram a seguir usufruindo do Poder Político, pois o econômico também o têm, para defender seus interesses de classe como a privatização dos Direitos.
Hoje ouvi a Angelino, ai, pobre dele, incapacitado em sua saúde, confundindo Direitos com Serviços. E isso que a vice-presidência da República, que faz parte do entroncamento do Regime Político que nos golpeia, diz ser a encarregada dos DDHH em Colômbia. Que perigo!
Essa concepção equivocada de Angelino e ratificada imediatamente por Santos de converter os Direitos conquistados pela humanidade em meros serviços, é o suporte ideológico para privatizar e seguir golpeando ao povo, a sociedade e aos trabalhadores, para que nunca haja Paz com Justiça Social.
E, em concordância: esta acepção do Materialismo Científico, com a desenvolvida por Jacobo Arenas, Hernando González Acosta, Gilberto Viera junto a Teófilo Forero, que nós, agora, aplicamos e fundamentamos desde o ponto de vista teórico, político e jurídico, para caracterizar a conjuntura política, nos dá o apotegma: de dizer, com toda certeza, que a contradição fundamental do momento é entre Democracia versus fascismo disfarçado, porém mais claro ainda, entre os que propugnamos pela solução política a este conflito social e armado ou guerra civil assimétrica terrorista estatal contra a sociedade, para lograr a Paz com Justiça Social, isto é, que toda a população, tanto nacional como estrangeira, possa exercer seus Direitos plenamente versus os que, desde a outra margem classista, impulsionam a guerra contra o povo e [promovem] a desigualdade social.
5
Por tudo isto é que aspiramos a um Estado de Novo Tipo que substitua o atual, totalmente submisso aos interesses das transnacionais capitalistas e ao imperialismo, que chamam globalização.
Para isto é que necessitamos, o povo colombiano, a sociedade e o movimento popular inteiro que seja a Unidade Popular de todas as suas expressões numa grande Frente Ampla Popular os que assumamos um novo Governo Democrático e construamos uma Nova Colômbia, reconstruída e reconciliada para o bem de nosso futuro pátrio.

Desmilitarizar e avançar para a negociação e a paz em Colômbia: Jaime Caycedo


O dirigente do Polo Democrático Alternativo e secretário-geral do Partido Comunista Colombiano [PCC], Jaime Caycedo Turriago, sustenta que é importante a sentença da corte Constitucional colombiana que ordenou ao Ministério de Defesa retirar as unidades militares de algumas comunidades indígenas, porque se assinala ao Estado uma obrigação, que é a da proteção à população civil.  
Assegura que não pode continuar violando-se o Direito Internacional Humanitário [DIH] por parte do estado e suas forças com as instalações militares no meio dos povoados rurais, o tema da desmilitarização é central na luta por um caminho de soluções políticas, por vias negociadas ao conflito. Não se pode seguir violando a constituição no país com a militarização extrema e a corte escutou os indígenas e campesinos que padecem desta situação.
Expressa Caycedo: “Compartilho que há que criar zonas de paz, territórios desmilitarizados, como expressa o ex-presidente Ernesto Samper; como Partido Comunista e Polo Democrático, saudamos estes esclarecimentos. Coincidimos em que, ao mesmo tempo, o país deve solidarizar-se com as lutas indígenas e campesinas de amplas regiões pela paz e por seus direitos violentados durante muitos anos.

Abrir novos espaços à mobilização unitária e à organização do povo

Jaime Caycedo se referiu à realização do Encontro Nacional de Unidade Popular, nos dias 10 e 11 de agosto de 2012, na sede da ADE sul, localizada na transversal 9 nº 1 a 35 sul – qualificando-o de “evento muito importante onde se reagrupam setores e processos novos e unitários do país”. Considera que, no referido encontro, se expressarão as convergências e iniciativas de mobilização popular para sair das políticas neoliberais do governo Juan Manuel Santos, mal chamadas “locomotivas”.
“O encontro deve ser representativo e amplo e que suas conclusões sejam contundentes na aprovação e no impulso das mobilizações e jornadas de protesto que sejam capazes de deter as locomotivas santistas. O encontro de unidade servirá para abrir novos espaços à mobilização unitária e à organização de nosso povo em todas as suas expressões. Deve ser um pilar no impulso e na realização dos protestos e do inconformismo e exigimos do governo que as entenda como uma demonstração democrática do descontentamento popular e a respeite”, assinalou o ex-vereador de Bogotá.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Derrota do império: Venezuela ingressou no Mercosul.

Artigo de Atilio A. Boron

Há motivos para festejar: na futurista Brasília, os sonhos integracionistas de Bolívar, Artigas e e San Martín deram um grande passo à frente.

A opinião é do sociólogo e cientista político argentino Atilio A. Boron, em artigo publicado em seu blog, 31-07-2012.

Eis o texto.

No dia 30 de julho, ratificou-se em Brasília o ingresso da Venezuela no Mercosul. Desse modo, o bloco comercial sul-americano se reforça tanto quantitativa quanto qualitativamente. Primeiro, porque agrega um novo sócio com um PIB estimado – pelo World Economic Outlook do FMI em paridade de poder aquisitivo – em 397 bilhões de dólares. Isto é, agrega-se uma economia de um tamanho ligeiramente superior ao da Suécia. O Mercosul engrandecido conta agora com um PIB total de 3,635 trilhões de dólares, o que o converte na quinta economia do mundo, superado apenas pelos Estados Unidos, China, Índia e Japão, e claramente acima da locomotiva europeia, a Alemanha [1].

Qualitativamente falando, a incorporação da Venezuela significa integrar um país que, segundo o último anuário da OPEP, dispõe das maiores reservas certificadas de petróleo do mundo, tendo substituído desse posto a quem o ocupara por várias décadas: a Arábia Saudita [2]. Além disso, do ponto de vista da complementação econômica de suas partes, o Mercosul desponta como um espaço econômico muito mais harmônico e equilibrado do que a União Europeia, cuja fragilidade energética constitui seu irremediável calcanhar de Aquiles e uma fonte permanente de dependência externa permanente.

Começa, portanto, uma nova e decisiva etapa, em que, a um conjunto de países sul-americanos grandes produtores de alimentos – e, nos casos da Argentina e do Brasil, possuidores de uma importante base industrial e significativas riquezas minerais –, agrega-se a maior potência petrolífera do planeta. Em um contexto de crise mundial como o atual e perante as políticas protecionistas que cada vez com mais força são adotadas pelos governos do centro capitalista, a integração dos países do Mercosul é a única salvaguarda que lhes permitirá resistir aos embates da crise mundial do capitalismo ou ao menos amortizar o seu impacto.

Não é preciso muito esforço para comprovar as projeções que esse Mercosul "recarregado" pode chegar a ter. Se os governos da região projetam mecanismos flexíveis e eficazes para tirar partido dessa enorme potencialidade econômica e se, ao mesmo tempo, forem resolvidas as assinaturas pendentes dos acordos que originaram o Mercosul – a Declaração de Foz do Iguaçu, assinada por Raúl Alfonsín e José Sarney, em 1985 e, anos depois, o Tratado de Assunção, datado de 1991 – e que refletiram a hegemonia ideológica do neoliberalismo naqueles anos, o futuro econômico dos nossos países pode ser muito promissor.

Um componente fundamental dessa nova fase deve ser, sem dúvida, o fortalecimento dos "outros mercosuis": o social, o laboral, o educativo, para mencionar apenas aqueles que suscitaram, precisamente por sua ausência, as maiores e mais sustentadas reclamações. Isso outorgará aos movimentos sociais e às forças políticas populares uma oportunidade excelente para fazer ouvir as suas demandas e pressionar efetivamente os governos para que adotem sem mais delongas as políticas necessárias para que o Mercosul deixe de ser um acordo pensado para ampliar os mercados e reduzir os custos operacionais das grandes empresas e se converta em um projeto de integração a serviço dos povos.

Apesar da importância das considerações anteriores, o significado fundamental do ingresso da Venezuela no Mercosul radica em outra parte. O isolamento desse país e a sua conversão em um Estado pária era o objetivo estratégico número um dos Estados Unidos após a derrota da Alca em Mar del Plata. A campanha para assegurar a conquista dessa meta não poupou escrúpulo algum, e toda a artilharia midiática, política e econômica do imperialismo foi descarregada sobre a república bolivariana com o propósito de construir a imagem de um Chávez ditatorial, apesar de que, como assinala Ignacio Ramonet corretamente, ele se submeteu 13 vezes ao veredito das urnas, ganhando em 12 ocasiões com ampla margem e perdendo apenas uma única vez, por menos de 0,5% no referendo de 2 de dezembro de 2007 sobre um complexo projeto de reforma constitucional. Derrota que foi imediatamente reconhecida por Chávez e que, como em todas as demais eleições, contou com a presença de "missões de observadores enviadas pelas instituições internacionais mais exigentes (ONU, União Europeia, Centro Carter etc.)", que avalizaram com a sua presença a legitimidade e a legalidade do processo eleitoral [3]. Como se isso não bastasse, também é preciso dizer que, com Chávez, incorpora-se ao núcleo dos governantes do Mercosul o principal estrategista e "marechal de campo" da luta anti-imperialista na América Latina. O outro, que não pode fazer o mesmo por razões óbvias, é Fidel.

O Senado paraguaio havia se prestado a esse jogo, em troca de uma suculenta recompensa para os seus tribunos, mas o golpe de Estado perpetrado entre galos e à meia-noite contra Fernando Lugo desbaratou, para a estupefação de Washington, os planos do império. A Casa Branca não percebeu que as épocas em que os seus desejos eram ordens havia sido definitivamente superada e jamais pensou que os governantes da Argentina, Brasil e Uruguai iam a ter a ousadia de aproveitar a suspensão do Paraguai ocasionada pela violação da cláusula democrática do Mercosul para pôr fim a uma absurda espera de seis anos.

Do ponto de vista geopolítico, a inclusão da Venezuela no Mercosul é, e convém perceber isso, a maior derrota sofrida pela diplomacia norte-americano desde o colapso da Alca. Como lembrou há alguns dias Samuel Pinheiro Guimarães, que até um mês atrás desempenhava o papel de Alto Representante do Mercosul, as inesperadas consequências do golpe no Paraguai terão efeitos duradouros e importantes [4]. Em primeiro lugar, porque, daqui em diante, será muito mais difícil e custoso orquestrar um golpe de Estado contra Chávez, protegido institucionalmente pela normativa do Mercosul, entre elas a cláusula democrática recentemente violada em Assunção. Também será muito mais complicado para um país como os EUA, insaciável consumidor de petróleo, tentar se apropriar da riqueza hidrocarbonífera venezuelana, ao mesmo tempo em que será muito mais atrativo para os demais países sul-americanos se integrar o quanto antes a um rico espaço econômico que se estende sem descontinuidades desde a Tierra del Fuego até o Mar do Caribe. Por último, será muito mais difícil para Washington tentar rearmar o esquema de "livre comércio" descartado com a derrota da Alca.

Em suma, há motivos fundamentados para o regozijo: no dia 30 de julho, na futurista Brasília, os sonhos integracionistas de Bolívar, Artigas e e San Martín deram um grande passo à frente.

Notas:

1 – FMI. World Economic Outlook, abril de 2012.
2 – OPEP. Annual Statistical Bulletin 2010-2011 (Viena: OPEP), 2011, p. 22.
3 – Ignacio Ramonet. "Chávez en Campaña". Le Monde Diplomatique en Español, agosto de 2012, p. 1.
4 – Samuel Pinheiro Guimarães, "Estados Unidos, Venezuela y Paraguay". América Latina en Movimiento, 17 de julho de 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mujica: "Nunca tivemos uma oportunidade como esta"

Durante a Cúpula Extraordinária do Mercosul, o presidente uruguaio, José Mujica, fez um profundo resgate histórico para situar o atual momento político da região e defender a importância estratégica da integração dos países do continente. "Nunca ao longo da história da América Latina tivemos uma oportunidade como esta. Existe uma vontade política de integração, como nunca houve globalmente na América do Sul".

Brasília - Dentre os discursos dos quatro presidentes presentes à Cúpula Extraordinária do Mercosul, em Brasília, nesta terça-feira (31), o de José Mujica, presidente do Uruguai, foi o que ganhou menos amplificação jornalística brasileira. Talvez por se tratar do país de menor economia, população e território, em comparação com Brasil, Argentina e Venezuela. Talvez por se tratar do presidente mais comedido e entre os quatro. Talvez por seu espanhol de difícil compreensão aos ouvidos dos lusófonos. Ou talvez porque o conteúdo de sua fala não seja palatável à linha editorial de boa parte da mídia local.

O certo é que o presidente uruguaio fez um profundo resgate histórico para situar o atual momento e defender a importância estratégica da integração dos países do continente. Confira a íntegra do discurso:

"Bom amigos, depois desse furacão (referia-se ao discurso de Hugo Chávez, que o antecedeu) o que pode dizer um humilde paisano.

É muito grande a dívida social que temos nesse continente. Talvez o mais rico da Terra, mas é bom que lembremos que é o mais injusto de todos os continentes. Esse é o preço que pagamos ao longo de nossa história porque vivemos muito tempo olhando para o resto rico e sem olharmos entre nós.

Cada porto importante terminou vertebrando um país. Era muito mais importante a conexão com o mundo, com a cultura européia. Para qualificar os universitários, há 70 anos, tinham que ir a Paris. Nossos homens de arte tinham que visitar a França, nossos homens de empresa tinham que ir a Grã Bretanha. Nossa linguagem, nossa moda, nossa vestimenta quase ignorava a sorte de nossos vizinhos.

Terminamos gerando uma cultura particular de opressão dos povos aborígenes que em muitas partes ficaram postergados, analfabetos e esquecidos e constituem uma espécie de coluna vertebral dessa dívida ao longo de toda a Cordilheira dos Andes.

Estamos tentando refazer nossa história porque vivemos no continente mais rico em matéria de recursos e o mundo deu uma virada inesperada. Quando éramos jovenzinhos a Cepal nos dizia “que horrível a desvantagem dos termos de intercâmbio”. Não sei o que aconteceu. E mudaram as relações no mundo. Hoje, paradoxalmente, o mundo industrial está em crise. E nós estamos quase historicamente acostumados que quando o mundo rico está em crise, pobre de nós. No entanto, parece que os que estão pobres são eles e que nós estamos levando muito bem.

Nossos emigrados à Europa voltam. É que agora houve tanto acerto em nossas políticas, ou um pouco de acerto porque a dor ensinou, ou estamos em outro mundo. O certo é que nunca ao longo da história da América Latina tivemos uma oportunidade como esta.

Houve homens grandes, gigantescos por sua visão. Contudo, os coroou o fracasso porque o compasso histórico não os acompanhava. Hoje há uma força de caráter histórico que colabora e, paradoxalmente, nesta América começamos a encontrar-nos. Existe vontade política de integração, como nunca teve globalmente a América do Sul. Eu repito: como nunca teve!

Não se trata de quem está na liderança política conjunturalmente, de uma superioridade, como gigantes do passado. É que estamos em outro momento histórico. E temos que ser conscientes: agora ou nunca!

E o desafio é enorme porque, por um lado, o Estado nacional não pode ser uma armadilha, nossa formação cultural, de onde viemos, nos pode ser uma armadilha. E a mesquinhez de nosso raciocínio pequeno pode contribuir em multiplicar os obstáculos.

Ademais, basta o que indicou a presidente argentina: o olhar e o trabalho de outros, colocando paus na roda, e nossas quintas colunas internas, invitáveis pelos interesses de classe, chave em todo este debate de caráter histórico.
Os mais pobres, a gigantesca maioria não encontra e não resta consciência para expressar-se. Está se expressando um pouco através do verbo solidário de minorias intelectuais que encabeçam os partidos que mais pensam pelo povo. As grandes maiorias estão ali, como que contemplando esse debate.

Nosso dever é incluí-la. E que participe. E que se dêem conta que aqui se está jogando o seu futuro de caráter histórico. A história do futuro não pode ser escrita pela gente que lê dois diários por dia. A história do futuro tem que ser escrita pela gigantesca multidão que ainda são nosso exército de reserva que está ali, lutando por viver, por conquistar o mínimo. Os postergados, os esquecidos, os acumulados, os que são a causa perdida, mas que no fundo expressam nossa nacionalidade, nossas instituições, filhas do feudalismo que sobrevivia dentro da república.

Nossa verdadeira causa está nos anônimos que andam por aí, na multidão, anônimos, com os quais temos uma causa de caráter histórico e uma tremenda dívida. Não nos esqueçamos porque, caso contrário, não teremos a força do desafio e do embate que temos pela frente. Obrigado Venezuela, contigo o Caribe. Quantas ilhas postergadas, que falam inglês ou algo parecido ao inglês. Também irmãos postergados pelo que vieram, pelo que trouxeram os barcos de escravistas. A semeadura de dor que se fez nessa América. Nunca nos esqueçamos disso. A dívida que temos com a negritude, tudo isso compõe esse crisol de causa, de dor, de povo, de angústia, de esperança que fica pela frente.

Por isso, alguém disse que tem que se somar os homens de empresa tratando de criar o sistema de empresas multinacionais. Tem que somar-se também os trabalhadores. Tem que somar-se também os trabalhadores! Os que andam de camisa, os que andam em sandálias. Em alguma forma a pata popular da história tem que se sentar nas decisões desse Mercosul. Porque, do contrário, não será o suficientemente democrática e isso é parte de nossa luta. Obrigado, companheiros".


Tradução: Vinicius Mansur