"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


sábado, 19 de abril de 2014

Gabriel García Márquez, in memoriam


La Habana, Cuba, sede dos diálogos de paz, 17 de abril de 2014
 
  Gabriel José de la Concordia García Márquez, o ‘Gabo’,  Prêmio Nobel de Literatura e escritor insigne da Colômbia, tomou hoje a senda da eternidade aos 87 anos de uma vida prolífica em criatividade, que deixou para o mundo uma obra maravilhosa, que com realismo mágico reflete a presença destas terras de Nuestra América, as quais amou e dedicou sua inteligência como narrador e cronista de suas desventuras, esperanças e sonhos.


Com profundo respeito, a Delegação de Paz das FARC-EP, desde Havana, se abraça em sentimentos de pesar com seus familiares, parentes, amigos e a pátria toda que se enche de luto pela partida do maior escritor de nossa história. Vão de maneira especial nossas condolências para sua esposa dona Mercedes Barcha e seus filhos Rodrigo e Gonzalo.


A partida deste gigante das letras congregou num só punhado de identidade, solidariedade e luto a Colômbia, e isso traz a nossas mentes a certeza de que em cada clarão aberto na de nossa sobrevivência agreste seguirá surgindo a perseverança que necessitamos para continuar para uma era de reconciliação, com nossos José Arcadios e Úrsulas que se repetem sem cessar entre coisas de adivinhos, entre esconjuros e presságios, morrendo e revivendo como Melquiades, enquanto concebemos a existência, submergindo-nos muitas vezes na peste da insônia, desmemoriados de nosso passado, porém voltando de algum modo também como o cigano da alquimia, desde a morte, consumindo a beberagem milagrosa que devolve as recordações que remoçam a confiança no amanhã.


Com a despedida deste homem magnífico, reiteramos hoje que, como Aureliano Buendía, sonhamos e faremos a paz, um país onde possamos tranquilos fabricar pescadinhos de ouro sem acabar com nosso meio ambiente; com o empreendimento de Aureliano Triste, porém sem aqueles que sufocam greves a tiros; relendo nosso acontecer nos pergaminhos do Gabo, porém agora, sim, com a experiência de haver suportado os piores furacões da vida, sem que o vento nos possa arrasar, sem que nos possa apagar mais da memória humana, nem na recorrência das tragédias, porque, ainda que estejamos condenados a cem anos de solidão, faremos com nossas lutas e nossa infinita capacidade de amar e perdoar, que existe uma segunda oportunidade sobre a terra.


Com certeza, Gabo, conquistaremos com nosso povo que Macondo já não seja um pavoroso redemoinho de poeira e escombros. E que esse delicado vento de luz que é a paz embale nosso presente, enquanto tomas o caminho de Remedios a Bela. Com certeza, Gabo, repetiremos em teu nome, com compromisso inquebrantável, que “ainda não é demasiado tarde
para construir uma utopia que nos permita compartilhar a terra”.




DELEGAÇÃO DE PAZ DAS FARC-EP


---

sexta-feira, 18 de abril de 2014

1967 latinoamericano: o Gabo e o Che


A notícia mais importante da sua vida não foi a dolorosa notícia de ontem, nem tampouco o Premio Nobel de 1982, mas o lançamento de Cem Anos de Solidão, em 1967

por Emir Sader


O Gabo sempre gostava de reiterar que, como jornalista – profissão que ele sempre reivindicou como a sua – a maior frustração que ele teria seria não poder dar a notícia mais importante da sua vida. Mas a verdade é que a notícia mais importante da sua vida não foi a dolorosa notícia de ontem, nem tampouco o glorioso Premio Nobel de 1982, mas o lançamento de Cem Anos de Solidão, em 1967.

O século XX foi o primeiro século em que a América Latina teve um protagonismo mundial. Iniciado, politicamente, com o massacre dos mineiros na Escola de Santa Maria de Iquique, em 1907 e, 3 anos mais tarde, com a Revolução Mexicana, se anunciava que seria um século de revoluções e contrarrevoluções no continente. O marco definitivo dessa trajetória viria com a Revolução Cubana de 1959.

Mas 1967 foi um ano simbolicamente determinante para a história latino-americana e para sua projeção mundial. É o ano da publicação da obra mais importante da nossa literatura,
Cem Anos de Solidão, mas também porque é o ano da morte do Che.

Uma, a maior obra prima da literatura latino-americana, outro, o personagem cujo gesto o levou a ser a imagem mais reproduzida no mundo.

Não há ninguém que tenha lido
Cem Anos de Solidão e que não se lembre das circunstâncias – onde, quando, com quem, em que edição – leu pela primeira vez o livro. Como não há ninguém que tenha vivido naquele não tão longínquo 1967, que não se lembre quando, onde, com quem, soube da noticia dolorosamente certa da morte do Che.

O discurso do Gabo ao receber o Nobel de Literatura é a mais notável reivindicação da América Latina. Ali, ele afirma que, da mesma forma se reconhece ao nosso continente sua criatividade, sua originalidade e sua criatividade nas artes, se deve deixar de tentar impor-nos  projetos políticos desde fora, deixando-nos exercer, da mesma maneira, nos caminhos da nossa história, essa criatividade, essa genialidade e essa originalidade, que nos reconhecem no campo das artes.


A íntegra do discurso


Segue abaixo a íntegra desse discurso, em espanhol, para homenagear Gabo e a lingua que trabalhou durante toda sua vida:


"Antonio Pigafetta, un navegante florentino que acompañó a Magallanes en el primer viaje alrededor del mundo, escribió a su paso por nuestra América meridional una crónica rigurosa que sin embargo parece una aventura de la imaginación. Contó que había visto cerdos con el ombligo en el lomo, y unos pájaros sin patas cuyas hembras empollaban en las espaldas del macho, y otros como alcatraces sin lengua cuyos picos parecían una cuchara. Contó que había visto un engendro animal con cabeza y orejas de mula, cuerpo de camello, patas de ciervo y relincho de caballo. Contó que al primer nativo que encontraron en la Patagonia le pusieron enfrente un espejo, y que aquel gigante enardecido perdió el uso de la razón por el pavor de su propia imagen.
Este libro breve y fascinante, en el cual ya se vislumbran los gérmenes de nuestras novelas de hoy, no es ni mucho menos el testimonio más asombroso de nuestra realidad de aquellos tiempos. Los cronistas de Indias nos legaron otros incontables. Eldorado, nuestro país ilusorio tan codiciado, figuró en mapas numerosos durante largos años, cambiando de lugar y de forma según la fantasía de los cartógrafos. En busca de la fuente de la Eterna Juventud, el mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca exploró durante ocho años el norte de México, en una expedición venática cuyos miembros se comieron unos a otros y sólo llegaron cinco de los 600 que la emprendieron. Uno de los tantos misterios que nunca fueron descifrados, es el de las once mil mulas cargadas con cien libras de oro cada una, que un día salieron del Cuzco para pagar el rescate de Atahualpa y nunca llegaron a su destino. Más tarde, durante la colonia, se vendían en Cartagena de Indias unas gallinas criadas en tierras de aluvión, en cuyas mollejas se encontraban piedrecitas de oro. Este delirio áureo de nuestros fundadores nos persiguió hasta hace poco tiempo. Apenas en el siglo pasado la misión alemana de estudiar la construcción de un ferrocarril interoceánico en el istmo de Panamá, concluyó que el proyecto era viable con la condición de que los rieles no se hicieran de hierro, que era un metal escaso en la región, sino que se hicieran de oro.
La independencia del dominio español no nos puso a salvo de la demencia. El general Antonio López de Santana, que fue tres veces dictador de México, hizo enterrar con funerales magníficos la pierna derecha que había perdido en la llamada Guerra de los Pasteles. El general García Moreno gobernó al Ecuador durante 16 años como un monarca absoluto, y su cadáver fue velado con su uniforme de gala y su coraza de condecoraciones sentado en la silla presidencial. El general Maximiliano Hernández Martínez, el déspota teósofo de El Salvador que hizo exterminar en una matanza bárbara a 30 mil campesinos, había inventado un péndulo para averiguar si los alimentos estaban envenenados, e hizo cubrir con papel rojo el alumbrado público para combatir una epidemia de escarlatina. El monumento al general Francisco Morazán, erigido en la plaza mayor de Tegucigalpa, es en realidad una estatua del mariscal Ney comprada en París en un depósito de esculturas usadas.
Hace once años, uno de los poetas insignes de nuestro tiempo, el chileno Pablo Neruda, iluminó este ámbito con su palabra. En las buenas conciencias de Europa, y a veces también en las malas, han irrumpido desde entonces con más ímpetus que nunca las noticias fantasmales de la América Latina, esa patria inmensa de hombres alucinados y mujeres históricas, cuya terquedad sin fin se confunde con la leyenda. No hemos tenido un instante de sosiego. Un presidente prometeico atrincherado en su palacio en llamas murió peleando solo contra todo un ejército, y dos desastres aéreos sospechosos y nunca esclarecidos segaron la vida de otro de corazón generoso, y la de un militar demócrata que había restaurado la dignidad de su pueblo.

En este lapso ha habido 5 guerras y 17 golpes de estado, y surgió un dictador luciferino que en el nombre de Dios lleva a cabo el primer etnocidio de América Latina en nuestro tiempo. Mientras tanto 20 millones de niños latinoamericanos morían antes de cumplir dos años, que son más de cuantos han nacido en Europa occidental desde 1970. Los desaparecidos por motivos de la represión son casi los 120 mil, que es como si hoy no se supiera dónde están todos los habitantes de la ciudad de Upsala. Numerosas mujeres arrestadas encintas dieron a luz en cárceles argentinas, pero aún se ignora el paradero y la identidad de sus hijos, que fueron dados en adopción clandestina o internados en orfanatos por las autoridades militares. Por no querer que las cosas siguieran así han muerto cerca de 200 mil mujeres y hombres en todo el continente, y más de 100 mil perecieron en tres pequeños y voluntariosos países de la América Central, Nicaragua, El Salvador y Guatemala. Si esto fuera en los Estados Unidos, la cifra proporcional sería de un millón 600 mil muertes violentas en cuatro años.
De Chile, país de tradiciones hospitalarias, ha huido un millón de personas: el 10 por ciento de su población. El Uruguay, una nación minúscula de dos y medio millones de habitantes que se consideraba como el país más civilizado del continente, ha perdido en el destierro a uno de cada cinco ciudadanos. La guerra civil en El Salvador ha causado desde 1979 casi un refugiado cada 20 minutos. El país que se pudiera hacer con todos los exiliados y emigrados forzosos de América Latina, tendría una población más numerosa que Noruega.
Me atrevo a pensar que es esta realidad descomunal, y no sólo su expresión literaria, la que este año ha merecido la atención de la Academia Sueca de las Letras. Una realidad que no es la del papel, sino que vive con nosotros y determina cada instante de nuestras incontables muertes cotidianas, y que sustenta un manantial de creación insaciable, pleno de desdicha y de belleza, del cual éste colombiano errante y nostálgico no es más que una cifra más señalada por la suerte. Poetas y mendigos, músicos y profetas, guerreros y malandrines, todas las criaturas de aquella realidad desaforada hemos tenido que pedirle muy poco a la imaginación, porque el desafío mayor para nosotros ha sido la insuficiencia de los recursos convencionales para hacer creíble nuestra vida. Este es, amigos, el nudo de nuestra soledad.
Pues si estas dificultades nos entorpecen a nosotros, que somos de su esencia, no es difícil entender que los talentos racionales de este lado del mundo, extasiados en la contemplación de sus propias culturas, se hayan quedado sin un método válido para interpretarnos. Es comprensible que insistan en medirnos con la misma vara con que se miden a sí mismos, sin recordar que los estragos de la vida no son iguales para todos, y que la búsqueda de la identidad propia es tan ardua y sangrienta para nosotros como lo fue para ellos. La interpretación de nuestra realidad con esquemas ajenos sólo contribuye a hacernos cada vez más desconocidos, cada vez menos libres, cada vez más solitarios. Tal vez la Europa venerable sería más comprensiva si tratara de vernos en su propio pasado.

Si recordara que Londres necesitó 300 años para construir su primera muralla y otros 300 para tener un obispo, que Roma se debatió en las tinieblas de incertidumbre durante 20 siglos antes de que un rey etrusco la implantara en la historia, y que aún en el siglo XVI los pacíficos suizos de hoy, que nos deleitan con sus quesos mansos y sus relojes impávidos, ensangrentaron a Europa con soldados de fortuna. Aún en el apogeo del Renacimiento, 12 mil lansquenetes a sueldo de los ejércitos imperiales saquearon y devastaron a Roma, y pasaron a cuchillo a ocho mil de sus habitantes.
No pretendo encarnar las ilusiones de Tonio Kröger, cuyos sueños de unión entre un norte casto y un sur apasionado exaltaba Thomas Mann hace 53 años en este lugar. Pero creo que los europeos de espíritu clarificador, los que luchan también aquí por una patria grande más humana y más justa, podrían ayudarnos mejor si revisaran a fondo su manera de vernos. La solidaridad con nuestros sueños no nos haría sentir menos solos, mientras no se concrete con actos de respaldo legítimo a los pueblos que asuman la ilusión de tener una vida propia en el reparto del mundo.
América Latina no quiere ni tiene por qué ser un alfil sin albedrío, ni tiene nada de quimérico que sus designios de independencia y originalidad se conviertan en una aspiración occidental.
No obstante, los progresos de la navegación que han reducido tantas distancias entre nuestras Américas y Europa, parecen haber aumentado en cambio nuestra distancia cultural. ¿Por qué la originalidad que se nos admite sin reservas en la literatura se nos niega con toda clase de suspicacias en nuestras tentativas tan difíciles de cambio social? ¿Por qué pensar que la justicia social que los europeos de avanzada tratan de imponer en sus países no puede ser también un objetivo latinoamericano con métodos distintos en condiciones diferentes? No: la violencia y el dolor desmesurados de nuestra historia son el resultado de injusticias seculares y amarguras sin cuento, y no una confabulación urdida a 3 mil leguas de nuestra casa. Pero muchos dirigentes y pensadores europeos lo han creído, con el infantilismo de los abuelos que olvidaron las locuras fructíferas de su juventud, como si no fuera posible otro destino que vivir a merced de los dos grandes dueños del mundo. Este es, amigos, el tamaño de nuestra soledad.
Sin embargo, frente a la opresión, el saqueo y el abandono, nuestra respuesta es la vida. Ni los diluvios ni las pestes, ni las hambrunas ni los cataclismos, ni siquiera las guerras eternas a través de los siglos y los siglos han conseguido reducir la ventaja tenaz de la vida sobre la muerte. Una ventaja que aumenta y se acelera: cada año hay 74 millones más de nacimientos que de defunciones, una cantidad de vivos nuevos como para aumentar siete veces cada año la población de Nueva York. La mayoría de ellos nacen en los países con menos recursos, y entre éstos, por supuesto, los de América Latina. En cambio, los países más prósperos han logrado acumular suficiente poder de destrucción como para aniquilar cien veces no sólo a todos los seres humanos que han existido hasta hoy, sino la totalidad de los seres vivos que han pasado por este planeta de infortunios.
Un día como el de hoy, mi maestro William Faulkner dijo en este lugar: «Me niego a admitir el fin del hombre». No me sentiría digno de ocupar este sitio que fue suyo si no tuviera la conciencia plena de que por primera vez desde los orígenes de la humanidad, el desastre colosal que él se negaba a admitir hace 32 años es ahora nada más que una simple posibilidad científica. Ante esta realidad sobrecogedora que a través de todo el tiempo humano debió de parecer una utopía, los inventores de fábulas que todo lo creemos, nos sentimos con el derecho de creer que todavía no es demasiado tarde para emprender la creación de la utopía contraria. Una nueva y arrasadora utopía de la vida, donde nadie pueda decidir por otros hasta la forma de morir, donde de veras sea cierto el amor y sea posible la felicidad, y donde las estirpes condenadas a cien años de soledad tengan por fin y para siempre una segunda oportunidad sobre la tierra.
Agradezco a la Academia de Letras de Suecia el que me haya distinguido con un premio que me coloca junto a muchos de quienes orientaron y enriquecieron mis años de lector y de cotidiano celebrante de ese delirio sin apelación que es el oficio de escribir. Sus nombres y sus obras se me presentan hoy como sombras tutelares, pero también como el compromiso, a menudo agobiante, que se adquiere con este honor. Un duro honor que en ellos me pareció de simple justicia, pero que en mí entiendo como una más de esas lecciones con las que suele sorprendernos el destino, y que hacen más evidente nuestra condición de juguetes de un azar indescifrable, cuya única y desoladora recompensa, suelen ser, la mayoría de las veces, la incomprensión y el olvido.
Es por ello apenas natural que me interrogara, allá en ese trasfondo secreto en donde solemos trasegar con las verdades más esenciales que conforman nuestra identidad, cuál ha sido el sustento constante de mi obra, qué pudo haber llamado la atención de una manera tan comprometedora a este tribunal de árbitros tan severos. Confieso sin falsas modestias que no me ha sido fácil encontrar la razón, pero quiero creer que ha sido la misma que yo hubiera deseado. Quiero creer, amigos, que este es, una vez más, un homenaje que se rinde a la poesía. A la poesía por cuya virtud el inventario abrumador de las naves que numeró en su Iliada el viejo Homero está visitado por un viento que las empuja a navegar con su presteza intemporal y alucinada. La poesía que sostiene, en el delgado andamiaje de los tercetos del Dante, toda la fábrica densa y colosal de la Edad Media. La poesía que con tan milagrosa totalidad rescata a nuestra América en las Alturas de Machu Pichu de Pablo Neruda el grande, el más grande, y donde destilan su tristeza milenaria nuestros mejores sueños sin salida. La poesía, en fin, esa energía secreta de la vida cotidiana, que cuece los garbanzos en la cocina, y contagia el amor y repite las imágenes en los espejos.
En cada línea que escribo trato siempre, con mayor o menor fortuna, de invocar los espíritus esquivos de la poesía, y trato de dejar en cada palabra el testimonio de mi devoción por sus virtudes de adivinación, y por su permanente victoria contra los sordos poderes de la muerte. El premio que acabo de recibir lo entiendo, con toda humildad, como la consoladora revelación de que mi intento no ha sido en vano. Es por eso que invito a todos ustedes a brindar por lo que un gran poeta de nuestras Américas, Luis Cardoza y Aragón, ha definido como la única prueba concreta de la existencia del hombre: la poesía.
Muchas gracias.


Adolfo Pérez Esquivel: “Dom Paulo Evaristo Arns me salvou duas vezes da ditadura brasileira”


O ativista de direitos humanos argentino Adolfo Perez Esquivel, de 82 anos, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1980, disse que foi "salvo duas vezes" por dom Paulo Evaristo Arns durante a ditadura no Brasil. 



A reportagem é de Marcia Carmo.


Em entrevista à BBC Brasil em Buenos Aires, Esquivel disse que foi preso na primeira vez por militares em São Paulo em 1975, e na segunda vez em 1981. "Em 1975, foi muito difícil, porque eles colocaram um capuz na minha cabeça, uma gravação de gritos de pessoas sendo torturadas e levantavam um pouco o capuz somente para que eu pudesse identificar latino-americanos que eles perseguiam."


Segundo ele, os militares queriam que ele "denunciasse" outros opositores ao regime no Brasil. "Eu disse que não conhecia ninguém”. Perez Esquivel afirmou ainda que três militares o interrogaram e não pode ver seus rostos. "Eram três interrogadores – um muito duro que dizia que iam me matar, que iam me torturar, outro que dizia que era conveniente que eu falasse e outro que queria se fazer de meu amigo, que estava ali para me ajudar", afirmou.


No dia seguinte à prisão, o então arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, conseguiu tirá-lo do local. "O cardeal me salvou duas vezes", disse o Prêmio Nobel durante a entrevista realizada na sede da ONG Serviço Paz e Justiça (Serjap) que dirige na Argentina.


Segundo Esquivel, Arns reuniu outros religiosos e defensores de direitos humanos e organizou uma manifestação na porta da delegacia, que não recordou onde ficava, assim que soube da sua detenção.


"Dom Paulo, certamente, falou com autoridades do Brasil para que eu fosse liberado. Mas não sei as gestões exatas que ele fez. O que sei é que ele não perdeu tempo em organizar uma manifestação na porta da delegacia para me salvar. E me salvou", disse.


Medo


Quando perguntado se tinha sentido medo de morrer na prisão durante a ditadura no Brasil, ele respondeu: "Daquela vez sim, foi mesmo preocupante".


Ele contou que foi preso no aeroporto em São Paulo, e que estava com o advogado Mario Carvalho de Jesus, da Frente Nacional do Trabalho, e com a austríaca Hildegard Goss-Mayr, atual presidente honorária do Movimento Internacional de Reconciliação e integrante do Serpaj, que mora em Viena.


"Nós três tínhamos viajado para um encontro com dom Paulo, mas fomos presos antes. Depois sim, nos encontramos com ele, porque ele atuou para me liberar", afirmou.


O Prêmio Nobel recordou que sua prisão ocorreu no mesmo ano em que dom Paulo condenou a prisão e morte do jornalista Wladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI, em São Paulo. "Dom Paulo convocou os religiosos contra a morte de Herzog que depois se soube foi mesmo assassinado", disse.


Esquivel foi preso em outras ocasiões no Equador e na Argentina, onde foi torturado, como recordou. "Eu sou um sobrevivente dessas tragédias que vivemos na América Latina", disse. Anos mais tarde, em 1981, ele foi preso após criticar a anistia no Brasil. "Eu falei na OAB do Rio de Janeiro e foram atrás de mim no aeroporto. Mas eu tinha mudado de voo para viajar com Leonardo Boff para São Paulo. Ainda assim me pegaram", disse.


Em São Paulo, quando chegava para dar uma palestra no colégio Sion, contou, onde realizaria um discurso com outros religiosos, incluindo dom Paulo Evaristo Arns, ele foi preso novamente.


"Me levaram para uma delegacia e dom Paulo reuniu várias pessoas em um protesto no local e graças a isso e a ele, novamente, me liberaram", disse.


Visita na prisão


Segundo Perez Esquivel, o então senador (Jarbas) Passarinho teria lhe visitado na prisão. "O senador Passarinho justificou porque a anistia era importante, dizendo que sem ela não seria possível construir uma democracia. E que as Forças Armadas tinham colocado ordem no caos. Discurso que achei típico de ditadores", afirmou.


E continuou: "Por esse motivo, dom Paulo costumava dizer que a democracia no Brasil só deixava passar um passarinho." Na OAB, recordou, ele afirmou que "as Forças Armadas não podiam ser anistiadas pelos crimes da ditadura".


Na ocasião, ele já era Prêmio Nobel da Paz, que recebeu em 1980 pela defesa dos direitos humanos na América Latina. "A minha segunda prisão no Brasil foi quase uma questão diplomática", disse.


Ele considera "importante" a realização de comissões da verdade no Brasil e da integração entre os países da região na busca de informações sobre o que aconteceu no período ditatorial.


Em janeiro, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram um acordo, no âmbito da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), para compartilhar documentos sobre as ditaduras nos três países.


Esquivel ressalvou, porém, que acha que as operações conjuntas contra opositores não se limitaram aos países do Cone Sul, onde a chamada ‘operação Condor’ significou ações conjuntas dos governos na busca dos que se opunham ao regime militar e foram entregues aos outros países ou mesmo torturados nos países vizinhos.


"Eu não chamo de ‘operação Condor’, eu digo que era a internacional do terror." Segundo ele, essa operação era "um monstro com muitos tentáculos".


Ele citou alguns casos de autoridades latino-americanas mortas em outros países, como o ex-ministro da Defesa do governo do presidente socialista Salvador Allende, do Chile, Orlando Letelier, morto com uma bomba colocada em seu carro em Washington por agentes da polícia do regime de Augusto Pinochet.


Ele afirmou ainda que a prisão, em 1976, com outros dezessete bispos latino-americanos e quatro americanos, no Equador, também "fazia parte da operação Condor". "De jeito nenhum a operação se limitou ao Cone Sul", reiterou.


Verdade


Na sua opinião, a Argentina está à frente do Brasil na investigação sobre os crimes da ditadura porque no governo do ex-presidente Raul Alfonsín, na redemocratização, a partir de 1983, os militares foram levados a julgamento.


Anos mais tarde, os governos de Alfonsín e de seu sucessor Carlos Menem, lançaram as leis de Obediência Devida e Ponto Final, definidas como anistia. As leis foram derrubadas no governo do ex-presidente Nestor Kirchner, que governou entre 2003 e 2007 e morreu em 2010.


"Talvez, a Argentina, do ponto de vista jurídico, tenha sido o país que mais avançou (nesta questão)." Perez Esquivel defendeu que os crimes da ditadura sejam investigados para que "todas as gerações saibam o que aconteceu".


"Algo importante que o brasileiro deve ter é a busca da memória. Não é apenas buscar o passado. A memória deve iluminar o presente e ser base para as gerações futuras", disse. Ele afirmou que a anistia "significa impunidade" e "impede a construção da democracia". "No Brasil lamentavelmente até agora impera a impunidade, com essa lei de anistia", disse.


Ele complementa que "para o direito internacional os crimes de lesa-humanidade jamais prescrevem". "Esperamos que eles não aconteçam nunca mais. Mas também por isso é importante saber o que aconteceu no Brasil e em toda a região, em todo o mundo", disse.


Fonte: UNISINOS

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Fluxos de informação e poder


Julian Assange
ALAI AMLATINA, 11/04/2014.- Asilado na Embaixada do Equador em Londres desde junho de 2012, o australiano fundador de WikiLeaks, Julian Assange, figura como objetivo da Agência de Segurança Nacional [NSA] dos Estados Unidos no que chama um cronograma de caçada humana, segundo confirmaram recentes revelações de Edward Snowden. A acusação: ter difundido segredos do Departamento de Estado aos quais WikiLeaks teve acesso, reivindicando uma Internet e um jornalismo livres. Nas linhas que seguem, Assange expressa seus pontos de vista a um questionário formulado por ALAI a respeito de temas como globalização e governança de Internet; vigilância e segurança cidadã; transparência governamental e prestação de contas, e a vigilância cidadã sobre as autoridades.

ALAI: A Internet começou sua fase de expansão rápida num contexto global marcado pela “guerra contra o terror”, pelo aumento das restrições e violações dos direitos humanos, especialmente da privacidade e da intensificação da vigilância estatal. Na sua opinião, quais são as principais consequências deste contexto sobre a evolução da Internet?
Julian Assange: A Internet não só representa uma tendência, mas também várias. Com a Internet, a vigilância massiva penetrou no núcleo da sociedade humana internacional e a aliança de inteligência liderada pelos Estados Unidos, “Cinco olhos”[1], lhe deu poderes de vigilância sobre quase todos os seres humanos e organizações a nível mundial. Porém, o regime mundial de comunicações criado pela Internet também significa que a organização e o comércio são mais baratos, mais rápidos e não estão sujeitos a limites geográficos clássicos. No passado, o desafio para os movimentos pela justiça social era conquistar consensos e organizar-se de maneira eficiente para poder competir com as entidades que acumulam coerência organizativa em razão de seu tamanho e capacidade de coerção –como as grandes corporações e os governos-. Num mundo onde “o código é lei”, o âmbito legislativo não se limita aos governos nem a seus esteios empresariais. Isto está conduzindo, em forma incipiente, a um mercado livre de semi Estados: redes fluidas de associação que têm potestades de tipo estatal, por exemplo, sobre a moeda, a compilação de inteligência, as comunicações e as influências.
ALAI: A informação sempre foi simultaneamente vítima e arma de guerra, porém isto aumentou de maneira exponencial na era da sociedade da informação: manipulação de fatos, campanhas midiáticas alinhadas, jornalistas unidos às tropas, ataques dirigidos a meios de comunicação e jornalistas etc. No entanto, a Internet oferece também oportunidades sem precedentes para contra-arrestar esta manipulação da informação [como o próprio WikiLeaks o demonstrou ao quebrar a censura e revelar imagens da crua realidade das guerras em Afeganistão e Iraque]. Como se poderia manter esta perspectiva e desenvolvê-la mais?
JA: Se poderia desenvolver esta perspectiva vendo o fluxo de informação num contexto de relações de poder.
O fluxo de informação não é um fenômeno neutro. Se relaciona com o movimento do poder através de uma sociedade. Para a autodeterminação –seja como grupo ou como indivíduo- se necessita ter informação veraz. O processo de ser livre e de libertar-se é o processo coletivo e individual de assimilar nova informação sobre o mundo e de atuar sobre ela. Este mesmo processo é um dos fundamentos da civilização. Nas comunidades, significa que temos que ter a possibilidade de comunicar entre nós mesmos, de transmitir nossos conhecimentos e receber os dos demais. A informação é fundamental para nossa posição de poder frente ao mundo que nos rodeia. Um público bem informado é um público empoderado e é um público livre.
Os grupos de poder centralizado tratam de atuar contra isto. Um público mais livre significa uma autoridade central menos potente, e as autoridades centrais sempre buscam manter ou fazer crescer seu poder. O poder tratará de controlar ou influir nos fluxos de informação com o fim de consolidar sua própria posição de poder. Tentará ocultar a informação às maiorias, restringindo seu acesso a uma pequena elite que assim terá capacidade de organizar-se com rapidez e deixar fora de jogo aos demais; e tratará de dar às maiorias informação falsa, de maneira que, quando estas tentem atuar por seu próprio interesse, vacilem.
Os meios de comunicação não são senão fluxos de informação estruturados. Um meio é uma estrutura sobre a qual flui a informação, normalmente respaldada por uma tecnologia que determina suas propriedades. Dependendo das propriedades de um meio, este pode ser mais ou menos democrático em seu acionar.
No passado, tivemos formas de meios de comunicação que favorecem o poder centralizado –como meios de-um-para-muitos, tal é o caso do rádio e da televisão, o que se chama os “mass media” na teoria da comunicação. Devido ao fato de que são centralizados, são fáceis de controlar e, por isso mesmo, facilmente subjugados por outros grupos de poder. Por esta razão, dizemos que estes meios de comunicação são inerentemente propensos a trair seu propósito declarado.
Porém, há outras formas de meios de comunicação suscetíveis de serem mais honestos. A Internet permite um montão de diferentes formas de comunicação de-muitos-para-muitos. É mais difícil de controlar por parte dos grupos de poder, ainda que há sérios esforços em marcha.
Há campanhas de astroturfing[2] na Internet, e todo tipo de informação errônea, desinformação e propaganda suja. Porém, estas coisas sempre existiram. Em comparação com o empoderamento das comunidades que a Internet permite, as vantagens que apresenta para a manipulação da informação são menores. A propaganda está em desvantagem na Internet.
Há muitos aspectos da Internet que não estão suficientemente descentralizados, como sua infraestrutura física, por exemplo. Isso faz com que seja mais vulnerável à vigilância massiva, se bem que não oferece maior vantagem ao Estado no plano das relações públicas, da propaganda ou da desinformação. A mostra disso é o fato de que, ainda que a NSA tenha predomínio no nível da infraestrutura –pode escutar quase todas as comunicações eletrônicas que atravessam a Internet-, no entanto está perdendo a batalha de relações públicas em todo o mundo.
ALAI: Este contexto também inclui uma nova fase do militarismo estadunidense no cenário mundial, onde a guerra cibernética se converteu num elemento estratégico da guerra. Quais são as principais ameaças desta situação para que a Internet continue sendo uma infraestrutura aberta e globalmente interconectada? Que se poderia fazer para defender a Internet como uma zona de paz?
JA: Em lugar de pensar em quão nefasto é para a humanidade mundial militarizar o software, os EUA estão escalando uma carreira mundial de armas eletrônicas. A rede é complexa e interatua com nossas sociedades de maneira complexa. A militarização de um espaço tão complexo é temerária. Os firewalls para as organizações já existem, porém o que virá logo serão firewalls para os Estados, à medida que estes tratem de introduzir mecanismos similares à preservação da integridade territorial.
A defesa da Internet suporá –certamente- a criação de um marco jurídico que seja vinculante para os Estados e que estabeleça a Internet como um campo inviolável. Porém, todos sabemos que os Estados não costumam cumprir com a lei. Assim que também será necessário redesenhar a Internet e implementar reformas técnicas [“o código é a lei”]. Na base deste esforço estará a criptografia. Necessitamos de dados cifrados desde a camada de transporte para cima. No fim das contas, será a matemática que põe limites às superpotências, como também foi a matemática que permitiu a criação destas através dos monopólios de armas termonucleares.
ALAI: Quais consideras que são os aspectos mais relevantes das revelações de Edward Snowden e de suas repercussões? Que implicações têm para o futuro da Internet? Que passos poderiam dar os países em desenvolvimento para proteger suas comunicações da espionagem ?
JA: Os documentos que Edward Snowden divulgou contêm muitos detalhes técnicos que são de grande valor para os desenvolventes de software, ativistas da privacidade e indivíduos cuja vida e segurança dependem da integridade e da segurança de seu software e hardware. Ali radica o valor indubitável para as comunidades de expertos que construirão a próxima geração da tecnologia para garantir privacidade. Em WiliLeaks estamos sistematizando nossa própria experiência com a informação dos documentos revelados para melhorar nossas práticas, e nossos técnicos e desenvolventes de software estão dedicados a melhorar uma série de tecnologias de ponta, melhorias que em seu devido tempo beneficiarão ao usuário comum.
Porém, a coisa mais importante que o Sr. Snowden tem feito é despertar a civilização mundial para a compreensão de que a vigilância massiva é real. Há um ano, os jornalistas não haviam publicado que a NSA estava vigiando a Internet inteira. Vários jornais se negaram –para seu descrédito- a dedicar espaço ao assunto. O Sr. Snowden estava longe de ser o primeiro denunciante da NSA para alertar-nos sobre isto, porém foi ele quem, finalmente, encheu o copo com provas documentais atuais e autenticadas pelas dimensões da caçada que o governo dos EUA lançou.
O hemisfério sul tem que proteger suas populações da vigilância. Na América Latina, quase todas as conexões à Internet mundial passam através de cabos de fibra ótica que atravessam os Estados Unidos. Esta é uma questão de soberania e de competitividade econômica. Os países necessitam formar alianças industriais para criar a infraestrutura física alternativa para a Internet, para que suas comunicações não tenham que atravessar as fronteiras de um vigilante depredador do calibre dos Estados Unidos, do Reino Unido ou seus aliados. Também devem considerar o fortalecimento de sua própria infraestrutura, mediante a regulação do setor dos provedores de Internet, de maneira que seja obrigatório aplicar um forte cifrado de dados nos enlaces de comunicação.
Os países que prezam sua soberania deveriam anular seus contratos com empresas estadunidenses, e rechaçar as doações de infraestrutura e tecnologia subvencionada de superpotências como China e Estados Unidos. Não devem utilizar hardware de criptografia controlada pelos EUA, devido a que esse hardware tem uma longa história de “portas traseiras”. Devem fazer obrigatório o uso de hardware e software livres, cujo-código fonte esteja aberto para que qualquer pessoa possa examiná-lo, e devem apoiar financeiramente aos desenvolventes e comunidades de desenvolvimento com o objetivo de fomentar os bens comuns de software, em escala mundial, em tecnologia segura e fidedigna, que todos os países podem utilizar.
Eles deveriam liderar o caminho, ao adotar leis progressistas de liberdade de expressão e proteção de dados, e abandonar qualquer política de vigilância do estilo da NSA que tenham implementado. Os países onde não se invade a privacidade dos clientes serão lugares atrativos para as empresas de Internet preocupadas pela privacidade que buscam distanciar-se dos Estados Unidos. O Sul global pode atrair empresas e promover o crescimento de seus setores de Internet na medida em que se diferenciem das práticas prejudiciais dos Estados Unidos e seus aliados nas esferas da inteligência.
No âmbito internacional, devem tratar de desenvolver um consenso para proibir o uso de armas de vigilância massiva contra a população. Tem-se que adotar um marco internacional que permita levar ante a justiça os Estados que pratiquem a vigilância massiva. Nenhum país pode aspirar a competir com os EUA em matéria de vigilância massiva; devido a sua posição geográfica de “aranha no centro” dos fluxos e telecomunicação, o melhor é matá-la de fome. Eles devem tratar de aproveitar suas posições nos comitês internacionais para influir na adoção de padrões web na direção correta. Aos EUA não se lhes deve permitir que menosprezem os padrões de cifrado e de comunicações para aumentar seu acesso. Todas as normas impulsionadas pelos EUA ou seus aliados devem ser consideradas como suspeitas. Outros países deveriam pressionar diplomaticamente os Estados Unidos e as demais potências em espionagem e tratar de empreender ações legais contra esses países pela violação dos direitos de privacidade de seus próprios cidadãos.
ALAI: Enquanto as tecnologias digitais amplificam enormemente as possibilidades de que os Estados e as corporações pratiquem a vigilância e a compilação de dados, também podem, como WikiLeaks enfatizou, aumentar a possibilidade de vigilância da cidadania sobre as autoridades públicas. Quais seriam tuas recomendações quanto à legislação e as políticas públicas nesta matéria?
JA: Fundei um amplo programa de reforma legislativa na Islândia em 2009 e 2010, orientado precisamente para este propósito. Se lhe chamou o IMMI [sigla em inglês] –a Iniciativa Islandesa de Meios Modernos-, e grande parte dela surgiu das ideias que havíamos tido no curso de nosso trabalho sobre a criação de um abrigo para os serviços de Internet. Foi elaborado para proporcionar a melhor proteção possível para os editores, jornalistas honestos e empresas de Internet e para dar um impulso a um setor de Internet islandês, ao atrair investimentos e inovação. Inclui leis inovadoras de proteção da fonte, da proteção de arquivos, e leis que impedem tentativas de processar injustamente desde outra jurisdição. A proposta completa se encontra disponível on-line (https://immi.is/). Tudo o que necessita é que algum país pequeno implemente algo parecido à IMMI, e a pressão devido à competição atrairá as empresas de Internet a investir na jurisdição. Na atualidade, nenhum país é visto como o “farol da colina” em matéria legislativa no que se refere à instalação dos serviços de Internet, porém, doravante os países que adotem reformas legais do estilo do IMMI serão vistos não só como líderes mundiais, como também como o melhor lugar para instalar uma empresa de Internet de alta tecnologia.
ALAI: A Internet demonstrou que tem um grande potencial para ampliar o acesso à informação e ao conhecimento, e para facilitar a participação democrática, a transparência, o intercâmbio de informação e a expressão pública. Porém, isto está agora sob ameaça, entre outras coisas, devido ao crescente controle corporativo, junto com as tentativas de legislar restritivamente sobre a “pirataria” e a propriedade intelectual [como os projetos de lei SOPA e PIPA nos EUA, ou a negociação de acordos internacionais tais como ACTA ou o TPP[3]. Quais seriam os aspectos mais fundamentais a considerar para evitar este tipo de ameaças e garantir que a Internet continue desenvolvendo-se como um espaço público aberto?
JA: O aspecto mais fundamental a ter presente está no plano conceitual. O conceito de “propriedade intelectual” está enfrentando tempos difíceis nos últimos anos, devido ao fato de que é antagônico à ideia mesma de Internet. Certos setores estabeleceram grandes centros de poder antes da Internet, todos eles baseados no conceito de “propriedade intelectual”. Agora, esse conceito está se tornando cada vez mais difícil de sustentar, da mesma maneira em que uma chama perde lentamente sua coesão. Estes lobbies temerosos impulsionaram uma explosão de legislações para tornar-se com o controle dos condutos de Internet, bloqueando determinados fluxos de informação, tratando de evitar que os monopólios da informação se dissolvam. Estas propostas vêm do mundo empresarial, porém são acolhidas por certos governos que buscam pretextos para estender seu controle sobre a Internet.
Porém, o problema imediato é o TPP e a proposta de globalizar as leis restritivas estadunidenses de “propriedade intelectual” através dos acordos comerciais mútuos. Os países do TPP representam mais de 40% do PIB mundial. Sua intenção geopolítica é um bloco “comercial” dominado pelos EUA para excluir a China. Por exemplo, Equador, como país do Pacífico, ainda não é parte do TPP, porém, se se aprova esse tratado, terá o efeito de fazer com que a interpretação radical dos EUA sobre leis de propriedade intelectual se converta em norma permanente nesse hemisfério. O Equador –como país que ainda está em vias de adotar plenamente a Internet- terá muito que perder se fica cercado por marco legal que oferece vantagens comerciais aos interesses estadunidenses. Se o TPP passa, os mesmos interesses tentarão utilizar esse impulso para impor essas normas na Europa também, através da associação EUA-UE: o TTIP. Os aspectos tradicionais da propriedade intelectual –os entraves à cultura, à medicina e outros elementos que são essenciais para a realização humana- não são as únicas ramificações possíveis deste cenário.
Podemos esperar que à lei de PI cada vez mais se a utilize abusivamente fora desse âmbito para pôr em suspeita a soberania da Internet na América Latina, como também na costa asiática do Pacífico. Em outubro passado divulgamos um esboço recente do capítulo de Propriedade Intelectual do TPP, e isto teve uma influência que galvanizou a oposição ao TPP. Já se retardou sua passagem pela legislatura nos EUA. Ademais do ativismo frente à vigilância da rede e da produção de alternativas de tipo “o código é a lei”, assegurar a derrota desse tratado é a meta mais importante em torno da qual podemos canalizar a energia e o esforço de forma mais eficaz neste momento.
- Julian Assange é editor chefe de WikiLeaks.

Tradução: Joaquim Lisboa Neto

Notas:

[1] NdE - A chamada Aliança “Cinco Olhos” é um programa conjunto de vigilância de Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Canadá. As últimas revelações dos documentos de Snowden dão conta de propostas explícitas no seio deste grupo para explorar Twitter, Facebook, Youtube e outras redes sociais como plataformas secretas para a propaganda, com o propósito de “usar as técnicas on-line para fazer com que algo suceda no mundo real ou virtual”, incluindo “operações de informação [influência ou perturbação]”. [Fonte: The Intercept]

[2] Astroturfing: [originalmente se referindo a uma marca de gramado artificial] É um neologismo inglês que se refere a uma técnica de relação pública e intriga onde uma organização ou corporação poderosa cria um suposto movimento de base para dar a falsa impressão do apoio popular a sua tese.

[3] SOPA – Projeto de lei de repressão à pirataria on-line; PIPA – Projeto de lei contra ou roubo da propriedade intelectual; ACTA – Acordo Comercial Anti Falsificação; TPP – Acordo Estratégico de Associação Trans-Pacífico.

URL de este artículo: http://alainet.org/active/72918
 
* Artigo publicado em América Latina en Movimiento, No. 494 (abril 2014) intitulado “Internet, poder y democracia”. 
http://www.alainet.org/publica/494.phtml

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Dilemas da mídia na democracia


O dilema, na democracia, não é entre uma imprensa calada ou essa que temos. Uma imprensa monopolizada por algumas famílias, que atua como um partido político.

A Presidente Dilma Rousseff costuma dizer que “prefere a imprensa barulhenta que calada”. Só que esse dilema se colocava na ditadura, quando a imprensa podia ser calada pela ditadura e era preferível que, qualquer que fosse sua orientação, permanecesse livre para expressá-la.

Na democracia as opções são outras. Ninguem quer calar a imprensa. Essa é a versão que ela busca dar das propostas de democratização dos meios de comunicação. Estas, ao contrário, não querem que ninguém deixe de falar, mas que muito mais gente, oxalá todos, possam se expressar.

O dilema, na democracia, não é, então, entre uma imprensa calada ou essa que temos. Uma imprensa monopolizada por algumas famílias, que define o que diz, como, quando, que pretende ser o partido de oposição, que distorce e/ou esconde a verdade. Uma imprensa financiada pelas agências de publicidade e, através destas, pelas grandes empresas, que colocam publicidade e, por meio delas, condicionam o funcionamento da imprensa.

Uma imprensa que escolhe quem vai escrever, como e quando, alinhando-se abertamente – conforme confissão explicita disso – como partido politico da oposição. Uma imprensa que, apenas dos índices econômicos revelarem o oposto: a economia cresce, aumenta o nível de emprego, os salários sobem acima da inflação, a inflação está controlada – cria um clima de incerteza, de preocupação, de insegurança, que por sua vez, se reflete em pesquisas manipuladas. Essa a imprensa que temos hoje, que condiciona as chamadas “agências de risco”, que pressiona sistematicamente o governo pelo aumento da taxa de juros, que representa não a população, mas o capital financeiro.

A alternativa a essa mídia antidemocrática não é calá-la. É democratizar a formação da opinião publica, limitando o poder monopolista dos meios atuais, abrindo canais alternativos da mídia – TV, rádio, jornais, internet. Ao não avançar em nada nessa direção, o governo é vitima da monopolização antidemocrática da mídia.

A mídia criou um clima de “terrorismo econômico”. E no marco de um modelo hegemonizado pelo capital especulativo, sumamente volátil e sensível a movimentos bruscos, esse clima tem efeito, aqui e lá fora. E o governo assiste impassível a essas manobras que anulam as tentativas do governo de canalizar recursos para os investimentos produtivos. O governo reage defensivamente, aumentando sucessivamente a taxa de juros diante do fantasma artificialmente construído do risco inflacionário.  Reage exatamente como os especuladores e seus ventríloquos na mídia desejam – aumentando as tendências recessivas, pela atração dos capitais para a especulação.

Os boatos, o pânico forjado, o terrorismo da inflação, ao não ter respostas politicas, se tornam forças materiais e as auto profecias se cumprem, deixando o governo em um circulo vicioso. Sem democratização dos meios de comunicação, quebrando essa cadeia antidemocrática e especulativa, nem sequer a retomada do crescimento econômico será possível e sustentável. O dilema da mídia na democracia não é entre mídia monopolista ou silêncio, mas entre terrorismo econômico da ditadura midiática ou democratização dos meios de comunicação.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Comissão de Esclarecimento


--> Por Hernán Camacho



No início do ciclo 23 dos diálogos entre a insurgência das FARC e o governo nacional, em Havana, se filtraram vários temas de ordem nacional que a guerrilha das FARC pôs sobre mesa. Um deles é a chamada Comissão de Esclarecimento das Causas e Responsabilidades do Conflito, que não é igual à Comissão da Verdade, anunciada pelo governo nacional na voz de Humberto de La Calle. Que as FARC também acolhem.


E é que a diferença é significativa. Enquanto o governo Santos pretende adjudicar responsabilidades a essa guerrilha dos fatos próprios do conflito em meio século de guerra, a Comissão de Esclarecimento e Responsabilidades aponta a identificar as causas sociais e políticas, entre elas as responsabilidades dos governos que, por sua ação ou omissão, perpetuaram a guerra, aprofundaram a inconformidade social, reduziram a democracia a sua mínima expressão e excluíram a sangue e fogo visões diferentes do manejo do país.


O fundo da proposta


“Como podem estabelecer-se responsabilidades, ou como pode abordar a mesa o tema de vítimas, de sua reparação, do perdão e do compromisso de um ‘nunca mais’, se não se estabelece como se deram os fatos de violência que derivaram em seis décadas ou mais de conflito armado?”, se perguntou o chefe da delegação de paz das FARC, Iván Márquez.


A Comissão de Esclarecimento pretende estabelecer um período de estudo histórico desde o ano de 1936, a propósito da lei 200 daquele ano impulsionada pelo presidente Alfonso López Pumarejo, que, para muitos historiadores, foi a gênese da violência terra-tenente contra o campesinato beneficiário da redistribuição da terra.


A Comissão proposta pela insurgência permitiria dar clareza acerca dos responsáveis pelos milhões de colombianos em deslocamento forçado e no apoderamento violento e ilegal de pelo menos oito milhões de hectares. Inclusive, chegaria até aos responsáveis materiais e intelectuais do genocídio político da União Patriótica ou de magnicídios políticos que alimentaram o conflito, desde Jorge Eliécer Gaitán até Jamie Pardo Leal ou Bernardo Jaramillo, que continuam na impunidade.


Aquele que estiver livre de pecado que atire a primeira pedra. Para
as FARC, o que se trata é de invocar a responsabilidade “do Estado e das esferas do poder público, dos presidentes, dos partidos hegemônicos, dos terra-tenentes, dos empresários, dos bananeiros, dos pecuaristas, dos banqueiros, da Igreja, dos grandes meios de comunicação convertidos em instrumentos da guerra, dos militares, dos paramilitares, da polícia, dos guerrilheiros e ex-guerrilheiros, dos organismos de inteligência, dos Estados Unidos”, isto é, a todos os atores e fatores do conflito.


“Não se trata de colocar o Estado contra a parede, nem de desatar insolúveis consequências judiciais, nem caças às bruxas, senão que de estabelecer o quadro completo dos horrores da violência”, dizem as FARC, reconhecendo que não temem aos tribunais de justiça.


A Comissão permitiria ir adiantando as discussões que se atenderão no ponto relacionado às vítimas, quando se dê por terminado o de cultivos ilícitos. Nesse momento, a voz das vítimas vai ter um espaço primordial para ser atendida. Não obstante, será o governo nacional quem determine se permitirá ou não escutar as vítimas do terrorismo de Estado num processo que até agora tem sido hermético para o povo colombiano. Um “manda calar”.


Outro dos temas propostos no debate público, desde o Centro de Convenções da maior das Antilhas, foram as respostas ao ex-mandatário e agora senador eleito Álvaro Uribe Vélez, quem assinalou, em declarações à imprensa internacional, que ele quer a paz do país, porém sem impunidade. E as FARC estão de acordo. Se se trata de não deixar impunidade nas atuações, a insurgência chamou a responder ao eleito senador Uribe por assuntos ocorridos ao longo de sua vida política, em especial como chefe da Aeronáutica Civil, governador de Antioquia e chefe de Estado.


“Sim. Que não haja impunidade para quem, desde a governadoria de Antioquia, regou de mortos, com seu irmão Santiago e seu bando paramilitar, os ‘Doze Apóstolos’, a Yarumal e o norte do Estado. Que planejou o massacre do Aro e que não explicou porque o helicóptero da Governadoria sobrevoava o lugarejo no momento em que se desenvolvia o massacre. Que lançou contra Urabá, como cão de caça contra o povo, a Rito Alejo del Río. Que fez matar a defensores de direitos humanos, como José María Valle”, manifestou Márquez.


E, como essa situação em particular, a guerrilha relembrou outros episódios que invocam a responsabilidade de Álvaro Uribe, como a impunidade reinante nos denominados falsos positivos ou execuções extrajudiciais que serviram para elevar as cifras de resultados operacionais em sua política de segurança democrática.


Ou as confissões paramilitares indicando que ajudaram a eleger Uribe como presidente no ano de 2002. Porém, também suas atuações quando apenas se vislumbrava para a política, ocupando o cargo de chefe da Aeronáutica Civil. O narcotraficante Pablo Escobar o chamou de “o rapazinho bendito”, por ajudar-lhe, segundo recentes declarações de Virginia Vallejo, a outorgar-lhe licenças aéreas para trazer para a Colômbia pasta de coca para seu negócio. “Uma vida tortuosa assinalada pelo crime”, destacaram as FARC.


Fonte: Semanario Voz

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cidades mais verdes se expandem na região latinoamericana e caribenha

A agricultura urbana e periurbana está se expandindo na América Latina e no Caribe, mas, ainda assim, para que todo seu potencial seja aproveitado é necessário um maior apoio dos governos nacionais, estatais e locais. Isso é o que conclui um novo informe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).
A investigação mostra, por exemplo, que 90.000 residentes em Havana e 20% dos lares urbanos da Guatemala e Santa Lucia produzem alimentos. Nas principais cidades e municípios da Bolívia, 50.000 famílias são produtoras de alimentos. Em Bogotá, 8.500 famílias produzem alimentos para consumo doméstico.
O informe "Cidades mais verdes na América Latina e Caribe” avalia os progressos alcançados nas cidades onde a agricultura é reconhecida nas políticas públicas e incluída nas estratégias de desenvolvimento urbano. O documento se baseia nos resultados de uma pesquisa em 23 países e dados de 110 cidades e municípios. Abrange perfis da agricultura praticada dentro e ao redor de cidades como Havana, Cidade do México, Antigua e Barbuda, Tegucigalpa, Manágua, Quito, Lima, El Alto (Bolívia), Belo Horizonte (Brasil) e Rosário (Argentina).
De acordo com a FAO, a principal vantagem da agricultura urbana e periurbana é proporcionar um melhor acesso aos alimentos para famílias de baixa renda. Não obstante, a pesquisa também indica que em 16 dos 23 países estudados os agricultores obtêm alguma renda com essa atividade.
Além disso, em muitos programas de agricultura urbana e periurbana da América Latina e Caribe, há uma clara tendência para a adoção de tecnologias e práticas agrícolas que produzem mais alimentos, e de melhor qualidade, uma vez que aperfeiçoam o uso dos recursos naturais e reduzem a dependência de substâncias agroquímicas.
A FAO destaca casos como o de Rosário (Argentina), onde as hortaliças são 100% orgânicas e os horticultores plantam com alto rendimento. Em Manágua, os agricultores urbanos enriquecem o solo com fertilizantes obtidos com a fermentação anaeróbica do lixo doméstico. Em El Alto (Bolívia), um projeto instalou em pequenas estufas de fabricação local hortas hidropônicas, que produzem quase uma tonelada de hortaliças por ano.
Outra tendência da América Latina é a propagação das "feiras orgânicas’’, que vendem alimentos orgânicos de produção local”. Muitos agricultores urbanos têm se incorporado à cadeia de valor como processadores intermediários ou finais de sucos de frutas, verduras, carnes, alimentos enlatados, lacticínios, aperitivos e cosméticos naturais.
A agricultura urbana e periurbana também tem se convertido em provedora de diversos programas institucionais de alimentação. Em Havana, por exemplo, esse tipo de agricultura forneceu, em 2013, em torno de 6700 toneladas de alimentos para quase 300.000 pessoas, em escolas, centros de saúde pública e hospitais.
O necessário apoio dos governos
A FAO afirma, no entanto, que para criar cidades mais verdes é necessário o apoio dos governos. Somente 12 dos 23 países estudados têm políticas nacionais que promovem expressamente a agricultura urbana e periurbana.

domingo, 13 de abril de 2014

Francisco e as mudanças na Igreja Católica



Frei Betto

 
 


A inesperada renúncia do Papa Benedito XVI surpreendeu ao mundo, especialmente aos fiéis católicos. Há 600 anos que um Papa não renunciava. Foi um gesto de humildade de quem entendeu que não podia seguir no timão do barco de Pedro nos mares agitados dos escândalos: pedofilia, corrupção no Banco do Vaticano, rede de prostituição masculina que implicava a seminaristas em Roma, redução do número de católicos no Ocidente etc.

Se elegeu ao cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio. Ele havia sido o segundo mais votado no conclave que entregou as chaves de Pedro em mãos do Cardeal Ratzinger.

Surpreendeu também o nome adotado pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio: Francisco. Nunca antes um Papa havia rendido uma homenagem ao santo de Assis [1182-1226], considerado a maior celebridade no último milênio. Da mesma maneira que nunca um Papa se fez chamar Pedro II nem tomou os nomes dos evangelistas Mateus e Lucas.

Quem é Jorge Mario Bergoglio? Um sacerdote da Companhia de Jesus, cuja vida se caracterizou por ocupar funções de governo entre os jesuítas, o que o projetou ao episcopado. Não há evidências de que Bergoglio tenha procedido como tantos sacerdotes e bispos argentinos que deram apoio explícito à ditadura militar [1976-1983], responsável pela morte de mais de 30 mil cidadãos e pelo sequestro e desaparecimento de aproximadamente três mil bebês, filhos de supostos terroristas.

Bergoglio nunca se destacou por denunciar violações de direitos humanos cometidas pelos militares, como o fizeram os bispos Novak e Angelelli; este último morreu num acidente de tráfico, em 1976, que muitos creem tenha sido provocado pelos militares. O superior dos jesuítas argentinos e atual Papa preferiu atuar detrás dos bastidores a favor dos perseguidos.

Bergoglio é doutrinariamente conservador. Não se espere dele que admita a união civil dos homossexuais e o fim do celibato obrigatório. No entanto, a eleição do nome de Francisco simboliza quatro dimensões características do santo de Assis:
  1. A crítica do sistema produtivo que gera desigualdades sociais. Até o século XIII, na Europa, a pobreza andava em meio a guerras e pestes. Toda família, ainda estando submetida à servidão, tinha sua parcela de terra para cultivar alimentos e criar uns poucos animais que lhe garantia o sustento.

Bernardone, pai de Francisco, introduziu, graças à manufatura, a produção em série de têxteis, cujas tinturas importava da França [o que lhe levou a homenagear no filho a nação estrangeira, batizando-o como Francisco: aquele que vem da França].
O novo sistema de produção barateou os têxteis, conduzindo à miséria e ao desemprego numerosos artesãos do ramo têxtil.
  1. A opção pelos pobres [fundamento da Teologia da Libertação]. Francisco, quando se encontra com os pobres gerados pelas novas relações de produção, arranca suas próprias roupas fabricadas por seu pai e, nu na praça de Assis, manifesta seu rechaço ao capitalismo nascente e sua adesão à defesa dos direitos dos pobres.
  2. O amor pela natureza. Francisco é o santo padroeiro da ecología. Se destacou pelo amor aos animais e por seus cânticos amorosos para o Sol e a Lua.
  3. A reforma da Igreja. Francisco escutou na capela de São Damião que Jesus o convocava para reconstruir a igreja que estava em ruínas. Com efeito, nas cercanias de Assis havia uma igreja em ruínas, a Porciúncula [agora dentro da catedral]. Ele e seus amigos se propuseram reconstruí-la. Até que entenderam que o chamado de Jesus tinha um significado muito mais amplo: o de reconstruir a Igreja Católica, então distante do povo e identificada com a nobreza europeia.
Se o Papa Francisco, ao adotar esse nome, também pensou em Francisco Xavier [1506-1552], o santo jesuíta que predicou o Evangelho aos orientais, então o nome do novo pontífice expressa todo um programa de renovação da Igreja Católica, começando pela reforma da Cúria Romana, pela formulação de uma nova moral sexual e por uma nova evangelização que implemente as propostas do Concílio Vaticano II, como o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, admitindo que também fora da Igreja há salvação.
O fato é que, em menos de um ano de pontificado, Francisco reforma o papado, despojando-lhe de pompas e símbolos nobres; cria uma comissão de oito cardeais para que o assessorem na condução da Igreja, castiga os sacerdotes e bispos corruptos, combate a homofobia, autoriza o batismo para filhos de mães solteiras e se posiciona em favor dos pobres.

Francisco e a economia de mercado

Francisco divulgou em 26 de novembro de 2013 o documento “Alegria do Evangelho”, no qual expõe claramente seu ponto de vista. Sua voz profética incomodou a CNN, poderosa rede de comunicação dos Estados Unidos, que lhe concedeu a “Medalha de Papelão”, destinada para aqueles que, em matéria econômica, falam besteiras...

Quais são as “besteiras” pronunciadas pelo Papa Francisco? Julgue o leitor: “hoje temos que dizer ‘não a uma economia da exclusão e da iniquidade’. Essa economia mata. Não pode ser que não seja notícia que morre de frio um ancião congelado e que o seja a queda de dois pontos na bolsa de valores. Isso é exclusão. Não se pode tolerar mais que se desperdice comida quando há gente que passa fome. Isso é iniquidade.

“Hoje, tudo entra do jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso devora o mais fraco. Como consequência desta situação, grandes massas da população se veem excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem horizontes, sem saída.
“Se considera ao ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que se pode usar e depois jogar fora. Demos início à cultura do ‘descarte’ que, ademais, se promove. Já não se trata simplesmente do fenômeno da exploração e da opressão, mas sim de algo novo: com a exclusão, fica afetado em sua própria raiz o pertencimento à sociedade na qual se vive, pois já não se está nela abaixo, na periferia, ou sem poder, senão que se está fora. Os excluídos não são ‘explorados’ mas sim descartados, ‘excedentes’.
Ademais, Francisco condena a lógica de que o livre mercado pode, por si mesmo, promover a inclusão social: “Esta opinião, que jamais foi confirmada pelos fatos, expressa uma confiança grosseira e ingênua na bondade dos que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico imperante.
Enquanto isso, os excluídos seguem esperando.

“Para poder sustentar um estilo de vida que exclui aos outros, ou para poder entusiasmar-se com esse ideal egoísta, se desenvolveu uma globalização da indiferença. Quase sem advertir para isso, nos tornamos incapazes de compadecer-nos ante os clamores dos outros, já não choramos ante o drama dos demais nem nos interessa cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade alheia que não nos incumbe.

“A cultura do bem-estar nos anestesia e perdemos a calma se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas essas vidas frustradas pela falta de possibilidades nos parecem um mero espetáculo que de nenhuma maneira nos altera”.

O Papa destaca que os interesses do capital não podem estar acima dos direitos humanos: “Uma das causas desta situação se encontra na relação que estabelecemos com o dinheiro, já que aceitamos pacificamente seu predomínio sobre nós e nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos nos faz esquecer que em sua origem há uma profunda crise antropológica: a negação da primazia do ser humano!

“Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro [cf. Ex 32,1-35] encontrou uma versão nova e impiedosa no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem um rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano. A crise mundial que afeta as finanças e a economia traz à luz seus desequilíbrios e, sobretudo, a grave carência de sua orientação antropológica que reduz o ser humano a apenas uma de suas necessidades: o consumo”.

Sem citar o capitalismo, Francisco defende o papel do Estado como provedor social e condena a autonomia absoluta do livre mercado:
“Enquanto os lucros de uns poucos crescem exponencialmente, os da maioria ficam cada vez mais distantes do bem-estar dessa minoria feliz. Este desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira. Daí que neguem o direito de controle dos Estados, encarregados de zelar pelo bem comum.

“Se instaura uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, suas leis e suas regras. Ademais, a dívida e seus interesses distanciam os países das possibilidades viáveis de sua economia e aos cidadãos de seu poder aquisitivo real. A tudo isso se acrescenta uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A obsessão de poder e de ter não conhece limites. Neste sistema, que tende a faturar tudo de maneira a acrescentar benefícios, qualquer coisa que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa ante os interesses do mercado divinizado, convertidos em regra absoluta”.

Enfim, um profeta que põe seu dedo na ferida, porque ninguém ignora que o capitalismo fracassou para dois terços da humanidade: 4 bilhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha de pobreza.

- Frei Betto é escritor, autor de "La Mosca Azul - Sobre Reflexión el poder" (Ocean Sur, México, 2009; Ciencias Sociales, La Habana, 2012 ) , entre otros libros.

Fonte:- - - Servicio Informativo "Alai-amlatina" - - -

Tradução: Joaquim Lisboa Neto