"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A criminalização do protesto social no México e a busca por respostas


1. Mais uma vez o estado de Morelos, como quando em 1910 foi encabeçado por Emiliano Zapata, toma os caminhos da Revolução. Mas 100 anos depois não é apenas uma revolução agrária, hoje é também uma batalha contra a privatização da educação, dos serviços de saúde, dos fundos de pensão e todos os males estruturais do capitalismo.

Com um governo absolutamente de direita em Morelos, que se sustenta com o apoio empresarial e do narcotráfico, protegido pelo panismo a partir da Presidência da República, 25 mil professores da seção 19 do SNTE, seguem há mais de 50 dias em luta nas ruas, em um combativo grupo que rodeia o palácio do governo. Hoje os professores de Morelos são a vanguarda da luta magisterial e dos trabalhadores mexicanos. Por isso, ante a feroz repressão do governo, a luta de Morelos deve respaldar-se.

2. Uns dois mil integrantes da Secretaria de Defesa Nacional (Sedena), assim como as políticas Federal Preventiva (PFP) e estatal desalojaram violentamente pais de família do poovoado de Xoxocotla, município de Puente de Ixtla (a 40 minutos de Cuernavaca) que há 11 dias bloquearam a rodovia federal Cuautla-Jojutla, com um saldo de 10 feridos, 16 presos, entre eles a dirigente Rosalinda Beltrán Salgado, além de automóveis e moto-táxis destruídos. O bloqueio ficava na entrada de Xoxocotla, que fica a uns 40 minutos da capital do estado, exigindo que o governador, Marco Antonio Adame (do PAN), desse resposta aos professores que se encontram em greve. Desde quinta-feira as forças policiais vêm desalojando professores e pais de família que os apóiam.

3. O governo do PAN busca destruir o movimento magisterial e de pais de família de Morelos assim como fez com o dos professores e a APPO de Oaxaca há dois anos. As batalhas do povo Oaxaquenho pela educação e contra o governador do PRI, Ulisses Ruiz, foram altamente heróicas. Durante sete meses (de maior a dezembro de 2006) os professores, logo integrados à APPO, mobilizaram com marchas, plantões e vigílias milhões de pessoas, cansadas de um governo opressor. Ainda assim, os déspotas entre os líderes do PRI e o governo panista (com a participação de uma fração do PRD) respaldando o funesto governo de Ulisses Ruiz, impediram a queda deste e, ao mesmo tempo, respaldaram a repressão, as prisões e os assassinatos de dirigentes. Os oaxaquenhos seguem em pé de guerra, mas acuados.

4. A mesma estratégia de Oaxaca (unidade do PAN e o PRI, com o PRD fazendo vista grossa) está sendo utilizada em Morelos. Apesar disso, o movimento deste sábado, talvez pela sua proximidade com o DF, parece reunir mais apoios que o movimento de Oaxaca. Por exemplo, no dia 28 de setembro celebramos (a CNTE) nossa assembléia nacional de representantes em Cuernavaca, no dia dois de outubro realizamos uma grande marcha nessa cidade, da esplanada da Lua até o Zócalo e quarta-feira passada as seções 9, 10 e 11 realizaram durante a noite um bloqueio no Eixo Central, Lázaro Cárdenas, do DF. Por que o governo autou com tamanha violência em Oaxaca e Morelos? Porque são manifestações realmente independentes que desnudam a política governamental, que demonstram os interesses inconfessáveis que os governos panistas e priístas representam.

5. Enquanto os professores são brutalmente e injustamente reprimidos, os funestos meios de informação (imprensa escrita, rádio e televisão) fazem campanhas desprestigiando a luta dos professores que, segundo propagam: “com greves e paralizações, abandonam as pobres crianças que não tem nenhuma culpa”. Esses meios silenciaram de propósito o abandono por parte do governo à educação, a aplicação incorreta dos pressupostos, o despotismo das autoridades educativas, a situação em que vivem os professores e os estudantes. Querem que o poovo pobre e oprimido, os pais de família, já não dêem seu apoio às lutas dos professores. O que se pode esperar de meios de (des)informação como Televisa, TV Azteca ou a Rádio Fórmula, que são propriedade dos maiores multimilionários mexicanos que multiplicam seus capitais com o apoio do governo?

6. A seção 19 de Morelos, a 14 de Guerrero, a 9 do DF, a 22 de Oaxaca e a 18 de Michoacán, devem estar muito atentas às políticas repressivas do governo. Não devem se esquecer que o exército está nas ruas por ordens do presidente ilegítimo Calderón e que as diferentes polícias estão em processo de crescimento e reorganização. A polícia política “científica”, assim como seus “orelhas”, “madrinhas” e “soprões” penetraram todas as organizações de trabalhadores para destruí-las por dentro ou por fora. Os movimentos dos trabalhadores têm sido, ao menos desde o fim dos anos setenta, muito abertos, muito legais, muito pacíficos; ainda assim o governo os vigia, persegue e reprime com força. Quem sabe seja a hora de fechar as colunas e descobrir os agentes infiltrados. Nossos movimentos são legais e respaldados pela Constituição, mas não devemos esquecer que a burguesia defenderá seu poder a qualquer custo.

7. Qual deve ser a resposta dos trabalhadores perante a repressão de suas lutas? A mobilização de massas que impeça a repressão; a paralização (mediante bloqueios) de instituições de governo e privadas que obrigue o poder a resolver de imediato; acordos de unidade e luta entre organizações de esquerda em pontos corretos. Liberação imediata de presos de Atenco; congelamento da privatização dos recursos energéticos; renúncia dos governadores de Oaxaca e Morelos; suspensão da chamada “Aliança para a Qualidade Educativa” que não é nada além da privatização e etc. Sem descartar outros tipos de lutas anticapitalistas como paralizações e folgas, batalhas parlamentares ou armadas ou o anarquismo radical dos jovens punk que estão cheios de repressão, oportunismo, autoritarismo, paternalismo e alienação ideológica.


8. A criminalização do protesto, que nos últimos dois anos habilmente o governo tem chamado de “luta contra o narcotráfico e a delinqüência”, va tomando de maneira rápida o caminho do Plano Colômbia que começou contra o narco para logo converter-se em um plano assassino contra a luta social e as guerrilhas das FARC. No México, à medida em que se incrementem os protestos nesse mesmo ritmo se aprofundará a aplicação do Plano Mérida, ou melhor, o Plano México. Nos funestos meios de informação, para justificar a repressão contra os movimentos sociais, começou-se a difundir que o narcotráfico mexicano e colombiano penetrou no México através das organizações de esquerda. Isso quer dizer que os militares do exército e a polícia (que dão tudo na mesma coisa), para a alegria dos poderosos empresários, logo começarão com as prisões domiciliares e os assassinatos de dirigentes sociais.

O artigo, em espanhol, encontra-se em ABP Notícias.

A Drummond: uma companhia mineradora do império que nos rouba sem vergonha


por Nicolás Correa


Núcleo Bolivariano José Carlos Mariátegui/Colombia



No dia 5 de Outubro de 2008 foi publicado na página 1-25 do diário oligarca El Tiempo uma entrevista que o famoso Yamid Amat fez ao coordenador de financiamento dos paramilitares do departamento de Cesar e La Guajira nos últimos anos por parte da transnacional gringa Drummond e seu presidente na Colômbia, Augusto Jiménez.

Na entrevista falou-se sobre o carvão, sobre o carvão colombiano para ser exatos, e de maneira descarada, com palavras sofisticadas e técnicas, o criminoso Jiménez explicou a terrível operação de saque que a Drummond montou no território nacional na cara do país, com a cumplicidade dos governos de turno, situação que tornou-se quase que um convite a que nos roubassem ainda mais por parte do governo Uribe com a sua “confiança dos investidores”, os subsídios ao capital e sua fé cega e estúpida, própria de qualquer neoliberal selvagem de meio pêlo no livre mercado, dentro desse sistema internacional de desigualdades sem par.

Localização do Saque

A Drummond tem no departamento de Cesar a mina La Loma, com uma extensão de quase 10 mil hectares, que ainda possui duas minas anexas que, somadas à mina El Descanso, de 40 mil hectares,que em breve será a maior mina a céu aberto do mundo, somam um total de mais de 2 bilhões de toneladas em reservas de carvão (2.000.000.000), sem contar as participações da Drummond no departamento de La Guajira. Deve-se levar em conta que, por alguma razão que desconhecemos mas podemos imaginar, o criminoso Jiménez não quis detalhar a fundo qual é a situação do roubo da Drummond em La Guajira, possivelmente um dos departamentos mais pobres e o que deveria receber a maior quantidade de regalias nesse negócio parasita que tantas transnacionais do carvão fizeram há muitos anos com o govereno oligarca e incapaz, que não esteve à altura do momento histórico que o obrigava a trabalhar na exploração estatal e sustentável de nossos recursos naturais.

O Roubo em cifras

Segundo o que disse o coordenador dessa empresa ladra gringa, o senhor Jiménez, atualmente a Drummond roruba por ano 70 milhões de toneladas de carvão colombiano, que é vendido no mercado internacional a mais de 100 dólares por tonelada. Os planos da empresa ladra é chegar em poucos anos a saquear mais de 100 milhões de toneladas anuais de carvão colombiano das minas anteriormente mencionadas, o que significa um roubo para a Colômbia sobre os 10 bilhões de dólares; como o descarado Jiménez disse, um terço das exportações colombianas e mais de 10 por cento do mercado internacional de carvão. Em outras palavras, se a exploração do carvão na Colômbia não fosse um roubo descarado de umas quantas transnacionais e, ao invés disso, fosse uma exploração de caráter estatal, onde até o último centavo dos lucros pertencessem ao povo colombiano, poderíamos ser comparados com a Venezuela de hoje em dia ou os países do Oriente Médio, que controlam suas incríveis reservas de petróleo através do governo e geralmente em prol do crescimento econômico do país e, como na Venezuela, cuidando da distribuição equitativa desses recursos, e assim não aconteceria o que acontece hoje, quando governo que se elegem período após período entregam os recursos naturais aos capitalistas transnacionais com um sorriso na cara.

Além de ladrões, EXPLORADORES!

Um dos motivos da entrevista que Yamid Amat realizou foi a finalização da greve de trabalhadores da Drummond que, além de uma reivindicação salarial, buscavam o manejo, por parte do sindicato, dos programas sociais da empresa, mas o criminoso Jiménez, sem hesitar, disse que para ele era inaceitável que o sindicato de trabalhadores da Drummond manejasse os programas sociais da empresa em suas zonas de influência. Quem, senão o sindicato, para trabalhar em prol do bem-estar social dos trabalhadores da empresa?

Jiménez ainda tentou justificar o absurdo das reivindicações salariais dos empregados, já que o salário mínimo de um empregado efetivo está em 2 milhões de pesos, mas o próprio Jiménez disse que na Drummond existem apenas 4.000 trabalhadores efetivos, enquanto existem 12.000 que são trabalhadores indiretos, o que significa que, para cada trabalhador que recebe o salário mínimo, na Drummond existem 3 que estão recebendo um salário miserável, o que é uma exploração descarada do povo colombiano. Além de nos roubarem, usam nosso próprio povo para o roubo. Nos exploram!

Os planos dos ladrões num futuro próximo

O descaradamento e a fanfarronice de Jiménez chegou a um ponto tal que ele explicou, a todos os leitores e leitoras consumidores de El Tiempo, uma nova fase do saque indiscriminado que a Drummond faz no território colombiano, graças ao qual já está quase terminando a construção de uma ferrovia de 190 quilômetros no Cesar, capaz de transportar mais de 100 milhões de toneladas de carvão anuais e que vai das minas mencionadas até um porto que a própria Drummond construirá junto a outras ladras de caráter transnacional com a capacidade de manejar mais de 80 milhões de toneladas de carvão por ano. Em outras palavras, como sempre aconteceu ao redor do mundo, a Drummond rouba nosso carvão e em pouco tempo terá montado toda a estrutura, assim como já está montada em El Cerrejón, para que esse carvão vá embora do país no menor tempo possível e assim vão embora quase 100% dos recursos que merecemos como povo dono e soberano de nosso território, mas com um governo vendido ao capital transnacional e sem nenhuma ética que o chame a defender nossos recursos naturais e dedicar-se a trabalhar em políticas de exploração sustentável por parte do Estado desses mesmos recursos, que terminam enriquecendo apenas a alguns gringos capitalistas transnacionais. Como se fosse pouco, a Drummond se prepara para apropriar-se do recente descobrimento de uma reserva de gás metano de mais de 2.3 trilhões de pés cúbicos (2.300.000.000.000), e é de se esperar que o Governo Uribe lhe conceda o caminho livre para o saque descarado que hoje faz apenas com que o carvão cause tristeza.


Ao mesmo tempo, todo este saque nos dá muita vontade para seguir trabalhando por uma Nova Colômbia, Grande e Socialista, já que uma problemática como esta demonstra ao Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia que sua luta é justa e, sobretudo, necessária em meio a tantas violações aos direitos do povo colombiano como soberano de seu território e dono dos recursos que nele se encontram.


O texto encontra-se em ABP Notícias.


Colapso financeiro espalha-se por todo o mundo


–O combate por alimentos, combustíveis e habitação desafia o capitalismo


por Jaimeson Champion [*]


Nos últimos anos muitos economistas burgueses avançaram a teoria de que economias capitalistas por todo o globo haviam em grande medida "desconectado" da maior economia do mundo, os EUA. A teoria dizia que o advento da União Europeia e o crescimento de poderosas economias na Ásia haviam limitado o risco de que uma crise económica na economia dos EUA pudesse disseminar-se globalmente.


Chega de ilusões. O sistema capitalista global está agora nos espasmos da maior catástrofe económica desde a Grande Depressão. A crise sistémica que emergiu primeiro no sector habitacional dos EUA agora difundiu-se para quase todos os mercados em quase todos os cantos do globo.


Como disse o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, numa recente cimeira no Brasil: a crise económica que emana dos EUA tem "o poder de uma centena de furacões".


A seguir à dissolução da União Soviética, a qual fazia de contrapeso ao imperialismo estado-unidense, os EUA estenderam brutalmente a sua hegemonia económica por todo o mundo. Os tentáculos do capital financeiro estado-unidense têm estado a sugar quase todos os mercados, em todos os cantos do mundo, aumentando muitíssimo o risco de contágio. A crescente interconectividade transfronteiriça das redes de produção e dos fluxos de capital financeiro tornaram o sistema capitalista global mais instável.


O carácter cada vez mais global desta crise ficou evidente em 6 de Outubro quando os mercados de acções europeus e asiáticos principiaram a semana com mergulhos abruptos.


O FTSE na Grã-Bretanha, o DAX na Alemanha e o CACA 40 em França caíram todos mais de 5 por cento em 6 de Outubro. Na Ásia, o índice Shanghai Composite e o Nikkei também caíram mais de 5 por cento em 6 de Outubro.


O anúncio em 3 de Outubro de que o Congresso dos EUA havia aprovado uma dádiva sem precedentes e criminosa de US$700 bilhões aos bancos aparentemente pouco fez para acalmar os mercados estado-unidense ou internacionais. Os principais índices dos EUA também caíram em queda livre ao tocar o sino de abertura, com o Dow a descer aproximadamente 600 ponto pelo meio dia de 6 de Outubro.


O secretário do Tesouro Paulson tentou vender o salvamento ao público dos EUA dizendo que sem a aprovação desta lei a economia auto-destruir-se-ia. Mas apesar da aprovação da lei do salvamento, a tempestade económica está claramente a continuar com força de furacão.


Líderes europeus anunciaram a sua própria rodada de salvamentos de instituições financeiras ao longo do fim de semana de 4-5 de Outubro. Em 5 de Outubro foram anunciados salvamentos para o Hypo Real Estate, um grande prestamista hipotecário alemão, e para o Fortis, uma companhia bancária e de seguros com sede na Bélgica.


Temendo aparentemente a espécie de corridas bancárias que destruíram instituições financeiras nos EUA, múltiplos países europeus apressaram-se a anunciar planos para garantir depósitos bancários. A Suécia, Alemanha, Dinamarca, Irlanda e Espanha anunciaram todos novos planos para assegurar depósitos.


Capitalismo: um sistema tendente à crise que deve ser abandonado


Políticos e sabichões capitalistas recentemente emitiram a afirmação de que esta crise era evitável e que foi uma questão de "falta de regulamentação" nos mercados financeiros que levou ao actual colapso.


Mas a realidade é que crises económicas tais como aquela que o mundo está actualmente a sofrer de lado a lado são inerentes ao modo de produção capitalista. Estas crises resultam da superprodução capitalista.


Como escreveu Karl Marx em "Teorias da mais valia", a "Superprodução é especificamente condicionada pela lei geral da produção de capital: produzir até ao limite estabelecido pelas forças produtivas, o que quer dizer explorar a quantidade máxima de trabalho com o montante de capital dado, sem qualquer consideração pelos limites reais do mercado ou as necessidades suportadas pela capacidade para pagar".


Crises de superprodução irrompem quando trabalhadores já não podem mais permitir-se comprar toda a multidão de bens que os capitalistas os levaram a produzir. A superprodução conduz a mercados saturados, os quais por sua vez levam a uma queda da taxa de lucro para os capitalistas. Confrontados com uma queda da taxa de lucro, a classe capitalista responde com cortes de salários e despedimentos maciços num esforço para cortar custos.


Estes factores são hoje evidentes com mercados de habitação por todo o globo abarrotados com milhões de casas não vendidas, lucros em hemorragia contínua para fora dos bancos e corporações, despedimentos e cortes salariais a continuarem sem pausa.


Mas existe uma alternativa a este sistema apodrecido e tendente à crise, e esta alternativa é o socialismo. Sob o socialismo, a produção não é dirigida pela classe capitalista, e ela não é efectuada com o objectivo de obter lucros. Ao invés disso, sob o socialismo a produção é organizada para atender necessidades humanas específicas. Sob o socialismo, não ocorreria a calamidade absurda de milhões de lares arrestados a ficarem vagos enquanto o número dos sem teto ascende.


A eliminação da produção para lucro elimina a causa raiz das crise de superprodução. Confrontado com uma crise económica global de proporções históricas, a necessidade de eliminar o capitalismo e substituí-lo pelo socialismo nunca foi tão grande.


Combater os arrestos, desafiar as relações capitalistas de propriedade


Felizmente, as sementes de uma revolução socialista à escala mundial estão a ser semeadas diariamente. As sementes estão a brotar nos movimentos conduzidos pelos trabalhadores que combatem os arrestos e neste processo desafiam as relações capitalistas de propriedade. Elas estão a brotar no ressurgimento da esquerda latino-americana, a qual efectua um desafio directo ao imperialismo dos EUA no hemisfério. As sementes de uma revolução socialista estão a brotar nas manifestações militantes contra o aumento dos custos de alimentos e combustíveis que tiveram lugar na África, Ásia, Europa e nos EUA. E estão a brotar nas manifestações espontâneas contra os salvamentos de bancos que se tem verificado através dos EUA.


No seu prefácio à "Crítica da economia política" de Karl Marx, Frederick Engels, referindo-se às crises de superprodução, escreveu: "Cada crise sucessiva está obrigada a tornar-se mais universal e portanto pior do que a precedente". Ele previu que o resultado final seria "uma revolução social tal como nunca foi sonhada na filosofia dos economistas".


Com o crescimento da solidariedade da classe trabalhadora, no século XXI ela é capaz de provar que Marx e Engels estavam certos.



O original encontra-se em http://www.workers.org/2008/world/economy_1016/


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


A crise financeira global tem uma causa social: os baixos salários mundiais

por Emiliano Brancaccio [*]

entrevistado por Waldemar Bolze


O sr. sustenta que a crise financeira não é um fenómeno puramente técnico, mas tem uma causa social. Por que?

O ponto de partida é a fraqueza do movimento trabalhista, a qual tornou possível um mundo de salários baixos. Contudo, este mundo é estruturalmente instável, o que estamos agora começando a experimentar. Hoje todos os países tentam manter o nível de salário baixo, diminuindo portanto a procura interna, e têm de encontrar mercados externos para os seus próprios produtos.

Este mecanismo funcionou durante os últimos dez anos porque os Estados Unidos funcionaram como um "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. E não porque os salários dos trabalhadores fossem demasiado altos e sim porque foi acumulada uma enorme dívida privada nos EUA. O sistema levou a trabalhadores a pagarem suas dívidas hipotecárias com novos empréstimos e a pagarem os juros dos empréstimos com novos cartões de crédito.

Poderia uma estrutura de crédito realmente tão frágil manter-se?

Isto não era senão um bomba relógio, a qual explodiu agora. As consequências são mais uma vez passadas aos trabalhadores e empregados, ao passo que os executivos da Wall Street, que fabricaram estes explosivos, podem até mesmo lucrar com isso.

Tome, por exemplo, o plano Paulson. Ele estipula que o governo vai comprar os activos arriscados dos bancos de investimento e em troca colocar dinheiro fresco à sua disposição, deixando a possibilidade de que os bancos, uma vez passada a tempestade, possam recuperar os seus títulos. Se o governo pagar preços bastante altos, os banqueiros podem finalmente embolsar um lindo lucro a expensas do orçamento do Estado.

Qual o impacto óbvio que terá esta crise?

Dependerá muito da sua duração e profundidade. Por enquanto, o establishment está a seguir uma estratégia que Giuseppe Tomasi di Lampedusa descreveu no seu livro O Leopardo: "Se quisermos que tudo permaneça na mesma, temos de mudar alguma coisa". O plano Paulson é um exemplo desta estratégia, porque consiste numa permuta de cash por dívidas, concebida para intervir o menos possível em termos de propriedade e de controle do capital bancário. O mesmo se aplica às vendas de acções preferenciais ao governo porque este restringe o direito de voto nas assembleias de acionistas.

Será que a ideologia do neoliberalismo fracassou e que os dias do capitalismo estão contados?

A ideia é divertida, mas seria ingénuo assumir um fim iminente do capitalismo. Não posso ver como tal coisa possa materializar-se. O grande ausente neste colossal estado de emergência é precisamente o movimento trabalhista. Ao invés disso, vejo a possibilidade de uma mudança no poder relativo dos lobbies das finanças para grupos de pressão política e também de lobbies ocidentais e americanos para outros asiáticos.

Podemos então falar do declínio do império americano?

Apesar da aparência e de todas as altas temporárias e dos acontecimentos a curto prazo, o declínio americano tem-se verificado de há pelo menos um quarto de século. Um sintoma deste declínio é o comportamento a longo prazo do dólar, cujo preço – convertido à divisa de hoje – em 20 anos caiu de 1,50 euro para cerca de 70 centavos de euro. Este declínio assegura desconfiança em relação ao dólar e provavelmente impedirá os EUA de desempenharem novamente o papel de "aspirador" para os produtos excedentes de outros países. Uma vez que não há um poder hegemónico internacional alternativo, há um perigo de que o sistema monetário internacional venha a encontrar-se num beco sem saída. Neste caso, o desenvolvimento desta crise poderia ganhar características realmente negras e imprevisíveis.

A entrevista original em alemão foi publicada em junge Welt , de 09/Outubro/2008. [*] Professor de economia do trabalho na Universidade de Sannio, membro da Rifondazione Comunista, e conselheiro da maior federação italiana de sindicatos metalúrgicos, a FIOM-CGIL.

O artigo original encontra-se em Monthly Review.

Cuba, o furacão chamado bloqueio


Frei Betto *


No próximo 29 de outubro, a Assembléia Geral da ONU, após ouvir o informe apresentado pelo secretário-geral, Ban Ki Moon, votará o projeto de Cuba visando à suspensão do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto à ilha do Caribe pelo governo dos EUA desde 1959.


Será a 17ª vez que a ONU tratará deste tema. Em 2007, dos 192 países-membros das Nações Unidas, 184 votaram a favor do projeto que pedia a suspensão. Infelizmente, suas resoluções não têm caráter obrigatório, exceto as do Conselho de Segurança.


O fato de a maioria dos países condenarem, por 16 vezes, o bloqueio representa um gesto de solidariedade à Ilha e uma derrota moral para a Casa Branca, cuja prepotência se evidencia por não ter a menor consideração para o que pensa a comunidade internacional, que repudia a hostilidade usamericana.


O bloqueio é o principal obstáculo ao desenvolvimento de Cuba. Ano passado, representou, para o país, prejuízo de US$ 3,775 bilhões. Ao longo dos 50 anos de Revolução, calcula-se que o total do prejuízo chegue a US$ 224,6 bilhões, levando em conta a desvalorização do dólar e suas flutuações no decorrer do tempo.


O bloqueio é um polvo com tentáculos extraterritoriais, violando o direito internacional, em especial a Convenção de Genebra, que o qualifica de genocídio. Empresas, bancos e cidadãos que mantêm relações econômicas, comerciais ou financeiras com Cuba sofrem perseguições. A exemplo do que fez a China durante as Olimpíadas, também o governo usamericano bloqueia sites da Internet relacionados com Cuba.


A muito custo o governo cubano tem conseguido abrir pequenas brechas no bloqueio, como ao comprar alimentos dos EUA. As empresas vendedoras enfrentam gigantesca burocracia, sobretudo porque a comercialização tem de passar pela intermediação de um terceiro país, já que o bloqueio proíbe relações diretas entre EUA e Cuba. O comprador é obrigado a pagar adiantado e não pode vender seus produtos aos usamericanos; os navios retornam vazios aos portos de origem.


Os recentes furacões Gustav e Ike provocaram muitos danos à Ilha. Áreas agrícolas foram devastadas, 444 mil moradias afetadas, das quais 67 mil totalmente destruídas. Com a alta dos preços dos alimentos no mercado internacional, Cuba só não está com a corda no pescoço graças à solidariedade internacional, inclusive da União Européia e do Brasil.


O governo cubano solicitou à Casa Branca uma trégua no bloqueio nos próximos seis meses, por razões humanitárias. Até agora, Bush mantém completo silêncio. Contudo, a máquina publicitária da Casa Branca trata de camuflar a omissão presidencial com uma série de mentiras, como a oferta de US$ 5 milhões aos cubanos vítimas dos furacões.


Ora, o que representa essa ninharia diante dos US$ 46 milhões que a Usaid recebeu este ano para financiar grupos mercenários dedicados ao terrorismo anticubano? E outros US$ 40 milhões foram liberados para manter as transmissões de rádio e TV contra o regime de Cuba.


Apesar de o bloqueio causar mais danos que todos os furacões que já afetaram Cuba, a nação resiste e, agora, se mobiliza em amplos mutirões para consertar os estragos causados pela natureza e aprimorar a produção agrícola, graças às recentes medidas que facilitam aos camponeses acesso às terras onde, outrora, se cultivava cana-de-açúcar. Além de ter no Estado um comprador seguro, os agricultores cubanos poderão vender diretamente ao consumidor.
Sem olhar para o próprio umbigo, Cuba reitera sua solidariedade internacional e envia médicos às vítimas dos furacões no Haiti, e mantêm médicos e professores em mais de 70 países, a maioria pobres.


A história é uma velha senhora que nos surpreende a cada dia: quem imaginaria, há um ano, que o socialismo cubano veria a crise financeira de Wall Street, e o Estado mais capitalista do mundo contradizer todos os seus discursos e intervir no mercado para tentar salvar bancos e empresas? Como fica o dogma da imaculada concepção de que fora do mercado não há salvação?


PS: Contribuições para compra de alimentos e remédios a serem remetidos às vítimas dos furacões em Cuba podem ser remetidas a: Associação Ação Solidária Madre Cristina, Banco do Brasil 4328-1, Conta 6654-0.


[Autor de "A mosca azul - reflexão sobre o poder" (Rocco), entre outros livros].

Comunicado do Partido Comunista Paraguaio


COMUNICADO À OPINIÃO PÚBLICA NACIONAL E INTERNACIONAL


No dia 1º do presente mês, produziu-se na localidade de Puerto Indio uma brutal expulsão de camponeses que reivindicam o direito à terra do latifundiário brasileiro Oscar Fader, que possui milhares de hectares no Departamento de Alto Paraná. Numa operação que teve indícios criminosos, foi morto o compatriota camponês Bienvenido Melgarejo, pai de 8 filhos. Os camponeses haviam denunciado que o mencionado latifundiário forma parte de um grupo de fazendeiros que utilizam agrotóxicos de forma sistemática, contaminando a zona e atentando contra a vida da população.


O Partido Comunista Paraguaio, fiel à defesa dos interesses populares, condena o ato e responsabiliza o Ministério do Interior, a cargo do Dr. Rafael Filizzola, que em declaração pública, ao invés sequer de mencionar a macabra violação dos direitos humanos contra os lutadores camponeses, exaltou a defesa irrestrita da propriedade privada.


O pronunciamento de nosso partido realiza-se diante da situação apresentada, responsabilizando, portanto, diretamente a Promotoria e o Poder Judiciário, atrás dos quais estão os setores latifundiários, pecuaristas e exportadores de soja, estes últimos pertencentes ao setor mais espoliador da nossa sociedade, que através do uso indiscriminado de agrotóxicos, atenta diariamente contra as vidas de camponeses e pela degradação e envenenamento do nosso solo, além do Ministério do Interior, subserviente a esses setores.


Esta política que privilegia os sojeiros e pecuaristas contradiz flagrantemente as expectativas criadas pelo governo atual, que prometeu situar-se pelos mais pobres.


Acreditamos que este tipo de medidas impopulares e criminosas alinham-se ao conjunto conservador e reacionário de poderes privilegiados que conspiram contra as intenções progressistas do atual governo de Lugo. Além do mais, afirmamos que se o Estado não renovar o Poder Judiciário e a Promotoria, órgão que ordena este tipo de deploráveis desalojamentos, criminalizando as lutas sociais, não se poderá esperar nenhuma transfomação no nosso país.


Denunciamos, além disso, a perseguição da qual está sendo alvo o dirigente camponês do nosso partido José Tomás Benítez, que se soma às vítimas do acontecimento em questão.


Finalmente fazemos um chamado pela unidade de todos os setores populares do nosso país para concretizar numa ação conjunta, uma luta coordenada que aponte uma política real de transformação para uma sociedade que supere a miséria do nosso povo, transformação pela qual votou a maioria de nossa sociedade para levar Lugo ao atual governo.


Basta já de repressão!


JULGAMENTO E CASTIGO AOS RESPONSÁVEIS E EXECUTORES DA CRIMINALIZAÇÃO DAS LUTAS SOCIAIS!


UNAMOS AS FORÇAS MAJORITÁRIAS DO NOSSO POVO A FAVOR DAS TRANSFORMAÇÕES DEMOCRÁTICAS, PATRIÓTICAS E LIBERTADORAS, CONTRA A REPRESSÃO E CONTRA A CONSPIRAÇÃO CONTRA-REVOLUCIONÁRIA QUE ATUA DENTRO E FORA DO GOVERNO LUGO!

Partido Comunista Paraguaio


Assunção, Outubro de 2008

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Gênesis da crise

por Alejandro Nadal

A Reserva Federal arrisca-se cada vez mais e agora anuncia planos para comprar dívida de curto prazo às empresas. Isso distorce cada vez mais sua função original e revela a gravidade da situação. A ferocidade da crise, é claro, obriga a uma análise mais cuidadosa sobre a sua génese e a agenda política que lhe corresponde.

Em Janeiro de 1980 o governo estado-unidense autorizou o resgate da companhia automobilística Chrysler, que se encontrava em dificuldades desde 1975 devido à recessão. Os dirigentes da companhia propuseram um plano ao governo para reestruturar a empresa, fechando fábricas, reduzindo salários e cortando benefícios. Tudo isto seria feito com a ajuda da burocracia sindical.

Nos anos seguintes a Chrysler fechou 28 fábricas nos Estados Unidos, despediu 48 mil operários (de um total de 98 mil). Outros 20 mil empregados também perderam o seu emprego. Os mais jovens e militantes foram os primeiros a ser despedidos, ao passo que a burocracia sindical era recompensada. Numa manobra apresentada como exemplo de colaboração entre trabalhadores e empresa, o secretário do sindicato converteu-se em membro do conselho de directores da companhia.

Em Agosto de 1981 o sindicato de controladores aéreos profissionais dos Estados Unidos desencadeou uma greve em busca de aumentos salariais e melhores condições de trabalho. O sindicato estava a violar uma lei que proibia empregados federais de recorrerem à greve. O então presidente Reagan decidiu que isto era uma ameaça para a segurança nacional e enviou um ultimatum: ou regressavam ao trabalho em 48 horas ou seriam despedidos. Só uma minoria obedeceu e foram despedidos mais de 11 mil controladores. O sindicato perdeu seu registo em Outubro desse ano.

Estes dois episódios marcaram o princípio de uma ofensiva profunda contra os sindicatos nos Estados Unidos. O resultado principal foi o declínio dos sindicatos nesse país: entre 1977 e 1997 a percentagem da força de trabalho empregada com filiação sindical passou de 25 por cento a 14 por cento. O grande aliado do capital foi a chamada flexibilização laboral e, em especial, a eliminação de restrições para despedir trabalhadores (o sistema ficou conhecido pela frase hire and fire, contrata e despede). Outra arma contra os sindicatos foi a ameaça de perderem empregos devido ao livre comércio. A retórica das empresas era clara: se os sindicatos não reduzem suas exigências, perderemos a batalha da competitividade, fecharemos e todos sairão perdendo. A burocracia sindical acomodou-se, abandonando a busca de melhores condições laborais para cooperar com os patrões e o governo.

Em resultado, o salário mínimo e os contratuais sofreram uma redução de quase 10 por cento durante o período de 1979 a 1997. Seguiu-se uma modesta recuperação depois de 1998, o que permitiu recuperar o nível de 1979 em 2003. Contudo, a partir desse ano os salários retomaram sua tendência descendente. Ao longo destes anos intensificou-se a precariedade do trabalho e deteriorou-se a qualidade do emprego.

Durante este período histórico verifica-se um extraordinário incremento da desigualdade nos Estados Unidos. Entre 1973 e 1990 a produtividade manteve-se estagnada, mas entre 1995 e 2005 aumentou em 30 por cento. Contudo, os benefícios desse aumento foram para os estratos mais ricos: os 20 por cento mais privilegiados da força de trabalho activa viram seus rendimentos reais aumentar 30 por cento. Ao mesmo tempo, a queda no salário real dos 20 por cento mais desfavorecidos foi de 22 por cento.

Esta perda de poder aquisitivo do salário é parte importante das origens da crise actual, porque teve de ser compensada com endividamento privado para manter níveis artificiais de procura efectiva. Toda uma geração não teve outro remédio senão endividar-se para manter seus níveis de consumo. As bolhas que atenuaram os efeitos negativos dos ciclos de negócios são apenas um aspecto deste endividamento.

O capitalismo estado-unidense reagiu contra o movimento sindical e a classe trabalhadora porque a queda na rentabilidade a partir dos anos 70 obrigou a limitar as remunerações ao trabalho. Deste modo, o sonho americano foi sacrificado no altar do capital. Há muitos dados que permitem documentar o que foi dito, mas tudo isto conduz a outra pergunta: por que caíram os níveis de rentabilidade? Os níveis de capacidade instalada nesta etapa da acumulação do capital sem dúvida estão relacionados com esta evolução da rentabilidade. Mas isto não é suficiente e este tipo de análise só desloca o problema para leva a uma última interrogação: carregará o capitalismo nas suas entranhas a semente da sua própria destruição? A agenda política que decorre desta reflexão obriga a colocar o problema das alternativas ao capitalismo, tema injustificadamente relegado a um rincão obscuro desde há 20 anos.

O original encontra-se em La Jornada.

Crescem os Assassinatos a Sindicalistas


No Governo da “segurança democrática”, os direitos trabalhistas e as garantias de vida dos trabalhadores tem sido os mais prejudicados.

Juan Carlos Hurtado Fonseca, Voz

“Nem pelo interesse de que aprovem o (Tratado de Livre Comércio) TLC com Estados Unidos, o governo e os empresários cessam a perseguição buscando o extermínio do movimento sindical”, assegurou à Voz um dirijente dos trabalhadores. Os números de execuções extrajudiciais, a quantidade de conflitos em empresas gerados pela negativa patronal a exigência dos direitos trabalhaistas garantidos pela constituição Política; o trabalho dos meios de comunicação que lograram criar no inconsciente coletivo uma cultura anti sindical; a demissão de trabalhadores sindicalizados; os obstáculos no Ministério de Proteção Social para o registro sindical e a perseguição a quem tenta organizar-se; mostram que os empregadores sabem utilizar todas as formas possíveis para negar um direito das sociedades democráticas e defender seus mesquinhos interesses.

Alguns exemplos

Neste sentido, no Instituto Colombiano de Desenvolvimento Rural (Incoder) os funcionários contam com uma assossiação de caráter cooperativo com cerca de quatro mil afiliados, que contratam com trabalhadores que criaram Sintracorfeinco, organização em processo de registro sindical no Ministério de Proteção Social. Mas as pessoas que estão na direção da assossiação, ainda que fossem sindicalistas, não receberam bem a criação da organização de trabalhadores e passaram a perseguí-los, como qualquer patrão. Atualmente despediram oito trabalhadores com direitos sindicais. “Os trabalhadores asseguram que isto não interessa à entidade porque já conta com o dinheiro para pagar as possíveis indenizações a que lhes obriguem. Mas interpuseram uma ação de tutela solicitando a reintegração e o pagamento dos salários que eles deixaram de receber, com suas devidas atualizações”, assegura Alfonso Ahumada da CUT Bogotá.

O sindicato se constituiu há três meses e os funcionários foram despedidos há dois. Dirigentes da CUT realizaram algumas reuniões com as partes para fazer ver que o direito de assossiação é um direito fundamental e os exortou a solucionar tudo por via do diálogo.

Perseguição oficial

Por outro lado, no Ministério da Proteção Social os trabalhadores sentem atitudes contrárias ao direito de assossiação, especialmente aos setores orientados pela CUT. As solicitações de registro de constituição de sindicatos ou inscrição de junta diretiva que não encontrem obstáculos por parte dos funcionários da entidade estatal são poucas. Na constituição do sindicato dos trabalhadores da empresa de transporte urbano Rápido Pensilvânia, depois de reuniões pela madrugada para constituir a organização, os condutores passaram a documentação ao Ministério. O funcionário aceitou o registro sindical, mas no processo a empresa e um sindicato de caráter patronal interpuseram um rol de aceites e válidos para logo negar o registro.


Da mesma maneira, no registro do novo comitê excutivo da CUT, subdiretiva Bogotá, se apresentaram todos os documentos, aparece o ofício remissório onde se faz a relação de todos os requerimentos, mas a resposta é que faltam papeis que já se havia anexado. “ Acreditamos que o Ministério está fazendo um papel favorável dos empresários, alem disso, tem um comportamnto para fazer o favor a organizações que apareceram com o propósito de criar uma quarta central na Colômbia, de caráter uribista. A prioridade é dada a esta situação porque Uribe já está convencido de que todos os sindicatos estão contra ele ", explica Alfonso Ahumada


Conflito nas Têxteis


Há quatro meses, a produção têxtil Maquila, em Bogotá, está em greve por 30 trabalhadores chefes de família. A empresa, como seu nome sugere é uma maquiladora para a empresa Vesta, ambas do mesmo dono.


Oito meses atrás, a Maquila tinha cerca de 70 operários, mas a empresa não respondeu às necessidades dos trabalhadores, houve uma violação da convenção colectiva e, no ano passado, não pagou os salários corretamente, uma das causas da greve. No início da cessação de atividades eram devidos os salários há quase oito meses para os trabalhadores. A administração alega que não têm qualquer possibilidade de produzir a única opção que é liquidação, que não foi solicitada ante a Superintendência de Sociedades. O conflito traz sérias conseqüências para os trabalhadores, porque há poucos ativos representados em algumas máquinas na fábrica. Segundo líderes sindicais,, "A empresa não está interessada em requerer a liquidação, para ter uma retaliação contra os trabalhadores que exigiram seus direitos."


Além disso, a empresa Unihilo em Bogotá, tem cerca de 400 trabalhadores dos quais 125 são sindicalizados, ainda que resistindo à perseguição da administração, que despediu 14 deles, depois reintegrados por sentença vía tutela jurisdicional. Os trabalhadores apresentaram uma declaração através do SINTRATEXTIL, com itens relacionados com a estabilidade, o sistema de recrutamento, bônus, subsídio de transporte e o aumento do abono salarial, entre outros. Por seu lado, a empresa apresentou um acordo colectivo para contrapor as reivindicações dos trabalhadores, sem chegar a um acordo dentro do prazo legalmente estipulado. Após seis meses, foi constituído o tribunal arbitral e o conflito está pendente.


40 sindicalistas assassinados


As formas mais violentas de perseguir os trabalhadores se impõe atualmente. É o que demonstra o último relatório da Escola Nacional Sindical, que registra a execução extrajudicial de 40 trabalhadores sindicalizados. "Até agora, este ano, 40 sindicalistas perderam a vida nas mãos dos paramilitares e agentes estatais, um a mais do que em todo o ano de 2007", diz e acrescenta: "Este número mostra o aumento preocupante deste fenômeno na Colômbia, visto que o número de sindicalistas mortos nos oito meses que decorreram este ano é quase igual àquele registrado durante todo o ano anterior, quando ocorreram 39 casos em todo o país. Com um agravante: este ano o percentual de líderes mortos é maior: 15, em comparação com 10 no ano anterior. "


Em alguns trechos o relatório reconhece, "O sindicato mais abatido é o FENSUAGRO, Federação Sindical Nacional Unitária Agropecuária, filial da CUT, que registrou 5 casos de homicídio. Também o Sindicato Unitário de Trabalhadores da Educação do Vale, SUTEP, com quatro homicídios. A Assossiação de Educadores do Norte de Santander e do sindicato dos trabalhadores do INPEC registraram três casos de assassinatos de filiados. Chama também a atenção o grau de impunidade que até agora tem rodeado estes crimes, pois, de acordo com as informações disponíveis, por estes fatos apenas duas pessoas foram detidas.


Preocupante situação em Santander, por ameaças. Outra preocupação tem a ver com o aumento dos sindicalistas ameaçados de morte, especialmente no departamento de Santander. Enquanto no país durante este ano, relataram 125 casos de ameaças, o Santander segundo o relatório é de 57 casos de sindicalistas ameaçados ou seja, quase metade do total nacional neste único departamento. Os outros departamentos mais afetados pelas ameaças são Antioquia, onde foram denunciados 22 casos, Valle del Cauca com 9 casos, e Norte de Santander, com sete. "


Os deslocamentos forçados na Colômbia são implementados pelo Estado colombiano

Obedecendo aos interesses das grandes transnacionais ligadas ao que há de mais atrasado desta oligarquia caça-níquel, como Jacobo Arenas a chamava, encaminhada a expulsar as pessoas das zonas ricas em biodiversidade, água, petróleo, minerais e propostas de infra-estrutura assinadas pelo império, para que passem às mãos de latifundiários, empresas petroleiras, mineradoras e agroindustriais, enquanto nos grandes centros urbanos se garante a mão-de-obra barata.

ANNCOL

Aplicando o princípio fascista de: “uma mentira repetida muitas vezes transforma-se em verdade”, foi sendo difundida a idéia de que as FARC-EP são o fator principal do fenômeno dos deslocamentos forçados de camponeses na Colômbia.

Instituições e organismos que abordaram a análise deste fenômeno, assim como algumas ONGs de certa seriedade, caíram na armadilha. Inclusive personalidades progressistas e setores revolucionários deixaram-se arrastar pela corrente e também as assinalam como os principais geradores dos deslocamentos na Colômbia.

Nada mais distante da realidade que tratar de colocá-los junto com os verdadeiros agentes que causam os deslocamentos de milhões de colombianos. Uma análise séria, objetiva e sem paixão sobre este drama demonstrará a quem quer que seja, que no fundo buscam ocultar as verdadeiras causas e os reais promotores e executores desta política.

Deve-se começar por analizar a origem das FARC e seu projeto político. A violência partidária dos anos 50 gerada pelos detentores de terras e latifundiários teve como propósito uma nova redistribuição da terra, aumentando a concentração desta através da violência, o arrasamento e o terror, com a finalidade de garantir os projetos agro-industriais impostos pela política econômica do império e consolidar o latifúndio no campo como relação social que lhes permitiria conservar a submissão política do campesinato.

Na região de Marquetalia, em 1964, haviam várias famílias camponesas que trabalhavam pacificamente, advindas de diversas regiões da Colômbia e haviam chegado ali após terem sido expulsas por conta da violência partidária dos anos 50. Quando em maio de 1964 seriam vítimas de outra agressão, que implicaria novamente em um deslocamento forçado, 48 humildes trabalhadores tomam a decisão de não seguir com suas enxadas nos ombros e decidem empunhar um fusil para impulsionar um projeto político revolucionário, onde o camponês não seja expulso das áreas de interesse de uma minoria.

Por isso, a própria essência da gênesis das FARC está no deslocamento forçado, implementado como política de Estado na Colômbia para garantir os interesses e os projetos da classe dirigente, submetida aos desígnios do império do norte. O próprio surgimento das FARC é uma expressão legítima de repúdio à esta prática, mas, além disso, é a construção de uma alternativa que inclui o não deslocamento forçado em áreas de interesses, na maioria das vezes estrangeiro.

Outro elemento que deve ser analisado nesse fenômeno social, o deslocamento, é determinar quem são os beneficiários, por quê e para quê se implementa e quem é que os executa. Este exame, caso seja legítimo, demonstrará que as FARC não têm nada a ver com a implementação dos deslocamentos forçados, como política da organização. Não devemos entrar em detalhes sobre isso. Há inúmeros estudos, uns mais sérios que outros, que demonstram, quem são os que estão por trás dos deslocamentos na Guajira, com o Cerrejón pelo meio; no Chocó, com os projetos da cana africana na ordem do dia; em Antioquia com Urrá I e Urrá II; no Catacumbo, onde o petróleo, o carvão, a água e a cana estão na mira das transnacionais; em urabá com o Golfo e a indústria bananeira, para citar apenas alguns exemplos.

Agora, há casos muito pontuais, que são circunstanciais ao conflito armado em que estão imersos, imposto e agenciado pelo Estado, e que apontam a garantir sua razão de ser. Quando, por exemplo, alguém em uma vereda, de forma voluntária, decide se colocar à disposição do exército e está informando sobre nossos movimentos e localizações para guiar as patrulhas e orientar os aviões e helicópteros nos bombardeios e desembarques, não lhes resta outra saída que abordá-lo para recriminar sua atitude, exigir que ele mude sua conduta. Muitas das vezes estas pessoas abandonam a região e se apresentam como deslocados.

Outras situações que se apresentam, é quando as comunidades os abordam para que dêem um jeito em pessoas da própria comunidade que se dedicam ao roubo, à enganação, aos vícios que vão contra os costumes saudáveis das pessoas, a agressão às mulheres, filhos, etc. Os guerrilheiros abordam a pessoa para tratar de conscientizá-lo da necessidade de mudança de comportamento e ocasionalmente, sancioná-lo com algum trabalho social (limpar a escola, por exemplo). Alguns decidem sair da região e apresentar-se como deslocados pela guerrilha.

E nesses casos onde o stablishment, apoiado nos meios de desinformação, aplica em toda sua intensidade o princípio fascista do exagero e desfiguração dos acontecimentos, buscando com isso deslegitimizar sua justa causa insurgente, e que para não somar-se à lista de deslocados, uniram-se em torno de um projeto político que busca erradicar as raízes de tão degradante fenômeno.

Não devemos procurar por afogados na superfície da água. O deslocamento na Colômbia está implementado pelo Estado colombiano, obedecendo aos interesses das grandes transnacionais ligadas ao que há de mais atrasado desta oligarquia caça-níquel, como Jacobo Arenas a chamava, encaminhada a expulsar as pessoas das zonas ricas em biodiversidade, água, petróleo, minerais e propostas de infra-estrutura assinadas pelo império, para que passem às mãos de latifundiários, empresas petroleiras, mineradoras e agroindustriais, enquanto nos grandes centros urbanos se garante a mão-de-obra barata.

Não é justo que os camponeses fiquem no fogo-cruzado da guerrilha e o exército oficial e não-oficial (leia-se paramilitares); Eles fogem da selvageria e a brutalidade empregada pelo aparato repressivo governamental e os grupos que os apóiam.
O original encontra-se em Anncol.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Iván Márquez: obrigado a todos


Gratidão eterna de todos os guerrilheiros e guerrilheiras das FARC, de suas instâncias de comando, às organizações políticas e sociais, às almas revolucionárias e solidárias da Nossa América que, desafiando a ira da chancelaria do terrorismo de Estado do governo da Colômbia –reconhecido peão do império-, tornaram possívem o lançamento do livro sobre o comandante Manuel.

Montanhas da Colômbia, 8 de outubro de 2008


COMUNICADO DE AGRADECIMENTO

A todos os que tornaram possível a homenagem em Caracas ao Herói insurgente da Colômbia de Bolívar –o legendário Manuel Marulanda Vélez-, nossa saudação e abraço fraternal repleto do desejo infreável da Pátria Grande e o Socialismo.

Gratidão eterna de todos os guerrilheiros e guerrilheiras das FARC, de suas instâncias de comando, às organizações políticas e sociais, às almas revolucionárias e solidárias da Nossa América que, desafiando a ira da chancelaria do terrorismo de Estado do governo da Colômbia –reconhecido peão do império-, tornaram possívem o lançamento do livro sobre o comandante Manuel no quartel San Carlos, o florescimento em uma brigada popular em Caracas de uma praça com o digno nome de Manuel Marulanda Vélez, presidida pelo busto do comandante da guerra de guerrilhas móveis, e aos participantes do Fórum “Obra e vigência do pensamento de Manuel Marulanda Vélez”.

Vocês, companheiras e companheiros, impactaram com sua homenagem e afeto o coração da guerrilheirada e nos fizeram exclamar com o Libertador Simón Bolívar que nada nos deterá se o povo nos ama.

Nosso pensamento hoje vai voando até a cubana Celia Hart, pureza solidária que quis honrar com sua presença esta homenagem ao guerrilheiro inesquecível, para defender com todos nós o direito à paz, desejo frustrado pelo infortúnio de um trágico acidente... Nossas mais sentidas condolências aos seus familiares e a todos os revolucionários.

Agora que o império washingtoniano se retorce nas dores de sua mais profunda crise e que, em seu desespero, acredita que a Nossa América e os povos do terceiro mundo devem pagar pelos pratos quebrados; agora que os enganosos argumentos sobre a inviabilidade da luta armada agoniza sobre um recife do embravecido mar, permita-nos propor o dia 26 de março, dia da partida de nosso Comandante em Chefe, Manuel Marulanda Vélez, como o dia do direito universal à rebelião armada.

Desde então estamos convocando para articular a resistência dos povos contra as investidas da Casa Branca, que desde o turbulento norte se remexem como violentos presságios contra a dignidade e a independência da América de Bolívar e dos pobres do sul.

Pela Comissão Internacional das FARC, compatriota,

Iván Márquez


Montanhas da Colômbia, 8 de outubro de 2008


A notícia encontra-se em Anncol.

As sete vacas, magérrimas


por Guillermo Almeyra [*]


O suposto País das Maravilhas caiu no período atroz das pragas e das vacas magras. A actual crise financeira que abala os Estados Unidos e os restantes grandes centros capitalistas – e afecta duramente os da periferia – é apenas o começo de uma grande recessão e de uma depressão. Dar dinheiro aos banqueiros é lançá-lo num poço sem fundo. Porque o problema consiste em que a redução dos salários reais e a carestia reduzem o consumo, pois os consumidores super endividados temem pelo seu futuro e tratam de poupar e de consumir menos. Assim, as dívidas não podem ser pagas e ninguém se arrisca a dar crédito, as fábricas ao não venderem todos os seus produtos suspendem pessoal ou despedem-no, a desocupação alimenta a espiral recessiva, os emigrantes são expulsos ou perdem seu trabalho, o consumo de petróleo de outras matérias-primas é menor e seu preço cai, levando a crise aos sectores capitalistas extractivos ou agrícolas.


Com o derrube da União Soviética e o boom capitalista na China, o capital havia conseguido um enorme mercado de mão-de-obra cujos salários baixíssimos serviam para fazer baixar também os dos países industriais, seja por levarem as fábricas para a China, Vietnam ou os ex países "socialistas" da Europa oriental, seja por chantagearem os trabalhadores locais com essa ameaça. A transformação da China de uma grande potência que fabricava produtos de consumo baratos numa grande potência financeira que sustenta as finanças dos Estados Unidos e investe nesse país deu um duro golpe no capitalismo estado-unidense. Seus produtos de consumo não puderam competir com os salários chineses, suas fábricas e maquiladoras transferiram-se para o Oriente, inclusive a partir de países com salários baixíssimos como o México ou a Guatemala que se converteram em expulsores de mão-de-obra para os Estados Unidos. Este endividou-se e teve um défice comercial e também financeiro crescente. O crédito baratíssimo e a falta de controles sobre a especulação hipotecária e financeira alentaram o crescimento da bolha e a ideia dos cidadãos de que tudo ia bem e iria ainda melhor porque o país era sólido, uma grande potência e podia fazer qualquer coisa, sem excepção.


Tudo isso acabou, tal como depois da guerra acabou-se o poderio da libra esterlina e da Inglaterra como primeira potência financeira e industrial mundial. É certo que a unificação capitalista do mercado mundial faz com que a Rússia se quiser vender gás e petróleo (e armamentos) tenha de preocupar-se em evitar o colapso dos grandes países industriais e que se a China quiser exportar e cobrar seus títulos estado-unidenses deva preocupar-se pela manutenção do consumo no Estados Unidos, de modo que os competidores de Washington estão ligados ao futuro estado-unidense como ladrões atados por uma mesma corda. Mas o facto é que os Estados Unidos dependem da China, da União Europeia, da Rússia e não estes dos EUA. O omnipotência dá lugar à negociação-competição conflitiva de modo permanente. Washington hoje está em liberdade vigiada.


Seu futuro depende, como o de todas as outras potências, de que o capitalismo não caia por si só. Ou seja, de que não haja nenhuma força importante que compreenda que capitalismo, crise, guerra e desastre ambiental são uma só e a mesma coisa, provocada por uma mesma classe e um mesmo tipo de políticas e que não são inevitáveis nem resultados da perversidade do Senhor.


Falta então o coveiro do capitalismo. De modo que o provável é que a China, em vez de vender seus activos em dólares e por as suas reservas em outra moeda, sustentará os Estados Unidos, tentando ao mesmo tempo retirar alguma vantagem da crise. Porque se não exportasse bens de consumo para os Estados Unidos e a UE, suas fábricas fechariam, aumentaria a desocupação e poderiam surgir greves e sublevações camponesas. Mas, ao mesmo tempo, a crise no Ocidente é sobretudo uma crise do sector que produz alta tecnologia e bens de produção, o qual deixa à China margem para o seu desenvolvimento no referido sector, passando a ser uma grande potência tecnológica, financeira, industrial e comercial dentro de mais uns poucos anos. Nos anos 30, Franklin Roosevelt retirou os Estados Unidos do poço mediante grandes obras públicas keynesianas, concessões sociais importantes e a preparação da guerra mundial. A China poderia, só ou com a ajudar militar e técnica da Rússia, combater a contaminação, elevar os rendimentos, criar uma grande indústria pesada e um grande sector tecnológico de ponta. O centro do capitalismo mundial deslocar-se-ia assim, num futuro não muito longinquo, para o Oriente e os Estados Unidos voltariam então a ser uma grande potência regional, aumentando sua pressão sobre um continente que ameaça escapar-lhe.


Acerca dos efeitos da crise na América Latina será necessário voltar. Mas, em geral, muitos países serão afectados pela redução das remessas dos migrantes e abalados socialmente porque a migração será menor e reduzir-se-á essa válvula de escape que evitava explosões sociais. Além disso cairão os preços das matérias-primas agrícolas e mineiras e algo do petróleo, ainda que este seja mais escasso porque seus preços menores tornarão muito custosos os desenvolvimentos das jazidas de alto mar (como as brasileiras). Finalmente, agudizar-se-á a disputa pelos rendimentos entre os diferentes sectores capitalistas, por um lado, e entre os capitalistas e os trabalhadores e os pobres, pelo outro, enquanto a tendência à integração, ao desenvolvimento do mercado interno e a "viver com o que se tem" aumentará e a aceitação da ideologia neoliberal receberá um golpe duro.


[*] Doutor em Ciências Políticas (Univ. París VIII), professor investigador da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade Xochimilco, do México, professor de Política Contemporânea da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México.


O artigo encontra-se em La Jornada.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Cuba pede ajuda à comunidade internacional


O país que nunca hesitou em enviar seus voluntários para auxiliar as populações da América Latina e da África pede agora a nossa ajuda para a sua reconstrução, após a catastrófica passagem dos furacões Gustav e Ike.



Mais que um ato de solidariedade, devemos mostrar gratidão a esse pequeno país que, mesmo sofrendo com um bloqueio criminoso dos Estados Unidos há décadas, sempre fez questão de ajudar aos povos de todo o mundo.

Segue abaixo o pedido de ajuda do povo cubano à comunidade internacional:



DECLARAÇÃO DO COMITÊ INTERNACIONAL PELA LIBERDADE DOS CINCO



A todos os comitês e amigos dos Cinco
Aos amigos da Revolução Cubana
Às pessoas nobres e honestas do mundo

Como é de conhecimento público, a passagem implacável dos furacões Gustav e Ike, com apenas 9 dias de diferença um do outro, assolou a ilha de Cuba de Oriente a Ocidente, provocando milhões de perdas na agricultura, moradia e infraestrutura do país.



Graças à existência da Revolução Cubana e sua Defesa Civil, apenas lamentamos a perda de 7 vidas humanas. Vários milhões de cubanos tiveram que ser evacuados e milhares perderam total ou parcialmente suas moradias.



Apesar do duríssimo golpe, ninguém ficará abandonado nem acontecerá com eles o que acontece até hoje com as vítimas em outros países.



Alertamos a opinião pública internacional sobre a campanha midiática da suposta ajuda humanitária da administração Bush para Cuba. O que ele prega, para a vergonha da humanidade, é a pretensão, mesmo em meio à uma colossal desgraça, de apoderar-se de Cuba.



Caso se tratasse de um mínimo gesto “humanitário”, a primeira coisa que o governo dos EUA deveria fazer é levantar incondicionalmente o bloqueio genocida contra Cuba. Nem sequer quis fazê-lo por seis meses, para que Cuba possa adquirir os insumos necessários para a construção de suas moradias, nas condições normais que qualquer outro país da terra faz, assim como solicitou dignamente o governo cubano em suas três notas verbais.



A política genocida contra Cuba não teve freio mesmo diante dessas dolorosas circunstâncias para a nação cubana. Desde a indigna oferta de 100 mil dólares, condicionados a uma supervisão “in situ”, seguida pelo anúncio de vendas por 250 milhões, realizado pelo Secretário de Comércio. Outra maquiavélica manobra que pretende mostrar ao mundo uma mão estendida que ainda é a mesma que pretende assassinar Cuba.



A cifra é inferior ao que Cuba adquiriu no decorrer do ano e não modifica um milímetro as condições comerciais nem sequer nessas graves circunstâncias: o pagamento deverá ser contado, não haverá linha de crédito, os barcos que transportarem as mercadorias não poderão atracar em um porto dos EUA durante 6 meses e todas as enormes restrições que impõe o criminoso bloqueio contra Cuba.



Os danos superam os 5 bilhões de dólares, especialmente nas moradias, agricultura, eletricidade, comunicações e a infra-estrutura econômica.



Se hoje existem governos progressistas na América Latina e o Caribe é por conta, entre outros fatores, da heróica resistência do povo cubano durante todos estes anos, apesar de ser um pequeno país bloqueado e castigado, jamais deixou de estender sua mão solidária aos nossos povos.



Hoje é Cuba quem necessita da urgente solidariedade de cada um de nós.



Chamamos a todos para exigir o levantamento incondicional do bloqueio genocida contra Cuba tal como vem exigindo a comunidade internacional em absoluta maioria.



Exigimos que os EUA respeitem o clamor de nossa nações levantando o bloqueio contra Cuba.



Façamos nosso o Chamamento dos Intelectuais cubanos e convidamos nossos amigos a referendá-lo e reproduzi-lo.



Denunciamos o governo dos Estados Unidos da América, suas agências de inteligência e a máfia terrorista de Miami que pretende tirar proveito dessa situação com sua campanha de mentiras à opinião pública.



Chamamos a todos os amigos de Cuba no mundo a trabalhar solidariamente para reconstruir o que a força da natureza destruiu.



Cuba necessita, com imperiosa necessidade: Alimentos não-perecíveis, Materiais de reparação elétrica, Materiais de Construção



Apenas alguns dados para ilustrar os danos:

Evacuados: 3 milhões e duzentas mil pessoas
Moradias afetadas: cerca de 500 mil danificadas seriamente, 62 mil destruídas totalmente
Torres elétricas destruídas: 137. Postes de luz derrubados: 4500
Perdas na agricultura de dezenas de milhares de hectares
Perda de meio milhão de aves
Perdas numerosas na cana de açúcar, no tabaco, café, banana, cítricos e arroz
Grandes perdas na criação de suínos
Milhares de km de rodovias e estradas danificadas.
Sete portos fechados.
Numerosos danos em instituições educacionais, universidades, creches, instituições culturais e sanitárias.

Diante desse devastador panorama levanta-se firme como as palmeiras o valor da dignidade do povo cubano que, apesar do bloqueio e os furacões, não perde o sorriso e segue construindo esse mundo possível e solidário que tanto a nossa humanidade necessita.



Para tornar efetiva a ajuda solidária podem dirigir-se às Embaixadas de Cuba em cada país e ao Ministério de Investimentos Estrangeiros e a Colaboração Econômica (Minvec).

Doações financeiras para ajudar na restauração dos danos:
Banco Financiero Internacional S.A
Oficina Central: Línea #1, Vedado, Municipio Plaza, (Apartado 4068), La Habana, Cuba
Conta Nº 033473, "Huracanes, restauración de daños".

Cuba, mais uma vez, Vencerá!!!

“A solidariedade é a ternura dos povos”
Che


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

10 pontos para conhecer a ALBA

UNIDADE E INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA




Construindo a ALBA à partir dos povos





por Fernando Bossi, Congresso Bolivariano dos Povos





Exposição de Fernando Ramón Bossi, Secretário de Organização do Congresso Bolivariano dos Povos, no Foro que se realizou na III Cúpula dos Povos, Mar del Plata, 3 de novembro de 2005.





Antes de começar com a exposição, quero agradecer aos organizadores deste evento por terem me convidado a participar e compartilhar com vocês algumas reflexões a respeito da ALBA.



Além disso, devo manifestar que é uma verdadeira honra compartilhar esta tribuna com dirigentes do quilate de Jorge Ceballos, coordenador nacional do Movimento Bairros de Pé e membro do Secretariado Político do Congresso Bolivariano dos Povos, como também com o amigo Aníbal Mellano, genuíno representante das pequenas e médias empresas argentinas, homem comprometido com a causa dos povos.





Normalmente, sucede que nas conferências onde o tema central é a ALBA, a Alternativa Bolivariana para as Américas, não se fala da ALBA, senão que se fala sobre a ALCA. Se expõe sobre a ALCA, se expõe todos os males que abarca esta proposta imperialista e se conclui afirmando que a ALBA é todo o contrário. Em suma, se mencionam alguns exemplos: Petrosur, Telesur ou Banco do Sul. Poucas vezes se tenta explicar a proposta bolivariana de integração, e cabe esclarecer que a ALBA não é só uma resposta à ALCA, não é só isso, senão que a transcende em todos os seus aspectos.





É por isto que, com a intenção de não repetir a tradicional conferência sobre a ALBA, onde não se fala da ALBA senão da ALCA, tomei a tarefa de esboçar 10 pontos de aproximação à proposta ALBA e o papel dos povos em sua construção.





1) A ALBA é um projeto histórico





Se bem que nasce como proposta alternativa à ALCA, a ALBA responde a uma velha e permanente confrontação entre os povos latino-americanos caribenhos e o imperialismo. Monroismo versus Bolivarianismo, talvez seja a melhor maneira de expressar os projetos em pugna. O primeiro, aquele que se resume em "América para os americanos", na realidade "América para os norte-americanos". Esse é o projeto imperialista, de dominação, saque e rapina. O segundo é a proposta de unidade dos povos latino-americanos caribenhos, a idéia do Libertador Simón Bolívar de conformar uma Confederação de Repúblicas. Em síntese: uma proposta imperialista confrontada a uma proposta de libertação. Hoje, ALCA versus ALBA.



Portanto, devemos entender que a ALBA reconhece seus antecedentes na melhor tradição das lutas independentistas e pela unidade.




Aí aparece, então, a figura do Precursor, Francisco Miranda, com um Plano de Governo para esta região, à qual ele chamava Colômbia. E nos encontramos, sem dúvida, com a obra e o pensamento do Libertador Simón Bolívar. É necessário ler, estudar, refletir sobre a "Carta de Jamaica", seu discurso no Congresso de Angostura, a carta a Martín de Pueyrredón, a Convocatória ao Congresso Anfictiônico de Panamá, os acordos Mosquera-Monteagudo, Mosquera-O´Higgins, Santamaría-Alaman, a correspondência com José de San Martín e tantos outros documentos que anunciam o caminho da ALBA.





E não podemos nos esquecer tampouco de Sucre, das proclamações de Hidalgo e Morelos, do general San Martín, de Artigas e sua reforma agrária, da "Lei Gaúcha" de Güemes, do Plano de Operações de Mariano Moreno, dos escritos econômicos de Belgrano, da obra de Simón Rodríguez, do projeto de Federação de Bernardo Monteagudo, da obra do hondurenho Cecílio del Valle e da luta pela Confederação Centro-americana de Francisco Morazán. Em todo esse período, de não mais de 20 anos, se gerou, através do pensamento e da ação, doutrina revolucionária, programas, projetos, empreendimentos e leis conducentes à integração e à independência com justiça social. Creio que é um dos períodos mais brilhantes de nossa história.





Porém, também, nessa direção, logo da derrota do projeto bolivariano, as forças populares se recompõem e voltam à histórica luta. Levantam bandeiras de unidade Eloy Alfaro no Equador, Martí em Cuba, Ezequiel Zamora em Venezuela, Felipe Varela na Argentina, Ramón Emeterio Betances em Porto Rico... e tantos outros.





O próprio grande patriota e revolucionário nicaragüense, "O general de Homens Livres", Augusto César Sandino, escreverá seu projeto de unidade latino-americana: "Plano para a realização do sonho supremo de Bolívar". E isto só para mencionar alguns marcos de nossa história.





Ao buscar o mais contemporâneo, o mais recente, aparecem Perón e Getúlio Vargas com o ABC; Salvador Allende e a Universidade Latino-americana; a voz de Fidel dizendo-nos "Só haverá salvação na unidade"; Francisco Caamaño desde a República Dominicana; Velasco Alvarado desde o Peru mariateguista e tupacamarista; Torres e Marcelo Quiroga Santa Cruz desde Bolívia; Omar Torrijos desde Panamá; Carlos Fonseca desde Nicarágua; João Goulart desde o Brasil; Gaitán desde Colômbia; o Che Guevara desde toda Nossa América... Enfim... vozes, guias que marcam um rumo claro para a unidade e a segunda e definitiva independência.





É por isso que a ALBA tem antecedentes gloriosos, vem do profundo da América insurgente, tem raízes, profundas raízes que a convertem num projeto histórico de construção da Pátria Grande.





2) A ALBA é criação heróica





Como bem o assinalava o sábio José Carlos Mariátegui, a revolução nesta parte do mundo será "criação heróica, nunca cópia ou decalque". "Ou inventamos ou erramos", nos dizia Simón Rodríguez. Vale dizer que a tarefa de construir a ALBA será sem manuais nem "fórmulas mágicas".





De nada nos servem os exemplos da União Européia, nem muito menos a forma em que os Estados Unidos alcançou sua unidade, à custa de rapina, genocídio indígena e invasões. A União Européia tampouco, porque essa união se estabelece de maneira defensiva, sob os parâmetros do capitalismo e só para acumular força em sua competição com Estados Unidos e Japão. A União Européia é uma estratégia de uma série de nações no marco da luta intercapitalista e interimperialista. Nenhum destes são modelos de integração que nos possam servir aos latino-americanos caribenhos.





É por isto que os americanos do Sul teremos que inventar, mergulhar em nossa história, escutar as "vozes do passado que nos indicam o futuro", no dizer de Eduardo Galeano, implantar um modelo endógeno regional que conduza a uma unidade que seja produto de nossa própria obra, para cobrir nossas necessidades e representar nossos interesses.





3) A ALBA se sustenta nas potencialidades de América Latina e Caribe





América Latina e Caribe é uma das regiões mais ricas em recursos naturais do planeta. Aproveitar nossas potencialidades é a chave para o desenvolvimento e bem-estar de nossos povos.





Onde estão nossas potencialidades e de que maneira as aproveitamos hoje? Onde quer que busquemos encontraremos riquezas imensas em nosso continente; porém, também encontraremos que essas riquezas não são usufruídas por nossos povos. É por isso que em imensas pradarias, planos e pampas, com terras que podem ser ideais para a agricultura e a pecuária, com uma potencialidade infinita para produzir alimentos, convivem milhões de nossos irmãos que padecem fome.



Por outro lado, nossa região é rica em energia e minerais. Petróleo, gás, carvão e energia elétrica, graças aos enormes recursos hídricos. Tampouco nos falta ferro, cobre, estanho, zinco, alumínio, ouro, prata, cimento, cal. No entanto, a ausência de indústrias e o processo de desindustrialização desatado pela implementação das políticas neoliberais é outro dado da realidade.



Temos a maior reserva de água potável do planeta, um recurso que hoje é estratégico e o será muito mais nos próximos anos. Porém, pese a ter essa imensa riqueza, mais de 30% das 500.000 crianças que morrem aqui por ano, por razões que seriam facilmente evitáveis, morrem por diarréia infantil; por causa da falta de água potável.



Somos uma das regiões mais ricas em biodiversidade. Por outro lado, também somos a região onde mais espécies se vão extinguindo pela ação irracional das empresas multinacionais.



Temos uma cultura de milhares de anos que tem sido sistematicamente negada pela cultura elitista e estrangeirizante. O aporte das culturas dos povos originários, sua relação com a natureza e sua cosmovisão têm que ser incorporadas urgentemente por nossas sociedades, na luta pelo melhoramento da convivência humana e a vida em harmonia com o ambiente. A diversidade e a originalidade são os pilares fundamentais de uma frondosa cultura latino-americana caribenha que até hoje tem sido seqüestrada e negada para os próprios latino-americanos caribenhos.



E também contamos, dentro das enormes potencialidades, com uma história digna de um povo que nunca se resignou à submissão e a vassalagem. Enquanto os europeus se jactam de haver parido a um Alexandre Magno, a um César, a um Napoleão, nós, os latino-americanos caribenhos, podemos dizer com orgulho que esta tem sido terra de Libertadores e nunca de conquistadores.



Em síntese: terras férteis, rios imponentes, biodiversidade, energia, minerais, uma cultura milenar e uma história heróica de luta são as riquezas principais que sustentam a construção da ALBA.



4) A ALBA se apóia sobre valores anticapitalistas



A mesa da ALBA está assentada em quatro elementos, que são impensáveis dentro dos parâmetros do capitalismo:



a) A complementação.
b) A cooperação.
c) A solidariedade.
d) O respeito à soberania dos países.



Exemplifiquemos com base nos acordos já alcançados.



a) Complementação: Aqui se encontram, entre outros, os acordos de Argentina e Venezuela. Argentina produz alimentos que hoje Venezuela necessita e Venezuela tem combustíveis que para a Argentina de hoje são indispensáveis. Complementação com base em nossas potencialidades.



b) Cooperação: Acordos petroleiros entre Brasil e Venezuela. Brasil se especializa na exploração petroleira "mar adentro"; Venezuela na produção em "terra firme". Aí, então, se produz um acordo de cooperação, cada um socializa seus conhecimentos nas áreas em que mais se tem especializado.



c) Solidariedade: Petrocaribe. Os países caribenhos têm muito pouca riqueza em hidrocarbonetos. Venezuela, de maneira solidária – sem doar nada – ajuda estes países a adquirir combustíveis a preços justos.



d) Respeito à soberania. Todos os acordos, sem exceção, se realizam respeitando a soberania e o direito à autodeterminação de cada nação firmante.



5) A ALBA é uma construção popular



A ALBA é inconcebível sem a participação dos povos, que é "vital, como o oxigênio para os seres humanos", disse o comandante Chávez.



Já faz muitos anos, o general Perón havia se manifestado sobre este tema, expressando a importância da participação popular na tarefa da integração. Dizia o três vezes presidente dos argentinos, na mesma direção que o propõe Chávez, que a presença dos povos na luta pela unidade latino-americana caribenha é o essencial, "porque os indivíduos morrem, os governos passam, porém os povos ficam".



E nessa tarefa titânica é que os povos definirão seu futuro.



6) A ALBA é um capítulo do processo revolucionário mundial



A tarefa dos povos é titânica, colossal, como conseqüência dos desafios que impõe o momento. Vejamos, por exemplo:




  • Sem a participação ativa dos povos é impossível, para qualquer de nossos países, alcançar a verdadeira independência. Porque não pode haver independência sem justiça social, "de que vale a independência, Simón, se os pobres seguem mendigando, se os índios seguem estendendo a mão para pedir esmola!", escrevia Manuela Saenz ao Libertador, quando este já marchava para sua tumba, derrotado pelos interesses egoístas das oligarquias nativas e pelo colonialismo.





  • Porém, essa independência sem justiça social não se alcançará se os povos não avançam para a unidade latino-americana caribenha, porque só nessa unidade é que se consolidará a verdadeira independência e justiça social.





  • E essa unidade de Nossa América tampouco será suficiente se não logramos uma nova ordem mundial, não capitalista, que alcance a harmonia entre as nações, a convivência pacífica entre os seres humanos e uma nova relação com o ambiente e a natureza.





  • Vale dizer que a tarefa dos povos é de luta permanente até lograr um mundo com justiça, liberdade e igualdade. A ALBA, então, é um acontecimento, um elo nesta cadeia de objetivos, do processo revolucionário necessário para conservar a espécie humana e enterrar qualquer forma de exploração do homem pelo homem.




7) A ALBA é uma forma de integração que não parte do mercantil





O primeiro que há que fazer, na nova proposta de integração, é romper com a lógica capitalista, a lógica do lucro e da ganância, a lógica da competição, a lógica da economia como crematística. A ALBA deve partir da integração, em primeira instância, desde o político e desde o social. E isto implica a mobilização popular.





Aí temos, desde o social, tarefas que já se vêm levando e outras que deverão acometer-se com a mobilização das forças populares,: campanhas de alfabetização, de vacinação, de atenção médica, a rede de universidades populares, as oficinas de artes e ofícios, a rede de meios de comunicação alternativos, a central de trabalhadores latino-americanos caribenhos, a central de campesinos de Nossa América, a rede de defesa de nossos recursos naturais, enfim, uma quantidade de empreendimentos que deverão sair do seio do povo e dos governos progressistas do continente. Ademais, desde o político, devemos estimular iniciativas como a conformação da Rede de Parlamentares para a Integração, constituída em El Salvador, a iniciativa da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional [FMLN] e o Congresso Bolivariano dos Povos; contribuir para conformar uma poderosa rede de prefeitos e intendentes latino-americanos caribenhos, que impulsionem mecanismos de integração desde o poder local; o apoio e a solidariedade permanente com as forças políticas progressistas que aspiram a lograr bons resultados nas eleições que se avizinham em todo o continente... Aí estão os compatriotas Evo Morales, Andrés Manuel López Obrador e Daniel Ortega, futuros presidentes de Bolívia, México e Nicarágua, respectivamente. Resumindo, cada vez é mais necessário que as forças políticas e sociais da América Latina Caribenha, as forças democráticas, patrióticas, antiimperialistas, revolucionárias, se constituam num poderoso movimento popular latino-americano e do Caribe e atuem coordenadamente, como verdadeiro Estado-Maior da revolução em Nossa América. Essa é a proposta do Congresso Bolivariano dos Povos.





8) A ALBA é uma ferramenta política





A ALBA deve ser uma ferramenta política para a libertação. Agora, como toda ferramenta, deverá ser eficiente e flexível ante as circunstâncias. Por que digo isto? Porque creio que a ALBA deverá atuar também como barreira de contenção ante as novas táticas que o imperialismo utilizará para dominar-nos. Por exemplo: ante a derrota imperial de querer impor a ALCA de uma só tacada, aparecem as "alquinhas", os Tratados de Livre Comércio (TLC) como um caminho indireto para alcançar a ALCA.





O governo estadunidense pretende aproveitar a maior debilidade que temos os latino-americanos caribenhos: a desunião. Então, aplicam a fórmula, inteligentemente eu diria, de derrotar-nos um a um.





Porém, ante essa nova iniciativa colonialista, ante essa proposta de vinte e poucas alquinhas ou TLC, que na somatória paririam a ALCA, nós, os povos de Nossa América, com os governos progressistas e as organizações populares, teremos que impor-lhes 100 "albinhas", 1000 "albinhas", 10000 "albinhas". Cada um destes acordos que se realizam com o espírito da ALBA serão ladrilhos sólidos na construção da Confederação de Repúblicas Latino-americanas Caribenhas. Essa é a tarefa de hoje das forças populares pela integração.



9) A ALBA é o programa da Revolução Latino-americana Caribenha




Os povos de Nossa América passamos para uma nova etapa. Devemos dar o salto da etapa do protesto (sem deixá-la de lado, evidentemente) à etapa das propostas. A resistência é necessária, porém é hora já de passar à ofensiva.





Por isso, o programa ALBA deve ser construído com os povos e deve ser divulgado entre os povos. As três etapas próprias de toda luta revolucionária deve ser trabalhada também na construção da ALBA:





a) Educar, convencer sobre a necessidade da ALBA.
b) Propagandear e difundir entre as massas populares a "boa-nova" da ALBA.
c) Organizar e mobilizar em torno da construção concreta da integração entre os povos.



Como muito bem dizia o Chanceler venezuelano Alí Rodríguez, "é necessário que os povos sintam os benefícios da integração". Essa é a tarefa das forças populares, fazer chegar os benefícios da integração através das campanhas e missões sociais.

Recomendo que leiamos o folheto "Construyendo el ALBA desde los pueblos" [Construindo a ALBA desde os povos], um verdadeiro programa revolucionário de integração, que surgiu das propostas das organizações populares latino-americanas reunidas em infinidade de eventos e através de vários anos de luta e esforços. Esse material não é um material acabado, senão que se enriquece cotidianamente através das novas experiências, aportes, estudos e empreendimentos que levam adiante os diferentes artífices da integração.




10) A ALBA é um salto estratégico a uma nova etapa.





A ALBA já está instalada, gostem ou não os imperialistas e as oligarquias. De nós dependerá que avance mais ou menos aceleradamente. A ALBA conta com um dispositivo fundamental na hora do combate:





a) Conta com um líder decidido e que já deu suficientes mostras de convicção e coragem: o comandante Hugo Chávez.
b) Conta com um Estado-Maior de qualidade, que são os dirigentes das organizações populares de América Latina e Caribe.
c) E conta com um exército de milhões de soldados: o povo latino-americano caribenho, disposto a construir, em paz, a Pátria Grande dos Libertadores.





É por isto que a alternativa hoje já não é "vencer ou morrer", a alternativa de hoje é muito mais exigente, muito mais tremenda, de maior responsabilidade ainda. Como dizia o patriota venezuelano José Félix Ribas: "necessário é vencer".
Muito obrigado.

Uma resposta da História ao Capitalismo senil

por Miguel Urbano Rodrigues


A rejeição da Câmara de Representantes dos EUA ao plano de salvamento do sistema financeiro proposto pelo governo Bush, os candidatos à Presidência e as lideranças do Congresso ampliou muito a gravidade da crise do capitalismo. O afundamento das bolsas européias e asiáticas acompanhando o pânico de Wall Street (o Dow Jones, num recorde histórico, caiu 6,98%) conferiu à crise estadunidense proporções mundiais.


A um apelo desesperado da elite do poder político, os deputados da União responderam com um voto também de desespero. A recusa não foi determinada por respeito ao povo, nem sequer pelas vitímas do caos implantado no sistema bancário. Os motivos do Não dos legisladores são tão pouco éticos como os dos senhores que lhes imploravam a aprovação de 700 bilhões de dólares destinados sobretudo a comprar dos mercados créditos podres, as famosas hipotecas dos subprimes.


Às vésperas das eleições para renovação dos seus mandatos, a maioria dos representantes - sobretudo os republicanos - teme ser punida nas urnas se aprovar um plano que oferece o dinheiro dos contribuintes aos bancos responsáveis pelo desastre e ignora a situação angustiosa de 10 milhões de compatriotas em risco de perder as suas casas.


Do outro lado, Bush, Obama, Mc Cain, Bernanke, Paulson, Pelosi e as estrelas da finança recorrem a uma retórica farisaica no seu esforço para evitar um estouro do sistema bancário que ameaçaria a sobrevivência do sistema capitalista.


O grupo elaborará agora, com urgência urgentíssima, uma nova proposta e vai renegociar a sua aprovação com a Câmara dos Representantes (no Senado tudo será mais fácil). As mudanças no texto serão, tudo o indica, cosméticas, porque o SIM dependerá de promessas e favores que não serão tornados públicos.


O medo que alastra em Washington e nos meios políticos e financeiros europeus justifica-se. A crise avança como um iceberg à deriva no qual a parte submersa, a principal, não é visível. A cadeia de falências adquiriu um ritmo assustador. Na segunda feira, a do Wachavia, o quarto banco dos EUA, foi evitada através da compra parcial desse gigante (com uma carteira de empréstimos no valor de 312 bilhões) pelo Citigroup.


Segundo a Agência Reuters, a Reserva Federal-FED está a emprestar ao mercado diariamente dezenas de bilhões de dólares, em decisão perigosa que coloca em risco o seu próprio futuro.


Na Europa, uma operação de socorro montada pela Holanda, Bélgica e Luxemburgo, salvou o Fortis. No Reino Unido, o Estado nacionalizou o Bradford & Bingley. O terremoto bancário até na Islândia se fez sentir (nacionalização do Glitnir ).


Autoridades financeiras francesas e alemãs afirmaram no início de setembro que a crise afetaria pouco a união Européia porque o mercado europeu estava mais protegida do que a dos EUA. Ingenuidade ou bazófia?


Nas últimos dias os governos do Reino Unido, da França, da Alemanha, da Bélgica, da Holanda, da Dinamarca, da Islândia, do Luxemburgo tiveram de intervir em operações de salvamento que custarão mais de 70 bilhões de euros. O Banco Central Europeu injetou mais 120 bilhões de euros no sistema bancário para aumentar a liquidez.


Como era de esperar, os grandes media internacionais, desde a CNN à BBC, passando pelo The New York Times ao Frankfurt Algemeine, apresentam visões distorcidas da crise. Privilegiam pormenores acessórios, forjam cenários e interpretações fantasistas e sobretudo subestimam ou ocultam as suas causas e consequências eventuais.


É muito generalizada, por exemplo, a omissão de referências ao mecanismo de obtenção dos 700 bilhões de dólares do Plano Paulson se ele, em segunda versão, for, finalmente, aprovado. É um fato que o contribuinte norte-americano será duramente penalizado porque a dívida pública e a dívida externa da nação sofrerão um brutal aumento. Mas não se informa, com raríssimas exceções, que a maioria desse dinheiro será obtido no Estrangeiro, porque serão sobretudo os bancos centrais europeus, asiáticos e latino-americanos os compradores das Obrigações do Tesouro dos EUA a emitir. Até a China entrará no leilão. Cabe aliás recordar que se o grande país asiático decidisse nestes dias trocar por outras divisas as suas colossais reservas de dólares e cobrar os títulos do Tesouro americano que acumulou, os EUA cairiam imediatamente na banca rota. Não o fará porque o seu próprio modelo de desenvolvimento também, então, naufragaria, mas a dependência norte-americana de Pequim é esclarecedora da extrema fragilidade do sistema financeiro montado pela potência hegemônica.


Outra conclusão – a mais importante de todas - que a elite da finança se abstem de extrair da crise é de natureza ideológica.


Não pode reconhecer publicamente que o caos implantado no sistema financeiro mundial demonstra a falência das teses que os governos dos EUA e da União Européia vêm proclamando com arrogância sobre a capacidade do neoliberalismo, fase superior do capitalismo, se impor como a ideologia definitiva, a única capaz de resolver os grandes problemas da humanidade. Segundo ela, a dimensão do Estado tenderia a ser progressivamente diminuída, reduzindo-se ao mínimo a sua intervenção na economia. Somente um mercado plenamente autônomo, livre de pressões estatais, intocável, poderia cumprir a sua missão insubstituível.


A História, mais cedo do que se admitia, começou a dar uma resposta totalmente negativa ao sonho dos sacerdotes do capital.


O pânico nas bolsas que acompanha a falência de gigantes bancários envolvidos em especulações, fraudes e escândalos iluminou, desmentiu e ridicularizou a religião do mercado. Agora a finança implora ao Estado que lhe acuda para salvar a banca e os banqueiros.


Sem a ajuda do Estado, o mercado afundaria. Em Portugal, Sócrates e os seus auxiliares e epígonos mergulharam num silêncio compreensível. Quase não falam da crise. Entusiastas das privatizações e praticantes do culto do mercado, a crise do sistema deixa-os mudos e nus perante o povo português.


Festejaram a privatização do mercado português e as fusões a ela posteriores. Desejariam levá-la ainda mais longe. Muitos desses senhores chegaram ao extremo de sugerir a privatização da Caixa Geral de Depósitos. Acredito que nunca meditaram seriamente sobre as consequências num panorama de crise do mercado para centenas de milhares de pensionistas da eventual entrega ao grande capital do maior banco português.


No momento em que escrevo, o mercado e as bolsas dos EUA e da União Europeia aguardam nervosamente o plano de socorro recauchutado que a Casa Branca vai submeter ao Congresso.


Mas, qualquer que seja o seu conteúdo, a crise prosseguirá, com tendência para situações potencialmente explosivas. A decisão de injetar centenas de milhões no mercado (em beneficio exclusivo dos responsáveis pelo desastre) não atingirá o objetivo de curar o paciente.


Porque a crise do sistema financeiro é inseparável de outra maior, a crise estrutural do capitalismo.


Grandes sofrimentos são identificáveis no horizonte para as vítimas da engrenagem da finança.


Nestes dias, o futuro próximo é imprevisível. Mas para quantos pelo mundo a fora rejeitam o capitalismo e o combatem por desumano, a única alternativa – embora distante ainda - é o socialismo, rumo a uma sociedade humanizada incompatível com a exploração do homem.


Serpa, 30 de Setembro de 2008