"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

As FARC escrevem sobres os delírios de Santos


Seu Grande Pacto Nacional Agropecuário e a Mesa de Havana jamais serão as garantias que sonha para suas políticas neoliberais.

Nós colombianos levamos décadas, para não dizer séculos, observando como os governantes oligárquicos representam no imaginário um país muito distinto ao que realmente é conhecido pelo povo. Com Juan Manuel Santos as coisas alcançam seu grau mais alto. A alucinação de que dão conta suas mais recentes intervenções públicas, permite acreditar que o povo deste país também está vendo a situação nacional com seus olhos de neoliberal confesso.

No passado, Santos desempenhou papeis estrelares enquanto gestor da economia, da política e da guerra. Desde os tempos de Gaviria e sua abertura econômica, passando pelos governos de Pastrana e Uribe, sua passagem pelo Congresso e por vários ministérios influenciou de modo direto a configuração de nossa complicada sociedade. Além disso, há muito tempo, seus antecedentes diretos se encarregaram de definir a sorte de nosso país.

Recentemente, confessou que seu avô acolhia em casa e apoiava o chefe guerrilheiro liberal das planícies Guadalupe Salcedo. Seu próprio primo-irmão, Francisco, também revelou que sua mãe e sua tia, a mamãe de Juan Manuel, recolhiam dinheiro para as guerrilhas da época. Ninguém ignora o papel das páginas editoriais de El Tiempo na tomada das decisões mais importantes dos sucessivos governos nacionais, assim como no febril atiçamento da guerra interna.

Assim, suas repetidas declarações soam a deslumbramento. Não percebe a verdade. Enquanto no Cauca, como ontem em Nariño, anteontem em Boyacá ou, antes, no Catatumbo, os soldados e o ESMAD reprimem com gases e fisicamente a ferro o povo mobilizado no protesto, enquanto a Promotoria os processa com montagens sujas, o Presidente gagueja que em seu governo o diálogo e as soluções acordadas têm a preeminência sobre a confrontação, a violência e o enfrentamento.

Atreve-se a recordar as promessas feitas em seu discurso de posse e as supostas ações empreendidas por seu governo a fim de cumpri-las. Como se não estivesse acontecendo ante seus olhos o maior protesto social vivido nos últimos tempos no país, originado precisamente na ausência de todas as coisas que ele prometeu quando chegou à Presidência. Como se fossem quatro anos e não uns quantos meses que restam de seu inútil primeiro mandato.

Por isso, nada mais ridículo que seu novo conto do vigário de Grande Pacto Nacional pelo Desenvolvimento Agropecuário e pelo Desenvolvimento Rural. De repente, o Presidente das locomotivas, que diz respeito ao Desenvolvimento Agropecuário e Rural, considera as marchas incessantes e afirma estar ciente de que suas políticas para o campo agravaram os problemas, não os solucionando. Assim, propõe um pacto com os prejudicados por essas políticas neoliberais a fim de que as validem.

Reunir, num mesmo cenário, banqueiros, investidores estrangeiros, empresários, latifundiários, especialistas em livre comercio e camponeses com a corda no pescoço para traçar a política agropecuária e rural mais conveniente ao país, seria apenas uma formalidade demagógica. Ainda se tivesse tempo para realizá-lo, é certo que a voz dos camponeses seria a menos escutada e atendida. Eles estão condenados a desaparecer nos planos da globalização capitalista.

As organizações camponeses, de negritude e de indígenas, envoltas na mais pura conversa, tinham apenas o direito a firmarem sua sentença de extinção. Está mais que provado, como constataram essas organizações nos distintos espaços de diálogos aceitos após a greve agrária, que o governo de Juan Manuel Santos tem já definido seu rumo neoliberal e que nada que possa afetá-lo tem o menor cabimento nos consensos que prega.

Se Santos quisesse deliberar livre e amplamente com os camponeses, o teria feito numa mesa nacional de diálogo com os diferentes setores na greve. Não o fez porque teme a luta unida das organizações camponesas e populares. Elas, em conjunto, possuem a potência para desmembrar todos seus planos. Sua negativa em estabelecer essa mesa se fundou no fato de que não iria duplicar na Colômbia o processo existente em Havana com as FARC-EP. Teme a sua identificação.

Não lhe soa que a voz do povo e da guerrilha se confundem. As FARC, assim como os manifestantes, devem limitar-se a firmar o que seu governo propõe, sua concepção neoliberal do campo, do conflito e do país em geral. Do rico leque de propostas da insurgência apenas merecem alguma atenção aquelas que possam ser funcionais ao intocável modelo econômico e político consagrado por seu governo. O demais não é visto de forma seria, nem realista, nem sequer sincera.

Quando fala de momento crucial nas conversações, de aproximação às decisões mais importantes, de limites materiais no tempo, confessa publicamente que existem diferenças abismais entre as partes. Diz ter vontade em chegar a acordos, por mais difíceis que possam parecer, porém, na realidade, aposta em que as FARC se renderão as suas imposições, que cederão sem remédio a sua vontade neoliberal. E joga todas suas cartas nesse cálculo.

Promove expectativas infundadas, difunde nos meios que o acordo final se encontra em andamento, esgrime a miragem do pós-conflito, dá por certo que daqui a dezembro ocorrerá a desmobilização, que aceitaremos seu marco jurídico e seu referendo. Não entende que da maneira como pretende aplacar e submeter a mobilização social sem afetar em nada a estrutura econômica e política do país, tampouco poderá chegar a algum acordo com a insurgência.

Nisso consiste sua alucinação. Em acreditar ser real o que apenas é seu sonho. Não só existe a Colômbia rural que ele descobriu de repente para contrapô-la à urbana, mas a Colômbia empobrecida, ferida, reprimida, desenganada e cada vez mais disposta a mudar a raiz das coisas. A que protesta e marcha, a que atira contra as tropas criminosas. A um ano de anunciadas conversações de paz, essa Colômbia se levanta, se organiza e se lança à luta.

E nada vai detê-la. Nem as lisonjas, nem as bravatas do Presidente. Nem suas urgências eleitorais. Nem seus tanques de guerra, nem suas forças repressivas, nem seus assassinos. Tratando-se da Mesa da Havana ou do que ocorra no país, não são os afãs de Santos que definirão o futuro. Inclusive, além do que possa acontecer nas urnas em março e em maio, o fator verdadeiramente determinante será a força da luta popular encorajada.

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)



O ‘governo de rua’ é uma revolução dentro da Revolução


Entrevista realizada por Ignacio Ramonet com o presidente venezuelano Nicolás Maduro. Extraída do sítio Pátria Latina


Ignacio Ramonet: A oposição venezuelana lançou uma campanha, que encontra eco em alguns meios internacionais, afirmando que o senhor não nasceu na Venezuela, mas, em Cúcuta, Colômbia; e que possui dupla nacionalidade, o que, segundo a Constituição, o invalidaria como Presidente. Que comentários essa acusação lhe inspira?

Nicolás Maduro: O objetivo dessa loucura lançada por um demente da ultradireita panamenha é criar as condições para uma desestabilização política. Tentam conseguir o que não puderam fazer nem através das eleições, nem dos golpes de Estado, nem através das sabotagens econômicas. Estão desesperados. E se baseiam na ideologia anticolombiana que a burguesia e a direita venezuelanas sempre tiveram contra o povo da Colômbia.

A esse respeito, se eu houvesse nascido em Cúcuta ou em Bogotá, me sentiria feliz de ser colombiano. Porque é uma terra fundada por Bolívar. Se tivesse nascido em Quito ou em Guayaquil, também me sentiria orgulhoso de ser equatoriano, porque é uma terra libertada por Bolívar; ou em Lima, ou em Potosí, ou em La Paz, ou em Cochabamba, me sentiria feliz por ser peruano ou boliviano; e se houvesse nascido no Panamá, terra de Omar Torrijos, terra de dignidade, que fez parte da Gran Colômbia, de Bolívar, também me sentiria orgulhoso de ser panamenho. Porém, nasci e me criei em Caracas, berço do Libertador; nessa Caracas sempre convulsa, rebelde, revolucionária. E aqui estou como Presidente. Essas loucuras serão recordadas como parte da crise de desespero esquizofrênico na qual, às vezes, a direita internacional entra com o objetivo de acabar com essa réstia de luz que é a revolução bolivariana.

Por outro lado, o Presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, declarou recentemente que foram descobertas conspirações contra o senhor, com intenção de atentar contra sua vida.

Nicolás Maduro: Sim, o ministro do Interior, Rodríguez Torres, o Presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello e eu mesmo revelamos um dos planos de assassinato que estava sendo preparado para o dia 24 de julho, aniversário do nascimento de Simón Bolívar, e comemoração dos 190 anos da Batalha Naval de Maracaibo. Dispunham de um conjunto de planos que conseguimos neutralizar e que têm sempre sua origem na mesma direita internacional. Aí, aparece por exemplo, o nome de Álvaro Uribe (ex-presidente da Colômbia), que tem uma obsessão contra a Venezuela e contra os filhos de Chávez. Aparece também a velha máfia de Miami, a de Posada Carriles, que conta com o apoio de importantes instâncias de poder nos EUA. O governo de Barack Obama não quis desmontar essa máfia de Posada Carriles, um terrorista convicto e confesso, perseguido pelas leis de nosso país porque derrubou um avião de Cubana de Aviação, em outubro de 1976...

Posso garantir-lhe que continuaremos defendendo-nos, neutralizando esses planos... e vencendo. Se eles alcançassem seu objetivo, se criaria uma situação que não gostaria nem de pensar nela. A quem menos lhe convém que algo assim aconteça é a direita venezuelana. Desapareceria do mapa político de nosso país por 300 anos... Porque a Revolução tomaria outro caráter, sem dúvida, muito mais profundo, muito mais socialista, muito mais anti-imperialista. Espero que esses planos jamais tenham êxito, porque repercutiria muito mal para eles. E eu veria tudo lá do céu...

O senhor pensa que o fracasso da oposição em sua tentativa de desestabilização se deve à política que o senhor tem impulsionado, ou a uma mudança de atitude da própria oposição ante as eleições municipais do próximo 8 de dezembro?

Nicolás Maduro: Deve-se, principalmente, à fortaleza institucional da democracia venezuelana, e a decisão que tomei, apoiando-me nessa fortaleza, de derrotar o mais cedo possível a tentativa de insurreição e de violência. Neutralizá-lo. Não permitir que se estendesse. Eles tentaram uma espécie de insurreição nas principais cidades, nos dias 15 e 16 de abril.

Qual foi o grau de violência?

Nicolás Maduro: Assassinaram 11 pessoas humildes, entre elas, uma menina e um menino. E feriram a quase 100, dos quais pouco se fala. Teve gente que ficou com sequelas para toda a vida.

A oposição mostrou seu verdadeiro rosto golpista. Aparentava bons modos democráticos, porém, quando [em 5 de março], o comandante Chávez faleceu, decidiu desconhecer o resultado das eleições e tentar impor pela força –com o suposto apoio internacional dos EUA e de outros governos da direita-, uma operação para desestabilizar a Revolução. Conseguimos neutralizá-los e derrotá-los logo. Agora, não lhes resta outro caminho que voltar a tentar, pela via eleitoral, ocupar espaços nas prefeituras. Nós os obrigamos a que assim seja. Se não fosse por nossa decisão, de que a Constituição seja respeitada, eles teriam levado nosso país a uma situação de guerra civil.

Em recentes declarações, o senhor alertou sobre fissuras na unidade da Revolução. O senhor teme uma divisão do chavismo?

Nicolás Maduro: As forças divisionistas e dissolventes sempre ameaçaram qualquer Revolução. As aspirações ao poder de grupos de pessoas são uma negação do projeto da Revolução Bolivariana, que é de caráter socialista, e exige desprendimento e sacrifício. O comandante Chávez foi presidente porque as circunstâncias da história o colocaram nesse posto. E eu sou presidente, não por ambição individual ou porque represento um grupo econômico ou político; sou presidente porque o comandante Chávez me preparou, me designou e o povo venezuelano me ratificou em eleições livres e democráticas.

Assim, que todas essas forças dissolventes sempre existirão. Porém, a Revolução tem a capacidade moral, política, ideológica para sobrepor-se a qualquer tentativa de divisão de suas forças. Eu disse isso no Llano venezuelano, porque estava vendo com meus próprios olhos, lá mesmo, diante de mim, uma pessoa que se diz chavista, porém, por debaixo dos panos, é financiado pelos latifundiários, e ele tem um discurso chavista para dividir. Não é impossível que quando esse indivíduo constate que não é designado pela Revolução como candidato à prefeitura desse município, se lance por sua conta... Estamos em boas condições para conseguir candidaturas unitárias em quase todos os municípios do país; e teremos que fazer um grande esforço para derrotar as forças dissolventes desses setores que se dizem chavistas; mas, no final, acabam sendo aliados da contrarrevolução.

Em relação à prática governamental precedente, o senhor introduziu várias mudanças: crítica da insegurança, denúncia da corrupção e, sobretudo, o que chama o "governo de rua” Por que sentiu a necessidade de insistir nesses temas? E que balanço faz do "governo de rua”?

Nicolás Maduro: Em primeiro lugar, o "governo de rua”, estabeleceu nessa nova etapa um método para que exista uma direção coletiva da Revolução. Segundo: criou-se um sistema de governo onde não há intermediários entre o poder popular local e a instância de governo nacional. Trás solução para problemas concretos; porém, sobretudo, contribui à construção do socialismo, das comunas, de uma economia socialista, e a consolidação de um sistema público de saúde integral, gratuito e de qualidade, e de um sistema educativo público e gratuito de qualidade... E o "governo de rua” é uma revolução dentro da Revolução.

É também uma maneira de combater o burocratismo?

Nicolás Maduro: De vencê-lo. Propondo outro sistema. Porque os modelos de governo que herdamos expressam a forma de governar do Estado burguês, ele mesmo herdeiro da colônia, na América Latina. O presidente Chávez os derrotou mediante as Missões que constituíram um novo modelo de gestão das políticas públicas. Nós, estamos agregando o "governo de rua” às Missões, que, poderíamos dizer, é uma instrução direta do comandante Chávez. Ele nos ordenou, a Elías Jaua que era vice-presidente na época e a mim, que era vice-presidente político, que fôssemos construindo um sistema de governo regionalizado 0”popular”, dizia ele- e eu lhe pus "governo de rua”. Todas são instruções e orientações dentro da filosofia de um modelo socialista no qual o poder não seja das elites –nem elites burguesas, nem l]novas elites que se burocratizam ou se aburguesam-. Queremos que o poder esteja democratizado, que seja uma vacina contra o burocratismo, contra o aburguesamento e, além do mais, que nos permita alcançar a "eficiência socialista”.

Se a oposição ganhar as eleições municipais de 8 de dezembro próximo, é provável que chame a um referendo revocatório em 2015. Como o senhor vê essa perspectiva?

Nicolás Maduro: Estamos preparados para todos os cenários. Sempre diremos a verdade ao povo. Se a oposição conseguisse uma boa votação no 8 de dezembro, tentará aprofundar a desestabilização para dissolver nossa pátria, acabar com a independência e acabar com a Revolução do comandante Chávez, que retomou o conceito de Republica Bolivariana. Vão impor cenários de desestabilização violenta em primeiro lugar e os EUA tentarão acabar com os níveis de independência e de união que a América Latina possui hoje.

Temos uma grande responsabilidade, porque estamos defendendo um projeto que pode tornar possível outro mundo em nossa região e pode contribuir para criar um mundo multipolar, sem hegemonias econômicas, militares, nem políticas do imperialismo estadunidense. Boa parte do nascimento de outro mundo onde se respeitam os direitos dos povos do Sul –e, inclusive, dos povos da Europa, para que a Europa livre-se do neoliberalismo-, depende de que, na América Latina, triunfem definitivamente as ideias de constituir um bloco de força e de equilíbrio para consolidar a ideia de que já não somos nenhum "pátio traseiro/quintal” dos Estados Unidos. Tudo isso depende, em boa medida, do que aconteça por aqui.

Como o senhor explica o resultado da oposição no passado 14 de abril, e como pensa ganhar o próximo 8 de dezembro?

Nicolás Maduro: Há um eleitorado que sempre votou indistintamente na oposição. Porém, no dia 14 de abril, uma boa parte dos que não votaram em nós o fizeram por descontentamento, por coisas mal feitas, problemas acumulados... No entanto, esses eleitores nunca acompanharam as aventuras golpistas e antibolivarianas da direita. A esses venezuelanos, nós, permanentemente, dizemos que estamos na rua, trabalhando para melhorar as coisas. Eles sabem que não tem sido fácil. E que a epopeia maior foi, na véspera do 14 de abril, sobrepassar a tragédia histórica da morte do comandante Chávez; superar o luto coletivo. Quando uma pessoa entra em luto, pode cair em estado de desesperança; não crer em nada. Boa parte do povo venezuelano entrou em luto profundo. E os especialistas em guerra psicológica que acossam nosso país se aproveitaram desse momento e dessa fragilidade para atacar duramente... Por isso, nossa vitória no dia 14 de abril foi realmente heroica.

O que estamos realizando –o "governo de rua”; a recuperação da economia; a atenção a temas intransferíveis, como a segurança cidadã, a corrupção...-. Isso nos dará forças para a grande vitória do 8 de dezembro. E será a garantia de que se abre um novo caminho para a construção do socialismo do século XXI.

Até onde o senhor pensa chegar em sua luta contra a corrupção?

Nicolás Maduro: Até as últimas consequências. Vamos com tudo! Enfrentamos uma direita muito corrupta, herdeira da IV República descomposta e em decadência. Porém, também estamos enfrentando a corrupção que fez ninho no campo revolucionário ou no seio do Estado. Não haverá trégua! Constitui uma equipe secreta de investigadores incorruptíveis que já estão destampando vários casos. Temos alguns detidos de mais alto nível e vamos seguir atacando forte. Serão julgados e irão para onde devem ir: para a prisão!

Como o senhor vê a situação da economia venezuelana? Vários análises alertam sobre o elevado nível da inflação.

Nicolás Maduro: A economia venezuelana está em transição para um novo modelo produtivo, diversificado e ‘socialista do século XXI’, no marco da construção de um novo quadro econômico constituído pela integração sul-americana e latino-americana. Não devemos esquecer que, agora, somos membros do Mercosul; somos membros da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América) e lideramos Petrocaribe. Toda essa massa geográfico-demográfico-econômica reúne 24 países do continente, o que poderia representar quase a quarta economia do mundo... Temos que transformar a economia venezuelana e conectá-la com o desenvolvimento desse novo marco econômico, e, ao mesmo tempo, integrar-nos, em situação vantajosa, na economia mundial. Não de dependência. Por isso digo que estamos em transição.

Sobre a inflação, lhe direi que padecemos um ataque muito forte, especulativo, contra nossa moeda, e estamos superando. Há também uma sabotagem ao abastecimento de vários produtos. Tudo isso produz inflação. Porém, já começamos a controlar, a equilibrar; e estou certo de que superaremos essa situação no que resta do segundo semestre.

Vamos estabilizar a moeda. Já começamos a estabilizar o abastecimento; porém, a chave fundamental para que saiamos desse modelo rentista, dependente, é a diversificação de nossa produção. Estamos realizando grandes investimentos em setores chave da produção de alimentos, da agroindústria e da indústria pesada. Estamos atraindo capital internacional que traga divisas e tecnologia. Recentemente, fizemos um giro pela Europa e estamos otimistas de que venham capitais da França, da Itália, de Portugal... Desejamos que venha capital do Brasil, da Índia, da China, com sua tecnologia para desenvolver a indústria intermediária na Venezuela, diversificando-a. Para que a Venezuela tenha motores próprios e variados e não dependa somente do petróleo que, claro, constitui um motor poderosíssimo para os próximos 50, 80 anos. Poderosíssimo. Não esqueçamos que a Venezuela dispõe de mais importantes resevas de petróleo do planeta e possui a quarta reserva de gás. A Venezuela é uma economia com muito poder financeiro e econômico. O que veremos, sobretudo a partir de 2014, é uma recuperação do nível de estímulo e crescimento da economia venezuelana.

Como se explicam os problemas de desabastecimento, que têm sido muito criticados pela imprensa internacional?

Nicolás Maduro: O desabastecimento faz parte de uma estratégia de "guerra silenciosa”, onde atores políticos, acompanhados por atores econômicos nacionais e internacionais, vendo o estado de gravidade do comandante Chávez, entre dezembro de 2012 e março desse ano, começaram a atacar pontos chave dos processos econômicos venezuelanos. Alentados também por alguns erros cometidos no sistema de câmbio de divisas na Venezuela, que já foram corrigidos. Essas forças antibolivarianas, pouco a pouco, começaram a golpear o abastecimento dos produtos que importamos. Além disso, para explicar a escassez de alguns produtos, devemos levar em consideração que o poder aquisitivo dos venezuelanos não para de aumentar. Temos apenas 6% de desemprego e o salário mínimo urbano aqui é o mais alto da América Latina. Outro ponto importante, reconhecido pela FAO (Organização das nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, siglas em inglês), somos o país do mundo que mais tem feito para combater a fome. Tudo isso -é muito importante considerar- gerou uma capacidade de consumo da população que está crescendo a cada ano acima de 10%. O consumo cresce em um ritmo superior à capacidade de produção do país e à capacidade dos mecanismos que tínhamos para abastecê-lo com importações.

O comandante Chávez, na última vez que falei com ele pessoalmente, no dia 22 de fevereiro passado, quando avaliamos a situação econômica e falamos sobre o desabastecimento, me disse: "Desatou-se uma ‘guerra econômica’ para aproveitar minha doença e a gravidade de minha situação e a possibilidade de chegarmos às eleições presidenciais. Nesse caso, a burguesia tentaria criar circunstâncias econômicas difíceis para, com o apoio imperial, dar o golpe final na Revolução Bolivariana”.

Nós já estamos saindo dessas circunstâncias. Ao povo venezuelano jamais faltou o alimento. Nunca. Pode ir em qualquer bairro popular, desses que eu conheci nos anos 80, onde as crianças eram famélicas, onde as pessoas comiam uma vez ao dia e, às vezes, comida para cachorro... O bairro mais humilde que encontrem no país, onde quiser, pode abrir a despensa e verá carne, arroz, óleo, leite... O povo tem garantido o alimento e isso nas piores circunstâncias da ‘guerra econômica’ que nos fizeram.

Por isso, temos estabilidade social e política. Agora, essa guerra é muito diferente daquela de onze anos atrás. Saía o chefe da patronal, Carmona Estanga, e chamava a paralisação geral. Saía o chefe da velha burocracia sindical, Carlos Ortega, e chamava à paralisação. Eles davam a cara, assumiam a sabotagem da economia e houve grandes desabastecimentos que quase provocam uma explosão social em 2002-2003. Agora, não. Agora é a ‘guerra silenciosa’, uma ‘guerra suave’, ‘diplomacia suave’, segundo consignas de Washington. Em 2002-2003, governava George W. Bush, que era brutal e dizia: "Vou invadir!” e invadia; "Vamos derrocar tal governo” e o derrocava. Agora, é o suave, o escondido, e aparece a direita fascitoide que vai sorrindo e dizendo: "Esse governo é incapaz porque não pode abastecer as cidades”. Quando são eles os que estão por detrás de um plano, com agentes internacionais no campo econômico para causar dano ao país. Porém, vamos superando e vamos nos vacinando. No futuro, lhes será impossível arremeter com esses mesmos mecanismos.

En la economía ¿qué papel le ve usted al sector privado?

Nicolás Maduro: Históricamente, el sector privado en Venezuela tiene poco desarrollo. Nunca hubo burguesía nacional. El sector privado, en lo fundamental, se desarrolló cuando surge el petróleo, como un factor más bien vinculado a la apropiación de la renta petrolera. Casi todas las grandes riquezas de la burguesía venezolana están vinculadas a la manipulación del dólar, sea para importar productos (la burguesía comercial) o sea para apropiarse de la renta y colocarla en cuentas de grandes bancos en el exterior. Así que, en cien años, no tuvimos una burguesía productiva como la tuvo Brasil por ejemplo, o Argentina. Ahora es cuando estamos viendo resurgir sectores privados con proyectos vinculados a la verdadera producción de riquezas para el país.

En el modelo socialista venezolano, el sector privado tiene un papel que jugar en la diversificación de la economía. Desde siempre, el Comandante Hugo Chávez favoreció las relaciones con el sector privado, tanto en la pequeña, como en la mediana o la gran empresa, favoreció el desarrollo de empresas mixtas y la venida de capital privado internacional. Hay un pensamiento económico que, en Venezuela, se ha desarrollado para seleccionar en qué área es necesaria la inversión extranjera. Qué capital puede venir y en qué condiciones. Por ejemplo: aunque nuestro petróleo está nacionalizado, existen modalidades diversas que permiten inversiones, en la Franja del Orinoco, de todo el capital mundial; allá hay empresas de todo el planeta, empresas mixtas: 40% capital internacional, 60% Venezuela. Les cobramos los impuestos debidos –antes se cobraba el 1%, ahora se les cobra el 33%. Venezuela ofrece todas las garantías constitucionales para recibir capital internacional.

¿Se mantendrá el control de cambio?

Nicolás Maduro: El control de cambio es un sistema exitoso. En febrero pasado, para defendernos de un ataque brutal contra la economía y contra la moneda, tuvimos que adecuar, digamos, el bolívar. Venezuela puede manejarse con este tipo de cambio que tenemos, perfeccionándolo. Debemos fortalecer nuestra moneda, vacunarla contra los ataques especulativos y perfeccionar el sistema de manejo de las divisas convertibles.

Usted me habló antes de ‘eficiencia’ ¿Qué progresos ha constatado en materia de ‘eficiencia’, en particular en el campo de la economía?

Nicolás Maduro: En primer lugar, una mejora sustantiva del sistema del Cadivi [Comisión de Administración de Divisas], el organismo que maneja el control de cambio en Venezuela. Realmente ha mejorado mucho en los controles previos, los controles posteriores y la asignación de las divisas necesarias para los agentes económicos. Otro elemento muy importante ha sido la creación del Sicad [Sistema Complementario de Administración de Divisas], un mecanismo de subastas que está funcionando de manera perfecta, pero al que, además, tiene ahora acceso el público en general. Cualquiera puede ir al Sicad. La gente común y corriente puede obtener divisas para su vida normal, sin necesidad de pasar por ninguna alcabala. Esos son progresos concretos.

Pero también hemos constituido un Estado Mayor para la dirección de la economía, dirigido por Nelson Merentes, el vicepresidente de Finanzas. Allí están todos los ministros de los sectores económicos. Cada ministro tiene que supervisar, apoyar y dirigir cada rubro que se produce en Venezuela. Hemos seleccionado 58 rubros fundamentales. Tenemos un seguimiento permanente -pudiera ser hasta diario, ahora es semanal- de cómo va la producción de cada uno de esos productos, qué inversiones hacen falta, qué trabas tienen para su comercialización interna... O sea, vamos logrando un mecanismo clave para gobernar la economía. De igual modo que se gobierna, a nivel político, un país, hay que gobernar la economía. Sobre todo si nos estamos planteando construir el socialismo.

El capitalismo es el reino de la anarquía, y cuando hay anarquía en lo económico gobierna quien tiene más poder: el capital financiero. Hoy ¿quién gobierna realmente Europa? El capital financiero. En Europa, este capital financiero está desmontando el Estado de bienestar que se constituyó después de la Segunda Guerra Mundial. En Venezuela no, estamos construyendo un gobierno económico para edificar el socialismo ¿Para qué debe servir la economía? Para garantizarle a la ciudadanía la salud, la alimentación, la vivienda digna, la educación gratuita... ¿A quién le debemos estos derechos universales? A la Revolución Francesa y a la Ilustración que llegaron a nuestra tierras, traducidas al mestizaje latinoamericano, de la mano de Simón Rodríguez, y que defendió Bolívar. Es parte del patrimonio más grande de la humanidad. Pero el capital financiero niega todo eso.

En estos cien días de gobierno, nuestra impresión es que la principal crisis de política exterior que conoció Venezuela fue con Colombia. ¿Cómo están actualmente las relaciones con Bogotá?

Nicolás Maduro: En estos cien días, hemos logrado consolidar todo el eje de relaciones estratégicas, ante la construcción de una nueva geopolítica regional y de un nuevo sistema de fuerzas para garantizar la nueva independencia del continente. Las diferencias con Colombia han sido tratadas, evidentemente, a través del diálogo. Hemos trazado las líneas de conducta para su superación. Yo confío en la palabra del presidente Juan Manuel Santos, y espero que logremos lo que conversamos. Yo confío en que vamos a tener una relación de coexistencia pacífica y positiva entre dos modelos: un modelo socialista, de revolución cristiana del siglo XXI, igualitario, de democracia popular como el venezolano, y otro modelo que no voy a calificar, pero que es distinto al nuestro. Estamos obligados a coexistir como hermanos siameses. Hemos demostrado que se puede coexistir y ojalá los sectores políticos y económicos dominantes en Colombia y el presidente Santos al mando del gobierno, entiendan que la coexistencia y el respeto son básicos para el desarrollo de nuestros dos países.

¿Cómo van las relaciones con Washington?

Nicolás Maduro: Quisiera decir, primero, que Barack Obama es un presidente circunstancial. Es una circunstancia en el seno de la élite que gobierna Estados Unidos ¿Por qué llega Obama a la presidencia? Porque convenía a los intereses del complejo industrial militar-financiero-comunicacional que dirige Estados Unidos con un proyecto imperial. Quien conozca en profundidad la historia de la fundación de Estados Unidos y de su expansionismo, reconocerá que es el imperio más poderoso que ha existido, con un proyecto de dominación mundial. Sus élites eligieron a Obama en función de sus intereses, y han logrado parte del objetivo que se plantearon: hacer que el país aislado, desprestigiado que era Estados Unidos en la época de George W. Bush, se convirtiera, gracias a Obama, en una potencia que posee de nuevo capacidad de influencia y de dominación. Si no, veamos el caso de Europa, sometida a los dictámenes de Washington como nunca antes.

Lo que pasó con el presidente de Bolivia Evo Morales, cuando cuatro Estados europeos le negaron el acceso a su espacio aéreo, es una demostración gravísima de cómo, desde Washington, se dirige a los gobiernos de Europa. Es muy desconcertante realmente. Yo no sé si los pueblos de Europa saben eso, porque a veces, con el control comunicacional que hay, estas noticias se van banalizando y se van dejando de lado. Pero es muy grave. Obama ha logrado que el Imperio crezca en influencia política.

Los Estados Unidos van preparándose hacia una nueva etapa que es crecer en dominación militar y económica. En América Latina, su proyecto es revertir los procesos progresistas de cambio para volver a convertirnos en su patio trasero. Por eso están retomando –con otro nombre– el proyecto del ALCA [Área de Libre Comercio de las Américas], para dominarnos económicamente y retomar los mismos métodos del pasado. Fíjese, bajo el mandato de Obama: golpe de Estado en Honduras dirigido desde el Pentágono; intento de golpe de Estado contra el presidente de Ecuador Rafael Correa, teleguiado por la CIA; golpe de Estado en Paraguay operado por Washington para sacar al presidente Fernando Lugo... Que nadie se llame a engaño, si los Estados Unidos viesen que hay condiciones favorables, vendrían de nuevo a llenar de oscuridad y de muerte América Latina.

Por eso la relación del gobierno de Obama con nosotros es esquizofrénica. Ellos piensan que nos pueden engañar con la ‘diplomacia blanda’; que nos vamos a dejar dar el ‘abrazo de la muerte’. Nosotros lo hemos planteado muy claro: ustedes allá con su proyecto imperialista y nosotros acá con nuestro proyecto de liberación. La única forma de que haya una relación estable y permanente es que nos respeten. Por eso he dicho: "Tolerancia cero con el irrespeto gringo y de sus élites. No lo vamos a tolerar más”.

Si nos siguen agrediendo, responderemos a cada agresión con mayor fortaleza. Ha llegado la hora de la tolerancia cero.


En la reciente Cumbre del ALBA, usted ha propuesto una articulación ALBA-Mercosur-Petrocaribe. ¿Es una respuesta a la Alianza del Pacífico (1)?

Nicolás Maduro: No. Es una necesidad histórica. Tenemos que consolidar los espacios económicos logrados. Mercosur ha venido viviendo una transformación muy positiva y ahora, con la incorporación de Venezuela, la próxima incorporación de Bolivia y la posible incorporación de Ecuador, comienza Mercosur a ocupar un espacio vital en Suramérica.

Petrocaribe es una realidad maravillosa que ha permitido la estabilidad energética, económica, financiera y social de 18 países del Caribe. Y el ALBA es una vanguardia donde ha habido ensayos económicos como el SUCRE [Sistema Único de Compensación Regional], una unidad de cambio latinoamericana, o como el Banco del ALBA y otros ensayos como las ‘empresas grannacionales’ que han ido adquiriendo experiencia y espacios.

Ha llegado el momento de acercar todos los espacios ya conquistados para definir un nuevo modelo económico. Ha llegado la hora de unir ese inmenso espacio Mercosur-ALBA-Petrocaribe que representaría, repito, casi la cuarta economía del mundo, en un espacio nuestro, y no de falso libre comercio ¡Porque el libre comercio es falso! ¿Cree usted posible la libre circulación, en los mares, de un tiburón y una sardina sin que el tiburón se coma a la sardina? Imposible. El libre comercio es como cambiar pepitas de oro por espejitos, sistema con el cual nos colonizaron hace 500 años. Tenemos que consolidar una zona económica complementaria, diversa, desarrollada, con sus mecanismos financieros, monetarios, y convertirnos en un poderoso bloque económico. Y, a partir de ahí, tener relaciones con Rusia, la India, China, Sudáfrica; redefinir nuestras relaciones comerciales y económicas con Europa, con Estados Unidos, donde nosotros no volvamos a ocupar el papel de colonia.

¿Cómo ve usted las relaciones con la Unión Europea?

Nicolás Maduro: La Unión Europea ha perdido la oportunidad de convertirse en una gran potencia equilibradora del mundo. Todos los pueblos del planeta aspirábamos a que la Unión Europea fuera la fuerza de equilibrio del mundo. Pero parece que no. El capital financiero y los viejos complejos colonialistas de las élites que dirigieron Europa durante 300 años, parece que se van a imponer a la conciencia democrática y democratizadora de la mayoría de los pueblos de Europa. ¿Qué deseamos de la Unión Europea? Que cambie su política, que deje de estar de rodillas ante Washington, que se abra al mundo y que vea a América Latina como una gran oportunidad para volver a restablecer el Estado de bienestar social y para establecer relaciones con nosotros de igualdad, de prosperidad, de crecimiento. De manera natural, podemos desarrollar una alianza Unión Europea-América Latina y el Caribe para el desarrollo conjunto. Estamos preparados para eso. Entendemos perfectamente la cultura occidental, somos parte de ella, aunque tenemos nuestras particularidades mestizas. Pero las élites europeas no nos entienden. Ojalá eso se supere.

El Presidente Chávez quería hacer de Venezuela un "país potencia” en un "mundo multipolar” ¿sigue siendo esa la línea, en materia de política exterior?

Nicolás Maduro: Claro. En su corta vida, Chávez logró no sólo rescatar a Bolívar como idea, inspiración y símbolo, sino que lo convirtió en una estrategia. Logró hacer que, en el mundo, coexistan dos modelos: el capitalista-neoliberal, y el modelo bolivariano-independentista-chavista, de justicia, de socialismo. En todo el planeta hoy se están debatiendo esos dos proyectos: el del regreso de la hegemonía unipolar del imperialismo estadounidense; o el modelo de un mundo multipolar y multicéntrico.

El Comandante Chávez configuró una política de desarrollo de ejes de fuerza, de núcleos de fuerza, de anillos de fuerza para desmontar el mundo controlado por el imperialismo. Y sobre todo para construir un nuevo sistema de relaciones internacionales. La humanidad no podrá existir si no se desarrolla esa política internacional. Lo otro es cruzarse de brazos y rendirse a que el Imperio reconquiste el mundo, lo vuelva a dominar y nos esclavice más temprano que tarde. No lo vamos a permitir.

Nota:

(1) Bloque comercial constituido por Chile, Colombia, México y Perú.

domingo, 6 de outubro de 2013

A Paz: de direito e dever a fato punível


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La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 4 de Outubro de 2013


Resulta agora que visitar Havana é um delito. Resulta agora que estar de acordo com a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte como mecanismo de referenda da paz é um crime. Onde está a democracia?

Então, resulta que agora sou um grande sabotador porque sou amigo da Constituinte. Isso não pode ser assim. Isso é um abuso contra um cidadão que tem direitos e deveres”, disse com toda razão o cidadão Álvaro Leyva Durán.
 
Em pleno desenvolvimento de um tema tão importante como é o da participação política, no qual se debate a necessidade de gerar garantias para que a cidadania tenha possibilidade de fazer verdadeiro exercício da democracia, se insiste em ameaçar com a condenação os que, assumindo o direito e o dever de obrigatório cumprimento, que é a luta pela paz, decidam deslocar-se para Havana a fim de contribuir com suas ideias em prol da reconciliação da paz.
 
É o caso da perseguição e estigmatização que se desatou de maneira implacável contra o ex-ministro Álvaro Leyva Durán; um homem que, por três décadas permaneceu ativo na tarefa louvável de buscar caminhos que nos conduzam à finalização da guerra e do dessangramento da pátria.
 
Na mesma atitude de intransigência se atua contra defensores de direitos humanos e do processo de paz, tal como ocorre no caso da ex-senadora Piedad Córdoba, ou todo aquele que levante uma voz crítica frente ao guerreirismo e em favor da uma saída política que implique soluções aos problemas sociais profundos que a Colômbia padece.
 
Em boa hora, o Fiscal Geral da Nação, Eduardo Montealegre, disse que: “Não é um delito viajar a Havana sem permissão do Presidente da República, não é um delito, tampouco, que um funcionário vá a Havana para ter conversações sobre temas de paz com a guerrilhas das FARC ou com o ELN no lugar onde estejam, porque as condutas delituosas estão especificamente assinaladas no código penal, e há uma proibição, porém não é uma proibição que conduza a condutas penais”.
 
Assim as coisas, as temerárias acusações do senhor Juan Fernando Cristo, presidente do Senado, contra Leyva e contra os que, segundo sua imaginação, estariam indo de “turismo” a Havana para falar com as FARC, não são mais que necessidades. Interferências à paz lhe fazem declarações mal-intencionadas de alguém que, como Cristo, agora pretende ser mais papista que o Papa.
 
Em benefício de coadjuvar na construção da paz, em adiante, o país não deverá passar por alto o dito pelo Fiscal Montealegre enquanto a que: não podem ser delito umas conversações, com aproximações que têm uns fins altruístas... e que seria um despropósito pensar que viajar a Havana sem permissão se converta num delito e muito menos numa falta disciplinar.
 
Sempre haverá que relembrar que, como reza o preâmbulo do Acordo Geral de Havana, “a construção da paz é um assunto da sociedade em seu conjunto que requer a participação de todos, sem distinção”.
 
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

Fonte: www.pazfarc-ep.org

sábado, 5 de outubro de 2013

Farc rejeitam ameaças contra os defensores do processo de paz


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As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (FARC-EP) rejeitaram nesta sexta-feira (4) as ameaças do presidente do Senado da República, Juan Fernando Cristo, aos políticos que decidirem participar do diálogo de paz.
Em um comunicado divulgado em Havana, Ricardo Téllez, membro da delegação guerrilheira, citou o caso do ex-ministro colombiano Álvaro Leyva, submetido a perseguição depois que decidiu se integrar aos diálogos e por sua postura favorável a uma Assembleia Nacional Constituinte.

Téllez assinalou, também, a intransigência contra outros defensores do processo de pacificação nesse país, como é o caso da ex-senadora Piedad Córdoba. 

Segundo o texto, "se insiste em ameaçar de judicialização àqueles que, assumindo o direito e o dever de obrigatório cumprimento, que é a luta pela paz, decidirem viajar a Havana para contribuir suas ideias em prol da reconciliação nacional".

Também lamenta que tais situações ocorram em pleno desenvolvimento do tema referente à participação política, segundo ponto da agenda, focado na necessidade de gerar garantias para a existência de um verdadeiro exercício da democracia.

Por outro lado, aprecia as declarações do promotor geral colombiano, Eduardo Montealegre, que não vê nenhum delito em viajar a Cuba sem permissão do presidente colombiano, Juan Manuel Santos.

Ontem, as Farc iniciaram uma nova rodada de conversa, em cujo início o chefe da delegação, Iván Márquez, avaliou como modestos os avanços conseguidos até o momento.

Atualmente, as discussões centram-se no segundo ponto, relacionado à participação política, no qual as Farc apresentaram à opinião pública várias propostas mínimas que pretendem inserir nas negociações.


Fonte Prensa Latina

Os Estados Unidos já não amedrotam ninguém


--> por Thierry Meyssan


A Assembleia Geral da ONU devia estar debatendo por estes dias a materialização dos Objetivos do Milênio. Mas o que realmente preocupa neste momento os diplomatas é um tema muito diferente. Continuam os EUA sendo a superpotência que pretendia ser desde o desaparecimento da União Soviética ou chegou o momento de se livrar da tutela norteamericana?

Os Estados Unidos estimaram em 1991 que com a debacle de sua rival permitiria que se liberasse recuros que até então haviam reservado para seu próprio orçamento militar e poder investi-los para a prosperidade norte-americana. Depois da Operação Tormenta do Deserto, o presidente George Bush pai havia começado a reduzir o formato de suas forças armadas. Seu sucessor, Bill Cliton, fortaleceu aquela tendência. Mas o Congresso republicano eleito em 1995 questionou essa opção e impôs um rearmamento, apesar de que não se percebia inimigo algum no horizonte. Os neoconservadores lançavam assim o país para o assalto ao mundo, com intenções de criar o primeiro império global.

Então ocorreram os atentados de 11 de setembro de 2001 e o presidente George Bush Jr. decidiu invadir, um após o outro, o Afeganistão e o Iraque, a Líbia e a Siria e, em seguida, a Somália e o Sudão para concluir com o Irã, antes de se voltar para a China.

O orçamento militar dos EUA chegou a representar mais de 40% do gasto militar em nível mundial. Mas aquela extravagância chegou a seu fim. Diante da crise econômica, Washington se viu obrigado a optar pela economia. Em um só ano, o Pentágono passou para a reserva a quinta parte dos efetivos de suas forças terrestres, renunciando, além do mais, a vários de seus programas de pesquisa. É evidente que os EUA, apesar de todo o seu poderio - superior ao dos 20 maiores Estados do mundo, incluindo a Rússia e a China - já não estão atualmente em condições de travar grandes guerras clássicas.

De modo que Washington renunciou a atacar a Síria, quando a esquadra russa se posicionou ao longo da costa mediterrânea. Para utilizar seus mísses Tomahawk, o Pentágono teria que dispará-los a partir do Mar Vermelho, tendo esses mísseis que sobrevoar a Arábia Saudita e a Jordânia. Isso obrigaria a Síria e seus aliados não estatais a responder com uma guerra regional, mergulhando, desse modo, os EUA em um conflito demasiado grande para suas capacidades atuais.

Em um artigo de opinião publicado no New York Times, o presidente russo Vladimir Putin abriu fogo ao enfatizar que "o excepcionalismo americano" constitui um insulto à igualdade entre os seres humanos e não pode acarrear outra coisa que desastres. Da tribuna da ONU, o presidente norte-americano Barack Obama respondeu-lhe  que nenhuma outra nação, nem sequer a Rússia, queria suportar o peso que leva os EUA e que se este país se dedica a atuar como polícia mundial é precisamente para garantir a igualdade entre os humanos.

Essa afirmação não é nada tranquilizadora, já que os EUA reafirmam, assim, que se sentem superiores ao resto do mundo e que - enxergando assim - a igualdade entre os humanos não passa de uma questão de igualdade entre seus súbditos.

Mas o fato é que o feitiço já se desfez. A presidenta do Brasil, Dilma Roussef, colheu aplausos ao exigir - também da tribuna da ONU - que os EUA se desculpem por sua espionagem contra o resto do mundo, enquanto que o presidente da Confederação Helvética denunciava a política norte-americana de força. O presidente da Bolívia, Evo Morales, falou em levar seu par norte-americano perante a justiça internacional, acusando-o de crimes contra a humanidade e o presidente sérvio, Tomislav Nikolic denunciou a farsa dos tribunais internacionais que somente condenam os adversários do Império, etc. Passamos, assim, das críticas emitidas por alguns Estados antiimperialistas para uma rebelião internacional generalizada à qual se somam, inclusive, os aliados de Washington.

Nunca antes se havia visto tão questionada a autoridade dos donos do mundo, ao menos publicamente, o que mostra que, depois de seu retrocesso na Síria, já não conseguem intimidar os demais.


Fonte: Al-Watan (Síria)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Putin ganhou a Síria. Obama muda-se para o Irã


 
30/9/2013, M K Bhadrakumar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/World/WOR-01-300913.html

A euforia em torno da aprovação da resolução sobre as armas químicas sírias no Conselho de Segurança da ONU na 6ª-feira está em todas as manchetes, mas permanece no ar um pressentimento obscuro, que ameaça estragar a festa.

Sim, é verdade que, depois de um longo e tormentoso intervalo, quando nada parecia ir bem entre eles, os EUA e a Rússia concordaram, afinal, em torno de alguma coisa. Merece celebração. Mas em seguida começam a emergir indícios de que nem tudo é um mar de rosas entre os dois ministros de Relações Exteriores, John Kerry e Sergey Lavrov, e que houve momentos tensos. O déficit de confiança é palpável.
Passo potencialmente significativo 

Não há dúvidas de que há no ar muita irritabilidade impaciente. O presidente Barack Obama não voltou a dizer palavra ao presidente Vladimir Putin da Rússia, depois da conversa de 20 minutos durante a reunião do G-20 em São Petersburgo, há quase um mês.

Na fala do sábado, Obama soou estranhamento modesto. Faltava eloquência. O que ele compreendera da resolução teve de ser explicado por Lavrov, no dia seguinte, falando à televisão estatal russa.

Obama entendera que a resolução “é legalmente vinculante, será aplicável e fiscalizável e haverá consequências para a Síria se não cumprir o que foi acordado” e, por isso entendera que a resolução “vai além, de fato, do que se poderia obter mediante ação militar.”

Obama disse que a resolução é “endosso explícito” do processo de Genebra sobre a Síria. E que estava “muito esperançoso” quanto às possibilidades. Mas, imediatamente, se manifestou preocupado com “se a Síria cumprirá todos os compromissos” e reconheceu “preocupações legítimas” com a implementação da resolução em condições de guerra civil.

Mas, tudo considerado, Obama cautelosamente avalia que a resolução do Conselho de Segurança “representa passo potencialmente significativo”. Mas estava ali, potencialmente inaudível, o seu suspiro de alívio por não ser necessária qualquer ação militar contra a Síria – pelo menos por hora.

A reticência de Obama contrasta com o tom triunfalista com que Lavrov anunciou a resolução como vitória da diplomacia russa, e que “não foi fácil”. Lavrov listou os ganhos:

a Rússia garantiu que os especialistas da Organização para Proibição de Armas Químicas continuem a ser os principais atores na implementação da resolução, não o Conselho de Segurança da ONU;

– A Rússia “alcançou seu objetivo” de assegurar que não restem “pretextos ou acrobacias” que levem ao uso da força, considerando a experiência líbia e as “capacidades de nossos parceiros para interpretar resoluções do Conselho de Segurança da ONU.”

– Qualquer ataque militar contra a Síria, no âmbito da resolução “está fora de questão”.

– Enquanto Obama põe o ônus da implantação da resolução sobre os ombros do presidente Bashar Al-Assad e seu governo, Lavrov chama a atenção para a responsabilidade que cabe aos mentores e patrocinadores dos ‘rebeldes’ sírios, para garantir que seus “prepostos adotados” não cometam atos de provocação. 

Lavrov tem todos os motivos para estar satisfeito por Moscou ter negociado uma solução ótima. O que realmente conta é que a resolução não contém nenhum mecanismo que permita sanções contra a Síria no caso de não cumprimento; nem, tampouco, admite qualquer ação militar por potências estrangeiras.

A Rússia também bloqueou qualquer tipo de condenação ao regime Assad por pressuposto uso de armas químicas. De fato, os norte-americanos aceitaram tacitamente uma versão muito diluída da sua doutrina de “linha vermelha” autoproclamada, dado que a resolução distribui o ônus entre os dois lados, regime e ‘rebeldes’.

Não nos enganemos

Lavrov passou por cima das condições de guerra civil que imperam na Síria e, de fato, a principal lacuna da resolução, avaliada hoje, é não incluir um mapa do caminho para um cessar-fogo.

A probabilidade de a implantação do acordo começar a encontrar dificuldades dentro de poucos meses é terrivelmente alta. Se acontecer, a possibilidade de o Conselho de Segurança aprovar uma segunda resolução nos termos do Cap. 7º da Carta da ONU [que autorize o uso de força militar] é muito remota, dada a tensão que, hoje, ainda persiste entre EUA e Rússia.

Dito em termos claros: a cooperação do regime sírio é absoluta e completamente voluntária. Mas deve-se ter em conta que a resolução priva o regime sírio de vários bilhões de dólares em equipamento militar, que tem sido fator de contenção estratégica de qualquer agressão externa.

No clima dominante entre os protagonistas na guerra civil, engajados em combate mortal e procurando vitória completa, o regime sírio não pode ser dito culpado se decidir conservar , para alguma emergência, uma parte de seus arsenais químicos. Talvez 10% dos arsenais, como disse Henry Kissinger; talvez mais, ou menos. Mas a alta probabilidade de que o faça já está sendo abertamente discutida.

O presidente da Turquia Abdullah Gul foi franco na entrevista que deu à CNN no fim de semana, alertando que “não nos enganemos” com a ideia de que Assad cumprirá o acordo sem a ameaça de força militar. Disse que “se vai haver limpeza real, será maravilhoso. Será bom para todos. Mas se só se vai dar algum tempo, de modo que no fim ainda haja armas químicas [na Síria], nesse caso será perda de tempo.”

Gul é uma das vozes mais moderadas nessa parte do mundo. Mas, vindas de um país envolvido até o pescoço na guerra civil síria, suas palavras não trazem bons augúrios.

De fato, a atitude dos grupos da oposição síria – e, mais importante, dos estados regionais que os patrocinam – é fator altamente crítico.[1] Interessante: ninguém celebrou em Ancara, Amã, Doha ou Riad, a aprovação da resolução do Conselho de Segurança sobre a Síria.

Essas capitais regionais, que participam do jogo pelo poder na Síria, jamais se sentiram confortáveis ante a evidência de que a agenda de mudança de regime tivesse sido superada pela iniciativa da entrega das armas químicas.

Quanto aos  grupos da oposição, o quadro é ainda mais desalentador. Estão irrecuperavelmente divididos e cada dia mais furiosamente empenhados em lutar uns contra os outros; mas a única coisa que os une é a rejeição, de todos os grupos, à iniciativa das armas químicas.

O general Salim Idris, líder relativamente moderado do Conselho Militar, que, pelo menos em tese supervisiona o Exército Sírio Livre, disse claramente que “[a iniciativa das armas químicas] não nos interessa”. É trabalho de Washington trazer para bordo a turma de Idris. Mas, como até um comentarista da Radio Free Europe/Radio Liberty já admitiu,

“Com a oposição tão negativa, ainda falta quantidade enorme de diplomacia para garantir que os grupos ‘rebeldes’ não concluam que seria de seu máximo interesse sabotar todo o acordo, na esperança de obter uma intervenção militar ocidental que os ajude. Mas é trabalho diplomático complicado, porque os grupos de oposição que mais crescem na Síria hoje, são os islamistas, que não têm nenhum ou quase nenhum laço que os aproxime dos interesses das potências ocidentais.”

No que tenha a ver com grupos fundamentalistas linha-duríssima, a situação é realmente apavorante. Semana passada, 13 das principais facções ‘rebeldes’ anunciaram que rejeitam a liderança da oposição no exílio apoiada pelo ocidente; anunciaram simultaneamente a formação de uma “Aliança Islâmica”.

Estima-se que esses 13 grupos controlem dezenas de milhares de militantes [o presidente Bashar al-Assad tem dito “terroristas”] e, como a Radio Free Europe/Radio Liberty observou, “se a Aliança Islâmica se fixar, pode significar que as potências ocidentais não terão influência alguma sobre o que aconteça no solo em grande parte do norte e em partes de Homs e Damasco”.

Tudo isso considerado, se os grupos fundamentalistas entenderem que têm interesse estratégico em capturar os arsenais químicos ou em sabotar, seja como for, a implantação da resolução do Conselho de Segurança, os EUA e seus aliados ocidentais (e Israel) serão arrastados para o conflito. Os mais cínicos podem até dizer que esse horror potencial seria o álibi perfeito para uma intervenção militar ocidental – com ou sem uma segunda resolução do CS-ONU.

Uma pirueta diplomática

Um ponto no qual o cálculo dos russos pode não dar certo está na confiança que Moscou tem em seu poder de veto no Conselho de Segurança. Mas de fato, hoje, alastra-se a indignação contra as credenciais dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (P5) – EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia e China. Esse foi tema recorrente nos discursos de inúmeros presidentes na Assembleia Geral da ONU, que está em andamento. Nas palavras de John Key, primeiro-ministro da Nova Zelândia,

“Parece que vivemos segundo uma prática pela qual os membros permanentes podem não apenas bloquear ações, pelo veto. Eles também parecem ter acesso privilegiado a informações e podem impedir que o Conselho se reúna, nos casos em que isso interesse aos seus objetivos coletivos.”

Key disse à imprensa que o funcionamento do Conselho de Segurança é tão completa farsa, que os diplomatas apressam-se para por fim às discussões e ‘concluir’, para que todos possam correr ao Twitter para divulgar a ‘notícia’, antes, até, de informar os membros não permanentes do Conselho de Segurança.
 

Em resumo, a incrível pirueta diplomática que Rússia e EUA conseguiram executar no caso da Síria, em larga medida criou meios para que as duas superpotências saíssem de uma situação complicada. Os EUA livraram-se de ter de usar força militar (que, provavelmente, jamais seria sua escolha), e a Rússia saiu da posição de “
Mr. Não”, aos olhos do ocidente). De fato, foi um casamento de conveniência, que resultou na resolução do Conselho de Segurança.

Mas não teria a Rússia assumido responsabilidade desproporcional, para criar o ‘rebento’? Considere-se o seguinte.

Obama, hoje, está claramente se acomodando na poltrona de trás, no que tenha a ver com a Síria, e concentra-se na questão do Irã, carregada de consequências profundas, diretas e de longo prazo para interesses vitais dos EUA e para as preocupações núcleo dos EUA e de seus aliados no ocidente e no Oriente Médio – o que a Síria nunca foi nem pode ser.

Assim sendo, restou à Rússia administrar a lata de minhocas? Difícil dizer, mas, sim, o perigo existe e está aí, bem visível.

Por outro lado, os EUA cederam aos russos o lugar de destaque no Conselho de Segurança da ONU. À primeira vista, a possibilidade de um ataque militar dos EUA à Síria está desaparecendo tão depressa e para tão longe, no fundo da cena, que já nem se pode dizer que ainda exista, como preocupação séria, na zona de consideração do pensamento de Obama.

Tudo faz crer que a diplomacia russa alcançou um sucesso extraordinário, que, seja lá como for, é o que transparece para a opinião pública internacional e serve de cenário para uma espetacular “chegada” da Rússia, como potência global, ao cenário do Oriente Médio.

Mas, se se examina mais de perto, há o perigo de que os russos estejam pressionando demais adiante, com seus espetaculares sucessos diplomáticos na Síria nas últimas semanas, ao mesmo tempo em que marginalizam já a comunidade internacional e, sobretudo, a China, o melhor amigo dos russos. Isso, por um lado.

Por outro lado, funcionários russos já disseram que a Organização do Tratado Coletivo de Segurança [orig.
Collective Treaty Security Organization (CSTO)] liderado por Moscou, deslocará forças para a Síria para garantir a segurança do pessoal técnico da Organização para a Proibição de Armas Químicas e para guardar os arsenais de armas químicas. Esse CSTO é uma folha de parreira: tudo isso será missão de um contingente militar russo. Ora! E se os ‘rebeldes’ sírios fizerem correr sangue russo em território sírio?

Países como Arábia Saudita e Qatar, patrocinadores e viabilizadores dos ‘rebeldes’ fundamentalistas, sobretudo dos combatentes salafistas, não estão gostando da ideia de haver russos armados se movimentando num gramado que o espião chefe da Arábia Saudita, o príncipe Bandar Sultan, fantasia como seu
playground exclusivo.
O útero do tempo

Não que tenha sido alguma espécie de armadilha que Washington tivesse armado para o Kremlin. Mas às vezes acontece que o que parece empenho e decisão para fazer avançar algum projeto diplomático, cheio de boas intenções, resulte em consequências trágicas. O que se vê hoje, é que já e pelos próximos meses, a Rússia estará engalfinhada em combate contra a “
jihad” na Síria. E Obama está mudando de assunto.

Depois de dar mão relativamente livre aos russos para que exercessem o privilégio de pôr os pés nos campos minados da Síria, Obama pode concentrar-se em front muito mais produtivo e que terá impacto maior e mais significativo sobre as políticas para o Oriente Médio, que o destino de Bashar Al-Assad: a normalização das relações entre EUA e Irã.

A rapidez com que Obama mudou-se, semana passada, para o Irã, é simplesmente inacreditável. Depois da fala de Obama na Assembleia Geral da ONU, John Kerry reuniu-se com seu equivalente iraniano, Mohammad Zarif. Parece que discutiram um cronograma de um ano, de um mapa do caminho para tirar do impasse a questão nuclear.

E enquanto Kerry-Zarif se encontravam, surgiu a excelente ideia de pôr Obama e Rouhani numa conversa por telefone. Aconteceu, é claro, casualmente, pouco antes de Rouhani embarcar para o longo voo até Teerã.

O que se sabe, do relato que Obama fez desse telefonema histórico, tanto quanto do relato de Rouhani é que a árvore das hostilidades entre EUA e Irã começa a despedir-se das agressivas folhas avermelhadas, como árvores no outono.

Rouhani recorreu ao Twitter, quando deixava o solo dos EUA, para relatar a conversa de 15 minutos com Obama. Eis o relato dele, pelo Twitter:

@BarackObama para @HassanRouhani: Meus respeitos ao senhor e ao povo do #Irã. Estou convencido de que as relações entre Irã e EUA afetarão enormemente a região. Se pudermos progredir na #questão nuclear, outras questões como a #Síria, com certeza serão afetadas positivamente. Faço votos de que o senhor faça boa viagem, em segurança, e peço desculpas pelo exasperante tráfego em #NYC.

@HassanRouhani para @BarackObama: Sobre a  #questão nuclear, com #vontade política há como resolver rapidamente o caso. Estamos esperançosos do que veremos do P5+1 [P5 plus Alemanha] e do seu governo em especial, nas próximas semanas e meses. Sou grato por sua #hospitalidade e pelo telefonema. Tenha um bom-dia, senhor presidente.

@BarackObama para @HassanRouhani: Obrigado. Khodahafez [literalmente, em persa, “Que Deus o acompanhe”].

Que ninguém se engane: Obama tem esperança de voltar à questão síria, no futuro – e de mãos dadas com Rouhani. Até lá, se tratará só – ou, bem,
principalmente – do privilégio russo para administrar a lata de minhocas. 

O fato de que Obama não cuidou de falar com Putin sobre a Síria durante um mês inteiro, desde o encontro em São Petersburgo, dias 5-6 de setembro, mas falou da Síria no primeiro momento de sua primeira conversa com Rouhani permite adivinhar o que se esconde no útero do tempo. Não apenas deixa ver a deriva das prioridades dos EUA: também revela a alquimia pobre das relações entre EUA e Rússia. 


[1] Terroristas ativos hoje na Síria, por nacionalidade (Relatório de IHS Jane’s, 26/9/2013, Al-Manar, Líbano, com mapa, em http://www.almanar.com.lb/english/adetails.php?eid=112638&cid=31&fromval=1&frid=31&seccatid=91&s1=1) [NTs].

Colômbia: 5 mil corpos foram encontrados em 4 mil fossas comuns


De acordo com um relatório da Promotoria de 2007, os departamentos [Estados] com maior número de corpos encontrados foram Caldas, Casanare, Risaralda e Cundinamarca.

Ao todo, a Unidade de Justiça e Paz registrou 5.322 mortos em seis anos, durante uma investigação da qual participaram antropólogos, arqueólogos forenses, fiscais, peritos e psicólogos do Corpo Técnico de Investigação da Promotoria.

Em Casanare foram encontradas 227 vítimas, seguido por Cundinamarca com 130 restos humanos em 86 fossas comuns, acrescenta a fonte que disse que ainda há 561 corpos não identificados.

Fonte: Prensa Latina

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A estratégia dos EUA para América Latina


Por Jim Jobe*

Esta é uma das causas de a Casa Branca ter feito “ouvidos surdos” ao “clamor” de governos democráticos e da sociedade civil da região por um relacionamento diferente, afirma o documento Hora de Ouvir, divulgado no dia 18, pelo Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos (Wola) e outros dois centros de pensamento.

Embora a ajuda militar e de segurança dos Estados Unidos para a região venha diminuindo desde 2010, as quantidades em dólares podem ser enganosas, segundo um dos coautores do informe, Adam Isacson, analista da Wola e especialista em Colômbia. Embora os grandes pacotes de assistência, como o Plano Colômbia anti-insurgente e antidrogas, diminuam ou cheguem ao fim, “estão em crescimento outras formas menos transparentes de cooperação entre forças militares”, pontuou.

Isto se deve em parte ao fato de a administração de muitos programas ter passado do Departamento de Estado, que tem normas de direitos humanos mais rígidas, para o Pentágono. Além disso, as Forças de Operações Especiais – unidades de elite como os Boinas Verde do exército ou os grupos Mar, Ar, Terra da marinha (Seal) – realizam mais treinamento de efetivos latino-americanos e caribenhos, em razão de sua retirada do Iraque e sua redução paulatina no Afeganistão. Na última década, esses grupos mais que duplicaram e agora somam cerca de 65 mil homens.

Seu comandante, o almirante William McRaven – responsável pela ação que levou à morte de Osama bin Laden – se mostra especialmente agressivo, buscando missões para suas tropas em novos teatros de operações, inclusive na América Latina e no Caribe, onde estão treinando milhares de militares. “Você pode treinar muita gente pelo preço de um helicóptero”, indicou Isacson à IPS.

Este maior investimento em operações especiais faz parte de uma estratégia mais ampla do Pentágono (Departamento de Defesa), que consiste em manter uma presença de “baixo impacto” em todo o mundo, reforçando sua influência nas instituições militares locais. Porém, o Pentágono é muito menos transparente do que o Departamento de Estado, e é comum seus programas não estarem sujeitos às mesmas exigências de direitos humanos, nem ao mesmo grau de controle parlamentar, como os da chancelaria.

E mais, McRaven tenta obter o poder de deslocar forças especiais em diferentes países sem consultar embaixadores norte-americanos junto a esses governos e nem mesmo o Comando Sul dos Estados Unidos. Se conseguir isso, será mais fácil rastrear o que fazem estas unidades de elite e saber se trabalham com forças locais cujos maus antecedentes em direitos humanos tornariam impossível receberem ajuda ou treinamento norte-americano, de acordo com a lei Leahy.

Segundo Isacson, o comando de McRaven tentou neste verão boreal selar um acordo com a Colômbia para estabelecer nesse país um centro de coordenação de operações especiais regionais, sem consultar o Comando Sul nem a embaixada em Bogotá. “Estes fatos significam que o papel militar na elaboração da política externa está ficando maior e que as relações entre forças militares começam a ter mais importância do que as diplomáticas”, ressaltou.

De acordo com o documento, outra tendência preocupante é que alguns países, especialmente a Colômbia, começam a treinar as forças militares e policiais vizinhas, e é frequente que por trás destas ações haja incentivo e financiamento dos Estados Unidos. Embora os militares colombianos tenham antecedentes muito polêmicos em matéria de respeito aos direitos humanos, a oficiais desse país foram dados papéis importantes em políticas destinadas a deter crimes fronteiriços e o narcotráfico, como a Iniciativa Regional de Segurança para a América Central, a Iniciativa Mérida e a reforma policial em Honduras, segundo o informe.

As novas tecnologias de segurança, os drones (aviões não tripulados) e a ciberespionagem – como a que causou o cancelamento da visita a Washington da presidente Dilma Rousseff – trazem novos e grandes riscos para o clima político e as liberdades civis da região, acrescenta o informe. A estes fenômenos soma-se a persistência da “guerra às drogas” de Washington, imune aos cada vez mais ruidosos clamores por mudança feitos por presidentes e ex-presidentes, pela Organização dos Estados Americanos e pela sociedade civil organizada da região.

As burocracias da DEA “são notavelmente resistentes à mudança e reticentes a repensar e reavaliar seus objetivos e suas estratégias”, disse à IPS a coautora do informe, Lisa Haugaard, diretora do Grupo de Trabalho para Assuntos Latino-Americanos. Consultados pela IPS, o historiador Carlos Medina Gallego, do Grupo de Segurança e Defesa, da Universidade Nacional da Colômbia, foi mais longe. Há denúncias de um “plano B” para a guerra oficial contra as drogas, que opera nos territórios e países produtores e é desenvolvido por “mercenários”, apontou.

Além dos acordos oficiais de Bogotá com agências antidrogas e forças especiais dos Estados Unidos, há alguns “critérios” de que esses acordos sejam acompanhados por “ações de mercenários que operam sob determinadas características e regulações próprias, com autonomia, em ações contra o narcotráfico”, acrescentou Gallego. “Isto é parte de uma estratégia integral na qual são combinadas ações formais e outras encobertas e que buscam alcançar objetivos importantes”, afirmou.

No entanto, “em matéria de direitos humanos, são profundamente violatórias e nenhum acordo poderia contemplá-las”, ressaltou o historiador. Como os informes mostram que “a guerra antidrogas não teve êxito, além de comprometer territórios, populações, meio ambiente e fumigações”, há grande dificuldade para justificar orçamentos e investimentos, destacou. Por essa razão busca, “pela via encoberta, própria dos mercados mercenários, desenvolver ações de capacitação e de ação direta, que vão levando grande parte das garantias de direitos humanos, mas também a institucionalidade”, enfatizou.

Em 2010, a quantia da ajuda norte-americana à América Latina atingiu seu ponto mais alto em mais de duas décadas, quase US$ 4,5 bilhões, com desembolsos para a Iniciativa Mérida para o México e a América Central e pelo maior fluxo de ajuda para a recuperação do Haiti após sofrer devastador terremoto. Contudo, em 2011, a ajuda caiu drasticamente, para apenas US$ 2,5 bilhões, e se espera que para o ano fiscal de 2014, que começa em 1º de outubro, não passe de US$ 2,2 bilhões, diz o informe.

A ajuda militar e de segurança também teve seu pico em 2010, com US$ 1,6 bilhão. Mas desde então caiu para cerca de US$ 900 milhões anuais, em grande parte pelo final do Plano Colômbia e da Iniciativa Mérida. A América Central é a única sub-região na qual a ajuda, em geral, está aumentando.

*Jim é correspondente da IPS de Washington para Diálogos do Sul – Com a colaboração de Constanza Vieira (Bogotá).

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, determina expulsão de diplomatas americanos



Leandra Felipe* 
Correspondente da Agência Brasil/EBC

Bogotá – O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou hoje (30) que vai expulsar três diplomatas dos Estados Unidos do país. Segundo ele, os funcionários da embaixada americana em Caracas, participaram de reuniões com a oposição no país para elaborar “planos de sabotagem energética e econômica.” Yankees go, home [voltem para casa]”, disse.

Segundo ele, a decisão foi fruto de uma investigação detalhada. “Investigamos durante vários meses e detectamos que um grupo de funcionários da Embaixada dos Estados Unidos se reuniu com a extrema direita, para financiá-los e apoiá-los em ações de sabotagem elétrica e na área econômica do país. Tenho provas em minhas mãos”, declarou.

Ele disse que deu instruções à Chancelaria do país para notificar os diplomatas Elizabeth Hunderland, David Mutt e Kelly Keiderlinh, para que em 48 horas deixem a Venezuela e regressem aos Estados Unidos. “E não importa as ações que o governo americano adote como resposta”, ressaltou.

No começo de setembro, o país sofreu um apagão elétrico que atingiu 60% do território venezuelano. Dias depois o governo anunciou ter provas de que o sistema fora sabotado. Segundo, Maduro, pela direita do país. Também há problemas inflacionários, com o câmbio paralelo que pressiona o bolívar, moeda venezuelana. Além da alta inflação e uma crise de abastecimento de produtos alimentícios e de higiene.

Além da expulsão dos diplomatas, Maduro também não participou da 68ª Assembleia das Nações Unidas, em Nova York, na semana passada. Ele não compareceu à reunião em protesto, ao acusar o governo dos Estados Unidos de não ter concedido todos os vistos à sua equipe de trabalho. Outro motivo alegado pelo presidente venezuelano para não ir à ONU foi a negativa de sobrevoo que o governo venezuelano recebeu para sobrevoar o espaço aéreo americano em uma viagem à China.

Maduro voltou a dizer que a Venezuela é vítima de um “complô nacional e internacional de desestabilização”. “Vivemos uma guerra, elétrica, econômica e psicológica que pretende acabar com a revolução bolivariana”, disse.


*Com informações da Tv Multiestatal Telesur

Edição: Aécio Amado


http://www.youtube.com/watch?v=o8Z-JVN9j9Q#t=170  (COMPLETO) Nicolás Maduro anuncia la expulsión de 3 funcionários

http://www.youtube.com/watch?v=j4sfgx0o7Nk   Vea por qué fueron expulsados los funcionarios diplomáticos estadounidenses