"A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!"

Agência de Notícias Nova Colômbia (em espanhol)

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte.

A violência do Governo Colombiano não soluciona os problemas do Povo, especialmente os problemas dos camponeses.

Pelo contrário, os agrava.


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A difícil luta pela paz na Colômbia.


Por Miguel Urbano Rodrigues

Para os colombianos progressistas dois acontecimentos chamaram a atenção desde o início do ano.

1- Uma Mesa Redonda na qual os comandantes Jesus Santrich e Victor Sandino Palmera, do Estado Maior Central das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo fizeram o balanço de dois anos dos Diálogos de Paz. O debate ocorreu em Havana, sede das conversações em curso, mas teve ampla repercussão mundial por ser acessível pela Internet.


2- Os ataques que nos primeiros dias de Janeiro, em diferentes Departamentos, o exército realizou a unidades das FARC-EP.


Santrich e Palmera consideram que o diálogo de paz é globalmente positivo. Avançou-se muito na discussão de pontos fundamentais da Agenda. Na questão da terra, no tema do narcotráfico, no debate sobre as vítimas da guerra o governo fez concessões que, embora insuficientes, motivaram críticas furiosas de Uribe e seus falcões.


Mas os dirigentes das FARC foram prudentes. A paz não está próxima. O povo colombiano deseja-a intensamente. Mas são poderosas as forças empenhadas em sabotar os Diálogos de Havana. O uribismo conta com o apoio da oligarquia agrária e tem uma forte representação no Congresso, controla setores importantes da Administração Publica e do Poder Judicial. São íntimas as relações que Álvaro Uribe mantem com o paramilitarismo, que continua em cumplicidade com a Polícia e o Exército, praticando em muitos departamentos uma política de terror.

Os crimes de que são vitimas os camponeses e as comunidades indígenas são, aliás, com frequência, atribuídos às FARC.

A posição dos Estados Unidos é contraditória. O presidente Barack Obama afirma ser favorável à Paz. Mas a ajuda militar à Colômbia somente é superada pela atribuída a Israel. O Pentágono mantem no país oito bases militares e a intervenção de “assessores” estadunidenses em operações contra as FARC é inocultável.


Os Estados Unidos contribuiu decisivamente para a transformação das Forças Armadas colombianas na mais poderosa máquina militar da América Latina. Equipado com armas que os EUA somente fornecem a Israel, o Exército (com a Policia) tem hoje mais de 500 mil efetivos.


O corpo de oficiais não é, contudo homogéneo. Uma percentagem considerável da jovem oficialidade mostra-se receptiva aos apelos da Igreja a favor do fim do conflito e está consciente de que as iniciativas da Frente Ampla para a Paz e do Movimento Colombianos pela Paz, que mobilizam centenas de milhares de pessoas, expressam o sentimento profundo do povo.


No entanto, nos altos comandos do exército predominam os falcões. Mas não existe mais a antiga unanimidade. Significativamente, apareceram na imprensa artigos que, a propósito do episódio do general Alzate, de contornos nebulosos, sublinharam que a ultradireita militar já não é hegemónica.


Os comunicados emitidos pela Delegação para a Paz das FARC em Havana, nos primeiros dias de janeiro, informam que a cúpula militar e os seus aliados políticos procuram uma confrontação com a guerrilha que leve a uma ruptura do cessar-fogo unilateral decretado pela organização revolucionaria.


Não se trata de um incidente isolado. AS FARC citam uma serie de ações ofensivas provocativas. Entre outras, as seguintes:


- No dia 31 de Dezembro, o exército atacou uma coluna de guerrilheiros no município de Algeciras, na Huila; feriram e capturaram um combatente fariano.


- Em Miramar, uma força do Exército avançou sobre um acampamento da 15ª Frente das FARC, que foi abandonado.


- No dia 1 de Janeiro, o exército atacou a Coluna Jacobo Arenas. As FARC responderam ao fogo e abateram seis militares.


- No dia 3 de Janeiro o exército atacou a Frente 26, em Ondas de Cafre, com o apoio de helicópteros e morteiros de 120mm. Os atacantes caíram numa emboscada sofrendo perdas.


- No dia 4 de janeiro um novo ataque, em Salto Glória, contra as unidades da 1ª Frente.


Nos dias seguintes, prosseguiram as operações ofensivas do exército, principalmente no Cauca e nas Planícies Orientais do país. Em todas essas ações, as FARC reagiram defensivamente.


A Frente Ampla para a Paz já protestou, mas o presidente Juan Manuel Santos ainda não comentou sobre as operações ofensivas contra as FARC.


A sua atitude é ambígua. Insiste em afirmar o seu desejo de que as conversações de Havana conduzam à Paz, mas, ao mesmo tempo, permite que o exército desenvolva ininterruptamente operações ofensivas contra as FARC.




Até quando as FARC, hostilizadas diariamente, poderão manter em vigor o cessar-fogo unilateral?

A Delegação das FARC em Havana pergunta, com fundamento, se o presidente, pressionado por Uribe e pela oligarquia, está empenhado no fracasso do processo de paz?


A luta pela Paz, tão clara por parte das FARC, é muito difícil.








domingo, 18 de janeiro de 2015

Há motivos para suspeita





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Há lugar para a comoção. Um grupo de homens armados ingressa na redação em Paris de uma revista muito conhecida por seu tratamento pouco comedido dos temas do islã, e com rifles automáticos AK 47 assassina doze jornalistas e várias pessoas mais. Em muito breve prazo, a polícia francesa afirma ter identificado os assassinos. Inclusive fornece os nomes dos três criminosos, aos quais, sem maior averiguação, chama de terroristas. No lugar dos fatos comparece o presidente da França e diz, frase explosiva, que os assassinos serão perseguidos sem descanso e levados ante a justiça.


Em poucas horas, a polícia informa que já tem localizados os responsáveis pelo múltiplo homicídio. Um pouco depois, os gendarmes afirmam que os assassinos foram mortos durante um enfrentamento com as forças da ordem. Já se sabe que os mortos não falam.


Também em brevíssimo tempo chega a Paris um montão de chefes de Estado para encabeçar uma multitudinária marcha condenatória do terrorismo. E chama a atenção que na vanguarda da manifestação se encontra um célebre praticante do mais cruel terrorismo: o primeiro-ministro de Israel.


Ato seguido, como num filme de ação vertiginosa, esse montão de chefes de Estado, junto com o presidente dos Estados Unidos, convoca a uma conferência internacional sobre segurança para fazer frente, de maneira conjunta e coordenada, ao flagelo do terrorismo. Porém, atenção!, não qualquer terrorismo, mas sim o terrorismo islâmico. E mais concretamente o terrorismo jihadista, ao qual, sem maior evidência e do modo mais categórico possível, se atribui o atentado contra a revista parisiense.


No calor do conhecimento destes fatos vertiginosos, não pode alguém evitar que lhe venha à memória o incêndio do Reichstag, atribuído pelos nazistas “aos comunistas”, atentado que produziu quase automaticamente a chegada de Adolf Hitler ao poder absoluto.


E como não recordar o afundamento na baía de Havana, em 1898, do Maine, buque da armada estadunidense, atribuído por Washington ao exército espanhol e que serviu de perfeito pretexto para o ingresso dos Estados Unidos na guerra de independência de Cuba contra o domínio colonial espanhol e que, depois da derrota de Espanha, permitiu aos Estados Unidos apoderar-se militarmente de Cuba e exercer sobre a ilha um domínio neocolonialista que só terminou com o triunfo da Revolução da Sierra Maestra?


Já se esqueceu o celebérrimo incidente do golfo de Tonkin em que, nos disseram, umas lanchas torpedeiras do Vietnã do Norte haviam canhoneado um barco gringo, o que mais tarde se comprovou que foi um fato inexistente, uma rotunda falsidade, porém que serviu de pretexto para iniciar os bombardeios massivos do Vietnã do Norte, ocultados, evidentemente, pela imprensa e opinião pública estadunidenses?


E as Torres Gêmeas? Também se responsabilizou a uns fanáticos muçulmanos desse feroz fato. Porém, até agora ninguém pôde provar que, com efeito, as coisas ocorreram como diz a versão oficial. Nem em Nova Iorque nem em Washington nem em Maryland, onde nos disseram que, quem sabe como, um avião lotado de passageiros veio aterrissar. Na literatura política mundial, a este tipo de ações se lhes chama atentados com bandeira falsa.


Aquele montão de mandatários e seus serviços secretos e seus aparatos de inteligência e espionagem e a polícia parisiense terão sequer considerado a hipótese de um atentado com bandeira falsa? Ou só seguiram pontualmente e com cara de circunstâncias o livreto prescrito para aumentar e justificar a islamofobia ocidental e novas guerras coloniais contra os países muçulmanos, Irã em primeiro lugar? De modo que, se há motivos para a comoção, também os há para a suspeita.

Economista e professor de Economia Política. Fundador e diretor do Centro de Estudos de Economia e Política. É colunista do diário El Sol de México, do Centro de Estudos de Economia e Política. É colunista do diário El Sol de México, do quatorzenário Siminforma, do diário Rumbo de México, entre outros meios. Analista político em distintos programas de rádio.

Fonte: teleSUR

Tradução: Joaquim Lisboa Neto

Comunicado conjunto #49


 

La Habana, 18 de janeiro de 2015


 Entre os dias 15 e 18 de janeiro, representantes das Delegaçoes do Governo da República da Colômbia e das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia-Exército do Povo, reuniram-se para intercambiar visões iniciais sobre os pontos que ainda restam por acordar e a metodologia de trabalho a seguir nas próximas reuniões.
Se acordou que o próximo ciclo iniciará o dia 2 de fevereiro. No dia 10 de fevereiro os integrantes da Comissão Histórica do Conflito e suas Vítimas, entregarão seus informes e os relatores farão entrega e apresentarão o informe sínteses.
Adicionalmente, se acordou que o dia 11 de fevereiro as Delegações receberão a segunda delegação de organizações, no marco do trabalho da sob-comissão de gênero.
Por fim, se acordou que durante o ciclo as Delegações discutirão o alcance e metodologia de trabalho da sob-comissão do punto3 “Fim do conflito”.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Armistício à vista na Colômbia



 

Por José Reinaldo Carvalho



A Colômbia deu mais um passo para a paz, com a decisão do presidente Juan Manuel Santos de discutir um cessar fogo bilateral. É algo efetivamente incoerente o governo estar na mesa de negociações discutindo a paz enquanto intensifica operações militares contra o outro ator do diálogo, a força insurgente.


Com maturidade, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, reconheceram o mérito da decisão do governo e mais uma vez manifestaram sua disponibilidade para levar à prática o cessar-fogo bilateral.

É bom lembrar que desde 20 de dezembro passado, as Farc declararam uma trégua unilateral por tempo indeterminado, mas foram rechaçadas pelo governo.

A força insurgente destacou ainda a ativação da subcomissão técnica, no âmbito da mesa de negociações que se desenvolve em Havana desde 2012, para abordar os aspectos centrais relacionados com o fim do conflito militar que já dura mais de 50 anos.

De acordo com as Farc, com a trégua já se podem sentir os efeitos práticos do fim do conflito antes mesmo da assinatura do acordo final. Positivamente, o armistício poderia ser o prelúdio do fim da guerra.

Desse modo, é com grande expectativa que voltará a ser instalada, no dia 26 de janeiro a mesa de negociações. Alcançar a paz é o desejo das Farc, da sociedade colombiana, dos países e povos amigos da Colômbia. Se é também a vontade do governo, não poderia haver notícia mais alvissareira, no atual estágio das conversações entre as partes e do processo político em que está imerso o país vizinho.


Fonte: vermelho.org

O atentado ao "Charlie Hebdo" foi um filme mal produzido?








Wilson Roberto Vieira Ferreira 


Como em todos eventos agudos que envolvem a interminável “guerra contra o terrorismo”, muitos analistas apontam inconsistências, ambiguidades e lacunas na cobertura midiática ao atentado contra o jornal "Charlie Hebdo" em Paris.  São tantas que parece que estamos diante de um roteiro de um filme mal produzido: uma ação militar profissionalmente cirúrgica feita por jovens que esquecem um cartão de identidade no carro da fuga. Coincidências e conveniências para muitos lados (e até para a grande mídia brasileira) envolvem a chacina dos jornalistas e cartunistas franceses, gerando uma espiral de especulações e conspirações. Será que alcançamos o estágio mais avançado do terrorismo, o “meta-terrorismo”? O relato midiaticamente ambíguo de um atentado pode se tornar tão letal quanto o próprio atentado.

Como diria a personagem Church Lady (feita pelo comediante Dana Carvey no programa Saturday Night Live, sempre preocupada com as conspirações satânicas por trás das coincidências): “How Con-VEEN-ient!” (“Tão conVEEEniente!”).

Numa primeira análise, o ataque terrorista (alguns afirmam que foi na verdade uma ação militar pela precisão) ao jornal satírico francês Charlie Hebdo em Paris, que vitimou 12 pessoas entre eles cartunistas, editores e colunistas do veículo francês, tem se revelado bem conveniente para três personagens do atual cenário internacional e, de quebra, para o senso de oportunismo da grande mídia brasileira:

 
(a) Para o politicamente desgastado presidente da França François Hollande – 85% dos franceses declaram que Hollande não deveria se candidatar à reeleição e 50% o acusam de não cumprir promessas da campanha, segundo o Instituto Francês de Opinião Pública. Com a economia estagnada e falando para a mídia em “pacto de responsabilidade” onde cada um teria sua cota de sacrifício (aumento de taxação e redução dos custos dos trabalhos), Hollande  acenava com “união” para uma “França forte”. Medo e infelicidade são importantes ingredientes para a unificação diante de um suposto inimigo externo. O 11 de setembro nos EUA provou isso.
 
(b) Para o fascismo europeu – com dezenas de milhares indo às ruas das capitais europeias desde o ano passado no movimento chamado Pegida (sigla em alemão para Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente), isso sem falar no crescimento eleitoral da extrema-direita de Marine Le-Pen na França, o atentado dá forças à xenofobia alimentada pela crise econômica continental. O atentado cairia midiaticamente como uma luva pois representaria um ataque àquilo que supostamente distinguiria o Ocidente do “obscurantismo” islâmico: a liberdade de expressão.

(c)  Para os EUA – Enquanto em Paris os supostos terroristas faziam uma chacina na redação do Charlie Hebdo, um carro bomba explodia em frente à Academia de Polícia no centro de Saná, capital do Iêmen, resultando em 37 mortos. Informou-se que o braço jihadista da Al-Qaeda do Iêmen reivindicou a autoria. Quase ao mesmo tempo em Paris, os terroristas encapuçados gritavam na rua para todos que pudessem ouvir: “Digam para a imprensa que somos da rede Al-Qaeda do Iêmen”.


Por que agora o Iêmen? O que agora o mundo (ou os EUA) querem com esse país pobre fronteiriço da Arábia Saudita? Leia esse trecho do documento “A Agenda Secreta do Iêmen: por trás dos cenários da Al-Qaeda, o gargalo estratégico do petróleo” de 2010 do Centre of Research on Globalization (CRG): 
“A importância estratégica da região entre o Iêmen e a Somália torna o ponto de interesse geopolítico. Lá está o estreito de  Bab el-Mandeb, um dos sete pontos que os EUA consideram gargalos para o transporte de petróleo – um gargalo entre o cabo da África e Oriente Médio, e uma ligação estratégica entre o Mar do Mediterrâneo e o Oceano Índico”.

O impactante atentado de uma suposta ramificação da Al-Qaeda no Iêmen seria um pretexto perfeito para a militarização da águas em torno de Bab el-Mandeb pelos EUA ou OTAN. Os EUA buscam o controle desses gargalos críticos no mundo. Essa região seria estratégica em um futuro próximo pela possibilidade de controle do petróleo para a China, União Europeia ou qualquer região que se oponha à política norte-americana.

(d)  Para a grande mídia brasileira – diante do fantasma da regulamentação midiática através da possibilidade da implementação Lei dos Meios, oportunisticamente colunistas brasileiros dão o ponta pé inicial na transformação do atentado em combustível para sua agenda. Diogo Mainardi e Felipe Moura Brasil, por exemplo, tentam associar a tragédia de Paris a uma onda ofensiva contra a liberdade de imprensa do qual faria parte “os ataques petistas”.
E ainda, a inacreditável "jornalista" Rachel Sherazade, em comentário na Rádio Jovem Pan, comparou a revista Veja ao Charlie Hebdo. Para ela, o veículo estaria sendo vítima não do radicalismo islâmico, mas do "radicalismo de esquerda".


Um filme mal produzido?




O historiador norte-americano Daniel Boorstin, talvez o primeiro pesquisador a compreender o papel da simulação como elemento dominante da cultura, chamou a atenção da “era do artifício” atual onde a vida pública estaria sendo dominada pelos “pseudo-eventos”: fatos deliberadamente planejados e roteirizados para serem “noticiáveis”, ganhando a atenção da opinião pública – e isso Boorstin escreveu em 1963 no seu livro The Image – a guide of pseudo-events in America.

Para Boorstin, um dos critérios para podermos diferenciar um pseudo-evento de um “evento produzido por Deus” é a sua “ambiguidade” em relação à realidade subjacente. Enquanto diante de um evento real (terremotos, enchentes, desastres aéreos) o interesse está em saber o que aconteceu e as consequências, no pseudo-evento há uma ambiguidade presente através de inconsistências, detalhes inverossímeis e conveniências ou coincidências que tornam o evento noticiável. O pseudo-evento obedece o timing dos ritmo midiático da transmissão das notícias.

Somado ao timing e conveniência a múltiplos interesses que o atentado veio aparentemente de forma involuntária atender, acrescenta-se uma narrativa com diversas ambiguidades. Um roteirista de cinema experiente condenaria a produção como um filme mal produzido. Vamos analisar sete das inúmeras ambiguidades que analistas e teóricos da conspiração estão discutindo:

(a) Apesar da proximidade do Centro de Paris, as ruas próximas ao atentado estavam vazias. O  atentado ocorreu  no primeiro dia dos “Soldes” (temporada de liquidação de inverno dos saldos do Natal que ocorre de 7 de janeiro a 17 de fevereiro), caracterizado pelo frenesi de turistas, grande movimentação de carros. O Citroën dos terroristas estava parado no meio da rua. Particularmente nesses dias de “Soldes” você não consegue ficar parado sem, em questão de segundos, formar-se uma fila de carros;

(b) A suposta execução de um policial numa calçada de concreto foi um ato arriscado para o terrorista: ninguém atira numa superfície de concreto, a não ser que queira ser morto por um ricochete;

(c) Problemas com o “figurino” dos policiais: intrigante é que os policiais anti-terroristas não estavam com capacetes e máscaras. Aparecem no vídeo com boné e roupa casual;


(d) O ponto positivo cinemático é o bom efeito de realidade conseguido com a imagem da execução do policial ferido e indefeso caído na calçada. Apesar do fator inverossimilhança (o ricochete da bala), o roteirista deve ter achado necessário inserir uma imagem de execução, já que as imagens liberadas para as redes de TV do mundo seriam muito “frias” – apesar das informações de 20 vítimas (mortos e feridos) simplesmente não vemos urgência: apenas duas ambulâncias e a foto de uma pessoa ferida. Não há declaração de testemunhas oculares.

A imagem da execução do policial consegue dar uma amostra da suposta crueldade e frieza dos terroristas que invadiram uma redação para matar um por um por chamada através do nome de cada vítima. Comparado com as imagens do atentado de 11 de setembro em Nova York, lá houve mais esmero na produção: um grande número de “extras” correndo em pânico pelas ruas e imagens apocalípticas de urgência ;

(e) A narrativa é extremamente conveniente para as autoridades: policiais encontram um documento de identificação de um dos terroristas no Citroën abandonado ruas acima. Mas com que diabos, por que terroristas do braço iemenista da Al-Qaeda andam com documentos de identidade?

(f) O suposto “atentado terrorista” foi, na verdade, uma “cirúrgica” ação militar metodicamente planejada contra vítimas pré-selecionadas. Foram treinados militarmente, o que, pela logística de assalto demonstrada (proteção em “ala” – quem não dispara “gira”, fechando a saída do alvo – deslocam-se para o veículo de fuga sem correr, atiraram bem com fuzis sem extensão de ombro e apoio axilar), não se encaixam com o perfil que a mídia agora começa a fazer dos jovens – o mais novo dos irmão Kouachi era fã de rap (vídeo dele em shows agora são exibidos), “um aprendiz de perdedor” como declarou seu antigo advogado Vincent Ollivier, limítrofes sociais que viviam de bicos em pizzarias e peixarias.

Surgem informações que ficaram alguns meses no Iêmen sendo treinados (sim! sempre Iêmen), o que lembra o script do atentado de 11 de setembro – os terroristas que jogaram o Boeing 747 contra o WTC teriam feito um curso em um Aeroclube na Flórida


Uma ação militar precisa com o modus operandi de mercenários ou profissionais a serviço da CIA ou Mossadi levada a cabo por jovens que esquecem o cartão de identidade no carro da fuga... o que lembra o erro crasso de todo roteiro mal feito, chamado pelos roteirista de “Deus ex-machina” – termo para designar soluções arbitrárias, sem nexo ou plausibilidade na narrativa para solucionar becos sem saída em roteiros mal conduzidos.
g) Embora caricato e canastrão, o roteiro segue o padrão “sujos, feios e malvados” para caracterizar os protagonistas: a aproximação metonímica entre rap, muçulmanos e armas russas (nas primeiras informações da grande mídia destacava-se que os terroristas teriam utilizado “armas russas”). Por isso, os protagonistas se encaixam no padrão RAV hollywoodiano: Russos, Árabes e Vilões em geral. Se o episódio fosse no Brasil, o perfil dos terroristas certamente seria o de funqueiros.


Teorias Conspiratórias


Todas essas ambiguidades estão ajudando a turbinar duas principais teorias conspiratórias: o “Trabalho Interno” (Inside Job – governos estimulam ou permitem determinada ação do inimigo pela conveniência das consequências - algo como foi o ataque de Pearl Harbor para os EUA na II Guerra Mundial) e a teoria da “Falsa Bandeira” (False Flag – operação conduzida por governo, corporação ou organização que simula serem ações do inimigo para tirar proveito das consequências resultantes):

(a) Foi um “Trabalho Interno” – os supostos terroristas sabiam quando e como atacar a sede do Charlie Hebdo. Todos foram assassinados juntos, em uma reunião de pauta do jornal. Os funcionários mais importantes do veículo estavam lá reunidos naquele momento. Os “terroristas” lidaram com a situação como profissionais, o que contraria a prática até aqui do terrorismo – destruição e mortes em larga escala para produzir pânico e repercussão midiática. Foi um assassinato. Os teóricos dessa linha se perguntam: como os terroristas sabiam que os mais importantes nomes do Charlie Hebdo estariam lá, reunidos naquele momento?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Editor do Vermelho avalia retomada de mesa de negociação na Colômbia



"Alcançar a paz é o desejo das Farc, da sociedade colombiana, dos países e povos amigos da Colômbia. Se é também a vontade do governo, não poderia haver notícia mais alvissareira", declarou José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho, ao falar sobre o retorno, no próximo dia 26 de janeiro, da mesa de negociações para discutir o processo de paz naquele país.




O editor do Vermelho, em sua coluna de opinião Ponto de Vista, ainda indicou "a criação de uma subcomissão técnica, no âmbito da mesa de negociações que se desenvolve em Havana desde o final de 2012, para abordar os aspectos centrais relacionados com o fim do conflito militar quye ja dura mais de 50 anos".



Ainda durante a reflexão, José Reinaldo alertou que "desde 20 de dezembro passado, as Farc declararam uma trégua unilateral por tempo indeterminado, opinião que havia sido anteriormente menosprezada pelo governo".



Como Barack Obama pode pôr fim às sanções econômicas contra Cuba


Salim Lamrani*




Desde 1996, o Congresso dos Estados Unidos é o único que pode eliminar o estado de sítio contra Cuba; mas o presidente Obama pode obrigá-lo a fazer isso...



Desde a adoção a lei Helms-Burton, em 1996 — uma aberração jurídica por seu caráter extraterritorial e retroativo, que agrava as sanções econômicas contra a população cubana — o Presidente dos Estados Unidos já não dispõe da faculdade executiva para pôr fim ao estado de sítio econômico anacrônico, cruel e contraproducente — segundo as palavras do próprio Barack Obama. De fato, só o Congresso pode acabar com uma política hostil condenada pela imensa maioria da comunidade internacional, pela opinião pública estadunidense, pela comunidade cubana da Flórida e, sobretudo, pelo mundo dos negócios dos Estados Unidos.



A Câmara de Comércio dos Estados Unidos, que representa o mundo dos negócios e cerca de três milhões de empresas, pediu aos responsáveis políticos, tanto ao governo como ao Congresso, que adotassem uma nova política em relação a Havana. Segundo seu presidente, Thomas Donohue, “é tempo de eliminar as barreiras políticas que foram estabelecidas há muito tempo e apagar nossas diferenças. Isso é do interesse do povo americano e das empresas americanas”.[1]



Em seu discurso histórico, de 17 de dezembro de 2014, no qual anunciou o restabelecimento das relações com Cuba depois de mais de meio século de ruptura, o presidente estadunidense chamou o Congresso a optar por um novo enfoque em relação a Havana. “Peço que o Congresso abra um debate sério e honesto sobre o cancelamento do embargo”, declarou Obama.[2]



A solução? Autorizar o turismo ordinário



Na realidade, o presidente Obama dispõe de uma forma bastante simples de acelerar o fim do estado de sítio econômico que afeta todas as categorias e todos os setores da sociedade cubana e que constitui o principal obstáculo para o desenvolvimento da ilha. Basta permitir que os cidadãos estadunidenses viagem para Cuba como turistas ordinários. Atualmente, os cidadãos dos Estados Unidos podem viajar para qualquer país do mundo, inclusive para a China, o Vietnã ou a Coreia do Norte, mas seu governo não lhes permite ainda que descubram a ilha do Caribe.



Ao romper essa barreira que separa os dois povos, Barack Obama permitiria, segundo as estimativas, que mais de um milhão de turistas estadunidenses viajassem a Cuba pela primeira vez. Essa cifra superaria os cinco milhões de pessoas anuais ao cabo de 5 anos, já que Cuba é um destino natural por razões históricas e geográficas evidentes. Assim, se abriria um imenso mercado para as companhias aéreas estadunidenses, para a indústria do transporte ou as agências de viagens, sem falar nos demais setores vinculados ao turismo massivo. Hoje, somente 90 mil cidadãos estadunidenses — fora os cubano-americanos — visitam Cuba todo ano por razões profissionais, acadêmicas, culturais, humanitárias ou esportivas, dentro das licenças concedidas pelo Departamento de Estado.[3]


O fluxo massivo de turistas para Cuba seria benéfico para a economia cubana, cujos recursos dependem, em grande parte, desse setor, mas também para a economia estadunidense. De fato, os produtores agrícolas estadunidenses seriam também grandes ganhadores de um recomeço do turismo entre ambas as nações e seria solicitado para alimentar os milhões de novos visitantes, já que Cuba importa a maior parte de suas matérias-primas alimentícias. Com a autorização do turismo ordinário para Cuba, o mundo dos negócios não deixaria de pressionar os membros do Congresso, cuja carreira política depende, em grande parte, dos financiamentos privados que recebem por parte das empresas, para que colocassem definitivamente um fim às sanções econômicas contra Cuba, que o priva de um mercado natural de 11.2 milhões de habitantes e potencialmente de 10 milhões de turistas procedentes de todo o mundo. Cuba acaba de superar os três milhões de turistas no ano de 2014.



Em um primeiro momento, o presidente Obama poderia dar ordens ao Departamento do Tesouro para não perseguir cidadãos estadunidenses que não estivessem enquadrados no estabelecido pela administração e viajassem para Cuba, já que as sanções econômicas que se aplicam aos que se arriscam a fazer uma viagem sem permissão, por meio do Canadá ou do México, são bastante dissuasivas. Isso teria como efeito flexibilizar as viagens de turistas para Cuba e — sobretudo —, reparar uma anomalia jurídica, uma vez que essa proibição viola a Constituição dos Estados Unidos, que defende o direito de mover-se livremente.



*Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV,  Salim Lamrani é professor-titular da Universidade de la Reunión e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Seu último livro se chama Cuba, the Media, and the Challenge of Impartiality, New York, Monthly Review Press, 2014, com prólogo de Eduardo Galeano.
Contato: lamranisalim@yahoo.fr ; Salim.Lamrani@univ-reunion.fr
Página no Facebook: https://www.facebook.com/SalimLamraniOfficiel

[1]RTL, «La Chambre de commerce américaine souhaite une nouvelle relation USA-Cuba», 30 de maio de 2014 ; AFP, « La relation USA-Cuba doit changer maintenant, selon le président de la Chambre de commerce américaine », 30 de maio de 2014.
[2]The White House, « Barack Obama’s Speech: Charting a New Course of Era », 17 de dezembro de 2014. http://www.whitehouse.gov/issues/foreign-policy/cuba (site consultado em 17 de dezembro de 2014)
[3]Matt Beardmoredec, “How Travel to Cuba May Change”, The New York Times, 18 de dezenbri de 2014.http://www.nytimes.com/2014/12/19/travel/how-travel-to-cuba-may-change.html?_r=0



Assange: 'O serviço secreto francês tem muitas perguntas para responder'


Londres - A interpretação do massacre da Charlie Hebdo se transformou em um território em disputa. A liberdade de expressão e a relação com a minoria muçulmana, a dicotomia entre multiculturalismo à britânica ou integração secular à francesa, a luta antiterrorista e privacidade são alguns dos eixos do debate.

No Reino Unido, o diretor do MI5 Andrew Parker propôs uma nova lei antiterrorista que concede mais poderes de vigilância eletrônica aos serviços secretos. Um importante editor e historiador conservador, Mark Hastings, não hesitou em acusar como corresponsáveis do que aconteceu o fundador do Wikileaks Julian Assange e o ex-agente da CIA Edward Snowden. Da Embaixada do Equador em Londres, onde está há dois anos e meio esperando uma autorização para deixar o país, Julian Assange falou à Carta Maior.

Qual é sua interpretação do massacre da Charlie Hebdo?


Como editor, foi um fato extremamente triste que aconteceu com uma publicação que representa a grande tradição francesa da caricatura. Mas agora temos que olhar adiante e pensar o que ocorreu e qual deve ser a reação. É preciso entender que a cada dia acontece um massacre dessa magnitude no Iraque e em outros países do mundo árabe. E isto aconteceu graças aos esforços desestabilizadores dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França. A França participou do fornecimento de armas para a Síria, Líbia e da recolonização do Estado africano de Mali. Isto estimulou o ataque neste caso, usando um alvo fácil como a Charlie Hebdo. Mas a realidade é que o serviço secreto francês tem muitas perguntas para responder sobre o acontecido.

Acredita que houve um fracasso dos serviços secretos franceses?


É o que estão tentando esconder. Os serviços de segurança da França sabiam das atividades dos responsáveis pelo massacre e, no entanto, deixaram de vigiá-los. Por que os irmãos Kouachi, conhecidos por seus laços com extremistas, não estavam sob vigilância? Cherif Kouachi havia sido condenado por crimes terroristas. Longe de estar enviando mensagens criptografadas, eles se comunicaram centenas de vezes antes e durante os ataques com celulares comuns. Há muitas perguntas. Por exemplo, por que os escritórios da Charlie Hebdo não estavam mais protegidos dadas as duras críticas da revista ao Islã? Como os conhecidos jihadistas conseguiram armas semiautomáticas na França? Apresentaram os assassinos como supervilões para ocultar a própria incompetência dos serviços. A verdade é que os terroristas eram amadores bastante incompetentes que bateram o carro, deixaram suas cédulas de identidade à vista e coordenaram seus movimentos por telefone. Não era preciso uma vigilância massiva da internet para evitar este fato: era necessária uma vigilância específica.

Uma percepção bastante ampla é que você e o Wikileaks se opõem à vigilância eletrônica. Na verdade, você faz uma clara distinção entre vigilância massiva e vigilância com objetivos definidos.


A vigilância massiva é uma ameaça à democracia e à segurança da população, pois outorga um poder excessivo aos serviços secretos. O argumento para defendê-la é que assim se pode encontrar gente que não se conhecia de antemão. O que vemos, no caso de Paris, é que os protagonistas foram identificados. Deveria haver uma investigação profunda de como foram cometidos esses erros, apesar de minha experiência ser que isto não vá acontecer porque estes serviços são corruptos e são assim por serem secretos. A vigilância massiva não é gratuita e, neste sentido, é uma das causas do que aconteceu, porque restaram recursos e pessoal para o que teria de ter sido a vigilância específica contra uma ameaça terrorista.

Uma das reações mais virulentas na imprensa britânica foi a do historiador e jornalista Max Hastings que acusou você e Edward Snowden de responsabilidade nestes fatos. Hastings não está sozinho. Há muitas vozes que pedem que fechem ainda mais o certo sobre o Wikileaks. Percebe que o Wikileaks está ameaçado pela atual situação?


Há um ano que os setores vinculados a este modo de ver as coisas propõem um aumento da vigilância massiva e um corte das liberdades. Estão em retrocesso por todas as denúncias que houve sobre os excessos de espionagem cometidos pelos governos, inclusive com seus próprios aliados. O que estão tentando fazer é aproveitar esta situação para recuperar o território perdido. O Wikileaks publicou as caricaturas da Charlie Hebdo utilizadas como pretexto para o atentado, algo que não fizeram vários jornais como o Guardian ou o Times porque têm muito medo. Mas uma das coisas positivas que surgiram nos últimos dias é a defesa da liberdade de expressão. Digo isto apesar de, na manifestação de domingo, estarem presentes figuras que são os piores inimigos da liberdade de expressão, como Arábia Saudita e Turquia. Mas, por mais que estejam tentando aproveitar a situação, o Wikileaks funciona há bastante tempo e desenvolvemos técnicas para lidar com este tipo de ameaças. Não vão nos intimidar. Esperemos que outras mídias em nível mundial também não se deixem intimidar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Somos todos o quê?


Por Saul Leblon

O emblema totalizante, ‘somos todos Charlie’ teve curta unanimidade no ambiente trincado de uma Europa onde, de fato, não há lugar para todos serem a mesma coisa em parte alguma.

Os números da exclusão em marcha no continente são suficientes para esfarelar essas ‘uniões’ nascidas da emoção da tragédia,  como é o caso, mas que historicamente se mostram insuficientes para regenerar as partes de um  todo que já não se encaixava mais.

Como recompor o cristal da liberdade, da igualdade e da fraternidade, diante de uma Europa unificada pela lógica do  mal estar social?

Com políticas pública que hoje  irradiam chantagem, regressão , niilismo, intolerância  e medo diante do futuro rarefeito?

 Somos todos o quê?

É justo perguntar quando o Estado a serviço dos mercados  mastigou  todas as pontes para a construção de uma cidadania convergente e soberana.

A polêmica linha de humor do ‘Charlie Hebdo’  deve seu sucesso, em grande parte, justamente   à acentuação dessa rachadura em uma  chave religiosa.

Deve-se respeitar a sua liberdade. Mas a forma como escolheu exerce-la fez do jornal parte do estilhaçamento  que procurava  criticar;  tornou-se assim mais um referido do que  referência.

A Europa tem hoje 8 milhões de imigrantes sem papeis; 120 milhões de pobres e 27 milhões de desempregados.

Após seis anos de arrocho neoliberal, o desemprego e o esfarelamento do padrão de vida dos trabalhadores e da classe média –condensado em uma geração de jovens que dificilmente repetirá  a faixa de renda dos pais, turbinou a rejeição ao estrangeiro, criou o medo da  'islamização da sociedade', alimentou a extrema direita e liberou  a demência terrorista.

Não necessariamente nessa ordem, mas com essa octanagem abrangente.

 A imponente marcha em Paris neste domingo não escapou do liquidificador de nitroglicerina.

Seria irônico , não fosse trágico.

Na  comissão de frente da principal coluna da manifestação, que reuniu um milhão de pessoas,  ao lado do presidente François Hollande , e de Merkel, lá estava Benjamin Netanyahu.

Sim,  o premiê de Israel.

Ele que  acaba de se aliar à extrema direita para transformar o Estado israelense em um estado religioso.

Responsável por alguns dos mais impiedosos massacres do século XXI, contra populações civis encurraladas por Israel  na  Faixa de  Gaza, a presença de Netanyahu a engrossar o  ‘somos todos Charlie’ convida a pensar sobre o alcance das unanimidades.

É  um silogismo barato afirmar  que a recusa  ao bordão dominante endossa o abismo ensandecido  do terrorismo.

Num texto de 1911, ‘Porque os marxistas se opõem ao terrorismo individual’,  e quando ainda nem desconfiava que ele próprio seria uma vítima futura, León Trostsky  criticou exemplarmente aquilo que, nas suas palavras, ‘mesmo que obtenha "êxito" (e) crie confusão na classe dominante (...)  terá vida curta; o estado capitalista não é eliminado; o mecanismo permanece intacto e em funcionamento. Todavia, a desordem que  um atentado terrorista produz  nas fileiras da classe operária é muito mais profunda. Se para alcançar os objetivos basta armar-se com uma pistola, para que serve esforçar-se na luta de classes? Se um pouco de pólvora e um pedaço de chumbo bastam para perfurar a cabeça de um inimigo, que necessidade há de organizar a classe? Se tem sentido aterrorizar os altos funcionários com o ruído das explosões, que necessidade há de um partido?’, criticava o líder da Revolução de Outubro, banido e assassinado por Stálin, para concluir em seguida: ‘Para nós o terror individual é inadmissível precisamente porque apequena o papel das massas em sua própria consciência e (desvia)  seus olhos e esperanças para o grande vingador e libertador, que algum dia virá cumprir sua missão’.

Cento e quatro anos depois, o alerta ganha atualidade diante das medidas cogitadas após o massacre em Paris.

Os indefectíveis Le Pen, pai e filha, pedem, nada menos que a restauração da pena de morte, abolida em 1981.

A nostalgia da guilhotina é  só o primeiro degrau do patíbulo.

O endurecimento contra os imigrantes, na verdade,  já avançava em marcha batida antes do massacre da quarta-feira (07/01) .

Agora, porém, que  ‘somos todos Charlie’, quem irá detê-lo –se até Netanyahu  aderiu?

Ofuscados habilmente pelo ‘consenso’, os antecedentes da tormenta esticam o elástico de uma gigantesca armadilha histórica.

Desemprego com deflação e captura do Estado e da política pela alta finança.

 É disso que se trata a tragédia europeia, vista de corpo inteiro.

A zona do euro enfrenta deflação recessiva; a Itália tem desemprego recorde; Alemanha e França assistem a uma espiral de xenófobia; Grécia tem 59% da juventude fora do mercado; Portugal tem 500 mil desempregados e Espanha devastou sua rede de proteção social.

Assim por diante.

Foi preciso que um economista moderado, Thomas Piketty, coligisse uma enciclopédia estatística  do avanço rentista sobre a riqueza da sociedade para que o tema da desigualdade merecesse algum espaço –fugaz—  no debate econômico e midiático sobre a crise europeia.

E mesmo assim colateral às decisões da troika, que estala o relho no lombo da cidadania e exige ordem unida ao abismo.

É sobre essa base de rigidez que a  alavanca da tragédia move o curso da história.
Não Maomé, não Charlie Hebdo, não a juventude niilista.

Não os  filhos de imigrantes pobres , que se convertem  cada vez mais ao islamismo como ponto de fuga à meia cidadania da desordem neoliberal  que nada tem a lhes propor hoje.

E  não o fará amanhã também.

Entregue aos ajustes fiscais, na ressaca dos mercados após o fastígio neoliberal, a Europa é hoje um museu de lembranças do acolhimento humanitário e político, que a transformaria em legenda da civilização e da fraternidade.

Na Itália, sob o afável Berlusconi, o Estado elevou para seis meses o tempo que imigrantes ilegais podem ser detidos em ‘ centros especiais’ e autorizou a criação de falanges civis para “ajudar a polícia a combater o crime nas ruas”.


Na Grécia, onde as taxas de desemprego triplicaram sob o chicote de Frau Merkel, os integrantes do partido Aurora Dourada sequer dissimulam a inspiração nazista: sua faxina étnica avança contra árabes, africanos, ambulantes, ciganos e homossexuais.

‘Somos todos Charlie’?

As notícias contraditórias que chegam dos EUA, surfando em uma recuperação feita de empregos com salários aviltados, e da Europa sem Estado à altura para reagir, evidenciam a profundidade de uma desordem  que não cederá tão cedo, nem tão facilmente.

A consciência dessa longa travessia é um dado fundamental para renovar a ação política em nosso tempo.

Recuos e derrotas acumulados pela esquerda mundial desde os anos 70, sobretudo a colonização de seu arcabouço pelos interditos neoliberais, alargaram os vertedouros ao espraiamento de uma dominância financeira que  agora produz  manifestações mórbidas em todas as esferas da vida.

Quando a economia se avoca  um templo sagrado, dotado de leis próprias, revestido de esférica coerência endógena, avessa ao ruído das ruas, das urnas e das aspirações por cidadania plena, o que sobra à democracia?

A pauta dos mercados autorregulados revelou-se uma fraude.

Gigantesca.

Era o  fim da história, replicava o colunismo áulico.

Não era, mostrou setembro de 2008.

Pior que isso.

O sete de janeiro francês avisa que se a sociedade continuar apartada do seu destino, os próximos capítulos serão dramáticos.

No Brasil, os que incitavam o governo a jogar o país ao mar em 2008, retrucam que o custo de não tê-lo afogado na hora certa acarretou custos  insustentáveis.

E eles terão que ser pagos agora.

Na forma de um afogamento incondicional.

Recomenda-se vivamente beber a cota do dilúvio desdenhada em 2008 em uma talagada única.

Não há alternativa, diria Margareth Tatcher.

As escolhas intrínsecas a uma repactuação do desenvolvimento brasileiro, de fato, não são singelas.

Nada que se harmonize do dia para a noite.

Por isso, o crucial é erguer linhas de passagem, repactuar  metas,  ganhos, perdas, salvaguardas e prazos.

Mas há um requisito para isso: tirar a economia do altar sagrado da ortodoxia e expô-la ao debate democrático do qual participem todas as forças sociais.

Quando a mídia conservadora tenta tropicalizar  o bordão ‘somos todos Charlie’, seu objetivo mal disfarçado vai no sentido oposto.

Tenta-se  reduzir uma  tragédia ciclópica a um atentado à liberdade de expressão.

E de forma rudimentar desdobrar a comoção aqui em um veto ao projeto de regulação da mídia brasileira.

Para quê? Justamente para interditar o debate sobre o passo seguinte do desenvolvimento do país.

O apego da emissão conservadora à liberdade de expressão, como se sabe, é relativo.

No dia seguinte ao massacre em Paris, a Folha de São Paulo, por exemplo, dedicou 256 palavras,  uma nota de rodapé,  para tratar do caso do blogueiro saudita, Raif Baddawi.

Baddawi dirigia o fórum on-line ‘Liberais Sauditas Livres’;  foi condenado por isso a dez anos de prisão e  multa de US$ 260 mil.

Seu caso é uma referência do padrão de justiça que impera na democrática sociedade saudita, principal aliada dos EUA no mundo árabe, onde mulheres não podem dirigir sequer automóveis  e inexiste judiciário independente da vontade dos mandatários.

Além de dez anos de prisão, Baddawi também será punido com mil chibatadas por "insultar o Islã" – 50 por semana, durante 20 semanas.

A primeira cota foi aplicada na última 6ª feira.

Uma nota com 256 palavras foi tudo o que o liberal Baddawi obteve de um dos principais veículos de informação do país.

Compare-se com as cataratas de tinta, imagem e som dedicadas à blogueira  cubana Yoani Sánchez que, livre, leve e solta, viajando pelo mundo, mereceu da mesma Folha de SP mais de 90 mil  citações; 155 mil no Globo e 110 mil no Estadão.

É difícil imaginar algo do tipo ‘somos todos Baddawi’ alastrando-se pelo colunismo pátrio que dispensou às visitas de Yoani um tratamento de chefe de Estado.

São dois pesos e mil chibatadas.

Uma diferença sugestiva.

Que recomenda cautela com as unanimidades produzidas pela mesma fonte.

Aqui ou em Paris.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

China-América Latina, a aliança da próxima década


CELAC e China concretizaram novos planos com ampla visão estratégica em matéria econômica para aprofundar o desenvolvimento compartilhado nos próximos 10 anos.
A primeira jornada do fórum ministerial da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos [CELAC] com a China culminou nesta quinta-feira com a declaração de Pequim que acomoda um conjunto de estratégias e consensos alcançados pelo bloco econômico para a cooperação multilateral nos próximos 10 anos.
O encontro foi instalado nesta quarta-feira com o discurso do presidente da República Popular da China, Xi Jinping, quem destacou a importância de manter a cooperação entre os países latino-americanos  para aprofundar o desenvolvimento compartilhado.
“Chegou o momento oportuno para o aprofundamento das relações entre China e América Latina [...], os laços entre China e América latina são a necessidade de criar um destino compartilhado China-CELAC, para a consolidação, o desenvolvimento e a transformação dos povos”, enfatizou o mandatário chinês.
A China anunciou que investirá mais de 250 bilhões de dólares em 10 anos na América Latina e no Caribe, uma região pujante, com a qual estreitou laços na última década.
O chefe de Estado chinês enfatizou seu desejo de levar o comércio entre a China e os 33 países deste bloco a 500 bilhões de dólares em dez anos, como já anunciou durante seu giro pela região em julho passado.
Horas antes do fórum, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, considerou o encontro como uma façanha histórica e recordou que se abrem novos caminhos de cooperação para a região.  A China e a nação sul-americana firmaram oito acordos durante sua reunião bilateral nesta quarta-feira.
O enviado especial de teleSUR a China, Rolando Segura, informou que, com a declaração de Pequim, se elaborou uma nova estratégia de cooperação econômica e relembrou que China e Venezuela traçaram sua visão econômica com “mais de 400 projetos de desenvolvimento durante os últimos anos [...], a estratégia China-Venezuela tem um enfoque no desenvolvimento de projetos habitacionais, de educação e investimento social para melhorar a qualidade de vida dos venezuelanos”.
Segura anotou que a China financiou programas como Barrio Nuevo, Barrio Tricolor. “Se designou o ano de 2015 como o ano da mudança estrutural das nações, e se prevê desenvolver um fórum ministerial de ciência e tecnologia com a CELAC”, acrescentou o enviado especial de teleSUR a China.
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Com apoio de telesurtv.net


Entrevista com Néstor Kohan – Órfãos e sem Vaticanos


Fuente: ANNCOL.EU
M.P. y S.A.M.: Que papel jogam hoje em dia os meios alternativos de comunicação frente à dominação planetária do capital?
N.K.: Um papel fundamental. Vivemos uma ditadura midiática sem precedentes na história. Os meios massivos monopolizaram a um limite que teria sido inimaginável tão somente há meio século. As companhias de TV a cabo, por exemplo, variam o número de canais que oferecem.
A que eu tenho acesso na Argentina tem mais de 70 canais, porém somente em dois ou três se pode ver algo diferente...e, ademais, com limitações institucionais, porque estas escassas exceções dependem, por sua vez, de estados e de sua diplomacia externa. Em outras companhias há mais de 300 canais, no entanto, os alternativos são não mais que três ou quatro. A relação assimétrica é opressiva e massacrante. As páginas web alternativas existem, porém, sinceramente, devemos assumir sua marginalização extrema. Padecemos de um totalitarismo da informação e da comunicação massacrante, disfarçado de “pluralismo” e “democracia”. A “sociedade aberta” que Karl Popper e muitos outros de seu bando delinquente do pensamento oficial ocidental apregoavam durante a guerra fria é um mito e do pior nível.
M.P. e S.A.M.: Que opinas sobre o discurso do Presidente Obama frente às novas medidas em relação a Cuba? Se abre uma esperança?
N.K.: Nicolau Maquiavel, um jovem do meu bairro, costumava relembrar que os poderosos manejam com a raposa e o leão, com a astúcia e a violência, com o consenso e a repressão. Jamais abandonam nenhum dos meios de dominação. Todos os imperialismos e sistemas totalitários reprimiram e, ao mesmo tempo, tentaram criar consenso. Obama sorri e sorri, impassível, vendendo creme dental. Se disfarça de “bom policial” em relação a Cuba, ao mesmo tempo em que ameaça castigar duramente a Venezuela Bolivariana e a qualquer outro dissidente [externo ou interno] que o desafie. Promete erradicar definitivamente a tortura, porém termina reconhecendo que a tortura continua. Agora, chamam-na de “interrogatório forte”. Obtém o Prêmio Nobel da Paz, enquanto invade países, derroca governos populares, assassina líderes opositores, suborna, compra, intervém descaradamente em outras sociedades sem respeitar sua soberania, espia e vigia cada gesto cotidiano de seu próprio povo norte-americano como o faz com todos os demais povos do mundo. Alguns de seus próprios agentes [já repugnados] e alguns poucos de seus próprios intelectuais que não perderam a dignidade o denunciam publicamente. Desde Snowden até Assange e Chomsky.
Cada quem, então, é livre para oferecer a outra bochecha. Porém, nós também temos o direito e a possibilidade de não acreditar nele.
A nova política anunciada para a Revolução Cubana expressa um reconhecimento de fato de que os matadores do quarteirão, os gorilas do bairro, os gângsters e mafiosos do “mundo livre” não puderam subjugar o povo cubano, insubmisso e rebelde. Não há que perder isso de vista nem por um segundo. Todo nosso abraço a esse heroico povo que resistiu à potência mais poderosa, cínica, descarada e impiedosa do planeta. Todo nosso carinho e nosso reconhecimento. Todo nosso respeito.
Porém, suspeitamos que o Pentágono, os círculos do complexo militar-industrial, os grandes fabricantes e traficantes de armas da elite estadunidense, o Departamento de Estado e os polvos da oligarquia financeira estadunidense se propõem subjugar e engolir Cuba por outros meios. Não creem na paz, no diálogo nem no pluralismo. Mudaram tão somente um bispo por um cavalo, porém não abandonaram a intenção de dar xeque-mate. A estratégia continua sendo contrarrevolucionária e está destinada a controlar –numa situação de crise capitalista mundial e escassez de recursos naturais- todo o “quintal” em escala continental minando as defesas inimigas. Golpeando onde mais dói e atacando o lado mais frágil da revolução, sua economia. Quem queira acreditar no lobo, tem direito. Quem pretenda “fazer teoria”, legitimando uma situação de fato com grandes malabarismos verbais e reuniões doutrinárias sacadas da manga, que o faça. Por que não?
Os que amamos a vida e não queremos que o logo nos engula, também temos direito a usar a cabeça e a ter um pouquinho de memória. Adolf Hitler se deu ao luxo de fazer pactos de entendimento com a União Soviética. Foi para garantir a paz e respeitar a diversidade de sistemas sociais? Não, na sequência houve 20 milhões de mortos do povo soviético. O povo cubano e seu governo revolucionário estiveram meio século preparados e treinados para enfrentar, com o fuzil na mão e o olho na mira, quadra a quadra, casa a casa, uma possível e previsível invasão militar dos gringos. Não somente os militares. Cada cozinheira, cada professora, cada médico, cada pedreiro, cada motorista, sabia manejar sua arma e sabia onde tinha que postar-se para disparar contra o invasor militar imperialista se este punha sua bota suja sobre a ilha.
Estará esse povo preparado para resistir à invasão de dólares e artigos de consumo? Terão feito exercícios de apetrechamento para resistir a uma invasão de turistas com dinheiro, os disparos missilísticos de remessas milionárias, os ataques inesperados e noturnos dos investimentos de capitais, prostíbulos, cassinos, e a importação de todo um estilo de vida –onde o dinheiro manda e o ser humano obedece- do american way of life? Oxalá que sim, desejamos de todo coração! Por eles e elas, porém sobretudo por nós outros e nós outras. Se Cuba é deglutida e fagocitada pelo império, seria um golpe duríssimo no imaginário rebelde de Nuestra América e do Terceiro Mundo e nas esperança de nossos povos.
Porém, se Cuba não consegue resistir a este outro tipo de invasão [mais sutil, porém não menos agressiva], muito cuidado em acusá-los levianamente de “traição”. Se fazem isto é porque ficaram isolados, porque outras revoluções socialistas [anticapitalistas e anti-imperialistas] no continente não triunfaram. Nós também somos responsáveis pelos retrocessos eventuais que a transição ao socialismo na ilha poderia sofrer. Se tivéssemos triunfado contra nossas burguesias e seu patrão imperialista, hoje o cenário seria bem diferente.
M.P. y S.A.M.: Segundo reconheceram os presidentes de Cuba e dos EUA, o Papa Francisco jogou um papel central nesta nova relação. Se sente orgulhoso de que o novo Papa seja argentino?
N.K.: Não só não me sinto orgulhoso. Sinto muita vergonha. Este Papa é muito reacionário, que ninguém se engane. Vem cumprir a obra que Woytila começou girando pelos países do Leste europeu e apoiando a contrarrevolução na Nicarágua sandinista. Porque, naquela época, então elegeram um Papa polaco quando a Polônia sempre foi no concerto europeu de nações um país de segunda ou terceira linha, que nunca pôde ter sequer uma independência nacional que se preze de tal? Pois, porque, através do catolicismo tradicionalista polaco, se podia golpear duramente a esses governos burocráticos, impopulares, fragilizados por seus problemas sociais internos e pela carreira armamentista imposta por Reagan e Thatcher, ambos amigos de João Paulo II. Através da retórica oficial do catolicismo vaticano, hierárquico, tradicionalista e eurocêntrico, se dava cobertura “decente” à contra nicaraguense, financiada com o narcotráfico e com as armas sujas dos EUA.
Porque, 30 anos depois, os poderosos elegem um Papa latino-americano, quando todo o mundo sabe até o cansaço o eurocentrismo galopante que o Vaticano exerceu sempre, pra dentro e pra fora? Porque necessitavam pôr a Venezuela no caminho, dividir Cuba, subordinar o movimento campesino no Brasil [de forte tradição religiosa] e neutralizar a todo o movimento popular latino-americano, uma das reservas rebeldes em escala mundial potencialmente mais explosiva e “perigosa” para a geopolítica do quintal ianque.
O Papa Bergoglio-Francisco não vem libertar ninguém. Que ninguém acredite em suas gambetas à Garrincha [jogador de futebol do Brasil, que ameaçava ir para um lado e terminava indo para o outro] nem em suas meditadas guinadas de olho. Simplesmente, é um astuto jogador de truco [jogo de naipes argentino, onde ganha quem sabe mentir melhor]. Com seu tradicionalismo disfarçado de “renovador”, Bergoglio-Francisco vem modernizar, azeitar e renovar a dominação, espiritual e material, de nossos povos. Não só calou a boca de maneira escandalosa e vergonhosa em tempos sangrentos do general Videla [ainda que a posteriori pretendeu construir histórias honoráveis escassamente críveis para gente minimamente informada no terreno dos direitos humanos na Argentina].
Ademais, não tem nada a ver com a mensagem profética e rebelde das comunidades de base daquele rapaz barbudo de origem judia que andava a pé e com sandálias humildes enfrentando ao poderoso Império romano, questionando aos grandes mercadores do templo e denunciando o fetiche do dinheiro e do mercado, enquanto socializava e compartilhava o pão entre seus companheiros e suas companheiras. Bergoglio-Francisco, que eu saiba, não dissolveu o Banco Ambrosiano nem distribuiu as fortunas incalculáveis da Igreja Católica entre ninguém. Com dois ou três gestos intranscendentes, minimalistas e microscópicos, que não mudam uma estrutura hierárquica e sacerdotal de fundo [com milênios de história ao lado dos poderosos, desde as Cruzadas e a Inquisição, a caça de bruxas e Colombo até Hitler, Videla e Pinochet], Bergoglio vem pôr no caminho não só Cuba como também a todos os rebeldes latino-americanos e do Terceiro Mundo.
Devo confessar que o que mais me dói é ver alguns pensadores da teologia da libertação que eu respeitava e queria profundamente [continuo respeitando-os, ainda que me dói vê-los assim], numa atitude submissa e obediente, desfazendo e desterrando tudo o que se havia acumulado desde Frei Bartolomeu de las Casas até Camilo Torres. Enfim, a mensagem profética ressurgirá, não tenho nenhuma dúvida. Até o poder mais absoluto [militar, econômico ou simbólico] é passageiro e transitório na história. O poder do Vaticano, aparentemente hoje inexpugnável, não é uma exceção. As igrejas empresariais e televisivas [que compram cinemas milionários e caríssimos canais de televisão com dinheiro de ...?...] e a autoajuda não são tampouco nenhuma alternativa. O respeito autêntico pelas pessoas humanas e pela verdadeira espiritualidade está –tem que estar- mais além do mercado, do dinheiro e do capital. Continuo acreditando que a verdadeira espiritualidade virá com o socialismo como projeto integral, plural e revolucionário, onde crentes e ateus lutemos juntos, ombro a ombro, cotovelo a cotovelo, mão a mão, contra os grandes moinhos de vento do capital e suas instituições.
M.P. e S.A.M.: Neste novo contexto mundial, quais são as batalhas e os desafios das lutas dos povos na transformação da América Latina?
N.K.: Seguir resistindo! Não desmoralizar-se nem perder a bússola em meio a tormenta e a neblina. Agarrar-se com tenacidade, com obstinação, com convencimento e, por que não, com fé [como nos pedia José Carlos Mariátegui] à verdade histórica, aos projetos revolucionários culturais, sociais, integrais e radicais, à revolução mundial socialista. A confusão e a desmoralização são, se as avaliamos em termos de longa duração, passageiras. O poder dos capitalistas, ainda que hoje pareça inexpugnável, tem data de validade no curto prazo, como a maionese. Vivem para o dia a dia, arruinando o planeta em forma acelerada. Nosso projeto, por outro lado, é de longo prazo e longo fôlego. Não devemos retroceder. Não devemos nos entregar. Que as sereias continuem cantando e tentando seduzir, nós devemos seguir caminhando em busca da terra prometida de Moisés e tratando de encontra o lar comum [sem mercado nem exploração] que Ulisses perseguia, compartilhando o pão como pregava Jesus. No longo prazo, isso é o que perdura na história. Não se trata de que lado “há mais dinheiro”, senão que de que lado está o dever. Aos omissos, Deus os vomita. Os confundidos, os cansados, os que vacilam, os que nadam com a corrente do momento e se acomodam sempre onde o sol esquenta ou se penduram à onda de moda com a melhor cara de aniversário e caixinha feliz se perdem na poeira cinza, manchada e difusa da história. Espártaco, Tupac Amaru e Rosa Luxemburgo, por outro lado, seguem ao nosso lado... nítidos e em alto relevo, com dignidade e de pé. Quem se recorda hoje dos que vacilaram e se entregaram?
O movimento popular de Nuestra América deve –devemos- seguir lutando a partir de nossas próprias histórias e tradições, cada um a seu modo, manejando e preparando-se para todas as formas de luta, sem prender-se a nenhuma. Aprendendo de todas as armadilhas e manobras sujas com que assassinaram Emiliano Zapata e Augusto César Sandino, Martin Luther King e Malcom X.
M.P. e S.A.M.: Que papel jogou o marxismo nos últimos 30 anos na Argentina, desde que se retiraram os militares do general Videla e do almirante Massera até hoje?
N.K.: Nosso marxismo foi, primeiro, massacrado, aniquilado, queimado, nas pessoas, nos livros e nas produções culturais. Nosso marxismo não perdeu nenhum debate de ideias, fomos aniquilados e assassinados da forma mais perversa, que é algo completamente diferente. Depois da fogueira, da tortura, da violação, do aniquilamento e dos desaparecidos vieram as bolsas, os carguinhos politiqueiros, as editoriais prestigiosas, a cooptação. Porém, hoje há uma nova geração que ronda os 20 anos e que está em busca. Reaparecem, dispersos, porém reaparecem os ecos nunca apagados do todo, os sinais e símbolos da tradição insurgente e do marxismo rebelde. Algo novo está nascendo. Nosso modesto e microscópico papel é apoiar isso novo que nasce, tratar de orientar, brindar elementos para que essa nova geração faça seu caminho, construa sua experiência, despreze e desobedeça a voz do amo. E sobretudo se inteire de que a luta não parte de zero. Antes que todos nós nascêssemos e andássemos em fraldas ou sacando as melecas do nariz, já havia muita, porém muita gente lutando. Há que conhecê-los e conhecê-las. Há que estudá-los para poder aprender e recriar um novo imaginário rebelde, radical, insurgente e revolucionário, em escala nacional, continental e mundial. Sem memória e sem história, sem fortalecer nossa identidade e nossa cultura, estamos perdidos antes de começar.
M.P. e S.A.M.: Como visualiza ao marxismo latino-americano em escala continental?
N.K.: Muito melhor que há 20 anos! Há 20 anos, ninguém, nem os mais radicais se animavam a mencionar duas palavrinhas–chave: “socialismo” e “imperialismo”. Hoje são moeda corrente. Tudo está em discussão, porém o que está claro é que o imperialismo continua existindo, vigiando, controlando, violando a soberania de outros países e reforçando o domínio do capital onde quer que esteja, enquanto continua de maneira irracional e enlouquecida destruindo nosso planeta. Também está fora de discussão que o neoliberalismo não vai mais, que outro mundo é possível, e que esse mundo é e deve ser o socialismo. Qual socialismo? Isso é o que, pelo menos por enquanto, não está resolvido. Será socialismo com capitais privados, mercado generalizado, consumo desenfreado e competição entre as empresas ou será, pelo contrário, uma planificação socialista e participativa dos recursos sociais, ecológico, anti patriarcal, anti-imperialista e anticapitalista? É evidente que a disputa está aberta e o marxismo de Marx e de Che Guevara têm muitíssimo o que dizer a respeito... Ou é impensável hoje uma sociedade que não esteja regulada pelo mercado?
Causa inquietação e até um pouco de desgosto, pra não dizer vergonha alheia, ouvir ou ler apologias do mercado em mil tons, melodias e cores, realizadas em nome do socialismo. O modelo mercantil do “cálculo econômico”, contra o qual batalhou pacientemente Che Guevara nos anos ’60, hoje é um jogo de crianças ao lado das argumentações que circulam citando as autoridades mais dessemelhantes, desde Nikolai Bukharin a Deng Xiaoping, desde Charles Bettelheim a Alec Nove, entre muitos outros e outras. Um dos grandes desafios pendentes do marxismo do século XXI consiste em desmontar a falsa homologação de mercado e democracia. Para poder concretizá-lo, como mínimo, há que ESTUDAR. As palavras de ordem já não bastam. E, para decifrar os enigmas irresolutos, há que superar o divórcio entre um marxismo acadêmico [erudito, porém impotente e inoperante, que vibra e baila segundo a última música da academia parisiense ou nova-iorquina] e um saber militante abnegado, esforçado e sudorífero, porém que não estuda, não lê, não está informado e suplanta a falta de formação da militância de base com palavras de ordem superficiais ou com a importação acrítica ou ingênua do “modelo chinês”, do “modelo iugoslavo” ou qualquer outro ensaio de gabinete.
M.P. e S.A.M.: Caducaram as formas de luta radicais no novo contexto regional e mundial?
N.K.: Estou muito mal e muito pouco informado. Quase não vejo TV, nem ouço rádio, nem leio os jornais, nem vejo internet. Porém..., segundo as poucas notícias que chegam ao meu bairro e me contam meus vizinhos na quitanda, o Pentágono não se dissolveu. A CIA não aposentou ninguém. A NSA não enviou seus milhares de agentes a veranear e tomar umas bebidas. As forças armadas não desapareceram. A polícia se multiplica. As prisões não se transformaram em espaços para ir dançar e fazer festas. As leis “antiterroristas” não foram revogadas. Talvez tudo isto passou e eu não vi na TV, porém suspeito que não sucedeu. Então..., por que o movimento popular deve resignar-se à mansidão?
Há dados históricos inegáveis. Não podemos fazer como o avestruz que esconde a cabeça e simula não saber de nada. Nossos irmãos [porque não são só amigos, companheiros e camaradas, são nossos IRMÃOS com maiúsculas] de Cuba dissolveram o antigo Departamento de Libertação Nacional, depois denominado Departamento América, de onde atuavam Manuel Piñeiro Losada, popularmente conhecido como Barbarroja, junto com muitos amigos. Bem, têm todo o direito do mundo. Seguimos querendo, admirando e respeitando-os. Não julgamos. Não opinamos. Não abrimos a boca.
Porém, o resto do movimento rebelde, popular, insurgente e radical de Nuestra América, por que tem que se dissolver? Hoje há muito mais pobreza, exploração, desemprego e exclusão que nos anos ’60. Por que deveríamos renunciar à perspectiva, ao projeto, à estratégia da revolução se nossos inimigos continuam firmes sem abandonar suas posições? Tenho a sensação de que hoje já não temos nem pais nem avôs, nem Mecas nem Vaticanos ideológicos [utilizo agora estas expressões no sentido metafórico]. Estamos “órfãos”. Com toda a história nas costas, a qual reivindicamos com orgulho e com honra, sem renegar absolutamente nada de nada, porém já sem “estados guias” nem Vaticanos ideológicos. Nem Moscou, nem Pequim, nem Albânia, nem Havana, nem Paris. Perdão, não queremos ofender a ninguém, dizemos com todo o respeito do mundo. E quem queira aconselhar, que o faça, está em todo seu direito. Porém, nós simplesmente ouvimos, não obedecemos.
Hoje há novas potências “emergentes” [assim são chamadas nos noticiários] que podem, talvez, brindar apoio circunstancial aos inimigos de seus inimigos, porém nenhuma destas potências tem um projeto anticapitalista nem anti-imperialista sério. No melhor dos casos, têm disputas geoestratégicas e geopolíticas, porém de nenhum modo se propõem construir uma sociedade socialista ou comunista em escala planetária. De jeito nenhum! Não há que se confundir.
Se somos realistas, hoje o movimento popular pode contar com suas próprias forças. Devemos recriar o imaginário rebelde e revolucionário preparando-nos e mentalizando-nos para uma luta longa e difícil que não se resolverá dentro de seis meses. Aquele garoto de quem lhes falava, Nicolau Maquiavel, sustentava que lutar deste modo é muito mais difícil. Custa muitíssimo mais construir uma força própria sem muletas alheias. Porém, quando alguém consegue construí-la, se torna indestrutível, porque não se depende de ninguém.
M.P. e S.A.M.: Quais são, em tua opinião, as tarefas das novas gerações de jovens militantes em Nuestra América e no mundo? 
N.K.: Precisamente, essa é a principal tarefa para as novas gerações. Aprender do passado, apropriar-se de toda a história de luta, resistência, internacionalismo, heroísmo e abnegação; avaliar, conhecer, reconstruir, porém já sem Vaticanos. Necessitamos construir uma força popular e revolucionária de alcance, como mínimo, continental, que seja própria. Já sem aplicar “modelos” de lousa, nem o ataque súbito ao palácio de inverno, nem a longa marcha, nem o internacionalismo centrado unicamente em Paris e Bruxelas, nem o foco rural caribenho nem o sindicalismo economicista, nem a esquerda exclusivamente parlamentar e institucional. Pensar uma estratégia para os novos tempos, talvez inclusive combinando e articulando todas essas formas, sem prender-nos mecânica nem dogmaticamente a nenhuma delas de modo excludente, como se fosse um catecismo. Nossos inimigos manejam todas as formas de luta. Por que nós não temos direito a fazer algo análogo? Manejar e preparar-se, então, para todas as formas de luta! Essa é a tarefa da nova geração. Uma tarefa imensa, porém apaixonante.
E finalizaria dizendo a um rapaz ou uma moça de 20 anos: esta tarefa pendente, se se quer, não só é necessária e urgente, também é uma experiência “divertida” e “atraente”. Muito mais atraente e inspiradora que qualquer experiência medíocre e opaca que o capitalismo oferece para nossa vida cotidiana. O marxismo rebelde de Nuestra América e as aventuras e desventuras da revolução socialista hoje oferecem muitíssimo mais que 3 bolsas de droga, que 5 igrejas evangélicas, que 17 livros de autoajuda, que 35 joguinhos eletrônicos e que 8 caminhões de cerveja. Nós temos tarefas estratégicas que só podem ser realizadas pelos jovens e pelas jovens do século XXI. Temos toda a confiança do mundo de que poderão assumir semelhante tarefa. Se o conseguem, nós os seguiremos e os apoiaremos contentes e felizes.
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