"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


domingo, 20 de outubro de 2013

The Obama regime


È uma prática profundamente arraigada que os governos adversos à dominação americana sejam habitualmente caracterizados como "regimes", pelos grandes meios de comunicação do império, pelos intelectuais colonizados da periferia e por aqueles que o grande dramaturgo espanhol Alfonso Sastre magistralmente qualificou como "intelectuais bem pensantes". A palavra "regime" adquiriu na ciência política uma conotação profundamente negativa ainda que esta não existisse na sua formulação original. Até meados do século XX falava-se do "regime feudal", do "regime monárquico", ou do "regime democrático" para aludir a leis, instituições e tradições políticas e culturais que caracterizavam cada sistema político. Contudo com a Guerra-fria e depois com a contra-revolução neoconservadora este vocábulo mudou completamente o seu significado. No seu uso actual a palavra é empregada para estigmatizar governos ou estados que não se ajoelham perante as ordens de Washington, que por isso mesmo os caracteriza como autoritários e, em não poucos casos, como tiranias sangrentas.

Contudo, um olhar sóbrio sobre este assunto comprovaria a existência de estados abertamente despóticos que, apesar disso, os arautos da direita e do imperialismo jamais qualificariam como "regimes". Na conjuntura actual proliferam analistas políticos e jornalistas (incluindo alguns "progressistas" um tanto ou quanto distraídos) que não encontram inconveniente em aceitar o uso da linguagem estabelecida pelo império. O governo sírio é o "regime de Bashar Al Assad"; e a mesma classificação é utilizada para falar dos países bolivarianos. Na Venezuela o que existe é um "regime chavista"; no Equador é o "regime de Correia" e a Bolívia está submetida aos caprichos do "regime de Evo Morales". O facto de se terem desenvolvido nesses três países instituições e formas de protagonismo popular e funcionamento democrático, superiores aos existentes nos Estados Unidos e na maioria dos países capitalistas desenvolvidos é olimpicamente ignorado. Como não são amigos dos Estados Unidos o seu sistema político é classificado como "regime".

O duplo critério que se aplica nestes casos fica em evidencia quando se observa que as infames monarquias petrolíferas do golfo, muito mais despóticas e brutais do que o "regime sírio", nunca são estigmatizadas com a palavrinha em questão. Fala-se por exemplo, do governo de Abdullah bin Abdul Aziz mas nunca do "regime saudita", apesar de este país não ter sequer um parlamento mas sim uma "Assembleia Consultiva" cujos membros são escolhidos pelo monarca entre os seus parentes e amigos; de os partidos políticos estarem expressamente proibidos e de o poder ser exercido por uma dinastia que se perpetua há décadas no poder. Exactamente o mesmo sucede com o Qatar a quem nem por rebate de consciência ao 
New York Times ou aos media hegemónicos da América Latina e do Caribe ocorre tratarem-nos por "regime saudita" ou "regime qatari". A Síria, ao contrário, é um "regime" – apesar de ser um estado laico no qual até há bem pouco tempo conviviam diversas religiões, onde existem partidos políticos legalmente reconhecidos e um congresso com representação da oposição. Mas nada lhe tira a alcunha de "regime". Por outras palavras, um governo amigo, aliado ou cliente dos Estados Unidos, por mais violador que seja dos direitos humanos, nunca será caracterizado como um "regime" pelo aparato propagandístico do sistema. Por outro lado os governos do Irã, Cuba, Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Equador e outros mais são invariavelmente caracterizados dessa maneira. [1]

Para comprovar rotundamente a tergiversação ideológica subjacente a esta caracterização dos sistemas políticos basta recordar a forma como os publicitários da direita caracterizam o governo dos Estados Unidos, considerando-o o "non plus ultra" da realização democrática. Isto apesar de o antigo presidente Jimmy Carter dizer que o seu país "não tem uma democracia que funcione". O que há é um estado policial muito habilmente dissimulado, que exerce uma vigilância permanente e ilegal sobre os seus próprios cidadãos, e cujo feito mais importante que realizou nos últimos trinta anos foi permitir que apenas 1% da população enriqueça como nunca até aqui, à custa do estancamento dos rendimentos recebidos por 90% da população. Na mesma linha crítica da "democracia" estado-unidense (na realidade uma cínica plutocracia) encontra-se a tese do grande filósofo Sheldon Wolin, que caracterizou o regime político imperante no seu país como "um totalitarismo invertido". Segundo ele, "o totalitarismo invertido… é um fenómeno…que representa fundamentalmente a maturidade política do poder corporativo e a desmobilização política da cidadania". [2] Por outras palavras, a consolidação da dominação burguesa nas mãos dos oligopólios, por um lado, e a desmobilização política das massas, devido à apatia política, abandono e mesmo desdém pela vida pública, e a fuga individual no sentido de um consumismo insano sustentado pelo endividamento galopante, por outro. O resultado: um "regime" totalitário de novo tipo. Um democracia "peculiar", em suma, sem cidadãos nem instituições, e na qual o peso esmagador do "establishment" esvazia de todo conteúdo o discurso e as instituições democráticas, convertidas por isso num esgar sem gosto nem graça, e absolutamente incapaz de garantir a soberania popular. Ou seja, de tornar realidade a velha fórmula de Abraham Lincoln quando definiu a democracia como "o governo do povo, pelo povo e para o povo".

Em resultado desta gigantesca operação de falsificação da linguagem, o estado norte-americano é concebido como uma "administração", ou seja, uma organização que em função de regras e normas claramente estabelecidas gere a coisa pública com transparência, imparcialidade e apego ao mandato da lei. Na realidade, como afirma Noam Chomsky, nada disso é verdade. Os Estados Unidos são um "estado canalha" que viola como nenhum outro a legalidade internacional bem como alguns dos mais importantes direitos e leis do seu próprio país. Assim o demonstram, no caso interno, as revelações sobre a espionagem que a NSA e outras agências têm feito contra o próprio povo americano, já para não falar de atropelos ainda piores como os que se produzem diariamente na prisão de Guantanamo, ou a persistente ferida aberta do racismo. [3] Proponho por isso que se abra uma nova frente da luta ideológica e se comece a falar sobre o "regime de Obama", ou do "regime da Casa Branca" cada vez que tenhamos de nos referir ao governo dos Estados Unidos. Será um acto de justiça que melhora a capacidade de análise, e contribui para higienizar a linguagem política, emporcalhada e abastarda pela indústria cultural do império e a sua inesgotável fábrica de mentiras.
[1] Convém recordar que esta dualidade de critérios morais tem uma longa história nos Estados Unidos. É célebre a piada que narra a resposta do presidente Franklin D. Roosevelt perante alguns membros do partido democrata horrorizados pelas brutais políticas repressivas de Anastazio Somoza na Nicarágua. FDR limitou-se a escutá-los e rematou: "sim é um filho da puta. Mas é o "nosso" filho da puta". O mesmo poderia dizer-se dos monarcas da Arábia Saudita ou do Qatar, entre outros. Acontece que Bashar Al Assad não é o seu filho da puta. Daí a caracterização do seu governo como "regime".

[2] Cf. sua 
Democracia Sociedad Anónima (Buenos Aires: Katz Editores, 2008) p. 3.

[3] Para um exame da sistemática violação dos direitos humanos por parte do governo dos Estados Unidos, ou do "regime" norte-americano, ver: Atilio A. Boron e Andrea Vlahusic, 
El lado oscuro del imperio. La violación de los derechos humanos por Estados Unidos (Buenos Aires: Ediciones Luxemburg, 2009)
O original encontra-se em www.atilioboron.com.ar/2013/09/sobre-regimenes-y-gobiernos.html . Tradução de PM. 
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ESSE, SIM, É O CARA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ISSO É SER UM ESTADISTA.



EU, JOSÉ MUJICA – PRESIDENTE DO URUGUAI

Eu não sou pobre! Pobres são aqueles que acreditam que eu sou pobre. Tenho poucas coisas, é certo, as mínimas, mas apenas para ser rico. Quero ter tempo para... dedicá-lo às coisas que me motivam. Se tivesse muitas coisas, teria que me ocupar de resolvê-las e não poderia fazer o que eu realmente gosto. Essa é a verdadeira liberdade, a austeridade, o consumir pouco. Vivo em uma pequena casa, para poder dedicar tempo ao que verdadeiramente aprecio. Senão, teria que ter uma empregada e já teria uma interventora dentro de casa. Se eu tivesse muitas coisas, teria que me dedicar a cuidar delas, para que não fossem levadas... Não, com três cômodos é suficiente. Passamos a vassoura, eu e a velha, e já se acabou. Então, temos tempo para o que realmente nos entusiasma. Verdadeiramente, n ão somos pobres!”
José Mujica — Presidente do Uruguai


QUEM É JOSÉ MUJICA? Conhecido como “Pepe” Mujica, o atual Presidente do Uruguai recebe USD$12.500/mês (doze mil e quinhentos dólares mensais) por seu trabalho à frente do país, mas doa 90% de seu salário, ou seja, vive com 1.250 dólares, cerca de R$2.538,00 reais ou ainda 25.824 pesos uruguaios. O restante do dinheiro ele distribui entre pequenas empresas e ONGs que trabalham com habitação.
“— Esse dinheiro me basta e tem que bastar, porque há outros uruguaios que vivem com menos”, diz o presidente Mujica.
Aos 77 anos, Mujica vive de forma simples, usando as mesmas roupas e desfrutando da companhia dos mesmos amigos de antes de chegar ao poder.
Além de sua casa, seu único patrimônio é um velho Volkswagen, cor celeste, avaliado em pouco mais de mil dólares. Como transporte oficial, usa apenas um Chevrolet Corsa. Sua esposa, a senadora Lucía Topolansky, também doa a maior parte de seus rendimentos.
A poucos quilômetros de Montevidéu, já saindo do asfalto, avista-se um campo de acelgas. Mais à frente, um carro da polícia e dois guardinhas: o único sinal de que alguém importante vive na região. O morador ilustre é José Alberto Mujica Cordano, conhecido como Pepe Mujica, presidente do Uruguai.
Perguntado sobre quem é esse Pepe Mujica, ele responde: “— Um velho lutador social, da década de 50, com muitas derrotas nas costas, que queria consertar o mundo e que, com o passar dos anos, ficou mais humilde, e agora tenta consertar um pouquinho de alguma coisa”.
Ainda jovem, Mujica se envolveu no MLN — Movimento de Libertação Nacional e ajudou a organizar os tupamaros, grupo guerrilheiro que lutou contra a ditadura. Foi preso pela ditadura militar e torturado. “— Primeiro, eu ficava feliz se me davam um colchão. Depois, vivi muito tempo em uma salinha estreita, e aprendi a caminhar por ela de ponta a ponta”, lembra o presidente uruguaio. Dos 13 anos de cadeia, Mujica passou algum tempo em um prédio, no qual o antigo cárcere virou shopping. A área também abriga um hotel cinco estrelas. Ironia para um homem avesso ao consumo e ao luxo.
No bairro Prado, a paisagem é de casarões antigos, da velha aristocracia uruguaia. É onde está a residência Suarez y Reyes, destinada aos presidentes da República. Esse deveria ser o endereço de Pepe Mujica, mas ele nunca passou sequer uma noite no local. O palácio de arquitetura francesa, de 1908, só é usado em reuniões de trabalho.
Mujica tem horror ao cerimonial e aos privilégios do cargo. Acha que presidente não tem que ter mais que os outros. “— A casinha de teto de zinco é suficiente”, diz ele. -“Que tipo de intimidade eu teria em casa, com três ou quatro empregadas que andam por aí o tempo todo? Você acha que isso é vida?”, questiona Mujica.
Gosta de animais, tem vários no sítio. Pepe Mujica conta que a cadela Manoela perdeu uma pata por acompanhá-lo no campo e que ela está com ele há 18 anos.
A vida simples não é mera figuração ou tentativa de construir uma imagem, seguindo orientações de um marqueteiro. Não, ela faz parte da própria formação de Mujica.
No dia 24 de maio de 2012, por ordem de Mujica, uma moradora de rua e seu filho foram instalados na residência presidencial, que ele não ocupa porque mora no sítio. Ela só saiu de lá quando surgiu vaga em uma instituição. Neste início de inverno, a casa e o Palácio Suarez y Reyes, onde só acontecem reuniões de governo, foram disponibilizadas por Mujica para servir de abrigo a quem não tem um teto. Em julho de 2011, decidiu vender a residência de veraneio do governo, em Punta del Este, por 2,7 milhões de dólares. O banco estatal República a comprou e transformará a casa em escritórios e espaço cultural. Quanto ao dinheiro, será inteiramente investido – por ordem de Mujica, claro – na construção de moradias populares, além de financiar uma escola agrária na própria região do balneário.

O Uruguai ocupa o 36ª posição do ranking de EDUCAÇÃO da Unesco, enquanto o Brasil ocupa a 88ª posição. Já no ranking de DESENVOLVIMENTO HUMANO, o Uruguai ocupa o 48º lugar, enquanto o Brasil ocupa o 84º lugar. Enquanto isso no Brasil, políticos reclamam que recebem um salário baixo para o cargo que exercem. QUE VERGONHA!!!
Mujica é um homem raro, nesses tempos de crise de valores morais e ética, dentre os políticos sul-americanos.

 

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Diálogos de paz em La Habana: Santos sabota a mesa


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Quinta-feira, 17 Outubro 2013 03:34
O acordo é possível sem ambições nem pressões, reconhecendo a bilateralidade da mesa de Havana e a necessidade das decisões combinadas. O presidente Juan Manuel Santos não defende o processo de paz e joga com supostas alternativas em consulta que põem em perigo a continuidade do diálogo.
De conformidade com o ordenado pelo comandante das FARC-EP Timoleón Jiménez à Delegação de Paz em Havana, esta deu a conhecer, no passado 3 de outubro, o “Primeiro informe sobre o estado das conversações de paz”, feito com o qual se solucionou a polêmica com o Governo Nacional sobre a confidencialidade ou não dos assuntos tratados na mesa bilateral.
Como nunca antes, estiveram tão em perigo os diálogos de Havana, pois, na raiz do pronunciamento do chefe das FARC-EP de que se revelariam os segredos bem guardados e acordados pelas duas partes, o presidente Juan Manuel Santos lhe fez saber no momento à delegação guerrilheira, através de Humberto de la Calle Lombana, que, cumprindo-se o anúncio, o Governo Nacional romperia o processo.


[...]Com o exclusivo propósito de que o país e o mundo conheçam na verdade o que ocorre, decidi autorizar os nossos porta-vozes em Havana a elaboração de um informe ao povo colombiano. Temos uma grande responsabilidade ante ele, e tanta retórica prejudica, Santos”, disse o comandante das FARC-EP. Palavras que foram interpretadas, ou melhor, apresentadas pela “grande imprensa” com distorção ou má intenção.

Duzentas propostas


Após a precisão de “Timochenko” no famoso apêndice, que não foi um pau na roda dos diálogos, como foi qualificada, Iván Márquez leu, ante a mídia, e para conhecimento do país, o informe que não revelou segredos, porém, sim, situou os avanços e conquistas do diálogo durante um ano de percorrido, fato que pôs fim ao incidente que tensionou o país nas duas últimas semanas.


O acordo diz que as discussões da mesa não se farão públicas, e para nada se refere ao combinado. Por isso, jamais objetamos ou nos incomodaram os informes que de maneira particular o governo dá às corporações, aos militares, ou à opinião em geral”.


Havida conta que o governo levou a debate público e a conhecimento das esferas legislativa e jurisdicional, tanto o marco jurídico como o referendo, as FARC se sentem em liberdade de opinar frente a estes temas. O faremos de maneira responsável em prol de entregar elementos de juízo à cidadania, para que esta siga contribuindo com suas iniciativas à superação do longo conflito colombiano”, diz o informe fariano.


As FARC-EP recordaram que apresentaram 200 propostas à mesa. Cem sobre o tema agrário e cem sobre participação política. Todas elas interpretam as que numerosas organizações sociais, agrárias, populares e partidos políticos fizeram nos foros que se adiantaram sobre os dois temas, organizados pela Universidade Nacional e as Nações Unidas.


Demonstra o papel deliberante e a iniciativa guerrilheira na mesa”, reconheceu um analista. E acrescentou: “Não se conhecem as do Governo, porém parece que não as há, porque estão dedicados a rechaçar as que fazem as FARC. É a prática do ‘nãoismo’, que demonstra pouca iniciativa governamental. Atuam por reflexo, na defensiva”.


Avanços modestos


A realidade do diálogo e das conquistas está exposta de forma desprendida no informe lido pelo Iván Márquez: “Hoje, após 14 ciclos de intercâmbios nos quais as FARC-EP puseram sobre a mesa cerca de 200 propostas mínimas para resolver os problemas rurais e os de participação política e cidadã, ainda que se tenha chegado a mais de 25 páginas de acordos parciais, os avanços são modestos”.


Temos suficiente material na comissão de texto e podemos anunciar ao povo colombiano que, pelo que tem que ver com a delegação das FARC, avançamos com bastante celeridade. Oxalá pudéssemos fechar para esta data o ponto de participação política ou se se quer todos os pontos da agenda”, disse Andrés París.


Já temo suma soma de páginas suficientes no ponto de participação política para mostrá-lo à Colômbia como um avanço. A confidencialidade que se nos põe pela cláusula estabelecida no acordo nos impede distrair-nos no conteúdo dessas páginas, porém, sim, informamos à Colômbia e ao mundo que a Delegação de Paz das FARC-EP se encontra trabalhando intensamente sem freios para um acordo neste ponto”.


Outros desejos já correspondem a agendas políticas que não estão presentes no Acordo Geral, porém cada um está em seu direito de trabalhar desde seu ângulo e desde seus interesses todos estes temas. No que a nós corresponde, vamos apresentar à Colômbia muitos bons resultados ao término deste ciclo”, sustentou París.


No entanto, ao terminar a 15ª rodada de conversações, não há acordo sobre participação política. Nem sequer sobre o estatuto da oposição, ordenado pela Constituição Política de 1991. O Governo Nacional se opõe a incluir um artigo que garante o direito ao protesto social e os direitos das organizações sociais à mobilização e apresentação de suas reivindicações.


Enquanto De la Calle Lombana exige às FARC demonstrar com fatos a vontade de paz, porta-vozes da insurgência asseguram que o Governo, com sua posição estreita, ao desconhecer o preâmbulo do “Acordo Geral para pôr fim ao conflito e conquistar uma paz estável e duradoura”, obstaculiza chegar a um imediato acordo.


As guerras não são eternas; elas devem ter um final. Se ambas as partes têm vontade sincera, ninguém poderá contra a paz. Porém, o governo tem a responsabilidade de não permitir que se nos escape esta esperança, porque possui em suas mãos a decisão das mudanças, de abrir as portas à democracia, e atender ao clamor de um povo que exige paz com justiça social’, diz a declaração da Delegação de Paz das FARC-EP ao culminar a 15ª rodada.


Jogo perigoso


Em contradição com o bom ambiente que se deve preservar em Havana, o presidente Juan Manuel Santos abriu um debate com os partidos da Unidad Nacional, estendido ao país e à “opinião pública” através da mídia, que apresentam o suposto freio das FARC e os poucos resultados concretos sobre o futuro dos diálogos e se se devem manter ou não.


É uma consulta surpreendente e perigosa, porque Santos, em lugar de convocar ao Estabelecimento a defender o processo de paz, abre um debate sobre a possibilidade de suspender os diálogos ou inclusive rompê-los.


As alternativas do presidente Santos são três: suspender os diálogos durante a campanha eleitoral, rompê-los em definitivo, ou seguir como estão. Reafirmou que espera resultados até o dia 18 de novembro, do contrário tomará a decisão em qualquer das três direções.


Horacio Serpa Uribe, porta-voz do governo de César Gaviria nos diálogos de Tlaxcala [México] com a Coordenadora “Simón Bolívar”, em 1992, relembrou que ali se adotou a figura da suspensão e jamais se retomou. Neste sentido, se mostrou em desacordo com esta alternativa e, evidentemente, com a ruptura. “Há que seguir no diálogo”, assinalou.


Ainda que as FARC-EP não rechaçaram a opção de suspendê-los durante a campanha eleitoral para que este tema não cause ruído na mesa, numerosos porta-vozes da esquerda e analistas políticos se opõem porque pode ser aproveitado pelos inimigos da paz para impor a ruptura. É possível que não haja o retorno à mesa.


Se algo se desprende do informe da delegação de paz das FARC-EP, é que é possível obter resultados no médio prazo, porém é indispensável que o presidente Santos abandone a posição pusilânime de fazer concessões à extrema-direita e ao militarismo e decida favorecer os acordos de paz com democracia e justiça social, sem reduzi-los à desmobilização e à entrega das armas. E sem impor decisões próprias do acordo bilateral como o marco jurídico para a paz, o referendo e as vítimas do conflito.


O conflito colombiano tem profundas causas que devem ser resolvidas, como solução não cabem a pax romana nem a paz dos cemitérios.

Fonte: Semanario Voz

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Comunicado fim de 15 ciclo


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La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 13 de Outubro de 2013   
 
Alcançamos hoje outro porto intermediário na linha do tempo que conduz ao destino de paz que a história reservou à Colômbia.
Nossa fé e nossa certeza brotam da determinação de pôr fim a um conflito de meio século de existência.
 
As guerras não são eternas; elas devem ter um final. Se ambas as partes têm vontade sincera, ninguém pode contra a paz. Porém, o governo tem a responsabilidade de não permitir que se nos escape esta esperança, porque possui em suas mãos a decisão das mudanças, de abrir as portas à democracia, e de atender ao clamor de um povo que exige paz com justiça social.
 
Todos sabemos que a paz não é o silêncio dos fuzis. Concedemos ao governo que, para dar curso à construção da paz, há que deter a confrontação. Sim, porém a razão impõe que, antes de assinar o acordo final, é necessário combinar o conteúdo das reformas institucionais, que, o mesmo governo reconhece, devem ser implementadas após sua firma.
 
A paz não pode depender de promessas e de palavras sonoras, enfáticas, porém de vida efêmera. As palavras, vistas desde o contexto histórico da solução de conflitos na Colômbia, sempre se converteram em mentira e em traição. Confiados nelas, caíram abatidos pelas balas comandantes guerrilheiros da dimensão de Guadalupe Salcedo, Jacobo Prías Alape e Carlos Pizarro Leon Gómez, entre outros.
 
É indispensável, para a geração de confiança, pactuar o que se desenvolverá mais tarde, revestir juridicamente o eventual Acordo, convertê-lo em norma pétrea para que nenhum governo caia na tentação de desconhecê-lo; e, sobretudo, há que guarnecê-lo das ingerências da juridicidade internacional com o desdobramento da bandeira da soberania jurídica, e com o fato certo – que todos os colombianos devemos reivindicar -, e é que nenhuma armadura jurídica internacional pode estar acima da decisão do soberano, do constituinte primário.
 
Seria um sofisma pensar que o governo na mesa representa a toda a sociedade. É óbvio que ao que se enfrenta a contraparte é aos anseios das maiorias pobres, delineados nos foros temáticos convocados por iniciativa da mesa de diálogo, e que as FARC assumiram como insumos para o debate e a formulação de propostas ao governo, porque entendem que uma verdadeira agenda de paz só é legítima se responde a esses interesses das maiorias nacionais.
 
O povo não é um convidado de pedra no processo; segundo o espírito do acordo, ele deve ser um criador, e ao final o protagonista principal da referenda. Disso se trata quando se diz que “a paz é assunto da sociedade em seu conjunto que requer da participação de todos, sem distinção”.
 
Ninguém poderia conceber, por exemplo, que, num país onde a maioria de sua população vive nas cidades, para definir os fundamentos da paz, não seja de agenda tocar a problemática urbana.
 
Assim as coisas, reiteramos que um dos compromissos pactuados entre governo e FARC é que “as discussões da mesa não se farão públicas”. Em nenhum ramal do acordado se utiliza a palavra confidencialidade, e muito menos referida ao já combinado. E isto é importante porque, à parte de que, se se quer transparência, nunca será pertinente o segredismo, e, para que o povo possa opinar e decidir, é necessário que tenha conhecimento dos avanços que se concretizam.
 
Após apresentar cerca de 100 propostas para a Participação Política, depois de que no mesmo tempo respondêssemos a todas as inquietações que fora da ordem da agenda apresentou o governo, e após mostrar um desempenho que preenche as 24 horas do dia para destravar desacordos e mostrar soluções carregadas de bom senso e absoluta vontade de reconciliação, não é sensato que se pretenda mostrar a insurgência como a parte do diálogo que freia os ritmos para o avanço do processo.
 
Apesar de que, na prática, o tratamento repressivo que se lhe dá ao protesto cidadão não mostra uma real vontade de solução aos problemas sociais; se se observa bem, se se analisa detidamente o que em matéria de acordos se pactuou em Havana, a opinião nacional poderá perceber que, de nossa parte, as pontes que estendemos estão alicerçadas sobre os cimentos e colunas de preceitos e normativas que não ultrapassam o ordenamento constitucional. Porém, pelo visto até agora, para o governo, cumprir com um mandato constitucional entranha uma autêntica revolução de alçados em armas. Por isso, nos convida a converter em bandeiras preceitos constitucionais, lançar-nos com elas a umas eleições, triunfar e, já no governo, fazê-las realidade.
 
Não é realista pretender que admitamos que faça carreira a unilateralidade nas determinações sobre temas cruciais, como o marco jurídico para a paz e o assunto do referendo, a respeito dos quais existia o compromisso de combiná-los na mesa de conversações.
 
Quem coloca, então, os obstáculos, se do que se trata é que o diálogo seja expedito, sem embaraços?
 
Se, quando falamos de celeridade, nos referimos a tempos necessários, estes não podem ter uma dimensão tão breve que faça impossível refletir da melhor maneira sobre os problemas que causaram uma guerra de mais de meio século. Muito menos os ciclos devem ser desperdiçados andando e desandando labirintos gramaticais nem distraindo a atenção em futilidades em detrimento da solução aos problemas fundamentais, concretos, que com linguagem simples está propondo o povo nas ruas.
 
Se se mantém o absurdo de não dar a conhecer com mais frequência a plenitude do que se convém em cada ciclo, de onde se tira a maluca ideia de que o lento avanço lhe resta apoio às conversações? Como pode saber o país qual é a dimensão desse avanço se se lhe priva de uma informação a que tem direito? Quanto razão tem o comandante Timoleón. Não é justo colocar sobre os ombros do processo a desaprovação que a chamada opinião pública tem com respeito aos que conduzem a política oficial, como tampouco que não se avalie o dano que lhe produz sua vinculação ao processo eleitoral.
 
Desde Oslo e muito antes o governo sabe que, quando tomamos a decisão de iniciar o processo de paz, nosso propósito de fundo era discutir e buscar solução aos problemas estruturais que geraram o conflito político, social e armado que dessangra o nosso país. Com essa convicção, se firmou o acordo de Havana, tal como de maneira muito breve, porém precisa, se deixa assentado em seu preâmbulo. Assim que não são pertinentes nem corretas as interpretações restritivas que como constante se lhe pretende impor, assim como obstáculo, ao desenvolvimento das discussões.
 
Só os que sempre acreditaram na ignorância de nosso povo podem considerar que a Colômbia esteja confundida ou não tenha claro o propósito das conversações. Nós, sim, temos confiança na sabedoria do povo comum e por isso temos retomado suas contribuições, suas reivindicações, seus sonhos de nação, para fazer possível o que sempre se lhe negou: expressar e ter vida digna.
 
Neste encerramento de ciclo, o país deve ter clara uma grande verdade: temos trabalhado a fundo cada dia; não tem havido jornada na qual não apresentemos propostas e soluções; não tem havido dia em que não propiciemos um avanço; por isso, ainda que nos sentimos abraçados pelo manto do dever cumprido, estamos redobrando nossos esforços para que possamos dar o mais breve possível a boa-nova de um informe satisfatório sobre o ponto de participação política, que preencha de otimismo e maior convicção os corações dessa imensa massa de despossuídos que verdadeiramente anseia a conquista da paz.
 
DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP

Acabou a era que os EUA acreditavam que poderiam guiar o mundo



"A época em que os estrategistas dos Estados Unidos acreditaram que podiam dirigir o mundo chegou ao fim", afirma Andranik Migranyan, diretor do Instituto de Democracia de Nova York em artigo publicado na revista americana The National Interest.

"Quando a URSS se extinguiu, os EUA se tornaram a única superpotência. O país havia resolvido os problemas. No entanto, as coisas mudaram. A história voltou para se vingar", escreve Migranyan no artigo "O mito do excepcionalismo estadunidense".

"Os estadunidenses se consideram uma nação excepcional há séculos. Só agora começam a se dar conta das dificuldades", afirma, citando o historiador francês Alexis de Tocqueville por ter cunhado o termo excepcionalismo em sua obra "A democracia na América" (1835-1840).

O mito apresenta os EUA como uma terra prometida, que dá aos cidadãos uma oportunidade sem precedentes para conseguir a prosperidade e a liberdade pessoal. Ao mesmo tempo, o país tem a missão de liderança mundial, a missão de difundir seus valores e a "democracia".

Apesar da dívida colossal e de seus acentuados problemas sociais os Estados Unidos seguem como fulcro da influência econômica mundial. Porém, continua cultivando a ideia de "excepcionalistmo", enquanto perde elementos desse mito.

Um dos postulados principais, a importância do trabalho individual, cai por terra. Atualmente cerca de 35% da população é inativa e vive de subsídios do Estado.

Em relação a outro fundamento do "sonho americano", a ideia de que qualquer pessoa pode escalar infinitamente a escada social, independentemente da origem, religião ou nível econômico familiar, morre ao se verificar o índice de mobilidade vertical dos Estados Unidos, um dos mais baixos entre os países desenvolvidos.

O postulado de que a sociedade americana quase não tem classe tampouco corresponde à realidade, insiste Migranyan. Desde os anos 1970 do século 20 a chamada classe média diminui, enquanto que o número de pobres aumentou em 15 milhões de pessoas só neste século 21. Ao mesmo tempo, pela primeira vez na história do país, os ricos (1% da população) têm em suas mãos 19,3% da renda de todas as famílias do país.

Há muito tempo o sistema político dos Estados Unidos serviu como padrão para muitos países. Hoje, a constituição - orgulho nacional e outra base do mito - está cada vez mais antiquada. Devido ao sistema de divisão dos poderes e de controles e contrapesos estipulado pela constituição, o governo encerrou suas atividades e até o momento não pôde reiniciá-las.

Em relação à política externa do país, tampouco resultou eficaz, conclui Migranyan. Após campanhas militares no Iraque e no Afeganistão, Washington se retira dos dois países sem conseguir importantes objetivos, muito menos estabilidade. Junto com França e Itália, os EUA intervieram na Líbia e eliminaram o poder estatal do país. No lugar disso, ninguém sabe o que vai acontecer com o país no futuro próximo.

A Casa Branca também não sabe o que fazer no Egito, desestabilizado com seu apoio e vê um futuro cada vez pior para si no caso da Síria. "Teve início uma nova era, na qual os EUA devem aprender a negociar com seus aliados e sócios, levando em conta seus interesses, e criar condições para resolver problemas urgentes que nenhum país influente como os EUA podem solucionar isoladamente", opina o analista.

Com informações do Russia Today

domingo, 13 de outubro de 2013

Colômbia homenageia vítimas da repressão contra o Movimento Político União Patriótica (UP)


 Na Praça Bolívar, no centro da cidade de Bogotá, três mil cadeiras vazias simbolizaram a ausência de milhares de militantes assassinados, torturados, encarcerados e desaparecidos com a ação dos paramilitares, na década de 1980 e 1990. Até hoje, a cifra é incerta.

Intitulada “Serenata dos Ausentes”, no ato pelo 26º aniversario do assassinato do seu presidente, Jaime Pardo, os sobreviventes da UP exigiram verdade, justiça, reparação integral, e condenaram a impunidade das forças de segurança do Estado e dos paramilitares responsáveis pelos massacres.

Durante o encontro, o dirigente Rubén Patiño instou à unidade popular, “indispensável”, disse, em declarações publicadas pelo Semanário Voz.

Ao se referir ao processo de paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (Farc-EP), que se desenvolve em Cuba há quase um ano, Patiño sublinhou que o que se busca é “uma saída política ao conflito social e armado que está tirando o nosso sangue”.

Os diálogos, continuou, “servem para resolver um conflito gerado pela exclusão e pela desigualdade, pela violência impregnada, produto da intolerância das burguesias que exploraram e saquearam nossos recursos naturais, e que nos submetem à miséria”.

Dois candidatos presidenciais, oito congressistas, 13 deputados, 70 vereadores, 11 alcaides e centenas de militantes foram mortos em quatro anos, enquanto outros foram obrigados a deixar o país. Ainda, o partido havia tido a sua legitimidade política questionada devido o seu afastamento das disputas eleitorais. Em 9 de julho passado, o Conselho de Estado devolveu à UP a personalidade jurídica.

O decreto nega que se possa despojar de legalidade essa organização, “ao reconhecer que o extermínio sistemático de dirigentes e militantes do partido foi a principal causa” da sua ausência nas eleições legislativas de 2002.

Fonte: Prensa Latina
Traduzido pela redação do Vermelho

sábado, 12 de outubro de 2013

Movimento pela paz da Colômbia pede cessar-fogo às Farc


 
A ex-senadora Piedad Córdoba anunciou nesta quinta-feira (10) que o movimento Colombianos pela Paz pedir as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (Farc-EP) um cessar-fogo unilateral, como fizeram no ano passado, na época do Natal. 

Em declarações à Rádio RCN, a defensora dos direitos humanos disse concordar em suspender temporariamente as negociações entre o governo e as Farc, durante as eleições de 2014.

Na última terça-feira (8) o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, propôs "um tipo de pesquisa ou votação" para os parlamentares da Unidade Nacional sobre a possibilidade de congelar o diálogo em tempo de eleição. No entanto, a maioria está inclinada a continuar as conversações.

No dia anterior, um dos membros da delegação paz do grupo insurgente, Andres Paris, afirmou que está disposto a avançar com qualquer proposta que preserve o processo da paz.
“Caso seja necessária uma pausa, estaríamos dispostos, mas não como unilateral ou impostas pelos meios de comunicação”, disse ele.

“Faremos o esforço, vamos tentar como fizemos em outras ocasiões e tivemos respostas positivas em relação com o que propusemos para as Farc”, contou Piedad, que agregou dizendo que “um processo de paz não pode ficar preso nos interesses eleitorais daqueles que estão apostando na guerra”.

No dia da instalação das negociações de paz em Cuba, em 19 de novembro de 2012, a guerrilha anunciou um cessar-fogo unilateral dois meses, o primeiro em 10 anos, como um gesto de compromisso com a paz.

Da redação do Vermelho,
Com informações da Prensa Latina

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

"Os EUA são o pior inimigo da democracia nas Relações Internacionais"



por Domenico Losurdo
entrevistado por João Novaes e Rodolfo Machado


Domenico Losurdo.

O filósofo, historiador e cientista político italiano Domenico Losurdo está agora no Brasil para uma série de atividades e palestras.
Nesta entrevista, concedida em S. Paulo à agência Opera Mundi, o professor da Universidade de Urbino desmonta falácias propaladas pela ideologia do liberalismo. A potência imperial e os sociais-democratas europeus que a apregoam são aqui escalpelizados.

Opera Mundi: Como podemos classificar o atual momento do liberalismo no século XXI? Ao mesmo tempo em que o mundo se encontra em uma crise econômica que já dura cinco anos, os liberais têm obtido sucesso no processo de desmantelamento do estado de bem-estar social. 

Domenico Losurdo: O liberalismo está em crise. Você tem razão quando fala do desmantelamento do estado de bem-estar social na Europa. Mas isso ocorre porque estamos em um momento de fraqueza. No fim da II Guerra Mundial, foram o movimento operário e os movimentos populares que conquistaram o estado de bem-estar social, em um momento onde o comunismo contava com muita estima e exercia grande influência.

No decorrer da crise atual, esse ataque ao estado social está fazendo com que muitos comecem a colocar em questão o sistema capitalista liberal. Foram criadas uma série de ilusões após o fim da Guerra Fria, quando se falou até mesmo em "Fim da História" [pelo cientista político Francis Fukuyama] já que o liberalismo teria triunfado em nível planetário. Hoje isso é ridicularizado.

No contexto internacional vemos outros aspectos dessa crise: a decadência econômica do capitalismo ocidental corresponde à ascensão de países como a China. E a China não segue os ditames do "consenso de Washington", onde o mercado domina tudo e o estado não tem papel na economia. O que presenciamos agora é o "consenso de Pequim", que defende a intervenção do estado na economia.

OM: Sob o ponto de vista eleitoral, na Europa, Angela Merkel venceu mais uma vez. Já a social-democracia, a centro-esquerda, não soube aproveitar as vitórias nos últimos anos para realizar transformações em seus mandatos, enquanto os partidos de esquerda, salvo o grego Syriza, não apresentaram programas que chamaram atenção de parte considerável do eleitorado. 

DL: De acordo. Na Europa ainda vemos uma desorganização de forças que podem ser alternativas ao sistema dominante. No momento, esse sistema político europeu é constituído pelo que chamo de monopartidarismo competitivo, uma categoria que elaborei em meu livro Democracia ou Bonapartismo . Ou seja, os partidos que certamente têm alguma competitividade são expressões da mesma classe social, da grande burguesia, exprimem mais ou menos a mesma ideologia e perseguem projetos políticos quase semelhantes.

Já os partidos populares são muito fracos, não podemos ignorar. Por outro lado, na opinião pública, o prestígio do capitalismo liberal se encontra muito enfraquecido. O problema é como transformar esse descontentamento que se desenvolve em projeto político concreto. E devo reconhecer que, infelizmente, a esquerda e os comunistas estão em grande atraso.

OM: Em suas palestras o sr. cita frequentemente John Locke, ao mesmo tempo pai do liberalismo e associado à African Company, que explorava a escravidão a seu tempo. Isso lembra, aqui no Brasil, o discurso da corrente liberal dominante que defende a tese do estado mínimo alegando que o poder público é obeso, incapaz de gerir uma sociedade cada dia mais complexa e dinâmica. Em resposta, são lembrados os pedidos de ajuda dos bancos aos governos e que grandes sucessos privados como Google e Apple hoje são o que são graças à ajuda governamental e à intervenção estatal. O senhor está de acordo que exista essa dicotomia constante no discurso liberal? 

DL: A tese do estado mínimo é ideológica e uma auto apologia. Pegando o exemplo de um país como os Estados Unidos, o estado é mínimo na relação de direitos econômicos e sociais, na garantia dos direitos da saúde, por exemplo. Mas não se considerarmos o aparato policial e militar. Os dois aspectos devem ser considerados.

O presidente dos EUA, Barack Obama, tem o poder de decidir sozinho qual suspeito de terrorismo pode ser eliminado. Isso não tem a ver com garantias liberais. O presidente dos EUA tem até mesmo o poder de iniciar uma guerra, não precisa nem mesmo da aprovação do Congresso – ele o fez agora no caso da Síria, mas não tinha necessidade jurídica para isso.

Cito Immanuel Kant que apresentou a seguinte questão: "Como podemos saber se um líder é déspota ou não?" Quando um líder político diz que a guerra deve ser feita e esta acontece. É aquele que pode decidir sozinho ou quase sozinho o início de uma guerra. Se considerarmos essa afirmação correta, então devemos considerar Obama um déspota, segundo Kant. Portanto, o Estado não é tão mínimo quanto a propaganda apresenta.

Sobre os direitos econômicos e sociais no estado mínimo, Marx já escreveu como este funcionava: a extrema polarização social e a presença de uma pequena minoria de luxo de um lado, com extrema pobreza de outro, devem ser tratadas como temas privados. Mas quando há crise econômica de grande envergadura, mesmo o estado liberal mínimo deixa de sê-lo porque procura socializar os prejuízos enquanto o lucro é privatizado. É assim que funciona o estado liberal.

OM: O liberalismo também se arroga como um legítimo defensor da liberdade, em contraposição ao socialismo. Em sua opinião, como esse conceito e o da democracia devem ser desenvolvidos a partir de uma ótica de esquerda? 

DL: Acredito que a esquerda, incluindo a comunista, deve evitar um erro que cometeu no passado: o Estado de Direito e demais garantias jurídicas para os direitos individuais não são apenas instituições formais, mas liberdades muito importantes, parte integrante da democracia.

Porém, vejamos todos os demais aspectos: Marx descreve, no Manifesto Comunista, que dentro da fábrica, no local de trabalho ou produção, existe sempre uma forma de despotismo. Não somente pelos baixos salários dos trabalhadores, mas esse é só um dos pontos.

A crítica é tanto no plano econômico quanto no político. Outro exemplo com os Estados Unidos: os empresários fazem o que querem com os trabalhadores, mandam-nos para o olho da rua sem garantias trabalhistas, em condições precárias. E também é muito difícil e perigoso para os trabalhadores formarem um sindicato, porque sempre ocorre chantagem de todos os lados.

Terceiro aspecto: se pegamos, por exemplo, um estado como Israel, as garantias que são acordadas aos cidadãos israelenses correspondem à total falta de garantias aos palestinos. É ridículo para um regime que se diz democrata julgar sem a abstração daqueles que são excluídos de garantias. Em Israel está muito claro: garantias para os privilegiados; e prisões arbitrárias, expropriação de terras, tortura e mesmos os assassinatos dos desprovidos.

Outro aspecto no contexto internacional em que ainda vemos a persistência de relações de despotismo: se os países ocidentais pedem à ONU que esta autorize uma guerra e ela os legitima, respeitam a decisão. Mas se ela se recusa a legitimá-la, o ocidente faz a guerra do mesmo jeito. Isso é a negação total da democracia. O ocidente reivindica para ele mesmo, e só para ele, o direito de dar início a uma guerra mesmo sem a autorização do Conselho de Segurança. Ou seja, não há qualquer democracia nas Relações Internacionais.

E se ainda acrescentarmos a questão da espionagem universal, denunciada pela presidente brasileira Dilma Rousseff, podemos concluir que são os Estados Unidos o pior inimigo da democracia nas Relações Internacionais.

Cito o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt [também conhecido pelas iniciais FDR] quando, durante a II Guerra Mundial, pronunciou o célebre discurso das "Quatro Liberdades" (o 4 Freedoms), em 1941. Nesse contexto, FDR diz não somente sobre as liberdades liberais clássicas, de expressão e crença, mas de viver sem penúria e medo.

Considerando isso, qual país que pretende apagar liberdades, mesmo em nível internacional, através do consenso de Washington e pelas organizações controladas ou hegemonizadas pelos EUA, como o Banco Mundial e o FMI? Esfacelando o [estado] de bem-estar social, ou seja, a liberdade de viver sem penúria?

Sobre a liberdade de viver sem medo, FDR se dirigia à Alemanha nazista – e com toda razão, porque ela representava a todo o mundo e principalmente aos vizinhos uma ameaça constante de agressão, dificultando a vida com liberdades democráticas dentro de um contexto de militarização.

E qual estado hoje faz baixar a ameaça de agressão? Quem tem bases militares em todo o mundo? Quem reivindica o direito de intervir nos outros? Mesmo com as liberdades teorizadas pelo presidente dos EUA, podemos dizer que hoje o pior inimigo delas são exatamente os Estados Unidos da América.

OM: A América Latina conseguiu desenvolver, com os governos de esquerda dos últimos anos, uma resposta satisfatória e sustentável à corrente neoliberal nascida através do consenso de Washington? E os governos de esquerda que optaram pelo caminho da reforma sem ruptura, eles podem ser comparados à social-democracia europeia? 

DL: É um erro, sob o plano político e filosófico, comparar os movimentos de esquerda na América Latina com a social-democracia europeia. Na política externa, por exemplo, eles se colocaram em posição contrária às políticas de guerra dos EUA, como na Líbia e na Síria.

Todos podem ver que o "socialista" François Hollande [presidente da França] é um dos maiores campeões da guerra. Seria falso comparar essas duas realidades. Na Europa, os autoproclamados partidos socialistas fazem parte de uma esquerda que defino pessoalmente como "esquerda imperial", uma esquerda bem entre aspas. Não temos esse fenômeno da esquerda imperial na América Latina. Enquanto países como a França são governados por esses dirigentes que se dizem "socialistas", estes desenvolvem um programa explicitamente colonial.

De outro lado, vemos a América Latina sob a direção de novos partidos, alguns mais, outros menos à esquerda, que continuam a luta contra a Doutrina Monroe. A Revolução Cubana foi a primeira a questioná-la. Hoje vemos que muitos a contestam, ela não tem mais o prestígio de outrora.

Muito dessa luta contra a Doutrina Monroe, contra o imperialismo e o perigo de intervenção colonial fez com que os latino-americanos compreendessem a necessidade de transformar a economia. Na luta para salvaguardar a independência econômica, muitos passaram a contestar o consenso de Washington.

À luz da política estrangeira e econômica, a tendência principal da região é de esquerda e progressista. Há países mais avançados do que outros, enquanto um terceiro grupo começa a traçar esse caminho. Penso que, num futuro próximo, a América Latina vai exercer um papel importante e progressista sobre o plano nacional e internacional. 

A PRODUÇÃO DE EMOÇÕES, NOVO INSTRUMENTO DE CONTROLE DA CLASSE DOMINANTE

OM: No final de Democracia ou Bonapartismo, o senhor afirma que vivemos uma fase de "desemancipação. A tal ponto em que a chamada 'Revolta de Los Angeles', de 1992, foi um caso de racismo institucional que mostra que os negros só podem protestar recorrendo a uma espécie de 'jacquerie' urbana, de revolta enraivecida e destrutiva, que, no entanto, em nada modifica o status quo existente". Num contexto de crise econômica e política na Europa, de ocaso da chamada Primavera Árabe, de guerra civil na Síria: qual o sentido que deveriam tomar as mobilizações populares para, de fato, modificar o estado de coisas existente no capitalismo do século XXI?

DL: Em Democracia ou Bonapartismo, quando falo de desemancipação faço referência ao Ocidente. Vejamos como exemplo o já falado desmantelamento do Estado de bem-estar social. Nessa situação, e no seio do contexto do "monopartidarismo competitivo", as classes populares não tem mais representação política no Parlamento, estão excluídas. Não sou eu que digo isso: há pesquisadores dos EUA que se referem ao seu país como uma plutocracia, ou seja, o poder emanado da riqueza. Nesse contexto, as classes populares não têm possibilidade de serem representadas no Parlamento.

Portanto, o que ocorreu em Londres em 2011 e em outras cidades recentemente, esses grandes protestos populares, já foi cantado o que aconteceria depois. Na época da Revolução Francesa, houve primeiro a explosão de cólera, com queimas de propriedades de aristocratas, mas em seguida a situação sempre se voltava para o restabelecimento do poder da aristocracia. E hoje vemos exatamente a mesma coisa. Como foram os casos de Los Angeles em 1992 e mais recentemente em Londres e até Paris. Estou totalmente de acordo.

Podemos acrescentar um exemplo parecido: quando os EUA começaram a segunda Guerra do Golfo contra o Iraque, em 2003, houve grande base de oposição e protestos contra a guerra. Já em 2011, na guerra contra a Líbia, não houve nada digno de nota. Aí reside a fraqueza dos movimentos espontâneos, que se mostra cada vez mais forte porque a grande plutocracia controla a mídia, os jornais, a TV.

Já o Oriente Médio é diferente. De um lado há grandes movimentos populares; de outro temos tentativas de recolonização da região. E porque isso? De um lado, para favorecer Israel, que precisa da destruição de todos os outros países. Do outro há o programa-chave dos EUA, e de Obama em particular, de concentrar o aparato militar contra a China na Ásia. E com colaboração dos poderes coloniais europeus tradicionais, França e Reino Unido, que foram encorajados a restabelecer algum tipo de dominação neocolonial por lá.

OM: Em suas pesquisas, o senhor destaca o racismo e a indústria do anticomunismo, como componentes articulados da história norte-americana. "A segregação e o linchamento dos negros era um método peculiar de combater os comunistas". O "bonapartismo soft" dos EUA reforça a recorrência de um estado racial e de uma democracia para o povo dos senhores [termo de Losurdo para se referir ao povo opressor]? O senhor poderia desenvolver esse ponto? 

DL: Devemos fazer uma distinção entre o plano histórico e o atual. Está claro que, para o povo dos senhores, o norte-americano, os EUA eram uma democracia. É ridículo quando [os ex-presidentes dos EUA] Bill Clinton e mesmo Barack Obama disseram que os EUA são a mais antiga democracia do mundo. É uma teoria insustentável mesmo sob o ponto de vista histórico, o equivalente a considerar os negros escravos e os índios exterminados durante a história como descartáveis. É a continuação do racismo sob o plano ideológico.

Não devemos pensar a história como o "eterno retorno" de Nietzschze, simplesmente dizendo que nada muda. Pois seria o mesmo que dizer que os grandes movimentos de protestos populares, mesmo as grande revoluções, não serviram para nada. O que é falso, eles mudaram muita coisa.

No século XX, após a Revolução de Outubro, tivemos um número gigantesco de revoluções anticolonialistas em nível planetário. A emancipação parcial dos afro-americanos nos EUA é um desses aspectos. Podemos especificar esse movimento de luta por emancipações, por exemplo, após a Revolução de Outubro. Pois é nela que se começa a desenvolver mais fortemente as organizações de movimentos negros. Cito em meus livros a famosa frase de um de seus militantes: "me acusam de ser bolchevique? Bem se ser bolchevique significa ser contra o linchamento e a supremacia branca, então sou bolchevique".

Podemos citar ainda nesse contexto o que se passa no primeiro ano da Guerra Fria. Em 1951, a Suprema Corte dos EUA estava debatendo se a segregação racial era ou não constitucional. O Departamento de Estado enviou um relatório aos juízes defendendo a inconstitucionalidade, caso contrário, a decisão poderia "favorecer o crescimento de movimentos comunistas e revolucionários" dentro do próprio país. Mesmo essa emancipação modesta não foi decidida de forma espontânea pelas classes dominantes, mas por medo do movimento comunista, em resposta a uma grande revolução que se desenvolvia no mundo.

Mesmo Martin Luther King, em sua fase mais radical, falava positivamente das revoluções anticoloniais.

Qual a situação atual dos afro-americanos? Na população presidiária, a porcentagem é terrível, a população negra tem porcentagem muito superior em relação à total. O mesmo pode se notar para os condenados à morte.

Nos últimos anos, o livro de uma escritora negra dos EUA, Michelle Alexander, fala do encarceramento dos negros nos EUA, no livro O novo Jim Crow The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness (2010)]. Segundo ela, ainda existe uma discriminação muito negativa contra os negros que não é determinada pela lei, mas pelas relações sociais e econômicas vigentes.

Mas se queremos compreender a persistência da democracia sobre os povos dos senhores, devemos nos focar em outro aspecto: nas relações que os EUA desenvolvem com seus "estrangeiros". Obama lê uma lista toda terça-feira preparada pela CIA para escolher o destino dos alvos dos drones. E os mais temíveis terroristas são eliminados sem sentença ou devido processo legal. Se, por um lado, ele atinge até cidadãos dos EUA, por outro também acerta estrangeiros no Iêmen e no Paquistão.

Logo após o golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002 os EUA rapidamente reconheceram o novo presidente. A democracia não se aplicava à Venezuela. Mas dessa forma podemos compreender a democracia deles. Como quando atacaram Cuba dois anos depois da Revolução na Baía dos Porcos.

Hoje a democracia para o povo dos EUA é a do povo "eleito pela providência", porque essa ideologia dura ainda, George W Bush falava muito dela, dos EUA "como a nação eleita por Deus para dirigir o mundo". Mesmo Clinton dizia que os EUA tinham a tarefa "eterna" de governar o mundo.

Podemos notar que essa ideologia não desapareceu e deverá persistir.

OM: Quais são as principais modalidades de lutas de classes que encontramos nos dias de hoje? 

DL: Sobre a luta de classes, no " Manifesto Comunista" e em outros textos de Marx e Engels, ela é sempre escrita no plural, pois pode se dar de várias formas. Por exemplo, Engels lembra da opressão de classes contra a mulher como a primeira forma de opressão de classes. Para os negros que foram escravos nos EUA, a luta contra a escravidão é certamente uma delas. Portanto, devemos considerar a opressão de classes toda vez que um povo é submetido e reduzido a alguma forma de escravidão.

Já o nazismo foi uma tentativa de retomada e radicalização da tradição colonial, pois queria estabelecer na Europa Oriental um verdadeiro sistema de escravidão, não há dúvidas sobre isso. E a luta da URSS contra essa tentativa de escravidão de um povo inteiro foi uma verdadeira luta de classes.

Seria ridículo considerar luta de classes apenas como uma reivindicação pelo aumento de uma fração do salário de operários e não uma luta de classes para erradicar a escravidão de um povo inteiro.

Há três tipos de luta de classes atualmente. Quais são elas?

Primeira: a luta popular contra a burguesia. Segunda: a das mulheres pela emancipação – e não devemos pensar somente no Ocidente, onde as primeiras a serem afetadas e demitidas em uma situação econômica difícil são as mulheres. E terceiro: a de todos os povos oprimidos.

Coloco a questão: a gigantesca revolução anticolonial que se desenvolveu no século XX, que significou o desmoronamento do colonialismo clássico e da supremacia branca dos EUA. Podemos dizer que essa versão do colonialismo acabou ou continua? Minha resposta é: continua no caso clássico, como por exemplo quando os palestinos são expropriados de suas terras sistematicamente, marginalizados etc. A luta nacional do povo palestino é uma grande luta de classes. Nesse caso o colonialismo se manifesta de forma clássica.

Mas, para a maior parte do mundo a revolução anticolonial se manifesta de forma diferente. Lênin fez uma distinção entre "anexação política", essa clássica do colonialismo, que se refere a um país que engloba a terra conquistada ao seu território; e a "anexação econômica", reforçada às vezes por intervenções militares ou simples ameaças de intervenção.

O que dizia Mao Tsé-tung na véspera da conquista da tomada definitiva do poder na China pelo PCCh e na fundação da República popular da China?: Sim, conseguimos a independência política, mas dependemos dos EUA no plano econômico. Se essa situação não acabar logo, seremos sempre dependentes. Nesse contexto, cito um importante autor anticolonialista dos anos 1960, Frantz Fanon, em sua obra, Les Damnés de la Terre, sobre a luta da independência argelina. Ele diz que já que as grandes potências coloniais são obrigadas a reconhecer a independência de alguns países no século XX, passam a se comportar de outra maneira: "vocês queriam a independência? Vocês as têm. Agora morram de fome".

Ou seja, Lênin, Mao e Fanon compreenderam que há centenas de etapas numa revolução anticolonialista, sobretudo uma revolução integrada ao plano econômico. O desenvolvimento econômico é uma condição necessária para tornar definitiva a independência conquistada no plano político.

A luta da China pelo desenvolvimento econômico é uma luta de classes, e mesmo a dos países emergentes para evitar a anexação econômica, também. Infelizmente, não foram todos os países que conseguiram.

Podemos pensar no Haiti, local de uma das maiores lutas anticoloniais da história: torna-se o primeiro país do continente americano a abolir a escravidão. Ainda ajudou Simón Bolivar a combater a Espanha sob a condição de que este abolisse escravidão e ele o fez, por um certo período. O Haiti jogava um importante papel internacional na luta contra a escravidão. Mas o que aconteceu depois? Sim, houve erros na administração interna, mas também a França o ameaçou de intervenção militar. Para se salvar dessa ameaça, o governo de Haiti aceita um acordo com o qual concorda em pagar pesada indenização à França pela perda da propriedade pós-independência. A situação foi uma dívida gigantesca para o Haiti que, de uma semi-colônia da França no passado, hoje é semi-colônia dos EUA.

Isso vale para o mundo árabe também, e o exemplo é o Egito. O país tinha um passado anticolonial notável. Qual a situação atual? Infelizmente depende, de um lado do dinheiro norte-americano e de outro do dinheiro de países do Golfo como Catar e Arábia Saudita. O Egito poderia conduzir uma política muito mais audaciosa e radical, mas não tem os meios econômicos para isso.

OM: Marx dizia que as ideias da classe dominante são em cada época as próprias ideias dominantes, já que "a classe que dispõe dos meios de produção material dispõe com isso, ao mesmo tempo, dos meios de produção intelectual". Preocupa esse absoluto controle da mídia de massa pelo poder burguês, ainda mais forte hoje do que na época de Marx? Como lidar com tal monopólio no avanço das lutas populares? 

DL: Tem razão em acrescentar que hoje a situação se tornou ainda mais difícil, podemos exprimi-la da seguinte maneira: Marx fala da classe dominante burguesa que, com o controle dos modos de produção intelectual tem o monopólio da produção e da difusão das ideias.

Mas hoje as coisas mudaram porque com a televisão e as novas mídias, a classe dominante não tem somente esse monopólio de produção de ideias, mas também, o que é muito importante, o monopólio da produção das emoções. Transmitem-se imagens horríveis que podem ter sido escolhidas em uma série de outras imagens propositalmente ou que pode até ser falsa. [Através desse artifício] se consegue provocar uma indignação geral [na opinião pública] e esse monopólio de produção de emoções que é muito importante para o início das guerras.

Quer dizer, no Iraque, por ocasião da segunda Guerra do Golfo, dizia-se que Saddam [Hussein, ex-presidente do Iraque] tinha armas de destruição em massa, que ele poderia empregá-las a qualquer minuto. Ou pior, na ocasião da primeira guerra do Golfo, todos foram convencidos de que as forças de Saddam mataram um sem número de bebês, uma história totalmente inventada. Mas, com o monopólio de produção das emoções essa história enganou e provocou uma indignação generalizada de parte da opinião pública.

Devemos tomar consciência dessa nova situação: das ideias e emoções, com uma tecnologia e psicologia muito refinadas e sofisticadas. Nesse sentido, o aparelho militar do imperialismo ficou mais forte não só no domínio militar clássico, mas no plano multimidiático. Armas midiáticas induzem a opinião pública a ser favorável ao início de uma guerra.

Ver também: 

·  Algumas das obras de Domenico Losurdo

O original encontra-se em 1ª parte e 2ª parte (NR: efectuadas ligeiras alterações ao texto). 


Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Farc: Não há acordo com o governo sobre participação política

As FARC declararam nesta terça-feira (8) que, apesar dos avanços na discussão do tema da participação política da oposição geral em um eventual processo de paz,l ainda não há possibilidade de assinar um acordo com o governo sobre esse ponto da Agenda de Diálogo.

“Estamos construindo os acordos, mas todavia não há um consenso”, disse à imprensa em Havana, capital cubana, o negociador-chefe das Farc, Iván Márquez.

Ele descartou que seja possível conseguir terminar o diálogo sobre o tema até o próximo domingo (13), dia em que termina o décimo quinto ciclo de conversações. Márquez admite que existam “certos avanços nesta rodada de negociação, mas, ainda, sem um desfecho.

O primeiro acordo parcial entre o governo e as Farc, sobre o desenvolvimento agrário, foi firmado em maio, após seis meses de conversas. A mesa de negociação, em Havana, foi aberta em novembro do ano passado.

A guerrilha também fez críticas ao ministro da Defesa da Colômbia, Juan Carlos Pinzón, a quem chamou de “obstinado franco-atirador”. Para as Farc, Pinzón não está “a favor dos diálogos em Havana”.

"Temos a impressão de que o ministro não está falando a mesma linguagem do governo, ao contrário, está subordinado à linha contra a paz do inimigo número um da solução política, o ex-presidente Álvaro Uribe”, disse Márquez.

Na segunda-feira (7), as Farc acusaram o ministro da autoria de uma proposta de “criminalizar” protestos sociais no país. Pinzón se defendeu das acusações dizendo que o “governo promoverá os protestos sempre que respeitem direitos dos cidadãos”.

Em agosto, um protesto nacional agrário bloqueou as principais rodovias colombianas por quase duas semanas, causando problemas de abastecimento no país. O governo conseguiu negociar com os líderes do movimento camponês, mas acusou as Farc de infiltrar integrantes nas manifestações.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

“Tanta retórica o que faz é causar danos, Santos”


Por Timoleón Jiménez, Comandante em Chefe do Secretariado do Comando Central das FARC-EP

O Presidente Santos respondeu calculando cada palavra ao se referir em Nova Iorque às ofertas de colaboração feitas pelo Presidente José "Pepe" Mujica. Não obstante agradecer a proposta do território uruguaio como possível sede, o primeiro mandatário colombiano preferiu não adiantar nada sobre diálogos com a guerrilha do ELN. Neste tipo de situações é preciso ser muito prudente. As decisões são tomadas de comum acordo, disse Sentos.

Vale a pena acreditar que para o Presidente Santos esta última frase deve inspirar também os diálogos com as FARC As decisões, os acordos hão de ser produto do consenso. Não se pode pretender estar sentado em uma mesa de conversações e que somente o que uma das partes defenda mereça atenção. Se como prega repetidamente Santos, conversa-se é com o inimigo, se a paz consiste em estender pontes entre contrários, os modelos econômico e de democracia, verdadeiras causas da confrontação social e armada, necessariamente devem ser modificados.

Nas mais recentes intervenções do Presidente Santos, seu discurso aponta para destacar com uma grave e irresponsável distorção de que o conflito armado colombiano, a guerra, essa que passou a chamar de mula ou vaca morta atravessada no caminho, é atribuível de maneira exclusiva à insurreição. O terrorismo de Estado, as execuções extrajudiciais, o paramilitarismo, o êxodo forçado e demais horrores, segundo ele, são  atribuíveis somente a nós. Os interesses norte-americanos, a oligarquia colombiana, seus forças armadas, suas políticas antipopulares e violentas, sua corrupção e suas repressões são completamente alheios e inocentes.

Se é verdade que várias gerações de colombianos não conheceram um só dia de paz na vida, muito menos se pode desconhecer que o pior da existência coube sempre aos setores mais pobres, à imensa maioria e não exatamente às famílias engomadinhas que durante mais de um século conduziram o país para benefício de setores minoritários. Que Santos pai o filho tenham prestado seu serviço militar na Marinha ou no Exército. Isso está muito longe de serem comparados com os humildes colombianos que arriscam a vida no campo de batalha. As odiosas distinções de classe e os privilégios perversos não desaparecem com frases enternecedoras.

O fechado regime bipartidarista, a violência selvagem em que lançou suas raízes desde a primeira metade do século XX, incitada por famílias como os Santos, segundo suas próprias e espantosas revelações recentes, a brutal distribuição da terra que se prolonga até os inícios deste século, as políticas econômicas dirigidas a favorecer sempre a banqueiros, empresários, fazendeiros e companhias estrangeiras às custas do aviltamento da vida dos trabalhadores e camponeses, a militarização crescente. a criminalização da luta social, o vandalismo policial, a conjunção de corrupção, narcotráfico e paramilitarismo, o extermínio da União Patriótica e dos setores mais destacado do movimento sindical, camponês e popular, a guerra suja, os crimes cometidos pelas forças armadas em nome da contra-insurgência, o capitalismo selvagem implementado no país com as políticas neoliberais; para a oligarquia governante nenhum desses fenômenos da vida colombiana guarda relação alguma com o conflito armado existente no país. De modo que basta nossa vontade para por fim a tudo.

O que temos afirmado como FARC desde o começo das aproximações com o atual governo é que, para por fim definitivamente ao conflito, é necessário remover todas essas causas reais da confrontação. Após um longo processo denominado de Encontro Exploratório, assinamos com o governo nacional um Acordo Geral que todo mundo conhece. Quando o fizemos, as duas partes coincidimos em que o desenvolvimento dos pontos da agenda acordada seria cumprido no espírito das distintas considerações que integraram seu preâmbulo. No entanto, nossos delegados sempre topam com a atitude governamental de considerar que o Acordo só compreende os pontos da Agenda aos quais, além disso, insistem em outorgar tal restrição, que somente o que eles levam à Mesa merece ser considerado.

Cumpridas as coisas dessa maneira, e isso já foi explicado amplamente pelos nossos porta-vozes, o governo nacional insiste em suas imposições unilaterais. Já conta com seu marco legal para a paz, um modelo de justiça transicional esboçado sem contar com a nossa opinião para nada e que, além disso, o Presidente Santos o promove até nas Nações Unidas como a única fórmula que considera válida para os pontos sobre vítimas e participação política. Já tem pronta sua lei de referendo para referendar os acordos finais. Afirma que, uma vez desmobilizada, a guerrilha deverá mudar de lado e se somar à política estatal de erradicação de cultivos ilícitos, porque ele decidiu assim, antes de tratar do tema nos fóruns respectivos e na Mesa de Diálogos. De modo que a responsabilidade pelo conflito deverá ser toda assumida por nós.

E, além disso, pressiona com a conversa fiada de que o tempo e a paciência dos colombianos estão se esgotando. Os protestos, as passeatas e as paralizações recentes demonstram que isso pode ser verdade, mas não no sentido que aponta o Presidente. Seu tal Pacto Nacional pelo Agro não passa de mais um de seus "falsos positivos". Os problemas, a inconformidade e a rebeldia continuam vivas. O que encurta, na realidade, é o tempo para definir sua candidatura à reeleição, e é evidente seu afã de exibir para o país um acordo de paz. Mas nem sequer por isso assume uma posição que facilite a negociação. Somos nós os que devemos ceder a seus afãs e assinar o quanto antes o que ele quer. Volta a nos chamar de terroristas, ufana-se de haver derramado nosso sangue como ninguém nos últimos cinquenta anos e exibe em cada mão a cabeça de um membro do Secretariado das FARC.

Postas assim as coisas, cada gesto nosso de reconciliação significa debilidade. Haver passado sobre o cadáver do camarada Afonso Cano, o fato de termos aceitado os dois enviados ao primeiro encontro quando não eram os que oficialmente nos haviam dito; até nossa sincera vontade de assinar uma paz digna e justa é interpretada como o resultado da derrota militar. E o que dizer da proposta de cessar fogos bilateral. E de cada uma das propostas à Mesa. Ainda a estas alturas, três anos depois de fracassar com sua operação militar Espada de Honra e de sua Prosperidade Democrática, e apesar de suas manifestações para encontrar uma saída política, Santos, alucinado, confia que pode nos submeter com grunhidos. Já estamos muito velhos para isso. A chave está em consensuar, em mudar para melhor essa atitude arrogante e mesquinha.
Enquanto isso acontece, diante de tão grande ofensiva discursiva e midiática contra nós e o que acontece na Mesa de Diálogos, com o exclusivo propósito de que o país e o mundo conheçam verdadeiramente o que ocorre, decidi autorizar os nossos porta-vozes em Havana a elaborarem um informe ao povo colombiano. Temos uma grande responsabilidade perante ele, e tanta retórica o que faz é causar danos, Santos.

TIMOLEÓN JIMENEZ
Chefe do Estado Maior Central das FARC-EP

25 de setembro de 2013.